Há os que devoram as palavras. Lêem-nas em grandes bocados, famintos. Têm medo de não se fartarem por perderem alguma. Exageram e, tenho certeza, não aproveitam todo o sabor que o remetente tentou lhes dar. É como um beijo não correspondido em que você (eu?) fica embaraçado com a outra pessoa de boca fechada.

Gosto de quem lê devagar, curtindo, sonhando junto, como quando escrevi.

2018

Tanta coisa aqui que eu comecei e não consigo terminar. Acho que já tem um mês ou quase isso que não termino de escrever nada para postar aqui. Nem consigo terminar a lição de casa que me deram (na verdade, não sei se não consegui ou se a porcaria que fiz era a esperada mesmo),

Acabo de remover o WhatsApp do telefone para não receber mais votos automáticos de ano novo das pessoas que não suporto, mandei três (pelo Facebook) para pessoas que não posso deixar que pensem que as esqueci, tomei quase uma garrafa de moscatel do Vêneto (pra quem gosta, deve ser bom), briguei com a mulher e desci para fumar um Cohiba e tentar postar algo. Nisso chegou 2018. Agora estou aqui no quinta, a ponta do Espigão, fumando (aliás, este charuto me deu uma saudade de meu avô) enquanto lá pela minha terra estouram estas porcarias de fogos.

É, parece que 2017 foi melhor que os anteriores.

Wonder

You were wearing that helmet all the time.

Wonder (2017) - Film PosterHá algum tempo atrás, eu percebi que é complicado manter mais de um blog e decidi juntá-los todos num só. Depois achei os posts sobre os filmes que eu assisto são quase todos sem sentido. Além de não conseguir tempo suficiente para escrever no mesmo ritmo em que os assisto, a maioria dos filmes não tem nada de especial e muitos, senão a própria maioria, são ruins mesmo. Logo começou a crescer o backlog desse blog, que aumentou as já grandes filas dos outros, apareceram os posts repetitivos e, por fim, vazios. Graças a D”s, descobri o letterboxd, que é um jeito mais bacana de logar o que assisto e opinar só quando acho que vale a pena e que os milicos da internet não vão me encher o saco (motivo de eu ter tentado e largado do filmow).

Apaguei os posts de cinema, exceto alguns em que o filme é totalmente secundário. Apaguei também os bobos de uma linha, sem conteúdo, e deixei este blog só para coisas pessoais. Tento manter a frequência agora em um post por semana (o ritmo de um por dia, de alguns anos atrás, me consumia muito).

Mas, e olha que por diversos motivos eu dificuldade em prestar atenção a este filme (por não parar de pensar nos amigos, na vida, na família, no trabalho, na última sessão de terapia, e também na próxima) e de tê-lo achado apelativo, comum e outras coisas, deve haver algo de realmente especial nesse filme para que eu chorasse literalmente do início ao fim. Então, lá vai o post dele.

I forgot that I might see So many beautiful things. I forgot that I might need to find out what life could bring.

Eu queria mesmo ter algo de novo para dizer, mas tudo já foi dito várias vezes. Não há novidade nenhuma da primeira linha já escrita até a última que ainda vou escrever. Eu procuro, penso, imagino, mas a vida continua este lenga-lenga repetitivo e sem sentido.

E se tudo já foi dito, suspeito que o que falte seja ouvir…

E então…

Você acorda no meio da madrugada, se é que por pouco tempo que fosse tenha conseguido pegar no sono, pisca os olhos arregalados, presta atenção na luz de faróis que entra pelas frestas da persiana e corre pelas paredes, pelo armário e pelo teto, preocupado em não perder a hora de sair para o trabalho hoje e inquieto, sem saber, se terá de se preocupar em não perder a hora nos próximos dias. Se já fosse de manhã, esquentaria água para passar um café e se sentar com o copo de massa de tomate cheio dele, bem adoçado e quente, na soleira da porta, olhando as crianças passarem no caminho para a escola. Como ainda não é, senta na cama mesmo, pega o telefone e procura na internet vídeos usando palavras usando palavras que não tem coragem de deixar sua família ou amigos saberem que lhe excitam.

Fica no trabalho na segunda-feira à noite sozinho, sem coragem de procurar se há mais alguém como você que não tenha um compromisso ou um motivo para voltar para casa no dia mais odiado da semana. Repassa o status de tudo o que os colegas tem atrasado ou pendente e também de tudo com que deviam se preocupar. Em ter para quem comentar, esbraveja para si mesmos que são um bando de vagabundos e incompetentes e envia vários e-mails cobrando e chamando a atenção de todos para coisas que você finge serem da sua conta. O chefe já está em casa, mas daí a alguns meses o elogiará pela compromisso com a empresa.

Mas, ainda no dia seguinte, frustrado com mal-humor desse mesmo chefe e com os colegas que, em vez de trabalhar, falam de futebol, sai para fumar cinco ou seis vezes. Olha os carros passarem na rua pensando em como esse pessoal pode estar passeando em pleno horário comercial. Olha também todas as mulheres que passam e não sejam feias, surpreso com o pensamento de que é possível que todas tenham vida sexual. Não consegue imaginar que sejam todas elas capazes de fazer o que, sabe-se, todo adulto é capaz. Surpreende-s ainda ao pensar que o mais provável é que a maioria realmente faça e que muitas delas façam inclusive as coisas que ele nunca fez. Bafora a fumaça como se ela fosse vapor de panela de pressão que foge pela válvula da tampa enquanto o feijão cozinha. Olha a fumaça se dispersar pensando se quem o vê ali consegue também imaginar o que ou deixa de fazer e acreditar ou duvidar disso também.

Na sexta-feira, depois do chope com os colegas que xingou na segunda, quando todos se dispersam para cuidar das próprias vidas, vai dali para outro bar, perto da zona esse. Pede algo que lhe parece forte e distinto. Senta-se ao balcão e não para de olhar para os lados, para as mesas, para o pessoal que fuma na calçada. Procura mais alguém que também não tenha nada para fazer. Não encontra. Dois bêbados noutros bancos ao balcão e uma meia dúzia que fuma na calçada gritando e já sem coordenação para encher o próprio copo lhe incomodam e dão pena. Pede mais uma dose, mais outra. Fala consigo mesmo sobre o que pensa de todo mundo e, por fim, já chutando o balde, de saco cheio de tudo, o que pensa de si. Percebe que é mais um dos bêbados do balcão e imagina que, patético, apenas incomode e lhe tenham pena. Levanta o copo para matá-lo, mas bebe devagar olhando o círculo molhado que ele deixa no balcão.

Pêlo de Gato

“Pêlo de gato!”

Eu estava distraído com a cabeça deitada sobre meu braço, tentando fugir do tédio da aula repetida de química (o professor repetia as aulas até achar que os alunos haviam aprendido a lição). O professor disse disse alto a frase, passando a mão por boa parte do comprimento do cabelo da galega, para chamar a atenção geral da classe para ela que, provavelmente, estava de novo dormindo ou distraída desenhando. Filho da mãe!

Nessa época, eu costumava me sentar atrás dela e, embora passasse a aula inteira olhando a garota, sempre me contive de tocar-lá, fazer carinho ou coisa que pudesse ser tomada como ousadia ridícula. Parece estranho, mas ser um garoto feio era assim. A gente se acostumava a saber que não devia tomar liberdade com as garotas bonitas. E a galega era uma. Portuguesa, baixinha, loira (e ser loira na periferia chamava muito a atenção), branquela, quadril largo. Não se levava a sério mulher que não tivesse o quadril largo. Foi a primeira garota que eu conheci que malhava em academia. Não para ter o corpo bombado como é moda agora. O seu corpo era bonito mas normal. Sem secura, sem aqueles músculos artificialmente grandes e rígidos. Tinha suas poucas gordurinhas no lugar certo. Principalmente nas bochechas.

Sentava-se à minha frente e eu passava boa parte da aula tentando olhar-lhe o pescoço e os ombros por baixo de tanto cabelo. O cabelo grande e volumoso chegava ao meio da bunda. Nos dias mais ousados, quando ela se debruçava na mesa e a camiseta subia, espiava espiava sua cintura entre a barra da camiseta e o começo da saia. Mas para isso, eu tinha de esticar muito os olhos e me debruçar um pouco. Era arriscado, ficava numa posição meio ridícula que denunciava aos outros a minha curiosidade. Ela me flagrou umas duas vezes e reagiu rindo encabulada como se fosse ela a fazer alguma besteira.

A provocação dele tinha motivo (outro além de se engraçar com a aluna bonita). Elastava realmente dormindo, cabeça baixa, olhos nos rabiscos da mesa. Acordou quando percebeu que riam todos do inesperado do professor abusado. Encabulada, sentou-se de lado espalhando a cara de sono e virou-se para mim com o sorriso de quem sabe que está com a cara amassada e tenta ver graça em si mesma para dissimular a vergonha. Esse sorriso pareceu-me alegre. Normalmente seu sorriso parecia triste, melancólico, desanimado, eu nunca entendi porquê. Era como se, enquanto o abria, percebesse que os outros não entendiam seu motivo para sorrir e se envergonhasse dele. Era comum seus sorrisos durarem muito pouco e logo terminarem numa expressão vazia, lábios abertos, olhos enxergando bem longe, fora da sala. Então ela esquecia do assunto da conversa e, às vezes, parecia se esquecer até de onde estava, como sonâmbulo que acorda fora da cama.

“Preciso cortar meu cabelo. E muito comprido.” Enrolando-o e esticando como se fosse um rabo de cavalo. E depois, batendo as mãos nas pernas e bufando com expressão de saco cheio: “Chama a atenção.” Chamava mesmo, acho que não por ser comprido, mas pelo volume. Denso e muito cacheado. 

Eu não soube o que dizer. Nunca soube o que dizer. Até hoje nunca sei. Se digo que não precisa cortar, estou errado porque discordo dela. Se digo que precisa, estou errado porque ela vai assumir que não gosto de seu cabelo. Não falei nada e, depois, me pareceu ser o mais errado. Podia ter-lhe dito que se o cortasse, eu conseguiria ver seus ombros, talvez também visse melhor suas bochechas. Será que ela estava de brincos? Podia pedir para vê-los. Ela fez cara de brava por eu me abster de descobrir a resposta que ela queria. Aproveitou a caneta que tinha na mão e escreveu no canto de meu caderno, meio de lado, a primeira sílaba de seu nome. Enfeitou com um coração sobre a segunda letra, que ficou parecida com uma vela acessa.

Seu braço deitado na minha mesa para escrever. Se, ao invés do cabelo, ela tivesse falado do braço, eu talvez soubesse o que dizer. Que não mexesse nele, que parecia quente e macio, e que, quando ela se virava assim, me dava vontade de usá-lo de travesseiro para sentar a cabeça e pensar direito em algo para dizer sobre seus cabelos.

Sorriu de novo, feliz por eu não brigar por sua arte. Minha reação foi só olhá-la e ela escondeu, de novo, o sorriso. Percebeu que eu estava triste por algo que me disse antes da aula e ficou também.

“Se você quer cortar o cabelo, corta.” Isso foi o máximo de interação verbal que eu consegui. Podia ter elogiado, mas não, só concordei com que mexesse no que lhe incomodava, como se me incomodasse também.

“Meu pai não deixa. Na minha igreja, mulher não pode cortar o cabelo.” Ela tinha se convertido pouco antes de trocar de escola e nos conhecermos. Imposição da pai que achou conveniente culpar sua antiga religião por seus próprios defeitos. A irmã pouco mais velha que ela não se converteu e o pai a convidou a se casar logo para não morar mais com eles. A galega criou medo de contrariá-lo também.

Além do cabelão que nunca cortava, usava sempre a mesma saia (ou será que tinha varias iguais?) de jeans azul, igual às outras garotas de sua igreja. Nós as dintingüiamos assim. Mas diferente das outras, que ficaram bravas, quando a escola adotou calças (do mesmo jeans) no uniforme obrigatório de todos os alunos, meninas ou meninas, ela ficou feliz como criança que ganha brinquedo.

“Você gosta desse…?” Fingi não me lembrar do nome. Ela completou a frase, talvez para me lembrar, talvez para me mostrar que era infantil fingir. “Meu pai disse que não posso namorar ninguém de fora da igreja. Ela é pequena, não dá pra escolher muito. Melhor ficar logo mesmo com ele que ao menos ele é bonito.”