Curupira

Televisão era uma coisa muito séria em nossas vidas de crianças. A mãe dizia que era culpa do avô. Funcionário mais antigo da Phillips na época, ele ganhou uma das primeira televisões logo que a companhia as começou a fabricar aqui no Brasil nos anos 50. O aparelho, uma caixa grande de madeira envernizada com tela grande de tubo tinha número de série 0004. O avô dizia que as três primeira tinham sido presentes para o presidente, para o governador e para o prefeito, e a quarta para ele. O avô, hoje eu sei, era paieiro mas eu nunca deixei de acreditar na história. Eu usei esse aparelho até meados dos anos 90, quando a avó faleceu e doamos para os franciscanos o que havia em sua casa. A televisão foi junto.

À tarde, nós tínhamos uma rotina de fazer lição, brincar e tomar café, que eu, orgulhoso, requentava, com leite, que eu também fervia, e pão com margarina, que chamávamos de manteiga. Depois do café, era a hora da televisão do fim dar tarde. Os programas tinham uma seqüência da qual já não me recordo direito. Era algo como: Bambalalão (no 2), Sítio do Pica-Pau Amarelo (no 5) e a Feiticeira (no 13). Depois vinham as novelas, enquanto estudávamos mais, o Jornal e mais uma novela. Jantávamos durante o jornal porque a mãe não gosta “de ver essas tragédias”.

historiadositiodopicapauamarelo-140405134912-phpapp02-thumbnail-4.jpgDos programas todos, gostávamos mais do Bambalalão, que depois descobrir que era filmado ao lado da minha faculdade, por atores do teatro da Taib. Do Sítio também gostávamos muito. O resto era para preencher o tempo já escuro antes de dormir.

Eu me confundia muito com o Marquês de Rabicó. Aliás, ele era quem me confundia. Em alguns episódios, era um ator com maquiagem, noutros um fantasiado que parecia uma bola amarela de pilates, acho que tinha mais um que parecia cofrinho. Eu nunca os reconhecia. As outras personagens, eu, mesmo pequeno, reconhecia todas: o Saci, a Cuca, o Cacareco. Até a Emília, que acho que teve mais de uma atriz.

A única, única, personagem do Sítio que eu nunca nem vi foi o Curupira.

Não sei como começou isso, mas sempre que anunciavam o Curupira nos créditos iniciais, ou quando tocava seu tema, ou quando queriam se divertir às minhas custas, os irmãos se viravam para mim desesperados: “O Curupira! Se esconde, rápido!”

O lugar para me esconder eu já tinha certo. Era a caixa onde guardava meus gibis. Era uma caixa muito grande de papelão, encostada na quina da sala de onde não se via a televisão. Ficava deitada como uma casinha de cachorro com a abertura virada para a janela, para deixar a luz entrar. Os gibis, eu os deixava empilhados como se fossem camadas de tijolos de suas paredes. Para as horas de bode, ou para as e ameaça de Curupira, tinha uma lanterna e um cobertor velho, grosso, que eu usava como porta para me isolar do mundo de fora.

Fechado ali, dava para imaginar, só imaginar, os fantasmas, bruxas, demônios, e curupiras voando em círculos do lado de fora, sitiando-me como urubus aguardando a vulnerabilidade da presa.

Meus irmãos fingiam preocupação e querer ajudar. Se eu puxava para o lado uma pontinha do cobertor para perguntar se podia sair, eles corriam, como quem acode, “Não, não, o curupira.” “Agora pode.” E então, para meu desespero: “Entra de novo. Ele voltou.” Eu rapidinho entrava e me encolhia.

huge.10.53900Ficava de costas para a saída. É engraçado, bobo, pensando bem agora. É como se as costas não fossem parte de mim. Como se eu fosse apenas minha frente, o que eu conseguia ver de mim mesmo. E fazia igual a um tatu enroladinho em sua toca, oferecendo ao desconhecido sua carapaça resistente. Se pudesse cavaria mais fundo me beco sem saída, juntaria mais gibis para estreitar o espaço. O cheiro do papelão da caixa e do papel envelhecido dos gibis faziam-me sentir entre amigos. Que assim fosse impossível de algo dar a volta em mim por algum vão e mostrar-se a meus olhos.

Não tinha medo do escuro, como seria de se esperar de uma criança. Muito pelo contrário. Não acendia a lanterna porque meu medo era de que algo pudesse me aparecer à frente e eu não o visse.

Enterrado em minha caixa, no beco sem saída que construí, com calor e as costas doendo de ficar encolhido, estou acomodado. Tranqüilo de que nada desconhecido me surpreenda. Posso ficar ali o resto da vida. O resto dos tempos. Seria enterrado ali.

Talvez essa caixa fosse um dia meu caixão.

Fosse-me dada a escolha, acho que concordaria.

Bebel

A Bebel era amiga da Bibi. Essa é a coisa de que melhor me lembro sobre ela dos tempos da escola. A Bibi hoje é professora de português no interior. Já lhe mostrei algumas coisas que escrevi para cá sem, no entanto, lhe dizer onde postaria.

Lá pela quinta-série, elas se sentavam nas duas carteiras atrás de mim, na fileira encostada à parede das janelas que davam para as árvores entre as quais ajudamos a plantar a horta da escola. Essas janelas era na verdade vitrôs que começavam a mais ou menos um metro de altura e subiam até o teto da escola. Um ao lado do outro, muito próximos, davam a volta em todo o prédio sem respeitar as paredes mal-feitas que separavam as salas de aula.

Muito próximas também, talvez inseparáveis como BFFs (como diriam hoje), eram a Bebel e a Bibi. Não me lembro de muitas vezes ter visto uma sem a outra. Não se sentavam sempre na mesma posição e não me lembro mesmo se havia um padrão sobre como decidiam a cada dia quem se sentaria atrás de mim e quem ficaria na outra mais atrás. Foi meu amigo da frente quem lhes apelidou. Chamáva-lhes gaguejando, imitando voz de criança pequena que tivesse dificuldade para falar seus nomes.

Foi assim também que a Bebel, preta alta, muito bonita e simpática, apesar do constante rosto triste, e que sempre usava tiara forçando o cabelo para trás, me apelidou de Xelande. Num dia em que era ela atrás de mim, sentados tortos, de costas para a janela, como se estivéssemos lado a lado em poltrona de cinema, fingiu se confundir com meu nome e, percebendo que sorri, nunca mais me chamou por ele. Xelande ficou por anos. Muitos anos.

Dois ou três depois de já não estudarmos mais juntos, no caminho para minha escola, vi uma garota de corpo maravilhoso à minha frente. Uns vinte metros à minha frente. Por uns três quarteirões, me admirei dela, pensando em como é possível tentar puxar conversa com uma mulher tão bonita. Em frente à prefeitura, ela teve de esperar o semáforo e eu a alcancei. Parei à seu lado direito sem lhe olhar, acanhado, o pescoço imobilizado olhando para a luz verde que não queria passar a vermelha (naquele tempo, nem todos os semáforos tinham ainda o amarelo).

Me assustei um pouco quando a garota maravilhosa me falou surpresa: “Xelande!”

Pêlo de Gato

“Pêlo de gato!”

Eu estava distraído com a cabeça deitada sobre meu braço, tentando fugir do tédio da aula repetida de química (o professor repetia as aulas até achar que os alunos haviam aprendido a lição). O professor disse disse alto a frase, passando a mão por boa parte do comprimento do cabelo da galega, para chamar a atenção geral da classe para ela que, provavelmente, estava de novo dormindo ou distraída desenhando. Filho da mãe!

Nessa época, eu costumava me sentar atrás dela e, embora passasse a aula inteira olhando a garota, sempre me contive de tocar-lá, fazer carinho ou coisa que pudesse ser tomada como ousadia ridícula. Parece estranho, mas ser um garoto feio era assim. A gente se acostumava a saber que não devia tomar liberdade com as garotas bonitas. E a galega era uma. Portuguesa, baixinha, loira (e ser loira na periferia chamava muito a atenção), branquela, quadril largo. Não se levava a sério mulher que não tivesse o quadril largo. Foi a primeira garota que eu conheci que malhava em academia. Não para ter o corpo bombado como é moda agora. O seu corpo era bonito mas normal. Sem secura, sem aqueles músculos artificialmente grandes e rígidos. Tinha suas poucas gordurinhas no lugar certo. Principalmente nas bochechas.

Sentava-se à minha frente e eu passava boa parte da aula tentando olhar-lhe o pescoço e os ombros por baixo de tanto cabelo. O cabelo grande e volumoso chegava ao meio da bunda. Nos dias mais ousados, quando ela se debruçava na mesa e a camiseta subia, espiava espiava sua cintura entre a barra da camiseta e o começo da saia. Mas para isso, eu tinha de esticar muito os olhos e me debruçar um pouco. Era arriscado, ficava numa posição meio ridícula que denunciava aos outros a minha curiosidade. Ela me flagrou umas duas vezes e reagiu rindo encabulada como se fosse ela a fazer alguma besteira.

A provocação dele tinha motivo (outro além de se engraçar com a aluna bonita). Elastava realmente dormindo, cabeça baixa, olhos nos rabiscos da mesa. Acordou quando percebeu que riam todos do inesperado do professor abusado. Encabulada, sentou-se de lado espalhando a cara de sono e virou-se para mim com o sorriso de quem sabe que está com a cara amassada e tenta ver graça em si mesma para dissimular a vergonha. Esse sorriso pareceu-me alegre. Normalmente seu sorriso parecia triste, melancólico, desanimado, eu nunca entendi porquê. Era como se, enquanto o abria, percebesse que os outros não entendiam seu motivo para sorrir e se envergonhasse dele. Era comum seus sorrisos durarem muito pouco e logo terminarem numa expressão vazia, lábios abertos, olhos enxergando bem longe, fora da sala. Então ela esquecia do assunto da conversa e, às vezes, parecia se esquecer até de onde estava, como sonâmbulo que acorda fora da cama.

“Preciso cortar meu cabelo. E muito comprido.” Enrolando-o e esticando como se fosse um rabo de cavalo. E depois, batendo as mãos nas pernas e bufando com expressão de saco cheio: “Chama a atenção.” Chamava mesmo, acho que não por ser comprido, mas pelo volume. Denso e muito cacheado. 

Eu não soube o que dizer. Nunca soube o que dizer. Até hoje nunca sei. Se digo que não precisa cortar, estou errado porque discordo dela. Se digo que precisa, estou errado porque ela vai assumir que não gosto de seu cabelo. Não falei nada e, depois, me pareceu ser o mais errado. Podia ter-lhe dito que se o cortasse, eu conseguiria ver seus ombros, talvez também visse melhor suas bochechas. Será que ela estava de brincos? Podia pedir para vê-los. Ela fez cara de brava por eu me abster de descobrir a resposta que ela queria. Aproveitou a caneta que tinha na mão e escreveu no canto de meu caderno, meio de lado, a primeira sílaba de seu nome. Enfeitou com um coração sobre a segunda letra, que ficou parecida com uma vela acessa.

Seu braço deitado na minha mesa para escrever. Se, ao invés do cabelo, ela tivesse falado do braço, eu talvez soubesse o que dizer. Que não mexesse nele, que parecia quente e macio, e que, quando ela se virava assim, me dava vontade de usá-lo de travesseiro para sentar a cabeça e pensar direito em algo para dizer sobre seus cabelos.

Sorriu de novo, feliz por eu não brigar por sua arte. Minha reação foi só olhá-la e ela escondeu, de novo, o sorriso. Percebeu que eu estava triste por algo que me disse antes da aula e ficou também.

“Se você quer cortar o cabelo, corta.” Isso foi o máximo de interação verbal que eu consegui. Podia ter elogiado, mas não, só concordei com que mexesse no que lhe incomodava, como se me incomodasse também.

“Meu pai não deixa. Na minha igreja, mulher não pode cortar o cabelo.” Ela tinha se convertido pouco antes de trocar de escola e nos conhecermos. Imposição da pai que achou conveniente culpar sua antiga religião por seus próprios defeitos. A irmã pouco mais velha que ela não se converteu e o pai a convidou a se casar logo para não morar mais com eles. A galega criou medo de contrariá-lo também.

Além do cabelão que nunca cortava, usava sempre a mesma saia (ou será que tinha varias iguais?) de jeans azul, igual às outras garotas de sua igreja. Nós as dintingüiamos assim. Mas diferente das outras, que ficaram bravas, quando a escola adotou calças (do mesmo jeans) no uniforme obrigatório de todos os alunos, meninas ou meninas, ela ficou feliz como criança que ganha brinquedo.

“Você gosta desse…?” Fingi não me lembrar do nome. Ela completou a frase, talvez para me lembrar, talvez para me mostrar que era infantil fingir. “Meu pai disse que não posso namorar ninguém de fora da igreja. Ela é pequena, não dá pra escolher muito. Melhor ficar logo mesmo com ele que ao menos ele é bonito.”

está difícil

Acho que cansei-me, e talvez já isso seja irremediável, de escrever neste tablet. A ideia de comprá-lo há uns três ou quatro anos atrás, para a praticidade de escrever em qualquer lugar, foi boa. Mas hoje, cada vez que o destravo, logo às primeiras letras digitadas, desanima-me lembrar de quanto tempo demoro a escrever e de quanta coisa gostaria de escrever. É até agradável imaginar que penso muito rápido e que sou criativo demais. Infelizmente, não é esse o caso, absolutamente. Sempre escrevi devagar. Mesmo à lápis, na escola, naquele papel pautado quadrado com dois furos na margem. O chamávamos “folha de linguagem”. Um nom que, pensando bem, não faz muito sentido, tirando que as professoras mais antigas chamavam as aulas de português do primário, na verdade aulas de alfabetização, “Aulas de Linguagem”. Tínhamos até cadernos etiquetados como “Caderno de Linguagem”. Eram onde escrevíamos os ditados, copiávamos os textos da cartilha e, no primeiro anos, repetíamos por linha e linhas inteiras, página e paginas inteiras, cada letra, em maiúscula e em minúscula, até lhe decorarmos o jeito para, ao escrever, não ter de pensar na mecânica do lápis e da mão.

Nesse tempo, eu já escrevia devagar. O movimento da mão sempre foi lento, com cuidado para ficar legível. Mas também, eu apertava muito o lápis de encontro ao papel e os dedos de encontro ao lápis. O pulso logo doía, a ligação entre fãs duas ultimas falanges do indicador também. Numa redação de vinte linhas para a Dona Terezinha, isso não chega a ser grande coisa. Terminada, era só chacoalhar um pouco a mão e descansa-lá por alguns minutos até o recreio. Hoje as coisa que quero escreve são mais longas e, se é verdade que a mão está mais treinada, também é que corrigi-las já torna impossível de ser feito no papel com lápis e borracha. Imagine, apagar e reescrever meia página cada vez que percebo que queria por mais um parágrafo, contar algo mais, ente isto e aquilo.

O digital foi um ganho nisso. Muito mais fácil de corrigir (e, cá entre nós, parece-me que também é mais fácil de errar). Muito menos cansativo do que o lápis e o papel. Mais rápido até, embora eu continue escrevendo muito devagar.

O problema são meus rascunhos que crescem e crescem. Multiplicação de anotações, de ideias, histórias, frases soltas e citações. Coisas sobr as quais quero escrever, mesmo que não sejam do interesse de mais ninguém. Cada vez que destravo o tablet e penso no quanto demoro a escrever cada uma delas, desanimo e pego-me pensando em algo que consiga escrever no tempo que tenho. Nada é possível de escrever no tempo que tenho. Tudo, ao final, me parece igual, repetitivo e incompleto. Não consigo imaginar o que era para Dona Terezinha ler quarenta redações seguidas entituladas “Minhas Férias”. Todas escritas sobre o mesmo mês passado em casa assistindo à programação da Globo. Sessão da Tarde. Festival Trapalhões. Salvos os dois ou três que diziam ter passado um fim de semana na praia.

Dona Therezinha tinha paciência para ler e corrigir. Era uma boa professora. Eu já não tenho a mesma para escrever as casas que invento enquanto penso em tantas outras que poderia inventar, sem ao menos saber se alguma delas prestaria.

Continuo escrevendo assim, só o que consigo, por falta de uma ordem nesta minha cabeça atormentada.

XXX

A professora de redação pediu-nos uma descrição. Eu não entendo o sentido de se redigir uma descrição. Ela ensinou já, e ensinar é muita pretenção, pois qualquer um que para para pensar nisso logo percebe e, se não percebesse, também não lhe faz falta não saber, que há três tipos de redação: a narração, a dissertação e a descrição. A coisa é muito simples de se explicar. Narração é a redação de verdade, você conta uma história. Dissertação é aquela chatice de quando você tem de explicar algo. É chato, mas eu entendo, a gente sempre tem de fazer. Então precisa praticar. É para isso que o cursinho tem aula de redação. Dissertação são quarenta ou cinquenta linhas enrolando sobre uma coisa. Ficar procurando o que falar sobre ela para os outros saberem como é.

Descrever o que é descrição, dá para fazer em uma única linha: “é chato é inútil”. Ninguém gosta de ler, não cai no vestibular, dá trabalho para fazer e… Meu Deus! Por que ela inventou isso? Não podia pedir outra coisa? Não fosse lá tão bonita, eu já teria saído da sala, procurar o que fazer no jardim, trocar ideia com alguém eu estivesse fumando ou agitando rolê na portaria. Como é, não posso decepcionar, estou condenado a perder tempo com isso nas duas horas semanais que tenho para vê-la. Não posso decepcionar.

Ela sempre elogia minhas redações, acho que mesmo quando são um lixo. Quantas eu já fiz este ano? Duas por semana. Isso deve dar quase vinte. Acho que só duas me devolveu sem algum recado à margem. Logo na segunda aula já foi assim. Entreguei duas redações. A da primeira aula, que ela mandou fazer em casa porque demorou muito se apresentando e explicando as noções preliminares, e a da segunda que fizemos na classe depois de falar sobe vícios de linguagem e enquanto ela lia um livro pequeno de capa dura marrom encardida, desses que avó tem na estante. Que avós tinham na estante porque, hoje em dia, nem as avós tem estante. Coisa de sebo. Era um desses livros de capa-dura marrom que encalham, a coleção inteira, se empoeirando e encardindo na estante do sebo.

A primeira, que fiz em casa, sobre como odeio redações de início de curso, as famosas “Minhas Férias”, voltou só com as usuais anotações de copydesk: evite isso, pontue equi, não ali. A segunda, sobre eu só usar roupa cinza, tinha uma recado em caneta verde  ocupava toda a metade direita da margem superior: “Adorei. Espero ler mais assim ao longo do ano e, principalmente, que a do vestibular seja tão boa. XXX.” No XXX, não havia de verdade XXX, mas o seu nome. Tudo em caligrafia de professora primária. Na semana seguinte, a coisa se repetiu e eu me entusiasmei a ponto de ter medo de decepcioná-la.

Descrição. Agora ela me põe à prova. É um desafio. Pede-me algo inusitado para ver se desta vez eu perco o rebolado. Estava a pouco de desistir, mas vou tentar. Nem que seja para ela escrever que não foi bem isso que esperava.

Está lá na porta agora, enquanto eu olho o papel branco, começando a me desesperar, sem ideia do que escrever. Passa a mão pelos bolsos, pelo lado de fora deles, só apalpa. Eu sei o que é. Demorou para ela resolver fumar. Normalmente chega à porta já com o isqueiro e o maço à mão e acende o fogo enquanto ainda procura o cigarro. Pressa de viciada que, parece, se fosse possível, acenderia o maço ainda fechado e já o poria na boca.

Ela corre na mesa, enfia a mão na bolsa e já volta para a porta com o isqueiro e o maço. É tão rápida que, contrariando todas as teorias sobre bolsas de mulher (de terem tudo e nunca as donas acharem nada nelas), pode-se apostar que a bolsa está cheia só de maços de cigarros e isqueiros já arrumados para essas emergências.

De volta à porta, seus movimentos de repente ficaram lentos. Cruzou os braços quase virada para fora, fazia frio mas não era essa a cruzada de braços do frio. Era aquela da criança contrariada quando prepara a birra. Nessa cruzada, os braços apoiaram por baixo e apertaram dos lados, juntando, os peitos não muito grandes, guardados sob a camiseta branca e aquecidos pelo casaco fino de lã bege, desabotoado. A camiseta branca básica foi uma das maiores invenções da moda. Mulher com camiseta branca só não fica mais bonita do que com roupa de frio. Dá para imaginar então como ela estava bonita com a camiseta branca aparecendo pela abertura do casaco de lã que chegava aos joelhos. Jeans, todo mundo usava os mesmos jeans. De uma marca que hoje é cara, importada, mas que antes era fabricada em Osasco e podia ser comprada barata em qualquer loja do calçadão ou mesmo na feira. E botas de um couro caramelo escuro que chegavam à metade da perna. Botas não eram coisa comum. Só eram usadas, e por pouquíssimas mulheres, no frio. Causavam estranheza. “Coisa de caipira e de quartel”, diziam as despeitadas. Cabelos loiros, bem claros, quase brancos, lisos, compridos, corte clássico. Tinham aquele jeito de bagunça do fim do dia. Bagunça pouca, alguns fios por cima dos outros, uma mecha de atravessado, cruzando o cucoruto. Não suporto as garotas que passam o dia todo com a escova na mão a pentear. Maquiagem pouca, acho que só batom e esmalte, vermelho – escuros ambos, talvez cor-de-vinho. Homem não entende direito dessas coisas de cor. Dizem que sonhamos, nós homens, em preto-e-branco e elas em cores. Imagino que não faça diferença então qual o nome desse vermelho. No meu sonho ele é só um cinza escuro. No dela sim, se é que professoras sonham com seus alunos, a classe é um mar de camisetas e agasalhos coloridos de alunos, feito um punhado de balas sortidas derramadas à mesa.

Por um tempo chegou a quase fazer pose à porta. A mão esquerda sob o sovaco contrário, corpo reto voltado diretamente para fora, de costas para mim, olhou para a direita e para a esquerda, parecia procurar já correndo longe uma criança lhe lhe tivesse tocado a campainha por zoeira. Olhou então para a frente, como se percebesse que uma criança que toca campainha e foge também pode fugir para a frente, para o outro lado da rua, embora o outro lado da rua fosse, na verdade, a classe do outro lado do andar e entre as duas classes houvesse o vão livre sob o jardim do térreo. É claro que uma criança não fugiria levitando pelo vão. Mas também é lógico que crianças tocam campainhas de casas de vizinhos chatos e não de salas de aula.

Logo deve ter percebido que não havia criança nenhuma, ou que a posição ali não era tão confortável. Escorou-se no batente. A mão esquerda ainda sob o sovaco do bravo que segurava o cigarro. Olhava novamente longe. Ou talvez nem olhasse. Apenas teria os olhos virados para longe. Para depois da parede, da esquina do andar, da serra, quilômetros longe.

Lembrou-se do cigarro, de levá-lo à boca. Levou-o rápido, mas sem tropeço. Ainda assim, por pressa, esticou os lábios para alcançá-lo mais rápido. Não fez força para puxar o ar. Talvez nem tenha puxado mesmo. Acho que é esse o vício do fumante, não importa tragar ou não, a fumaça, nem o cheiro. O que ela queria, ao lembrar-se dele, era senti-lo tocar seus lábios, pousar ali e ficar.

O olhar aos poucos foi perdendo a firmeza com que se dirigia ao longe. As idéias deviam pesar e cansar o pescoço. Ele foi relaxando e já  a cabeça desceu alguns graus. O bastante para, em vez do horizonte, ela agora olhar em direção a um chão distante. E pouco depois a outro chão já não tão distante.

O cigarro ia e vinha. Dá altura da coxa para a boca. La embaixo, ficava quieto, a um palmo do corpo, para não lhe queimar. Em cima, era cada vez mais lento e cuidadoso o carinho dos labios dela com ele. Não tragava fundo. Pegava-o com a ponta dos labios, cada vez mais devagar, e deixava que a mão o levasse embora de novo.

Quando percebeu que os olhos não viam mais o longe, nem o chão, nem nada, tomou ar bem fundo. Fez com os olhos foco em algo do jardim, depois nos pés, cabeça baixa. Jogou a bituca no cinzeiro ao lado da porta e se apressou para a mesa, para pegar o relógio na bolsa e anunciar que a aula estava para acabar.

Corri escrever umas linhas a mais. Não deu tempo de passá-la para frente de mão em mão como acontecia no final da aula sempre. Tive de levar até sua mesa, à pilha que esperava pelos atrasados. Tive o cuidado de sincronizar o movimento de colocá-la com o de outro aluno para que a dele cobrisse a minha e professora não visse meu nome nela. Aquela sala grande, mais de duzentos alunos, era meu anonimato.

Essa redação, ela me devolveu sem correções, com o desenho de uma bonequinha que sorria, de sua boca um balão, desses de história em quadrinhos: “Posso ficar com esta?”. Devolvi-lhe ao fim da aula, com outro recado curto: “Claro, fiz pra ti.”

Ela não me viu pegá-la nem devolvê-la. Eram muitos alunos para ela fazer isso pessoalmente. Passávamos tudo de aluno para aluno, para retirar, e púnhamos sobre sua mesa para entregar. Nunca tive curiosidade de ver o que ela escrevia nas redações dos outros. Quebrar o encanto de saber se ela deixava recados amais alguém. Achava fascinante ela não saber qual de nós, éramos muitos para ela conhecer pelo nome, era, de certa forma, seu correspondente.

Logo após as férias, fiquei muito doente. Culpa da correria irresponsável de quem tenta abraçar o mundo sem tempo a perder, do inverno mais rigoroso que já peguei nesta cidade e de alguém que me passou uma pneumonia. Afastei-me do cursinho por mais de um mês, voltei num sábado, para uma aula de redação de despedida. Essa aula não valeu, foi com a professora da outra classe, elas revezavam os sábados. Não escrevi nada e acabei deixando o curso de uma forma que, se me pareceu mau educada na época, covarde parece-me hoje.

Tive uma pneumonia, resultado da correria e de tanto tomar chuva no inverno de 93. Assustado com o diagnóstico, e também acomodado, hoje confesso, pensei em largar a faculdade em que tinha entrado havia poucas semanas, no vestibular de julho. À época, cursava ao mesmo tempo, a faculdade pela manhã, o quarto ano do colégio à tarde e o cursinho à noite. Dormia menos de quatro horas por dia, durante a semana. Desempregado, por conta do alistamento militar iminente, achava que tomar todo o meu tempo estudando não fosse mais que obrigação. Aquele inverno, o mais gelado apesar de um dos últimos chuvosos de que me lembro em São Paulo,  ao colaborou. O médico me assustou e o cansaço venceu. Mas não tive coragem de me despedir dos amigos que fiz naqueles primeiros dias de faculdade e mudei de ideia. Foi o cursinho que deixei. Dei dois ou três abraços e sumi.

As outras redações, quando mudei-me para São Paulo, fechei-as em um desses envelopes grandes de papel pardo, bem colado para que ninguém as lesse por curiosidade. Deixei-o numa das duas caixas de papelão com outras coisas que disse para a mãe guardar até que eu me mudasse para um apartamento maior. Quando procurei-as, dois ou três anos depois, já tinham sido jogadas no lixo: “Só tinha papel, caderno, livro…”, disse a mãe. Dizem que não se pode ter raiva de mãe.

Da professora de redação, que fumava na porta da sala com os olhos perdidos na mesmice do teto e para quem eu escrevia duas vezes por semana, não sei mais o nome. Só me lembro de que era algo que não combinava com ela. Na memória, guardei-a por como a vi e pelo qu fazia. Como nome, deixei um XXX, parece carta anônima. Fica bem assim. Combina com um film noir, em preto e branco, com a protagonista fumando, pensativa, a olhar o céu.

Funas

Contava-me histórias do Funas minha avó. Não o confundam com Funes, el memorioso Funes, do conto do Borges. Funas era um senhor de sua terra, já de idade. Havia estudado. Diferente dos outros que se acabavam aos poucos na roça, onde ele pouco tempo passou, conseguiu chegar à idade de a pele enrugar feito bulldog, os cabelos amarelarem (próximo estágio depois de ficarem brancos e resistirem à queda) e a memória pregar-lhe peças. Nunca precisou pegar em ferramentas mais do que para cuidar do jardim, da pequena horta, ou para os consertos da própria casa. Viúvo havia muitos anos. Perdeu a mulher ainda jovem e não se casou mais. Trabalhou como professor, tutor, secretário, arauto. Coisas que, numa aldeia pequena, não deixam ninguém rico, mas que renderam-lhe alguns escudos de economias, que lhe prouveram com folga a aposentadoria quando já não conseguia mais enxergar o suficiente para viver do papel e da tinta. Até porque, em boa parte de sua vida, seus gastos foram poucos. Era comum pagarem-lhe com pão e vinho por ler e responder cartas. Não que cobrasse. É parte da etiqueta pagar por orgulho e aceitar por humildade. Definitivamente pão e vinho são tudo de que uma pessoa precisa para viver. Os mais agradecidos, por trabalhos importantes, de documentos, passaportes, contratos, o convidavam para as festas e lhe enviavam ovos e caça.

Conheceu dois reis, ou melhor, viu dois reis, o morto e seu pai, em aparições públicas destes quando ele tratava de assuntos à cidade. O menino, o que fugiu, ele não teve oportunidade. O avô e a bisavó, foi contemporâneo deles na juventude e na infância, respectivamente, mas não tinha, à época, motivos para descer o rio à cidade, ao litoral. Não lhe faziam diferença El-Rei, o senhor presidente, um ministro ou quem fosse a aparecer na coroa da moeda. Ali, na província, a única mudança dos tempos foi passarem a chamar a d’El-Rei de Guarda. Mudança meramente vocabular, pois os guardas eram os mesmos, apenas passaram a se ofender em serem ditos do rei.

Já com idade, passeava pela aldeia de manhãzinha e, depois, ao fim da tarde, quando o sol era pouco. Não gostava do calor. Do frio sim. Se nevava, acordava mais cedo e já saía. Os jornaleiros (que é como chamavam os que trabalhavam por diária nas fazendas) o encontravam de boca aberta, cabeça erguida, olhando para o céu, os flocos caírem. Era um sorriso de alegria de criança. Se distraía com isso que era capaz de erguer as mãos, braços abertos, como se esperasse ser erguido aos céus. Esquecia-se de se apoiar à bengala feia, lascada a canivete por ele mesmo de um galho grosso.

Carregava sempre o farnel de pedaços de pão e um pouco de vinho. Não podia ver uma criança sem lhe oferecer pão. Às vezes, tinha rebuçados, de folha de figo. Açúcar, então, era difícil é caro de chegar por ali e rebuçados não eram coisas que as crianças pudessem se dar ao luxo de recusar.

Depois do almoço, meio-dia, sentava-se, no morro atrás da casa, debaixo de um olmo, uma castanheira, uma oliveira, que a sombra lhe protegesse todo, e fumava o caximbo. Nessas horas não queria crianças por perto. Tinha medo de que a fumaça as adoecesse os pulmões. Também não queria adultos, mas aí os motivos já deviam ser outros. Era seu horário de ficar sozinho longe de tudo, inclusive do próprio teto. No resto do tempo não. Mesmo aos domingos, quando se sentava no chão encostado ao muro que ribanceia a estrada, se alguém lhe desse bom dia, boa tarde ou mesmo olá, já era um convite para puxar conversa.

Minha avó, num desses domingos, passando pela estrada atrás de algo com que brincar, uma borboleta ou besouro, cumprimentou-lhe e ganhou, em resposta um convite para sentar-se também ao muro. Sentou-se e o velho perguntou-lhe então se sabia o nome da cor do vestido que usava. Ela não sabia. Era um vestido de tecido cru. Não tinha cor. Nem alvejado era. Foi feito de pano grosso usado de saco de cereal. Compravam esses sacos usados na feira, eram os melhores tecidos para roupas do dia-a-dia. Grossos, resistentes, custavam a puir e, para rasgarem, havia a criança de fazer arte da grande. “Carnação.” Carnação é o nome da cor. É a cor da pele. Almas famílias ricas, algumas vilas e cidades, até a têm em seus escudos, mas, por praticidade, na hora de pintá-los, acabam por usar marrom ou bege que, pela lei, são equivalentes para isso.

Lembrou-se de contar à menina de quando foi convidado a copiar, para o registo da paróquia, os documentos de nomeação nobiliar de uma família da cidade que tinha procedência da aldeia. Havia controvérsia sobe a origem do nome e a legitimidade do título. Algumas inconsistências. O escudo, por exemplo, às vezes aparecia como carnação, às vezes como amarelo, ou vermelho, ele não se lembrava direito. As divergências não eram problema seu. Compilou os documentos e deixou a cargo do cónego que encomendou o serviço julgar a causa. Não se lembrava também que fim levou ou qual era o título defendido. O tempo, quando passa, apaga esses detalhes e, os que deixa, quando ainda existe, difíceis de buscar e confiar.

De uma coisa pensava se lembrar, contudo sem muita convicção. De, por ficar até tarde na sacristia à procura de documentos e neles trabalhar, não lhe deixar o padre voltar para casa no frio que fazia, nevava e ele não tinha um casaco que não encharcasse da neve. Convidado a cear com o padre, e com a freira que lhe cuidava dos afazeres domésticos, aceitou e passou a noite na igreja. Tomaram os três uma açorda com bastante pão e um ovo mole por cima de cada tigela.

Por falta de mais um quarto e de cobertores grossos que bastassem a todos, o padre puxou-lhe um colchão de campanha para junto do fogão a lenha. Ao calor do fogão, acesso dia e noite, e com os cobertores que conseguiram, passaria a noite bem aquecido. Serviram-se ainda de uma caneca bem grande de vinho quente cada um, com cravo e canela. Soube-lhe diferente esse vinho quente. O vinho do padre é muito mais doce e forte do que o normal. Forte de sabor e de álcool. Parece não deixar gosto na boca, nem amarga, nem seca a língua.  Antes de terminar a caneca, já estava caindo de sono.

Recolhem-se, padre e freira a seus quartos, ele à cama de campanha junto ao fogão. Só uma vela acesa, na prateleira da quina da parede, para iluminar a imagem de Santo Antão. Não podia, contudo, reclamar do escuro, pois havia alguma claridade ainda saindo das frestas da porta do forno de lenha. Naqueles tempos, isso era muito mais luz do que as pessoas estavam acostumadas. Podia até incomodar o sono.

O Funas contava isso para minha avó, indo e vindo, contava, corrigia, voltava atrás, arrependia-se, rendia-se e, por fim, deixava estar como havia contado mesmo. Fazia tempo já e a memória não lhe ajudava. A cabeça, embora, até seus últimos dias, sempre tenha parecido lúcido, talvez também não ajudasse mais.

Por alguns segundos, quieto, olhando para o mato do outro lado da estrada, pareceu decepcionado de a história não lhe estar fresca como gostaria na lembrança. Decerto o vinho sabia mesmo delicioso e o calor da cama improvisada devia ser aconchegante no inverno das montanhas. Ele pegou um caderno, grosso, capa de couro, páginas de papel mal cortado, do bolso interno do paletó e voltou a contar enquanto procurava algo mais.

Noite alta ainda, escura, quieta, nenhum som de galos ou pássaros, acordou todo suado. Resultado do vinho ou do calor do fogão. A princípio o que estranhou, antes mesmo de abrir os olhos, foi estar deitado baixo, junto ao chão. Depois foi ver os móveis da cozinha dessa posição, assim por baixo, que lhe deu impressão de vertigem. É curioso como os olhos reagem ao que não estão acostumados.

Esfregou o canto dos olhos e olhou minha avó. Ela pensou que ele ia corrigir tudo dede o princípio agora. Não foi o caso. Ele encontrou nos bolsos tinta e a caneta e terminou de contar enquanto folheava o caderno.

A vertigem de não reconhecer o lugar o assustou e ele despertou. De pronto seus olhos desembaçaram e ele se lembrou de onde estava e porquê. O alívio foi uma sensação estranha. Sentiu o suor que lhe umedecia a camisa ficar fresco de repente.

Olhou em torno e o que melhor via era o canto iluminado pela vela. A imagem de Santo Antão, que viu inclinando a cabeça bem para trás. Foi então que a imagem cresceu à sua frente, achava que ela tinha se debruçado, gigante, sobre ele, estendeu a mão e tocou-lhe a testa. Logo voltou a como estava antes.

“Podia ter sido o vinho, ou o sono, mas eu fiquei um bom tempo com a sensação da mão dele na minha cabeça.”

O Funas não tentou explicar a moral da história. Correu escrever na página que encontrou.

“O que o senhor escreve?”

“São as minhas memórias. Para não as esquecer quando ficar velho.”

“Mas o senhor não se lembra direito da história. Não tem certeza. Devia ter escrito na época.”

O Funas sorriu-lhe da ingenuidade de criança.

“A criança faz diário?”

Não minha avó não fazia. Era muito criança. Não sabia escrever. Nunca soube. Morreu sem deixar um diário. Mesmo assim, ele lhe ensinou:

“Um dia fará e te digo, não vai escrever a verdade, quase nunca. Vai escrever o que gostaria que ela fosse. Porque todos nós mentimos para a memória. As memórias são isso, são mentiras das quais gostamos de nos lembrar.”

Edward scissorhand

I am not complete.

A Cá era uma menina da minha escola. Fizemos colegial juntos na mesma classe, os quatro anos. Os três primeiros à noite, o último à tarde. Na minha escola, escola técnica, o colegial tinha quatro anos. O pessoal achava que eu gostasse dela. Teve até uma vez em que uma amiga em comum me viu chateado e veio me falar que já tinha percebido que eu estava chateado pela Cá estar namorando. Eu fiquei bravo. As pessoas assumem como verdade as coisas que imaginam e tentam pescar alguma oportunidade para imaginar mais algo que sirva como evidência. Isso aconteceu até com o namorado dela que, antes de me conhecer, queria me bater, de tanto ciúme do quanto a Cá falava de mim.

1990 - Edward Scissorhands

Cá era muito legal, um amor de menina, mas antes de descobrir isso, eu já tinha me interessado por outras garotas. Ela era magrinha, branquela. Não era exatamente meu tipo. Acabamos ficando amigos. Voltávamos juntos da escola, conversávamos bastante. Enquanto as outras meninas só falavam de dançar, comprar roupa e namorar, ela estava sempre preocupada com alguma coisa dos irmãos menores, tinha seis. Era crente, por decisão do pai, desde quando tinha uns dez anos de idade, mas carregava um santinho de Nossa Senhora Aparecida na carteira e rezava para ela todo dia. “Meu pai me ensinou a acreditar nela. Não adianta ele me falar agora para fazer o contrário.”

Edward scissorhands - 4

Chegava da escola depois da meia-noite e acordava às seis para trabalhar. Trabalhava em período integral. Meus outros colegas de escola trabalhavam meio-período para terem dinheiro pra gastar com roupa e carro. A Cá era a única que eu via que trabalhava pra ajudar em casa. E gostava disso, se preocupava com os irmãos e se orgulhava em fazer sua parte.

Nas épocas mais puxadas, no fim da tarde, no intervalo entre sua saída do trabalho e o início da aula, nos encontrávamos na biblioteca da escola para estudar. Eu gostava de ajudá-la a estudar porque sabia que não era preguiçosa. Não tinha tempo de verdade.

1990 - Edward Scissorhands - 3

A lembrança que eu tenho mais clara dela é de quando eu me sentava na sua frente, entre ela e a Fá, nos meus dias tristes. Eu olhava o cabelão da Fá na minha frente. Sem me debruçar muito na cadeira, eu chegava perto e ele cobria minha visão como se me escondesse. Eu ficava ali, reparando nos fios do cabelo da Fá, um de cada cor, pensando nas besteiras que me deixavam triste. Invariavelmente, não sei se de propósito, a Cá me chamava (me chamava de Lê), não me olhava no rosto (talvez soubesse que não se olha no rosto de um Lê triste), pousava firme a mão magrinha e gelada no meu braço e me mostrava no caderno algo que estivesse estudando. Eu me distraia e procurava dar atenção.

No final dos anos oitenta, início dos noventa, quase ninguém ia ao cinema. Era a moda do videocassete e das locadoras. As meninas se juntavam no fim-de-semana na casa de uma delas, alugavam um filme e faziam uma sessão com pipoca. Uma segunda-feira, eu cheguei na escola, dei boa-noite, elas falavam do filme que assistiram no sábado. Cá me olhou com a cara esquisita, como se tivesse percebido algo ao me ver: “Lê, você tem de ver. É tão legal! Ele é tão como você.”

1990 - Edward Scissorhands - 2

Demorou mais de vinte anos para eu assistir esse filme. Acho que eu teria chorado de qualquer forma, achei tão triste! Tão triste mesmo! Mas eu tive de fazer uma pausa para tomar dois cafés e espairecer, antes do fim, porque ficou difícil segurar o choro quando me lembrei da Cá e de ela ter dito que ele se parecia comigo, porque comecei a perceber coisas que ela sabia de mim sem eu lhe contar.

Eu precisava de, no final do filme, ela ter-me posto a mão no braço e me desviado a atenção para alguma coisa em seu caderno.

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