floripa, noite de inverno, côtes du rhône, com uma pausa para um charuto e outra para quase tirar uma pestana

Meu irmão mais velho, o Zezinho, era muito estudioso. Seu nome, na verdade, era José, igual ao pai e ao avô e avô do pai e a todos os pais e avôs dos quais a família se lembrava. Coisa de português, o filho mais velho ter o mesmo nome do pai ou do avô. Coisa de família da Ilha da Madeira, quando se precisa de nome para um filho, o primeiro que se pensa é José, de São José, o padroeiro da ilha. Acho que é por isso que, até pouco tempo atrás, o nome mais comum aqui em São Paulo era José. A maioria dos portuguesas daqui me parece ter vindo da Madeira. Em Portugal mesmo, embora os brasileiros pensem ser Manuel, parece-me que o nome mais comum entre homens é Rodrigo. Aqui no Brasil, hoje em dia, acho que é Tiago. Ou Thiago. Mania de brasileiro escrever como se fosse outra língua. Podem os Tiagos me xingarem, mas esse é um nome com o qual eu não me conformo. É uma invenção totalmente descabida. Os italianos chamam Jacó, o profeta de Iago. Por ser um homem santo, virou Santo Iago. Santiago (Sant’Iago) na escrita dos italianos. A igreja Católica Apostólica comum aqui do Brasil é a Romana, a mesma deles, os italianos. O Santiago dos italianos deu até nome à capital do Chile, país onde a língua só tem San, não Santo. Acho que, por isso mesmo, as pessoas assumiram que Santiago fosse São Tiago e começassem a batizar seus filhos com esse nome inventado. Meu amigo Tiago que me perdoe essa falta de reverência por seu nome, mas ele devia se chamar Iago ou Jacó. Eu já lhe disse isso.

Sempre tive inveja de meu irmão herdar o José tradicional da família e eu não. Ele mereceu isso por ser o filho mais velho. Mesmo assim, eu poderia ser um José Alexandre ou qualquer outra coisa. Mas, pensando bem, estaria reclamando de ter nome composto, como ator de novela mexicana ou personagem de comercial de cerveja. Hoje estou bem com meu nome, mas sempre tive inveja do José dele.

Tive inveja também de outras regalias que ele tinha por ser o mais velho: ser o escolhido pelo pai para ajudar nas reformas e consertos da casa, nas coisas perigosas como subir no telhado, mexer nos fios e nas ferramentas. Disso não posso me queixar porque, embora, preterido, o pai sempre ficou feliz de eu procurar me meter nessas coisas para as quais ele não me chamava mas arrumava um jeito de me deixar ajudar.

O Zezinho também podia usar uma gaveta maior na escrivaninha onde fazíamos a lição em casa. Quando o pai a comprou, éramos três, cada um tinha sua gaveta, pequena, à esquerda. A gaveta maior à direita, sobre o colo de quem se sentava na cadeira, tinha bugigangas de uso coletivo. Quando o caçula nasceu, Zezinho passou sua gaveta para ele e pegou a maior para si. Ninguém reclamou. Parecia natural que ele, mais velho, decidisse o que fazer.

Essa gaveta maior tinha também outra regalia: tinha fechadura. Ele podia guardar lá o que quisesse e trancar para garantir sua privacidade. E, direito supremo de filho mais velho, a mãe nunca questionava o que estava trancado ali. Meu pai nunca nos deixou trancar, ou mesmo fechar, nenhuma porta dentro de casa. Mas a fechadura da gaveta do Zezinho era diferente. Acho que nem o pai podia imaginar algum mal lá.

Mas eu, quando tinha meus treze ou quatorze (quando aprendi a escrever era quatorze, hoje, vejo a maioria das pessoas escrever catorze), ele tinha dezessete ou dezoito, achei muito óbvio o que ele via guardar lá. Meu irmão mesmo surpreendeu-me por ser tão inocente em guardar esse tipo de coisa num lugar tão óbvio, a única fechadura trancada dentro de casa, e, mais que isso, um lugar onde, quando éramos pequenos, ele mesmo me ensinou como fuçar. Um vez, querendo me mostrar como era esperto, ele me mostrou que bastava entrar em baixo da escrivaninha, ela era larga o suficiente para mesmo um adulto sentar-se à vontade embaixo, passar a mão por trás da gaveta e alcançar as coisas que estivessem guardadas mais no fundo. Foi assim que tive acesso às suas três coleções de revistas. Podia até haver mais lá, mas eram essas três que eu alcançava.

A Playboy, várias vezes peguei a da Luma de Oliveira e a da Luciana Vendramini. Cheguei a emprestá-las a um colega da escola para tirar xerox no trabalho. Foi embaraçosa a saia justa quando a mãe as encontrou nas minhas coisas, ou melhor, nas coisas da avó. Eu as estava olhando no meu quarto quando ouvi barulho de fora e as enfiei num baú de coisas da avó que ficava ao lado do meu guarda-roupas. Não sei como foi, mas acabei as esquecendo lá. Daí a um ou dois dias, a mãe foi mexer no baú para procurar cobertores e as encontrou. Tive de mentir que um amigo me pediu para guardá-las. Foram confiscadas e, daí uma semana, quando meu irmão descobriu, tivemos uma conversa séria.

Imagino a cara que minha mãe faria se tivesse encontrado as revistas de meu avô, que eu encontrei uns cinco anos depois de ele morrer. Revistas dos anos sessenta que, quando eu era pequeno, não serviriam mais nem para propaganda de lingerie. Meu avô era muito alto, um metro e noventa e quatro. Aliás, a mesma altura do Zezinho. Talvez essa altura fosse outro privilégio que acompanhasse o nome de José, comum aos dois. Minha avó tinha na copa duas cristaleiras, uma sobre a outra. Eu não sei como podia, até porque uma era escura e a outra mais clara e avermelhada, os desenhos e feitios não tinham nada a ver um com o outro. Mas as duas juntas, uma sobre a outra, se passavam por um móvel só, desenhado para ser daquele jeito mesmo. Mas era um móvel muito alto, que quase batia no teto. Uma vez fui tentar resgatar uma bolinha de ping-pongue que foi parar lá e descobri o esconderijo da pornografia de meu avô. Lugar alto, não tinha como outra pessoa, sem escada, alcançar lá. Eu procurei se havia mais, eram poucas, pulei o muro do quintal e joguei no lixo da vizinha para que minh avó não soubesse. Era uma última reverência, póstuma já, de ética masculina que eu poderia ter com meu avô.

A segunda coleção de meu irmão que eu conseguia alcançar era a da Ele & Ela. No começo não dei muita bola, porque confundi com a Ela, revista de costura e coisas de mulher que minha madrinha às vezes lia para manter-se atualizada em sua profissão. A revista era quase um lixo. Acho que, por isso mesmo, mais interessante que a Playboy. Mulheres desconhecidas, sem PhotoShop, ou seja-lá-o-que-a-Playboy-usasse-naquele-tempo, arreganhadas sem arte nenhuma, mostrando tudo. Essa revista tinha também um encarte chamado Fórum, onde eram publicados “relatos” enviados por leitores de suas aventuras eróticas. Para um adolescente CDF como eu, que lia mais ou menos um livro por dia, esse encarte era o máximo. Hoje, vinte e cinco anos depois, tenho certeza de que os relatos, ao menos as versões publicadas, não eram dos leitores. Eram todos coisas muito bem escritas. Por causa deles, fui procurar os “contos” publicados também na Playboy. Lá era publicado um por edição. Os autores usavam pseudônimos. Um dos que publicava lá era o Marcos Rey, autor dos livros políciais que eu adorava.

Mas a terceira coleção de revistas de meu irmão era a que eu mais gostava: a de quadrinhos. Havia Chiclete com Banana (chiclete com banana é de comer?  chiclete com banana cola na sola do sapato? chiclete com banana pega fogo?), Circo, Mad e algumas outras. Da Mad, eu só gostava da dobradinha. O resto da revista era um lixo. E ainda é. Circo misturava coisas muito boas com outras muito ruins. Foi nela que li algumas das coisas que mais me marcaram, como a história do cara que chega em casa e descob que toda sua vida era um teatro, O Show de Trumann em uma HQ do ponto de vista do ratinho de laboratório. Essa foi, até hoje, a minha HQ preferida. A cada dois ou três meses me acontece algo que me lembra ela. As máscaras caindo, o mundo, o chão, se desfazendo. Mas revista mesmo, a preferida foi a Chiclete com Banana. Quase tudo nela era bom. E o que não eraera uma bobagem engraçada. Ela tinha minhas personagens preferidas, Los Três Amigos (Angel Villa, Laertón e Glauquito… e Miguelito, per supuesto), com meus cartunistas preferidos, Angeli, Laerte e Glauco. E havia outros e havia a tia do Angeli e só faltava o papel feder a uísque e maconha.

Depois que meu irmão morreu, eu não tive mais sua coleção para fuçar. Essas revistas também não duraram muito mais do que isso. A Editora Circo deve ter durado uns dois ou três anos. A Chiclete com Banana deve ter durado umas dez ou doze edições. Eu comecei a procurar os quadrinhos dessa turma nos jornais, na Folha ou no Estado, não me lembro bem. A mãe e a madrinha compravam jornal velho por quilo para forrar as gaiolas dos passarinhos. Eu corria nas páginas de quadrinhos. Os próprios Angeli, Larte e Glauco tinham suas tirinhas, muito boas, misturadas às de outros cartunistas, embora eu sentisse falta deles juntos em Los Três Amigos. Separados, eles perdiam sinergia. rs Me sinto um gerente enrolando com uma buzzword quando digo isso. Mas separados eles realmente perdiam sinergia. Talvez pela falta de um zoando com o outro enquanto faziam as tiras. Isso para mim era muito claro durante uma fase do Angeli em que ele publicava tirinhas intituladas Angeli em Crise. Ele, quando não tinha ideia do que fazer, fazia um quadrinho extremamente vago do que tinha na cabeça. Na maioria das vezes sem texto, sem nexo, aparentemente sem propósito. Era objeto dele lidar com a falta de idaias quando precisava ter uma ideia para publicar na próxima edição do jornal. Todos têm seus dias sem ideias. Dias sem ideia nenhuma.

Eu não tenho contrato com nenhum jornal para escrever. Quando acho que tenho de escrever, e acho que tenho de escrever todos os dias, e não tenho ideia, me sento na frente do tablet com cara de bobo. Acabo só fuçando na internet por musicas novas, por informação inútil sobre assuntos que me interessam, e disperso.

Mas quando quero mesmo escrever, e não tenho ideia, deixo o tablet no braço da poltrona e abro uma garrafa de vinho. E fico pensando num monte de coisas que não quero escrever e em desculpas para não escrevê-las.

Cemitérios

Eu fui criado morando junto de cemitérios.

Quando criança, morávamos num sobrado numa estrada de periferia. Do outro lado, o cemitério. Do terraço tínhamos visão panorâmica de tudo ali. Era, de longe, o maior terreno da cidade. De se perder de vista o final mesmo. Hoje está bonito, bem arborizado, florido. Naquela época era só um capão esburacado com os  túmulos dos primeiros defuntos enterrados ali. Todos pobres que não tiveram dinheiro para pagar um cemitério particular. O muro é, na verdade, os ossários para onde são levados os restos dos túmulos desocupados. Cemitério de pobre é assim. A cada dois ou três anos, tem de pegar uma caixa de sapatos e ir à exumação do parente para ver se o corpo já está bastante comido para ser passado à caixa de sapatos e guardado numa gaveta do muro. Se não fôr, o coveiro despe o defunto, joga o corpo direto na terra, cobre-o só um pouco e já reaproveitam a cova para o próximo enterro.

Quando cresci, fui morar com minha avó, na cidade. Há dois quarteirões da casa dela, atrás da catedral, ao lado da minha escola, o Cemitério da Saudade. Toda cidade tem um cemitério chamado “da Saudade”, na rua “da Saudade”, junto à igreja matriz. É lá onde estão enterrados os primeiros defuntos, os mais antigos, dos primeiros moradores da cidade. É lá que as famílias mais antigas da cidades têm sua campas. São casinhas, dois metros abaixo da terra, um acima, você entra por uma porta e uma escada, prateleiras dos dois lados, os caixões são colocados nas prateleiras sem terra por cima. Conforme lotam, as famílias pagam para os coveiros sumirem com os caixões mais antigos, dos parentes já esquecidos, para dar lugar aos novos. Desses caixões, desses corpos, não sei o que é feito. Creio que sejam enterrados no chão também.

Me lembro, sempre que vinha visita de fora, o pessoal comentando o horror que era nossa proximidade com o cemitério. Para mim, sempre foi algo natural. Igreja, escola, hospital, cemitério. Tudo parte normal da vida, não há porque negá-lo.

É engraçado como as pessoas passam todos os dias pela calçada do cemitério, esperam o ônibus encostadas ao muro dos ossários, as crianças brincam de empinar pipas sobre os túmulos e, até mesmo, os adolescentes descobrem o sexo escondidos nos corredores entre as campas, sem pensar em porquê ter medo. No entanto, quem vem de outro bairro se apavora com a possibilidade de enxergar do quintal ou da janela da escola a copa de uma árvore que nasce no cemitério, ou apenas de saber que dali se ouve, duas ou três vezes por dia, a sirene do rabecão lento, chegando ao velório.

Por ali, para quem mora ali, a coisa é diferente. Não que todos achem tudo normal. Cada um tem seu limite. Há, por exemplo, o terreno baldio em torno do velório. Ninguém se atreve a construir ali por não querer dividir o muro com as constantes macumbas. Há também as duas ruas sem saída que ladeiam o cemitério. O bairro não é de gente rica, mas essas duas ruas, estreitas, sem asfalto, casas bem pobres, conseguem constrastar com as outras, de aposentados e operários. Essas duas ruas foram, na verdade, deixadas durante o loteamento, meio que abandonadas. As pessoas não queriam morar ali. Não queriam dividir os muros de seus quintais com os dos fundos do cemitério. Temor muito mais dos vivos que podiam lhes invadir os quintais à noite do que dos mortos, agora todos honestos. Essas ruas foram depois ocupadas por pessoal mais pobre que, ainda assim, preferiu não ter quintal e deixar uma espécie de passagem de servidão entre as frentes das casas e o muro do cemitério.

A gente passava ali no fim da tarde, comecinho da noite, e via as crianças brincando sem medo naquela rua-corredor sem saída. Logo pequenas aprendem que não o devem ter.

Eu, quando era adolescente, às vezes jogava bola no campo atrás da igreja. Na volta, contornava ao contrário o quarteirão para alongar a conversa com o amigo que morava na rua do velório. Quando ele entrava, eu continuava para casa, pela calçada do cemitério, que era mais iluminada do que a do posto de saúde. Passava na boca de uma dessas ruas sem saída e sempre olhava, de relance, medo de violar a privacidade de alguém, as crianças brincando.

Um dia, voltando assim, uma menininha dobra a esquina correndo, vindo da rua sem saída para a avenida, e tropeça. Estava enrolada num lençol branco. Assustaria quem procurasse por fantasma ali. Dois ou três adultos, para dentro da rua, encostados às paredes das casas, fumando e conversando, ignoraram totalmente seu tombo. Eu me abaixei para perguntar se ela se havia machucado. Com receio de ser mal entendido. As pessoas por aqui gostam de pensar que homem feio, quando fala com criança, tem más intenções. A menina se apoiou com as mãos chão e começou a se levantar, cara suja da poeira da calçada, sem me olhar. Só chacoalhou a cabeça que não, que não se machucou, como se estivesse encabulada de cair feito criança que era. Um dos pés pisava bem para dentro da borda do lençol. Foi nele que ela havia tropeçado. Antes que caísse de novo, segurei o lençol, firmei para que o pé não escorregasse e disse-lhe que o puxasse mais para cima, para não tropeçar de novo. Perguntei se não tinha se machucado mesmo. Ela agora disse que não. Perguntei se não ia voltar para casa para olhar direito e apontei com o rosto para a rua de onde ela vinha. Ela apontou com a mão por cima do cemitério, talvez em direção à outra rua sem saída: “Eu moro lá.” E saiu correndo de novo pela calçada.

Histórias de Trás-os-Montes

Eu sempre me lembro com muito carinho das histórias que minha avó contava de sua terra, Trás-os-Montes, “as montanhas do fundo”, diriam os brasileiros. Histórias do folclore português e também do dia-a-dia. Com minha avó aprendi que esses são coisas que se misturam. Sempre fui curioso por como as pessoas, ao contarem as histórias que lhes aconteceram, adaptam-nas aos preconceitos e morais-da-história que aprenderam.

Gostava de me lembrar de todas as lendas que ela me contou. Aliás, lendas não, ela tinha certeza de todas terem acontecido de verdade, daquele jeito mesmo, embora cada um as conte de um jeito.

Estou tentando recordá-las, em sua versão, e escrevê-las na minha. Escrevi sobre uma, há uns dias atrás e, está semana toda, tenho trabalhado em outra que, tento caprichar, está me levando tempo a publicar.

Dessas, e das próximas, espero que vocês gostem.

Coelhos e Hortas

Tínhamos duas coelheiras em casa. Uma grande, do tamanho de uma geladeira deitada, onde ficavam os coelhos de criação, entre meia é uma dúzia, que a avó fazia para o almoço do sábado, coelho cozido com batatas, e aproveitava as peles para fazer tapetes super macios. Na outra, menor, metade do tamanho, moravam Escovão e Fofura. Esses eram de estimação, os únicos mansos. Os outros se pudessem nos arrancavam os dedos. Escovão e Fofura não. Com eles, podíamos brincar.

Brincar com coelho é basicamente alimentá-los e fazer carinho nas costas. São bichos muito frágeis. Por qualquer coisa, uma cabeçada um no outro, uma patada da cadela, tombam. Gostávamos de dar-lhes verdura no colo.

Coelho não come cenoura. Rói para gastar os dentes, mas come só a rama. Gosta da rama da cenoura, de salsão, funcho. Comem outras verduras também, alface, couve-flor, repolho. Não bebem água. Não sei como, tiram da verdura a água que precisam. Se lha damos num potinho para que bebam, morrem com diarreia. Eram assim os coelhos de casa. Já me disseram que “meu coelho não é assim”. Eu não sei a diferença dos nossos para os dos outros, mas me lembro de que com os nossos era assim.

O pai só não nos deixava chegar perto da coelheira quando havia algum coelho doente. Além do perigo da raiva — mamíferos sempre correm esse risco, de pegar raiva por uma mordida de morcego, rato, ou desses gatos vagabundos que vivem de telhado em telhado, de quintal em quintal, — havia também uma doença específica de coelhos, que fazia nascer uma espécie de chifre entre a boca e o nariz. A gente não sabia explicar o que era. O pai só sabia que o coelho que pegasse isso morria e que, se demorasse pra separá-lo, outros pegavam. Foi dessa doença que o Escovão morreu, tinha já mais de dez anos, isso é bastante para um coelho. Quando ficou doente, o pai o separou numa coelheira menor, improvisada, deu os remédios que indicaram na avícola — as lojas que vendiam aves para abate eram o que existia na época, em vez de pet shops. Num domingo, acordamos para o café e a mãe disse que o escovão tinha morrido e o pai o tinha enterrado no quintal.

A coelheira tinha o chão com muitos vãos, parecido com um mata-burro fino e embaixo ficava uma caixa com terra. Era o jeito de colher o esterco dos coelhos, ele caía na caixa pelos vãos do piso, para usar na horta e nas roseiras da mãe, as da mãe eram rosas e vermelhas, diferentes das da avó que eram quase todas brancas ou amarelas. Quando o pai achava que devia, ele cobria um uma camada de restos de verduras e legumes e outra de terra. Ia formando assim uma espécie de lasanha de esterco que, quando precisava, passávamos com a pá para a horta e o jardim.

Do jardim, quem cuidava era a mãe. Tinha rosas e umas plantas com nomes que eu não sabia diferenciar. Algumas, de folhas vermelhas, eram venenosas. As outras, samambaia, rendas, comigo-ninguém-pode, eram só folhas verdes. Naquela época, eu não entendia como alguém podia gostar de uma planta que não tenha flores, que não tenha perfume nem colorido. Hoje entendo isso, às vezes. Me lembro de poucas vezes em que a vi mexendo nas plantas do jardim. Ela fazia isso só durante a semana, depois dos que iam pra escola saírem pra escola e antes dos outros acordarem para ver televisão.

A horta era das crianças. Na verdade, era como se fosse de meu irmão. Ele que escolhia o que plantar, as sementes, as mudas. Ele que procurava com o pai e os avós o jeito de fazer com cada planta. Gostava de plantar funcho, salsinha, cebolinha, cenoura, salsão, espinafre e coisas para chá, erva-doce, melissa, camomila, angélica, erva-cidreira, hortelã. O avô nos deu algumas ferramentas básicas, cavoca, tesoura, pá, enxada. O irmão orquestrava. Fazíamos os canteiros, semeávamos ou plantávamos, cobríamos, regávamos, depois fazíamos uma treliça de linha por cima, para as galinhas e pombas não ciscarem ali e, por fim, a parte que eu mais gostava, púnhamos na cabeceira uma plaquinha com o nome do que estava plantado ali.

A horta começou com um pedaço do quintal de mais ou menos um metro por um e meio. Eram três ou quatro canteiros compridos. Não me lembro o que tinha no começo, exceto pelo espinafre. Queríamos espinafre para comer igual ao Popeye. E comemos. Pegamos o espinafre que a mãe refogou igual couve, — ela nunca tinha feito espinafre, achou que fosse igual à couve — colocamos no copo e fingimos que era a lata de espinafre do Popeye. A brincadeira perdeu a graça logo que percebemos o gosto de verdura amarga. A mãe gostou, mas que comêssemos nos pratos e com talheres, chegava de copos.

Com o tempo, fomos aumentando o número de fileiras, uma ao lado da outra. Depois pegamos mais um pedaço para encompridá-las. Mas já nas continuações, plantamos coisas diferentes.

No domingo, quando a mãe disse que o Escovão havia morrido e o pai o tinha enterrado, pudemos de novo brincar no quintal perto das coelheiras. O pai vinha regando nossa horta, mas tínhamos mais umas mudas e sementes que queríamos plantar. Isso o pai deixava para nós, o negócio dele eram as criações, coelhos, galinhas, pombas e carpas.

Os nossos canteiros já estavam todos lotados. Precisávamos abrir um espaço novo. Não para o fundo do quintal, que lá ficavam as coisas do pai, era muita bagunça pra mexer. Tinha um pouco de espaço junto ente a horta e as roseiras. Dava para abrir um canteiro ali, mas precisava de um pouco de terra para subir o terreno, senão, a chuva ia estragar tudo.

Nós gostávamos de pegar terra dentro do galinheiro. Ela já vinha meio adubada e, no buraco que deixávamos, as galinhas depois se divertiam ciscando. Abrimos um dos galinheiros de baixo, os que tinham chão de terra, deixamos as galinhas fugirem e entramos para pegar areia. Elas correram fuzarqueiras, ciscar fora do galinheiro atrás de minhocas e porcarias diferentes. Pegamos a terra e voltamos.

Antes de plantar, a pior parte: conseguir tocar as galinhas pra dentro de novo. Elas ao menos estavam amontoadas no canto. O irmão foi buscar uns papelões de caixa para ajudar a cerca-lãs para dentro do galinheiro e eu, curioso, fui olhar o que faziam. Galinha é bicho nojento, adora atacar rato, barata, lagartixa. Mas elas então atacavam outra coisa. Encontraram terra remexida e ciscaram até fazer um buraco e encontrar o Escovão, que o pai tinha enterrado ali de manhã.

Eu tomei um susto com o coelho rígido, de olhos abertos, parecia de pelúcia. Com raiva das galinhas, corri no meio delas, chutando-as. Atropelei o irmão que chegava com o papelão e subi a escada pra casa, chorando.

Ele deve ter percebido o que aconteceu. Guardou as galinhas, plantou a horta, subiu pro banho e não me zoou, nem nunca comentou aquilo comigo.

Rádio

Eu, quando era pequeno, morava num bairro de periferia muito violento. Meus pais ainda moram lá, e as coisas não mudaram muito. Minha avó morava na cidade, perto do centro, num dos melhores bairros, perto das melhores escolas estaduais. Por isso, meus irmãos e eu sempre estudamos em escolas na cidade. Dávamos o endereço da avó.

O pai era motorista de ônibus. Saia cedo de casa, cinco e meia da madrugada. No caminho, nos deixava na avó e ia para a garagem. Na avó tomávamos Toddy e pão com manteiga, esperando a hora de ir para a escola.

Eu só peguei por pouco mais de dois anos essa fase de acordar muito cedo. Depois de se aposentar, quando eu estava na terceira série, o pai nos acordava mais tarde, seis e meia.

Quando ainda não tinha idade para escola, às vezes, acontecia de o meu sono espalhar, ou por causa do barulho dos irmãos, ou por eu me deitar muito cedo mesmo. A mãe mandava todo mundo pra cama às oito. Quando acontecia, nem precisavam convidar, ia pra cozinha, esfregando os olhos de sono, ajudava o pai a encher sua xícara de café, com um pouquinho de pinga às vezes, pra acordar. E esperava os irmãos voltarem trocados. Ia de carona, de pijama mesmo, pra casa da avó. A mãe agradecia, tinha o caçula ainda nenê para cuidar.

Tirava o pijama lá. A avó ajudava a mãe com as roupas pra lavar e sempre desviava umas peças para eu usar nessas visitas. O avô, quando acordava para dar bom dia aos meus irmãos e me via, vinha todo orgulhoso: “Meu cenourinha! Veio ouvir rádio comigo.” O apelido de cenourinha era uma piada por causa de um macacão horroroso, entre laranja e ferrugem, que eu, quando era nenê usei numa sessão de fotos que a mãe tirou no jardim deles. Já o lance de ouvir rádio… estar com o avô era o mesmo que ouvir rádio com o avô.

Um dos primeiros funcionários da Phillips no Brasil. Quando começaram a fabricar rádios aqui, ele ganhou um. Orgulhoso, se apaixonou. Quando lançaram a televisão, também ganhou uma. Número de série 00004. Recebeu numa festa junto com o prefeito, o governador e o presidente. Ela durou anos, de madeira sólida e válvulas. Eu a conservei funcionando em meu quarto até à época da faculdade. A televisão, meu avô só ligava para o futebol, o jornal e o programa da Inesita Barroso. Rádio, era o dia todo. Tinha três, todos Phillips. Aliás, se comprássemos algo, sua primeira pergunta sempre era: “Comprou Phillips, né?”

Logo que acordava, pegava do criado mudo o pequeno, do tamanho do maço de cigarros. Esses modelos eram chamados de radinhos de pilha. Vinha do quarto para a cozinha com ele ligado perto do ouvido, escutando o fim do programa do Zé Bettio. Passava pela cozinha cumprimentando todos e ia para o banheiro. Saía com o rádio no ouvido, na mesma posição, a avó brincava que ele não tirava o rádio do ouvido nem no banheiro: “Assim, acaba se atrapalhando e molhando as calças.” Tomava o café com uma mão, o rádio na outra. Escutava o rádio e as conversas da mesa ao mesmo tempo.

Depois do café, ia cuidar dos passarinhos. No quartinho onde eles dormiam, tinha outro, mesma marca, portátil também, mas do tamanho de uma resma de sulfite, esse era de pilhas grandes. Cuidava dos passarinhos ouvindo o Gil Gomes. Minha avó brigava para não irmos lá escutar também, não era programa bom para criança.

Quando terminava, era hora de relaxar. O rádio grande, de ligar na tomada, presente da empresa, ficava na varanda de treliça, entre o tanque e o banheiro, ao lado da cadeira azul onde ele fumava pela manhã. Eu me sentava entre os dois, com meus lápis e cadernos e desenhava para ele. O avô conseguia fumar quase dois maços de Hollywood numa manhã. Ouvíamos os programas do Roberto Carlos, do Sílvio Santos, o jornal da Jovem Pan, o noticiário esportivo, as notícias do São Paulo. Era são-paulino, tadinho, faleceu tentando converter o neto a essa religião que ajudou a fundar. Não conseguiu, o orgulho do sangue português falou mais alto ao neto brasileiro do que a ele que era português.

Desligava o rádio só para o almoço, quando meus irmãos voltavam da escola. Depois do almoço, o pai passava para nós buscar e ele ia para a sala com a avó namorar e dormir um pouquinho.

Meu avô faleceu numa quarta-feira, reclamando de não poder fumar nem ouvir rádio no hospital. Eu tinha onze anos. Era o primeiro dia de aula depois das férias de julho. Minha avó pediu para eu passar o fim-de-semana seguinte fazendo-lhe companhia. Na verdade, só me devolveu a meus pais dez anos depois, quando ela também faleceu.

No domingo, quando já escurecia. Ela entrou no meu quarto com o radinho de pilha de meu avô ligado. Tinha acabado a final do campeonato paulista. O São Paulo ganhou. “Teu avô ia ficar tão feliz! Por quatro dias ele não ouviu a final… Ele me pediu pra te dar o radinho quando ele morresse.”

A antiga televisão de válvulas do meu quarto não aquentava ficar ligada mais do que duas horas por dia. Precisava de um aparelho que a gente chamava de reloginho, uma espécie de transformador ou estabilizador. O rádio, transistorizado, não. Meu avô há de ter perdoado, talvez não, seu radinho nunca mais sintonizou jogos do São Paulo, exceto quando fossem contra a Portuguesa. Foi nele que ouvi os gols de Denner, que me acostumei a ouvir o jornal ao acordar e os programas de música de sábado à noite.

A programação mudou bastante, desde então. Já se vão quase trinta anos desde que meu avô morreu. Mas eu me lembro dele sempre que ouço aquele chiado característico de quando mexemos na sintonia do AM.

Mickey

Mickey Ears

Hoje em dia, fala-se muito em bullying. Tudo é bullying, e tudo traumatiza as crianças. Mania das mães desta geração. Mas o que elas não percebem é que o pior bullying que as crianças sofrem vem das próprias mães.

Elas têm algumas manias que ninguém merece e que, tenho certeza, ainda serão catalogadas pela Anistia Internacional como barbaridades da história antiga, a nossa antigüidade. Socam comidas horríveis nas bocas dos filhos, falam com voz tate-bitate de retardadas, largam o filho no chiqueirinho na frente da televisão com aquela maldita galinha azul. E nem venhamos nós, pais, acharmos que fazemos melhor. Um dia, nossos filhos nos processarão.

Minha mãe tinha uma mania horrorosa: ela usava os filhos para brincar nas coisas de criança com eles. Palhaço, parquinho, loja distribuindo bexigas ou algodão-doce. Não interessava se os filhos queriam, ela queria e precisava do filho junto para participar. Pobre não se contenta em ser pobre. Não pode ver algo de graça que precisa entrar na fila, mesmo que o filho, irritado, diga que odeia algodão-doce e mais ainda o palhaço de cara de saco cheio que está distribuindo. O errado é o filho: “Ele tem medo do palhaço!” É o argumento mais clássico. Acham que o filho vai se ofender, subir em seus brios, e encarar a fila pra apertar a mão do palhaço, logo me lembro daquelas luvas imundas e fedidas (por que é que palhaço de periferia nunca lava a roupa?), minha cara de mamão cumprimentando com nojo, depois a frase óbvia: “Se não quer o algodão doce, dá pra mim.” E lá seguíamos o caminho, eu procurando onde lavar a mão, a mãe se deliciando com aqueles fiapos de açúcar no palito.

A minha maior diferença era com o Mickey. Aliás, com OS MICKEYS. Cansei de ser acusado de ter medo do Mickey. Riam de mim. Bastava passar por uma loja que tivesse na porta alguém com aquelas fantasias mal feitas e já começava a ladainha: “Vai lá. É o Mickey. Não seja bobão.” E era difícil o dia que não houvesse um desses pelo calçadão da António Agu, lá em Osasco. Eu simplesmente não queria chegar perto daquela coisa que tentava se passar pelo camondongo do gibi. Camundongo que, convenhamos, nunca me inspirou muita confiança, nunca se soube de que ele trabalhasse… vivia entrando e saindo da delegacia… e, mesmo assim, não passava os apuros de falta de grana, comuns a seus amigos Pateta, Donald e Zé Carioca… Sujeitinho suspeito esse tal de Mickey!… O que, no entanto, não me impedia de ler seus gibis. Que o diga Seu Vilaça, dono da banca de gibis de segunda mão na Praça Duque de Caxias, mais conhecida por “Jardim”, entre a Catedral (então Matriz) e o Hospital das Damas.

Seu Vilaça não tinha culpa pelos farsantes que pensavam estar fantasiados de Mickey no calçadão. Talvez tivesse culpa apenas por eu conhecer muito bem o original e não ser tão facilmente enganado quanto as outras crianças.

Teve um Mickey que eu me lembro muito bem, sempre me lembro, era igualzinho a todos os outros. E eu não queria chegar perto dele. Em primeiro lugar, porque não era o verdadeiro. Nem parecia. Era alguém, vai saber quem, com uma fantasia de pelúcia, ridícula, e encardida, que mais parecia de lagartixa. Mas reconheciam-se aquelas orelhas redondas, são um verdadeiro logo. Era mais rato do que o camondongo do gibi: sujo, fedido e nojento. Essas fantasias são sempre assim. Imagino que fiquem guardadas todas no mesmo depósito imundo esperando o dia da promoção da loja.

Me admira que, se o sujeito não estivesse com aquelas orelhinhas de pretas redondas, ninguém, tenho certeza, nenhuma mãe o deixaria chegar perto de uma criança. Mas, vestido assim, empurram os filhos para eles: “Como você é bobo! Vai lá! Está com medo. Ele não vai fazer nada. Você vai ganhar pirulito.”

Meu irmão é mais novo do que eu. Na época, era bem pequeno. Ainda concordava com tudo que a mãe dissesse. Ele foi. A mãe parou de insistir comigo, feliz por já um dos filhos ter concordado. Tinha então a desculpa para ela também ir brincar com o rato. O caçula foi reto atrás da mão que distribuía os doces. Ela não. Quis conversar, abraçar, brincar com as orelhas, perguntou pela Margarida. “Minnie”, corrigiram-lhe a indiscreção. Quem corrigiu não foi o fantasiado. Esse não fala como o original, da televisão e dos quadrinhos. Só acena. Sorte ainda não terem inventado celulares com câmera digital. Ela passaria meia-hora tirando Mickey Mouse Selfies.

Voltaram. Eu já enfastiado de esperar. Não sei se ela estava satisfeita. Acho que só voltou porque não achou correto deixar sozinho o filho sem-graça que não quis brincar com o rato. Mickey não era rato, era um camundongo. São animais diferentes, não se cruzam. Aquele ali sim, era um rato.

O irmão trouxe na mão dois pirulitos, o dele e um que a mãe o fez pedir em meu nome: “Para o envergonhado ali.”

Eu disse para a mãe guardar, ou pegar para ela. Não quis nem o pirulito. Eu preferia o cachorro-quente que ia ganhar na volta pra casa da avó, acompanhado por um gibi.

Rosas Amarelas

Minha avó tinha um pequeno jardim na frente da casa. Pequeno mesmo, três metros por três, ou coisa que o valha. Quadrado. Em torno dele, um caminho cimentado de, talvez, meio metro de largura, calçado com lascas grandes de cerâmica vermelha, cor de barro, servia de moldura.

Por dentro, ele era cortado em quatro por duas diagonais de cimento, que se encontravam no meio, numa espécie de rotatória. A rotatória mais os quatro pedaços formavam então cinco canteiros, bem colados, delimitados por uma borda de uns cinco centímetros de altura, o suficiente para a água da chuva e da limpeza do jardim não invadi-los a revirar a terra.

As diagonais cimentadas e o anel em torno da rotatória central eram muito estreitos. Só quando eu era muito pequeno, conseguia andar por eles. Na época, as flores coloridas, mais altas que eu, cheias de insetos, formavam um cenários surrealista, fantástico. Aproveitava quando era o caçula e só eu conseguia correr por ali no pega-pega. Atravessava outro mundo. Um sendero perdido. Acordava pra realidade ao me machucar nos espinhos. Eram muitos.

Jardim

Dos adultos, só a avó, muito magra que era, entrava ali. Com cuidado, volta e meia se machucava. Tinha problemas com cicatrização. Passava depois, horas, apertando a ferida com a mão até parar de pingar. Entrava para cuidar de suas flores.

Era bastante variedade, a maioria flores baixinhas. Dálias, margaridas. Num canto, tinha uma florzinha esquisita, de folhas brancas carnudas, pareciam pedaços de fruta. Minha avó dizia que era flor-de-cera, que se ficássemos segurando, derretia. Com pena dela, nunca tentamos.

As plantas grandes eram as roseiras. Ela gostava de rosas. Altas, mais de metro e meio de altura. São bonitas, por isso os espinhos. Vermelhas, rosas claras, a maioria, brancas e, as principais, as amarelas. Hoje em dia já é mais ou menos comum, mas na época eram raras. Volta-e-meia alguém batia palmas no portão pedindo uma. Ela oferecia um pedaço de tronco, para plantar. Quase sempre recusavam, queriam só uma flor. A avó cortava e entregava, contrariada. Queria que mais gente tivesse rosas amarelas. Não entendia as pessoas quererem mas não as plantarem.

A avó cuidava com cuidado, vaidosa de suas rosas. Usava esterco de coelho. Depois, quando minha outra avó, sua fornecedora de esterco, morreu, ela passou a usar esterco de cavalo. Comprava do peixeiro que passava às quartas-feiras, de carroça.

Quem podava era seu irmão, meu tio Porphírio, com o podão, uma tesoura forte, que servia também para cortar os ossos do frango do domingo. Ele guardava para nós as forquilhas que cortava. Gostávamos, as crianças, das roseiras para fazer estilingue. Para atirar em latas, não passarinhos, que isso não faríamos. Ai de quem cortasse uma forquilha de roseira sem autorização.

A avó regava com a leiteira. Fazia trabalho de formiguinha, buscando um pouco de água, regando devagar uma roseira, olhando-a, depois indo buscar mais água para a próxima.

Roseira

Uma vez, ela estava dormindo na sala depois do almoço, ouviu chamarem no portão. Conversou um pouco pela janelinha da porta da sala, era alguém pedindo uma rosa amarela. Ela foi na casinha dos fundos, no quartinho que foi das ferramentas de meu avô, pegou o podão e foi para o jardim. Eu estava no quintal, sentado embaixo da pitangueira, lendo. Vi ela passar para o quartinho, depois para o jardim. Daí a pouco, ouvi um desaforo e barulho do metal da do podão. Fiquei preocupado, fui olhar o que era.

A avó, furiosa, atacava as roseiras com a ferramenta. No chão, todas as rosas já estavam cortadas. Todas, independente da cor. Os troncos pelados. Sobravam só alguns bracinhos com folhas. Aquelas folhas verdes bordadas de espinhos. Não tinha mais ninguém no portão.

“Quê foi?”

A avó, como se eu tivesse desligado a chave, parou de cortar. Pôs a ferramenta no bolso do avental e, visivelmente brava ainda, começou a arrastar seus tamancos de volta pra sala. Não conseguiu levantar o braço cansado para pôr-me a mão no ombro. Eu a segui sem precisar disso.

“Quando eu fui dar a rosa, a mulher disse que era pra macumba. Ainda fez cara como se eu fosse uma retardada por não saber disso. Macumba com rosa minha, ninguém mais faz.”

E ela nunca mais encostou no jardim.