Colorblind

Sempre me pergunto se sou. Café preto. Ovo branco. Ovos naturais são vermelhos. Estou pronto? Estou bem?

https://youtu.be/ErreyYBqa3Y

O teclado não é ágil o suficiente para domar a manada disparada de elefantes e outros gigantes selvagens que dançam num círculo atormentador em torno de minha cabeça quando estou vivo.

O tremor de suas patas pesadas no chão. O sobressalto de suas onomatopeias inusitadas a meu ouvido. O susto desse monte de fantasmas imensos, muito maiores que meu espírito, a passar me causa.

Danço com rinocerontes alucinados estáticos, na montanha de gelatina que sempre foi minha vida.

Meu desespero é também o seu, que, diferente de mim, senta-se acomodado à janela de seu apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

Mas eu não aceito menos que ser atropelado por megatons.

Sangue

À porta do quarto grande de cortinas brancas fechadas, o tom bege avermelhado da decoração, iluminada só pelos dois abajures da cabeceira da cama e pela televisão muda sintonizada na novela, lembra um quarto de hotel onde se teme flagrar um casal ao início de algum ritual romântico. Um passo para dentro e o cheiro de algodão, gaze, lençol lavado a quente e álcool em gel chamam à realidade antes mesmo de se ver a cama, para uma só pessoa, amparada por grades de dois palmos de altura.

Não há visitas, graças a Deus, que nestas horas só atrapalham. Mas no aparador próximo à janela, estão duas garrafas de vinho, fechadas, e uma cafeteria, cheia, que, se ele puder se levantar, talvez gostasse de experimentar.

Do senhor deitado nela, a careca e a testa são o que está mais pálido. As bochechas, mesmo tendo passado muito tempo protegidas do sol pela barba, que só foi tirada há cinco dias quando entrou nesta quarto, ainda têm alguma cor, até porque ele, enfastiado, de vez em quando mexe a cabeça de um lado para o outro, a olhar para a porta, para a cortina, para a televisão. As bochechas tinham alguma cor rosada mas era da fricção contra a fronha.

Uma enfermeira está com a agulha enfiada no acesso do interior de seu cotovelo direito. Ela tem os olhos bem próximos da seringa. Junta-os como vesga para prestar atenção ao sangue que vai extrair. Mas o líquido que vem parece um chá fraco só avermelhado.

Ela logo olha para o médico com cara de contrariada como a apontar-lhe alguém que lhe fazia um desaforo e dizer-lhe: “De novo. Desisto.” A seringa enche rápido daquela aguadilha. Ela tira a agulha brava, com pouco cuidado.

O sujeito deitado está, como esteve durante o procedimento todo, procurando pelas paredes coisa melhor para fazer, uma sombra que lhe distraia. Alguém que lhe disse “Acabou, pode ir embora.” Ao que ele responderia “Para onde?”

O médico sai enquanto a enfermeira joga fora o material descartável. Volta com uma maleta plástica verde. Coisa cafona que parece comprada na 25 de Março. Ele a põe sobre o criado-mudo e abre. Na verdade, é uma máquina de escrever portátil, verde mesmo, mas de metal. Só a tampa e o fundo são do plástico que parece de loja de traquitandas.

Na parte de cima deviam estar os martelos dos tipos. Para quem nunca viu uma máquina de escrever: quando se aperta uma tecla, ela faz funcionar um martelo que bate o tipo (o carimbo da letra) de encontro à fita de tinta e ao papel. Em vez dos martelos, há tubos, desses de sonda, de soro. No lugar do carro (carro é o rolo onde se prende o papel), há um cilindro de vidro com um líquido leitoso.

O médico, a enfermeira e mais dois ajudantes que vieram procurar serviço, colocam agulhas descartáveis nas pontas dos tubos e os espetam em sua testa. Firmam com esparadrapo.

A enfermeira puxa uma cadeira e tecla algumas letras. O líquido leitoso borbulha. Parece leite fervendo embora perceba-se que não, pois se fosse embaçaria o vidro. O médico se mete e, em pé a seu lado, bate umas dez vezes a mesma tecla. O sujeito se inquieta, mexe a cabeça, de saco cheio. A enfermeira começa a teclar no ritmo de quem pensa sem pressa para escrever uma carta.

Lá pela terceira ou quarta linha, o sujeito pára de vez de se mexer, o rosto deitado de lado, olhos em direção à cortina. Talvez esteja vendo as garrafas e a cafeteira. O olho percebe-se que não está morto porque ainda tem aquela cor, aquele preto lustroso que cismam chamar de castanho escuro. É pela cor que se percebe que faz foco, que olha distante, contemplativo, encantado por algo que não vê.

A enfermeira lembra que já viu esse olhar em pacientes em choque após acidente. O médico se lembra de casos dos quais apenas ouviu falar, e que sempre acreditou serem lendas, de gente enterrada viva em estado catatônico.

Os dois acham que estão perdendo tempo e falam em desistir. Mas continuam porque percebem que ele mexe os olhos incomodado, e que a primeira lágrima escorre deles.

social.apps

Esses aplicativos sociais para se conhecer pessoas online próximas para conversar parecem aqueles antigos rolos de filmes, slides, maços de figurinhas repetidas que esperam que as crianças lhas tentem trocar ou disputem no bafo para poderem, finalmente, descansar coladas no álbum. Rosto após rosto sem muita explicação sobre de quem são, o que gostam, de que conversam, tirando uma ou outra garota que coloca os manjados: “Procuro relacionamento sério”, “Estou de de bem com a vida” e “Odeio falsidade.” Ninguém diz que gosta de tomar café da manhã na padaria conversando com o Seu Manuel ou uma cerveja ao fim do dia, com os colegas de trabalho, para rir das esquisitices dos clientes. Ou mesmo que tem gostariam de viver de fazer bonecas de pano ou que se encantam com os passarinhos nas árvores do quintal. As fotos quase todas, bonitas ou feias, são vazias e não remetem a ninguém. As mais interessantes, mas imagino que também sejam as de menos sucesso, são as dos muito tímidos e problemáticos que, no lugar de suas cars, colocam paisagens, flores, mensagens da Lollypop.

Eu passo o dedo alucinado de baixo para cima fazendo o carrossel de fotos correr feito doido, como o máquina de caçar níqueis, enfastiado de tantas fotos que não me dizem nada e das poucas legendas, que dizem menos ainda. Uma foto que passa na correria me chama a atenção e eu volto o carrossel na contramão para encontrá-la de novo. É da colega do trabalho. A foto parece desatualizada (claro que é, só os muito jovens colocam fotos atuais) e foi mal batida. Faz-lhe parecer gorda. Talvez apenas denuncie pois, embora eu não ache, já se referiram a ela para mim como “tua amiga gordinha”. Não resisto à tentação de dizer-lhe que troque a foto, que ela não lhe faz jus, que deve ter sido mal batida pois pessoalmente ela é muito mais bonita. Parte do irresistível da tentação é imaginá-la encabulada por ser reconhecida no aplicativo. Ela fica mesmo e tenta justificar a foto dizendo que é a sua melhor. Eu brinco mais e ela foge rindo.

Uns cinco minutos depois, ela volta parecendo assustada por uma ficha que caiu tarde: “Mas por que você estava olhando esse aplicativo? Você é casado?” A resposta eu já tenho na ponta da língua. “Mas você esta nesse aplicativo para fazer algo que gente casada não possa fazer? Pensei que ele fosse para encontrar pessoas para conversar.” Ela ficou sem reação como se a pegassem no pulo. Mudou o assunto para se eu entendia de fotografia. Não entendo mais do que o suficiente para dizer se gostei ou não. Da foto dela eu gostaria se fosse mais parecida com ela.

Realmente foi a primeira vez em que mexi naquele aplicativo. Havia olhado outros na mesma semana. Pareciam filas de gente encalhada na saída da balada esperando que que alguém lhes convidasse para uns amassos no estacionamento. Removi cada um depois de cinco minutos olhando do que se tratava. Esse foi o último, me pareceu um pouco diferente. Ainda assim, o removi no dia seguinte.

imagino porque não existem aplicativos ou sites para quem só quer conversar. Ou por que não fazem sucesso. Talvez todo o mundo queira mesmo só fazer coisas que gente casada não possa fazer.

Rua da Miséria

A casa está toda fechada, inclusive a cortina de pano grosso, quase cru, na janela da frente que, única sem veneziana, deixaria passar luz ou o olho do curioso. A cor bege pálida já muito gasta pela chuva que caiu desde a última pintura é muito diferente do verde e do rosa antigos. As roseiras amarelas não existem mais. Pensei que fosse crime derrubar. Só a porta da garagem ainda é igual, branca, também fechada.

Eu subo a avenida, o caminho de todos os dias para a escola. Ela agora parece mais plana. Até soa estranho falar em subir. A rua da escola sim, essa continua uma boa subida. Mais fácil que antes porque minhas pernas já são maiores. A escola também está toda fechada, trancada, mas na esquina ainda há o quadro dos telefones. O usávamos de escada para pular o muro ou de poleiro para olhar por cima. É isso que faço agora, de novo, depois de tantos anos. A quadra a escola, lá embaixo, depois do muro, parece bem menos do que antes. O cimento que me esfolava os joelhos e cotovelos quando caía deve ser o mesmo, mais gasto agora pelo uso e por, tenho certeza, nunca o terem remendado. Puseram uma grade dali para o pátio. Deve ter sido ideia de algum professor que teve seu carro acertado pela bola de handebol. A luz está apagada. Não dá para ver se ainda estacionam carros. Nem se ainda há alunos, serventes ou professores. Só os vejo na minha imaginação, que se diz memória, jogando, sentados aos degraus da arquibancada ou aquecendo os braços a tacar a bola contra o muro da subida. Não os ouço, que imaginação ou memória não falam tão alto, quiçá sejam mudas. Mesmo o barulho das bolas, dos passos, da saliva nos beiços dos casais. Nada tem som. Talvez essa imaginação memoriosa seja também fantasmagórica, tudo isso seja um mundo de fantasmas no palco já bem diferente que é o presente, seu futuro. Esses fantasmas, onde estarão seus corpos agora, seus ossos? Ainda têm carne, estão vivos? Serão então outra coisa, à parte dos fantasmas que vejo.

Não quero andar outra subida. Contorno a escola pela rua do posto de saúde. Passo em frente ao portão do campo dos padres, onde a criançada perdia o cabaço no meio do mato. A igreja antiga, que nem existe mais. A catedral tão grande e de um silêncio ressonante que não sei explicar.

A rua principal, cortada pelo jardim pouco antes da escadaria, parece aquelas alamedas clichés de filmes de terror. Os degraus largos, vinte ou trinta, nem são muitos. A sacada, antes da porta, de onde meu pai assiste à missa todo domingo à tarde, essa continua igual, exceto por não estar lotada. Na verdade, está vazia, assim como toda a igreja. Não é dia de missa, nem de catequese. Não se distribui pai. Nem sei que dia é. A estante das velas, não a reconheço. Queria acender uma. Mas, chegando perto não lhes sinto o calor, nem ouço o barulho do fogo queimando o plástico que as embala. Devem ser fantasmas também.

E, como fantasmas, não existem. Não existem no presente. Ficaram no passada que é a única coisa que conheceram. Cada um revive o seu, sem se trombar, solitários assim. Não chegam ao presente. Não têm futuro.

Espaço

The space around the stars
Is it something that you know?

Precisava de espaço. Anda pela rua, sente como se se desfizesse de um roupão pesar que lhe cobrisse o corpo, não sabe por que, por obrigação talvez, depois do banho que não tomou.

Atravessa a avenida e pisa na areia, acende com dificuldade, por causa do vento teimoso, o charuto na boca. Está na praia à noite. Faixa larga de areia. Escuro, muito escuro à sua frente. Areia limpa. Contrastam tanto com a luz da vida da cidade que deixou para trás quanto com a sujeira que vê ali pelo dia.

A noite ali é dos namorados, fria, escura, quase solitária, se não fosse antes uma pretensa isolante do que eles esquecem para trás, no asfalto da rua e no concreto dos prédios e das calçadas.

Acende o charuto que traz ao bolso. Norwegian Wood. A música dos Beatles na voz do Milton. Ele traz no telefone e ouve agora nos fones. Não presta atenção à letra. O canto parece de alguém que está à vontade. Sente-se à vontade. Que assim é quando resolve fotografar suas pegadas, uma flor no arbusto, ondas que a lente da câmera do celular não distingüe direito. Anda devagar para a água, curtindo a música, a voz, o gosto do charuto, o frio da noite que ele pode sentir sem que lhe digam que é ruim.

Está apertado, já estava antes de vir. Raciocinando simples como criança, chega perto do mar. Mija. A início com medo. Mas logo tem um grande prazer ao perceber que não está ninguém para incomodar. Aí sim mija gostoso. O primeiro prazer é esse. O segundo é o próprio mijar. Deixar suas partes baixas, soltas, à vontade, fazerem o que querem. É um desabafo de liberdade que lhe sabe estranho. Estranho mas saboroso.

O céu, as estrelas. A fumaça que sobe do charuto. As estrelas são braços no céu. Estendidos. A fumaça sobe em rolos como eu faria dançando uma valsa, bêbado.

Gira duas voltas. Quer um aabraço. Abraços desequilibrados e vertiginosos, rodopios, pés que pisoteiam com mal jeito, certo esforço, a areia. O espaço é tanto, as estrelas tão distantes, não lhe alcançam, não abraçam, não lhe esquentam.

Desesperado, acho que isso era desespero, roda louco, valsa feia e desengonçada, gira e gira, naquele passo de valsa que é o único que as crianças imaginam, até cair. Um casal de adolescentes, passante, oferece ajuda, preocupados com o que não entendem e tomam por bebedeira ou doideira de droga. É sim o frio. O frio de não ter abraço onde esquentar seus braços. De não ter outros braços ou costas onde procurar algum calor. Mas é também loucura de ainda poder dançar de desespero por isso.

Liberdade, traição, desejo, conforto. Tantas definições de dicionário e de revistas femininas ou de adolescentes. É só no mar, na areia e na fumaça que sobe do charuto que parece identificá-las com clareza.

Ainda assim, não as conseguiria explicar.

Ódio

O ódio não é nada além daquela morte que nasce dentro do fígado, do coração decepcionado. Que arrasta a merda, a frustração, as próprias entranhas, feridas e furiosas de si mesmas, pelo pescoço, para a cabeça, para saírem pela boca. Saíssem antes pelos olhos ou ouvidos. Força que você não teve quando precisou mas que aparece agora, para que lhe chamem animal, coisa horrível que você sabe que é. Odiosa. Mal colocada neste mundo que, meia hora depois, fumo e álcool na cabeça, você de novo chora e tenta se convencer, até que consegue, de que é coerente e que você é que não devia existir.

Ódio é aquela brasa que consome o teu charuto, que pode ser você ou algo sobre o qual você não tem controle, como você mesmo. Que faz fumaça e deixa gosto bom na boca, na língua, até que você se arrependa. Mas aí já é tarde.

Ou não é.

Ou nem tem porque ser.