saudades

Saudades que batem dos trens que passaram para vários destinos e não peguei. De tantas festas, tantos carnavais que não me fazem falta. Da perna que nunca quebrei. Da vergonha que nunca passei. Do filme ruim que assisti anos depois da estreia. Da cadela de estimação que o pai enterrou por mim. Do caixão de meu irmão que minha mãe me pediu para não acompanhar. Da comida sem sal da avó e do time ridículo do avô.  Da professora que elogiou meu verso, da que ficou zangada por eu não querer escrever e da que ficou vermelha quando percebeu que eu escrevia sobre ela. Saudades do vacilo com a mina de quem eu tanto gostava e recusei até mesmo beijar porque, trouxa que sou, achei que tinha obrigação maior a cumprir. Saudades de quando eu fôr muito velho e tiver só saudades para me fazer sorrir. Saudades de não estar agora cansado a ponto de me arrepender de ir-me ao cansaço. De não aparecer para te dar boa noite ou ao menos dizer que vou ter saudades. Saudades da lua que, por certo, não aparecerá na noite de amanhã e das estrelas que não me importam se não houver lua. Do medo. Do choro do arrependimento. Mas desse não preciso ter saudades. De qualquer jeito ele vem…

Correio Elegante…

… do veterano para a menina nova.

An ever-growing post.

Eu venho até aqui a pé porque gosto de andar e, quando ando, gosto também de pensar na vida, nos problemas todos que eu mesmo crio para minha cabeça. Acho que são muitos e, por isso mesmo, venho devagar, olhando a paisagem urbana da avenida mas sem lhe dar atenção.

Nesta época do ano, primavera, verão, por estas horas ainda não escureceu, não há lua ou estrelas. Por isso não gosto de horário de verão. Prefiro aproveitar cedo o escurecer, as noites de vento fresco, o céu escuro sem nuvens, com vista para a lua e as estrelas. Ainda com sol, o caminho fica insosso. Sem beleza para me distrair, me sobra pensar nos problemas e nas paisagens que tenho guardadas na memória e na imaginação.

Quando chego, ainda longe, na outra ponta do corredor, eu sempre fico ansioso em saber se você está, para me dar boa noite, mesmo sabendo que você não é de faltar e que é pequena a chance de não te ver. Ao mesmo tempo, fico envergonhado de que você ou suas amigas percebam e me achem ridículo. Passo tímido, acanhado, sem jeito, dissimulando. Me apresso, me atrapalho. Finjo que não te procuro. Acho que, além de ridículo, muitas vezes, acabo por fazer papel de grosso e parecer que não me importo ou que fujo. Se fujo, é de mim mesmo, de minha criancice de quem se acha no direito de ainda agir como adolescente bobo porque, na verdade, espero o dia inteiro por essa hora em que, mesmo eu envergonhado, vejo teu sorriso alegrar minha noite como se fosse a lua. Meia lua, lua crescente, brilhante, bonita e simpática.

Tem gente que, graças a D”s prefere outras coisas da noite. Tem até mesmo quem goste mais do dia. Eu gosto desse luar de teu sorriso com o brilho das duas estrelas que são teus olhos e, ao redor, o céu escuro e limpo de seus cabelos.

É por isso que, entre uma atividade e outra, não consigo evitar (bom, na verdade, nem tento evitar) de olhar curioso, disfarçando, meio de soslaio (você sabe o que é soslaio?), na direção onde sei que você fica, te olhar um pouquinho, mesmo que seja só para te ver de costas, distraída ou ocupada com suas atividades. Gosto de te ver de lado quando olho assim. Não consigo ver teu rosto, não ganho sorriso, mas também não fico com impressão de te atrapalhar procurando atenção. E, em compensação, vejo o contorno bonito teu corpo, teus cabelos lindos, que combinam com o uniforme e me dão vontade de brincar.

Duas ou três vezes (acho que foram duas), eu nunca vou me perdoar, cheguei tão acanhando que consegui que você não me visse entrar. Numa dessas vezes, a última, você, acho que no caminho para ao banheiro, me viu e parou para conversar. Depois na saída me deu as mãos para, antes de eu ir embora, puxar uma conversa que eu não engatei, tímido de novo ou com medo de que depois alguém te enchesse o saco por isso. Ainda assim, antes de fugir, senti teus dedos deslizarem devagar pelos meus, fiquei confuso (não sei direito porquê) mas feliz.

Hoje mesmo, algumas semanas depois disso, ainda estou chateado por meu vacilo. Devia ter arriscado ser inconveniente até você me expulsar dali. E, como condição para te deixar em paz, pedir teu telefone para conversar depois sobre minhas idéias fixas.

A primeira ideia fixa me parece até meio boba, porque é algo tão simples, e acho também que é a que mais quero. Com a mão, soltar teu cabelo, arrumá-lo para trás da orelha e descer para teu rosto, segurá-lo como se pousasse sobre um travesseiro.

Depois vem a ideia mais óbvia e que também é a que me deixa mais constrangido de contar porque se você levá-la a mal pode se ofender e não tenho intenção de fazer nada que possa ser ofensivo. À primeira vista, é tão simples e espontânea que não devia ninguém se envergonhar dela ou por ela. Penso em você sentada em meu colo, de frente para mim, para eu pode ter abraçar com as mãos em tuas costas e beijar se você tiver vontade também.

Por último, a que me parece mais legal. Andar devagar, tem de ser à noite, uma caminhada bem demorada, à procura de um restaurante, ou um café, um teatro ou um parque, por um caminho de céu limpo com lua e estrelas, conversando fiado. Você me contando as coisas de que gosta, o que faz quando não estou te espiando, o que te deixa feliz é o que te deixa triste, qual sua cor preferida, se tem algum bicho de estimação, como comemora teu aniversário, onde passou as últimas férias…

Como se fosse um de meus antepassados descobrindo os segredos da navegação no céu do Atlântico e do Índico, com sextante, astrolábio, mapas e tantas outras ciências, muitas delas já perdidas na história. Andar a teu lado conversando, como navio seguindo uma estrela no oceano.

2018

Tanta coisa aqui que eu comecei e não consigo terminar. Acho que já tem um mês ou quase isso que não termino de escrever nada para postar aqui. Nem consigo terminar a lição de casa que me deram (na verdade, não sei se não consegui ou se a porcaria que fiz era a esperada mesmo),

Acabo de remover o WhatsApp do telefone para não receber mais votos automáticos de ano novo das pessoas que não suporto, mandei três (pelo Facebook) para pessoas que não posso deixar que pensem que as esqueci, tomei quase uma garrafa de moscatel do Vêneto (pra quem gosta, deve ser bom), briguei com a mulher e desci para fumar um Cohiba e tentar postar algo. Nisso chegou 2018. Agora estou aqui no quinta, a ponta do Espigão, fumando (aliás, este charuto me deu uma saudade de meu avô) enquanto lá pela minha terra estouram estas porcarias de fogos.

É, parece que 2017 foi melhor que os anteriores.

Eu queria mesmo ter algo de novo para dizer, mas tudo já foi dito várias vezes. Não há novidade nenhuma da primeira linha já escrita até a última que ainda vou escrever. Eu procuro, penso, imagino, mas a vida continua este lenga-lenga repetitivo e sem sentido.

E se tudo já foi dito, suspeito que o que falte seja ouvir…

E então…

Você acorda no meio da madrugada, se é que por pouco tempo que fosse tenha conseguido pegar no sono, pisca os olhos arregalados, presta atenção na luz de faróis que entra pelas frestas da persiana e corre pelas paredes, pelo armário e pelo teto, preocupado em não perder a hora de sair para o trabalho hoje e inquieto, sem saber, se terá de se preocupar em não perder a hora nos próximos dias. Se já fosse de manhã, esquentaria água para passar um café e se sentar com o copo de massa de tomate cheio dele, bem adoçado e quente, na soleira da porta, olhando as crianças passarem no caminho para a escola. Como ainda não é, senta na cama mesmo, pega o telefone e procura na internet vídeos usando palavras usando palavras que não tem coragem de deixar sua família ou amigos saberem que lhe excitam.

Fica no trabalho na segunda-feira à noite sozinho, sem coragem de procurar se há mais alguém como você que não tenha um compromisso ou um motivo para voltar para casa no dia mais odiado da semana. Repassa o status de tudo o que os colegas tem atrasado ou pendente e também de tudo com que deviam se preocupar. Em ter para quem comentar, esbraveja para si mesmos que são um bando de vagabundos e incompetentes e envia vários e-mails cobrando e chamando a atenção de todos para coisas que você finge serem da sua conta. O chefe já está em casa, mas daí a alguns meses o elogiará pela compromisso com a empresa.

Mas, ainda no dia seguinte, frustrado com mal-humor desse mesmo chefe e com os colegas que, em vez de trabalhar, falam de futebol, sai para fumar cinco ou seis vezes. Olha os carros passarem na rua pensando em como esse pessoal pode estar passeando em pleno horário comercial. Olha também todas as mulheres que passam e não sejam feias, surpreso com o pensamento de que é possível que todas tenham vida sexual. Não consegue imaginar que sejam todas elas capazes de fazer o que, sabe-se, todo adulto é capaz. Surpreende-s ainda ao pensar que o mais provável é que a maioria realmente faça e que muitas delas façam inclusive as coisas que ele nunca fez. Bafora a fumaça como se ela fosse vapor de panela de pressão que foge pela válvula da tampa enquanto o feijão cozinha. Olha a fumaça se dispersar pensando se quem o vê ali consegue também imaginar o que ou deixa de fazer e acreditar ou duvidar disso também.

Na sexta-feira, depois do chope com os colegas que xingou na segunda, quando todos se dispersam para cuidar das próprias vidas, vai dali para outro bar, perto da zona esse. Pede algo que lhe parece forte e distinto. Senta-se ao balcão e não para de olhar para os lados, para as mesas, para o pessoal que fuma na calçada. Procura mais alguém que também não tenha nada para fazer. Não encontra. Dois bêbados noutros bancos ao balcão e uma meia dúzia que fuma na calçada gritando e já sem coordenação para encher o próprio copo lhe incomodam e dão pena. Pede mais uma dose, mais outra. Fala consigo mesmo sobre o que pensa de todo mundo e, por fim, já chutando o balde, de saco cheio de tudo, o que pensa de si. Percebe que é mais um dos bêbados do balcão e imagina que, patético, apenas incomode e lhe tenham pena. Levanta o copo para matá-lo, mas bebe devagar olhando o círculo molhado que ele deixa no balcão.

sol

Juro que parei de tentar entender a lógica do mundo, o como e essa história de se há um porquê das coisas acontecerem ou um plano divino para tudo. Não sei quantos mundos existem por aí, nem quero saber, mas ao menos este em que vivemos é caótico, definitivamente.

Imagine este sujeito. Ele passou as últimas duas, ou mesmo três, semanas pensando em quanta asneira faz, e aliás em como só faz asneira. Não conseguiu prender a atenção a nada que precisasse, distraído com problemas que nem devia ter.

Frustrado, resolve ir para casa mais cedo na sexta-feira. Antes de chegar à calçada, desiste desalentado, acha melhor tentar se distrair com o trabalho. Não consegue, claro que não. Quando percebe isso, passa raiva com o trânsito e o metrô lotação no caminho de volta. Parece-lhe ser a única pessoa da rua a voltar para casa quando todos os outros emendam ou saem para a noite. Tenta aproveitar a sexta-feira parando para beber algo, mas desiste e só compra uma garrafa de vinho para beber em casa em, sozinho à noite. Se calhar escreve algo para se distrair.

Desanimado, arrependido e frustrado, chega em casa, toma banho e se deita antes mesmo de escurecer. Maldito horário de verão! A idéia não era dormir, mas foi o melhor que lhe podia acontecer. Acorda perto da meia-noite, sem nada para fazer, procura um filme na televisão, no qual não presta atenção nenhuma, e bebe o vinho devagar amaldiçoando a vida quase tanto quanto a si. Depois da garrafa toda, do filme e de mais alguma besteira dessas que passam de madrugada, volta para a cama a revirar-se abraçado ao travesseiro até conseguir pegar no sono, já amanhecendo. Isso parece se repetir até acabar o fim-de-semana.

Chega no trabalho na segunda-feira e, primeira coisa, vai tomar um café (segunda e terceira também). Distrai-se com o telefone, alguma besteira sem importância, nem se lembra. Parecem-lhe poucos segundos isso. Mas é engraçado, e você já deve ter reparado nisso, como em poucos segundos de distração, minutos podem se passar e perdermos coisas importantes. Quem já deixou o leite ferver e derramar sabe disso.

Mesmo que tenham sido só segundos, foram o bastante para alguém, por trás, lhe cobrir os olhos com as mãos. Essa é uma brincadeira que se costuma fazer com criança, fingindo ser difícil para ela descobrir quem chegou. Mas os colegas falavam alto sobre futebol no café e ele não conseguiu ouvir a voz que provavelmente lhe disse o consagrado “Adivinha quem é.” Não ouvindo, não pode reconhece-la.

Gesto involuntário, que acho que ele faria mesmo se tivesse ouvido, pôs suas mãos sobre as que lhe cobriam os olhos e, ao tocá-las, soube de quem queria que fossem. Teve medo de falar e de se entregar. Falou alguma asneira, sempre fala uma, afinal de contas tudo começou com ele pensando em quanta asneira faz, não seria agora a se redimir. Ela riu de papel de bobo enquanto afrouxava as mãos para ele se virar e ver.

Antes de se virar, ele identificou ao mesmo tempo o perfume e a risada e, com essa pistas, a textura das mãos que não quis deixá-la tirar, mas deixou. Seu coração de pronto se alegrou da surpresa da brincadeira e da coincidência de ser mesmo quem ele imaginou.

Virou-se para a abraçar e viu o sorriso lindo que iluminou sua semana como o sol aparecendo do meio das nuvens.