Tumor

São dois cirurgiões na sala de operações. A cirurgiã principal vem acompanhando o paciente periodicamente em seu consultório foi quem indicou a necessidade da cirurgia. O residente, com quem conversa sobre o caso e a quem explica as complicações, implicações e indicações. Além deles, há anestesista, instrumentista, assistentes e paciente.

Pela conversa da cirurgiã com seu residente, a operação não parece complicada, ao menos para alguém que vive disso. Um cirurgião (cirurgiã) cardíaco. Quantos corações ele opera por ano? Quarenta? Cem? Duzentos? Não faço idéia. Mas que seja uma dúzia, ainda assim deve haver procedimentos que lhe sejam corriqueiros e outros que demandem mais cuidado e estudo por não serem tão familiares ou por serem difíceis mesmo.

Este parece ser um procedimento desses mais corriqueiros e que não demandam técnica rara. O paciente está na casa dos trinta, aparenta boa forma física, saúde, mas tem a condição é grave. Há algo no coração, um tumor ou coisa que o valha. Algo muito ruim que lhe compromete as funções com agressividade e que os médicos por experiência sabem não valer a pena tentar identificar antes de extirpar.

A medicina avançou a esse ponto em que sabe inúteis seus diagnósticos frente à urgência por ação e resultado. Não tanto quanto à correção de seus procedimentos, é certo. Ainda há muita discussão sobre qual o correto tratamento para cada caso e se tais e tais tratamentos mais ajudam ou mais atrapalham e sobre onde residem as verdadeiras causas de alguns males. Ao menos há estratégias, ainda que sejam orientadas por estatísticas. Hoje opera-se o coração a este tipo de paciente. Os antigos operariam-lhe o fígado. Talvez ajudasse também. Talvez os certos fossem eles. Talvez esses pacientes bebessem tanto para esquecer da doença que matassem o fígado, por isso os médicos achassem que lidavam com doença hepática. Talvez de tanto chorarem, no futuro, outra geração de médicos, creia ser doença oftalmológica. Riem os médicos. O paciente sedado, totalmente sedado graças a D”s, está aliviado de não ouvir-lhes as galhofas.

Quem nunca viu uma cirurgia destas, costuma imaginar os médicos como compenetrados relojoeiros, com lentes, pinças e outros equipamentos todos da mais alta precisão, trabalhando microscópicamente como quem escreve um nome num grão de arroz. Quem vê pela primeira vez, não consegue evitar de se impressionar com as serras de marcenaria, algo que parece morsa mas que força ao contrário, presilhas, o tamanho das lâminas, a força, o tranco, para se separar ossos e abrir o peito do paciente, o tamanho das toalhas que secam o suor que escorre da testa da cirurgiã, as piadas e esforço de oficina. Não é coisa para qualquer um, para qualquer médico. Não basta estudar e treinar. Precisa ter força. Força e estômago. Não é fácil abrir o peito de alguém. Quase tão difícil quanto — quem já tentou, imagine — abrir o próprio peito, o coração, a outra pessoal, nem digo “a si mesmo”, porque isso todos sabemos ser impossível.

As cicatrizes que ficam dessas cirurgias são sempre medonhas. Tortas, compridas, largas, manchadas. Impressionam. Quem as vê critica. Pensa serem resultado de relaxo. Não considera que o cru peito humano é mais forte e frágil que o de uma ave tenra a custo destrinchada e servida à família no almoço do feriado. A marca indisfarçável do peito violado oprime o amante mais do que, na literatura romântica, a virgindade perdida.

Conta a cirurgiã, como exemplo, de ter conhecido uma garota linda, corpo maravilhoso, perfeito sob o vestido de crochê canelado, sem decote, gola careca, muito justo. Percebia-se todo o desenho do seio, a marca do mamilo, o contorno e a textura da auréola. A calcinha sem costura que não marcava a pele firme do quadril e deixava perceber o formato do rego e o volume da virilha. Linda e com o corpo perfeito. Mas, após abrir-lhe o zíper das costas que lhe acompanhava toda a coluna cervical, o vestido desceu aos poucos como a cortina que se abre à frente do palco mostrando, entre os dois peitos que davam água na boca, a cicatriz. Pouco menos de dois palmos, de altura, quase um dedo de largura, pálida, mal desenhada. “É impressionante demais até para nós que estamos acostumados. Ainda bem que ela se ofendeu com minha cara, broxou e foi embora. Eu não teria presença de espírito para continuar. Imagina para quem nunca viu.”

Essa frase não saiu bem do jeito que ela pensava. Ela (pensando bem) se arrependeria depois. Falou correndo pensar. Ficou uma frase simplista assim mesmo, porque ela se afobou com o sangue que juntava no peito aberto. Um corte desses no peito verte bastante sangue. É muito esforço (e desespero) para manter limpo. Estancada a hemorragia, ou apenas sugado o sangue, mesmo os médicos nunca têm certeza, o coração está exposto.

A equipe toda olha. É uma reverência ritual que não conseguem evitar. Um órgão que trabalha tanto e representa tanto mais. “Está aqui, é bem grande mesmo.” A cirurgiã apresentou a doença que aparecia como um grande encrustado mais ou menos ao meio do órgão e que se espalhava em tentáculos que serviam de correntes ao seu redor. Além da ferida, por si só cruel e profunda, estranguláva-o.

O residente tem receio de ser chamado a intervir. “Você tira?”

A cirurgiã não pensava em deixar-lhe o crédito. Para a remoção, usou, um alicate, lâminas e um instrumento que, de tão grande, parecia uma ferramenta: um podão, a tesoura de podar roseiras, ou uma daquelas de destrinchar frango. Precisou de mais de uma hora e meia de muita força e esforço e de pouco cuidado para não machucar o paciente, foi violenta mesmo, bruta. Suava. Ainda mais quando, estressada, achou que ele merecia.

Quando tirou aquela massa estranha, de cor inorgânica mas humana, parecida com  uma pedra de onde saíam galhos retorcidos de roseira ou uma trepadeira trançada cheia de espinhos, olhou-a com respeito e bufou, livre enfim da trabalheira que teve por conta de um retardado que não se cuida.

Jogou a massa, com nojo, na bacia de metal que lhe ofereceram. Dá o diagnóstico: “Amor daninho. Era bem grande esse. Não sei como não o matou.”

O residente achou-se na obrigação de fazer algo: “Fecho?”

“Pode fechar”

“O rombo que ficou é grande. Colocamos algo nele?”

“Não faz caso. Só estanca e cauteriza. Esses tipo sempre reincidem. Antes de ficar bom, pega outro igual, talvez pior.”

 

Maze

“Sonhar acordado” é uma expressão curiosa, mas que parece mesmo se aplicar bem para aquelas situações em que estamos avoados (outra expressão curiosa) pensando na morte da bezerra (outra). Como quando dormimos, esses sonhos às vezes calham ser pesadelos, manifestações de preocupações, inquietações, lembranças mal enterradas de casos mal resolvidos (desculpe-me o pleonasmo).

Terreno fértil para sonhar acordado, voltava o sujeito para casa. Aquele caminho monótono de todo dia. O peso da nuvem de entulho sobre a cabeça escurece o céu e arca o pescoço, força a vista para baixo. Experimente qualquer dias destes e verá, perceberá, que dá para andar quilômetros assim, qualquer pessoa, quando automatiza os seus caminhos rotineiros, quando não presta mais atenção e põe o pé na rua já a pensar em uma maneira de variar, de mudar, de escapar para um mundo paralelo onde ficasse sentado no banco da praça e o mundo se metamorfoseasse a seu redor tornando-se a feição da vontade do momento. A pessoa anda, pensando, cabela baixa sem perceber as pedras chutadas, olhar ao longe sem atentar às ruas atravessadas, atenção perdida que não nota os encontrões evitados.

Foi voltando nessa perdição de nuvens de sonhos, conversas de louco consigo mesmo e rabiscos num quadro branco que ele nem percebe que pendurou à frente imaginária de suas vistas, que o sujeito, de repente, se viu num labirinto. Ele não consegue se lembrar de como chegou ali, mas de alguma forma sabe (afinal de contas, voltava pelo mesmo monótono caminho de todos os dias). Tanto sabe que, logo que levantou os olhos e viu algo diferente que não consegue descrever, percebeu que estava num labirinto, um maze, desses comuns de se ver em jardins de mansões e palácios em filmes, desenhos animados e games. Por menos de segundo, viu-se pelos olhos do iluminado, voltando ao hotel com o machado na mão. Depois pelos de um Pac Man sem bolinhas para recolher enquanto fugisse dos fantasmas.

87532b910c1d43da77b6e7fc9480b650

Olha para as paredes, iluminadas de bege pelo sol e pela lua do já finalzinho de tarde. Nem precisa prestar atenção à sua volta e já se desenharam em sua cabeça imagens e imagens de todos os labirintos de verdade e de ficção que já havia visto antes. Completou-as com os detalhes dos inexistente que achou que mereciam existir pelo requinte da elegância simplória que lhes reconhecia e também pelos que julgava serem impossíveis não existir, posto que de sua existência dependia toda a coerência do universo tal como conhecido.

As paredes são altas, uns bons metros de altura, exageradas para os labirintos de jardim de filmes, para alguns de verdade onde já esteve, onde já brincou. Logo se lembrou do de uma cidade que visitou no sul. Estreito e, ainda por cima, mal aparado. Não dava para andar sem esbarrar nas paredes dos dois lados com os ombros. A forma circular, o tinha feito compará-lo a um rocambole. Este não. Os corredores muito largos e as paredes altas, em vez de agigantarem o labirinto, apequenaram-lhe. A ele que, tivesse encontrado uma fresta, fugiria dali como rato ou barata. Mas não viu fresta, ao menos não suficiente para que passasse. Este labirinto devia ter sido construído para impedir a fuga de ratos de seu porte.

Procurou uma referência no alto. Foi então que as dimensões realmente o impressionaram. Do céu, só se via o azul pintado de poluição. Tanto o sol que se punha quanto a lua que o refletia, estavam tão baixos que não eram visíveis. As sombras eram tão longas que cobriam todo chão e também as partes mais baixas das paredes, que lhe estavam ao alcance. A luz, fraca e fria, parda, não era suficiente para que sua espinha não gelasse junto com a noite que ia chegando. Ainda assim, não havia no céu nenhuma estrela, nenhuma nuvem ou pássaro que pudesse usar como guia.

Lembrou-se do conselho de, para sair de um labirinto fechado, coberto, seguir sempre a mesma parede, dobrar as esquinas sempre na mesma direção, e só dar meia-volta se chegar num beco sem saída, ainda assim, seguindo a mesma parede.

Pôs a mão na parede à sua direita e a seguiu. Dobrou à direita na primeira esquina e em todas as outras em que pode escolher, não tirou a mão da parede, metódico como deve ser quem precisa acertar. No receio de se confundir e piorar a situação, andou de mãos dadas com a parede, com o próprio labirinto. Andou bastante, até as pernas se cansarem quase tanto quanto a cabeça, para se tocar de que essa parede não se conectava a nenhuma outra, como um biombo, que não levava à saída. Que ele andava em círculos e que já havia voltado umas quatro ou cinco vezes ao mesmo lugar.

À sua volta, as fachadas das paredes eram tão monotonamente parecidas que ele nem conseguiria dizer como percebeu que o lugar era o mesmo, que andava em círculos, mas percebeu ou, talvez por medo de assumir de vez que estava perdido, aceitou. Já havia voltado várias vezes àquela rua igual à outras, àquela parede como as outras, pelo mesmo caminho, pela mesma parede, pelas mesmas esquinas, sem saber como sabia isso. Como se reconhecesse o calor deixado por sua mão direita quando passou por ali antes. Como se desconfiasse de nunca ter saído do lugar.

Tentou a mesma estratégia com a mão esquerda na parede à sua esquerda, dobrando sempre à esquerda, com cuidado de não desgrudar dela, já estava um começou escuro de noite, pintado de azul petróleo como em desenho de criança. Novamente, mas agora já mais logo, percebeu que andava em círculos.
torchinamazePerplexo, é assim que se diz o confuso orgulhoso, parou olhando para o alto das paredes a admirar sua perdição. Nelas enfim reconheceu seu bairro, as fachadas dos prédios de seu quarteirão.

Deu a volta ao quarteirão procurando sua rua, seu prédio. Deu duas voltas. Em nenhuma encontrou sua rua, menos ainda seu prédio. Havia algo de deformado. Faltava, ou ele é quem não percebia, um dos lados do quarteirão. O seu lado.

Pensou em procurar por um vizinho, ela padaria, pela farmácia, alguém ou algum lugar onde pedir ajuda. À porta da farmácia, olha para dentro. Não havia. Não havia dentro, não havia como entrar. A frente era chapada, sem relevo, sem entrada. Não havia reentrâncias ou relevo nos muros, ou beiradas, para subir e pular para dentro de algum. Não havia quem chamar. As fachadas, os muros, as grades e portões, eram imagens chapadas, projetadas, como fotos, como slides. Pensou daqueles livros infantis em que você monta um pedaço de uma cidade recortando e dobrando, e colando, edifícios de papel, hospital, igreja, escola, inabitados,  com portas e campainhas chapados que não adiantam em nada. Lembrou-se de uma vez em que, criança, montou uma dessas sentado no coberto da área de serviço e viu uma formiga subir no mapa e caminhar pela rua, visitante, única alma viva em sua cidade-fantasma. Imaginou-se formiga desorientada numa maquete de bairro feita de papel e cartolina, decorada com recortes de revistas e canetinha hidrográfica. Bairro de predinhos baixos que sobem muito alto, grudados, como um muro de arranha-céus geminados.

Não sentia o frio da noite escura. Céu preto sem estrelas nem lua. Os prédios tinham a iluminação esperada dos postes a esta hora da noite, embora não houvesse postes. A luz não tinha de onde vir. O vento, o frio, tinham, mas não vinham. Formiga sente frio? Talvez fosse isso mesmo. E a iluminação viesse de fora dos limites do labirinto, de alguma lâmpada ou abajur da casa do menino que brincava.

Já estava cansado, cansaço de saco cheio que faz a cabeça doer.  Cansaço de não ver saída, de acreditar numa metáfora absurda, embora tenha certeza de que alguma saída existe, e de que é óbvia, e de que somente ele que está dentro não a encontra. Imagina a criança olhando de cima aquela maquete já enfastiada da brincadeira. Olhando o labirinto numa revista de atividades, dessas bem primárias que se compra em bancas de jornal. Olhando-o com um lápis colorido na mão e se achando o máximo por resolvê-lo tão facilmente. A criança marca o caminho com um risco todo torto e bem forte do lápis vermelho. Inconscientemente, ele procura o risco e não o encontra. Admira-se de ter perdido a noção e tentado salvar-se pelo que imaginou.

Imaginou mais. Os donos do castelo que tem o maze no jardim. Seus convidados em casais brincando de esconder para namorar escondido nos caminhos. O adolescente que se preocupa mais em fugir dos caçadores e sobreviver do que em passar de fase no videogame no fliperama da João Batista. Todos a olhar de cima, a verem ele e a saída que ele não via.

Mais cansado ainda por estar cansado, sabia que não ia conseguir. Olhou para os lados, para cima, procurando novidade. Uma informação nova que lhe ajudasse. Não achou, mas só se desesperou mesmo, e desatou a chorar, quando percebeu que não tinha mais nada que pudesse fazer além de se comportar como se ainda tivesse esperança.

Baile de Máscaras

Chegando ao baile, é hora de pôr a máscara. Coisa ridícula que eu vinha escondendo no bolso interno do paletó. Máscara de material sintético preto, macio, parecido com couro, cheia de filigranas feitas com strass, miçangas, paetês, lantejoulas, purpurina, essas coisas que as professoras do primário nos dizem para usar como enfeites em coisas que elas mesmas não teriam coragem de vestir. Eu rio, mal humor meu. Na verdade, apenas me sinto ridículo em entrar fantasiado numa festa. Espero que o taxista não me veja vestindo-a. Espero também que ninguém lá de dentro veja. Prefiro que não me reconheçam e não saibam que sou eu aqui pagando mico como todos os outros convidados.

Me parece tão antiquado isso. Cafona. Baile de máscaras. Todos máscarados como no cartaz daquele filme dos tons de cinzas, ou pior, como no do Kubrick. Implico com essa mania de quererem mandar nas roupas dos convidados. Todos os homens de camisas brancas e ternos pretos. Todas as mulheres de vestidos pretos. Idéia da aniversariante.

Devo ser o último a chegar. Fingi ter algo para fazer no trabalho e procurei chegar quando achei que a festa se encaminhava para o bolo e seus parabéns. Já não há mesmo mais nada salgado onde devia ser a mesa do buffet. Alguns garçons e garçonetes, também mascarados, mas de ternos e vestidos brancos, retiram bandejas vazias e limpam migalhas que me parecem ser de massa podre, de petit fours talvez.

Outra coisa que me incomoda nessas festas é não conseguir conversar. O ambiente está muito barulhento. Não dá para saber o que toca o conjunto no tablado do lado oposto ao da entrada. As pessoas falam muito, agitadas, sem que seja possível imaginar quem fala com quem. Parece não haver contato visual que dure mais do que um ou dois segundos. A atenção de quem fala, e todos falam, se volta de um lado para outro, em movimentos violentos de pescoço, que me lembram os de galinhas ciscando. Assim todos falam e não sei se tem alguém a ouvir.

De cada lado da entrada, há uma escada larga de pedra que parece mármore de pia de cozinha. Dão para o balcão alto que circunda o salão e que parece vazio. Eu subo a da esquerda, mais para fugir dos olhos que chacoalham de um lado para o outro como  se fossem chicotes, do que do barulho que, de tão alto, deixa tonto. Os olhares conseguem ser mais altos e mais estonteantes ainda.

O balcão não está realmente vazio. Ele tem vários frisos onde alguns casais e outras combinações com mais ou menos pessoas tentam focar a atenção numa conversa mas acabam todos mudos procurando atividade que os deixe menos encabulados.

Vou até o final do balcão, sobre a quina do tablado, sem encontrar um friso vazio ou um banco. Mas é um lugar onde fico razoavelmente escondido. Na beirada da mureta, se fôr preciso, com um passo e meio para trás, fujo do olhar de alguém que esteja no térreo. Uma coluna que vai do chão ao teto, enfeitada com uma cortina de camurça cor de vinho, impede que outras pessoas do balcão me vejam.

Toca um sino ou tambor várias vezes. O barulho me lembra um prato bem pesado de bateria. A aniversariante aparece no meio dos convidados e anuncia uma valsa e o brinde usando a mesma as mesmas palavras da última miss universo ao receber sua coroa.

Todos recebem taças de champanhe, mesmo eu. O garçom parece ter-me espreitado desde que cheguei para ter certeza de que eu não fugiria do ritual. Em parte fugi. Parece que somos em número ímpar e, escondido que estava fiquei sem par para a valsa.

Salvo, de minha posição de vigia, assisto os casais rodopiarem se trombando ao som de um clichê. Me parecem crianças brincando em gangorras ou balanços, exceto que crianças não seguem regras e ali todos acompanham estritamente o roteiro de seus papéis como se tivessem medo de serem repreendidos por quem os assistisse ou dirigisse. Assistindo, acho que sou só eu.

A música termina abrupta, sem aquele toque retumbante que costumam ter as valsas ao final. Me lembro de como a música terminava ao levantarmos a agulha da vitrola e é curioso que a banda tenha soado assim. Então, o brinde. A aniversariante diz que todos tirem suas máscaras. Demoro a tirar a minha, meio pela timidez de me revelar a quem talvez me observasse ali isolado, meio também por, desconectado do ritual, demorar a captar a ordem. Os outros tiram as suas num movimento extático que parece único, sincronizado, enquanto eu ainda fecho os dedos pegando a minha.

Máscaras fora, me assusto, o coração parece que engasga e sei que fico branco. Ninguém mais tem rosto. Nem olhos, nem boca ou narinas, como se eles houvessem saído com as máscaras. Ficam só a protuberância do nariz e as depressões fechadas onde me parece que deveriam estar os olhos. Seguram erguidas as taças esperando a ordem para gritar um viva ou coisa do tipo e beber a champanhe que já amornou, o que de fato não conseguirão.

Com a iniciativa já tomada antes do susto, nem imagino frear o movimento, tiro minha máscara também. Então não consigo ver mais nada ou mesmo tentar falar, o que já não me admira.

Aí sim, já consciente, coloco-a de volta e vejo todos parados nas mesmas posições. Parece um quadro surrealista ou foto de uma cena de balé moderno. Sorrio, último sorriso, arregalando os olhos para guardar bem nítida a imagem que deveria me parecer bizarra mas que, em vez disso, acho linda. Levantando a taça em brinde, como todos os outros, e tiro novamente a máscara.

Stop Whispering

Me lembro de muitos sonhos recorrentes que tenho desde criança.

Alguns são assustadores, mas a maioria é nonsense como o do deserto de areia alaranjada (que parece a Farinha Láctea da Nestlé que as mães usavam para fazer mingau). Eu ando quilômetros pelo deserto, beirando um despenhadeiro (um despenhadeiro na areia??!?!) até o supermercado para comprar papel higiênico. Chegando lá, as famosas pirâmides de Gizé são na verdade pilhas de papel higiênico, daquele vermelho grosso que as pessoas comparam a lixa, e a esfinge é um leão de chácara jogado preguiçoso a um canto, quase dormindo, tomando conta para que os fregueses não roubem nada. Para a pirâmide não desmoronar, eu tenho de escalá-la e pegar os rolos mais do alto. Na subida, alguns se soltam e rolam pirâmide abaixo. Me sinto um Indiana Jones. Chego ao topo, me sento, pego o primeiro rolo, o mais alto, levanto acima de minha cabeça para mostrar a todos que consegui e, invariavelmente, a montanha toda desmorona e me engole. Eu caio para dentro dela, por um buraco muito mais fundo do que ela, que parece um vulcão aberto entre os rolos de papel, e acordo no chão do quarto.

Outro nonsense é aquele em que minha namorada me diz que é homem. Eu fico chocado com a revelação, mas então Caio na real e lhe digo para olhar dentro da calcinha e ver que é mulher. Ela ri de minha ingenuidade e me responde que eu é que vejo o mundo ao contrário.

Muita gente se benze quando eu conto do sonho em que vou visitar o túmulo de minha tia Isolina, no cemitério em frente de casa, atravessando a rua. O cemitério está em expansão e, ao fundo, há uma fileira de escavadeiras, que começa na ribanceira da baixada da favela e se perde no horizonte depois de Carapicuíba. Elas abrem covas atrás de covas. Parecia uma bandeja de ovos meio torta. O cemitério não tem mais muros, é um terreno baldio gigante, já limpo de mato e da favela que deveria estar na base da ribanceira. As escavadeiras têm espaço para cavar até a serra. O sol é forte e as covas grandes e fundas o bastante para nelas enterrar um sobrado. Eu olho, curioso, para dentro de uma, a ver se é verdade que a altura deixa dá vertigem e caio depois de me irmão me dizer para ter cuidado e antes da mãe gritar “Eu te avisei!” e “Olha o trabalho que você vai dar agora!”. Então percebo que as paredes são altas, íngremes e planas demais para eu subir e, em vez de me desesperar, acordo.

Tem um outro que eu não entendo direito, com todo mundo de quem me lembro (todo mundo de quem vou me lembrando durante o sonho) sentado em poltronas de cinema (de algum cinema curiosamente confortável). Aquela iluminação fraca de antes do filme começar. Eu correndo, igual Pac Man, entre as poltronas, pelos corredores e fileiras, não sei de quem, não sei porquê, não sei se atrás de algo que nunca sei o que é.

Já os sonhos mais perturbadores de todos começam variados, cuidando da criação no quintal, comprando laranjas na feira, consertando a dobradiça do guarda-roupas, mas eventualmente chegam a uma situação que, ela sim, é recorrente. É quando tento falar algo e não tenho voz. Não percebo nada diferente em mim, tirando a voz que não sai ou não soa. Tento mais uma ou duas vezes até que, frustrado, tento gritar e nada. Então fico nervoso e grito, feito criança birrenta, até não agüentar de tanto meus pulmões e garganta doerem. O silêncio continua até eu acordar.

And the wise man said I don’t want to hear your voice
And the thin man said I don’t want to hear your voice
And they’re cursing me and they won’t let me be
There’s nothing to say and there’s nothing to do

Stop whispering, start shouting

And my mother say we don’t love you son some more
And the buildings say let me spit on your face some more
And the feeling is that there’s something wrong ‘cause I can’t find the words and I can’t find the song

Stop whispering, start shouting

Dear sir, I have a complaint
Can’t remember what it is
Doesn’t matter anyway
Stop whispering, stop whispering

Radiohead

Deserto

O sujeito que vive num deserto desses bem extensos, o Saara, a Arábia, o Outback, por exemplos. Embaixo só areia. Em cima só sol. Ao redor um mormaço infernal. Ele precisa passar o dia todo enrolado num cobertor grosso para não queimar a pele toda e nem assas com o calor. De tão quente, o cobertor que usamos para não deixar o corpo perder calor, eles usam para não deixar ganhar. Sua vida é viajar parando de poço a poço, e são dias de um poço a outro, à procura de água.

Ele fica feliz de lhe acompanharem sua família, seus amigos, sua tribo (se é assim que chamam). Faz fogueira à noite para cozinhar e se aquecer. E o pior do deserto dizem que é isso, ele é muito quente de dia, mas muito frio à noite, de congelar o sangue nas veias. Em volta do fogo, come, canta, conversa, deve alguém tocar alguma coisa, olha para o céu mais perto que existe sobre a terra e se diz abençoado. Imagina a inveja que temos das estrelas que ele consegue ver tão nitidamente. Deve ser por isso que tantos desses países têm estrelas e luas em suas bandeiras.

Nós aqui, nossa imaginação, as notícias e algum preconceito nos levam a crer que esse deserto seja cercado de cidades miseráveis e em pé de guerra, isso quando não em guerra constante. Também o achamos privilegiado, abençoado mesmo, por estar no deserto e não nas cidades que o cercam.

Mas, e isso pode ser por limitação de meus conceitos ou pura arrogância minha, quando encontro uma flor bonita… Quando encontro uma rosa delicada e fresca, alegre, alheia ao que há de ruim no mundo… O que imagino é se ele, encontrando-a também, enxergaria a beleza que vejo nela e se consideraria, se seria tentado a isso, abandonar o deserto para descobrir como é, de perto, um jardim.

Jigsaw

We are jigsaw pieces aligned on the perimeter edge, interlocked through a missing piece

Os quebra-cabeças acho que são os melhores brinquedos.

Me lembro de alguns dos meus primeiros. De quando era criança, é claro. Na verdade, a maioria deles era de meus irmãos mais velhos, que os guardavam no armário em que a máquina de costura aposentada da mãe havia se tornado.

E, por falar na mãe, me lembro também do costume irritante dela quando via montado um quebra-cabeça novo. Ela o virava com o fundo para cima e numerava as peças na ordem, de cima para baixo, da direita para a esquerda. Dizia que era para que nós o conseguíssemos montar de novo e ficava muito brava quando dizíamos que não precisava. Tanto não que já o havíamos acabado de montar. Logo em seguida ouvíamos o discurso sobre arrogância e humildade sustentado por exemplos, alguns bíblicos, outros de coisas que aconteceram a parentes e vizinhos seus de infância. Exemplos que eu nunca consegui relacionar com montar um quebra-cabeça.

Várias vezes também nos rezou a ladaínha de que falávamos como se fôssemos o próprio Fernando Luiz, o primo seis ou sete anos mais velho que eu. Ele montava sozinho (e ela enfatizava o “sozinho”) quebra-cabeças de mil peças, aqueles que, de tão difíceis, ela não sabia porquê serem fabricados. “Ele montou até um de foto do Papa!” O primo os emoldurava e vendia para pessoas que os penduravam na sala para contar vantagem como se tivessem montado.

Minha madrinha gostava muito também. Quando morava com ela e a avó, tínhamos o costume de, terminado o jantar delas (que na verdade era só pão e chá), às seis, até o meu jantar (sempre uma sopa), às nove, montarmos um quebra-cabeça, desses de criança, no máximo cinqüenta peças, e fazermos palavras-cruzadas. A avó só olhava, declarando o orgulho da filha e do neto serem tão inteligentes. A avó não sabia ler e dizia que na sua idade era mais importante saber rezar o terço.

Hoje eu tenho muito gosto, talvez mesmo fascínio, por quebra-cabeças. Uma das primeiras coisas que fiz no meu primeiro apartamento, depois de namorar no colchão que ainda não tinha cama e de receber os amigos para brindar com iogurte de maracujá batizado com vinho da Madeira, foi estrear a mesa de vidro da sala, que ocupei assim por duas ou três semanas, com um daqueles quebra-cabeças de mil peças. Os montadores de móveis, os entregadores, todos pararam um pouco para olhar. O moço da TV a cabo me pediu licença para montar umas duas peças enquanto eu testava o serviço que ele havia terminado.

Hoje, ainda gosto dos pequenos, mas não muito pequenos, de trezentas ou quinhentas peças, mas os melhores são os grandes, de uma, duas, três mil peças. Tenho em casa um de cinco mil que comprei nas férias e ainda nem abri porque é grande demais para a mesa da sala. Preciso de uma mesa maior, e talvez de outra sala.

Eu gostaria muito de ter uma mesa bem grande para montar quebra-cabeças. Com nichos para guardar as peças separadas por cor, formato ou detalhes e um tampo de vidro para cobri-lo enquanto ainda não terminei de montar, ou mesmo depois, para deixá-lo exposto até me aventurar noutro.

Inventaram uma coisa incrível há alguns anos atrás. Dá para comprar em lojas de brinquedos. Não sei como chamá-la, parece um grampeador ou carimbo, e serve para fazer quebra-cabeças a partir de fotos. Na verdade, não precisa ser com fotos. Dá para fazer com qualquer papel, mas quanto mais grossos e rijos melhores. Então os bons mesmo são os papéis fotográficos. Muitas pessoas usam para fazer brindes de festas infantis. Fazem quebra-cabeças a partir de uma foto do aniversariante, da família, de seus personagens preferidos ou dos colegas que comemoram.

Eu aproveitei algumas folhas que tinha sobrando, do tempo em que ainda se imprimiam fotos, o cartucho de tinta colorida, que ainda estava fechado de tanto que o economizo, imprimi uma foto que achei em meu HD. Uma das raras com foco e boa resolução. Deu para imprimi-la bem grande. Ocupou praticamente toda a folha A4 do papel fotográfico. A tinta não era a ideal, mas a impressão ficou muito boa. Não chegou a ser perfeita, mas ficou até melhor que as de revistas.

Foto de festa. Família, vizinhos, amigos de parentes, colegas do trabalho, clientes, algumas pessoas, talvez penetras, que nem tenho ideia de quem fossem. Aqueles retratos com todo mundo amontoado em frente a uma parede, forçando o sorriso e tentando manter o equilíbrio enquanto se amontoa para aparecer. Lá estava eu, em pé, de camiseta vermelha, sorriso amarelo, abraçado à namorada da época, escondendo o outro braço atrás do corpo (provavelmente segurava algo), enquanto uma chata saía de trás do sujeito que estava a meu lado e tentava, com a cabeça apertando minha barriga, ganhar um espaço. Foto de festa.

Colei papel cartão atrás e recortei as peças, deu umas duzentas e poucas, talvez trezentas e coloquei numa caixa grande de papelão para chacoalhar embaralhando, dar mais graça, antes de montar. Por um momento, a brincadeira parece besta: bagunçar as peças para ficar mais difícil de montar o que eu acabei de, deliberadamente, estragar. Depois parece mesmo ridícula: montar logo após desmontar.

Pode ter sido por isso que eu primeiro fiz uma pausa para tomar um longo banho. Quase uma hora deitado na banheira ouvindo música com os olhos fechados. Não fiquei mais tempo porque tive medo de pegar no sono e passar a noite ali. Saí do banho de regata e cuecas, abri um vinho branco que levei para a mesa da sala dentro de um balde com gelo, e coloquei mais música. Duzentas e poucas peças não são demoradas de montar, ainda dava tempo de terminar e assistir um filme antes de dormir.

Apago a luz por causa do calor. Acendo só os dois abajures dos cantos. A primeira coisa é separar as peças dos cantos e de cada borda e tentar ordená-las. Na hora de encaixar, me decepcionei um pouco. Mesmo com o papel cartão grosso colado atrás, a espessura das não era muita. O encaixe não ficava firme. Eu devia ter colado mais uma ou duas camadas de cartão e esperado mais para secar. Acho que, enquanto cortava as peças, a foto deslizou um pouco do cartão e o encaixe ficou mais esquisito.

Depois de algum tempo, comecei a me irritar. O encaixe mal feito. Conforme colocava uma peça numa ponta da borda, a outra começava a se soltar. Arrumava essa ponta e a borda oposta se soltava. A brincadeira começou a saber a trabalho de relojoeiro.

Montada a borda, separei as outras peças pelas imagens: as pessoas, o chão, a parede, o vaso branco do canto, a planta do vaso. O vaso e a planta foram fáceis de montar. Fáceis relativamente porque eram pequenos e eu comecei a me acostumar a segurar as peças com uma leve pressão dos dedos para elas não dançarem todas sobre a mesa. O chão e a parede foram mais demorados. As peças eram todas muito parecidas e, para complicar, o calor já me fazia transpirar bastante pela testa e pelo pescoço.

Quando comecei a montar as pessoas, já suava algumas gotas. Percebi quando uma escorreu para o olho, que ardeu, e duas pingaram. Uma coisa ruim do vinho branco é que, sem a cica que dá sabor forte ao tinto e seca a boca, a gente acaba bebendo mais rápido, principalmente geladinho no calor. Eu já tinha bebido mais da metade da garrafa e estava ansioso para me refrescar com o resto. Enchi o copo e dei um tempo na janela.

Tirei a regata preta para secar o suor nela e aproveitei para deixar o vento que vinha da cidade me abanar. As janelas dos outros prédios, viradas para mim sempre me lembra do filme do Hitchcock. Imagino testemunhar um assassinato ou coisa do tipo. Embora gostasse de morar num andar mais baixo, o meu é o penúltimo, para olhar os adolescentes namorando no páteo, os gatos e os pássaros nas árvores.

Quando precisei encher o copo de novo, com o final da garrafa, voltei para o quebra-cabeça. Surpreendeu-me o quanto ele já estava montado. Surpreendeu-me como criança crescendo na frente do pai que só nota ao encontrar fotos e roupas antigas dela.

As peças seguintes foram rápidas de montar. Eu já tinha alguma prática com a mania irritante das peças se soltarem por qualquer coisa. Também já havia largado mão de deixar o encaixe perfeito. A esta altura, não ligava se ia terminar bonito ou não.

A última peça, era bem central, pegava pedaço do meu peito, minha boca, a barba preta com o tufo feio branco, um pedaço do ombro da namorada. Ao menos era isso que deveria ter.

Olhei o copo achando que tinha exagerado no vinho. Mas não fazia sentido, o formato da peça não tinha nada a ver com o espaço que sobrava. A imagem nela também não. Girei-a de todas as formas tentando encontrar ou entender. Não faziam sentido nem o formato nem a imagem. Parecia que alguém a havia trocado. Mas fui eu mesmo quem recortou.

Corri os olhos pelo quebra-cabeça todo. Depois devagar, com os olhos e um pouco com as mãos, procurei devagar cada corte, cada encaixe. Pareciam corretos. A imagem, olhei bastante. Nada indicava que eu tivesse montado outra peça no lugar errado. Sentei-me sobre a mesa, de costas para a janela, terminei o vinho olhando o quebra-cabeça, a peça que sobrou e o buraco da que faltou.

Com um bom jogo de luzes, claro-escuro, azulado, um modelo profissional no meu lugar, um bom fotográfo talvez conseguisse ali uma boa foto para ilustrar um quebra-cabeça.

Stand straight, look me in the eye and say goodbye. Stand straight, we’ve drifted past the point of reasons why. Yesterday starts tomorrow, tomorrow starts today. And the problem always seems to be we’re picking up the pieces on the ricochet.

Lago Congelado

Eu dormi e, logo que tive consciência, me vi na beirada de um lago congelado. Dia de frio, mas isso você já imaginava. Sem neve, sem vento, sem barulho. Dia claro debotado, como costumam ser os dias nublados. Em torno do lago, grama seca, bege avermelhada, e pinheiros, bem verdes a maioria, mas muitos também secos queimados entre marrom e vermelho. O lago fugia à frente numa curva à esquerda entre as duas primeiras das montanhas que serviam de fundo. Nenhum pássaro, nenhum inseto, nenhum dos animais grandes de clima frio que aparecem nos filmes.

O frio em si eu não sentia, nem o sufoco abafado do casacão grosso, parecido com os de filmes de esquimó, que eu usava. Pensando bem, talvez eu diga que não havia barulho, mas houvesse e eu igualmente não o percebesse.

Ao primeiro movimento que fiz com o corpo, devagar, de um lado para o outro, para observar toda a volta da paisagem, notei o peso da mochila em minhas costas e o incomodo da vara e de outras coisas de pescar presas a ela, atrás do meu ombro direito.

Desci da borda para o lago. É complicado o primeiro passo no gelo. Acho que eu parecia criança aprendendo a andar. A borracha das solas das botas escorrega tanto no gelo quanto na grama do lado de fora. Que haverá um acidente parece certo. Nos filmes, as pessoas se preocupam com o gelo estar fino e quebrar no meio do lago. Escorregar e e se arrebentar num tombo me parece perigo onipresente e desde o primeiro passo. Não que o segundo ou o terceiro tenham sido fáceis, mas, fora a insegurança de não ter mais terra firme, margem, onde me ancorar, foi menos inusitado.

Cauteloso, mais deslizando os pés, em passinhos de vinte ou trinta centímetros sem tirá-los do gelo, avancei não mais do que vinte metros até dar-me por vencido pelo estresse de, ainda não sei porquê (só por já ter-me achado pronto à beira do lado com ninguém por perto para eu perguntar se sabia o que estava acontecendo?)… o estresse de, ainda não sei porquê, fazer isso que nunca fiz antes, sem nem imaginar como se faz.

Abaixei-me de joelhos. Isso eu já tinha visto em filmes, o sujeito se abaixar antes de mexer no gelo. Acho que agora entendi o porquê. É porque deve ser muito difícil tentar tentar cavar sem escorregar e tomar um tombo. Mas ao pensar em me sentar, logo imaginei a bunda úmida e gelada. De joelhos, como nos filmes, pareço ficar estável e sem me molhar inteiro.

Tirei a mochila. Coisa feia! Grande e de lona amarela com as costuras, os fechos e os zíperes em vermelho. A vara de pescar, agora vi, era desmontável, dividida em quatro partes de se rosquear. Junto com a vara, também presas por fora da mochila, havia também uma rede para pegar peixe e uma pá pontuda dobrável.

Aquela cena de desenho animado, do esquimó sentado ao lado da fogueira, pescando pelo buraco no gelo, eu percebi como é rídicula e impossível. Gozado isso nunca tinha-me ocorrido isso antes, deve ter sido assim com todo mundo que assistiu essas coisas, só agora percebi que o fogo derreteria o gelo que é bem grosso e difícil de quebrar.

As lâminas da pá, em “V” para fazer ponta, entortam um pouco, talvez por não ser feita para isso é, muito provavelmente, por eu não saber usá-la. Suo muito, mas não sinto o frio falar meu suor. Também. Ao sinto o cansaço, embora perceba dificuldade para respirar. O ar úmido parece se solidificar como a água do lago e resistir descer para meus pulmões. Doem muito os ombros, os cotovelos e os pulsos pelo esforço para quebrar o gelo. Eu chamei isso de cavar, mas não é. É só quebrar e quebrar, ele sai em lascas e raspas. Os ombros e os cotovelos parecem estar em máquinas de moer carne de tanto que doem.

Gelo grosso difícil de quebrar. Como será que os esquimós conseguem? O tempo passa muito rápido. Já é noite e, quando me dou conta de que deveria estar mais frio, chagam o vento e o cansaço, o sono que ameaça me fechar os olhos. Não sei para onde ir, não seo de outro lugar além dali. Mesmo que soubesse, em nenhum momento me parece haver a opção de ir embora, para casa, para o hotel, ou para o acampamento. Não sei porque estou ali. Cavo como um bêbado sem consciência que segue a direção para onde lhe aponta o nariz, por preguiça ou falta de condição de julgar se isso é o certo ou o que quer.

O vento frio e a noite se confundem com o sono, a dificuldade em focar as imagens e a preguiça de pensar. Duram uma eternidade, talvez cinco minutos que são são uma noite inteira, e logo me dou conta da luz do sol que nasce, do céu clareando, levemente amarelado, ao fundo, entre as montanhas. O mesmo sol que, refletido na geada que cobre os pinheiros e a mim mesmo, cansa minhas vistas com aquele toque de melancolia e passividade a que chamamos de manhã. Será que é assim que o povo daqui vive? Que passam por isso sempre que querem pescar? O cansaço da monotonia me enche de perguntas ansiosas de respostas que me justifiquem desistir. Só não sei como.

E já quase desisto quando percebo água aparecer no buraco mal-feito que tenho por então. Já devia ser hora de tomar o café da manhã, o desjejum. Sol baixo, olhos pesados de noite mal-dormida. Luz ainda pouca de melancolia. Aquela pouca água me refrescou a vontade de terminar de cavar, embora eu ainda não me lembrasse que, depois de cavar, ainda haveria de pescar, o que já era outra história inteira ainda por começar, de algo que eu igualmente não sabia como fazer.

Sei lá quanto mais demorou, entretido que estava na tarefa tediosa, mas ainda devia ser manhã cedo, umas oito ou nove, quando consegui quebrar as bordas do buraco para deixá-lo grande o suficiente, do tamanho de um prato bem grande, para achar que podia descer linha e anzol por ali. Buraco mal feito, mal recortado, cheio de rebarbas pontudas. Pedaços de gelo quebrados boiam no meio, fazem-me pensar em icebergs. Com a pá como colher, pego os maiores e os jogo para fora, para não atrapalharem.

A água azulada que aparece pelo buraco me lembra o cloro que bochechávamos na escola às quartas-feiras depois do lanche. Água muito limpa. Fico curioso da profundidade, da dificuldade da luz em descer por ela. De joelhos ainda, me abaixo e tento, com os olhos mais juntos à água, enxergar mais fundo. Gostaria de ver algo como naqueles documentários do Jacques Cousteau, como no Aquário de Lisboa ou como na loja de peixes do Seu Douglas na Rua Salem Bechara. O escuro da água, ao menos desta, não é como o da noite, aquele escuro da luz apagada, das janelas e portas fechadas, ao qual os olhos se acostumam, as pupilas se dilatam e logo você encontra o outro par de olhos os dentes do sorriso. O escuro da água é denso e distante, quanto mais longe se foca, menos se vê.

Algo que s parece com um peixe aparece de repente, difícil de distingüir o tipo, pelo turvo que a água faz. Ele passa rápido, pálido, uma vez, depois outra, ida e volta, a talvez dois palmos de profundidade. Numa terceira vez, ameaça saltar para fora e bate na borda. Vejo três ou quatro dedos, pálidos, acinzentados, esfolados, unhas quebradas mal pintadas de vermelho. O peixe é alguém. Os dedos escapam da beirada antes que eu tenha essa consciência.

Enfio minha mão esquerda, um braço todo na água do buraco que, gelada demais, parece cortá-lo de dentro para fora como um feixe de navalhas que se abrissem igual às varetas de um guarda-chuva. Mexo os dedos sem dificuldade, mas os braços, ao tentar procurar, parecem amarrados a pesos imensos. Tiro o braço da água. Não vejo nada mais pelo buraco. A água está escura.

Não sei o que fazer. Imagino o desespero de uma pessoa presa debaixo do gelo, a dor por todo corpo como doeu meu braço pouco atrás, a água entupindo a boca e a garganta impede a respiração, o escuro da água, não ver saída a menos que um doido apareça do nada e teime em abrir um buraco para pescar logo onde você está.

Eu procuro mais com os olhos e com o braço que logo pesa e, por mais que eu me ache no dever de insistir, sofre até que fico com medo de que morra ou seja arrancado pelo peso da água. Me senti abraçando-o para agüentar a dor que fica.

Não sei o que fazer. O braço que perecia peixe e os dedos de unhas vermelhas estragadas, não aparecem de novo. Já morreram? Afundaram? Ou são dali mesmo? De alguém acostumado a nadar sob o gelo, de um cadáver há muito jogado no lago, de uma divindade aquática, de um suicida consciente…

O dia já está adotante claro, claridade de dia nublado. O vento no faz barulho, não há pássaros para fazer barulho também. As árvores igualmente não chacoalham. Nem a água do lado, congelada, pode fazer barulho algum. O silêncio é total como se eu, que não sei nadar, estivesse mergulhado em água também, com os ouvidos entupidos por ela. Olho para a água, já há uma pele fina de gelo. Ninguém sobrevive a isso. Quero ajudar e não sei como. Grito e não ouço. Me desespero. Quero acordar.