Stop Whispering

Me lembro de muitos sonhos recorrentes que tenho desde criança.

Alguns são assustadores, mas a maioria é nonsense como o do deserto de areia alaranjada (que parece a Farinha Láctea da Nestlé que as mães usavam para fazer mingau). Eu ando quilômetros pelo deserto, beirando um despenhadeiro (um despenhadeiro na areia??!?!) até o supermercado para comprar papel higiênico. Chegando lá, as famosas pirâmides de Gizé são na verdade pilhas de papel higiênico, daquele vermelho grosso que as pessoas comparam a lixa, e a esfinge é um leão de chácara jogado preguiçoso a um canto, quase dormindo, tomando conta para que os fregueses não roubem nada. Para a pirâmide não desmoronar, eu tenho de escalá-la e pegar os rolos mais do alto. Na subida, alguns se soltam e rolam pirâmide abaixo. Me sinto um Indiana Jones. Chego ao topo, me sento, pego o primeiro rolo, o mais alto, levanto acima de minha cabeça para mostrar a todos que consegui e, invariavelmente, a montanha toda desmorona e me engole. Eu caio para dentro dela, por um buraco muito mais fundo do que ela, que parece um vulcão aberto entre os rolos de papel, e acordo no chão do quarto.

Outro nonsense é aquele em que minha namorada me diz que é homem. Eu fico chocado com a revelação, mas então Caio na real e lhe digo para olhar dentro da calcinha e ver que é mulher. Ela ri de minha ingenuidade e me responde que eu é que vejo o mundo ao contrário.

Muita gente se benze quando eu conto do sonho em que vou visitar o túmulo de minha tia Isolina, no cemitério em frente de casa, atravessando a rua. O cemitério está em expansão e, ao fundo, há uma fileira de escavadeiras, que começa na ribanceira da baixada da favela e se perde no horizonte depois de Carapicuíba. Elas abrem covas atrás de covas. Parecia uma bandeja de ovos meio torta. O cemitério não tem mais muros, é um terreno baldio gigante, já limpo de mato e da favela que deveria estar na base da ribanceira. As escavadeiras têm espaço para cavar até a serra. O sol é forte e as covas grandes e fundas o bastante para nelas enterrar um sobrado. Eu olho, curioso, para dentro de uma, a ver se é verdade que a altura deixa dá vertigem e caio depois de me irmão me dizer para ter cuidado e antes da mãe gritar “Eu te avisei!” e “Olha o trabalho que você vai dar agora!”. Então percebo que as paredes são altas, íngremes e planas demais para eu subir e, em vez de me desesperar, acordo.

Tem um outro que eu não entendo direito, com todo mundo de quem me lembro (todo mundo de quem vou me lembrando durante o sonho) sentado em poltronas de cinema (de algum cinema curiosamente confortável). Aquela iluminação fraca de antes do filme começar. Eu correndo, igual Pac Man, entre as poltronas, pelos corredores e fileiras, não sei de quem, não sei porquê, não sei se atrás de algo que nunca sei o que é.

Já os sonhos mais perturbadores de todos começam variados, cuidando da criação no quintal, comprando laranjas na feira, consertando a dobradiça do guarda-roupas, mas eventualmente chegam a uma situação que, ela sim, é recorrente. É quando tento falar algo e não tenho voz. Não percebo nada diferente em mim, tirando a voz que não sai ou não soa. Tento mais uma ou duas vezes até que, frustrado, tento gritar e nada. Então fico nervoso e grito, feito criança birrenta, até não agüentar de tanto meus pulmões e garganta doerem. O silêncio continua até eu acordar.

And the wise man said I don’t want to hear your voice
And the thin man said I don’t want to hear your voice
And they’re cursing me and they won’t let me be
There’s nothing to say and there’s nothing to do

Stop whispering, start shouting

And my mother say we don’t love you son some more
And the buildings say let me spit on your face some more
And the feeling is that there’s something wrong ‘cause I can’t find the words and I can’t find the song

Stop whispering, start shouting

Dear sir, I have a complaint
Can’t remember what it is
Doesn’t matter anyway
Stop whispering, stop whispering

Radiohead

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