social.apps

Esses aplicativos sociais para se conhecer pessoas online próximas para conversar parecem aqueles antigos rolos de filmes, slides, maços de figurinhas repetidas que esperam que as crianças lhas tentem trocar ou disputem no bafo para poderem, finalmente, descansar coladas no álbum. Rosto após rosto sem muita explicação sobre de quem são, o que gostam, de que conversam, tirando uma ou outra garota que coloca os manjados: “Procuro relacionamento sério”, “Estou de de bem com a vida” e “Odeio falsidade.” Ninguém diz que gosta de tomar café da manhã na padaria conversando com o Seu Manuel ou uma cerveja ao fim do dia, com os colegas de trabalho, para rir das esquisitices dos clientes. Ou mesmo que tem gostariam de viver de fazer bonecas de pano ou que se encantam com os passarinhos nas árvores do quintal. As fotos quase todas, bonitas ou feias, são vazias e não remetem a ninguém. As mais interessantes, mas imagino que também sejam as de menos sucesso, são as dos muito tímidos e problemáticos que, no lugar de suas cars, colocam paisagens, flores, mensagens da Lollypop.

Eu passo o dedo alucinado de baixo para cima fazendo o carrossel de fotos correr feito doido, como o máquina de caçar níqueis, enfastiado de tantas fotos que não me dizem nada e das poucas legendas, que dizem menos ainda. Uma foto que passa na correria me chama a atenção e eu volto o carrossel na contramão para encontrá-la de novo. É da colega do trabalho. A foto parece desatualizada (claro que é, só os muito jovens colocam fotos atuais) e foi mal batida. Faz-lhe parecer gorda. Talvez apenas denuncie pois, embora eu não ache, já se referiram a ela para mim como “tua amiga gordinha”. Não resisto à tentação de dizer-lhe que troque a foto, que ela não lhe faz jus, que deve ter sido mal batida pois pessoalmente ela é muito mais bonita. Parte do irresistível da tentação é imaginá-la encabulada por ser reconhecida no aplicativo. Ela fica mesmo e tenta justificar a foto dizendo que é a sua melhor. Eu brinco mais e ela foge rindo.

Uns cinco minutos depois, ela volta parecendo assustada por uma ficha que caiu tarde: “Mas por que você estava olhando esse aplicativo? Você é casado?” A resposta eu já tenho na ponta da língua. “Mas você esta nesse aplicativo para fazer algo que gente casada não possa fazer? Pensei que ele fosse para encontrar pessoas para conversar.” Ela ficou sem reação como se a pegassem no pulo. Mudou o assunto para se eu entendia de fotografia. Não entendo mais do que o suficiente para dizer se gostei ou não. Da foto dela eu gostaria se fosse mais parecida com ela.

Realmente foi a primeira vez em que mexi naquele aplicativo. Havia olhado outros na mesma semana. Pareciam filas de gente encalhada na saída da balada esperando que que alguém lhes convidasse para uns amassos no estacionamento. Removi cada um depois de cinco minutos olhando do que se tratava. Esse foi o último, me pareceu um pouco diferente. Ainda assim, o removi no dia seguinte.

imagino porque não existem aplicativos ou sites para quem só quer conversar. Ou por que não fazem sucesso. Talvez todo o mundo queira mesmo só fazer coisas que gente casada não possa fazer.

Rua da Miséria

A casa está toda fechada, inclusive a cortina de pano grosso, quase cru, na janela da frente que, única sem veneziana, deixaria passar luz ou o olho do curioso. A cor bege pálida já muito gasta pela chuva que caiu desde a última pintura é muito diferente do verde e do rosa antigos. As roseiras amarelas não existem mais. Pensei que fosse crime derrubar. Só a porta da garagem ainda é igual, branca, também fechada.

Eu subo a avenida, o caminho de todos os dias para a escola. Ela agora parece mais plana. Até soa estranho falar em subir. A rua da escola sim, essa continua uma boa subida. Mais fácil que antes porque minhas pernas já são maiores. A escola também está toda fechada, trancada, mas na esquina ainda há o quadro dos telefones. O usávamos de escada para pular o muro ou de poleiro para olhar por cima. É isso que faço agora, de novo, depois de tantos anos. A quadra a escola, lá embaixo, depois do muro, parece bem menos do que antes. O cimento que me esfolava os joelhos e cotovelos quando caía deve ser o mesmo, mais gasto agora pelo uso e por, tenho certeza, nunca o terem remendado. Puseram uma grade dali para o pátio. Deve ter sido ideia de algum professor que teve seu carro acertado pela bola de handebol. A luz está apagada. Não dá para ver se ainda estacionam carros. Nem se ainda há alunos, serventes ou professores. Só os vejo na minha imaginação, que se diz memória, jogando, sentados aos degraus da arquibancada ou aquecendo os braços a tacar a bola contra o muro da subida. Não os ouço, que imaginação ou memória não falam tão alto, quiçá sejam mudas. Mesmo o barulho das bolas, dos passos, da saliva nos beiços dos casais. Nada tem som. Talvez essa imaginação memoriosa seja também fantasmagórica, tudo isso seja um mundo de fantasmas no palco já bem diferente que é o presente, seu futuro. Esses fantasmas, onde estarão seus corpos agora, seus ossos? Ainda têm carne, estão vivos? Serão então outra coisa, à parte dos fantasmas que vejo.

Não quero andar outra subida. Contorno a escola pela rua do posto de saúde. Passo em frente ao portão do campo dos padres, onde a criançada perdia o cabaço no meio do mato. A igreja antiga, que nem existe mais. A catedral tão grande e de um silêncio ressonante que não sei explicar.

A rua principal, cortada pelo jardim pouco antes da escadaria, parece aquelas alamedas clichés de filmes de terror. Os degraus largos, vinte ou trinta, nem são muitos. A sacada, antes da porta, de onde meu pai assiste à missa todo domingo à tarde, essa continua igual, exceto por não estar lotada. Na verdade, está vazia, assim como toda a igreja. Não é dia de missa, nem de catequese. Não se distribui pai. Nem sei que dia é. A estante das velas, não a reconheço. Queria acender uma. Mas, chegando perto não lhes sinto o calor, nem ouço o barulho do fogo queimando o plástico que as embala. Devem ser fantasmas também.

E, como fantasmas, não existem. Não existem no presente. Ficaram no passada que é a única coisa que conheceram. Cada um revive o seu, sem se trombar, solitários assim. Não chegam ao presente. Não têm futuro.

Espaço

The space around the stars
Is it something that you know?

Precisava de espaço. Anda pela rua, sente como se se desfizesse de um roupão pesar que lhe cobrisse o corpo, não sabe por que, por obrigação talvez, depois do banho que não tomou.

Atravessa a avenida e pisa na areia, acende com dificuldade, por causa do vento teimoso, o charuto na boca. Está na praia à noite. Faixa larga de areia. Escuro, muito escuro à sua frente. Areia limpa. Contrastam tanto com a luz da vida da cidade que deixou para trás quanto com a sujeira que vê ali pelo dia.

A noite ali é dos namorados, fria, escura, quase solitária, se não fosse antes uma pretensa isolante do que eles esquecem para trás, no asfalto da rua e no concreto dos prédios e das calçadas.

Acende o charuto que traz ao bolso. Norwegian Wood. A música dos Beatles na voz do Milton. Ele traz no telefone e ouve agora nos fones. Não presta atenção à letra. O canto parece de alguém que está à vontade. Sente-se à vontade. Que assim é quando resolve fotografar suas pegadas, uma flor no arbusto, ondas que a lente da câmera do celular não distingüe direito. Anda devagar para a água, curtindo a música, a voz, o gosto do charuto, o frio da noite que ele pode sentir sem que lhe digam que é ruim.

Está apertado, já estava antes de vir. Raciocinando simples como criança, chega perto do mar. Mija. A início com medo. Mas logo tem um grande prazer ao perceber que não está ninguém para incomodar. Aí sim mija gostoso. O primeiro prazer é esse. O segundo é o próprio mijar. Deixar suas partes baixas, soltas, à vontade, fazerem o que querem. É um desabafo de liberdade que lhe sabe estranho. Estranho mas saboroso.

O céu, as estrelas. A fumaça que sobe do charuto. As estrelas são braços no céu. Estendidos. A fumaça sobe em rolos como eu faria dançando uma valsa, bêbado.

Gira duas voltas. Quer um aabraço. Abraços desequilibrados e vertiginosos, rodopios, pés que pisoteiam com mal jeito, certo esforço, a areia. O espaço é tanto, as estrelas tão distantes, não lhe alcançam, não abraçam, não lhe esquentam.

Desesperado, acho que isso era desespero, roda louco, valsa feia e desengonçada, gira e gira, naquele passo de valsa que é o único que as crianças imaginam, até cair. Um casal de adolescentes, passante, oferece ajuda, preocupados com o que não entendem e tomam por bebedeira ou doideira de droga. É sim o frio. O frio de não ter abraço onde esquentar seus braços. De não ter outros braços ou costas onde procurar algum calor. Mas é também loucura de ainda poder dançar de desespero por isso.

Liberdade, traição, desejo, conforto. Tantas definições de dicionário e de revistas femininas ou de adolescentes. É só no mar, na areia e na fumaça que sobe do charuto que parece identificá-las com clareza.

Ainda assim, não as conseguiria explicar.

Ódio

O ódio não é nada além daquela morte que nasce dentro do fígado, do coração decepcionado. Que arrasta a merda, a frustração, as próprias entranhas, feridas e furiosas de si mesmas, pelo pescoço, para a cabeça, para saírem pela boca. Saíssem antes pelos olhos ou ouvidos. Força que você não teve quando precisou mas que aparece agora, para que lhe chamem animal, coisa horrível que você sabe que é. Odiosa. Mal colocada neste mundo que, meia hora depois, fumo e álcool na cabeça, você de novo chora e tenta se convencer, até que consegue, de que é coerente e que você é que não devia existir.

Ódio é aquela brasa que consome o teu charuto, que pode ser você ou algo sobre o qual você não tem controle, como você mesmo. Que faz fumaça e deixa gosto bom na boca, na língua, até que você se arrependa. Mas aí já é tarde.

Ou não é.

Ou nem tem porque ser.

Corpo Tatuado

Outra coisa de que eu gosto muito é de passear por parques, jardins grandes, aquelas praças com muitas árvores e flores, arbustos bem podados. São Paulo tem muitas coisas chamadas de praças mas, cidade feia, imunda, a maioria não se pode considerar para passear nem de dia, abandonadas e tomadas pelo lixo e pelos bichos. Os poucos bem cuidados, ou ao menos transitáveis, o Villa Lobos, o Ibirapuera, o Buenos Aires, o Trianon, fecham ao final do dia. Não parecem feitos para o trabalhador que ganha a vida em horário comercial e, durante a semana, só pode passear à noite.

Para nós sobram as ruas arborizadas dos pouquíssimos bairros agradáveis da cidade e aqueles terreninhos de esquina com duas ou três de árvores protegidas por espinheiras que algumas pessoas teimam em chamar de pracinhas. Normalmente têm até um ou dois banquinhos de concreto em volta, onde a molecada fuma maconha para não deixar cheiro em casa.

Esse foi um dos motivos de eu encolher este bairro quando me mudei para cá. Pouco movimentado por causa das ruas tortas e estreitas por onde não dá para cortar caminho e também por tantas casas grandes e baixas que o tornaram que fazem com que a população não seja grande como em bairros mais afeitos à especulação das construtoras. O alto das ruas é todo fechado, como em alamedas, por árvores antigas dos dois lados, cujas copas se tocam formando túneis compridos. Alguns desses túneis ficam escuros, pois as árvores acabam cobrindo as lâmpadas dos postes. Mas não ligamos. A tranqüilidade que isso tudo traz ao bairro compensa. Hà muitos anos não se houve de violência por aqui. Muitos mesmo. Coisa de antes de eu me mudar para cá, e isso já tem quase vinte anos.

Dizem que foi um senhor já de alguma idade quem a encontrou. Chegou em casa, tomou banho, jantou, assistiu o jornal e, enquanto a mulher assistia a novela, saiu com o cigarro para se sentar naqueles banquinhos do jardim da esquina, na esperança de passar alguém para conversar. Era comum outros maridos aparecerem por ali. Alguns por não suportarem a novela, outros pelas esposas não suportarem seus cigarros, outros por não suportarem as esposas ou vice-e-versa. Alguns só por quererem um lugar sossegado para ouvir o futebol com o radinho de pilha colado à orelha, mas com esses não dava para conversar direito, entretidos que ficavam com a tagarelice ininteligível do narrador e nervosos que ficavam com o dois times mais populares do bairro em situação ruim no campeonato.

Logo que acendeu o cigarro, deu a primeira baforada, tirou-o da boca entre os dois dedos maiores da mão direita e já procurou pelas duas pontas da rua se aparecia alguém. Não encontrou ninguém mas estranhou o formato da moita mais próxima do banco. Sempre bem cuidada pelos moradores, ela estava deformada. Alguns galhos, envergados, se debruçavam sobre a calçada, outros de amontoavam feito uma vassoura ou escova de dentes velha. Logo imaginou um vizinho menos civilizado ou o pessoa das produtoras da vídeo que gostavam de gravar externas por ali. Pensou que tivessem jogado lixo de encontro ao canteiro.

Levantou-se pra olhar já preparando a indignação e viu que não era lixo, mas uma mulher. Enquanto pensava que fosse uma mendiga bêbada que se tivesse jogado ali de qualquer jeito para dormir, viu que não era. As roupas muito limpas e bem conservadas, a pele e os cabelos também muito bem conservados. Estava caída de costas, rolada, com o rosto de lado, o olho esquerdo entreaberto, braços encolhidos, cabelo espalhado, as costas nuas por causa do vestido bem aberto atrás, o ombro esquerdo e o braço também porque o ombro do vestido deslizou-lhe até o cotovelo. Tinha uma tatuagem muito bonita, preta e vermelha, uma mulher oriental, de quimono, em pé à beira de um penhasco que dava para o mar, tocando um instrumento de corda para a lua. A tatuagem lhe tomava as costas todas e era muito bonita. A mulher era muito bonita. Ambas eram.

Chamou a ela, que não respondeu, e tentou ajudar, mas pelo tão fria que sentiu quando lhe tocou as costas percebeu que estava morta. Gente jovem, bonita, ele pensou, assim tão bonita, não devia morrer. Nem assim, jogada de encontro a um arbusto na rua, nem de jeito nenhum. Pensou se tinha de lhe procurar a bolsa, o telefone ou a carteira com os documentos, mas só achou o quão mais bonita ela era e desistiu. Largou o cigarro e foi para casa, ligar para a polícia, imaginando o inconveniente que seria eles ali de noite e que iriam querer lhe tomar depoimento e que, para isso, o deixariam esperando por horas num banco da delegacia.

A mulher se assustou e não queria que ele ligasse. Mas ele o fez quando ela saiu para ver o corpo e coletar informações para a conversa na feira no dia seguinte. Quando voltou e viu que ele estava no telefone, ralhou pela imperdoável desobediência doméstica.

A polícia não demorou como quando reportamos um assalto ou como quando o assassino ainda está de arma na mão. Corpo morto frio, chegou em menos de dez minutos a primeira viatura, em dez, de uma vez, mais cinco. Duas estacionaram sobre a grama do jardim, outra sobre a calçada, e ainda outra atravessada, pior que fila dupla, atrapalhando a passagem. Só as duas primeira tiveram cuidado de encostar ao meio-fio, talvez pelo mesmo motivo de terem sido as duas primeiras a chegar.

A primeira viatura estacionada sobre a grama era do oficial. Ninguém encostou no corpo antes de sua chegada. Em pé, ele a olhou por todos os lados. Depois se ajoelhou ao lado e olhou de perto em mais detalhes. Pôs-lhe a mão na tatuagem e no pescoço, talvez para certificar-se da morte como reportada ao 190. O soldado que tentou puxar conversa fazendo-lhe algum comentário sobre a situação foi quem recebeu a ordem ríspida que serviu de repreensão: “Perícia!” Foi o homem para o rádio de sua viatura chamar os peritos.

Curiosos vieram a noite toda e as viaturas foram embora. Ficou só a do infeliz do rádio, a tomar conta do corpo e da cena. De manhã cedo, era sábado já, a esposa do senhor que chamou a polícia ofereceu-lhes pão com margarina e café com leite que eles acharam que deviam recusar, mas aceitaram, não tanto pela fome, mais pelo fastio de terem passado a madrugada em pé na calçada, dois passinhos pra frente, dois para trás, balança a cabeça, olha para os lados. Naquele tempo, ainda sem WhatsApp e YouTube, isso era infernal.

Pensaram que iriam embora quando chego o carro da perícia, mas não. Outro teve de ser chamado. A situação parece que não foi claramente reportada quando do acionamento. Não disseram que o corpo era de uma mulher e que estava em área pública. Para essas duas situações há pessoal específico, especializado. Afinal, são peritos.

Chegaram mais dois carros perto das onze, com dois peritos e quatro auxiliares. Chegou também outra viatura com dois novos policiais para render os que viraram a noite. Os peritos tiraram fotos e mexeram no corpo, e tiraram mais fotos.

O senhor que encontrou o corpo volta e meia saia de casa, curioso como todos, por saber notícias sobre a “Dália Negra de São Paulo” (foi como os jornais a noticiaram no dia seguinte). Num bairro tranqüilo onde fofocas de adultério e brigas de família eram babado badalado, imaginem o que era essa movimentação em torno de um crime. Ouviu quando o perito cantou ao oficial que preenchia o relatório: “blá-blá-blá morte blá-blá-blá provavelmente por causa do ferimento profundo a faca blá-blá-blá costas blá-blá-blá costela blá-blá-blá sobre a tatuagem de uma figura feminina.”

Ele não havia percebido nada de facada. Ficou curioso. Tentou puxar conversa com os policiais, com o perito, não lhe deram atenção. Entrou e saiu de casa, telefonou aos filhos, falou com a esposa e com os vizinhos, que se amontoaram de vez, por várias vezes desrespeitando a faixa plástica amarela e preta que isolava o espaço restrito à polícia.

“Falta de respeito aos moradores do bairro”, disseram sobre não receberem mais o que comentar entre si. Uma garota bonita, morta a faca na pracinha dos maconheiros e dos tiozinhos, era assunto de utilidade pública. Prostituta? Será que a prostituição chegou aqui como já chegou antes ao Jockey e a Indianópolis? E trouxe consigo a violência que associamos a ela? A falta de colaboração da autoridade com a fofoca gerou mais fofocas, cada uma para uma direção. Já diziam que era amante de político. Que era candidata a atriz, enganada no testa do sofá. Sobrinha abusada de algum antipático da rua de cima. Amiga da amiga da filha de alguém.

Metade das fofocas que já estavam confirmadas foi jogada por água abaixo quando chegou o marido da vítima. Buscado em casa por uma viatura, aproximou-se devagar com medo do que já lhe haviam contado.

“É ela sim.” Ainda ninguém que estava perto sabe dizer se estava emocionado ou perplexo. Ou aquela outra coisa que são as duas ao memo tempo.

“É ela. Mas, é estranho. A tatuagem. A tatuagem dela não era assim. Era uma mulher jovem, em pé. Sorrindo confiante.”

O senhor que a encontrou olhava o marido, já de antemão sentindo-lhe pena. Pela estranheza dele, curioso, olhou-a de novo. A tatuagem não parecia já nem a de que se lembrava nem a que o suposto marido descrevia, parecidas que eram. A tatuagem às costas do corpo morto era de uma velha. Uma velha que se arrasta, quase morta (diria os jovens preconceituosos e impacientes que nada sabem sobre o tempo ou a velhice). Uma velha curvada, encolhida, como a garota morta, de cabelos brancos que tocam a grama do chão, apoiado seu peso sobre uma vara que já virou bengala e é a única coisa que a evita de se esparramar pelo chão. A tatuagem é desalentadora.

A garota. Sua tatuagem. A seu modo cada uma morreu.

Curupira

Televisão era uma coisa muito séria em nossas vidas de crianças. A mãe dizia que era culpa do avô. Funcionário mais antigo da Phillips na época, ele ganhou uma das primeira televisões logo que a companhia as começou a fabricar aqui no Brasil nos anos 50. O aparelho, uma caixa grande de madeira envernizada com tela grande de tubo tinha número de série 0004. O avô dizia que as três primeira tinham sido presentes para o presidente, para o governador e para o prefeito, e a quarta para ele. O avô, hoje eu sei, era paieiro mas eu nunca deixei de acreditar na história. Eu usei esse aparelho até meados dos anos 90, quando a avó faleceu e doamos para os franciscanos o que havia em sua casa. A televisão foi junto.

À tarde, nós tínhamos uma rotina de fazer lição, brincar e tomar café, que eu, orgulhoso, requentava, com leite, que eu também fervia, e pão com margarina, que chamávamos de manteiga. Depois do café, era a hora da televisão do fim dar tarde. Os programas tinham uma seqüência da qual já não me recordo direito. Era algo como: Bambalalão (no 2), Sítio do Pica-Pau Amarelo (no 5) e a Feiticeira (no 13). Depois vinham as novelas, enquanto estudávamos mais, o Jornal e mais uma novela. Jantávamos durante o jornal porque a mãe não gosta “de ver essas tragédias”.

historiadositiodopicapauamarelo-140405134912-phpapp02-thumbnail-4.jpgDos programas todos, gostávamos mais do Bambalalão, que depois descobrir que era filmado ao lado da minha faculdade, por atores do teatro da Taib. Do Sítio também gostávamos muito. O resto era para preencher o tempo já escuro antes de dormir.

Eu me confundia muito com o Marquês de Rabicó. Aliás, ele era quem me confundia. Em alguns episódios, era um ator com maquiagem, noutros um fantasiado que parecia uma bola amarela de pilates, acho que tinha mais um que parecia cofrinho. Eu nunca os reconhecia. As outras personagens, eu, mesmo pequeno, reconhecia todas: o Saci, a Cuca, o Cacareco. Até a Emília, que acho que teve mais de uma atriz.

A única, única, personagem do Sítio que eu nunca nem vi foi o Curupira.

Não sei como começou isso, mas sempre que anunciavam o Curupira nos créditos iniciais, ou quando tocava seu tema, ou quando queriam se divertir às minhas custas, os irmãos se viravam para mim desesperados: “O Curupira! Se esconde, rápido!”

O lugar para me esconder eu já tinha certo. Era a caixa onde guardava meus gibis. Era uma caixa muito grande de papelão, encostada na quina da sala de onde não se via a televisão. Ficava deitada como uma casinha de cachorro com a abertura virada para a janela, para deixar a luz entrar. Os gibis, eu os deixava empilhados como se fossem camadas de tijolos de suas paredes. Para as horas de bode, ou para as e ameaça de Curupira, tinha uma lanterna e um cobertor velho, grosso, que eu usava como porta para me isolar do mundo de fora.

Fechado ali, dava para imaginar, só imaginar, os fantasmas, bruxas, demônios, e curupiras voando em círculos do lado de fora, sitiando-me como urubus aguardando a vulnerabilidade da presa.

Meus irmãos fingiam preocupação e querer ajudar. Se eu puxava para o lado uma pontinha do cobertor para perguntar se podia sair, eles corriam, como quem acode, “Não, não, o curupira.” “Agora pode.” E então, para meu desespero: “Entra de novo. Ele voltou.” Eu rapidinho entrava e me encolhia.

huge.10.53900Ficava de costas para a saída. É engraçado, bobo, pensando bem agora. É como se as costas não fossem parte de mim. Como se eu fosse apenas minha frente, o que eu conseguia ver de mim mesmo. E fazia igual a um tatu enroladinho em sua toca, oferecendo ao desconhecido sua carapaça resistente. Se pudesse cavaria mais fundo me beco sem saída, juntaria mais gibis para estreitar o espaço. O cheiro do papelão da caixa e do papel envelhecido dos gibis faziam-me sentir entre amigos. Que assim fosse impossível de algo dar a volta em mim por algum vão e mostrar-se a meus olhos.

Não tinha medo do escuro, como seria de se esperar de uma criança. Muito pelo contrário. Não acendia a lanterna porque meu medo era de que algo pudesse me aparecer à frente e eu não o visse.

Enterrado em minha caixa, no beco sem saída que construí, com calor e as costas doendo de ficar encolhido, estou acomodado. Tranqüilo de que nada desconhecido me surpreenda. Posso ficar ali o resto da vida. O resto dos tempos. Seria enterrado ali.

Talvez essa caixa fosse um dia meu caixão.

Fosse-me dada a escolha, acho que concordaria.

Tumor

São dois cirurgiões na sala de operações. A cirurgiã principal vem acompanhando o paciente periodicamente em seu consultório foi quem indicou a necessidade da cirurgia. O residente, com quem conversa sobre o caso e a quem explica as complicações, implicações e indicações. Além deles, há anestesista, instrumentista, assistentes e paciente.

Pela conversa da cirurgiã com seu residente, a operação não parece complicada, ao menos para alguém que vive disso. Um cirurgião (cirurgiã) cardíaco. Quantos corações ele opera por ano? Quarenta? Cem? Duzentos? Não faço idéia. Mas que seja uma dúzia, ainda assim deve haver procedimentos que lhe sejam corriqueiros e outros que demandem mais cuidado e estudo por não serem tão familiares ou por serem difíceis mesmo.

Este parece ser um procedimento desses mais corriqueiros e que não demandam técnica rara. O paciente está na casa dos trinta, aparenta boa forma física, saúde, mas tem a condição é grave. Há algo no coração, um tumor ou coisa que o valha. Algo muito ruim que lhe compromete as funções com agressividade e que os médicos por experiência sabem não valer a pena tentar identificar antes de extirpar.

A medicina avançou a esse ponto em que sabe inúteis seus diagnósticos frente à urgência por ação e resultado. Não tanto quanto à correção de seus procedimentos, é certo. Ainda há muita discussão sobre qual o correto tratamento para cada caso e se tais e tais tratamentos mais ajudam ou mais atrapalham e sobre onde residem as verdadeiras causas de alguns males. Ao menos há estratégias, ainda que sejam orientadas por estatísticas. Hoje opera-se o coração a este tipo de paciente. Os antigos operariam-lhe o fígado. Talvez ajudasse também. Talvez os certos fossem eles. Talvez esses pacientes bebessem tanto para esquecer da doença que matassem o fígado, por isso os médicos achassem que lidavam com doença hepática. Talvez de tanto chorarem, no futuro, outra geração de médicos, creia ser doença oftalmológica. Riem os médicos. O paciente sedado, totalmente sedado graças a D”s, está aliviado de não ouvir-lhes as galhofas.

Quem nunca viu uma cirurgia destas, costuma imaginar os médicos como compenetrados relojoeiros, com lentes, pinças e outros equipamentos todos da mais alta precisão, trabalhando microscópicamente como quem escreve um nome num grão de arroz. Quem vê pela primeira vez, não consegue evitar de se impressionar com as serras de marcenaria, algo que parece morsa mas que força ao contrário, presilhas, o tamanho das lâminas, a força, o tranco, para se separar ossos e abrir o peito do paciente, o tamanho das toalhas que secam o suor que escorre da testa da cirurgiã, as piadas e esforço de oficina. Não é coisa para qualquer um, para qualquer médico. Não basta estudar e treinar. Precisa ter força. Força e estômago. Não é fácil abrir o peito de alguém. Quase tão difícil quanto — quem já tentou, imagine — abrir o próprio peito, o coração, a outra pessoal, nem digo “a si mesmo”, porque isso todos sabemos ser impossível.

As cicatrizes que ficam dessas cirurgias são sempre medonhas. Tortas, compridas, largas, manchadas. Impressionam. Quem as vê critica. Pensa serem resultado de relaxo. Não considera que o cru peito humano é mais forte e frágil que o de uma ave tenra a custo destrinchada e servida à família no almoço do feriado. A marca indisfarçável do peito violado oprime o amante mais do que, na literatura romântica, a virgindade perdida.

Conta a cirurgiã, como exemplo, de ter conhecido uma garota linda, corpo maravilhoso, perfeito sob o vestido de crochê canelado, sem decote, gola careca, muito justo. Percebia-se todo o desenho do seio, a marca do mamilo, o contorno e a textura da auréola. A calcinha sem costura que não marcava a pele firme do quadril e deixava perceber o formato do rego e o volume da virilha. Linda e com o corpo perfeito. Mas, após abrir-lhe o zíper das costas que lhe acompanhava toda a coluna cervical, o vestido desceu aos poucos como a cortina que se abre à frente do palco mostrando, entre os dois peitos que davam água na boca, a cicatriz. Pouco menos de dois palmos, de altura, quase um dedo de largura, pálida, mal desenhada. “É impressionante demais até para nós que estamos acostumados. Ainda bem que ela se ofendeu com minha cara, broxou e foi embora. Eu não teria presença de espírito para continuar. Imagina para quem nunca viu.”

Essa frase não saiu bem do jeito que ela pensava. Ela (pensando bem) se arrependeria depois. Falou correndo pensar. Ficou uma frase simplista assim mesmo, porque ela se afobou com o sangue que juntava no peito aberto. Um corte desses no peito verte bastante sangue. É muito esforço (e desespero) para manter limpo. Estancada a hemorragia, ou apenas sugado o sangue, mesmo os médicos nunca têm certeza, o coração está exposto.

A equipe toda olha. É uma reverência ritual que não conseguem evitar. Um órgão que trabalha tanto e representa tanto mais. “Está aqui, é bem grande mesmo.” A cirurgiã apresentou a doença que aparecia como um grande encrustado mais ou menos ao meio do órgão e que se espalhava em tentáculos que serviam de correntes ao seu redor. Além da ferida, por si só cruel e profunda, estranguláva-o.

O residente tem receio de ser chamado a intervir. “Você tira?”

A cirurgiã não pensava em deixar-lhe o crédito. Para a remoção, usou, um alicate, lâminas e um instrumento que, de tão grande, parecia uma ferramenta: um podão, a tesoura de podar roseiras, ou uma daquelas de destrinchar frango. Precisou de mais de uma hora e meia de muita força e esforço e de pouco cuidado para não machucar o paciente, foi violenta mesmo, bruta. Suava. Ainda mais quando, estressada, achou que ele merecia.

Quando tirou aquela massa estranha, de cor inorgânica mas humana, parecida com  uma pedra de onde saíam galhos retorcidos de roseira ou uma trepadeira trançada cheia de espinhos, olhou-a com respeito e bufou, livre enfim da trabalheira que teve por conta de um retardado que não se cuida.

Jogou a massa, com nojo, na bacia de metal que lhe ofereceram. Dá o diagnóstico: “Amor daninho. Era bem grande esse. Não sei como não o matou.”

O residente achou-se na obrigação de fazer algo: “Fecho?”

“Pode fechar”

“O rombo que ficou é grande. Colocamos algo nele?”

“Não faz caso. Só estanca e cauteriza. Esses tipo sempre reincidem. Antes de ficar bom, pega outro igual, talvez pior.”