Jigsaw

We are jigsaw pieces aligned on the perimeter edge, interlocked through a missing piece

Os quebra-cabeças acho que são os melhores brinquedos.

Me lembro de alguns dos meus primeiros. De quando era criança, é claro. Na verdade, a maioria deles era de meus irmãos mais velhos, que os guardavam no armário em que a máquina de costura aposentada da mãe havia se tornado.

E, por falar na mãe, me lembro também do costume irritante dela quando via montado um quebra-cabeça novo. Ela o virava com o fundo para cima e numerava as peças na ordem, de cima para baixo, da direita para a esquerda. Dizia que era para que nós o conseguíssemos montar de novo e ficava muito brava quando dizíamos que não precisava. Tanto não que já o havíamos acabado de montar. Logo em seguida ouvíamos o discurso sobre arrogância e humildade sustentado por exemplos, alguns bíblicos, outros de coisas que aconteceram a parentes e vizinhos seus de infância. Exemplos que eu nunca consegui relacionar com montar um quebra-cabeça.

Várias vezes também nos rezou a ladaínha de que falávamos como se fôssemos o próprio Fernando Luiz, o primo seis ou sete anos mais velho que eu. Ele montava sozinho (e ela enfatizava o “sozinho”) quebra-cabeças de mil peças, aqueles que, de tão difíceis, ela não sabia porquê serem fabricados. “Ele montou até um de foto do Papa!” O primo os emoldurava e vendia para pessoas que os penduravam na sala para contar vantagem como se tivessem montado.

Minha madrinha gostava muito também. Quando morava com ela e a avó, tínhamos o costume de, terminado o jantar delas (que na verdade era só pão e chá), às seis, até o meu jantar (sempre uma sopa), às nove, montarmos um quebra-cabeça, desses de criança, no máximo cinqüenta peças, e fazermos palavras-cruzadas. A avó só olhava, declarando o orgulho da filha e do neto serem tão inteligentes. A avó não sabia ler e dizia que na sua idade era mais importante saber rezar o terço.

Hoje eu tenho muito gosto, talvez mesmo fascínio, por quebra-cabeças. Uma das primeiras coisas que fiz no meu primeiro apartamento, depois de namorar no colchão que ainda não tinha cama e de receber os amigos para brindar com iogurte de maracujá batizado com vinho da Madeira, foi estrear a mesa de vidro da sala, que ocupei assim por duas ou três semanas, com um daqueles quebra-cabeças de mil peças. Os montadores de móveis, os entregadores, todos pararam um pouco para olhar. O moço da TV a cabo me pediu licença para montar umas duas peças enquanto eu testava o serviço que ele havia terminado.

Hoje, ainda gosto dos pequenos, mas não muito pequenos, de trezentas ou quinhentas peças, mas os melhores são os grandes, de uma, duas, três mil peças. Tenho em casa um de cinco mil que comprei nas férias e ainda nem abri porque é grande demais para a mesa da sala. Preciso de uma mesa maior, e talvez de outra sala.

Eu gostaria muito de ter uma mesa bem grande para montar quebra-cabeças. Com nichos para guardar as peças separadas por cor, formato ou detalhes e um tampo de vidro para cobri-lo enquanto ainda não terminei de montar, ou mesmo depois, para deixá-lo exposto até me aventurar noutro.

Inventaram uma coisa incrível há alguns anos atrás. Dá para comprar em lojas de brinquedos. Não sei como chamá-la, parece um grampeador ou carimbo, e serve para fazer quebra-cabeças a partir de fotos. Na verdade, não precisa ser com fotos. Dá para fazer com qualquer papel, mas quanto mais grossos e rijos melhores. Então os bons mesmo são os papéis fotográficos. Muitas pessoas usam para fazer brindes de festas infantis. Fazem quebra-cabeças a partir de uma foto do aniversariante, da família, de seus personagens preferidos ou dos colegas que comemoram.

Eu aproveitei algumas folhas que tinha sobrando, do tempo em que ainda se imprimiam fotos, o cartucho de tinta colorida, que ainda estava fechado de tanto que o economizo, imprimi uma foto que achei em meu HD. Uma das raras com foco e boa resolução. Deu para imprimi-la bem grande. Ocupou praticamente toda a folha A4 do papel fotográfico. A tinta não era a ideal, mas a impressão ficou muito boa. Não chegou a ser perfeita, mas ficou até melhor que as de revistas.

Foto de festa. Família, vizinhos, amigos de parentes, colegas do trabalho, clientes, algumas pessoas, talvez penetras, que nem tenho ideia de quem fossem. Aqueles retratos com todo mundo amontoado em frente a uma parede, forçando o sorriso e tentando manter o equilíbrio enquanto se amontoa para aparecer. Lá estava eu, em pé, de camiseta vermelha, sorriso amarelo, abraçado à namorada da época, escondendo o outro braço atrás do corpo (provavelmente segurava algo), enquanto uma chata saía de trás do sujeito que estava a meu lado e tentava, com a cabeça apertando minha barriga, ganhar um espaço. Foto de festa.

Colei papel cartão atrás e recortei as peças, deu umas duzentas e poucas, talvez trezentas e coloquei numa caixa grande de papelão para chacoalhar embaralhando, dar mais graça, antes de montar. Por um momento, a brincadeira parece besta: bagunçar as peças para ficar mais difícil de montar o que eu acabei de, deliberadamente, estragar. Depois parece mesmo ridícula: montar logo após desmontar.

Pode ter sido por isso que eu primeiro fiz uma pausa para tomar um longo banho. Quase uma hora deitado na banheira ouvindo música com os olhos fechados. Não fiquei mais tempo porque tive medo de pegar no sono e passar a noite ali. Saí do banho de regata e cuecas, abri um vinho branco que levei para a mesa da sala dentro de um balde com gelo, e coloquei mais música. Duzentas e poucas peças não são demoradas de montar, ainda dava tempo de terminar e assistir um filme antes de dormir.

Apago a luz por causa do calor. Acendo só os dois abajures dos cantos. A primeira coisa é separar as peças dos cantos e de cada borda e tentar ordená-las. Na hora de encaixar, me decepcionei um pouco. Mesmo com o papel cartão grosso colado atrás, a espessura das não era muita. O encaixe não ficava firme. Eu devia ter colado mais uma ou duas camadas de cartão e esperado mais para secar. Acho que, enquanto cortava as peças, a foto deslizou um pouco do cartão e o encaixe ficou mais esquisito.

Depois de algum tempo, comecei a me irritar. O encaixe mal feito. Conforme colocava uma peça numa ponta da borda, a outra começava a se soltar. Arrumava essa ponta e a borda oposta se soltava. A brincadeira começou a saber a trabalho de relojoeiro.

Montada a borda, separei as outras peças pelas imagens: as pessoas, o chão, a parede, o vaso branco do canto, a planta do vaso. O vaso e a planta foram fáceis de montar. Fáceis relativamente porque eram pequenos e eu comecei a me acostumar a segurar as peças com uma leve pressão dos dedos para elas não dançarem todas sobre a mesa. O chão e a parede foram mais demorados. As peças eram todas muito parecidas e, para complicar, o calor já me fazia transpirar bastante pela testa e pelo pescoço.

Quando comecei a montar as pessoas, já suava algumas gotas. Percebi quando uma escorreu para o olho, que ardeu, e duas pingaram. Uma coisa ruim do vinho branco é que, sem a cica que dá sabor forte ao tinto e seca a boca, a gente acaba bebendo mais rápido, principalmente geladinho no calor. Eu já tinha bebido mais da metade da garrafa e estava ansioso para me refrescar com o resto. Enchi o copo e dei um tempo na janela.

Tirei a regata preta para secar o suor nela e aproveitei para deixar o vento que vinha da cidade me abanar. As janelas dos outros prédios, viradas para mim sempre me lembra do filme do Hitchcock. Imagino testemunhar um assassinato ou coisa do tipo. Embora gostasse de morar num andar mais baixo, o meu é o penúltimo, para olhar os adolescentes namorando no páteo, os gatos e os pássaros nas árvores.

Quando precisei encher o copo de novo, com o final da garrafa, voltei para o quebra-cabeça. Surpreendeu-me o quanto ele já estava montado. Surpreendeu-me como criança crescendo na frente do pai que só nota ao encontrar fotos e roupas antigas dela.

As peças seguintes foram rápidas de montar. Eu já tinha alguma prática com a mania irritante das peças se soltarem por qualquer coisa. Também já havia largado mão de deixar o encaixe perfeito. A esta altura, não ligava se ia terminar bonito ou não.

A última peça, era bem central, pegava pedaço do meu peito, minha boca, a barba preta com o tufo feio branco, um pedaço do ombro da namorada. Ao menos era isso que deveria ter.

Olhei o copo achando que tinha exagerado no vinho. Mas não fazia sentido, o formato da peça não tinha nada a ver com o espaço que sobrava. A imagem nela também não. Girei-a de todas as formas tentando encontrar ou entender. Não faziam sentido nem o formato nem a imagem. Parecia que alguém a havia trocado. Mas fui eu mesmo quem recortou.

Corri os olhos pelo quebra-cabeça todo. Depois devagar, com os olhos e um pouco com as mãos, procurei devagar cada corte, cada encaixe. Pareciam corretos. A imagem, olhei bastante. Nada indicava que eu tivesse montado outra peça no lugar errado. Sentei-me sobre a mesa, de costas para a janela, terminei o vinho olhando o quebra-cabeça, a peça que sobrou e o buraco da que faltou.

Com um bom jogo de luzes, claro-escuro, azulado, um modelo profissional no meu lugar, um bom fotográfo talvez conseguisse ali uma boa foto para ilustrar um quebra-cabeça.

Stand straight, look me in the eye and say goodbye. Stand straight, we’ve drifted past the point of reasons why. Yesterday starts tomorrow, tomorrow starts today. And the problem always seems to be we’re picking up the pieces on the ricochet.

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