Tumor

São dois cirurgiões na sala de operações. A cirurgiã principal vem acompanhando o paciente periodicamente em seu consultório foi quem indicou a necessidade da cirurgia. O residente, com quem conversa sobre o caso e a quem explica as complicações, implicações e indicações. Além deles, há anestesista, instrumentista, assistentes e paciente.

Pela conversa da cirurgiã com seu residente, a operação não parece complicada, ao menos para alguém que vive disso. Um cirurgião (cirurgiã) cardíaco. Quantos corações ele opera por ano? Quarenta? Cem? Duzentos? Não faço idéia. Mas que seja uma dúzia, ainda assim deve haver procedimentos que lhe sejam corriqueiros e outros que demandem mais cuidado e estudo por não serem tão familiares ou por serem difíceis mesmo.

Este parece ser um procedimento desses mais corriqueiros e que não demandam técnica rara. O paciente está na casa dos trinta, aparenta boa forma física, saúde, mas tem a condição é grave. Há algo no coração, um tumor ou coisa que o valha. Algo muito ruim que lhe compromete as funções com agressividade e que os médicos por experiência sabem não valer a pena tentar identificar antes de extirpar.

A medicina avançou a esse ponto em que sabe inúteis seus diagnósticos frente à urgência por ação e resultado. Não tanto quanto à correção de seus procedimentos, é certo. Ainda há muita discussão sobre qual o correto tratamento para cada caso e se tais e tais tratamentos mais ajudam ou mais atrapalham e sobre onde residem as verdadeiras causas de alguns males. Ao menos há estratégias, ainda que sejam orientadas por estatísticas. Hoje opera-se o coração a este tipo de paciente. Os antigos operariam-lhe o fígado. Talvez ajudasse também. Talvez os certos fossem eles. Talvez esses pacientes bebessem tanto para esquecer da doença que matassem o fígado, por isso os médicos achassem que lidavam com doença hepática. Talvez de tanto chorarem, no futuro, outra geração de médicos, creia ser doença oftalmológica. Riem os médicos. O paciente sedado, totalmente sedado graças a D”s, está aliviado de não ouvir-lhes as galhofas.

Quem nunca viu uma cirurgia destas, costuma imaginar os médicos como compenetrados relojoeiros, com lentes, pinças e outros equipamentos todos da mais alta precisão, trabalhando microscópicamente como quem escreve um nome num grão de arroz. Quem vê pela primeira vez, não consegue evitar de se impressionar com as serras de marcenaria, algo que parece morsa mas que força ao contrário, presilhas, o tamanho das lâminas, a força, o tranco, para se separar ossos e abrir o peito do paciente, o tamanho das toalhas que secam o suor que escorre da testa da cirurgiã, as piadas e esforço de oficina. Não é coisa para qualquer um, para qualquer médico. Não basta estudar e treinar. Precisa ter força. Força e estômago. Não é fácil abrir o peito de alguém. Quase tão difícil quanto — quem já tentou, imagine — abrir o próprio peito, o coração, a outra pessoal, nem digo “a si mesmo”, porque isso todos sabemos ser impossível.

As cicatrizes que ficam dessas cirurgias são sempre medonhas. Tortas, compridas, largas, manchadas. Impressionam. Quem as vê critica. Pensa serem resultado de relaxo. Não considera que o cru peito humano é mais forte e frágil que o de uma ave tenra a custo destrinchada e servida à família no almoço do feriado. A marca indisfarçável do peito violado oprime o amante mais do que, na literatura romântica, a virgindade perdida.

Conta a cirurgiã, como exemplo, de ter conhecido uma garota linda, corpo maravilhoso, perfeito sob o vestido de crochê canelado, sem decote, gola careca, muito justo. Percebia-se todo o desenho do seio, a marca do mamilo, o contorno e a textura da auréola. A calcinha sem costura que não marcava a pele firme do quadril e deixava perceber o formato do rego e o volume da virilha. Linda e com o corpo perfeito. Mas, após abrir-lhe o zíper das costas que lhe acompanhava toda a coluna cervical, o vestido desceu aos poucos como a cortina que se abre à frente do palco mostrando, entre os dois peitos que davam água na boca, a cicatriz. Pouco menos de dois palmos, de altura, quase um dedo de largura, pálida, mal desenhada. “É impressionante demais até para nós que estamos acostumados. Ainda bem que ela se ofendeu com minha cara, broxou e foi embora. Eu não teria presença de espírito para continuar. Imagina para quem nunca viu.”

Essa frase não saiu bem do jeito que ela pensava. Ela (pensando bem) se arrependeria depois. Falou correndo pensar. Ficou uma frase simplista assim mesmo, porque ela se afobou com o sangue que juntava no peito aberto. Um corte desses no peito verte bastante sangue. É muito esforço (e desespero) para manter limpo. Estancada a hemorragia, ou apenas sugado o sangue, mesmo os médicos nunca têm certeza, o coração está exposto.

A equipe toda olha. É uma reverência ritual que não conseguem evitar. Um órgão que trabalha tanto e representa tanto mais. “Está aqui, é bem grande mesmo.” A cirurgiã apresentou a doença que aparecia como um grande encrustado mais ou menos ao meio do órgão e que se espalhava em tentáculos que serviam de correntes ao seu redor. Além da ferida, por si só cruel e profunda, estranguláva-o.

O residente tem receio de ser chamado a intervir. “Você tira?”

A cirurgiã não pensava em deixar-lhe o crédito. Para a remoção, usou, um alicate, lâminas e um instrumento que, de tão grande, parecia uma ferramenta: um podão, a tesoura de podar roseiras, ou uma daquelas de destrinchar frango. Precisou de mais de uma hora e meia de muita força e esforço e de pouco cuidado para não machucar o paciente, foi violenta mesmo, bruta. Suava. Ainda mais quando, estressada, achou que ele merecia.

Quando tirou aquela massa estranha, de cor inorgânica mas humana, parecida com  uma pedra de onde saíam galhos retorcidos de roseira ou uma trepadeira trançada cheia de espinhos, olhou-a com respeito e bufou, livre enfim da trabalheira que teve por conta de um retardado que não se cuida.

Jogou a massa, com nojo, na bacia de metal que lhe ofereceram. Dá o diagnóstico: “Amor daninho. Era bem grande esse. Não sei como não o matou.”

O residente achou-se na obrigação de fazer algo: “Fecho?”

“Pode fechar”

“O rombo que ficou é grande. Colocamos algo nele?”

“Não faz caso. Só estanca e cauteriza. Esses tipo sempre reincidem. Antes de ficar bom, pega outro igual, talvez pior.”

 

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