Ódio

O ódio não é nada além daquela morte que nasce dentro do fígado, do coração decepcionado. Que arrasta a merda, a frustração, as próprias entranhas, feridas e furiosas de si mesmas, pelo pescoço, para a cabeça, para saírem pela boca. Saíssem antes pelos olhos ou ouvidos. Força que você não teve quando precisou mas que aparece agora, para que lhe chamem animal, coisa horrível que você sabe que é. Odiosa. Mal colocada neste mundo que, meia hora depois, fumo e álcool na cabeça, você de novo chora e tenta se convencer, até que consegue, de que é coerente e que você é que não devia existir.

Ódio é aquela brasa que consome o teu charuto, que pode ser você ou algo sobre o qual você não tem controle, como você mesmo. Que faz fumaça e deixa gosto bom na boca, na língua, até que você se arrependa. Mas aí já é tarde.

Ou não é.

Ou nem tem porque ser.

Corpo Tatuado

Outra coisa de que eu gosto muito é de passear por parques, jardins grandes, aquelas praças com muitas árvores e flores, arbustos bem podados. São Paulo tem muitas coisas chamadas de praças mas, cidade feia, imunda, a maioria não se pode considerar para passear nem de dia, abandonadas e tomadas pelo lixo e pelos bichos. Os poucos bem cuidados, ou ao menos transitáveis, o Villa Lobos, o Ibirapuera, o Buenos Aires, o Trianon, fecham ao final do dia. Não parecem feitos para o trabalhador que ganha a vida em horário comercial e, durante a semana, só pode passear à noite.

Para nós sobram as ruas arborizadas dos pouquíssimos bairros agradáveis da cidade e aqueles terreninhos de esquina com duas ou três de árvores protegidas por espinheiras que algumas pessoas teimam em chamar de pracinhas. Normalmente têm até um ou dois banquinhos de concreto em volta, onde a molecada fuma maconha para não deixar cheiro em casa.

Esse foi um dos motivos de eu encolher este bairro quando me mudei para cá. Pouco movimentado por causa das ruas tortas e estreitas por onde não dá para cortar caminho e também por tantas casas grandes e baixas que o tornaram que fazem com que a população não seja grande como em bairros mais afeitos à especulação das construtoras. O alto das ruas é todo fechado, como em alamedas, por árvores antigas dos dois lados, cujas copas se tocam formando túneis compridos. Alguns desses túneis ficam escuros, pois as árvores acabam cobrindo as lâmpadas dos postes. Mas não ligamos. A tranqüilidade que isso tudo traz ao bairro compensa. Hà muitos anos não se houve de violência por aqui. Muitos mesmo. Coisa de antes de eu me mudar para cá, e isso já tem quase vinte anos.

Dizem que foi um senhor já de alguma idade quem a encontrou. Chegou em casa, tomou banho, jantou, assistiu o jornal e, enquanto a mulher assistia a novela, saiu com o cigarro para se sentar naqueles banquinhos do jardim da esquina, na esperança de passar alguém para conversar. Era comum outros maridos aparecerem por ali. Alguns por não suportarem a novela, outros pelas esposas não suportarem seus cigarros, outros por não suportarem as esposas ou vice-e-versa. Alguns só por quererem um lugar sossegado para ouvir o futebol com o radinho de pilha colado à orelha, mas com esses não dava para conversar direito, entretidos que ficavam com a tagarelice ininteligível do narrador e nervosos que ficavam com o dois times mais populares do bairro em situação ruim no campeonato.

Logo que acendeu o cigarro, deu a primeira baforada, tirou-o da boca entre os dois dedos maiores da mão direita e já procurou pelas duas pontas da rua se aparecia alguém. Não encontrou ninguém mas estranhou o formato da moita mais próxima do banco. Sempre bem cuidada pelos moradores, ela estava deformada. Alguns galhos, envergados, se debruçavam sobre a calçada, outros de amontoavam feito uma vassoura ou escova de dentes velha. Logo imaginou um vizinho menos civilizado ou o pessoa das produtoras da vídeo que gostavam de gravar externas por ali. Pensou que tivessem jogado lixo de encontro ao canteiro.

Levantou-se pra olhar já preparando a indignação e viu que não era lixo, mas uma mulher. Enquanto pensava que fosse uma mendiga bêbada que se tivesse jogado ali de qualquer jeito para dormir, viu que não era. As roupas muito limpas e bem conservadas, a pele e os cabelos também muito bem conservados. Estava caída de costas, rolada, com o rosto de lado, o olho esquerdo entreaberto, braços encolhidos, cabelo espalhado, as costas nuas por causa do vestido bem aberto atrás, o ombro esquerdo e o braço também porque o ombro do vestido deslizou-lhe até o cotovelo. Tinha uma tatuagem muito bonita, preta e vermelha, uma mulher oriental, de quimono, em pé à beira de um penhasco que dava para o mar, tocando um instrumento de corda para a lua. A tatuagem lhe tomava as costas todas e era muito bonita. A mulher era muito bonita. Ambas eram.

Chamou a ela, que não respondeu, e tentou ajudar, mas pelo tão fria que sentiu quando lhe tocou as costas percebeu que estava morta. Gente jovem, bonita, ele pensou, assim tão bonita, não devia morrer. Nem assim, jogada de encontro a um arbusto na rua, nem de jeito nenhum. Pensou se tinha de lhe procurar a bolsa, o telefone ou a carteira com os documentos, mas só achou o quão mais bonita ela era e desistiu. Largou o cigarro e foi para casa, ligar para a polícia, imaginando o inconveniente que seria eles ali de noite e que iriam querer lhe tomar depoimento e que, para isso, o deixariam esperando por horas num banco da delegacia.

A mulher se assustou e não queria que ele ligasse. Mas ele o fez quando ela saiu para ver o corpo e coletar informações para a conversa na feira no dia seguinte. Quando voltou e viu que ele estava no telefone, ralhou pela imperdoável desobediência doméstica.

A polícia não demorou como quando reportamos um assalto ou como quando o assassino ainda está de arma na mão. Corpo morto frio, chegou em menos de dez minutos a primeira viatura, em dez, de uma vez, mais cinco. Duas estacionaram sobre a grama do jardim, outra sobre a calçada, e ainda outra atravessada, pior que fila dupla, atrapalhando a passagem. Só as duas primeira tiveram cuidado de encostar ao meio-fio, talvez pelo mesmo motivo de terem sido as duas primeiras a chegar.

A primeira viatura estacionada sobre a grama era do oficial. Ninguém encostou no corpo antes de sua chegada. Em pé, ele a olhou por todos os lados. Depois se ajoelhou ao lado e olhou de perto em mais detalhes. Pôs-lhe a mão na tatuagem e no pescoço, talvez para certificar-se da morte como reportada ao 190. O soldado que tentou puxar conversa fazendo-lhe algum comentário sobre a situação foi quem recebeu a ordem ríspida que serviu de repreensão: “Perícia!” Foi o homem para o rádio de sua viatura chamar os peritos.

Curiosos vieram a noite toda e as viaturas foram embora. Ficou só a do infeliz do rádio, a tomar conta do corpo e da cena. De manhã cedo, era sábado já, a esposa do senhor que chamou a polícia ofereceu-lhes pão com margarina e café com leite que eles acharam que deviam recusar, mas aceitaram, não tanto pela fome, mais pelo fastio de terem passado a madrugada em pé na calçada, dois passinhos pra frente, dois para trás, balança a cabeça, olha para os lados. Naquele tempo, ainda sem WhatsApp e YouTube, isso era infernal.

Pensaram que iriam embora quando chego o carro da perícia, mas não. Outro teve de ser chamado. A situação parece que não foi claramente reportada quando do acionamento. Não disseram que o corpo era de uma mulher e que estava em área pública. Para essas duas situações há pessoal específico, especializado. Afinal, são peritos.

Chegaram mais dois carros perto das onze, com dois peritos e quatro auxiliares. Chegou também outra viatura com dois novos policiais para render os que viraram a noite. Os peritos tiraram fotos e mexeram no corpo, e tiraram mais fotos.

O senhor que encontrou o corpo volta e meia saia de casa, curioso como todos, por saber notícias sobre a “Dália Negra de São Paulo” (foi como os jornais a noticiaram no dia seguinte). Num bairro tranqüilo onde fofocas de adultério e brigas de família eram babado badalado, imaginem o que era essa movimentação em torno de um crime. Ouviu quando o perito cantou ao oficial que preenchia o relatório: “blá-blá-blá morte blá-blá-blá provavelmente por causa do ferimento profundo a faca blá-blá-blá costas blá-blá-blá costela blá-blá-blá sobre a tatuagem de uma figura feminina.”

Ele não havia percebido nada de facada. Ficou curioso. Tentou puxar conversa com os policiais, com o perito, não lhe deram atenção. Entrou e saiu de casa, telefonou aos filhos, falou com a esposa e com os vizinhos, que se amontoaram de vez, por várias vezes desrespeitando a faixa plástica amarela e preta que isolava o espaço restrito à polícia.

“Falta de respeito aos moradores do bairro”, disseram sobre não receberem mais o que comentar entre si. Uma garota bonita, morta a faca na pracinha dos maconheiros e dos tiozinhos, era assunto de utilidade pública. Prostituta? Será que a prostituição chegou aqui como já chegou antes ao Jockey e a Indianópolis? E trouxe consigo a violência que associamos a ela? A falta de colaboração da autoridade com a fofoca gerou mais fofocas, cada uma para uma direção. Já diziam que era amante de político. Que era candidata a atriz, enganada no testa do sofá. Sobrinha abusada de algum antipático da rua de cima. Amiga da amiga da filha de alguém.

Metade das fofocas que já estavam confirmadas foi jogada por água abaixo quando chegou o marido da vítima. Buscado em casa por uma viatura, aproximou-se devagar com medo do que já lhe haviam contado.

“É ela sim.” Ainda ninguém que estava perto sabe dizer se estava emocionado ou perplexo. Ou aquela outra coisa que são as duas ao memo tempo.

“É ela. Mas, é estranho. A tatuagem. A tatuagem dela não era assim. Era uma mulher jovem, em pé. Sorrindo confiante.”

O senhor que a encontrou olhava o marido, já de antemão sentindo-lhe pena. Pela estranheza dele, curioso, olhou-a de novo. A tatuagem não parecia já nem a de que se lembrava nem a que o suposto marido descrevia, parecidas que eram. A tatuagem às costas do corpo morto era de uma velha. Uma velha que se arrasta, quase morta (diria os jovens preconceituosos e impacientes que nada sabem sobre o tempo ou a velhice). Uma velha curvada, encolhida, como a garota morta, de cabelos brancos que tocam a grama do chão, apoiado seu peso sobre uma vara que já virou bengala e é a única coisa que a evita de se esparramar pelo chão. A tatuagem é desalentadora.

A garota. Sua tatuagem. A seu modo cada uma morreu.

Curupira

Televisão era uma coisa muito séria em nossas vidas de crianças. A mãe dizia que era culpa do avô. Funcionário mais antigo da Phillips na época, ele ganhou uma das primeira televisões logo que a companhia as começou a fabricar aqui no Brasil nos anos 50. O aparelho, uma caixa grande de madeira envernizada com tela grande de tubo tinha número de série 0004. O avô dizia que as três primeira tinham sido presentes para o presidente, para o governador e para o prefeito, e a quarta para ele. O avô, hoje eu sei, era paieiro mas eu nunca deixei de acreditar na história. Eu usei esse aparelho até meados dos anos 90, quando a avó faleceu e doamos para os franciscanos o que havia em sua casa. A televisão foi junto.

À tarde, nós tínhamos uma rotina de fazer lição, brincar e tomar café, que eu, orgulhoso, requentava, com leite, que eu também fervia, e pão com margarina, que chamávamos de manteiga. Depois do café, era a hora da televisão do fim dar tarde. Os programas tinham uma seqüência da qual já não me recordo direito. Era algo como: Bambalalão (no 2), Sítio do Pica-Pau Amarelo (no 5) e a Feiticeira (no 13). Depois vinham as novelas, enquanto estudávamos mais, o Jornal e mais uma novela. Jantávamos durante o jornal porque a mãe não gosta “de ver essas tragédias”.

historiadositiodopicapauamarelo-140405134912-phpapp02-thumbnail-4.jpgDos programas todos, gostávamos mais do Bambalalão, que depois descobrir que era filmado ao lado da minha faculdade, por atores do teatro da Taib. Do Sítio também gostávamos muito. O resto era para preencher o tempo já escuro antes de dormir.

Eu me confundia muito com o Marquês de Rabicó. Aliás, ele era quem me confundia. Em alguns episódios, era um ator com maquiagem, noutros um fantasiado que parecia uma bola amarela de pilates, acho que tinha mais um que parecia cofrinho. Eu nunca os reconhecia. As outras personagens, eu, mesmo pequeno, reconhecia todas: o Saci, a Cuca, o Cacareco. Até a Emília, que acho que teve mais de uma atriz.

A única, única, personagem do Sítio que eu nunca nem vi foi o Curupira.

Não sei como começou isso, mas sempre que anunciavam o Curupira nos créditos iniciais, ou quando tocava seu tema, ou quando queriam se divertir às minhas custas, os irmãos se viravam para mim desesperados: “O Curupira! Se esconde, rápido!”

O lugar para me esconder eu já tinha certo. Era a caixa onde guardava meus gibis. Era uma caixa muito grande de papelão, encostada na quina da sala de onde não se via a televisão. Ficava deitada como uma casinha de cachorro com a abertura virada para a janela, para deixar a luz entrar. Os gibis, eu os deixava empilhados como se fossem camadas de tijolos de suas paredes. Para as horas de bode, ou para as e ameaça de Curupira, tinha uma lanterna e um cobertor velho, grosso, que eu usava como porta para me isolar do mundo de fora.

Fechado ali, dava para imaginar, só imaginar, os fantasmas, bruxas, demônios, e curupiras voando em círculos do lado de fora, sitiando-me como urubus aguardando a vulnerabilidade da presa.

Meus irmãos fingiam preocupação e querer ajudar. Se eu puxava para o lado uma pontinha do cobertor para perguntar se podia sair, eles corriam, como quem acode, “Não, não, o curupira.” “Agora pode.” E então, para meu desespero: “Entra de novo. Ele voltou.” Eu rapidinho entrava e me encolhia.

huge.10.53900Ficava de costas para a saída. É engraçado, bobo, pensando bem agora. É como se as costas não fossem parte de mim. Como se eu fosse apenas minha frente, o que eu conseguia ver de mim mesmo. E fazia igual a um tatu enroladinho em sua toca, oferecendo ao desconhecido sua carapaça resistente. Se pudesse cavaria mais fundo me beco sem saída, juntaria mais gibis para estreitar o espaço. O cheiro do papelão da caixa e do papel envelhecido dos gibis faziam-me sentir entre amigos. Que assim fosse impossível de algo dar a volta em mim por algum vão e mostrar-se a meus olhos.

Não tinha medo do escuro, como seria de se esperar de uma criança. Muito pelo contrário. Não acendia a lanterna porque meu medo era de que algo pudesse me aparecer à frente e eu não o visse.

Enterrado em minha caixa, no beco sem saída que construí, com calor e as costas doendo de ficar encolhido, estou acomodado. Tranqüilo de que nada desconhecido me surpreenda. Posso ficar ali o resto da vida. O resto dos tempos. Seria enterrado ali.

Talvez essa caixa fosse um dia meu caixão.

Fosse-me dada a escolha, acho que concordaria.

Tumor

São dois cirurgiões na sala de operações. A cirurgiã principal vem acompanhando o paciente periodicamente em seu consultório foi quem indicou a necessidade da cirurgia. O residente, com quem conversa sobre o caso e a quem explica as complicações, implicações e indicações. Além deles, há anestesista, instrumentista, assistentes e paciente.

Pela conversa da cirurgiã com seu residente, a operação não parece complicada, ao menos para alguém que vive disso. Um cirurgião (cirurgiã) cardíaco. Quantos corações ele opera por ano? Quarenta? Cem? Duzentos? Não faço idéia. Mas que seja uma dúzia, ainda assim deve haver procedimentos que lhe sejam corriqueiros e outros que demandem mais cuidado e estudo por não serem tão familiares ou por serem difíceis mesmo.

Este parece ser um procedimento desses mais corriqueiros e que não demandam técnica rara. O paciente está na casa dos trinta, aparenta boa forma física, saúde, mas tem a condição é grave. Há algo no coração, um tumor ou coisa que o valha. Algo muito ruim que lhe compromete as funções com agressividade e que os médicos por experiência sabem não valer a pena tentar identificar antes de extirpar.

A medicina avançou a esse ponto em que sabe inúteis seus diagnósticos frente à urgência por ação e resultado. Não tanto quanto à correção de seus procedimentos, é certo. Ainda há muita discussão sobre qual o correto tratamento para cada caso e se tais e tais tratamentos mais ajudam ou mais atrapalham e sobre onde residem as verdadeiras causas de alguns males. Ao menos há estratégias, ainda que sejam orientadas por estatísticas. Hoje opera-se o coração a este tipo de paciente. Os antigos operariam-lhe o fígado. Talvez ajudasse também. Talvez os certos fossem eles. Talvez esses pacientes bebessem tanto para esquecer da doença que matassem o fígado, por isso os médicos achassem que lidavam com doença hepática. Talvez de tanto chorarem, no futuro, outra geração de médicos, creia ser doença oftalmológica. Riem os médicos. O paciente sedado, totalmente sedado graças a D”s, está aliviado de não ouvir-lhes as galhofas.

Quem nunca viu uma cirurgia destas, costuma imaginar os médicos como compenetrados relojoeiros, com lentes, pinças e outros equipamentos todos da mais alta precisão, trabalhando microscópicamente como quem escreve um nome num grão de arroz. Quem vê pela primeira vez, não consegue evitar de se impressionar com as serras de marcenaria, algo que parece morsa mas que força ao contrário, presilhas, o tamanho das lâminas, a força, o tranco, para se separar ossos e abrir o peito do paciente, o tamanho das toalhas que secam o suor que escorre da testa da cirurgiã, as piadas e esforço de oficina. Não é coisa para qualquer um, para qualquer médico. Não basta estudar e treinar. Precisa ter força. Força e estômago. Não é fácil abrir o peito de alguém. Quase tão difícil quanto — quem já tentou, imagine — abrir o próprio peito, o coração, a outra pessoal, nem digo “a si mesmo”, porque isso todos sabemos ser impossível.

As cicatrizes que ficam dessas cirurgias são sempre medonhas. Tortas, compridas, largas, manchadas. Impressionam. Quem as vê critica. Pensa serem resultado de relaxo. Não considera que o cru peito humano é mais forte e frágil que o de uma ave tenra a custo destrinchada e servida à família no almoço do feriado. A marca indisfarçável do peito violado oprime o amante mais do que, na literatura romântica, a virgindade perdida.

Conta a cirurgiã, como exemplo, de ter conhecido uma garota linda, corpo maravilhoso, perfeito sob o vestido de crochê canelado, sem decote, gola careca, muito justo. Percebia-se todo o desenho do seio, a marca do mamilo, o contorno e a textura da auréola. A calcinha sem costura que não marcava a pele firme do quadril e deixava perceber o formato do rego e o volume da virilha. Linda e com o corpo perfeito. Mas, após abrir-lhe o zíper das costas que lhe acompanhava toda a coluna cervical, o vestido desceu aos poucos como a cortina que se abre à frente do palco mostrando, entre os dois peitos que davam água na boca, a cicatriz. Pouco menos de dois palmos, de altura, quase um dedo de largura, pálida, mal desenhada. “É impressionante demais até para nós que estamos acostumados. Ainda bem que ela se ofendeu com minha cara, broxou e foi embora. Eu não teria presença de espírito para continuar. Imagina para quem nunca viu.”

Essa frase não saiu bem do jeito que ela pensava. Ela (pensando bem) se arrependeria depois. Falou correndo pensar. Ficou uma frase simplista assim mesmo, porque ela se afobou com o sangue que juntava no peito aberto. Um corte desses no peito verte bastante sangue. É muito esforço (e desespero) para manter limpo. Estancada a hemorragia, ou apenas sugado o sangue, mesmo os médicos nunca têm certeza, o coração está exposto.

A equipe toda olha. É uma reverência ritual que não conseguem evitar. Um órgão que trabalha tanto e representa tanto mais. “Está aqui, é bem grande mesmo.” A cirurgiã apresentou a doença que aparecia como um grande encrustado mais ou menos ao meio do órgão e que se espalhava em tentáculos que serviam de correntes ao seu redor. Além da ferida, por si só cruel e profunda, estranguláva-o.

O residente tem receio de ser chamado a intervir. “Você tira?”

A cirurgiã não pensava em deixar-lhe o crédito. Para a remoção, usou, um alicate, lâminas e um instrumento que, de tão grande, parecia uma ferramenta: um podão, a tesoura de podar roseiras, ou uma daquelas de destrinchar frango. Precisou de mais de uma hora e meia de muita força e esforço e de pouco cuidado para não machucar o paciente, foi violenta mesmo, bruta. Suava. Ainda mais quando, estressada, achou que ele merecia.

Quando tirou aquela massa estranha, de cor inorgânica mas humana, parecida com  uma pedra de onde saíam galhos retorcidos de roseira ou uma trepadeira trançada cheia de espinhos, olhou-a com respeito e bufou, livre enfim da trabalheira que teve por conta de um retardado que não se cuida.

Jogou a massa, com nojo, na bacia de metal que lhe ofereceram. Dá o diagnóstico: “Amor daninho. Era bem grande esse. Não sei como não o matou.”

O residente achou-se na obrigação de fazer algo: “Fecho?”

“Pode fechar”

“O rombo que ficou é grande. Colocamos algo nele?”

“Não faz caso. Só estanca e cauteriza. Esses tipo sempre reincidem. Antes de ficar bom, pega outro igual, talvez pior.”

 

Maze

“Sonhar acordado” é uma expressão curiosa, mas que parece mesmo se aplicar bem para aquelas situações em que estamos avoados (outra expressão curiosa) pensando na morte da bezerra (outra). Como quando dormimos, esses sonhos às vezes calham ser pesadelos, manifestações de preocupações, inquietações, lembranças mal enterradas de casos mal resolvidos (desculpe-me o pleonasmo).

Terreno fértil para sonhar acordado, voltava o sujeito para casa. Aquele caminho monótono de todo dia. O peso da nuvem de entulho sobre a cabeça escurece o céu e arca o pescoço, força a vista para baixo. Experimente qualquer dias destes e verá, perceberá, que dá para andar quilômetros assim, qualquer pessoa, quando automatiza os seus caminhos rotineiros, quando não presta mais atenção e põe o pé na rua já a pensar em uma maneira de variar, de mudar, de escapar para um mundo paralelo onde ficasse sentado no banco da praça e o mundo se metamorfoseasse a seu redor tornando-se a feição da vontade do momento. A pessoa anda, pensando, cabela baixa sem perceber as pedras chutadas, olhar ao longe sem atentar às ruas atravessadas, atenção perdida que não nota os encontrões evitados.

Foi voltando nessa perdição de nuvens de sonhos, conversas de louco consigo mesmo e rabiscos num quadro branco que ele nem percebe que pendurou à frente imaginária de suas vistas, que o sujeito, de repente, se viu num labirinto. Ele não consegue se lembrar de como chegou ali, mas de alguma forma sabe (afinal de contas, voltava pelo mesmo monótono caminho de todos os dias). Tanto sabe que, logo que levantou os olhos e viu algo diferente que não consegue descrever, percebeu que estava num labirinto, um maze, desses comuns de se ver em jardins de mansões e palácios em filmes, desenhos animados e games. Por menos de segundo, viu-se pelos olhos do iluminado, voltando ao hotel com o machado na mão. Depois pelos de um Pac Man sem bolinhas para recolher enquanto fugisse dos fantasmas.

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Olha para as paredes, iluminadas de bege pelo sol e pela lua do já finalzinho de tarde. Nem precisa prestar atenção à sua volta e já se desenharam em sua cabeça imagens e imagens de todos os labirintos de verdade e de ficção que já havia visto antes. Completou-as com os detalhes dos inexistente que achou que mereciam existir pelo requinte da elegância simplória que lhes reconhecia e também pelos que julgava serem impossíveis não existir, posto que de sua existência dependia toda a coerência do universo tal como conhecido.

As paredes são altas, uns bons metros de altura, exageradas para os labirintos de jardim de filmes, para alguns de verdade onde já esteve, onde já brincou. Logo se lembrou do de uma cidade que visitou no sul. Estreito e, ainda por cima, mal aparado. Não dava para andar sem esbarrar nas paredes dos dois lados com os ombros. A forma circular, o tinha feito compará-lo a um rocambole. Este não. Os corredores muito largos e as paredes altas, em vez de agigantarem o labirinto, apequenaram-lhe. A ele que, tivesse encontrado uma fresta, fugiria dali como rato ou barata. Mas não viu fresta, ao menos não suficiente para que passasse. Este labirinto devia ter sido construído para impedir a fuga de ratos de seu porte.

Procurou uma referência no alto. Foi então que as dimensões realmente o impressionaram. Do céu, só se via o azul pintado de poluição. Tanto o sol que se punha quanto a lua que o refletia, estavam tão baixos que não eram visíveis. As sombras eram tão longas que cobriam todo chão e também as partes mais baixas das paredes, que lhe estavam ao alcance. A luz, fraca e fria, parda, não era suficiente para que sua espinha não gelasse junto com a noite que ia chegando. Ainda assim, não havia no céu nenhuma estrela, nenhuma nuvem ou pássaro que pudesse usar como guia.

Lembrou-se do conselho de, para sair de um labirinto fechado, coberto, seguir sempre a mesma parede, dobrar as esquinas sempre na mesma direção, e só dar meia-volta se chegar num beco sem saída, ainda assim, seguindo a mesma parede.

Pôs a mão na parede à sua direita e a seguiu. Dobrou à direita na primeira esquina e em todas as outras em que pode escolher, não tirou a mão da parede, metódico como deve ser quem precisa acertar. No receio de se confundir e piorar a situação, andou de mãos dadas com a parede, com o próprio labirinto. Andou bastante, até as pernas se cansarem quase tanto quanto a cabeça, para se tocar de que essa parede não se conectava a nenhuma outra, como um biombo, que não levava à saída. Que ele andava em círculos e que já havia voltado umas quatro ou cinco vezes ao mesmo lugar.

À sua volta, as fachadas das paredes eram tão monotonamente parecidas que ele nem conseguiria dizer como percebeu que o lugar era o mesmo, que andava em círculos, mas percebeu ou, talvez por medo de assumir de vez que estava perdido, aceitou. Já havia voltado várias vezes àquela rua igual à outras, àquela parede como as outras, pelo mesmo caminho, pela mesma parede, pelas mesmas esquinas, sem saber como sabia isso. Como se reconhecesse o calor deixado por sua mão direita quando passou por ali antes. Como se desconfiasse de nunca ter saído do lugar.

Tentou a mesma estratégia com a mão esquerda na parede à sua esquerda, dobrando sempre à esquerda, com cuidado de não desgrudar dela, já estava um começou escuro de noite, pintado de azul petróleo como em desenho de criança. Novamente, mas agora já mais logo, percebeu que andava em círculos.
torchinamazePerplexo, é assim que se diz o confuso orgulhoso, parou olhando para o alto das paredes a admirar sua perdição. Nelas enfim reconheceu seu bairro, as fachadas dos prédios de seu quarteirão.

Deu a volta ao quarteirão procurando sua rua, seu prédio. Deu duas voltas. Em nenhuma encontrou sua rua, menos ainda seu prédio. Havia algo de deformado. Faltava, ou ele é quem não percebia, um dos lados do quarteirão. O seu lado.

Pensou em procurar por um vizinho, ela padaria, pela farmácia, alguém ou algum lugar onde pedir ajuda. À porta da farmácia, olha para dentro. Não havia. Não havia dentro, não havia como entrar. A frente era chapada, sem relevo, sem entrada. Não havia reentrâncias ou relevo nos muros, ou beiradas, para subir e pular para dentro de algum. Não havia quem chamar. As fachadas, os muros, as grades e portões, eram imagens chapadas, projetadas, como fotos, como slides. Pensou daqueles livros infantis em que você monta um pedaço de uma cidade recortando e dobrando, e colando, edifícios de papel, hospital, igreja, escola, inabitados,  com portas e campainhas chapados que não adiantam em nada. Lembrou-se de uma vez em que, criança, montou uma dessas sentado no coberto da área de serviço e viu uma formiga subir no mapa e caminhar pela rua, visitante, única alma viva em sua cidade-fantasma. Imaginou-se formiga desorientada numa maquete de bairro feita de papel e cartolina, decorada com recortes de revistas e canetinha hidrográfica. Bairro de predinhos baixos que sobem muito alto, grudados, como um muro de arranha-céus geminados.

Não sentia o frio da noite escura. Céu preto sem estrelas nem lua. Os prédios tinham a iluminação esperada dos postes a esta hora da noite, embora não houvesse postes. A luz não tinha de onde vir. O vento, o frio, tinham, mas não vinham. Formiga sente frio? Talvez fosse isso mesmo. E a iluminação viesse de fora dos limites do labirinto, de alguma lâmpada ou abajur da casa do menino que brincava.

Já estava cansado, cansaço de saco cheio que faz a cabeça doer.  Cansaço de não ver saída, de acreditar numa metáfora absurda, embora tenha certeza de que alguma saída existe, e de que é óbvia, e de que somente ele que está dentro não a encontra. Imagina a criança olhando de cima aquela maquete já enfastiada da brincadeira. Olhando o labirinto numa revista de atividades, dessas bem primárias que se compra em bancas de jornal. Olhando-o com um lápis colorido na mão e se achando o máximo por resolvê-lo tão facilmente. A criança marca o caminho com um risco todo torto e bem forte do lápis vermelho. Inconscientemente, ele procura o risco e não o encontra. Admira-se de ter perdido a noção e tentado salvar-se pelo que imaginou.

Imaginou mais. Os donos do castelo que tem o maze no jardim. Seus convidados em casais brincando de esconder para namorar escondido nos caminhos. O adolescente que se preocupa mais em fugir dos caçadores e sobreviver do que em passar de fase no videogame no fliperama da João Batista. Todos a olhar de cima, a verem ele e a saída que ele não via.

Mais cansado ainda por estar cansado, sabia que não ia conseguir. Olhou para os lados, para cima, procurando novidade. Uma informação nova que lhe ajudasse. Não achou, mas só se desesperou mesmo, e desatou a chorar, quando percebeu que não tinha mais nada que pudesse fazer além de se comportar como se ainda tivesse esperança.

Baile de Máscaras

Chegando ao baile, é hora de pôr a máscara. Coisa ridícula que eu vinha escondendo no bolso interno do paletó. Máscara de material sintético preto, macio, parecido com couro, cheia de filigranas feitas com strass, miçangas, paetês, lantejoulas, purpurina, essas coisas que as professoras do primário nos dizem para usar como enfeites em coisas que elas mesmas não teriam coragem de vestir. Eu rio, mal humor meu. Na verdade, apenas me sinto ridículo em entrar fantasiado numa festa. Espero que o taxista não me veja vestindo-a. Espero também que ninguém lá de dentro veja. Prefiro que não me reconheçam e não saibam que sou eu aqui pagando mico como todos os outros convidados.

Me parece tão antiquado isso. Cafona. Baile de máscaras. Todos máscarados como no cartaz daquele filme dos tons de cinzas, ou pior, como no do Kubrick. Implico com essa mania de quererem mandar nas roupas dos convidados. Todos os homens de camisas brancas e ternos pretos. Todas as mulheres de vestidos pretos. Idéia da aniversariante.

Devo ser o último a chegar. Fingi ter algo para fazer no trabalho e procurei chegar quando achei que a festa se encaminhava para o bolo e seus parabéns. Já não há mesmo mais nada salgado onde devia ser a mesa do buffet. Alguns garçons e garçonetes, também mascarados, mas de ternos e vestidos brancos, retiram bandejas vazias e limpam migalhas que me parecem ser de massa podre, de petit fours talvez.

Outra coisa que me incomoda nessas festas é não conseguir conversar. O ambiente está muito barulhento. Não dá para saber o que toca o conjunto no tablado do lado oposto ao da entrada. As pessoas falam muito, agitadas, sem que seja possível imaginar quem fala com quem. Parece não haver contato visual que dure mais do que um ou dois segundos. A atenção de quem fala, e todos falam, se volta de um lado para outro, em movimentos violentos de pescoço, que me lembram os de galinhas ciscando. Assim todos falam e não sei se tem alguém a ouvir.

De cada lado da entrada, há uma escada larga de pedra que parece mármore de pia de cozinha. Dão para o balcão alto que circunda o salão e que parece vazio. Eu subo a da esquerda, mais para fugir dos olhos que chacoalham de um lado para o outro como  se fossem chicotes, do que do barulho que, de tão alto, deixa tonto. Os olhares conseguem ser mais altos e mais estonteantes ainda.

O balcão não está realmente vazio. Ele tem vários frisos onde alguns casais e outras combinações com mais ou menos pessoas tentam focar a atenção numa conversa mas acabam todos mudos procurando atividade que os deixe menos encabulados.

Vou até o final do balcão, sobre a quina do tablado, sem encontrar um friso vazio ou um banco. Mas é um lugar onde fico razoavelmente escondido. Na beirada da mureta, se fôr preciso, com um passo e meio para trás, fujo do olhar de alguém que esteja no térreo. Uma coluna que vai do chão ao teto, enfeitada com uma cortina de camurça cor de vinho, impede que outras pessoas do balcão me vejam.

Toca um sino ou tambor várias vezes. O barulho me lembra um prato bem pesado de bateria. A aniversariante aparece no meio dos convidados e anuncia uma valsa e o brinde usando a mesma as mesmas palavras da última miss universo ao receber sua coroa.

Todos recebem taças de champanhe, mesmo eu. O garçom parece ter-me espreitado desde que cheguei para ter certeza de que eu não fugiria do ritual. Em parte fugi. Parece que somos em número ímpar e, escondido que estava fiquei sem par para a valsa.

Salvo, de minha posição de vigia, assisto os casais rodopiarem se trombando ao som de um clichê. Me parecem crianças brincando em gangorras ou balanços, exceto que crianças não seguem regras e ali todos acompanham estritamente o roteiro de seus papéis como se tivessem medo de serem repreendidos por quem os assistisse ou dirigisse. Assistindo, acho que sou só eu.

A música termina abrupta, sem aquele toque retumbante que costumam ter as valsas ao final. Me lembro de como a música terminava ao levantarmos a agulha da vitrola e é curioso que a banda tenha soado assim. Então, o brinde. A aniversariante diz que todos tirem suas máscaras. Demoro a tirar a minha, meio pela timidez de me revelar a quem talvez me observasse ali isolado, meio também por, desconectado do ritual, demorar a captar a ordem. Os outros tiram as suas num movimento extático que parece único, sincronizado, enquanto eu ainda fecho os dedos pegando a minha.

Máscaras fora, me assusto, o coração parece que engasga e sei que fico branco. Ninguém mais tem rosto. Nem olhos, nem boca ou narinas, como se eles houvessem saído com as máscaras. Ficam só a protuberância do nariz e as depressões fechadas onde me parece que deveriam estar os olhos. Seguram erguidas as taças esperando a ordem para gritar um viva ou coisa do tipo e beber a champanhe que já amornou, o que de fato não conseguirão.

Com a iniciativa já tomada antes do susto, nem imagino frear o movimento, tiro minha máscara também. Então não consigo ver mais nada ou mesmo tentar falar, o que já não me admira.

Aí sim, já consciente, coloco-a de volta e vejo todos parados nas mesmas posições. Parece um quadro surrealista ou foto de uma cena de balé moderno. Sorrio, último sorriso, arregalando os olhos para guardar bem nítida a imagem que deveria me parecer bizarra mas que, em vez disso, acho linda. Levantando a taça em brinde, como todos os outros, e tiro novamente a máscara.

Bolo

Fiquei pouco tempo na faculdade de física. Logo me decepcionei desgostoso com ela.

Do Instituto de Física, uma coisa de que me lembro foi de me falarem sobre a dificuldade de descobrir a idade das estrelas. Foram longas aulas chatas sobre isso que só agradaram aos que achavam que deviam gostar delas para honrar suas camas de nerds).

Gosto muito de olhar o céu em noites claras e olhá-las, por minutos a fio. Claro que tenho minhas preferidas.

Uma em particular tem iluminado meu final de dia. Tem um brilho bonito e feliz que eu não entendo mas me distrai dos pensamentos com que ruins que os adultos grilados têm de lidar durante os dias (e as noites).

A idade, imagino, basta alcançá-la para pergintar. Por outro lado, conhecer como consegue brilhar, de onde veio, o que se passa a seu redor, continua um mistério, como é com todas as coisas bonitas que gostaríamos de entender.

Ainda assim, mais humano e, creio eu, até poético, é podermos dar-lhe uma data de aniversário para acender uma vela sobre um pedaço de um delicioso bolo de chocolate que ela nunca comerá (rs) e cantar parabéns.