Cerimônia

Eles não fariam aquela cerimônia tradicional, grandiosa, cara, para se lembrar a vida toda.

Durante o dia, fizeram a mudança, das malas dela, para o apartamento onde ele já morava. As chaves, ela já tinha, e também o costume de chegar para visitar, ficar e dormir sem precisar avisar antes. Meia dúzia de amigos, mais de amigas, ajudaram a carregar malas, caixas e arrumar algumas coisas no guarda-roupa. Não que precisassem. Foram convidados para o jantar e se ofereceram para ajudar. Seria divertido, e teriam desculpa para chegar mais cedo sem incomodar.

O jantar, para marcar a data, num restaurante que eles gostavam. O dono os conhecia já, namoraram muito lá. Foi muito simpático em reservar uma mesa grande para eles. Ao todo não eram mais que vinte. A meia dúzia de amigos, os pais, os irmãos e os cunhados. E nem todos iam. Não era um casamento, era uma comemoração.

Tanto que eles ficaram muito sem-graça, encabulados, quando os convidados os incitaram a discursar e trocar votos enquanto esperavam a comida. Mas ela, eu acho, não foi pega tão de surpresa. Já tinha preparado algo. Será que ele pisou na bola em não preparar nada? Ele tinha que saber que faria isso? Não tinha nada preparado. Ela leu o dela, sorrindo feliz, leu do telefone. Foi bonito. Ele ficou encabulado. Ela, com a atenção no que lia, não ficou tanto. Ele mordeu o beiço e, quando ela terminou, pensou em lhe beijar. Ela olhou emocionada, mas não chegou perto para deixar-lhe beijar.

Depois era a vez dele. Esperaram que ele falasse o dele. Ele não tinha nada pronto. Tentou inventar algo rápido, de improviso. Ele é bom nisso. Em pouquíssimos segundos, se lembrou de tanto coisa, coisa com ela, coisa por ela, coisa de antes dela, que imediatamente ficou com vontade de chorar. Abaixou um pouco o rosto para tentar disfarçar e se controlar, perceberam todos, o olho esquerdo molhou é o rosto escondeu o sorriso de lábio mordido de antes. O lábio ainda estava mordido, agora pra controlar o resto do rosto.

Ele pegou o telefone também. Não era para ler nada. Rápido, procurou e pôs uma música. É uma música que ele gosta e que sempre achou que cairia bem em algum trecho de uma cerimônia de casamento. Encostou o telefone na orelha dela, para que ouvisse direito. Ela reconheceu a música e se lembrou de quando ele falou dela e ela a ouviu pela primeira vez. Gostou da lembrança e da cara emocionada dele, se emocionou também.

Ele, sem palavras, desistiu de falar bonito, ou de ser adequado à ocasião, só quis ser sincero: “Você sabe o bem que me fez você entrar na minha vida, o bem que me faz você nela. Eu só quero que nós continuemos nos amando e respeitando como até hoje, e conseguir retribuir todo esse bem que você me faz.” Falou bonito. Falou e chorou. É um chorão. Nem todos sabiam isso, alguns estranharam.

Ela o abraçou. Ele se esqueceu daquele beijo que pensou em lhe dar. Demorou um pouco para desfazerem o abraço. Deram as mãos, se olhando, acariciaram os rostos um do outro, mais sinceros e esperançosos que nunca. Mudos, prometiam-se que daria certo.

Foi uma cerimônia de que se lembrariam pelo resto da vida.

Flashback I

Eu me lembro bem daquele dia, foi igual ao anterior, e talvez ao anterior também.

Eu saí do trabalho, umas seis e meia, sete horas. Saí sozinho. Não era desses dias bons para happy, devia ser uma quarta ou quinta-feira. Provavelmente quinta, porque eu estava sem a mochila grande da academia. Ela é grande, pesada. Só o quimono já deve pesar uns oito quilos. Mais a toalha e as tralhas de banho, e o peso da própria mochila, deve dar dez.

Do trabalho para casa eram três estações de metrô, mais trezentos metros de subida da rua. Não davam nem vinte minutos. Eu não queria chegar tão rápido. Queria companhia, conversar, fazer algo bom. No mínimo passear. A princípio, pareceu uma boa idéia passear. Tem mais duas estações ao longo da avenida, no sentido contrário ao de casa. Eu podia passear, olhar as lojas, o movimento, tomar café. Eu já tomava bastante café no trabalho, me acostumei quando trabalhava num projeto com muitos americanos e argentinos. Nos próximos dias, vou me acostumar a tomar café também em cafeterias de rua e no shopping, passando o tempo e olhando o movimento quando não estou no trabalho. Podia passear pela avenida para passar o tempo e, então, pegar o metrô mais para trás. Há outras duas estações na avenida. Uma terceira mais adiante, mas essa não quero. Me deixa triste, lembranças de outro tempo.

Eu começo a andar, na direção do metrô, como se fosse pegá-lo, mas continuo. Parece que todos na rua repararam que há algo de errado. Devo estar com uma cara estranha, andando de um jeito esquisito. Devo estar mesmo. Estou preocupado com que não reparem, devo estar nervoso fazendo algo de estranho para repararem.

Pensando bem, do trabalho pra casa é a mesma distância que até o final da avenida. Eu não fui na academia, estou descansado, preciso de exercício. É conveniente pensar isso. Em vez de andar pela avenida, posso andar para casa. O caminho não é tão legal. Pelo contrário, é bem feio! Tem um viaduto feio, os hospitais, a faculdade de medicina, três cemitérios grandes, outro viaduto. Depois, já no bairro, melhora, com as ruas bem arborizadas, a igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Para não repararem na minha meia volta, entro numa galeria – era uma galeria de cinemas quando eu era mais novo, tenho saudades dessa época – saio pela outra porta – a que não havia no tempo dos cinemas – e volto andando na outra direção, pra casa. Passo a entrada do metrô. Alguém do trabalho vai me ver, vou ficar sem graça. Aperto o passo. Atravesso a rua, passo o prédio do trabalho. Minha colega está fumando na porta. Vejo de rabo de olho. Finjo que estou distraído e não a vi. Mas a vi. Aperto mais o passo para sair logo dali. Passo a igreja e vou para o final da avenida, para o viaduto.

Por ali, ninguém sabe que esse não é meu costume, meu caminho normal. Ninguém vai perguntar. Relaxo o passo, passo a passarela por baixo da outra avenida, para contornar o viaduto. Lembro que, para que isso sirva de exercício, tenho que apressar o passo, acelerar o coração. Esforço aeróbico, senão não adianta. E eu exatamente quero ir a pé para demorar, e para relaxar. Demorar e relaxar. Gastar um tempo andando, pensando em mim e na vida, em vez de gastá-lo em casa, sozinho.

Olho a hora no telefone. Das próximas vezes, ia anotar quanto tempo levava e projetar metas. Apresso o passo até uma marcha. Espero não rebolar como aqueles cara que fazem marcha atlética. Nem preciso ir tão rápido como eles. Cuido para não mexer muito os braços, não ser espalhafatoso. Mas ali ninguém me conhece.

O caminho é feio mesmo. Uns bares que eu não conheço, as lanchonetes e hospitais, os cemitérios, o segundo viaduto, por cima da avenida. O caminho só serve mesmo pra se andar e pensar. E andando rápido não dá para pensar em nada calmo. Só em besteira. E, isso é curioso, descubro que pensar besteira dá raiva e que raiva dá pressa. Com essa pressa a mais, aperto mais o passo, e isso acaba relaxando. O esforço desvia a atenção e ajuda a espeirecer. São quase três quilômetros assim.

Depois do viaduto, chego no bairro. Já o bairro é bonito. Casas chiques, antigas, ruas muito bem arborizadas. Logo no começo, está a igreja. Nossa Senhora de Fátima. Igreja de portugueses. Há muitos portugueses por aqui. Dá-me vontade de entrar. E não vejo por que não. Atravesso a rua. A porta da frente está fechada. Dou a volta, a do lado também está. A capela está aberta, nunca fecha. É pequena, paredes de vidro, tem alguns bancos, cabem umas doze pessoas, a imagem, grande, e a garrafa de água benta.

Benzo-me, sento, rezo. Peço muito muitas coisas. Não sei se pedi as coisas certas. Tenho certeza de que todos meus pedidos foram atendidos. Mas eles não resolveram. Talvez isso também eu não saiba fazer, pedir. Com Nossa Senhora de Fátima também tenho que aprender a conversar direito. Com ela também.

Rezei uns quinze minutos. Depois continuei pra casa. Mais uns quinhentos, oitocentos metros, mais ou menos. Até aqui, o caminho foi plano, agora é uma pequena descida. Eu moro no começo da descida, na ponta do espigão. É a parte fácil. Depois de ter parado na igreja, já não tenho mais o passo apressado. Parece que não adianta mais para o exercício. Ando mais devagar para demorar um pouco mais a chegar em casa.

Na porta do prédio, lembro-me de olhar a hora. Cinqüenta e cinco minutos. No elevador, faço a conta. Tirando uns quinze da igreja, foram, mais ou menos, quarenta de caminhada. Está bom. Noutro dia, cronometro direito.

Cheguei no meu andar, pego a chave para abrir a porta.

 

Noutra Vez

Já faz algum tempo. Tempo bastante? Tempo demais pra mim. Sempre parece ser muito tempo pra quem espera ansioso. Assim como quem tem medo sempre percebe a demora embora, instintivamente, tente empurrá-la mais um pouco. O tempo não é areia ou água. Não dá para guardá-lo num pacote e pesar na balança, esperar que atinja o peso solicitado na receita. Por isso, nenhum médico receita tempo. Não dá para dosar, para escrever a bula, apesar de dizerem que o tempo é um santo remédio. O tempo é sim como uma borracha que vai apagando as coisas. Ele não resolve, só faz esquecer, passar. Passar tudo, o ruim, e também o bom. Passar tempo suficiente para passar o ruim, pode também fazer passar o bom. Apagá-los. Esquecê-los. Limpar toda a folha onde está escrita, desenhada, a vida. O que passou de ruim deve ser muito ruim para se querer algo assim. Triste não haver coisas boas de se recordar que compensem. Mas, se as há, esperar que tempo? São pensamentos desconexos com conexão. Ele os elaborava há algum tempo. Desde que achou que devia esperar algum tempo. Foram um jogo de palavras que ele montava para justificar não esperar mais e se preocupar apenas em criar coragem. E resolveu que não ia mesmo esperar mais, que já havia passado tempo, muito tempo, demais, que não podia passar mais. Faltava a coragem.

Ele gosta muito de música. E de cinema. Teatro não é cinema, mas também é bom. Musicais têm música e teatro. Ele gosta. Homens não costumam gostar, mulheres sim. Principalmente se a história é romântica. Estreia um musical novo na cidade. Adaptação. Ele sabe do que se trata, já conhece a música, é romântico. É uma boa desculpa pra criar coragem, uma coragem dissimulada. Ela haverá de se interessar.

“Estou sendo convidada?”

“Sim, senhora. Não foi isso mesmo que eu falei?”

“Você perguntou se vamos, é diferente. Mas, a que devo a honra?”

“Você não vai me deixar ir sem companhia. Você já me é uma companhia tão boa em tantas oportunidades. Por que não em mais esta?”

Ela queria ir. Queria lhe fazer companhia. Não ia continuar a conversa tentando deixá-lo mais sem graça. Não sabia se o convite vinha em boa hora, mas gostou de recebê-lo. Sentir-se querida e lembrada fez bem. Na verdade, tentou deixá-lo sem graça, mais sem graça, para não ficar ela mesma sem graça. Sentiu-se cruel e se arrependeu. Mordeu o lábio, de remorso, e perguntou quando.

Ele queria no sábado. A estréia era na sexta-feira. Mas, no sábado, dá para se arrumar sem pressa, salão, barbeiro, banho, comprar outra roupa se não tiver uma adequada. Dá pra marcar mais cedo, a pretexto de jantar, ou de qualquer coisa, e ter mais tempo para conversar. Ele pensou em tudo isso antes, mas só disse que no sábado fica menos corrido. Ela concordou, já pensava no salão. São várias especialidades diferentes pra agendar no salão, cabelo, pé, mão, e sabem lá as mulheres o que mais, pra ir num evento desses. Ela queria agradar. Ele queria estar lá com ela. Combinaram de ir juntos, mais ou menos juntos. Ela mora longe, e ele mora perto do teatro. Ela vai até a casa dele e, de lá, seguem juntos.

Ela chegou perto da hora combinada, depois. Mas, mesmo assim, antes do que ele imaginava. Ele tinha já se preparado e esperava vendo televisão, sentado no sofá, com cuidado para não amassar a roupa. Besteira. Ele não conseguiria amassar o suficiente para que ela reparasse. Ele a achou linda, como sempre. Desta vez ficou sem graça de dizer. Estranhou a roupa. Não era feia. Só que ele nunca tinha visto as roupas que ela usava para sair à noite. Não adivinha que ela tivesse essa no armário. Havia imaginado as que já conhecia. Vão no carro dele, o dela fica na garagem, esperando. Chegam bem cedo. Mais tarde é difícil encontrar onde estacionar, mesmo os estacionamentos lotam. A região é cheia de restaurantes. Haviam falado de almoçar antes do teatro.

“Você dorme cedo?”

A pergunta, assim, fora de contexto, a pegou de surpresa. Não entendeu direito, mas respondeu.

“Durante a semana, deito cedo, mesmo que não tenha sono.”

“Vamos tomar só um café agora? A gente janta depois, com mais calma.”

Dava tempo de jantar, e ela não gosta de comer tarde, mas concordou. Não queria ter pressa também. Ou, talvez, só não quisesse contrariá-lo já. Tomaram cappuccinos, com croissants. Deu pra conversar bastante, fácil achar assunto, sempre conversam bastante.

No teatro, já sentados, ele se lembra que não lhe deu a mão, não tentou segurar-lhe a mão. Sorrindo, oferece-lhe a mão, sem timidez, ou com timidez disfarçada, e ela não entende como algo natural entre os dois, assistirem de mãos dadas, como se já tivessem se dado as mãos antes. Ela encolhe os ombros e se encosta a ele para mostrar que está a vontade. Ele aproveita que lhe segura a mão, e abraça-lhe o braço. Pega de surpresa, ela encosta-lhe a cabeça ao ombro, brincando de namorada.

A peça não foi exatamente Broadway, ou um mega-show, ou perfeita. Ele já havia previsto isso e não ligou. Ela achou que seria melhor, mas também não ligou. Quem quisesse qualidade de som e imagem, assistiria em casa. Passear no sábado é uma diversão diferente. A qualidade do que está no palco é secundária. Ele se lembra de que os atores costumam dizer que o importante no teatro está na platéia e, agora, entende, de um jeito dele, que está mesmo. Pareceu demorar um pouquinho mais do que devia. Talvez as últimas músicas não fossem tão boas quanto as primeiras, ou já saber o enredo e prever o final feliz tirasse a graça, ou só estivesse ansioso por sair dali para jantar. Ao final, depois dos aplusos, ele correu passar-lhe a mão um pouco antes do pulso. Foi seu jeito de pedir que saíssem também de mãos dadas. E saíram. Ele atrás, que ela estava mais próxima ao corredor. Empolgados por chegarem logo à rua, tomar ar, relaxar o corpo. Na rua, estava muito frio, soltaram as mãos e viraram de frente um pro outro.

Ele achou estranha sua própria ideia de jantar àquela hora.

“Você prefere jantar comida mesmo? Comer um lanche? Ou outro cappuccino… e um pedaço de bolo?”

Ela pareceu aliviada por ele perguntar.

“Cappuccino bem quentinho com torrada. Você não se importa? Prefere comida? Não tem fome?”

Ela respondeu, mas fez cara de quem achava que estava pedindo demais: estragar o passeio que ele planejou trocando o jantar por um lanchinho. Ele riu.

“rs Sábado à noite, mais de meia-noite. Você acha que eu falei pra gente comer por que tenho fome? Eu só quero uma desculpa pra sentar em algum canto e ficar mais bastante tempo conversando com você…”

Ela sorriu, sentiu-se mais lisonjeada do que se ele tivesse se lembrado de elogiar-lhe a aparência. Pediu que encontrassem logo um lugar quente. Ele conhecia um, mas tinham de andar um pouco. Deram-se os braços e foram apressados se aquecendo e rindo do frio que era a desculpa divertida da vez para se encostarem.

Conversaram mais. Ele sugeriu que ela tomasse o cappuccino tradicional, com conhaque. Ela aceitou a sugestão. Parece que o frio estava agarrado a suas roupas. Tomou dois. Ele bebeu um café duplo e chá. Ela ficou com cara cansada, denunciou o sono. Ele se lembrou que ela ia ainda dirigir.

“Você está cansada, como sono, e bebeu. Dorme lá em casa.”

Pediu, com carinho, temendo ser mal entendido, embora não fosse ruim ser mal entendido. Ela riu. Um riso de diversão, sem risada, só sorriso e cara de quem pegou o amigo no pulo.

“rs Você me oferece assim desinteressadamente e de improviso, né?”

Ele riu também, mais ou menos o mesmo riso, mas sem jeito. Chegou aquela hora que você tem de explicar algo.

“Olha, isso é novo pra mim. Estou falando pra você dormir em casa, pra dormir mesmo. Não tem segunda intenção. Eu também preciso ir devagar. A gente chega lá em casa, eu te faço um caneca bem grande de café, que você vai pousar ao lado do sofá e nem precisa beber. A gente põe um filme desses ruins que você gosta. Você encosta a cabeça no meu ombro até quase dormir. Aí, pode deixar, que lá tem cama suficiente pra você dormir sozinha.”

Ela não se esqueceu de avisar que queria tomar um banho antes de dormir, mesmo com esse frio todo.

No dia seguinte, acordou numa cama de solteiro, com roupa de cama da Disney, exceto pelo edredon. Era o edredon de casal com que tinham se coberto na sala enquanto viam o começo de um filme de que ela não se lembrava.

Ele tinha café da manhã pronto na cozinha: café, leite, pão fresco, peras. Quem come pera no café da manhã? Ela se divertiu provocando-o. Comeu o pão e o café com leite. Disse que levaria uma pera para mais tarde. Ele se lembrou de dizer algo sério.

“Eu não queria que você fosse embora.”

“Eu preciso. Eu gosto que você queira que eu fique. Eu também queria.”

E, mordendo o lábio inferior, lembrou-se ela também de lhe dizer algo sério, como se brincasse, mas não soube dizer. Só prometeu a continuação.

“Noutra vez.”

Ele percebeu e beijou suas mãos. Depois, pôs a mão nos lábios dela, trouxe os mesmos dedos aos seus lábios e beijou. Ela sorriu, procurou o casaco, deu-lhe um selinho e saiu.

 

 

 

Olha de Que Somos Feitos!

Consegui falar com meu amigo. Estava preocupado. Fiquei mais.

Ele estava feliz, e eu também feliz por ele, conseguiu um novo emprego, um cargo executivo numa empresa próxima à minha. Um novo emprego com uns degraus a mais. Coisa para se comemorar. Comprei um presente e chamei-o para conhecer o café do posto de gasolina, tomar café da manhã, e depois um happy-hour para começar a primeira semana com estilo. Ele é um irmão mais velho com defeito, cuida da minha vida e me ensina coisas erradas.

No dia de seu início, liguei-lhe. Ele furou comigo no café da manhã. Tentei o dia todo e não consegui falar-lhe, não atendeu o telefone. Furou o happy também. Devia estar enrolado com o emprego novo, a empresa, apresentações, burocracia, o caminho complicado para chegar ali, trânsito. No dia seguinte tentei de novo, nenhum contato também. Telefone ali, praticamente zona rural, pega mal, pode ser por isso, o dele devia estar fora de área. Além do mais, me lembro, ele nunca teve telefone próprio, sempre usou apenas o corporativo, podia estar sem telefone. Comecei a tentar com mais intervalo.

Depois de uma semana, veio uma resposta, alguns palavrões seguidos de “Não passei no exame médico pra admissão.” Já estava preocupado, fiquei mais. Ele não é gente que tome cuidado com a saúde. Seus hábitos alimentares são excêntricos, come só carne e queijo, nada mais. Eu chamo suas refeições de X-Carne. Cinco anos mais velho que eu, minha altura, quase o dobro do meu peso. Eu vivo lhe avisando para maneirar se quiser ver sua filha adulta. O teimoso nunca escuta.

Tentando comovê-lo, lembrei-me de uma vez em que assistimos uma colega nossa, no trabalho, desmaiar e ser carregada pelos bombeiros. No caminho por onde a levaram, ficou um rastro fedido de vômito e tudo mais que pode ser expelido pelo corpo. A menina bonita, branca, jogada, pendurada, imóvel, largada e pesada como se fosse uma boneca de pano. Sabíamos que estava viva, mas não pudemos deixar de nos impressionar. Meu amigo, impressionado, transtornado, com cara de pena e preocupação, só conseguiu me falar umas três vezes seguidas a mesma frase: “Olha só de que merda somos feitos!” Em sua simplicidade de menino que já viveu com dificuldade, referia-se à fragilidade do corpo.

A lembrança do episódio não o moveu. Perguntei do tratamento, do médico que um colega nosso lhe indicou e que ele me pediu para acompanhar-lhe na primeira consulta. Disse-me que não voltou ao médico. Ele lhe pediu uma bateria de exames. Entre eles, hemograma. Mais que medo de morrer, gosta de carne, e odeia agulhas.

 

 

 

Banho

Entrei no banho, é um dos momentos mais relaxantes do dia. Embaixo do chuveiro, sozinho no banheiro, água morna ou fria, dependendo do dia, da noite e da temperatura. Já tive banheira, tirei por causa dos problemas hidráulicos, vazamentos. O morador anterior instalou errado, ela vazava e infiltrava pela casa toda. Sinto falta de ficar deitado, ouvindo música, por mais de uma hora, quase dormindo, antes do jantar. Agora vou de chuveiro mesmo, é gostoso, mas tem de ser mais rápido. E não dá para deitar quase dormindo.

Meu banho tem uma seqüência certa: primeiro molhar a barba com água quente, espalhar o gel no rosto, ele também serve pra limpar os cravos. Fazer a barba. É coisa de preguiçoso fazer a barba à noite, acho que sou preguiçoso mesmo. Molhar o cabelo, passar shampoo. Cuidado pra não escorrer gel no olho. Espera três minutos, de olhos fechados, limpando a orelha. Enxágua, começa pela barba, com cuidado pra não espalhar toco de barba pelo corpo. Depois o cabelo, o rosto, tem que tirar todo o shampoo e todo o gel. Aí lava o resto do corpo com sabonete, de cima pra baixo. Cuidado nos pés pra não tomar um tombo. Enxaguar tudo pra tirar todo o sabonete. Desligar o chuveiro. Aí passar um gel ou óleo pro corpo — não precisa ser veado pra fazer isso, fica cheiroso depois — e esperar pra abrir de novo o chuveiro e enxaguar. No final é me secar com a toalha, gosto de deixar o cabelo bem úmido, passar o creme da babar, desodorante e colônia. Ah! Tem de pôr a roupa!

Este banho de agora, tem uma coisa estranha no meu pé, parece uma farpa, mas é sintética, preta. Encontrei quando lavava a sola do pé. Havia um esfolado, uma espécie de pele grossa, descascando, do tipo daquelas que minha madrinha lixava — na verdade, ela ralava, feito queijo — com a lixa de metal, a de madeira não dava conta. Quando ela terminava de lixar, ficavam sempre umas rebarbas levantadas, secas. Foi algo assim que eu encontrei na sola do meu pé, um pouco abaixo dos dedos. Mas era um esfolado pequeno, to tamanho de um calo. Não parecia de calo, muito fino, ao menos não de calo de homem. Bom, minha pele sempre foi fina, lisa. Não é por causa do gel não. Tomava banho com sabão ou sabonete vagabundo quando era criança, com bucha. Hoje em dia, as crianças nem sabem o que é bucha. Pensam que se fabrica, que é sintética ou de palha. Quando eu era pequeno, a gente pegava a bucha do pé, parece um chuchu gigante, comprido. Pendurava ela no sol até secar. O sol consome o líquido e a polpa rala, fica aquela esponja fibrosa, seca, que arranca a pele. A avó me ameaçava de banho de caco de telha se não esfregasse a bucha direito. Usávamos, de medo. Já então minha pele era fina e lisa. Macia, me zoam. Sempre tive inveja de quem tem a mão calejada. O esfolado até podia ter sido de um calo, um calo fino de minha pele frágil. Mas acho que não, acho que eu teria notado. Fazer o calo e pisar com ele até esfolar.

Ali não parecia ser calo, parecia uma farpa. Cutuquei com a unha, pra arrancar. Quase não tenho unhas, uso uma pra lascar a outra. Minha unhas são muito pequenas. Não servem pra nada, ainda mais moles do banho. Eu até que insisti bastante.

Lembrei de usar a pinça. Eu tenho uma pinça de sobrancelha, confesso também. Às vezes me nasce um pelo muito grande nela. Grande, grande, todo torto, de uma hora pra outra. Parece que, por troça, alguém me pegou distraído e me plantou um pentelho na sobrancelha. Por isso,meu deixo uma pinça à mão. Se tivesse unhas boas, usaria-as. Como não tenho, uso a pinça.

Fechei o chuveiro, senti na privada com a pinça. E toca, tentar puxar a farpa. Não sei como não sentia incomodar, pisar com ela ali. Era difícil de tirar. Forcei uma ponta da pinça como pá por baixo da farpa. Consegui levantar um pouquinho. O suficiente para tentar de novo com minhas unhas ruins. Não deu muito certo. Voltei à pinça. Não conseguia puxar. Com esforço consegui levantar, como me ensinaram no curso de primeiros-socorros. Melhor abrir um pouco mais a pele que deixar algo dentro. Levantei, cutucando com a pinça, para deixá-la espetada. Parecia maior do que uma farpa. Uma tripinha de plástico. Igual àquelas balinhas de alcaçuz, mais fina.

Levantei o suficiente para conseguir segurar com dois dedos. Aí puxei, não podia ser maior, era. Puxei pro outro lado, abrindo mais a pele. Consegui, ele foi abrindo a pele e saindo, igual se abre uma embalagem de biscoito. Aquelas que a gente puxa o fio vermelho e ele rasga a embalagem. Aquela tripa preta rasgou minha pele, não doeu, impressionante. Dizem que as primeiras camadas da pele são mortas, não têm sensibilidade. Deve ter sido por isso.

Fui puxando e ela foi me abrindo, como se eu fosse o pacote de biscoito. Como se eu tirasse o contorno de um desenho, como se eu fosse um desenho. Enervei-me e puxei o que sobrou com pressa, toda a volta do corpo, passando pelos braços, cabeça. Ao terminar, percebi que, como desenho sem contorno, exatamente como desenho sem contorno. Perdi a forma, as partes de meu corpo se misturavam. Admirado, parei olhando. Vi meu corpo se desmanchar aos poucos, escorrer sua tinta para o chão molhado. Misturado à água, escorrer pro ralo.

Esses trechos não estão muito inspirados, mas o importante agora é a intenção, não parar. Ir indo…

Foto de Estrelas

Tantas estrelas no céu. Ainda não aprendi a fotografá-las. Uma pena! Brilham fraquinho atrás da poluição de São Paulo. O copo na mão, quentinho, meu corpo gelado jogado pra trás na poltrona do terraço. Queria levar este céu comigo. Por uma foto bem grande no teto do quarto, com as estrelas brilhando fraco como agora. Pra eu olhar à noite enquanto penso,de olhos abertos, antes de dormir. Talvez assim sonhasse com elas, as estrelas. Mas faltaria este cheirinho de ar livre, mesmo poluído de fumaça, café e um pouco cigarro. Este ar fresco, até gelado, é o principal. Dormir olhando as estrelas, refrescado por ele. Sonhar com elas e com muito mais. Com sonhos.

Correria

Noite. Fim de um dia puxado. Acordei muito cedo. Correria, muita correria. Não deu pra fazer home de manhã, precisava de algumas coisas do meu note. Ele está no trabalho. Está com defeito, por isso o deixo lá. Não adianta trazer. Mas adiantaria para pegar o que eu precisava. Mais correria pro trabalho. Quatro horas pra ajeitar as coisas do notebook, disponibilizar na rede. Perdi o almoço. Puxei o carro. Passei no posto de gasolina. É o único lugar por aqui para se tomar café. Não posso café (valha-me Deus). Tem bolo. Uma fatia de bolo pra quebrar o jejum e uma lata de chá gelado. Correria, correria, correria. Nove e meia da noite. Ufa! Pronto.

Agora não quero ir pra casa. A rua é mais legal. Esta tarde para jantar fora, mas ainda dá para tomar um chá (café não pode, olha o que anos de vício em cafeína a cada meia hora fazem com alguém). O pão-de-queijo daqui é uma delícia. Não pode, engorda. E chegando em casa preciso fazer esteira pra agüentar a aula na academia na próxima semana. Queimar o bolo e a banha da barriga. Isso é secundário. O importante é acostumar os músculos, o coração e o pulmão. Até que eu achei que estivesse mais podre.

Sentado com o chá. Escrever algo. Escrever sobe esta correria, acabei escrevendo correndo. Não precisava. Mal dei dois goles no chá. Só precisava agora acalmar o ritmo e pensar em algo pra me esquentar à noite.

Vontade de Escrever

Eu tenho vontade de escrever, de escrever agora. Por isso quis passear agora, no frio. A noite está começando a gelar.

Não escrevo nada desde ontem à noite. Essas horas improdutivas, fazem-me mal. É como se não tivesse feito nada de minha vida. Não tivesse me passado nada de bom que eu queira contar. Como se eu tivesse vivido só a repetição da rotina, enfadonha, previsiva e prevista.

Está vontade de escrever é quase disciplinar. Não é a vontade de ter algo e não ver a hora de conseguir contar. É o querer contar e não saber o quê. Faz um frio que incomoda os braços, esqueci o agasalho. Na verdade, não quis usar agasalho, evito, me sufoca. Mas dói escrever no frio.

Tenho umas idéias, mas nada que eu consiga terminar de escrever ainda hoje. São idéias de histórias longas, longas histórias, que eu quero contar em detalhes, elaborar. Coisas que vão demorar semanas para contar como quero. Histórias que demoram semanas, meses, anos, uma ou duas vidas inteiras, para serem vívidas. Não podem ser contadas num ritmo apressado. Temos de contá-las assim, como são vividas, no mesmo ritmo.

Não são essas que eu quero contar agora. Eu quero algo para publicar hoje. Este dia precisa de algo. Se não tiver nada, não foi vivido, foi um dia a menos, desperdiçado.

Eu olho meu copão de chá, chá gelado, aqui no frio, no descoberto. É gostoso. Olho as mesas e poltronas em torno, noite de domingo é uma noite estranha, entendo um pouco porque não sai nada. Tentar escrever aqui e não conseguir me deixa estranho, triste.

Guardo minhas coisas. Por agora, paro. Paro, não desisto. Logo mais, à noite, — agora são oito, noite é depois das onze — depois do banho, no sofá, no escuro, pernas cobertas pelo edredon, televisão ligada em alguma porcaria, — de domingo, só tem porcaria — chá ao lado, na mesa, cabeça pousada no encosto do sofá, descansando, vou pensar. E, pensando, vou imaginar algo sem querer e vou escrever, quietinho, pensando no resto da noite.

Dois Momentos

Eu estava pensando, não é assim sempre, mas há algumas vezes, e talvez essas sejam as melhores, em que o sexo se divide em dois momentos: o das bocas e o das mãos.

O momento que eu digo que é o das bocas é aquele inicial. Começa quando a gente ainda não sabe se pode rolar algo, faz rodeio, fala, conversa, se olha. As bocas se oferecem, e se procuram, receosas. Quando se encontram, correspondidas, a emoção da ansiedade dá lugar à da aceitação, à da paixão. Esse é o momento da paixão. As bocas o representam. Procuram-se no beijo. Depois, na exploração dos corpos. Nos beijos apaixonados, nos beijos pelo corpo, preliminares. E nos outros beijos pelo corpo que não são só preliminares, são os definitivos, que poderiam ser o encerramento da noite se a paixão não fosse tão grande e não demandasse outros. Acaba naquele outro beijo, apaixonadíssimo e excitadissimo, quando os copos estão grudados e entrelaçados, até que um derradeiro espasmo deixe um dos dois, normalmente o homem, inerte, fora de ação. Satisfeito, por hora. Se cavalheiro, imaginando se o prazer apaixonado foi recíproco.

O segundo momento, o das mãos, vem daí a pouco quando, recuperados, passado o arrebate da paixão, desinibidos, já nus, já conhecidos, entregues, os dois se permitem aproveitarem-se com mais cuidado, mais devagar. Olham-se sem vergonha, tocam-se. Fazem carinho pelo corpo um do outro. Deslizam as mãos pelos corpos se conhecendo, se reconhecendo, explorando, devagar, sem pressa. É o momento do carinho e do desejo. A paixão descansou, satisfeita. O desejo prevalece, e se revela na forma escolhida para demonstrar o carinho. Quando os corpos se encaixam de novo, enquanto as mãos buscam, com cuidado, sentir e excitar, até que o segundo espasmo final os detem. Mas não separa. Mesmo que o resto dos corpos se desgrude, se separe. Ficam ali ainda, cansados, respirando fundo, de mãos dadas, sorrindo involuntariamente.