Caminho pra Escola

Estou indo pra escola. Queria jogar bola, todo dia quero, mas todo dia vou pra escola. As outras crianças também, nenhuma quer ir pra escola, mas todas vão mesmo assim. Algumas gostariam de jogar bola, outras de brincar de bonecas, jogar vídeo-game, dormir. Dormir é bom! Já têm umas meninas da escola que preferiam namorar. Os meninos não, se já saíram da cama, quase todos preferem jogar bola. No entanto, vamos, todo dia, pelos mesmos caminhos, depois de tomar os mesmos cafés da manhã, para a escola. Ao menos eu tenho a desculpa de que todos que jogariam bola comigo também estão pra escola. Só se jogasse sozinho. Eu bem que preferia jogar sozinho, mas vou pra escola.

E eu aqui, carregando a mesma mochila, usando a mesma roupa… Porcaria de roupa ridícula! Minha mãe tem mania destas camisetas com estampas de bebê. Meus tênis ainda tem estampa, são vermelhos com elefantinhos. Ela ainda me compra cuecas estampadas, aquelas feitas para crianças pequenas que não usam calças. Dá pra acreditar?

Todo dia eu penso nisso e me lembro de, no dia seguinte, pegar uma roupa diferente. No dia seguinte… Nunca me lembro na hora de pegar a roupas. É sempre pelo caminho.

Na saída da escola, vou passar na banca de jornal e comprar os quadrinhos desta semana. Leio vários. Tenho de ler vários. As histórias se fragmentam entre eles. Estratégia para vender mais. Nestes quadrinhos, cada história começa num, se divide em três ou quatro ramificações que continuam em outras revistas diferentes. Sem dizer que as histórias de cada uma são continuações de histórias de outras revistas, que você não vai entender se não tiver lido. É como se a mãe, ao sentar para assistir novela das oito, assistisse as personagens dela interagindo com as das outras novelas em situações que ela só entenderia se tivesse assistido também as outras. Eles dizem que é para evidenciar que o mundo é um só. Mentira. É estratégia para vender mais. A gente que gosta de ler compra. Já, por várias vezes, disse que não compraria mais, me sinto enganado, manipulado. Não adianta, na semana seguinte compro.

Um tema recorrente nesses quadrinhos é o destino. É um jeito clássico, e já bem batido, de se fazer a história seguir um determinado rumo sem ter de quebrar a cabeça com a lógica dos fatos. É o destino e acabou. Mas com tanta gente no mundo, eles foram se encontrar, logo os dois, assim do nada, tão longe… é o destino. É uma explicação convincente pra quem escreve se for também para quem lê.

E talvez o destino exista mesmo, e seja tão clássico e batido como nos quadrinhos. Talvez destino seja isso. Ir pra escola em vez de fazer o que eu quero, com a roupa que eu odeio, depois ler os quadrinhos de que eu reclamo. E porque eu faço isso se não quero? Não sei. Será que é o destino? E do destino ninguém pode fugir? Quem tem explicação ma dê, por favor. Talvez, no final, isso tudo que eu fiz sem ter porquê se justifique. De repente, na última página, eu vou encontrar um tesouro no caminho pra escola e ficar com uma gata que gosta de conversar sobre quadrinhos, ou descubra que, para ser astronauta, preciso ter assistido todas estas aulas, fazer uma prova sobre quadrinhos e usar roupas ridículas. Ou talvez, meu destino seja viver um dia igual atrás do outro.

Depois do almoço, é hora de jogar bola. Aí ninguém me impede, nem o destino. Bom, talvez o tempo. Mas não parece qua vá chover nem esfriar. O céu está com cor de céu, com aquelas manchas de céu que nós chamamos de nuvens, mas que bem podem ser poluição ou fumaça de escapamento de discos-voadores. Tanto céu! Chegando tão longe e nós aqui embaixo. Tem de ter alguma coisa lá.

Gostava de saber onde se penduram as estrelas. E a lua? Como se liga na tomada? E deve haver um chão lá também, para elas andarem assim no céu. O sol? Cadê o sol? Me ensinaram a não olhar direto para ele, mas algumas vezes olhei. Me pareceu uma luz forte, desfocada, vista de longe. Daquelas de iluminação, holofotes, em fotos. Nunca dá para saber direito o contorno do holofote. A luz faz uma nuvem em torno dele que borra a foto. O sol me parece ser assim. Deve ser um lustre daqueles globos de pendurar que estiveram em moda há alguns anos atrás, mas com uma lâmpada forte.

Os antigos achavam que o céu fosse um deus. Ora, eles foram os inventores da palavra deus. Se a usaram para o sol, é porque é isso que ela significa. Nós é que usamos errado. O que é um deus? Não sei, mas são o sol, acho que a lua, os planetas que eu não sei diferenciar das estrelas, o escuro, o tempo, o termo, o destino, a esbórnia, o fogo, o trovão…

Hoje em dia, nós acreditamos numa coisa que chamamos de Deus. Mas, se ela é tão diferente dessas outras em segundo nossa literatura, tão grande, poderosa, orgulhosa e vingativa, deve se ofender por ser chamada assim. Por ser chamada por um nome que pode significar qualquer coisa.

Nisso, vem um vento forte, quente, barulhento, como um espirro. Bagunçou as folhas, levantou poeira, sujeira do chão. Como o vento poderia ser um deus? Só serve para isso: fazer bagunça. E Deus de verdade, pra quê faria uma coisa assim? Se ele existe, não vejo lógica nessas coisas que faz. Medo, dizem que ele se ofende fácil e é vingativo.

Será que existe mesmo alguém lá em cima? Deus? Você está aí? Ou melhor, vós estais aí? Ele não responde. Talvez tenha sido muito atrevimento meu tentar provar-lhe.

As nuvens agora flutuam mais rápido. O vento forte pode tê-las agitado. Tem gente que se distrai procurando imagens formadas pelas nuvens. Para mim, todas tem forma de algodão, de tufos de algodão. Meia dúzia de tufos voando aqui, mais meia dúzia voando ali. O céu sempre da mesma cor. Um azul claro que nós ensinam a dizer que é cinza de poluição.

As nuvens, flutuando, cobrem o sol e posso olhar em direção a ele, filtrado por elas. Ele é uma mancha disforme, pouco redonda, em tons amarelos e laranjas, atrás da nuvem. As bordas da nuvem ficam escuras, interessante. É algum efeito de contraste. Iluminando o meio, a borda escurece.

A nuvem logo sai da frente do sol e ele me atrapalha os olhos. Incomodado, de surpresa, pisco algumas vezes virando o rosto para o lado. Vejo então um reflexo, uma imagem. Ilusão. Parece o desenho de um rosto, contornado a luz no céu, atrás das luzes.

Não era uma nuvem em forma de algo. Era uma imagem de luz, que durou muito pouco, atrás delas. Procuro de novo e não a acho. Escuto um trovão. O céu estava limpo. Procuro, longe no horizonte, de onde ele vem. Vem mais outro. O chão se levanta num terremoto calmo, numa onda sólida. Não é lento, mas não tem a violência que se espera de uma catástrofe natural. Não muito longe de mim, o chão se dobra. O lado de lá vem-me por cima, como se fosse um cobertor. É um livro que se fecha.

Café no Posto

Eu cheguei cedo ao trabalho. Não muito. Mais ou menos meu horário normal. Mas, depois de marcar minha presença, pendurar a mochila e dar bom dia às vivas-almas que já tivessem chegado e eu quisesse cumprimentar, lembrei-me de que ainda não tinha tomado café. Ultimamente vinha tomando café no trabalho. Não gosto. Gosto de tomar café na padaria. No trabalho não tem pão fresco, e o café está sempre azedo.

Pensei nos problemas do trabalho, nos desaforos das últimas semanas, e o café azedo do trabalho, com pão de queijo de segunda linha, me pareceu o último desaforo. Já este inaceitável.

Lembrei-me do café do posto de gasolina. A mais ou menos um quilômetro dali. Quando chego cedo, ainda mais cedo, tomo café lá, antes de estacionar no trabalho. Saí para o posto como cheguei, sozinho. Tinha sono. Que não esperassem de mim comportamento mais civilizado que o bom dia automático que eu havia dito sem olhar ninguém. Voltei pro carro e fui para o posto, como se ainda nem tivesse chegado ao trabalho.

Sentei no primeiro tamborete do balcão, o mais da esquerda, último para quem chega — é uma questão de referencial. Para mim, o primeiro tamborete é esse. Nos mais à direita, mais próximos à entrada, você fica atrás da bandeja do bolo, da fruteira, do display com propaganda da máquina de café, — a de marca, automática, novidade que você pode ter em casa, eu gosto mesmo é do café da máquina tradicional — da estufa do pão-de-queijo ou da meia-bola de isopor onde ficam espetados os pirulitos de chocolate. Esses não merecem ser os primeiros. O mais da esquerda, os dois mais da esquerda, diga-se a verdade, são os melhores para fazer o pedido, vê-lo ficar pronto, recebê-lo e, ainda por cima! falar com a menina opera a cafeteira.

Quando eu cheguei, ela estava enxugando louça, com um pano de prato já úmido, debruçada sobre sua bancada. A cabeça enfiada no estreito vão entre a estufa e a propaganda da máquina de café, ouvindo algo do cliente do penúltimo tamborete. Eu já o vi várias vezes. Ele mora ali perto, trabalha em casa e toma café no posto, todo dia, no mesmo horário. Demora bastante. Coisa de quem trabalha em casa e não tem patrão. Conversa com todos do posto, leva trinta minutos para tomar o café com leite, fuma na calçada, conta o que fez no trabalho ontem e pra quê vai fazer o que vai fazer hoje. Ouve todas as histórias da menina do café. E as comenta, dando-lhe sempre razão. Parece coisa de quem está dando em cima, cercando a presa, mas tem algo nele que me faz acreditar que seja um interesse desinteressado. Deve estar ali sempre, e por tanto tempo, apenas para quebrar a solidão do trabalho em casa.

Depois de um tempo ouvindo-o, ela pediu-lhe licença e veio à minha frente, ainda secando a mesma louca, era um prato: “Oi, amore, vai querer café?” Ela pergunta só para ter certeza.

“Você faz com pouco café e bastante leite?” Eu também digo isso só para ter certeza de que ela ainda se lembra de como ensinei que gosto. Eles normalmente puxam muito o café, ele fica aguado e cabe pouco leite na xícara. Gosto de bastante leite, sem espuma, — espuma não é leite — com o café curto, forte.

Ela fez cara de se lembrar. Acho que fiz bem em dizer para lembrar-lhe. Finalmente pôs a louça no escorredouro, virou de costas para preparar meu café e, logo que encostou na máquina, voltou a conversar com o sujeito do penúltimo tamborete. Falou com a voz mais alta, erguendo-se nas pontas dos sapatos para falar por sobre a tralha que a atrapalhava vê-lo. Falavam sobre algum problema para ela tirar um documento. Procurei não ouvir mais do que as vozes altas obrigavam. Peguei o telefone.

Aproveitei para ver os recados que chegaram pelo caminho. Ignorei quase tudo. Só besteiras, nada de importante. Pessoal do trabalho falando mal dos outros, fotos espirituosas, vídeos pornográficos ou cômicos, não me animei a vê-los.

Meu café chegou ao balcão, quente, senti na mão, ao tentar pegar a xícara. Achei boa idéia usar o tempo em que deveria estar trabalhando para olhar os emails do trabalho. Quase tudo lixo também. O que não era, não me dizia respeito mais do que o lixo. Separei dois ou três, no máximo, para verificar e responder depois. Bebi um pouco do café, já estava bom.

Os emails do trabalho me enfadaram. Olhei um pouco pro telefone, procurando o que fazer. Olhei a agenda. Nenhum compromisso com horário marcado. Tentei umas quatro vezes abrir um site de notícias, mas o telefone não tinha sinal. Bebi mais café, cheguei na metade da xícara.

Segurava o telefone com as duas mãos, como se estivesse pronto a digitar algo. Pensei um pouco. Vi a imagem do fundo da tela, pensei se não podia ter escolhido uma melhor. Não que aquela não fosse legal. Lembrei das fotos do dia anterior, das dos últimos dias. Fotos de cafés, de algumas plantas, de um passeio, de um pica-pau no estacionamento do trabalho. Fui olhá-las. Quase todas tinham algo que eu queria mudar. O pica-pau estava irreconhecível, faltava uma boa lente de zoom. O passeio era igual a muitos outros, ou a todos. O café… era só um café. Nem sei por que tenho essa essa mania de fotografar café. Terminei o café, já morno.

Não sei se fiz alguma cara estranha. A menina do café estava ali à minha frente, dentro do balcão, enxugando outra louça. “Está tudo bem com você? Você está tristinho…”

Sorri, fazendo que não, que nada, com a cabeça. Pisquei-lhe o olho, para que ficasse claro que não queria conversar disso, porque era mentira ou porque não era verdade. Tirei um pouco a mão do telefone, a esquerda só, — o telefone, escondi no colo, com a direita — para empurrar-lhe a xícara. “Faz mais um pra mim?”

Counting Crows – Colorblind

Ser daltônico…
Não distingüir cores…

Engraçado como se redescobre algo já conhecido.

Asas

Era um peixe que nadava. Nadava sempre, mesmo que não tivesse vontade. Vida de peixe é essa, nada sempre, sempre nada. Quem os vem no rio, diz que passam a vida sem nada para fazer. Nadam, sempre, e isso, acredite-lhes, é bastante para ocupar todo o tempo.

Este peixe não nada em rio. É de água salgada, do mar. Nada em alto mar, mar aberto. Peixe solitário, via só água por meses, e meses, e meses… Isso para um peixe é bom. Perigo para o peixe é encontrar outro, maior, que o coma. Ou terra, onde encalhe. Já viu terra, praia.

Conhece navios, há gente neles. Gente. Eles vivem na terra. Queria conhecer essas outras coisas que não há no mar: a terra, as montanhas, as florestas, os desertos, como alguém pode viver onde não há água? Queria poder chegar lá onde os peixes não chegam.

Já viu aviões e passaros, eles voam. Queria pode voar como eles, ver tudo de cima, ver como é este brinquedo chamado mundo, este aquário onde estamos.

Procurando comida perto de uma ilha, encontrou um pássaro grande, parecia morto, flutuando. Tinha acabado de cair, ainda estava morno. Resolveu pegar-lhe as asas. Eram maiores que o tamanho proporcional a seu corpo. Isso devia compensar ser mais pesado que uma ave.

Lembrou-se de Ícaro. Não queria, como ele, despencar se as asas descolassem, procurou quem lhas costurasse às costas.

Encontrou um peixe sapateiro, costureiro. Ele lhas costurou com cuidado, ponto a ponto, bem fundo na carne. Não chorou. Peixes não são capazes de chorar. Vivem com os olhos molhados por outros motivos. Animais não choram. Têm o instinto de fugir, de atacar. Chorar é inutil.

As asas ficaram perfeitas! Era até possível batê-las, fraco, lerdo, sem jeito. Batiam com um movimento do que deveriam ser seus ombros. Contudo, não era o bastante pra voar. Olhou para o céu, aviões não batem asas, e voam. Não conhecia a pipa, mas ela nem asa tem para bater, e voa. Conhecia os urubus. Eles têm asas grandes de penas, e planam. Voam planando. Suas asas são secas. Ele conhecia também uma ilha pequena, com uma montanha, uns duzentos ou trezentos metros de altura. podia se atirar de lá, como já viu urubus fazerem, e planar.

Foi para lá, não era longe, mas as asas já lhe atrapalhavam nadar. Imagina nadar arrastando uma trouxa de roupas.

Chegando à ilha, saiu da água, com medo. Não sabia se podia respirar em terra. Talvez devesse ter tomado tambem os pulmoes da ave. Surpreendeu-se por conseguir. Respirar fora d’água, quem sabe, fosse um poder adicional das asas. Mas, já que podia, não se preocupou mais com isso. Preocupou-se mesmo com como chegaria ao alto da montanha. Se arrastando. Devia ter pego também as pernas. De barriga no chão, subiu. E o chão machucava-lhe a barriga. Ardia, arranhada. Começou a escolher a sombra, o barro, chão mais úmido, folhas verdes. Em alguns lugares, não havia escolha e, mesmo onde havia, o chão lhe esfolava.

Escureceu, e temeu pela noite. Faltava muito ainda. Temeu pelos pássaros. Surpreendeu-se de nenhum ter-lhe vindo comer ainda. Devia ser outro poder das asas, afastava os predadores. tomavam-no por ave? Teria se transformado em ave? Uma ave sem pernas? Sem penas? Com o escurecer, aprendeu o que é o frio. Com a noite, o que é solidão. No mar, você está sempre envolto pela água. A temperatura é mais ou menos constante. É como uma mão, um abraço, um colo. Ali, não há nada além do chão frio.

Com o amanhecer, conheceu o alívio. Levou três dias até o alto. Faminto, não sabia o que comer do caminho. Talvez as asas lhe dessem também o poder de comer o que os pássaros comiam. Mas não lhe deram o de encontrar e reconhecer essa comida. Não havia porque se preocupar em comer agora. Comida pesaria na barriga, dificultaria o vôo. Barriga vazia deve voar melhor. Se não conseguisse voar, se caísse e se esborrachasse, não seria a barriga cheia que o salvaria. Será que foi isso que aconteceu com a ave de quem pegou as asas?

Lá no alto, chegou-se a beira da ribanceira. Olhou para baixo, o verde, plantas, árvores, depois a areia da praia. Depois as ondas. Ao fundo, o mar. O mar, seu mar. A água conhecida. Olhou, pulou, de asas abertas, sem saber se conseguiria. Sem criar coragem. Coragem pra quê? Não faria diferença ter coragem ou não. Ele saltaria mesmo. E saltou, sem a coragem. Aproveitaria o que viesse. O vôo ou a queda livre.

Planou. Sem mexer as asas, conseguiu planar parecido com como os urubus faziam. Logo perdeu altura, caia suave, aos poucos, aterrisou, na areia da praia, antes do mar.

Subiu de novo. Algo havia de errado. Pelo caminho, olhou os urubus. Eles se inclinavam para subir, para descer e para virar. Daí mais três dias, quando chegou de novo ao alto, tinha na cabeça o que fazer, como fazer. Na beirada da ribanceira, teve medo. Dessa vez, teve medo. Não de se machucar. Teve medo de errar e de ter que subir tudo de novo, mais três dias. Prestou muita atenção antes de tentar. Criou coragem, coragem de tentar e talvez errar, e pulou.

Planou de novo. Foi atrapalhado tentar até conseguir. Nunca havia imaginado que o ar pudesse se parecer com a água e apoiar o corpo, as asas, servir de guia. Antes de perder metade da altura, conseguiu subir de novo. Subiu mais. Ganhou o mar. Errou uma curva, acertou outra. Retornou para sobrevoar a terra. Deu algumas voltas na ilha, por uma manhã inteira talvez, até sentir-se confiante. E foi embora.

Voou dois dias de mares.

Chegou a um grupo de ilhas. Algumas iguais à sua. Outras maiores, outras menores. Umas que eram só uma pedra. Uma grande, que parecia não ter fim.

Viu plantas, árvores e rios largos, tão largos que pareciam o mar.

Viu gente plantando na areia e nas pedras.

Viu guerra num campo verde.

Viu cinco homens esfolando uma foca, numa praia gelada. Uma praia só de neve e gelo. Cercados por outras focas, que os olhavam de perto sem medo.

Viu uma floresta cortada por vales. E nos vales, rios de água prateada, espumosa, alimentados por cachoeiras que se atiravam da ribanceira, como ele se atirou para voar.

Viu montanhas altas onde, voando, pode subir sem esfolar a barriga. E, do alto da mais alta, viu o mundo todo.

Voltou e pousou numa ilha. Uma que tinha também uma montanha de uns trezentos metros, com uma ribanceira, como a ilha de onde começou seu vôo. Não sabia se era a mesma. Tinha visto tanta água e tantas ilhas iguais, de lá do alto. Desacostumado, a visão extensa lhe tirou a referência. Estava perdido. Mas era uma ilha, como a sua de partida. E, se era igual, lhe servi igual. Pousou, no alto da montanha igual, que poderia mesmo ser a mesma.

Pousado, descansando, deixou-se ficar à beira da ribanceira. Se tivesse pernas, sentaria com elas balançando ali. Olhou as árvores, iguais a tantas, e ao fundo, o mar, o oceano, a água, como tanta água.

Estava cansado, mas não exausto. Triste por algumas coisas que viu, mas feliz por tê-las visto todas.

Almoço de Giz de Cera

Eu não gosto deste restaurante, é muito metido. Se acha chique, grã-fino. Mas a comida não é boa. Me parece ser só uma desculpa para afastar o público da avenida e atrair o do bairro. A avenida é freqüentada pelos funcionários das empresas e pelos clientes. Pela molecada que a usa de ponto de encontro e vê atrás de passeio, conversa, brincar de patins e skate, tocar violão, causar, diversão gratuita. O bairro é habitado pelos boyzinhos e pelas patys metidas a grã-finas, como este restaurante. O dono do restaurante não deve gostar da molecada. Quem mora no bairro não gosta. Ele deve morar nele.

Os garçons atendem mal, não dão atenção, torcem o nariz para quem pede as coisas mais simples, para quem não pede álcool e para quem recusa sobremesa. Demoram a atender. E a fila para conseguir mesa é grande. Não que faltem mesas, o lugar nunca lota, mas a menina que atende na porta e indica as mesas também atende mal.

A comida daqui é normal, tirando os pratos que tem bredo (folhas, mato). O bredo sempre vem encharcado. O preço é normal também, nisso não exploram.

Eu quando venho aqui me sinto como se estivesse fazendo cerimônia para comer bandejão. Aliás, raramente me lembro que ele existe. Lembrei-me hoje porque alguém da turma quis vir almoçar aqui. Disse que queria salpicão, com frango, pedaços de maçã, e que aqui tem. Tem sim, já comi uma vez, tem mais de quinze anos isso. Veio encharcado numa maionese rala, parecia lavado como o bredo da salada.

No caminho, já pensei no que pedir, na calçada ainda. Salada não. Hoje não seria salada meu almoço. Azar meu, pausa na dieta por hoje. A alface nadadora me deixaria mais mal-humorado ainda. E ninguém tem culpa de eu ser mal-humorado. Peixe, adoro peixe, e legumes cozidos, também adoro. Legumes na manteiga. Manteiga é tudo de bom, por isso faz tão mal. É um pedido simples, não há como errar, e eu gosto bastante. Se bem me lembro, e não mudaram, tem no cardápio.

Tem sim. Tem o meu peixe e os meus legumes. Tem também o tal do salpicão, num sanduíche? Sanduíche de salpicão, fico imaginando como que foram inventar.

O resto do pessoal demorou bastante analisando o cardápio. Cardápio que demorou a chegar, quando chegou já estavam todos com telefone na mão, teclando, provocando quem não veio conosco. Quando o garçom os colocou na mesa, ríamos das besteiras que dois de nós, um de cada lado da mesa, diziam assincronamente um ao outro, teclando. Quando foi embora, com os pedidos anotados, estávamos dispersos, cada um já teclando, jogando ou olhando algo diferente no telefone, menos eu. Não sei porque vim a um restaurante que eu não gosto, se minha companhia vai ser só o telefone, e a comida que eu poderia ter pedido noutro lugar.

Lembrei-me da primeira vez em que vim aqui. Ou melhor, acho que foi a terceira. Um amigo, então, pegou algo de entre os guardanapos e a galheteira e riscou o papel manteiga que cobria a toalha. Um lugar tão metido a besta e usam papel manteiga para proteger a toalha! Ele começou a riscar algo no papel manteiga e disse: “Os restaurantes agora têm isso de deixar um potinho com giz de cera para os clientes rabiscarem enquanto esperam.” Eu nunca tinha visto antes mesmo.

Lembrei-me do episódio com o amigo e procurei pelo giz. Tinha um potinho na nossa mesa. Com uns pedaços de giz. Azul, um azul claro, aguado, de um giz vagabundo, que parecia cor de roupa desbotada. Amarelo, de um giz grosso, do bom. Um toco do giz vagabundo também, preto, e outros, maiores, salmão, ou creme. Tinha também um quase inteiro do giz grosso que parecia de um preto diferente. É engraçado falar em preto diferente. Na escola ensinam que preto é preto, não tem tons, todo preto é igual. Mas, a gente, que não entende disso, sabe que há vários pretos diferentes.

Peguei o giz preto ruinzinho. Ele tinha umas rebarbas finas, servia para esboçar. Fiz um risco fraco, rápido, de lado a lado, para ser o chão. Saiu grande, muito curvado. Eu devia ter pensado melhor e feito devagar. Agora não dava para apagar. Nem sei se eu precisava mesmo de chão. Isso reduziu bastante os desenhos que eu podia fazer. Agora tinha de ser algo no chão. Árvore, casa, flor… Tudo isso isso de desenho com chão é coisa tão batida, infantil!

Ficou difícil encontrar algo diferente. Desenho meu não pode ser como os de todo mundo. Tem de ser do meu jeito! É um jeito que não é fácil. Pra quê complicar tanto? Fiz um palito saindo da terra. Displicente. Saiu torto. Achei melhor fazer outro, em paralelo. Ia ficar um tronco grosso. Tronco de árvore. Uma árvore como as outras de desenhos de desenhos de árvores, todas iguais. Talvez até fizesse uma maçã no meio da copa verde. Não, não podia.

Olhei os outros na mesa, só levantando um pouco os olhos. Depois olhei de novo meu tronco. Podia fazê-lo pelado, de árvore morta. Algumas aves, urubus, corvos, pousados num galho, voando, em revoada, vindos de fora do papel até pousarem juntos num dos galhos secos. A idéia era boa. Mas não sei desenhar como ela merece ser desenhada. Essa idéia eu tinha de guardar. Não ia pegar o telefone para anotá-la. Pensei que tinha de me lembrar dela depois. Talvez assim me lembrasse. Se não, eu também não saberia desenhá-la. Isso não demorou tanto assim para eu pensar.

Em vez disso, sem galhos, fiz uma linha rodada, em caracol, como aquela jogo de amarelinha das meninas, no lugar da copa da árvore. Ficou parecendo um pirulito grandão. Um pirulito enorme, do tamanho de uma árvore. Uma árvore de copa de pirulito colorido. Meu pai vendia desses pirulitos no comércio dele quando eu era pequeno. Ninguém comprava por gostar. Era pelo gosto de andar pela rua com um pirulito grande, colorido, que não cabia na boca, igual aos dos desenhos animados.

Eu me lembrava dos pirulitos serem listrados, fiz as listras, como de uma cobra coral enrolada. Uma árvore de pirulito de cobra coral. Não, era só uma árvore, de copa de pirulito, como tantas outras. Achei engraçado, divertido, até me esqueci das cores. Não eram muitas. Como eu ia pintar aquilo? Amarelo, azul calcinha, salmão, preto… Não são cores de árvore, nem de pirulito… Não são cores bonitas, tirando o preto. Mas preto nem cor é. Eu usaria o preto grosso para o contorno.

Tinha de me virar com o azul, o amarelo e o salmão. Não são muita opção. Testei o amarelo. É uma cor estranha, na luz fraca dali, luz amarelada, que ironia, não dava para ver a cor direito. Xinguei. Fiquei só com o azul e o salmão. Fiz o pirulito alternando os dois pelas listras. Azul, salmão, azul, salmão, azul… Ficou uma copa de pouca cor, doente, de azul e rosa lavados. Achei melhor pintar o tronco com o giz preto que eu usei para esboçar o desenho. Pintando com o giz frouxo, ficou um cinza, um sujo. Dá para enganar que algumas árvores, no escuro, têm os troncos, as cascas, assim.

O chão deveria ser verde. Experimentei num canto do papel o azul com o amarelo para ver se ficava. Ficou uma coisa esquisita. Os dois gizes, de marcas diferentes, não se misturavam. Foi o chão azul, sem poesia, sem fantasia, que me impressionou. Não era nada, só um azul clarinho, sem vida, que eu não podia transformar em nada. Não dava para fingir que fosse um chocolate, nem um lençol ou um teclado de piano. Quase parei, mas a comida não chegou e todos jogavam, descaradamente, em seus telefones.

Peguei o preto grosso para contornar. O desenho estava feio, um esboço pintado com cores feias, mortas, tristes. Mas com um contorno forte, preto, todo desenho fica legal.

Comecei o contorno pelo tronco. A princípio pereceu legal mesmo, mas quando passei para o contorno do chão, a surpresa me decepcionou, o giz não era preto, era azul marinho. Eu devia ter percebido antes. Olhei o desenho antes de terminar. Antes de terminar o que conseguisse até que chegasse a comida.

Peter Gabriel – The Book of Love

 

220px-Shall_we_dance_posterATem um filme, já deve ter uns dez anos, de um cara que começa a fazer aulas de dança escondido da família. Nesse filme tem uma música, se chama The Book of Love. É um cover que o Peter Gabriel gravou, de uma banda chamada Magnetic Fields. Embora eu goste muito do Pete, eu nunca dei importância pra essa música. E confesso que achei que ele também não.

Mas hoje estava vendo o vídeo dele com a New Blood Orchestra, é o vídeo da última turnê, ou da penúltima, e a música está lá também. Ele chamou a filha, Melanie, para cantarem juntos. O concerto tem projeções para cada música. Eles, o arranjo, as projeções, tudo me chamou a atenção e, depois de muito tempo, pela primeira vez, prestei atenção na letra.

 

Peter Gabriel – Solsbury Hill

Já disseram que esta música é a minha cara, que dá pra me imaginar logo ao ouvi-la. Eu achei engraçado quando me disseram isso, ela não parece com o tipo de música que eu espero me pegar ouvindo. No entanto, é sim uma música que significa muito pra mim. É uma daquelas músicas cheias de coincidências, histórias paralelas, entrelinhas, que se trança em mim.

Uma das lembranças que eu tenho mais bem guardadas, com carinho, da infância de minha filha é de uma madrugada, eu sozinho na sala, bêbado, triste, não me lembro mais porquê. Provavelmente os motivos de sempre. Eu assistia o vídeo desse concerto.

Logo antes desta musica, minha filha acordou e veio à sala pedir pra ficar comigo um pouco. Dizia ter perdido o sono. Ficou toda alegre, sorridente e festeira porque eu deixei.

Quando esta musica começou, eu a abracei, pus em pé no pufe do meio da sala, é um pufe grande que serve também de mesa de centro, e improvisei uma dança com ela. Era uma dança sem passos ou coreografia, logo virou uma brincadeira divertida de abraçá-la, apertar, chacoalhar, atirar e rodá-la pelo ar. Jogar para cima e para baixo, pulando, feito uma dupla de doidos. Acho que, no fundo, éramos.

Quando a música acabou, ela, tonta, se sentou ao meu lado na poltrona, a cabeça no meu ombro, assistiu comigo o finalzinho do vídeo e foi pra cama. E eu, de repente, fiquei mais feliz e dormi em paz também… meu coração fazendo bum bum bum

for the squonk was climbing up on Solsbury Hill

 

Volta pra Casa

Eu subia a rua de casa, de paralelepípedos ainda. Já há uns quinze anos que os cobriram com asfalto. As travessas ainda são de paralelepípedos, mas a minha rua não mais. Naquele dia, porém ainda era.

Era dia, tinha sol, embora eu me recordasse de ter saído do trabalho à noite. Talvez tivesse trabalhado de noite e estava chegando em casa de manhã. Ou tivesse passado a noite na gandaia, embora creia nunca ter feito isso.

À minha esquerda, onde hoje há aquele condomínio grande, era só grama. Mato bem cuidado, não muito alto, algumas touceiras de erva, arbustos. Meia dúzia, talvez uma dúzia, de árvores. Engraçado, também não me lembrava de ter conhecido ali assim. Pensei ter conhecido o bairro já depois de terem construído o condomínio.

20140709-014405-6245032.jpgPerto da calçada, uma vaca pastava. Parecia a vaca da capa do disco do Pink Floyd. Mas aquela olhava para trás, por cima do ombro que as vacas não têm. Está pastava, de cabeça baixa. De comum, estava de costas para mim, como a outra na foto.

Mais à frente, próximo à esquina, debaixo de três árvores que estavam muito juntas e faziam sombra, três vacas, ou touros, ou bois, se cobriam. Os três, um sobre o outro, empilhados. Achei graça, também lembravam algo do disco. Ri. Balancei a cabeça em “não”. Por que não? Por que uma coincidência dessas não podia ser coincidência? Um carro freou em cima de mim. Quase me atropelou. Ele subia a travessa, eu atravessava, sem olhar, pensando nas vacas. Lembrei-me de quando, brincando, meu irmão jogou uma tora em mim e me abriu a cabeça, quase fui atropelado atravessando a rua, correndo pra casa. Depois lembrei-me de quando ele atropelou a lateral de uma Kombi, fugindo de mim depois de me dar uma pedrada.

Acho que fiquei branco. Senti aquele gelo da falta de cor de quando se fica branco de susto, de medo. Acho que molhei a calça. Devo ter molhado nessas vezes também. Mas olhei, passei a mão, e não percebi nada.

Lembrei do carro que quase me atropelou, e eu parado ali na frente dele. Que indelicadeza! Não prestei atenção, ele conseguiu parar sem me atropelar, e eu parado atrapalhando, pensando em histórias de infância. Olhei para o carro. Ele já tinha ido embora. Não estava mais lá. E eu nem me desculpei.

No quarteirão seguinte, numa casa baixa, terreno rebaixado, em frente à árvore podada, esculpida pelo jardineiro, uma mulher, sentada na soleira da porta, dava o peito a uma criança. O pai, do portão, gritava com ela e com criança: como podia dar o peito para a criança, se havia aquele cheiro de esterco de vaca pelo ar? Ele tinha razão. As vacas tinham deixado um esterco fedido pela rua toda, o cheiro dava náusea. A criança não merecia mamar cheirando aquilo. Ninguém merecia, nem andar na rua com aquele cheiro.

O pai segurava uma pipa. E uma lata, com linha. Um barulho de moto e ele vira gritando. O motoqueiros freou, quase caiu. Havia linha passada de um poste a outro. De um lado a outro da rua. O pai devia estar passando cortante na pipa. Ignorante, sem razão, ainda xingou o motoqueiros que quase foi degolado pela linha do pipa: “Motoqueiro maldito, vocês não tomam cuidado?” O motoqueiro viu que o sujeito era ignorante demais pra se discutir com ele. Desceu da moto, se abaixou, passou por baixo da linha e foi embora.

Olhei para meu prédio, estava quase lá, para minha janela, num dos andares mais altos. E pensei ver, no alto do prédio, de novo, as vacas que pastavam e se cobriam. Distraí-me com um pássaro que passou voando baixo, e me esqueci delas. O pássaro era muito grande, branco, tinha algo nas costas.

20140709-014405-6245086.jpgRepresentou-me um cisne, o que acho ser um cisne, pois nunca vi um. Só os vi em desenhos. Lembrei-me do cisne de Lohengrin. É uma história de amor bonita. Lembrei de meu amor. Vontade de vê-la, há muito não a via. Tive medo de ficar maluco e não vê-la nunca mais, e também de não vê-la e isso me deixar maluco. Se eu fosse Lohengrin, ou seu cisne, eu nadaria qualquer mar, voaria o céu, se não houvesse mar, para vê-la mais e conversar com ela ainda mais.

O pássaro voou para o horizonte, por entre os prédios, seguindo a rua. Perdi-o de vista, ofuscada por um Sol enorme que já baixava. Gosto do por-do-sol. Atravessando a rua para entrar no prédio, uma revoada de pássaros, cortou minha frente cantando. Já no quintal, tive impressão de atrás de mim, na calçada, onde havia passado a revoada de pássaros, outra revoada, agora de crianças, passar também cantando. Cantavam boa tarde, boa noite.

No elevador, quando entrei, já la estava uma garota. Eu a conhecia, e a queria. Quando a porta fechou, enfiei a mão por baixo de sua saia, por trás e puxei-a para mim. Ela deixou. Abri-lhe a camisa com uma mão e, com a outra, comecei a descer-lhe a calcinha. Ela só deixava. Beijei-a. Ela abriu a boca e deixou minha língua entrar. Incomodei-me com a passividade. Achei estranha. Parei, com raiva, e deixei-a.

Ela, rejeitada, desconcertada por ser rejeitada, não deve estar acostumada, arregalou os olhos, assustada e chorou. Não por perder-me, chorou por decepcionar-se, por perceber que não está acima de ser rejeitada. Com pena, e raiva da pena, tentei consolar-lhe. Que ficasse no elevador. Talvez ainda na mesma noite, encontrasse alguém com quem ficar. Ela me xingou. Minha pena passou, sobrou indiferença, e nem xinguei de volta. Saí do elevador no meu andar.

Entrei em casa. O café da manhã estava na mesa, pronto, à luz de velas. Tinha tudo, pão com manteiga, bolo, peru recheado de casaca e gravata borboleta, dois drinks coloridos, fluorescentes. Uma luz de boate dava movimento à sala onde a mesa estava posta. Duas pererecas bêbadas dançavam ao som das notícias de ontem no jornal da manhã, no rádio.

Chegando em casa, eu sempre vou ao banheiro. Gosto de tomar uma banho para descansar depois de ter suado na rua. Vou jogando a roupa pelo caminho, quando estou só de cuecas e meias, passo pelo quarto, coçando uma espinha que me nasceu na cotovelo. Há algo estranho no quarto, dou meia volta e olho para dentro dele.

Havia uma mulher dormindo na cama. Nem era a minha cama, mas estava no lugar da minha. A minha é de casal, esta era de solteiro. A roupa de cama, branca e muito florida, eu nunca compraria nada assim, não era minha.

20140709-014746-6466741.jpgA mulher falava dormindo. Eu queria uma explicação para ela estar ali. Aproximei-me e ouvi o que falava. Ela perguntava porque as vacas se cobriam e, depois, gritou “Cuidado!”, duas vezes.

Falou do cisne de Lohengrin, pediu que conversasse mais, elogiou o sol gordo, deu boa noite aos pássaros e às crianças. Perguntou do que eram os drinks do café da manhã e pediu para as pererecas aumentarem o som do rádio. Queria ouvir as notícias e dançar também.

Reconheci o que falava e, boquiaberto, parei. Tinha de sair dali logo, sem fazer barulho, com muito cuidado para não acorda lá. Disso dependia minha existência. Reconheci-me. Eu não sou mais que um sonho dela.

 

Sorvete

Quando eu era pequeno, não eram comuns os potes plásticos de sorvete como os de hoje. Nós comprávamos sorvete em tijolo. Da Yopa, na padaria nojenta perto de casa. Ou da Gelatto, na venda do Seu Alberto, perto da avó. O tal tijolo de sorvete, era uma caixa de meio litro, de papelão, parecida com uma caixa de sabão em pó. Tinha uma tira serrilhada que a gente puxava para abrir. A caixa aberta, em cima da mesa, servia de bandeja para o sorvete. A mãe só comprava napolitano. Eram três faixas, o branco no meio, de comprido, começavam e terminavam nos lados mais estreitos do tijolo. Assim, quando cortávamos fatias com a faca de pão, cada uma vinha com um pouco de cada sabor. As comíamos no prato. A mãe só tinha pratos fundos, coisa de mãe, cabe mais comida.

Não me lembro de quando tomei sorvete de pote de dois litros pela primeira vez. Acho que eu já estava na faculdade. Comprava aqueles potões absurdos para repartir entre dois, em vez de almoçar. Mas me lembro de uma vez em que a avó apareceu com uma coisa que a gente não conhecia. Sorvete em lata. Era uma lata branca, decorada feito toalha de cozinha, pano de prato, devia ter uns quatro ou cinco litros de sorvete. Dez vezes o que estávamos acostumados. E, sem freezer, tínhamos de tomar tudo no mesmo lanche, antes que derretesse. E era de passas ao rum. Rumcompassa, dizia minha avó. Demorou para eu perceber que não era uma palavra só. Eu achava que fosse nome de uma fruta ou de uma bebida. Delícia!

A primeira brincadeira, foi tentar tirar bolas de sorvete com a colher. Nunca tínhamos tirado sorvete em bola. Isso só na sorveteria, em casa não havia. Nem tínhamos aquelas colheres esquisitas de tirar sorvete. Foi com a colher de sopa mesmo. Ninguém conseguiu fazer direito. Saíram, sim, pelotas. Cada um trapaceou do seu jeito para tirar e pegar as maiores. O pai reclamou de tomarmos tanto sorvete. Ia deixar doentes. Mas reclamou por reclamar, por obrigação de pai preocupado, não ligava. Foi na copa pegar uma cerveja, sem gelo, o pai não bebe nada gelado, não é acostumado, e se sentou no quintal, na beirada de tijolo que cerca o aquaradouro, beber sua cerveja em paz, conversar com o sogro, meu avô.

Meu irmão menor foi o último a pegar a colher para se servir. Nem precisava. A mãe já lhe tinha servido. Pegou a colher mais para brincar do que para realmente se servir. Tirava pelotas do sorvete, saíam pequenas, ele era pequeno, não tinha jeito. Fazia montinhos com elas. Vários montinhos. “Vó, ele está estragando o sorvete. Quero mais.” Quando reclamamos a colher para pegar mais, ele, sem sua ferramenta de escavação, ficou quietinho. Não tomou o sorvete, ficou olhando. Isso não é muito de se estranhar. Onde há sorvete e mais de uma criança, uma delas, inevitavelmente, só vai tomar o sorvete depois de ele derreter. Se há mais de uma criança, uma delas gosta do sorvete quando está derretido.

Pegamos mais, ele ficou olhando. “Põe o prato no sol pra derreter mais rápido.” Ele gostou da idéia. Empurrou o prato pela mesa até o sol que vinha da janela e chegava nela.

A avó, daí a pouco, terminou de passar o café. De fazer o chá de hortelã e poejo que eu gostava. O de erva-cidreira dela também. A madrinha chegou com o pão. Hora do café para que agüentasse. Precisava de espaço na mesa. A avó queria lavar a lata do sorvete para usá-la para guardar arroz. Inspecionou quanto faltava, quebrou lascas grandes com a colher e foi colocando nos pratos das crianças, para esvaziar logo. A gente ainda brigava para pegar mais do que os outros. Quando ela foi pôr um pouco mais no do neto caçula, minha irmã reclamou: “Para ele não, vó, pra mim. Ele está só fazendo nojeira.”

O menor, incompreendido e ofendido, protestou: “Não é nojeira! Eu já vou tomar. É um cemitério de bonecos de neve.”

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Kibon – Sobremesas com Sorvete!

Buraco

Gosto de passear pelo mato, atrás de mirantes, bichos, cachoeiras.

Uma vez, viajando, perdi-me. Pensei perder-me. Errei o caminho, caí numa estrada de terra estreita, esburacada, muito inclinada e irregular, que contornava a serra. Quando percebi a roubada em que estava, quis voltar, mas não conseguia dar meia volta. Nem coragem dava de tentar. A ribanceira, desguarnecida, era íngreme, funda. Meu carro não era do tipo que se usa no meio do mato, nem em estradas de terra assim íngremes. Eu tinha de dirigir muito devagar, primeira marcha, pé direito fundo no freio, segurando o carro. Soltava o freio com muito cuidado para não deixar pegar velocidade. Cada dez metros que descia, era um que o carro escorregava na poeira e ameaçava rodar pra fora da estrada, pela ribanceira, ou descer o resto da estrada por vontade própria. Ré também não dava. Era muito estreito, íngreme e sinuoso para, de ré, conseguir acertar o caminho de volta.

Desci quase uma hora, procurando onde conseguisse dar meia volta, torcendo para que a estrada de terra encontrasse outra decente ou voltasse sozinha para o lugar onde comecei. Não achei nada disso, mas, no ponto mais baixo do vale, a estrada continuava por entre duas casas. Parecia uma vila. Um pouco aliviado, fui por aquele pedaço, passando as casas, entrando no que pensei ser uma vila. Logo encontrei muitos cães e um lago à frente como se fosse uma parede. Tive de desviar para não atropelá-los. Muito mansos, outros cães atacariam ou fariam pose latindo para o carro. Eles me olharam quietos como se nem soubessem o que era um carro, que cães têm de latir para eles.

Eu vinha do sol de meio-dia e ali estava escuro, fechado de árvores. O contraste da falta de luz me cegou uns segundos até que eu me acostumasse. Então percebi que não era uma vila. eram só as duas casas. Decepcionado, olhei pelo retrovisor. A casa que, quando passei, estava à minha direita, a que deixei mais para trás ao virar para desviar dos cachorros, era muito comprida. Foi quando senti um tranco numa das rodas da frente. O carro pulou e o fundo bateu no chão. Minha roda tinha pego algo, e era muito grande. Temi ter atropelado um cão.

Branco de susto, preocupado, vi que, da curva que a estrada fazia mais à frente, várias pessoas vinham com ferramentas. Eram alguns homens imundos, algumas mulheres não tão sujas. Havia também muitas crianças com mochila e uniforme de escola, limpo.

Desci do carro para olhar o que era, antes de fechar a porta, ainda de frente para  pessoal que vinha. Já ouvi uma voz atrás de mim: “Prendeu bem mesmo!”. Era um homem já de idade que vinha por trás de mim, agachado, olhando por baixo do carro. As rodas da frente do carro haviam caído num buraco cheio de água, fundo, largo, entrou metade de cada roda.

O pessoal que vinha pela estrada parou junto de mim, surpreso por haver alguém ali, ainda mais alguém encalhado. Entrei no carro e tentei sair de ré, depois de frente, sempre devagar. Depois tentei rápido de ré. O homem me fez sinal para parar: “Moço, não dá. Cada vez que o senhor tenta, a roda cava o buraco um pouco mais fundo. Não vai sair assim. Vai ter de puxar.”

Imagine-se assim, no meio do mato, encalhado numa poça funda, sem sinal de celular para chamar o guincho, sem saber explicar como o guincho possa chegar ali, sem querer explicar como fez a besteira de encalhar no buraco. Eu devo ter feito uma cara bem desconcertada. o homem ajudou: “Descansa a cabeça, vem cá almoçar com gente. O patrão já chega pro almoço, o carro dele é grande, ele reboca.”

A essa altura, a molecada que tinha voltado da escola, brincava já de tentar empurrar meu carro. Os homens passaram direto. As mulheres olham em roda, de longe: “Ixe, como foi isso? Como vai fazer isso agora?” O homem me pôs-me a mão no ombro, apontou a casa comprida: “A gente já resolve. Vamos lá almoçar.” Agradeci a oferta, a atenção, e fui com ele. Conversamos sobre de onde vinha, como cheguei ali. Ofereceu-me pinga. Vi uns pedaços de limão junto à garrafa. Pedi um para chupar enquanto bebia a pinga. Eu sei, não devia beber e dirigir, mas não achava que ia sair dali tão cedo.

O patrão, um japonês simpático que eu já havia visto na cidade, é dono de um restaurante simples perto da matriz, ele chegou. Seu carro era pouco maior que o meu, mas era do tipo que usam no interior, em fazendas, mais adequado ao terreno. Almoçamos arroz, feijão, farofa de banana, truta criada ali mesmo no sítio. As duas casas não eram uma vila. Aquilo ali era um sítio onde ele criava trutas. O lago que eu vi na entrada não era lago, era um dos tanques de peixes. Havia ao menos meia dúzia, grandes, lado a lado, e outros, disse ele, mais à frente depois das árvores. Disse ter dado sorte, a família chegou ali quando a cidade era pequena. O terreno do sítio, mal localizado para morar, saiu muito barato. Quando começou a moda de comida japonesa, percebeu que o clima dali era bom para criar trutas, a criação é barata. Passou a fornecer para os restaurantes japoneses que abriram na região.

Demos uma volta pelo sítio, tomamos café. Ofereceu-me fumo caseiro. Recusei, não fumo. Chamou uma mulher, não me lembro o nome, pediu para me trazer licor. “Você precisa experimentar, minha mulher é quem faz. Você disse que não gosta de açúcar, ela também não.” Pediu para me trazer também a mariola, que ela pegasse a do forno, mole e morna ainda. Agradeci muito tanta gentileza. Agradeci mais ainda a mariola, deliciosa. Dizem que a banana dali é a melhor do mundo. A mariola, não experimentei todas do mundo, mas aquela com certeza é a melhor. O licor de café caiu bem, amargo gostoso. Lembrei-me da subida da estrada na volta e pedi mais café.

Conversamos mais até que o empregado veio avisar que já tinham tirado a água. O japonês me chamou em direção a meu carro. A água, percebi, era a do buraco. Os empregados a tiraram com uma bomba. Dava para ver direito agora. A roda direita não tocava o chão. Perguntei se o japonês conseguiria puxar. Ele respondeu que, se puxasse, iria estragar toda a frente do meu carro, que o jeito era empurrar. Apareceram outros funcionários com umas tiras velhas de pneu de caminhão. Forçaram embaixo das rodas, calçando-as. Cobriram parte do buraco com uma prancha de madeira, para as rodas de trás não caírem lá. um mundo de gente sentou em meu para-choque traseiro. Veio mais outro mundo de cada lado, e todos empurraram enquanto eu dei partida, estercei o carro para a direita, para sair do buraco com as rodas da frente e tentar que as de trás não entrassem. Acelerei e engrenei devagar. Tive impressão de subir uma parede. O carro, quando saiu, parecia que estava empinando, de chifra, como uma moto. Aplausos, e o povo já começou a me dar ciao. Desci, despedi-me, agradeci tudo. Perguntei pelo caminho. O japonês respondeu que só havia aquele por onde eu vim.

Agradeci de novo e me despedi de novo, e voltei para a estrada. Para voltar, subi em primeira marcha, devagar, velocidade constante, sem mexer o pé no acelerador a subida toda, nem para mais, nem para menos. Demorou, mas consegui subir tudo, sem muitas derrapadas.

Demorou mais de meia hora, encontrei o asfalto de novo.