Starbucks

Eu não gosto da Starbucks. O café é ruim, tem gosto de carvão. O chá gelado vem morno, nunca gelado. O cappuccino vem morno também, não quente. Mesmo assim lota e eu não arrumo outra explicação para lotar além das pessoas gostarem de pagar de americanófilas, carregando seus copos enormes de café com aquele logo de sereia, cartolina em volta.

Quando há lugar para sentar e, veja bem, espaço e ar para respirar, é, por outro lado, um lugar agradável. Quando não quero ou não posso almoçar, se encontro espaço num, pego um cappuccino, enorme (venti) com chocolate e me sento, matando tempo, vendo a banda passar. Peço muito muito quente. Faço cara de ênfase. Me respondem “OK, X-Hot!” Parece que tem funcionado.

Atualmente, faço isso com o tablet no colo, a anotar algo que aconteça de interessante enquanto descanso, para depois escrever sobre isso. Às vezes, escrevo na hora mesmo, e nem vejo a banda passar.

Sempre achei triste esse pessoal que se senta sozinho no café mexendo no notebook enquanto a vida corre. Não quero me tornar um. Mas me sento sozinho por outro motivo. A banda que passa, ela não me interessa mais.

Na última semana, peguei duas bebidas para mim. Quem passasse poderia pensar que minha companhia foi pegar guardanapos, ou ao banheiro. Eu sei que não. E quando saí hoje, buscar um cappuccino para beber à tarde no trabalho, não tinha almoçado, nem queria, foram dois que pedi. XXX-Hot! No trabalho, coloquei-os juntos ao lado do notebook e bebi devagar enquanto escrevia isto.

Não sei se o gosto a que me sabem é o mesmo que aos outros. Duvido. Encontrei o gosto que me agrada na Starbucks. Não é o gosto do American Way…

Cappuccinos com Chocolate, Venti, X-Hot, XX-Hot

Espero que agrade

Estou acabando de escrever um texto que é muito especial para mim.
Se chama Oitava Série. Vou publicá-lo e, depois, esta nota.
Não é especial como outros que eu tenho escrito nos últimos dias, sobre ou para gente especial, esses são especiais e queridos.
Esse é em outro sentido. Gostava de compartilhar. Gostava também que o lesse bem devagar.
Saiu mais longo que o habitual. Têm já quase três mil palavras, não costumo passar de duas mil, e me tomou umas seis horas de digitação.

Espero que agrade.

yours truly

 

Oitava Série

Minha escola, como todas as escolas públicas, não era nenhum modelo de organização. Improvisos e coisas mal-feitas, ou simplesmente abandonadas, por todo lado.

Na oitava série, minha classe ficou numa sala separada das outras. Na verdade, nem era uma sala. Era a antiga cozinha da escola, que foi adaptada para servir de refeitório para os professores e, depois, improvisada como nossa sala de aula.

Não era um lugar ruim. Fomos para lá depois de muita reclamação. Uma pequena rebelião vitoriosa dos alunos da 8ªA contra o império da má administração escolar.

A princípio, haviam-nos colocados numa saleta apertada entre duas outras salas de aula de verdade. Escondida atrás de um pilar e ao lado da mesa do inspetor de alunos. Mesa que servia a ele também de banca. Era bicheiro dos professores. Essa saleta, tinha sido usada antes como escritório do Centro Cívico. Era pequena, pouco ventilada, quatro vitrôs bem estreitos junto ao forro, a lousa era uma parede pintada de verde escuro, as cadeiras e mesas eram do pré, as normais não caberiam.

Por algum motivo burocrático, a escola, naquele ano, teve mais classes do que salas. Classes e salas são coisas diferentes. Classes são alunos, salas são recintos. O pretexto para nós sermos os improvisados foi a nossa ser a classe menos numerosa da escola. Éramos quinze alunos, as outras classes tinham entre trinta e cinqüenta.

Isso é, ou era, muito comum em escolas de periferia. Na primeira série, cada escola tinha umas três classes em cada período, cada uma como mais de cinqüenta alunos. Com o tempo, os piores alunos vão sendo retirados da escola pelos pais e postos para trabalhar. Na quinta série, alguns, mais violentos e revoltosos, dados como casos perdidos, são enviados para colégios militares. É a esperança dos pais de endireitá-los antes que caiam no crime. E parece-me que funciona. Entre bons alunos e os comportados, há também algumas baixas, a maioria entre os meninos. Alguns perdem o pai, morto, preso ou fugido, ou passam por outra dificuldade, e têm que assumir o sustento da família. Tive um colega de amigo de muito talento que passou por isso ao perder o pai, policial quando tínhamos uns doze anos. Parou de estudar, voltou, parou, voltou. Nunca conseguiu explorar todo seu potencial. Outros procuram um colégio técnico em metalurgia. Essa é uma profissão perigosa, insalubre, mas muito cobiçada pela molecada. Tem adicional de insalubridade, horário fixo, registro, estabilidade, pois exige qualificação, e, o principal, aposentadoria precoce, entre os quarenta e quarenta e cinco anos de idade. Quem consegue, com catorze, quinze anos, recebe mais do que seus amigos office-boys. Normalmente, mais que os pais. Se tiverem juízo conseguem, junto com os pais, pagar aluguel na cidade. Em alguns bairros, viver é mais perigoso e insalubre que entrar num forno enquanto ele derrete metal a oitocentos graus centigrados.

Foi assim que minha classe, que tinha quarenta e cinco alunos da segunda série, chegou na oitava com apenas quinze. Meninos, éramos só dois. Os outros ficaram pelo caminho.

Na manhã da revolta, tumultuamos tanto a escola, o corredor do prédio térreo onde ficavam as salas de aula, que, na manhã seguinte, o direito desceu de sua sala e veio ouvir nossas exclamações. Descer é modo de falar. A escola toda era térrea. Ele defendeu a posição da escola, posição dele, e ficou sem jeito quando sugerimos trocar de sala com ele. A sala dele, para ele sozinho, era maior. O diretor tinha má fama entre os alunos. Nunca tive reclamação. Mas era severo, de poucos sorrisos. Nessa reunião, foi uma das poucas vezes em que o vi perder o rebolado. Disse que não via o que fazer e nos pediu paciência, procuraria um jeito de atender tais e tais reivindicações, eram justas, e melhorar as condições na saleta.

Na semana seguinte, logo na segunda-feira, ao chegarmos à escola, ganhamos a outra sala. Essa sim. Era a maior da escola. Ficava no prédio da direção, não no das salas de aula. Tinha, no fundo, uma porta para dentro do prédio, para um corredor pequeno que levava a outro maior, que levava ao saguão. Outra porta para o quintal, diretamente para o quintal, muito longe dos outros alunos, professores, funcionários, inspetor. Dava para matar aula à vontade, namorar nos intervalos, cantar, jogar capoeira, fumar. De discriminados e zoados, passamos a privilegiados e invejados.

Acho que honramos esse privilégio. Com tudo que fazíamos essas coisas, proibidas aos outros, não me lembro de alguma vez termos aprontado algo que nos levasse a repreensão. Sentíamo-nos completamente à vontade ali, como se fosse uma escola separada, reservada, só nossa.

E alguns professores também aproveitavam. Procuravam aproveitar com criatividade e gosto as aulas dos exilados. Ali podiam falar alto, falar mal dos outros alunos e professores, sem medo de serem ouvidos. Podiam tomar sol ou fumar à porta durante a aula.

Tínhamos aula de história sentados no chão do lado de fora, tomando sol. A professora, com café na mão, gritava um palavrão para recobrar a atenção quando nos dispersávamos. Xingava alto as personagens históricas. Dizia, todavia, para não escrevermos isso nas provas. O diretor não gostaria.

Eu não gostava das aulas de português, de aula de gramática. O assunto me interessa muito. Mas, apesar do assunto e das professoras, tanto no primeiro quanto no segundo grau, tentava fugir delas. Não sei se ainda são assim. No meu tempo, eram comuns exercícios repetitivos de escrever frases longas várias vezes com vários sujeitos e objetos e advérbios e adjuntos etc diferentes. Páginas e páginas repetitivas para treinar concordância. Eu escrevo muito devagar. Sempre escrevi devagar, sobretudo à mão. Morria de ódio desses exercícios. Eu era um ótimo aluno, não tinha muitas dúvidas sobre a concordância – isso foi naquela época, estudava, hoje descuidei disso, e até gosto mais de escrever – mas sempre era o ultimo a terminar, muito depois dos outros, com os dedos, a mão, o pulso, o cotovelo e o ombro doloridos de tanto escrever. o pescoço doendo da posição. Os olhos doendo de cansados.

Tentava fugir, apesar da professora. A nossa professora de português não tinha com ser uma chata. Era uma morena bonita, nova. Devia ter entre vinte e vinte-e-quatro anos. Os alunos, de catorze a dezesseis. Eu era o mais novo da classe, catorze. Ela fazia faculdade ainda, não sei como podia dar aula. Aliás, acho que não podia, mas a deixavam mesmo assim. Era cobiçada por todos os dois meninos da sala. Naquela época, mulher não podia ser magricela, como as da moda de hoje, ninguém gostava de mulher magricela, e ela não era. Mas também não podia ser gorda, e ela também não era. Usavam-se jeans justos, ainda sem lycra, só o tecido de brim, mas achávamos demais. E ela também usava. Ou, então, vestidos. Não muito justos, nem era moda usar vestido, pelo contrários, vestido era coisa de crente. Mas ela usava vestidos femininos bem diferentes dos de nossas mãe e dos das colegas crentes, e eles marcavam o contorno da professora e da lingerie.

Ela dava as explanações da aula, sob os olhos atentos das meninas, e mais atentos ainda do menino, eu. Meu colega precisava disfarçar. Ele ficava com uma menina da sala. Depois de falar e rabiscar no quadro, nos mandava fazer os exercícios da página tal. Não importa a página, o enunciado era sempre longo, e o trabalho braçal dezena de vezes mais longo. Mal começávamos, ela pedia licença. De dentro da bolsa, pegava uma frasqueira, hoje se diz necessaire, e saia. Voltava uns minutos antes do fim da aula, para a correção, oral. Se houvesse justiça na escola, ela deveria passar as respostas por escrito, na lousa, para experimentar, nos braços, as mesmas câimbras que seus alunos tinham.

Nas primeiras vezes, saia e voltava pela porta que dava para o prédio da direção. Lá havia a sala e professores, seus armários, banheiros limpos – os das crianças nunca eram lavados. Devia ir ao banheiro. Mas demorava, muito. Devia ir à secretaria. Era nova na escola, devia está resolvendo algum assunto burocrático. Voltava para a classe, estranha. Com uma expressão estranha. Eu notava, meus colegas diziam que não. Olhos arregalados, respirando rápido, cara de assustada. Que devia ser? Por uns dias, fantasiei que ela fazia no banheiro o que adolescentes fazem no banheiro.

Depois de algumas semanas, saiu algumas vezes pela porta dos fundos da classe, para o prédio, e voltou pela da frente, do quintal. Fez assim umas três vezes. Depois começou a sair e voltar sempre pelo quintal.

Comentei com meu colega. Ele achou graça de eu ficar curioso com isso. Ele mesmo não ficou. Tinha mais com que se preocupar. Já que a professora saía para o quintal, ele e a candidata a namorada aproveitavam para se fechar no closet ao lado de nossa sala, antes da esquina da biblioteca. Era um pequeno depósito de materiais antigos de educação física: bolas esquisitas, alteres, umas coisas que pareciam bambolês, e colchonetes… A professora demorava mesmo… A aula de português tinha quase três horas, duas vezes por semana. Ela passava ao menos uma fora da classe.

As meninas também não pareceram se importar. Também deram risada de minha curiosidade, quando comentei da respiração alterada da professora ao voltar pra sala. Que será que ela fazia? Já essas risadas eram maliciosas. Que fofoqueiro eu! Não ligavam para a professora, era mulher, como elas. Preferiam conversar sobre onde dançariam no fim de semana. Agora, acho que riam de minha inocência. Acho que só eu fazia a lição trabalhosa da aula de português.

Numa aula, após a professora sair da sala, de meu colega e sua amiga irem para o closet e das primeiras meninas começarem a se juntar em grupos puxando conversa, fingi que ia ao banheiro e saí da sala. A professora tinha ido pela porta do quintal, eu fui pela do prédio. Eu sempre andava por dentro do prédio era um atrevimento meu, diziam os outros alunos. Também diziam que eu ainda ia me meter em encrenca por causa disso. Mas eu sempre usava aquela porta, nunca me falaram nada. Era uma porta. Dava para um corredor, que passava por salas dentro de um prédio. Eu chegava mais rápido no pátio, na porta da escola, nos banheiros, sem chuva nem frio. Os outros davam a volta por fora, pelo quintal. Nunca lhes disseram que deviam fazer assim. Tinham medo de quebrar a regra que não existia. Quando temos medos irracionais, criamos regras que não existem, e as respeitamos cegamente. Pra mim, era melhor que eles tivessem mesmo medo. Se também usassem o caminho pelo prédio, logo aprontariam uma bagunça e, aí sim, e com toda a razão, a regra da proibição passaria a existir.

A porta do banheiro das professoras estava aberta, vazio. O dos professores também. Ninguém pelo saguão. Voltei até a porta do closet. Lá ela não estaria. Não estava na biblioteca. Porta do laboratório fechada. Olhei pelo pequeno visor de vidro da porta, laboratório vazio. Copa vazia. Na sala dos professores, nenhum era ela. Sala do vice-diretor vazia e a do diretor também. Na cozinha nova, só as duas merendeiras lavando louça. Secretaria.. não, também não estava lá. Sai do prédio da direção pela porta que dá pro pátio. Dá. Ainda hoje a porta dá para o pátio. A escola ainda existe. A porta e o pátio também. A porta ainda dá para o pátio e para o saguão do prédio da direção. No pátio, ela também não estava. Fui pela direita, direção da caixa-d’água, dos banheiros dos alunos e do prédio das salas, era por essa direção que ela voltava, devia vir de lá. Eu, curioso, e ela devia apenas estar de conversa-fiada com outras professoras, noutra sala de aula. Ou, como alguns professores faziam, dava aula em duas classes ao mesmo tempo, para sair mais cedo ou entrar mais tarde. Tinha estado excitado em desvendar um mistério. Fiquei frustrado, iam rir de mim. Se eu contasse. Mas não contaria, seria uma história muito sem graça.

Voltando para a classe, pelo quintal, passei pela torre da caixa-d’água. Olhei para as classes do primário. Não foi coincidência. Havia de olhar para algum lado. Era para lá ou para o banheiro. Olhei para lá, em direção ao prédio das salas de aula, por entre a edícula, que eu nunca soube para quê servia, e a torre da caixa-d’água. Vi um pedacinho de coisa azul marinho onde só devia ter mato.

No prédio das classes, há algo que deve ter sido projetado para ser uma saleta, armário, ou guarita. Era fundo como uma classe, mas estreito. Parecia aquela classe onde nos puseram no começo do ano, antes da rebelião. Mas a porta que era só a abertura, sem batentes nem a porta propriamente dita, dava para fora do prédio. Não havia porta para o das outras classes. Também não tinha teto. Junto às paredes, havia uma espécie de calçada de cimento, estreita. No meio, só o chão, de terra, mais baixa que a calçada de cimento. Muito mato. O vão de terra era como um canteiro de mato alto, alto mesmo, metro e meio de altura, por aí. Ninguém entrava lá, não servia para nada. Quando eu era pequeno, o mato não era alto, as meninas usavam aquilo ali de prisão. Brincávamos de elas nos capturarem. A regra era elas não precisarem seguir regra nenhuma e poderem fazer o que quisessem com o prisioneiro até que ele fosse salvo. O prisioneiro tinha os direitos de ficar calado, de não tentar fugir, de ser educado e de obedecer. Se quebrasse alguma regra, apanhava dos outros. Agora, penso bem, não me lembro de alguma vez ter sido feito prisioneiro. E eu, bobo, me orgulhava de não me deixar pegarem…

A entrada dessa prisão ficava meio escondida pela torre da caixa d’água. Não era visível do pátio. Bom esconderijo, as meninas souberam bem escolher o lugar.

O vestido da professora era azul-marinho. Fui até a porta e olhei. Ela fumava, no canto, onde era mais difícil vê-la de fora. Eu só tinha reparado no pedaço azul do punho do vestido porque já havia saído da sala pensando nele.

Ela me percebeu, mas não me olhou. Chamei pelo nome, com ponto de interrogação no final, como se perguntasse se estava tudo bem. Ela não respondeu. Tinha um braço cruzado à frente do peito, mão embaixo do sovaco. O outro, esticado, segurava o cigarro. Tremia as pernas, muito, como quando queremos nos aquecer. Não estava frio. Ela tinha pressa ou vergonha de ser encontrada. Fui a seu lado para também não ser visto de fora. Ela ali, fora da classe, não era professora, era uma mulher bonita, mas comum e simpática, mulher bonita não costuma ser simpática com homem feio. Era também mais velha que eu, mas eu já a conhecida e me sentia em liberdade de poder falar-lhe. Falaria se tivesse palavras. Senti-me um moleque intrometido. E era. Em segundos, ela ficou à vontade e acalmou as pernas.

Com o cigarro, apontou-me, no meio do mato, um dente-de-leão. O cigarro não era industrializado. Por mais bobo que eu fosse, percebi o que era. “Eu gosto de soprar isso.” A voz estava relaxada. Falou sem cerimonia. Quando estamos à vontade, não importa se o que dizemos é só uma bobagem. O rosto deu um certo pequeno sorriso. Ser pega fazendo o errado acabou com o medo de ser pega.

Eu disse para assoprar. O tom da minha voz também teve pontuação, foi convidativo, de quem pergunta “Por que, não?” E incita: “Se você quer, faz.” Ela passou o cigarro para a outra mais, a que estava do meu lado. Mo ofereceu então enquanto se abaixava um pouco para pegar o dente-de-leão. “Não gosto.” Não tinha como saber se não gostava, nunca tinha experimentado. Agora, acho que não vinha isso ao caso, acho que ela ofereceu apenas para que eu pegasse. “Segura”. Segurei. Ela pegou a flor esquisita. Pôs perto do nariz, o bastante para não ficar vesga ao olhar. Olhou dois segundos, com cara de criança, e soprou. As sementes não se soltaram todas. Ela jogou fora a flor, no meio do mato.

Só então olhou para mim a primeira vez. Foi para minha mão abaixada, que segurava o cigarro. Mas girou o corpo em minha direção. Com a mão na direção da minha, reclamou-o de volta, sem palavras. Encheu a boca com muita fumaça devagar, estufando com o peito o vestido azul marinho. Levantou o rosto para cima. Segurou a fumaça muito tempo, depois soltou-a, deixou escapar da boca aos pouquinhos. Jogou o cigarro no meio do mato, de sopetão, com cara de quem se diverte em saber que faz arte.

Abaixou-se, pegou a necessaire, ela estava no chão e se levantou. Não olhou meu rosto. Pôs-me a mão no pescoço, logo abaixo da orelha. Beijou-me um beijo que me pareceu demoradíssimo e que sei que não passou de uns cinco segundos. Apertou a boca de encontro à minha com força, mas também devagar. Pareceu-me um beijo terno. Deitava um pouco o rosto para meu nariz não atrapalhar. Logo ao desencostarmos as bocas, antes de me soltar o pescoço, lambeu meu lábio, gostoso, como se quisesse sentir algum sabor.

Ela já estava entre eu e a porta. Saiu, foi passar a correção da lição.

Eu cheguei daí uns cinco minutos, pela porta de dentro do prédio, a mesma por onde saí. Queria passar despercebido. Desconcertado, não queria que ninguém soubesse, ainda não quero. Ninguém soube, mas não passei despercebido. Meu colega e sua amiga me zoaram por meses, pelo motivo errado. Eu tinha cheiro de maconha na mão e na boca.

 

 

Às Pirâmides

Acabou o papel higiênico e eu tenho que andar muito para comprar mais. Não sei por quê. Afinal, na venda do pai, ao lado de casa, ele tem.
Mas eu vou comprar, não sei onde. Em segundos, andei toda a avenida, meu irmão vem comigo, e as casas acabaram, ela virou uma estrada de terra vermelha na crista de um morro pelado.
O barranco dos dois lados lados é perigoso.
Mais segundos, talvez um minuto, caminhando e a estrada chega ao deserto de areia. À direita, deserto a perder de vista. À esquerda, um despenhadeiro que acabava em covas. Covas como as do cemitério que havia em frente de casa. Como pode haver um despenhadeiro num deserto onde o chão é só areia? Eu andava na outra direção, acho que oeste. Onde houve a curva ou retorno que me trouxe a andar para está, leste? A estrada pareceu-me reta, o caminho todo.
Animais: cachorros, cavalos, camelos, vacas e gente, circulam pelo deserto. Aparecem e somem não se sabe de nem para onde. Não são miragens, não é o calor, o tempo está gostoso como estava no quarto quando me deitei.
Meu irmão diz que chegamos, não vejo onde. Os pés começam a afundar cada vez mais na areia a cada passo. É difícil andar. Lembro dos desenhos animados, das pessoas andando na neve com raquetes amarradas às solas dos sapatos. Se funcionam mesmo, seriam-me muito úteis.
Percebo o absurdo que é um penhasco na areia e é, nesse instante, de novo como num desenho animado em que a personagem cai quando nota que está a andar sem chão onde pise, é nesse instante que o meu pé afunda mais na areia, a perna entra até o joelho e o despenhadeiro desmorona, como água, como areia seca, como se uma criança que faz um castelo de areia lhe desse um golpe com a pazinha para desmanchá-lo e voltar pra casa, sem deixar o castelo para a próxima criança a brincar naquela praia.
Caio com aquela cachoeira de areia, no vazio, para o vazio, sem fundo. Vertigem demais. Aflição de não ter chão.
Acordo, não em casa, na minha cama ou caído no chão ao lado dela. Acordo jogado de encontro a uma pirâmide de rolos de papel higiênico numa venda, muito parecida com a do pai.
Tem umas quatro vezes minha altura. Não, é maior, umas quatro vezes a altura de meu irmão. Ele não alcança o último, mais alto. Não vai alcançar. Me pede para pegá-lo.
Eu subo alguns degraus de rolos de papel e a pirâmide cede. É oca, não sabíamos. Caio, agora para o vazio de seu interior escuro e macio.
Acordo, desta vez com meu pai, desajeitado, me levantando do chão para me por de novo na cama.

The Best Song Ever

“The Best Song Ever”: já vi várias músicas com esse título. Vi. Acho que ouvir não ouvi nenhuma. Curiosamente, todas eram de artistas que eu duvidava poderem fazer algo bom.
O lugar comum diz que gosto não se discute. Não se discute porque não faz diferença, cada um que goste do que lhe convém. E que não ouça nos próprios fones sem incomodar os outros. Sem me incomodar.
Música então, logo que se começa a estudar música, uma das primeiras coisas, se aprende que música é algo abstrato, não é concreto, não dá para ver ou palpar, depende da tecnologia disponível, por mais básica ou rudimentar que seja. É, das artes, a mais particular de cada cultura. Esculturas, quadros, teatro, todos têm mais ou menos os mesmos temas e formas. E são inteligíveis para o leigo na cultura do povo que os produziu. Música não. Para apreciar uma música, é necessária uma familiarização básica com a cultura de onde ela provém. Com os padrões produzidos, familiaridades, histórico, as demais manifestações. Leva tempo para reconhecer as sutilezas por trás de cada uma.
Não faz sentido tentar empurrar uma música ou um tipo de música a quem, sabe-se, não gosta.
Pessoas que compartilham gostos musicais, via de regra, compartilham experiências que lhas tornam familiares. Podem sem associações com as músicas que ouviam em programas na infância ou dos lugares que freqüentavam com os amigos no tempo da faculdade. Ou mesmo podem ser sentimentos ou coisas que gostariam de dizer e ouvir e que estão nas letras dessas músicas.
Quando vejo uma música com esse título, logo imagino que seja a melhor de sempre para quem gosta daquele artista, até que apareça outra melhor.
Eu tenho várias músicas preferidas, são as melhores de sempre, tenho consciência de que, talvez, só para mim.
Algumas músicas, aconteceu de saírem da lista depois de um tempo. Outras, de entrarem, sem explicação, mesmo já sendo conhecidas e não tão apreciadas antes. A lista é mutante, espero que em função de uma constante evolução minha. Espero.
A única música que para mim poderia ser definitiva, seria uma que dizesse tudo o que eu sinto. Não no momento, mas no que sou. Sobre quem quero, para quem quero. E sobre mim, também, para esse mesmo alguém.
Começaria alegre como um encontro. Feliz com o conhecimento e reconhecimento. Se emocionaria com aceitação mútua. Depois de um trecho com letra não necessariamente longa ou curta, de tamanho exato, para dizer o exato, com todas as palavras carregando o sentido e o sentimento certo, chegaria a um interlúdio, de um longo abraço emocionado, com lágrimas quase caladas, discretas, particulares. Seria o sinal para que o resto do mundo deixasse o recinto e nos deixasse a sós.
Seguiria-se um ritmo só nosso, que ninguém mais entenderia, combinado com nossas respirações, as batidas dos nossos corações, nossos olhares, nossos gestos, movimentos, sorriso, cansaço, com cada novo tocar e recomeçar e descansar e conversar e acordar felizes.
Essa coda, se estenderia até um de nós dois ter de partir, inevitavelmente, no ápice final.
Ficaria eternamente na saudosa memória de nós dois, felizes por termos vivido junto de quem tivesse a mesma melhor música de sempre.

Nota de Agradecimento

Desde pequeno, eu fui metido a escrever. Em casa, ainda pequeno, pegava papel, grampeava como uma brochura, escrevia duas linhas por página e dizia que era um livro escrito por mim. Não mostrava isso a ninguém, óbvio.

Aprendi a ler cedo, com três, quatro anos, minha madrinha e meu irmão me ensinaram numa cartilha Caminho Suave e gibis da Disney. Dos gibis para os livros de escola de meus irmãos, recheados de crônicas e letras de músicas, foi um passo. Na época, os livros didáticos usavam muitas letras de músicas, crônicas e contos para ensinar português. Logo comecei a imitar os escritores e brincar de escrever minhas coisas também.

Na escola, minhas redações eram muito elogiadas. Hoje tenho dificuldade com versos, na época não. Lembro de um poema em particular sobre descer o Pico do Jaraguá de carrinho de rolimã. Essa era uma brincadeira perigosa que algumas crianças faziam na época, todos conheciam alguém que tinha morrido assim. Lembro da professora de português da sétima série, Marta, parar ao meu lado, curiosa com o que eu estava escrevendo, ela pediu licença, pegou o caderno da minha mesa, segurou na frente dos olhos e ficou por alguns minutos olhando fixo enquanto repetia várias vezes: mas isto está muito bom, muito bom mesmo. Isso não me envaideceu, ao contrário, fiquei encabulado por chamar a atenção.

Do colegial, me lembro da professora do segundo ano brava comigo. Ela ficou uns dias brava, porque eu não quis participar do concurso literário da escola. Por algum motivo, timidez, sociopatia ou arrogância minha, nunca participei de nenhum concurso literário. Desse, acho que fui o único da escola a não participar. Não era obrigatório, mas quem não se inscrevesse tinha que, fazer uma redação valendo nota enquanto os outros faziam a redação para concorrer ao prêmio do concurso. Fiz a minha para a nota. Não me lembro da redação, do tema ou da nota. Lembro da professora que, tentando me convencer, sem sucesso, prometeu ficar de mal. Falou assim mesmo, como criança. Acho que ela não se tocou que eu já tinha desesseis anos. Lembro que, quando percebeu que eu terminei a redação, pegou-a, eu me sentava logo junto à mesa dela, leu e fechou a cara. Mais uma semana e eu já estava conversando normalmente com ela de novo.

Depois foi o cursinho. No cursinho éramos muitos alunos, uns quatrocentos. Sábado sim, sábado não, entregavam, cada um, duas redações à professora. Isso dava mais de cinqüenta por dia para ela ler, e corrigir. As minhas sempre me voltavam com alguma observação elogiosa. Eu não as mostrava a mais ninguém, mas ficava orgulhoso. Não sei com quantos alunos mais ela fazia isso. O que ela escrevia para mim, me incentivava, aí prestar vestibular. Eu guardava o elogio só para mim.

Teve uma redação, essa escrevi na classe, em que fiquei olhando a professora fumar. Naquele tempo, século passado, fumava-se. Ela fumava à porta da sala, para menos nos incomodar. Fiquei olhando-a, era bonita, não muito, mas me atraia. Enquanto observava, escrevia uma descrição nada imparcial do que via. Não a citei, tentei fazer de forma a que não notasse que era ela mesma quem eu descrevia. Tenho certeza de que não consegui. Nessa redação, eu, narrador, confessei invejar o cigarro que “consome essa mulher enquanto ela o consome”, “mais que simplesmente lhe tocar os lábios, é ela quem o leva a eles”, “eu vi, ela o tocou com a língua, que inveja!” Essa ela me retornou sem nota, nem correções, só um “Adorei! Quero outras dessas!” escrito no canto. Acho que não houve outras. Hoje não sei como tive coragem de escrever isso e lhe entregar. Provavelmente o misturar-me anônimo aos outros centenas de alunos.

Na faculdade, perdi o costume de escrever, o de ler também. Falta de tempo. Talvez não escrevesse mais porque não tinha uma professora de redação ou de português me cobrando esse dever. Só o fazia raramente em cartões de aniversário.

Vim a tentar de novo, só depois de mais de dez anos. Não lido bem com as frustrações da vida adulta, tenho consciência disso. Escrever, então, me era já uma forma não só de fuga, lugar comum, era também de comunicação com um mundo imaginário e, creio eu, infantil, dos sonhos que eu ainda não sabia que tinha. Mas esses textos não me pareceram bons. Houve um ou outro dos quais gostei muito, mas a maioria me desagradou extremamente.

Não conseguia gostar nem me apegar a eles. Escrevia, apagava, abandonava. Os poucos, muito poucos, que me agradaram, não guardei. Mas mesmo não os tendo mais, sei que eram muito ruins. Embaraçosos.

Escrevia a intervalos. Por uns dias tentava, por semanas me arrependia, aí destruía tudo e tentava de novo. Eu digo que isso é como uma mandala mal-feita que eu tenho que destruir antes que mais alguém veja. Alguns cheguei a mostrar a outras pessoas e, mesmo quando ouvi elogios, reneguei-os e larguei mão.

Depois de muitas tentativas, este ano, pelo meu aniversário, comecei um novo ciclo e, desta vez, parece-me bom o material. Eu mudei bastante neste tempo todo, mas tenho certeza de que não fui só eu o responsável pela mudança que me agrada. Por certo estou fazendo isso, de escrever, de um jeito mais gostoso e fluido para mim. A alegria e o prazer que tenho tirado daí são imensos. Talvez essa seja a famosa felicidade de que tanto falam. Mas não é só pelo escrever, por imaginar, digitar e publicar.

Quero agradecer, demais, a essa luz que me iluminou. Você se tornou muito especial para mim, meu sol e minha lua. Muito obrigado por este mês e meio. Espero que nunca acabe.

imu

Cada palavra…

… me deixa mais feliz.
mesmo que seja uma só, perdida na noite ou num pedacinho furtado de tempo, me é muito especial.
(k)

Cinema de Tarde

Domingo é dia das mães. Gostaria muito de ir na casa da minha. De recusar o almoço, almoço de domingo engorda, principalmente o dela. De tomar café com os bolos da minha irmã. De fritar pastéis pro jantar, minha o mãe gosta de quando eu frito pastéis.

Neste domingo, não posso. Trabalho, não em todos, só este, e mais alguns. O dia todo, horário comercial. Como se horário comercial se aplicasse ao domingo. A empresa está em operação especial por conta das vendas de dia das mães. E vou trabalhar de graça. Nova política de austeridade, usam esse termo sempre que farão algo errado, da companhia, por conta da crise na Espanha… e do sistema de ponto que, convenientemente, estará em manutenção durante esse período… coisas estranhas. Mas como bom menino revoltado e convalescente (ontem tive dor de cabeça, ai ai ai, que sofrimento! Pobre de mim!), resolvi vingar-me tirando folga na tarde da sexta, agora, para ir ao cinema.

Cinema sozinho. Mesmo para quem adora, é melancólico. Mesmo para um chato como eu, que não gosta que atrapalhem o filme, é estranho ir não ter com quem esperar a sessão, nem quem convidar para o café despojos e ir embora conversando sobre o que acharam.

Houve uma época em que freqüentei bastante. Ao menos dois filme por semana. Com o tempo, perdi essa diversão. Sinto muita falta.
Os cinemas da paulista são os meus preferidos. Não gosto de cinema de shopping. Não tem toda a qualidade que dizem nas reportagens, som e imagem são iguais as dos outros, tem pouca variedade de filmes, muitas salas com os mesmos filmes badalados, esses eu vejo depois na tV, o público é bagunceiro e os funcionários antes do filme acabar já acendem as luzes e começam a faxina, linha de produção. Poxa, quero ver os creditos, ouvir a música, assistir as piadinhas inseridas entre os créditos, sair com calma sem ter meu pé varrido.

Antes dava para sair do metro no final da avenida, lá era onde ficavam os principais, e ir procurando de um em um onde tinha um que me agradasse. Era como uma vitrine de filmes. Ali tinha tudo, passeio, café, lanche, parque. Hoje não da mais para fazer isso, os da paulista aderiram às cadeias e ficaram como os dos shoppings. Exceto dois. Mas esses a gente tem de consultar o horário antes de sair de casa porque se chegar com o filme pela metade, não há outro cinema onde procurar.

Consultei pela internet. Nesta época do ano não há muitos filmes que eu queira ver, tem um do woody allen. A única sessão com horário que me sirva é no shopping. Não vou dizer que fui a contragosto, eu ia mesmo para o shopping no fim do dia para fazer outras coisas, só não planejava que o cinema fosse lá. A sessão é cedo. Talvez esteja vazio e não tenha a bagunça e a linha de montagem.

Cheguei com o shopping vazio mesmo, sem fila. Mas fui nas terminais de auto atendimento pq não gosto de explicar para o caixa três ou quatro vezes que quero ver o woody ale né não o homem aranha. As vezes acho que eles fingem que não entendem, só de sacanagem, se divertindo com o tio sozinho que não gosta de filme da hora.

Os terminais estavam muito lentos, a culpa deve ser da rede de telefonia, testei ate o ultimo quando vi que os primeiros ja estavam dando sinal de vida. voltei para um desses que se mostrava vivo. selecionei o filme, a sessao, facil. ja tinha escohido pela internet. tem a promocao de meia entrada do banco. na hora de pagar, nao serve meu cartao, tem uma outra promocao , mais especifica para minha agencia. nao sei o que. cartao, senha, parece que agora funcionou, cade o ingresso? ué pq q esta me perguntando de novo qual cadeira eu quero? cartao, senha? de novo? espero que nao me cobrem em dobro. Bom, se o terminal conseguiu cobrar, não vai conseguir de novo, logo na seqüência, com o mesmo cartão. Paguei “de novo”. Desta vez o terminal imprimiu o tíquete e o ingresso. Dois ingressos. A cobrança estava correta, um só. E meia-entrada como é a promoção do banco. O outro ingresso estava sem preço, devia ser promocional também do banco. Conspiração. Eles também achavam que eu precisava de companhia. Achei muito curioso. Uma surpresa até simbólica. Pensei de novo na companhia que queria.

Tinha duas horas até a sessão, dava para almoçar e escrever no café da livraria enquanto esperava. O tema do texto nem podia ser outro. O ingresso misterioso. Tenho impressão de que o texto está ficando maior que isso, mas tudo bem, escrevo o que quero, não preciso me limitar ao tema que deu idéia.

O almoço, uma salada. A grande porque será só a salada. Ela tem fatias de salmão defumado. Isso deve ser bom. Uma salada de frutas também, tem vitaminas e dizem que temos que colorir a refeição. Bebida não porque não quero sair no meio do filme, atrás de banheiro.

A salada, depois percebi, dava para dois, como os ingressos. Coincidência ou conspiração? Levei uma hora e meia para terminá-la. É certo que escrevia este texto enquanto comia. E, sozinho na mesa, teclava alguma coisa com uma amiga no Skype.

Terminada a salada. Ah, não, ainda tem a salada de frutas. Tenho que comê-la com certa pressa. Falta só meia hora. O texto ainda longe de ficar pronto. Será que terei algo para postar ainda hoje.

A salada de frutas estava coberta de morangos, fresquinhos. Não gosto de morangos. Pobrezinhos! Não sei se lhes faz diferença que eu goste ou não. Precisava de alguém aqui também para comê-los.

Comi a salada de frutas correndo. Não queria pipoca no cinema, ia pegar um café no caminho. Capuccino, aqueles grandões. Comi também os morangos, sozinho, para não desfazer. Perecem não ter gosto. Eu não, mas alguém deveria gostar de comê-los.

No caminho pro café, duas lojas de lingerie. Sempre que passo por uma, paro e olho tudo imaginando uma história romântica, dessas que merecem ser contadas. Acho que é um presente muito legal pra quando se gosta de alguém. Não gosto de lingerie feita só para a hora de tirar. O romântico da história tem que começar antes disso. Gosto daquelas que são feitas pra usar de dia. Por baixo do vestido de festa, no jantar a dois, sentados na sala pra ver um filme, no café da manhã. Roupa que só serve para ser usada na hora de tirar não me excita. Roupa que quer tentar ser estrela no lugar da mulher. Gosto daquela que deixa bonita para mim, mesmo nos momentos inocentes, despretensiosos.

No café, faltam uns quinze ou vinte minutos para a sessão. Eu quero um cappuccino, enorme, eles usam uma palavra italiana pro tamanho do copo, com chocolate, extra extra quente, e, tenho ouro ingresso, minha companhia virtual gostaria de quê? Um … chocolate quente? Chocolate quente eu não gostei da outra vez que tentei, tem muito açúcar. Será que minha companhia virtual gostaria de outro cappuccino extra-quente com chocolate, igual ao meu? Se ela não beber, eu bebo. Vou tentar.

O atendimento no café foi rápido. O cinema não tinha fila. Entrei na sala, quase vazia. Coloquei um copo de cada lado da cadeira, naqueles encaixes que tem nos braços. Quem visse, pensaria que eu esperava alguém. Talvez esperasse mesmo. Cadeira de cinema de shopping é pequena. Isso é um problema quando se está sozinho. Se tem gente ao teu lado, do outro não tem a companhia pra gente se chega e encostar. Tem de ficar ali, batendo braço e cotovelo com o estranho. Se o cinema, como agora, está quase vazio assim, a impressão é de frio, ar-condicionado sem ninguém pra esquentar, e de vulnerabilidade, sozinho ali e todos te vendo por sobre as cadeiras baixas.

Pensei em trocar de lugar, ir pro fundo onde nao me vissem. Mas o fundo estava com cheiro de gordura fria, de fritura. Será que em algum canto, por ali, guardavam lixo ou da pipoqueira? No fundo, não dava para ficar. Voltei para a frente, sozinho, exposto. Havia só mais uma oito pessoas. Casais, idosos. Talvez eu não pertencesse àli.

Escrevi alguma coisa, uns dois parágrafos. O filme logo começou. Difícil resistir à tentação de escrever no cinema. Mas eu não faria isso. Apenas MSN, no telefone, sem brilho na tela. Para o texto mesmo, só anotações, também no telefone sem brilho.

Logo no começo do filme, tem cena de dança e, acho que foi ontem mesmo, eu escrevi sobre dançar. Coincidências, coincidências. A vida é cheia delas. Será que eu deveria me admirar de alguma?

O casal atrás de mim conversou um pouco, me incomodou. Com tanto lugar, se sentaram atrás de mim. Ranzinzice minha, devia estar com inveja, diriam se eu reclamasse. Não vou reclamar, invejo mesmo. E, na verdade, se eu não prestar atenção a eles, não incomodam. Olho para o filme, e, de tempos em tempo, para o celular que vibra.

Tomei meu cappuccino, aos pouquinhos, esse estava bem quente mesmo, enquanto assistia e teclava. Continuei teclando com minha amiga, frases espaçadas. Tentei deixá-la curiosa sobre o que eu escrevia. Ela não me deu esse gosto. Ela ficou, eu sei. E eu queria que ela confessasse, ela sabe. Rimos de como estamos nos conhecendo, achei bonito isso. Teclei uma coisinha que não devia.

O filme era bom. Quando o meu cappuccino acabou, roubei o de minha companhia. Acho que ela não gostou, nem o tinha tocado ainda. Estava inteiro. Na metade do filme, cappuccinos bebidos, me deu vontade de fazer xixi. Que burro que eu sou! Os dois copos juntos tinham mais de um litro de bebida. Leite com café e chocolate também dá vontade de fazer xixi. Segurei , nem precisei me esforçar, o filme era bom. Assisti, sem muita preocupação, até o final, teclando e anotando.

Logo que começaram os créditos, música muito legal, acenderam as luzes. Isso quebrou um pouco do clima.

Não sabia se, na saída, levava os copos vazios para o lixo. A dúvida se mostrou extremamente inocente. Em segundos, começo ainda dos créditos, um faxineiro brotou na minha frentes e os recolheu, pareceu não ter gostado de eu não sair correndo da sala quando a luz se acendeu. Fiquei um pouco, não vi os créditos todos.

Na saida do cinema, procurei o banheiro, achei só o feminino, o masculino devia estar em reforma. No andar de baixo eu sei que tem um. Logo embaixo do cinema, junto à escada rolante.

Dei a mão para o corrimão da escada e desci. Ao lado do banheiro, bem de frente para o final da escada, outra loja de lingerie.

Mais Coisinhas

Estou chegando à conclusão de que há dois jeitos principais de se contar histórias.
Um é pegar uma coisinha simples que me aconteceu durante o dia e contá-la com comentários e descrições para mostrar porque achei-a especial para ser contada.
Outro é imaginar uma coisinha especial que me aconteceria e contá-la desse mesmo jeito.
No final, este meu mundo seria assim, feito de coisinhas, bem coisinhas, especiais.

Cara de MSN

A amiga entrou no MSN quase no fim do expediente. E logo pedindo desculpas por demorar a falar comigo. Imagina! Não tem de se desculpar. Não há motivo.

Além disso, ela já tinha me teclado um “bom dia” de manhã cedo 🙂 que a porcaria de sinal do celular me fez demorar a responder. Essa operadora está me fazendo passar por mal criado…

Perguntamos se tudo estava bem um com o outro. É um protocolo social, mas a gente se importa mesmo. Até porque não há coisas melhores pra se conversar com os amigos do que as novidades, boas ou ruim sejam elas.

Eu falei da minha dor de cabeça. Falar com ela ajuda a passar. Eu passei o dia com dor de cabeça. De manhã era fraca. Na volta do almoço, almocei tarde, voltamos depois das três, ela de repente ficou mais forte. Acho que é uma gripe chegando. Brinquei de achar que é dengue. Os colegas haviam diagnosticado. Não, não somos médicos. Mas acham que entendem porque tivemos três casos no andar no último mês. Um dos sobreviventes me interrogou e disse que é dengue “com certeza”.

As mulheres sempre acham que o homem está com frescura quando reclama de dor. Minha mãe, por exemplo, vêm sempre com a conversa da dor do parto. Eu não estava de frescura. Dor de cabeça não é dor forte, é dor chata. É como um parente dissimulado se divertindo em tentar te irritar. Prefiro uma martelada no dedo ou uma topada com o pé descalço na quina da parede. Essas são dores mais leais. Não são dissimuladas como a de cabeça.

Ela não me chamou de fresco. Viram como ela é especial? Ficou preocupada. Eu vou no ambulatório pela manhã, se não passar. Me disse para não esperar. Eu não podia, tinha compromisso importante e não podia me atrasar na saída. Insistiu, me chamou de teimoso. Disso não posso me defender porque ambos sabemos que sou mesmo. Argumentar seria a teimosia cabal.

A única saída era mudar de assunto ou mandar alguma coisinha pra ela entender que, embora teimoso, eu apreciava, e aprecio muito mesmo, a preocupação e, também, que não queria discutir com ela:

    rs se continuar mal eu vou no ps
    (K) te adoro rs

Ri porque era uma trapaça óbvia. Para trapacear, falei o óbvio que ela já sabia. Até achei que seria repreendido por tal manobra evasiva. Mas ela respondeu:

    :$
    tbm adoro vc, seu teimoso!! rs

Não sei se ela imaginou o bem que ler isso me fez.
Duas baias depois da minha deu para notarem parte desse bem. Dois colegas zoaram:

“O doido está com cara de MSN, olha ali?”
“Ô doido, está namorando o note? Está assistindo filme no note? O quê que está passando aí?”
“O quê foi que você viu aí na tela? Tua PL?”
“Tu abriu um sorriso aí, como se o note estivesse conversando contigo.”

Mandei-os às favas. São meus amigos e também companheiros de trabalho. Voltaram ao que faziam antes.

Eu não namorava o note.
E nem me pareceu mesmo ter passado a dor de cabeça. Mas aliviou muito.
Aquele carinho da amiga preocupada foi tão bem-vindo que valeu por muito mais que um analgésico.

😉