Cinema de Tarde

Domingo é dia das mães. Gostaria muito de ir na casa da minha. De recusar o almoço, almoço de domingo engorda, principalmente o dela. De tomar café com os bolos da minha irmã. De fritar pastéis pro jantar, minha o mãe gosta de quando eu frito pastéis.

Neste domingo, não posso. Trabalho, não em todos, só este, e mais alguns. O dia todo, horário comercial. Como se horário comercial se aplicasse ao domingo. A empresa está em operação especial por conta das vendas de dia das mães. E vou trabalhar de graça. Nova política de austeridade, usam esse termo sempre que farão algo errado, da companhia, por conta da crise na Espanha… e do sistema de ponto que, convenientemente, estará em manutenção durante esse período… coisas estranhas. Mas como bom menino revoltado e convalescente (ontem tive dor de cabeça, ai ai ai, que sofrimento! Pobre de mim!), resolvi vingar-me tirando folga na tarde da sexta, agora, para ir ao cinema.

Cinema sozinho. Mesmo para quem adora, é melancólico. Mesmo para um chato como eu, que não gosta que atrapalhem o filme, é estranho ir não ter com quem esperar a sessão, nem quem convidar para o café despojos e ir embora conversando sobre o que acharam.

Houve uma época em que freqüentei bastante. Ao menos dois filme por semana. Com o tempo, perdi essa diversão. Sinto muita falta.
Os cinemas da paulista são os meus preferidos. Não gosto de cinema de shopping. Não tem toda a qualidade que dizem nas reportagens, som e imagem são iguais as dos outros, tem pouca variedade de filmes, muitas salas com os mesmos filmes badalados, esses eu vejo depois na tV, o público é bagunceiro e os funcionários antes do filme acabar já acendem as luzes e começam a faxina, linha de produção. Poxa, quero ver os creditos, ouvir a música, assistir as piadinhas inseridas entre os créditos, sair com calma sem ter meu pé varrido.

Antes dava para sair do metro no final da avenida, lá era onde ficavam os principais, e ir procurando de um em um onde tinha um que me agradasse. Era como uma vitrine de filmes. Ali tinha tudo, passeio, café, lanche, parque. Hoje não da mais para fazer isso, os da paulista aderiram às cadeias e ficaram como os dos shoppings. Exceto dois. Mas esses a gente tem de consultar o horário antes de sair de casa porque se chegar com o filme pela metade, não há outro cinema onde procurar.

Consultei pela internet. Nesta época do ano não há muitos filmes que eu queira ver, tem um do woody allen. A única sessão com horário que me sirva é no shopping. Não vou dizer que fui a contragosto, eu ia mesmo para o shopping no fim do dia para fazer outras coisas, só não planejava que o cinema fosse lá. A sessão é cedo. Talvez esteja vazio e não tenha a bagunça e a linha de montagem.

Cheguei com o shopping vazio mesmo, sem fila. Mas fui nas terminais de auto atendimento pq não gosto de explicar para o caixa três ou quatro vezes que quero ver o woody ale né não o homem aranha. As vezes acho que eles fingem que não entendem, só de sacanagem, se divertindo com o tio sozinho que não gosta de filme da hora.

Os terminais estavam muito lentos, a culpa deve ser da rede de telefonia, testei ate o ultimo quando vi que os primeiros ja estavam dando sinal de vida. voltei para um desses que se mostrava vivo. selecionei o filme, a sessao, facil. ja tinha escohido pela internet. tem a promocao de meia entrada do banco. na hora de pagar, nao serve meu cartao, tem uma outra promocao , mais especifica para minha agencia. nao sei o que. cartao, senha, parece que agora funcionou, cade o ingresso? ué pq q esta me perguntando de novo qual cadeira eu quero? cartao, senha? de novo? espero que nao me cobrem em dobro. Bom, se o terminal conseguiu cobrar, não vai conseguir de novo, logo na seqüência, com o mesmo cartão. Paguei “de novo”. Desta vez o terminal imprimiu o tíquete e o ingresso. Dois ingressos. A cobrança estava correta, um só. E meia-entrada como é a promoção do banco. O outro ingresso estava sem preço, devia ser promocional também do banco. Conspiração. Eles também achavam que eu precisava de companhia. Achei muito curioso. Uma surpresa até simbólica. Pensei de novo na companhia que queria.

Tinha duas horas até a sessão, dava para almoçar e escrever no café da livraria enquanto esperava. O tema do texto nem podia ser outro. O ingresso misterioso. Tenho impressão de que o texto está ficando maior que isso, mas tudo bem, escrevo o que quero, não preciso me limitar ao tema que deu idéia.

O almoço, uma salada. A grande porque será só a salada. Ela tem fatias de salmão defumado. Isso deve ser bom. Uma salada de frutas também, tem vitaminas e dizem que temos que colorir a refeição. Bebida não porque não quero sair no meio do filme, atrás de banheiro.

A salada, depois percebi, dava para dois, como os ingressos. Coincidência ou conspiração? Levei uma hora e meia para terminá-la. É certo que escrevia este texto enquanto comia. E, sozinho na mesa, teclava alguma coisa com uma amiga no Skype.

Terminada a salada. Ah, não, ainda tem a salada de frutas. Tenho que comê-la com certa pressa. Falta só meia hora. O texto ainda longe de ficar pronto. Será que terei algo para postar ainda hoje.

A salada de frutas estava coberta de morangos, fresquinhos. Não gosto de morangos. Pobrezinhos! Não sei se lhes faz diferença que eu goste ou não. Precisava de alguém aqui também para comê-los.

Comi a salada de frutas correndo. Não queria pipoca no cinema, ia pegar um café no caminho. Capuccino, aqueles grandões. Comi também os morangos, sozinho, para não desfazer. Perecem não ter gosto. Eu não, mas alguém deveria gostar de comê-los.

No caminho pro café, duas lojas de lingerie. Sempre que passo por uma, paro e olho tudo imaginando uma história romântica, dessas que merecem ser contadas. Acho que é um presente muito legal pra quando se gosta de alguém. Não gosto de lingerie feita só para a hora de tirar. O romântico da história tem que começar antes disso. Gosto daquelas que são feitas pra usar de dia. Por baixo do vestido de festa, no jantar a dois, sentados na sala pra ver um filme, no café da manhã. Roupa que só serve para ser usada na hora de tirar não me excita. Roupa que quer tentar ser estrela no lugar da mulher. Gosto daquela que deixa bonita para mim, mesmo nos momentos inocentes, despretensiosos.

No café, faltam uns quinze ou vinte minutos para a sessão. Eu quero um cappuccino, enorme, eles usam uma palavra italiana pro tamanho do copo, com chocolate, extra extra quente, e, tenho ouro ingresso, minha companhia virtual gostaria de quê? Um … chocolate quente? Chocolate quente eu não gostei da outra vez que tentei, tem muito açúcar. Será que minha companhia virtual gostaria de outro cappuccino extra-quente com chocolate, igual ao meu? Se ela não beber, eu bebo. Vou tentar.

O atendimento no café foi rápido. O cinema não tinha fila. Entrei na sala, quase vazia. Coloquei um copo de cada lado da cadeira, naqueles encaixes que tem nos braços. Quem visse, pensaria que eu esperava alguém. Talvez esperasse mesmo. Cadeira de cinema de shopping é pequena. Isso é um problema quando se está sozinho. Se tem gente ao teu lado, do outro não tem a companhia pra gente se chega e encostar. Tem de ficar ali, batendo braço e cotovelo com o estranho. Se o cinema, como agora, está quase vazio assim, a impressão é de frio, ar-condicionado sem ninguém pra esquentar, e de vulnerabilidade, sozinho ali e todos te vendo por sobre as cadeiras baixas.

Pensei em trocar de lugar, ir pro fundo onde nao me vissem. Mas o fundo estava com cheiro de gordura fria, de fritura. Será que em algum canto, por ali, guardavam lixo ou da pipoqueira? No fundo, não dava para ficar. Voltei para a frente, sozinho, exposto. Havia só mais uma oito pessoas. Casais, idosos. Talvez eu não pertencesse àli.

Escrevi alguma coisa, uns dois parágrafos. O filme logo começou. Difícil resistir à tentação de escrever no cinema. Mas eu não faria isso. Apenas MSN, no telefone, sem brilho na tela. Para o texto mesmo, só anotações, também no telefone sem brilho.

Logo no começo do filme, tem cena de dança e, acho que foi ontem mesmo, eu escrevi sobre dançar. Coincidências, coincidências. A vida é cheia delas. Será que eu deveria me admirar de alguma?

O casal atrás de mim conversou um pouco, me incomodou. Com tanto lugar, se sentaram atrás de mim. Ranzinzice minha, devia estar com inveja, diriam se eu reclamasse. Não vou reclamar, invejo mesmo. E, na verdade, se eu não prestar atenção a eles, não incomodam. Olho para o filme, e, de tempos em tempo, para o celular que vibra.

Tomei meu cappuccino, aos pouquinhos, esse estava bem quente mesmo, enquanto assistia e teclava. Continuei teclando com minha amiga, frases espaçadas. Tentei deixá-la curiosa sobre o que eu escrevia. Ela não me deu esse gosto. Ela ficou, eu sei. E eu queria que ela confessasse, ela sabe. Rimos de como estamos nos conhecendo, achei bonito isso. Teclei uma coisinha que não devia.

O filme era bom. Quando o meu cappuccino acabou, roubei o de minha companhia. Acho que ela não gostou, nem o tinha tocado ainda. Estava inteiro. Na metade do filme, cappuccinos bebidos, me deu vontade de fazer xixi. Que burro que eu sou! Os dois copos juntos tinham mais de um litro de bebida. Leite com café e chocolate também dá vontade de fazer xixi. Segurei , nem precisei me esforçar, o filme era bom. Assisti, sem muita preocupação, até o final, teclando e anotando.

Logo que começaram os créditos, música muito legal, acenderam as luzes. Isso quebrou um pouco do clima.

Não sabia se, na saída, levava os copos vazios para o lixo. A dúvida se mostrou extremamente inocente. Em segundos, começo ainda dos créditos, um faxineiro brotou na minha frentes e os recolheu, pareceu não ter gostado de eu não sair correndo da sala quando a luz se acendeu. Fiquei um pouco, não vi os créditos todos.

Na saida do cinema, procurei o banheiro, achei só o feminino, o masculino devia estar em reforma. No andar de baixo eu sei que tem um. Logo embaixo do cinema, junto à escada rolante.

Dei a mão para o corrimão da escada e desci. Ao lado do banheiro, bem de frente para o final da escada, outra loja de lingerie.

4 comentários em “Cinema de Tarde

  1. Adorei o texto..! Um sabor de conhecer alguns personagens citados…rs…de ser cúmplice de algumas coisas.
    Será tudo uma coincidência? Será um olhar mais apurado para aquilo que passava desapercebido antes?

    Curtido por 1 pessoa

    1. tudo é um “será” até que se abra a caixa
      cumplicidade é crime
      prefiro parceria rs
      este mundo é feito de coincidências
      meu sorriso agora também, será uma?

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        1. sempre que falam em cúmplices, me lembro de filmes sobre crimes. parceiros me lembram duas pessoas fazendo juntos algo bom.
          acho que coincidência e sincronismo são contrários aqui. sincronismo me sugere algo deliberado.

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