Marshmallow

MarshmallowMarshmallow! rs
Teus lábios são macios como marshmallow. Mas são úmidos. Imagina dois marshmallows sem aquele melado do açúcar e úmidos assim, na medida certa.
É difícil descrever pra você imaginar.
Não ia ficar tão gostoso. Acho que faltaria algo. rs
Esquece. Não têm nada a ver. Que besteira que eu disse!

 

Seu Perfume

Eu acordei no meio da madrugada, senti um vento quase frio chicotear meu pescoço. Trazia teu perfume mais para perto de meu rosto. Foi o suficiente para me acordar, ansioso que estava de ficar com você, juntos, acordados, mais um pouco.

Não estava tão cansado, nem com tanto sono. Mesmo assim, meus olhos teimavam em não acordar. Cegos no escuro do quarto. Fechei-os. Tinham de se acostumar com o escuro, com o ar, com o que fosse.

Ajeitei um pouco mais a cabeça no travesseiro, um pouco mais para perto de você. Meu nariz tocou algo, acho que seu travesseiro, nele também senti teu perfume, de novo, ali um pouco mais forte, e também nosso suor, já gelado.

Cheguei mais a cabeça, não alcancei a sua. Mas teu perfume, ali, e a brisa que o fazia rodopiar a meu redor, me confortavam e acalmavam de forma que, se não fosse doido para lhe tocar, poderia dormir assim para sempre.

Você devia estar já perto da borda da cama. Cheguei as pernas para lhe alcançar, em conchinha e não alcancei. Abri os olhos, para te procura. Escuro, os olhos ainda embaçados, não enxerguei nada.

Espreguicei as pálpebras piscando três ou quatro vezes. Inspirei mais uma vez, fundo, teu perfume gostoso e estiquei a mão para acariciar-lhe as costas, que deviam ainda estar nuas, já sentindo pena, e muita vontade, de te acordar.

Eu vi quando minha mão não te encontrou.

Sobressaltado, pulei. Sentei-me na cama. Aquele vento gostoso bateu em minhas costas nuas, suadas e gelou-me todo. Seu lado da cama, seu travesseiro, estavam arrumados como se você nunca tivesse existido.

Sem entender, deitei-me nele te procurando. O que encontrei… só seu suor e seu perfume, no travesseiro, na cama, em meu rosto e em meu corpo. Apavorado, foi aí, assim, que acordei.

inominado

Essa noite eu tive um sonho de sonhador. Maluco que sou, eu sonhei com o dia em que a Terra parou.
— Raul Seixas, O Dia em Que a Terra Parou

A campainha tocou.
Fui à janela, olhar quem era, mas não havia janela.
Bateram então à porta.
Procurei a porta onde ela ficava e, depois, de onde veio o barulho.
Só achei parede.
Olhei em torno e o quarto, sem portas ou janelas, estava escuro.
Liguei o interruptor e a luz não acendeu.
No castiçal que enfeita a mesa, há uma vela.
Em meu bolso, fósforos.
Risco um, o escuro há de acabar.
Acaba, numa explosão, de uma vez, tudo acaba.

Aziago II: De volta ao café

De volta ao café, hoje dormi quase a tarde toda. Manhã de merda, péssimas notícias. À noite, foi feio fazer isso, eu sei, mas eu queria ficar sozinho. Fiquei. Sozinho entre estranhos, ali no terraço do café. Preciso escrever.

Por coincidência, não existem coincidências, sentei-me na mesma cadeira de ontem. Era a única disponível. Mesmo chá, mesmo charuto. Dois charutos no mesmo fim-de-semana. Não pode. Este fim-de-semana pode. Só este, eu juro. Juro pra ninguém, talvez pra mim. Levanto a cabeça, a mesma lua. Crescente, um pouco maior que ontem. Mais dois dias talvez para estar cheia. O céu limpo e escuro também é o mesmo. Eu, sentado aqui, acho que também sou.

Estou cansado. Além de tudo, cansado. Não só por tudo, por ter dormido à tarde também. Dormir cansa, dá sono. Dormir fora de hora acaba com a gente.

Nunca bebi tão rápido meu chá. O grupo de amigos na mesa do fundo, os casais namorando, nunca os invejei tanto. Inveja da despreocupação, da alegria, da noite de sábado que promete. Está frio, nem sinto. O dedo que acho que quebrei na academia lateja. Tiro as botinas para dar-lhe mais folga. Pés grandes, botinas grandes. Mesmo assim, por vezes acho que deviam sr maiores. O charuto está meio esquecido, o chá acabou. Os dois casais do canto à minha direita já acabaram também, mas recomeçaram. Já estou aqui há quase uma hora e eles ainda não trocaram duas frases. Tenho vergonha de tanta inveja. Não quero olhar-lhes, merecem um sábado só deles. Levanto os olhos pra lua de novo e uma lágrima ameaça escorrer. Pego o charuto finalmente e dou uma baforada de encher a boca toda. Cuidado para não aspirar. Me atrapalho e aspiro um pouco. Incomoda, tusso fraco, discreto pra não chamar a atenção. Isso me deixa tonto. Pra me recompor e me distrair, levanto de novo o rosto para a lua. Encosto a cabeça atrás, no vidro que serve de parapeito ao terraço. Fecho os olhos e fico olhando a lua. De olhos fechados, quieto, enfadado de pensar.

Quando abro os olhos de novo, os dois casais já estão nos finalmentes. Não me incomodam. Aprendi a não me incomodar com isso. Os amigos tem sono,me continuam conversando e brincando, em câmera lenta. Os casais, alias, também estão em câmera lenta. Os finalmentes em câmera lenta são os melhores. Vou deixá-los em paz.

Arrumo minhas coisas, terminar o post fica para depois. Muito chá, preciso ir ao banheiro antes de sair. No banheiro, ao lado da privada, havia um desenho na parede. Um gato tomando café e fumando, cercado de estrelas e tetos de edifícios. Gato é bicho vagabundo! Que mal gosto desenhar em parede de banheiro! Lavo as mãos, saio secando-as nas calças. Não gosto desses aparelhos modernos que secam as mãos com vento.

Na saída só banheiro, devo ter demorado. O café já está fechado. Escuro, vazio. Fico encabulado de pensar nas caras dos funcionários, do segurança, quando eu descer para sair. Desço. Não tenho que me envergonhar das caras deles. Não há ninguém. A porta está trancada. Fiquei preso.

Forço a porta, abre-se uma fresta. Talvez eu passe, emagreci. Parece que a porta não foi feita para ser fechada. Isso não da segurança. Aliás, achei que o café não fechasse no sábado a noite. Passo o pé, o braço. La fora está muito frio. Ninguém na rua. O corpo não passa. Nem volta. Agora, além de preso, estou entalado. Que aflição!

Lembro-me de histórias de tentativas de fuga da cadeia perto de casa, quando era criança. Sempre havia a história do preso que ficou entalado no túnel. Não consigo imaginar um jeito pior de se morrer. Fico impaciente, começo a me bater. Acho que a porta vai quebrar, mas ela não vai.

Páro para descansar os músculos e os nervos. Não consigo me ajeitar numa posição melhor. Suspiro fundo, só piora as coisas. A porta comprime meu diafragma e acho que vou sufocar. Não agüento o peso da cabeça. Me desespero. Na calçada, há algo caído. Um pano vermelho. Ainda consigo ver o que é. É um sutiã, de renda, cor-de-vinho, bordado em preto. Uma das garotas, daqueles casais do canto, usava um assim. Eu tinha visto antes de sair. Ela deve tê-lo jogado pelo beiral.

Ainda tento me debater, desesperado. A porta não abre, nem quebra. E eu não desentalo. Sou um animal. Um animal de burro. Agora um animal preso em esparrela. Só posso chorar, mas nem isso consigo, o diafragma comprimido pela porta. Não respiro. Vou desmaiar. Desmaiar aqui, sem respirar, significa que morrerei.

Com o braço que está pra fora, tento forçar a maçaneta. Nem consigo levantá-lo para a alcançar. Falta força. Sinto a pressão cair, sei o que vai acontecer. A nuca dói, por pouco tempo. Gosto de sangue vem à minha boca e seu cheiro ao nariz. Logo fico leve mas não agüento mais o peso de minha cabeça. Ela tomba e pende pra fora da porta.

Aziago

Parecia que a vida estava dando a guinada que ele tanto queria. Aos poucos. A última semana e, em particular, os últimos dois dias tinham ido muito bem. Tinha uma confiança nova, insensata mesmo. Dormir voltava a ter gosto. Sonhar também. E sonhava, muito.

Dia de acordar mais tarde para o trabalho, e sair mais cedo. Evento do departamento. Tomou banho com calma. Tão difícil poder tomar banho com calma pela manhã. Aparou a barba. Lembrou-se dos comentários do colega sobe seu excesso de perfume. Exagerou mesmo assim. Tomou café na padaria. Sente-se como rei quando toma café na padaria.

A agenda do dia tem pouca coisa, mas o suficiente para lotar o expediente mais curto. Resolve os dois problemas que reservou, conhece gente nova. Adianta uns documentos para a próxima semana. Estranha a colega que ele não encoste quando precisa digitar algo em seu teclado. Estranha, mas não pensa muito nisso. Lembra-se que não a cumprimentou hoje com o seu tradicional beijo na testa. Os colegas tradicionais ele costuma apertar a mão, beijar o rosto das meninas, sem encostar o rosto nem o lábio na bochecha, como elas fazem. Mas os colegas estimados, os amigos ou quase, ele faz questão de abraçar e sorrir,mas garotas, beija a testa. É o mais velho da equipe, bem mais velho, permite-se tratá-los assim. Não se lembra porque pulou o beijo dela, mas já passou. Agora não seria mais um beijo de bom dia. Não almoçaram juntos.

No almoço, outro colega comentou que o namorado dela anda pegando no pé, ciumento. Por isso ela não vai ao evento. Pensou num filho da mãe que, ontem, olhou para os dois e deu risada sem motivo. Odeia fofoca, mais do que odeia esse filho da mãe. Sexta-feira é dia de peixe, a melhor comida que existe. Pediu muito mais do que consegue comer e desperdiçou a salada toda. Fingiu que foi porque o peixe quente a estragou.

Ficou feliz dos amigos colegas quererem parar para um café na volta. Sabia que alguns deles queriam fumar. Ele não, só fuma um charuto, de vez em quando, dois ou três por ano, em ocasiões especiais. Disse-lhes que fossem para as mesas de fora fumar, lhes levaria o café. Cumprimentou a menina bonita e quietinha que fica no caixa à tarde. Perguntou pela amiga morena, que sempre lhes faz o café. “Tua amiga não veio?” “Ela saiu ontem. Discutiu com o gerente… Eu faço o café, mas não da pra te dar atenção que estou trabalhando sozinha até contratarem mais alguém.”

Ele ficou triste, levou os cafés, que tomou com os amigos. Desta vez não participou da conversa, pensativo. Gostam desse horário do café para alinhar as atividades e trocarem informação sobre as especialidades de cada um.

Depois do café, foi ao banheiro. Não era sua vez de pagar. Na saída, deixou dois cartões de visitas com a menina do caixa. “Quando ela aparecer, diz pra falar comigo. Você também, quando puder.”

A tarde não foi mais a mesma, nem o caminho de volta. Pensou na terapia, que não teve essa semana, e na academia, que faltou na quarta-feira. Queria faltar hoje também. Pensou em como estava avoado e não prestaria atenção, atrapalharia os outros. Não, não atrapalharia, queria uma desculpa para não ir.

Chegando em casa, deitou-se na cama, abraçado ao travesseiro. Sempre abraça o travesseiro. Desta vez não quis ligar a música, nem sonhar. Não conseguia saber o que queria ouvir. Eram sete e meia ainda. Só tinha vontade de dormir e nem sabia se queria se levantar amanhã.

Lembrou-se de um amigo antigo que, nessas horas, o chamava para dividirem uma bebida e um charuto. Não podia beber pois estava dirigindo. Saiu, comprou um vinho, para depois, à noite, sozinho em casa, e um charuto. Passou em frente à vitrine de lingerie. Um modelo chamou-lhe a atenção por ser muito simples e, por isso mesmo, muito bonito. Outro, por ser extravagante demais, chegou a achá-lo ridículo mesmo. Lingerie lhe lembrou café da manhã, e ele se lembrou de ir.

Procurou uma cadeira ao ar livre no café, pediu seu chá. Sentou-se, acendeu o charuto! com dificuldade por causa do vento, mais gelado que seu chá. Dessa vez, o frio não o deixou mais triste. Levantou o rosto para a primeira baforada e, nisso, deu de cara com a lua, crescente, já mais da metade cheia, bem em cima de si. O céu completamente limpo. A bosta do charuto nunca lhe soube tão bem.

Percebeu que o melhor que fazia era ficar ali, quieto, sozinho com sua lua, parado. Abriu o caderno, pegou o lápis e ficou… pensando… e pensando em como contar como se sentia.

Afoguei-me

Afoguei-me,
completa e inevitávelmente,
no castanho de teus olhos.
Eles não têm outra culpa
que estarem no rosto onde estão,
iluminarem teu sorriso,
que de tudo é a luz.
Porteiros que são de tua alma,
deixam-me vê-la de longe.
Ao aproximar-me,
envolvem-me como uma onda alta,
fluida, morna, aconchegante,
do oceano castanho que me encanta.
Desmaiando de conforto,
pareço perder a consciência
que não tenho.
Imagino o azul,
do céu lá fora,
a luz e o calor do sol
que ilumina o dia.
O resto do mundo nesse azul triste.
Eu aqui, feliz, envolto e embalado,
pelo oceano mais lindo que pode existir.
Quando meus olhos se fecham,
é porque, ofuscados,
não sei mais se este calor
que sinto na pele,
é meu ou teu.
Tenho medo de abri-los
e descobrir que não somos um só.
De olhar para o lado errado,
ver algo mais,
talvez o azul do céu,
e esquecer,
por um instante que fosse,
o lindo castanho
onde amei me afogar.

 

Desencontro

Pareciam feitos um para o outro. E é o que diria quem os visse ali, jantando, discutindo o filme que veriam juntos daí a pouco. Pratos já vazios, mãos pousadas sobre a mesa, brincando com os pés dos copos do vinho que bebiam. Os copos um ao lado do outro, as mãos quase se tocavam.

Era aquele momento, vocês sabem, aquele capítulo da novela, quando o casal ainda não sabe se os dois estão pensando a mesma coisa. Se o outro quer o mesmo. E perdem tempo rodeando. Estão os dois agora fantasiando juntos as mesmas coisas, com medo de tentar o próximo passo, o óbvio, que ainda não estão na sala do cinema. Lá na sala o passo óbvio será ainda outro, o abraço de sofá, o beijo. Aqui é apenas as mãos se tocarem e um deles dizer um “Te gosto muito”, ou mesmo um mais discreto e enigmático “Que bom você estar aqui comigo”.

O protocolo não estabelece formalmente de quem deve ser a iniciativa, mas ele se sente, orgulho besta de homem, em obrigação. Tímido, e muito tímido mesmo, pensa rápido em o que pode dizer sem se expor muito. Besteira temer se expor. Quem o olha de fora sabe o quanto já está exposto. E, se ela não merecesse essa exposição, melhor não estarem ali.

Ele não consegue pensar na frase. Chega o silêncio, de alguns segundos, parece muito. Encabulado, ele olha para a toalha. No íntimo, está apavorado, fugiria. Fugiria mesmo sabendo que se odiaria para sempre. Olha a mão dela e pensa em como poderia pegar-lhe os dedos, um carinho discreto.

Um barulho do lado de fora lhe chama a atenção. É uma chuva forte, de verão, mas com frio e ventania. Admira-se. Um homem, de charuto aceso na mão, está encostado ao vidro que dá pra mesa deles, tentando se proteger da chuva. Ele se lembra de que tem de falar algo. O silêncio é mais apavorante que o medo da rejeição. Não, de jeito nenhum, não vai falar do tempo de jeito nenhum.

Ele achou então que já havia deixado passar o bonde, o momento. O longo silêncio fez parecer ridícula qualquer coisa que ele dissesse. Fingiu um súbito interesse e perguntei-lhe algo sobre os problemas com o ex. Ela respondeu, decepcionada pelo assunto não ser o que queria. Percebia-se que não se interessava pela conversa. Ele insistiu. Aos poucos a conversa engrenou-se, infelizmente, por esse caminho. Distraíram-se.

Na poltrona do cinema, depois, no escuro, faltou o óbvio. Porque já não era mais óbvio. Ela também, decepcionada, mas tão culpada quanto, já não queria mais. Não queria alguém assim. A princípio, apenas por decepção, porque preferisse alguém diferente. Depois, a decepção virou raiva, indignação por sentir-se desfeita. Contrariada, a raiva soube-lhe suficientemente bem.

Ele demorou mais a entender o que aconteceu. Quando se tocou, percebeu que ela também não era como ele queria. Lamentou não ter rolado mais nada naquela noite. Afinal, tanta coisa rola com tanta gente, tantas noites, e é bom, mesmo que não dê certo no final. Mas achou melhor não terem continuado. Vai saber em quê daria esse relacionamento que, de forma alguma, daria certo…

Sem nem combinarem, por coincidência, nunca mais tentaram se encontrar.

Outro Diálogo Impromptu

“Senta aqui do me lado.”

“No chão?”

“No chão.”

Ela se sentou, não se importava em sentar no chão. Perguntou por perguntar. Ele gosta disso.

“Pega.” Ofereceu-lhe uma fruta e um copo de suco.

Ela pousou o copo no chão, a seu lado, e segurou a fruta para comer.

“Não come ainda. Atrapalha beijar.”

“Beijar?” Ela riu da cara de pau dele.

Ele pôs-lhe no rosto, do lado oposto, a mão, cobrindo a bochecha e a orelha. Aproximou-lhe o rosto do seu com carinho e beijou-lhe a bochecha do outro lado, o que estava mais perto de si. Teve de se torcer um pouco para isso, o beijo saiu meio torto. Sem querer, muito perto da orelha. O nariz tocou-lhe os cabelos no começo do pescoço e ele sentiu o cheiro gostoso de seu perfume. Esse perfume lhe fez pensar. Ele demorou um pouco nessa posição, mas só pensava. Achou então que havia passado do limite, e a soltou.

Ela quis fazer-lhe graça, ou provocar, ele não tinha certeza: “Achei que era outro tipo de beijo.” Sorriu sapeca.

Ele então se inclinou em sua direção, abraçou-lhe a cabeça com as duas mãos. Trouxe-lhe o rosto junto ao peito e ao pescoço. Deitou sua cabeça sobre a dela. Muito rápido, afrouxou o abraço. Antes de soltá-la, ainda abaixou um pouco sua cabeça e beijou-lhe a testa, queria falar algo e não sabia o que.

Quando a soltou e se sentaram novamente como antes, olhando o jardim, ele ainda achou que tinha que completar: “Eu também achei.”

O que poderia ser uma entrada de diário se eu tivesse um diário.

Sentenced to drift far away now,
Nothing is quite what it seems,
Sometimes entangled in your own dreams.
Genesis, Entangled, 1976

Na saída da academia, eu não queria voltar direto pra casa. Queria ver gente, algo bonito que me encantasse.

Essa pra mim normalmente é a deixa para tomar um café. Mas minha vila é muito residencial e a vizinha, onde fica a academia, tem bares, não café. Não quero beber. Até tem onde tomar café. Mas o que quero é gente, coisas acontecendo.

A Paulista é perto. Hoje vim de carro. Rapidinho chego no meu café preferido. Acho que é o preferido. É gostoso lá.

Iced TeaO caminho foi super-tranquilo, pelo Pacaembu, ainda bem que é segunda-feira, não tem futebol. Consegui fácil um lugar pra estacionar, quase em frente ao café. Será que já vai fechar? É segunda-feira. Será que fecha às dez? Queria escrever algo, ter tempo de escrever algo mesmo que fosse no celular.

O adesivo na porta, com os horários, diz que fecha as onze. São nove e meia. Talvez dê para comprar lápis e um caderno na papelaria para escrever algo a mão. Faz tempo que não escrevo algo a mão. Quero aprontar uma arte. Tive uma idéia.

Tudo muito perfeito. Livraria aberta, comprei um lápis, dois, para se quebrasse a ponta, com borracha embutida, uma caderneta igual à que carrego na bolsa, na bolsa que não está comigo hoje, trouxe só a mochila fedida do quimono.

Voltei pro café e nem tinha fila. Peguei um suco de laranja pra matar a sede de carboidratos. Glicemia caiu na academia, cai sempre, como pouco açúcar. Pedi também pra me fazer um chá verde. Chá verde tira a fome. A moça do caixa me reconheceu e brincou: “Que triste tomar café a sozinho!” Sorri. “Vim pela companhia de vocês.” Ela não devia ter brincado, mas não fez por mal, realmente ali eu destoo. Quase só há casais.

A menina que fez meu chá também me reconheceu: “Se quiser mais gelo, bebe um pouco e volta aqui.” Agradeci. Acho que estou tomando muito chá aqui.

imagesGosto de sentar com meu copo na varanda, ao ar livre. Mesmo com os fumantes por perto. Já não me incomodam mais. Aprendi a evitar o vento que traz a fumaça deles.

A varanda foi feita para eles, para os casais deles. O intruso sou eu.

Varanda quase vazia. Só os sofás, cobertos por guarda-sóis, ocupados, por casais. Deixá-los, merecem. Fico com uma cadeira, no canto, bem no canto, discreto. Lá posso ver tudo.

A minha é uma das únicas mesas ocupadas. A outra é praticamente ao lado. Três mulheres conversam. Duas garotas novinhas e uma senhora. Não parecem ser família.
Abro a caderneta, olho pra cima. Uma estrela apagada no céu de São Paulo, entre os prédios. Presto atenção até achar outra. Achar não, ela é quem me acha, aparece sozinha. Encontro outra e outra e outra e mais duas brilhantes. Conto até mais de dez. Não quero mais escrever a mão. O que vou aprontar naquela caderneta, apronto depois.

Pego o telefone pra publicar algo e pulo para a cadeira do lado, fora da luz, pra ver melhor as estrelas.

Abro o editor e começo a escrever. Percebo que, mudando de cadeira, fiquei bem de frente para uma das garotas da mesa do lado, é bonita. E me olha. Não planejava isso.

Entangled, by Kim PoorReveso entre olhar o céu e escrever. A garota conversa com as amigas e me olha, mexe nos cabelos, a palma da mão virada para mim. Parece aqueles sinais que ensinam em treinamento sobre linguagem corporal. Acho legal, mas as estrelas, no céu feio de São Paulo exigem atenção para serem vistas, e são tão bonitas!

Preciso dar-lhes essa atenção, me encantam. Como me encanta escrever sobre elas. A garota, sei que me arrependerei de não lhe dar atenção igual. Mas também sei que não é ela o que eu quero, muito menos o eu vim procurar e achei, quase sem querer, olhando para cima.

Queria estar no alto do maior dos prédios e sentir bater em mim o mesmo vento que bate naquelas estrelas. Sentir-me içado a elas como pipa, imaginando quem, eu mesmo?, seguraria a linha lá embaixo.

Noite de Domingo

Eu me sentei no sofá com o notebook no colo. Demorou para funcionar a wifi, fiz uma gambiarra besta pra funcionar, nem parece que trabalho na área. Abri logo na lista dos meus rascunhos, queria terminar o que eu trabalhei à tarde, no teatro e no café.

O rascunho estava longo já, e nem tinha todas as idéias. Levou umas três horas pra ficar assim. Ia precisar de, ao menos, mais umas quatro ou cinco pra terminar. Não ia conseguir terminar hoje. Preciso dormir.

Olhei as últimas publicações. Não publiquei nada esta semana, só umas notas, sobre dois discos. O último texto mesmo já tem uma semana e foi algo que eu escrevi no cafe, de improviso, também porque estava chateado de não ter o que publicar.

Os últimos dias estão já naturalmente corridos e eu ainda resolvo desenterrar minha lista de coisas por fazer e esgotar de vez minha agenda terminando-as.

De volta aos rascunhos. Eu precisava terminar algo. Tenho uns cento e cinqüenta rascunhos. Coisas que quero elaborar. Olhei os últimos, nada que pudesse ser trabalhado com pressa. O da tarde estava bom, os outros iam no mesmo raciocínio. Não queria fazer corrido, mal-feito, mas não tinha tempo para fazer como gosto.

Fiquei chateado. Cercado por uma coleção de rascunhos inacabados. Mais de cem rascunhos, mais de cem assuntos, inacabados. Não sei por quê, mas este blog não pode ser outro assunto inacabado. Ainda não sei.

Os outros rascunhos, alguns não sei terminar, outros me deixaram triste. Os mais antigos, sei que nem adianta olhar.

Lembro que lotei minha agenda para a semana. Não vou ter tempo pra nada, ao menos até quinta-feira. Quiçá nem na quinta-feira mesmo. Fico num desespero infantil. Quero algo pronto agora! Não terei.

Enquanto espero a máquina de lavar acabar com a minha roupa de amanhã, tenho tempo só de escrever o que acho que aconteceu. O porquê de eu postar só esta nota, sem história, sem moral, sem graça.