Post Longo

«Já têm uns 20 anos que eu não venho aqui. Passei na porta algumas vezes, mas não entrei.»

O lugar não tem muro. É cercado por grades. Um portão feio, de grade de metal também está aberto. Só a metade da direita. Atrás da da esquerda, tem um latão grande, alto, de lixo. O lugar parece bem feio, grama mal cuidada. Mato mesmo. Os pedaços de cimento, descascados. Do portão começa uma escada larga, de paralelepípedos, que sobe para o resto do terreno, que é bem mais alto.

Ele subiu a escada e ela foi atrás. Teve medo de algum bicho no mato ou no lixo. As beiradas da escada eram caiadas, os pilares das grades também. Tudo ali é caiado. Caiação velha, mal cuidada, vários pedaços gastos, sujos, lascas de cimento caídas mostrando os blocos e os tijolos.

No meio da escada, um degrau maior, ele parou para ver a quadra de bocha que ficava à esquerda em um pedaço de terreno naquele nível. Ela não sabe de que ele tenha jogado bocha alguma vez. E ele se debruçou na mureta da quadra, de alvenaria caiada também. Mas, por dentro, revestida de madeira velha sem verniz e estragada em vários pedaços, e com piso de terra batida, vários desníveis. Ficou olhando longa e alternadamente pras pontas da quadra, de onde os jogadores lançam as bolas. Não longamente o suficiente para que se achasse que acompanhava uma partida imaginária. Estava avoado.

Ela chegou perto, para ver se ele se tocava de ela não ver sentido naquilo, mas não encostou nele. Nem se encostou na mureta. Tinha medo de se sujar com cal ou poeira.

Depois da quadra de bocha, havia o muro muito alto que dava para a casa ao lado. Entre os dois, mato mal cuidado crescia mais do que o devido. Ele pegou sua mão e voltou para a escada, ela atrás. Não subiram, cruzaram-na. Saindo dessa escada por onde vieram, a partir do degrau maior, mas para a direita, subia outra escada, menor, meia dúzia de degraus, para um prédio térreo.

Subiu essa. No final, uma torneira, ele olhou e pousou a mão na manopla. Depois segurou-a. Foi até a porta do prédio. Olhou os avisos afixados à parede. Olhou para dentro da sala. Ninguém veio lhe incomodar ou perguntar o que queria.

Ladeou o prédio, ladearam, pelo caminho entre ele e a escada maior. Passaram por dois banheiros, ou vestiários, que ele fez menção de olhar mas desistiu, afastado pelo mal-cheiro.

Menos de dez passos mais, e o caminho encontrou o fim da escada maior. Era uma quadra pequena, coberta, mas fechada dos lados apenas por grades. Não tinha entrada direta. Subiram dois degraus que davam para a ponta de uma arquibancada de quatro ou cinco lances, separada da quadra também por grade. No meio dela, junto a um pequeno portão da grade, que dava direto para a quadra, ele se sentou. Pela mão dela, que ele segurava, pediu-lhe que se sentasse a seu lado. Ela hesitou: “Está sujo!”, “Não faz mal!”. Ela se sentou, sem saber porque, e ele ficou feliz com isso. Chegou-se-lhe bem e a abraçou como adolescente.

Do outro lado da quadra, não havia arquibancada. As laterais, da quadra e do prédio baixo, davam para a de um campo de futebol. Depois dele, parecia haver uma escola. Atrás do gol da esquerda, um muro muito alto, caiado, que passava atrás também de um dos gols da quadra.

«Eu acho engraçado quando vejo em filmes americanos os adolescentes falarem em serem populares, e hoje em dia as crianças falando nisso também. Me parece uma preocupação extremamente inútil. No meu tempo de escola, eu era muito popular no sentido de que todos me conheciam, sabiam quem eu era, e falavam de mim. Mas raramente isso era algo de bom. Eu era conhecido porque era o estranho da escola. Não sabia jogar futebol, bolinha de gude, bafo, andar de bicicleta. Mal sabia correr. Não me interessava por aqueles assuntos normais dos moleques: carro, exército, maconha, festa, roupa. Acabava sendo excluído da maioria das brincadeiras e das conversas. E de outras, eu mesmo acabava me excluindo. Tinha poucos amigos. E mesmo quando falavam de mim por causa das minhas notas, que eram muito boas, não era por admirarem isso. Era por que isso me fazia ainda mais aberração comparado aos outros alunos.

Por mais que eu me achasse superior a todos, e eu me achava, – os professores mesmo me diziam que eu era ” o melhor aluno da história desta escola” e eu sei que devia ser verdade – a gente se ilude de que isso basta, mas tem um tipo de reconhecimento, não sei se é uma espécie de respeito ou de aceitação,  que faz falta. Um dia você vai precisar de alguém, principalmente quando não se sente cercado de outros como você. É um desespero, de se sentir sozinho, estranho, isolado, que não dá pra explicar. As pessoas te excluírem, zombarem e mesmo os que falam que te admiram não se interessarem por mais de duas ou três frases numa conversa com você, você acaba se acostumando a isso. Cria hábitos para fazer as coisas sozinho e, eventualmente, conhece gente que gosta de fazer algumas coisas em comum com você, embora não cheguem perto noutras ocasiões.

Mas tudo o que é normal também acaba tendo sua esquisitice. A da minha escola era o handebol. Era uma esquisitice da cidade toda. O time da cidade era muito bom e, em particular, o da minha escola também. E quando chegávamos à idade de poder começar a aprender a jogar, estávamos todos mais ou menos no mesmo patamar. Uns com mais aptidão física que os outros, mas todos igualmente ignorantes. Eu vi nisso uma oportunidade e a abracei, abracei de todo coração. Era magricelo, fraco, baixinho, descoordenado, atrapalhado. Mas me empenhei em estudar aquilo, observar e treinar. Eu corri muito para aprender a correr e saltar. Passava horas mexendo com a mão numa bola pra melhorar a pegada. Fuçava jornais, vivia atrás de onde assistir jogos para aprender.

Quando cheguei na idade e vieram os primeiros testes na escola, eu já tinha uma ideia de como as coisas funcionavam. O professor me separou para o grupo que ele ia testar e treinar mais sério. Eu fiquei feliz, era um grupo grande, ainda iria afunilar mais, mas eu não tinha sido excluído logo de cara. Fiquei feliz, mesmo com a maioria dos outros alunos rindo de mim, desconfiados do moleque que nunca conseguia nada que não fosse nota de prova em sala de aula.

Umas semanas depois, o professor veio até mim num treino e me separou de todos. Me pôs para fazer uns exercícios diferentes de coordenação no canto atrás de um dos gols. Eu estranhei, não gostei de ser separado. No fim da aula, ele montou dois times e me pôs nos dois para jogar um contra o outro. Me disse pra jogar sempre no time que estivesse atacando, que fizesse assim e assim, por que eu era diferente, era o único que ia conseguir jogar de pivô.

Demorou pro resto da molecada entender o que eu estava fazendo. Me ignoraram boa parte do jogo. O professor teve de lhes chamar a atenção, eu tive de ajudar a explicar até eles entenderem. Eu acabei aparecendo porque era o único que jogava diferente.

O professor era também técnico do time da cidade, e chamou a mim e mais outros alunos da escola para treinar com ele na escolinha do time. Eu treinava na minha escola duas vezes por semana e aqui, nesta quadra, mais três vezes. Da escolinha, nós evoluímos até o time de cima.

Foi a melhor época da minha vida. Eu era bom em algo que eu e os outros valorizávamos. Matei aula pra jogar, pra treinar… Uma vez, machuquei o joelho. Nos primeiros dias, quase não conseguia andar. Passei duas semanas treinando mancando, de medo de alguém ficar melhor que eu e tomar meu lugar. Não tomaram, mesmo quando chegaram mais pivôs pra treinar comigo. Fazendo aquilo, eu era o melhor. Dava conselhos, ajudava a ensinar. Os moleques três, quatro anos mais novos que eu me davam parabéns e cumprimentavam na escola e na rua no meu bairro. Tinha meninas que matavam aula pra me ver jogar. Os meus colegas me respeitavam e os outros, por mais que estranhassem meu jeito, meu modo de andar, de falar, de vestir e tudo mais, me respeitavam.

Não foi um mar de rosas. Eu fiz amizade com garotas de quem eu gostava e as ajudei a ficar com colegas meus de quem elas gostavam. Apanhei de gente de outros times sem nem saber por quê… continuei excluído de muitas coisas e ouvindo ainda muita besteira e encheção de saco em várias situações. Mas aqui eu era feliz. Por que eu nunca quis ser conhecido ou admirado, eu sempre só quis que quem me conhecia me respeitasse.

Eu participei de competições, ganhei torneios pela escola e pelo clube. O time era muito bom. Uma vez, quando eu já tinha parado de jogar, fui assistir um torneio e, no intervalo, dois árbitros conversavam com um mesário sobre o time que viram lá na minha cidade, do pivô narigudo e o técnico de bigode: “Aquele time ensinava a jogar. Nunca vimos nada daquele jeito.” Éramos nós. Era outro tempo. Esse esporte se desenvolveu muito por aqui, nestes últimos vinte anos. O pessoal de hoje é muito melhor. As meninas que ganharam o mundial no ano passado… Na minha época, isso era impensável. Nunca imaginamos que seria possível. A coisa era muito mais rudimentar. Mas, para a época, nosso time impressionava.

Naquele tempo, isso era esporte totalmente amador, sem patrocínio nem fonte de recurso nenhum. Quem mantinha o time, taxas, técnico, despesas básicas, era a prefeitura. O pessoal tinha de conciliar com escola, trabalho. Com o tempo, eu cresci, mudei de escola, depois fui pra faculdade. A gente começou a trabalhar. A prefeitura mudou de partido. Foi ficando difícil conciliar os horários de todo mundo pra treinarmos. O pessoal acabou saindo aos poucos. Não era fácil jogar noutro clube se você não fosse sócio, se não tivesse já alguma ligação. Ainda assim, se conseguisse, era complicado, se precisasse trabalhar, ou se estudasse à noite.

Eu fui um dos últimos a sair. Teve uma época em que eu já fazia faculdade e terminava o colegial ao mesmo tempo. Até nos fins-de-semana, eu tinha aula, curso e ainda trabalhava em casa de freelancer. Segurei o máximo que podia. Nos últimos meses, já tinha sobrado pouca gente do time original. Os novos estavam desanimados. Os mais novos eram promovidos logo para os times de cima para conseguir montar o quadro inteiro pra jogar. Eu percebi que, quando comecei, tinha sido assim que nós subimos, porque já então era assim que funcionava. O jogador tinha prazo de validade, vencia ao ficar adulto.

Quando eu resolvi que não valia a pena mais e que ia parar para poder me dedicar direito à faculdade e ao trabalho, foi no final do ano, antes das férias. Vim pro treino chateado. Encontrei um colega ali na bocha, a gente costumava ver os tiozinhos jogando. Quando o técnico chegou, encontrou só os dois. Subimos aqui, chegou mais um. A gente conversou sobre parar, que não adiantava mais.

De repente, antes da hora marcada, e isso foi muito estranho é curioso, começou a chegar o pessoal todo, os caras que já tinham parado, os da antiga, todo mundo. O pessoal saiu do trabalho no meio do expediente, faltou na aula, pegou condução de longe e veio aqui jogar aquele dia, todo mundo junto. Um ou outro tinha comentado entre si que estava com vontade de aparecer, mas, no geral, todos vieram sem combinar nada. Pura coincidência! Nós montamos os mesmos times da época em que começamos. Eu joguei com o pessoal que tinha sido mirim comigo.

Jogamos tanto, nos divertimos tanto, que não parávamos. Ninguém queria sentar pra descansar. Eu costumava perder dois quilos a cada treino. Naquela vez, joguei tanto, que passei o dia seguinte todo com enxaqueca, desidratado. O caseiro não fechou o portão às dez como costumava, fomos embora de madrugada. Pegamos os últimos ônibus.

O pessoal que tinha começado comigo na minha escola voltou, a maioria comigo, no mesmo ônibus de sempre. Nos despedimos só o habitual, sem mais palavras de adeus ou coisa do tipo. Desci do ônibus em frente à catedral, como sempre fiz. Já era de madrugada, escuro, a rua estava vazia, ventando e ameaçando chover. Dava pra sentir aquele cheiro de água no vento que levantava a poeira do chão. As únicas luzes que me lembro acesas eram as dos postes, a da cruz da catedral e a vermelha da santinha que uma senhora tinha na frente de casa. Sabe esses nichos que o pessoal faz na entrada de casa, ao lado da porta, com uma santinha e uma lâmpada vermelha de abajur… A rua vazia, a escola fechada, apagada, o ônibus já tinha ido embora.

Foi quando eu me senti sozinho e, pra não chorar, desci a rua, até a esquina de casa, andando devagar, com os olhos úmidos. Parece bobeira, era um esporte só. Depois eu joguei noutros times, mas não fiquei muito tempo em nenhum. Eles não eram iguais. Eu não era igual mais. Até hoje, quando encontro alguém do time, a gente acaba se cumprimentado igual, sem combinar. O tapa com as costas da mão e um “Igual àquele, nunca mais.”

Na minha escola, quando vou votar, – eu ainda voto lá por causa disso – eu me sento no muro e fico olhando a quadra onde eu comecei. O segurança estudou conosco, me conhece e não fala nada. Aquela quadra mudou bastante, diminuiu, tiraram a marcação de handebol. Acho que não devem mais ligar para isso. Mas, pela janelinha do guichê da secretaria, ainda dá pra ver os troféus que nós ganhamos. A foto do professor, ele foi diretor até algum tempo atrás.

Tinha dois ginásios onde jogávamos. Um pra trás da favela que havia depois da minha escola, perto de onde é hoje a Federal. Está igual, passo sempre na frente, quando vou visitar meus pais. O pessoal só usa para os campeonatos locais de futebol de salão. O outro, o principal, na cidade, junto da rodovia, mudaram, estragaram tudo. Reformaram pro time de vôlei que o banco trouxe pra cá. Ficou bonito! Expandiram as arquibancadas pra dentro da quadra, mas ela diminuiu. Ficou pequena demais! Só dá pra jogar vôlei, agora.

Aqui, eu passei umas duas ou três vezes em frente. Não é meu caminho, fica fora de mão. Estacionei na rua e fiquei olhando. Uma vez, dei a volta a pé, olhei por aquela grade de trás do campo de futebol. Não entrei.

Eu tinha guardado uma camisa de quando jogava. Vermelha e branca, listrada na horizontal. Número onze em verde, no peito e nas costas. Eu gostava de usar a onze. Mas quando me mudei, não consegui encontrá-la. A mãe tinha mania de doar minhas coisas na igreja sem perguntar.»

Monumento

Sábado acordei tarde. Ia trabalhar à noite. Então aproveitei a noite da sexta pra me divertir, passear, jantar fora e ir ao cinema. Acabei dormindo muito pouco.

No sábado, tomei café já quase na hora do almoço. E quando quis almoçar, meu restaurante de sempre estava fechado. Lembrei de uma lanchonete no interior, uma onde eu já há algum tempo queria ir, com uns salgados diferentes.

Peguei o carro, odeio dirigir, mas a revolta de trabalhar à noite da sanha de fazer algo diferente durante o dia. Entrei na maldita estrada, uma hora até a entrada da cidade. Pouca coisa para fazer pelo caminho, e eu doido pra uma desculpa pra parar e tomar um café ou coisa do tipo.

Ouvi todo o disco do Lobão, uma vez e meia. Ansioso por chegar, errei a saída da rodovia, peguei uma antes, na mesma cidade, mas outro bairro. Um trevo, uma rotatória que eu nunca tinha visto.

No meio da rotatória, uma estátua, monumento, algo assim. Uma carroça grande, desses catadores de entulho, com um homem é um cachorro dormindo embaixo. Nesta região, tem um artista que faz monumentos de entulho, ferro-velho, para as prefeituras. Todas as cidades têm ao menos um. Este eu ainda não tinha visto. É o mais bonito de todos.

A luz fraca da tarde nublada, o deixa pardo, mas parece ser todo feito de madeira ou metal marrom. Os outros desses costumam ser grosseiros, mal encaixados, de metal cinza, prata, provavelmente de alumínio. Alguns com marcas vermelhas de zarcão.

Parado no semáforo antes da rotatório, olho bem. Se tivesse levado a câmera, daria um jeito de descer e tirar algumas fotos. É bonito mesmo! O únicos desses de que gostei. Mas por que um catador de ferro-velho? Alguma coisa em particular desta cidade com eles?

A resposta não demorou mais que o semáforo. Logo o cachorro deu um pulo rápido, se levantou cutucando com o focinho o homem, que balançou a cabeça e esfregou o nariz com o braço.

Eu não ri, nem me espantei. Pensei em meus olhos e na luz fraca do sol mal-atravessando as nuvens, deixando a cena parda e sem vida. Pensei no homem que dormia na rotatória no meio do nada. E de novo em meus olhos que não entenderam isso antes.

E fui embora procurar meu lanche.

Welcome

Welcome back my friends to the show that never ends.
We’re so glad you could attend! Come inside! Come inside!
— Emerson, Lake & Palmer, Karn Evil 9

Grato por aparecerem, muito grato. Vamos entrando, por favor. Por favor, fiquem à vontade. A exposição começa lá embaixo no fundo, mas não precisam se preocupar com a ordem. Podem entrar. Grato pela presença.

Há um livro de visitas espalhado por aí, quem quiser deixar seu nome, um comentário, será muito apreciado e respondido com prazer.

Não há uma ordem lógica para nada. Aqui certamente não é o lugar para isso. Podem passar o olho por cima e andar por onde lhes interessar. Não se preocupem com o caminho, tampouco deixem de reparar na bagunça, isso é o que não falta. Assim como café. Há café por todo lado, de todos os tipos e variedades, passado agora e na garrafa térmica também. Mas, nos últimos tempos, o que tem saído mais é o chá, gelado principalmente, preto ou verde. Peguem copos, canecas, sirvam-se. Não façam cerimônia.

Para quem estiver interessado, logo aqui à frente, há um devaneio fresquinho. Cuidado, está bem molhado! Tomem cuidado com a luz azul no caminho. Não sei o que ela faz, mas é melhor não descuidar.

Vocês vão reparar também que há muitas montanhas, árvores e bichos em exposição. Cuidado para não se perderem nem tropeçar. Não queremos ninguém rolando morro abaixo aqui. Muito menos perdido onde não conhecem. Cuidado também para não machucar as borboletas.

Ops, os mais pudicos, por favor, evitem e não reparem, afinal vamos pedir licença, mas não nos desculpamos por isso. Vocês eventualmente encontrarão casais namorando, em momentos de intimidade. E mesmo em momentos de intimidade muit íntima! Procurem não atrapalhá-los. Vocês também não gostariam de serem incomodados nessas horas.

No final, a saída eu não sei onde fica, mas vocês certamente encontrarão quando quiserem. Se precisarem de algo, estou à disposição, é só me procurar. Mais uma vez, grato pela presença. Fiquem à vontade.

Capítulo #23

Eu estava caçando algo para a ceia. Qualquer coisa para dar gosto à sopa. Depois das árvores, eu cheguei à baixada que dá para o lago. Olhei para o meio, pensando se não teria sido melhor levar o caniço para pescar.

E, para mais adiante, dando um pouco a volta, vi uma pessoa no meio do lago, em pé. Era uma mulher, não sei se bonita, mas era muito gostosa! Gostosa mesmo! Ao menos, de longe, achei. Estava em pé, de vestido vermelho, e não parecia ter um barco nem nada. Era como se andasse em cima da água.

Eu fiquei curioso e fui dando a volta, para ver de perto em cima de quê ela estava. Ela não tinha o cabelo muito volumoso, mas atrás ele formava um rabo de cavalo que, caído pelas costas até abaixo dos joelhos, parecia um rabo peludo de animal. O corpo todo dela também, era muito peludo, um pêlo avermelhado, curto, bonito, que cobria o corpo todo. Ela parecia feita de pelúcia.

Antes de eu chegar a um ponto onde enxergasse o que a sustentasse sobre a água, ela chegou à margem e caminhou para a ponte, aquela antiga, do trem, que já não funciona mais. Eu, quando alcancei ali, procurei com os olhos pela água e não vi nada, nenhum sinal de balsa, barco ou coisa do tipo. Mas já estava escurecendo, meus olhos podiam não ver direito.

Ela havia passado por baixo da ponte, passei também, curioso com ela. Ainda não conhecia ali. Sempre pensei que, do outro lado da ponte, o parque continuasse com árvores, lagos, trilhas. Mas não, passando por ali, parece uma caverna, ampla, escura, com o teto bem alto. Não dava para andar ali sem enxergar nada. Não vinha nenhuma luz pela entrada da caverna. Esperei meus olhos se acostumarem e vi que havia pedras, e muita gente reunida sobre elas, olhando para cima. Na verdade, não sei se foram meus olhos que se acostumaram ou se uma luz surgia. Estava tudo iluminado por uma luz azul muito fraca.

Todos olhavam para a mesma direção. Olhei também e vi, no alto, ao fundo, tudo muito escuro, exceto por um par de olhos azuis. Não olhos azuis como os nossos. Eles emitiam luz, azul. Além de muito azuis, como nenhum olho humano pode ser, como pedras preciosas lapidadas, emitiam a luz azul que iluminava tudo ali. Os meus olhos sim são comuns e, quando se acostumaram, percebi algo que parecia o contorno de um corpo, com cabeça geométrica e orelhas que pareciam asas. Não dava para ter certeza.

Achei que fosse uma performance, mas uma voz alta, claramente enfurecida, que veio do corpo de olhos azuis me assustou: “Vocês parecem crianças brincando. Vocês acham que sabem mais do que brincar como crianças?” A voz só me assustou. O pavor das outras pessoas que estavam lá foi o que me apavorou. Todos começaram a correr, baratas tontas, trombando, tentando fugir. Assustado, corri também. A entrada da caverna, por onde vim, não existia mais.

Me escondi atrás de uma pedra pensando no que fazer, enquanto os outros se desesperavam, vi algo, longe, que parecia ter um tom diferente de azul. Podia ser uma porta. Corri lá, estava ainda mais escuro, e cheguei num corredor ou algo assim. Sem enxergar nada mesmo, andei devagar, com as mãos nas paredes, me guiando. As paredes, lisas, não eram de caverna. Tinham acabamento bem feito, deviam ser de alvenaria. Ali era um prédio ou uma casa. Talvez fosse um túnel por baixo das árvores do parque, tenho certeza de que era plano, não subi nem desci nada.

Depois de andar uns dez minutos por ali, e ja com medo de não achar saída, encontrei o fim do corredor. Palpando, senti uma porta pequena, de madeira rústica, à minha frente, a parte superior do batente não era mais alta que meu peito. Me abaixei, procurei pela maçaneta. Consegui abrir. Fui por ela.

Achei que era uma saída. A porta deu para uma casa simples de teto muito baixo. Tive de ficar arcado para não bater a cabeça no teto. Um cômodo só, me pareceu. Mesinha de centro e poltronas perto da porta, cozinha à esquerda, um beliche e uma cama de casal à esquerda. À minha frente, do outro lado do cômodo, uma mesa com poucas cadeiras e outra porta.

Alguém gritou: “Maria, eles vieram. Por favor, não queremos ir embora.” O teto baixo se justificava, eles eram pequenos. Foi difícil encontrá-los. A tal Maria estava na cozinha, atrás do fogão. Algumas crianças, de tamanhos variados, mas todas pequenas, o que não me permitia imaginar suas idades, bagunçavam a cama e o beliche. O homem que falou, estava na mesa. Ele mesmo, era pouco mais alto que meu umbigo. Levantou-se e veio me receber com um gesto cerimonioso.

“Eu não vim para vocês irem embora.”

As crianças correram se esconder todas no beliche, que fecharam com um cobertor, como se ela fosse uma barraca. Lembraram-me cachorrinhos amontoados, escondidos na casinha dos pais.

“O senhor não veio nos despejar? Não é o senhorio? Não veio da parte dele?”

“Não. Eu estava fugindo daquela confusão que o sujeito, não sei o que era aquilo, com os olhos luminosos azuis causou. Eu tinha entrado na caverna atrás de uma mulher de vestido vermelho, com pele que parecia de raposa.”

“Ah! Está fugindo.”

“Eu quero voltar pro parque.”

“Aqui não tem voltar. É um eterno fugir. Venha por aqui.”

Saímos pela outra porta, a oposta, ao lado da mesa. Depois dela, havia sol, areia e um lago, mar, oceano, não sei, o cheiro era de água salgada.

“Vai sempre em frente, aqui não há voltar, só o em frente, fugir do que ficou pra trás antes que ele te pegue de volta. O em frente é por aí. Vai.”

Ri: “Como? Aquela mulher parecia andar por cima da água. Vou andar por cima também?”

“Ela te deixa passar.”

Ele chegou à beirada da areia e afagou a água como faria a um cão, a um bicho de estimação. Ela, já sabendo o que ele queria, abriu-se, como se lhe puxassem um zíper, formando um vale, entre duas altas montanhas líquidas.

Eu devia estar pasmo com isso, mas não estava. Foi como se já imaginasse que algo assim iria acontecer. Agradeci.

“Não agradeça, siga.”

Caminhei pelo vale do fundo exposto do mar para sair do outro lado. Era muito longe, mas a distância foi vencida como se eu estivesse num filme editado, com vários cortes das partes de mesmice de caminhada. Lembro-me de andar um pouco. Depois, de estar mais à frente, mais cansado, andando. Depois, de estar ainda mais à frente, mais cansado. Meus tênis pareciam as botas de sete léguas. Ou minha memória não guardou todo o caminho que fiz.

O vale terminou. Subi para a praia do outro lado. O zíper que separava a água se fechou, bem devagar, causando só algumas ondas grandes que, no entanto, disciplinadas, não invadiram a praia.

À água, me esqueci de agradecer. Fiquei olhando-a e ouvindo seu barulho, suas ondas se acalmando. Até que esse barulho, enfraquecendo, se confundiu com uma música que vinha do meio das árvores, depois da praia.

Lembrei-me de ir sempre em diante e segui a música. Era chata. Parecia aquelas músicas incidentais que fazem fundo para cenas com anjos, nos filmes. Encontrei uma mesa de picnic. Ao lado, no chão, ao pé de uma árvore, alguns adolescentes improvisavam a música em instrumentos simples.

Sentada num dos bancos da mesa, a mulher do vestido vermelho segurava um copo de bebida, uísque com gelo, creio eu. Bebericou um gole, dois. Passou o copo para a outra mão, que manteve sobre a mesa, e virou-se para mim, com uma perna de cada lado do banco. Encarou-me. Não era bonita, mas seu corpo delineado pelo vestido vermelho justo era perfeito. Sua pele parecia mesmo de um animal ou de pelúcia, coberta com pelo lustroso castanho avermelhado, mesmo tom dos cabelos compridos, não totalmente presos atrás. Pelo decote grande, via-se que seu pêlo, no peito e na barriga, era branco. Viam-se também os peitos deliciosos. Não sei se tinha mais vontade deles ou de alisar a pele dela. Era difícil resistir, quase impossível. O desejo era tanto que tive medo de não conseguir, perder a cabeça e atacá-la. Ela percebeu, bebeu o terceiro gole e largou o copo. A mão que tirou do copo, pousou no lindo pêlo castanho da coxa. Com a outra, começou a afastar o ombro do vestido, oferecendo-me o colo. Não terminou. Subi no banco, também uma perna de cada lado, e abracei-a. Terminei eu de afastar o ombro do vestido, devagar com minha mão enquanto lhe beijava e apartava de encontro a mim. Forcei seu corpo para trás e ela teve de se apoiar com a mão no banco. Pôs suas coxas ao redor de minha cintura e com uma mão me puxou para si, enquanto, com a outra, se apoiava no banco para que eu não a deitasse nele. Apartou-me contra si e eu apertei-a contra mim. O abraço foi tão justo que me atrapalhou a respiração. Fiquei mais doido por ela. Senti fome, muita fome. Não era de comida, era desejo. Ela era muito forte. Seu abraço apertou todos os músculos de meu corpo, me deixou todo dolorido, dos dedos dos pés aos das mãos. Excitado demais, foi no meu peito e na minha boca que senti o latejamento e os espasmos de gozar. Surpreso com aquele prazer incrível, procurei seus olhos. O que achei neles foi aquela luz azul, fria, sem expressão, agressiva. Me assustei. De repente, seu corpo me pareceu frio, um cadáver, e seu rosto agressivo, odioso. Lembrei-me de algo que não lembro e me senti maldito transando com o demônio.

Assustado, transtornado e comas as pernas ainda bambas do prazer que me apavarou, corri, pelas árvores, sem pensar nisso, mas fugindo em frente. Pés descalços, calças de moletom, que eu uso de pijama, caindo com o elástico da cintura frouxo ou estourado. A camiseta de algodão grosso encharcada de suor gelava no vento do dia que se fez escuro, nublado e frio. Meu pé, desacostumado de andar naquele tipo de chão, se machucava em tudo que eu pisava, pedras, gravetos, raízes, folhas… O medo era maior, continuei correndo. Respirava o vento gelado, que incomodou meu peito. Faltou ar, faltou força para respirar. Achei que ia desmaiar. Não tinha coragem de parar.

Percebi que tinha chegado a uma plantação, uma espécie de pomar de árvores baixas, todas muito juntas. Escondi-me no meio. Agachado entre duas árvores, coberto pelas copas delas, que se emaranhavam, se confundindo. Quase me acalmeu e consegui chorar. Só escorreram algumas lágrimas, meus beiços tremeram e olhei para cima, para tentar pensar direito. Foi quando vi o pior. Vi as frutas das árvores. Eram bolas vermelhas, de fogo, sólidas. Chamas redondas brotadas, penduradas, nos galhos. E o fazendeiro chegava perto. E eu olhei onde ele estava, pra fugir dele, e vi… seus olhos… também eram daquela luz azul.

Fiquei sem reação, paralisado. Ouvi outra música. Crianças passaram de mãos dadas, brincando, acho que de roda. Elas me viram e pararam brincando ali. A música que eles cantavam parecia marcial. As mãos, eu vi então, não estavam dadas, eles se seguravam em algo que parecia uma corda, mas que era uma cobra grande, morta.

O último que chegou, não segurava a corda de cobra. Estava solto e não cantava. Segurava com as duas mãos um copo d’água e olhava vidrado para algo dentro dele. Cheguei perto, o copo tinha alguma bebida alcoólica. Percebi pelo cheiro. Perguntei por que nao brincava com as outras crianças. Ele não respondeu. Ficou olhando, por cima, o líquido do copo, sorrindo.

Tudo então ficou escuro. A gente pensa que o escuro é preto. Pode ser branco também. Aquele foi um escuro todo branco. Um apagão branco seguindo de um barulho tão alto que não dava para ouvir. Mas eu o senti nos ouvidos e no corpo, quando já não via mais nada. O barulho mais alto que todo o resto silenciou o mundo todo. Foi uma explosão, atrás de mim. Longe eu acho. Olhei de volta as crianças. O que vi foram seus corpos queimados, como carne queimada de churrasco, e cinzas de todo o resto espalhadas em torno. A plantação sumiu em dunas de cinzas que se mexiam como ondas no vento que sobrou da explosão.

Eu não consegui ficar horrorizado com isso. Nem mesmo com a morte das crianças. Atordoado, caí no chão e achei fofas as cinzas que me receberam lá. Cansado já, imagine como! Vi outras plantas brotarem ali, um novo jardim. O paraíso ou o inferno brotando, a pronto e de pronto, saindo da terra, de sob as cinzas que lhe serviam de alimento.

Nasceram, que eu vi, um pé de borboletas, outro de veados, um com coisas de plástico, de várias cores, um pé de sexo com romance, outro de pura sacanagem. Eram árvores, arbustos, plantas, trepadeiras, mato, flores, cada um mais inimaginável que o outro. Do labirinto bagunçado que formaram saiu mais bagunça. Uma galinha cacarejou, mas botou um gato, não o ovo que eu esperei. O macaco ficou em pé sobre uma flor, mas afundou no chão de terra sólida. O sol balançava no céu, ao sabor do vento, como se estivesse pendurado por barbante.

A bagunça e o absurdo eram tão grandes que eu não conseguia olhar para tudo. Meus olhos simplesmente não conseguiam focar nas imagens que eu não entendia. Senti-me mal, muito mal. Senti-me mais bêbado do que imagino que alguém possa ficar, e ainda estava consciente. O mundo começou a girar, não a meu redor, como acontece quando a gente bebe. Girou sentado numa roda-gigante, eu junto. E eu não tinha bebido nada. Nem usado nada, nada, nada. Não faço isso, usar algo. Beber bebo, mas não tinha bebido. Ao menos não me lembro de ter bebido. E, se tivesse, tanto a esse ponto, me lembraria.

Com medo de perder o equilíbrio, sentei-me na cadeira da roda-gigante em que se transformou a realidade. Tive vontade de vomitar. Não saiu nada. O choro, aí sim, encheu meus olhos e molhou o mundo todo. Parecia chuva. E choveu mesmo.

A cabeça doendo, achei que ia explodir, como se alguém bombasse água dentro dela com tanta pressão que me saísse tudo, as lágrimas e a chuva, pelos olhos.

Uma luz vermelha, à minha frente, iluminou tudo e outros olhos azuis apareceram. A luz vermelha tentava engoli-los. E eles a ela. Eu não vi nada disso. Sí conseguia chorar. Chorei, chorei até que, de tanto e tão alto chorar, parece que minha cabeça finalmente explodiu. Senti uma pancada forte nela, de metal contra metal. Minha cabeça soou alto, longe, como um sino.

Novamente tudo ficou branco de tanta luz ofuscante, o mesmo barulho. Outra explosão de escuridão branca e barulho imenso que silenciou o mundo. Congelei de medo esperando o que viria então.

Demorou para os olhos fazerem foco e os ouvidos escutarem de novo. Aos poucos, fui enxergado uma névoa tomando forma e percebendo um som baixo que a principio ecoou. Depois, ambos tomaram forma e reconheci primeiro tua voz, depois teu rosto, aqui do meu lado.

E acho que foi aí que eu não agüentei e comecei a chorar de verdade.

Passear

Eu odeio festas, não sei como você pode gostar. E de casamento então… acho tão cafonas essas coisas que as noivas andam inventando!… Eu gosto de sair assim, nós dois. Quanto muito, encontrar família para almoçar ou jantar. Ou um casal de amigos. Essas confusões com muita gente junta são muito chatas. Pra não falar que você resolve passar o dia todo no salão e coisa-de-tal, longe de mim o dia inteiro, e, chega lá, também, sai conversando com aquelas pessoas que eu nunca vi antes e me deixa no canto com cara de paisagem.

E eis que me aparece você, na sala, finalmente pronta pra sair. Vestido não muito decotado, Justino até a cintura. Joelhos de fora. Aquelas sandálias que eu brinco que você devia usar na praia. Cabelo fofinho e cheiroso feito uma nuvem. Cordão no pescoço. Esse pingente… está num lugar que eu gosto muito… Braços, boa parte dos ombros,de fora. hmm os ombros são o melhor. Vontade de beijar, beijar, beijar… Deixa ver os brincos. Hmmmm. Não, o melhor mesmo é este pedaço onde os brincos ficam pendurados, e que o cabelo pensa que esconder. A maquiagem, nem precisava. Já é linda! Ela só realça.

“Eu mereço isso tudo? Você assim bonita?”

Seu sorriso, não sei se responde, tua bochecha fica vermelha. Tenho que te beijar.

“Não sei se vai me fazer bem tanta inveja que terão de mim.”

E vamos passear.

Sobre Sonhar

Estava falando, outro dia, sobre sonhos. Me perguntaram como são os meus. E eu achei curioso.

Eu me lembro de já ter sonhado muito. Me lembro de muitos sonhos antigos, de anos atrás, de sonhos de adolescente e da época de criança.

Antigamente, meus sonhos eram muito surreais. A porta de casa dava para o pátio de uma escola, mas a sala de aula era de outra. escola. O banheiro da escola era o supermercado e a menina do caixa me pagava por ter comido o que havia na sessão de frios, mas só na de frios. Podia beber refrigerante sem gelo desgraça se quisesse. Eu não podia esquecer de assistir o programa do Chaves durante o almoço, senão seria demitido da injeção que a bibliotecária me receitou.

Lembro de sonhar com o banheiro e acordar com a cama molhada. Lembro de, percebendo que sonhava, pedir para me beliscarem, como em desenho animado, e de, mesmo em sonho, doer de verdade. Da mãe me acordar quando sonhei com ela fugindo de casa. Do avô, há muito tempo finado, me chamando pra passear. Lembro de sonhar com tentar dormir e com o despertador tocando pouco antes de ele tocar de verdade.

Lembro de sonhos bons dos quais me arrependi de acordar e tentei voltar a dormir. E também da frustração de sonhar com outra coisa. E também de acordar aflito, agitado por causa de outros, apavorado, como Hamleto, de que o inferno possa ser a eternidade dormindo e sonhando.

Lembro de momentos em que confundi real e sonho. Aquela modorra, cansado, com sono, cabeça pra trás, tédio tédio. Eu ouvindo uma pessoa falar uma coisa e vou adormecendo, ouvindo aquela frase noutro cenário, de outra pessoa, as coisas param de fazer sentido. Cair na real aí é que é o pior.

Mas agora que tocamos nos assunto, percebo que já há algum tempo que não me lembro de ter sonhado. Me lembro de fechar os olhos para tentar dormir, de enrolar, olhar para o teto, para o escuro, a televisão, a janela, e de depois acordar. Não me lembro de sonhar. Os últimos sonhos de que me lembro já têm uns meses. Ainda assim, sonhei estar trabalhando, fazendo mercado, dirigindo pra casa pelo caminho de sempre, só isso.

Já tentei prestar atenção ao acordar, fixar a lembrança. A lembrança é um escuro. Tentei deixar um caderno na cabeceira da cama para anotar no meio da noite, se acordasse, ou pela manhã, se lembrasse. Não anotei nada. Não me lembro de nada, de nenhum.

Me lembro, isso sim, da lenda do homem sem sombra. História pavorosa que se conta às crianças. Será que ela pode ser pior do que a do homem sem sonho?

Sol-Nascer

Quando nós deitamos ontem, a promessa foi de acordarmos cedo para juntos vermos o sol nascer. É para isso mesmo que eu fiz questão de ter no quarto uma janela tão grande, quase a parede toda, de cima a baixo, de lado a lado, e de ter a cama nessa posição. É só deixar a janela aberta que o nascer do sol me acorda cedo pela manhã.

Mas descobri que você é muito dorminhoca. A luz do sol, que logo me despertou, não foi suficiente para você. Devia estar cansada também. Tive de lhe cutucar algumas vezes. Com cuidado para não lhe assustar. Quando consegui que acordasse, o sol relutava em nascer, aparecia e se escondia de novo. Você abriu o olho de pronto, embaçado, atrapalhado pela claridade que vinha da janela. Abriu-o rápido e fechou-o novamente, e de novo, e de novo. Apertou-os com as pálpebras e esfregou-os de encontro ao travesseiro. Piscou mais uma vez, olhando para mim.

O céu, meio que oval, alongado nos lados, branco branco. O sol, castanho, marrom, um tom desses. O tom eu já conheço e sei encontrar, seu nome não sei, não entendo de cores. Brilhava de lindo. Enfeitou seu sorriso e abriu o meu.

Foi o mais bonito nascer do sol que eu já vi. Desse sol que eu já conhecia. Mas pela primeira vez vi nascer na minha cama: seus olhos se abrindo.

Pela Janela

Entrou voando pela janela algo. Pelo colorido, parecia um beija-flor. Muita gente coloca nas janelas vasos de flores coloridas e bebedouros de água com açúcar para atraí-los. Não é incomum que se embebedem com aquela porcaria e percam o camino de volta, vão dar de cara com a janela de ouro apartamento.

Ele pousou na sanca branca do teto da sala, de cabeça para baixo. Beija-flor não podia ser. Morcego colorido? Borboleta. Uma borboleta diferente. Nas cores inusitadas, no formato das pintas e no do corpo.

Subi no encosto do sofá, perigava cair pela janela, para ver-lhe, curioso, e também para procurar um jeito de ajudá-la a sair. Decerto não sobreviveria muito tempo num apartamento. A gente se acostuma a viver nestas prateleiras de gente, odiando e achando esquisito, mas, só quando imagina uma borboleta viver aqui, é que se dá conta de que não é possível viver assim.

Sou baixinho e atrapalhado, tive de pôr a mão na sanca, que mal alcancei, para me equilibrar no encosto do sofá. Olhei pela janela. É alto.

Não precisei olhar muito a borboleta para ver que era uma farsa, uma mariposa muito grande, pintada. A pintura muito bem feita, só pode ter sido feita por um artista. Sem a simetria peculiar à mãe natureza, contornos bem delineados das manchas coloridas. Não sei que tinta foi usada, parecia muito natural. Talvez Deus tenha se cansado de suas regras habituais e resolveu dar-se uma pausa para brincar de pintar.

Escancarei toda a cortina e a janela e com uma revista ameacei cutucar-lhe para lhe mostrar o caminho para fora. Ela foi. Foi… para ser o que quisesse.

Escrevendo

Ele já tomou banho, está sentado na poltrona, pernas esticadas sobe o pufe, televisão ligada no telejornal de um canal europeu, sem som. A música vem do notebook que ele tem no colo. Uma daquelas bandas que só ele conhece.

Ela sai do banho de regata branca, dá pra ver o sutiã, aqueles feios que imitam a cor da pele. Cor da pele de quem? Está com os shorts velhos de algum pijama antigo, tão antigo que nem dá pra lembrar qual. Sem maquiagem, o perfume de sempre. Segura um frasco de creme. Que linda!

“Vem pra cama.”
“Vem pro colo rs”
“Você está trabalhando?”
“Escrevendo.”

Senta de pulo na poltrona ao lado dele.

“Sobre o quê?”
“O passeio da tarde.”
“Posso ler?”
“Fica aqui.”

Ela põe a cabeça no ombro dele e lê um pouquinho do que ele escreveu.

“Quer dizer que eu estava gostosa? rs”

Levanta a cabeça de novo, rindo.

“Delícia. rs”

Ele sorri, beija-lhe o pescoço, bem junto do ombro, como eles gostam.

“Queria conseguir viver disso…”
“De me beijar?”
“Disso eu já vivo rs”
“De escrever?”
“De escrever sobre como eu gosto de você.”

Ela ainda é pega de surpresa com algumas coisas que ele diz, ou com como ele diz. Mas do que gosta mesmo é de como os olhos dele se umedecem quando diz certas coisas. E de ele pausar o que faz para pousar a cabeça em seu colo.

Ela aproveita a posição, beija-lhe a cabeça, ainda cheira a xampu, e fala baixinho em seu ouvido, como se ali houvesse alguém mais que pudesse ouvir o segredo que não é segredo.

“Vai ficar escrevendo?”
“Mais um capítulo.”
“Capítulo?”

Ele se vira pra ela.

“É. Vou escrever em você.”

A está altura eles nem sabem mais onde foi parar o notebook. Estão sentados virados um para o outro, uma mão em cada pescoço, a outra procurando a cintura ou o sovaco pra abraçar.

“Vai escrever com os dedos? Digitando?”
“Primeiro com a boca. Depois, deixa ver pra onde a história leva.”

Acho que ela nem entendeu ele dizer isso. Já estavam se beijando antes de ele terminar a frase.

Fumaça

Fire“Todos escrevam no papel um desejo. Algo que queiram realizado. Algo que queiram muito muito mesmo… Eu sei que já é tarde, escuro, frio. A fogueira está quentinha, mas ilumina pouco. Dá sono. Mas vamos tentar fazer o melhor possível. Pensem bem no que vocês vão escrever. Escrevam algo que vocês sempre quiseram muito, que querem há muito tempo…”

“Escreveram? Todos já escreveram?”

“Agora? Prontos?”

“Vamos lá. Agora, refletindo sobre o que vocês escreveram, vocês coloquem o papel no envelope, fechem, colem. Fechem bem para ninguém abrir, para ninguém conseguir saber o que está escrito aí.”

“Paciência, que já acaba e vocês vão pra cama.”

“Pronto?”

“Agora, vamos, devagar, cada um na sua vez, com cuidado pra ninguém se machucar, colocar os envelopes na fogueira, pra queimarem. Depois nós sentamos de novo em torno dela, olhando a fumaça subir, levando eles pro céu.”

Smoke

“Vamos, devagar. Cuidado pra ninguém se machucar.”

“Vão colocando na fogueira e sentando. Levantem a cabeça, olhem para cima, a fumaça subindo… o céu escuro, a lua, as estrelas… a fumaça indo pra lá. Reflitam.”

“Todos já colocaram? Eu sei que o sono está pesado, mas olhem para cima, a fumaça subindo.”

“Agora, já é quase meia noite. Vocês podem se recolher, descansar, e pensar em pra quê adiantou ficarem acordados aqui no frio e fazer tudo isso.”