Tudo Bem?

Eu disse para ela se sentar. Gosto de ter esses momentos de cavalheirismo. São espontâneos e sinceros. Não os tenho sempre, mas quando acho que devo. Acho mesmo que, na maioria das vezes, sou mal-educado mesmo. Não tenho conhecimento ou costume desse tipo de convenções. Sou daquelas pessoas que não sabem se comportar em lugar nenhum, então fazem o que acham melhor. Nem sempre acerto.

Ela se sentou num sofá, bolsa ao lado. Ela ocupava um lugar do sofá e, a bolsa, o outro à sua esquerda. Mulher é assim, acha que bolsa tem bunda e precisa se sentar.

Na pequena fila, esperando a vez, me arrependi de dizer-lhe para se sentar. Podíamos conversar ali, aqueles minutos de espera, enquanto as pessoas perguntam, já na frente do caixa, do que é feita cada bebida e decidem o que querem. E ela também não tinha muito o que fazer sentada, além de descansar as pernas. Olhou o relógio, o telefone, as pessoas de uma mesa próxima. Olhou-as como se achasse que elas lhe xeretavam. Se estivesse na fila comigo, eu lhe perguntaria se não queria aquele café que eu odeio e digo que é “sabor carvão”. Ela diria que não tem gosto de carvão, que é bom, mas que prefere o outro que já havia me encomendado. Eu riria de ela recusar o café ruim. e ela riria de não ter conseguido defendê-lo.

Sentada, depois de conferir o que podia inventar de conferir, não teve mais o que fazer além de ficar sentada, pensando. Ela se sentou bem junto do encosto do sofá. Os braços bem esticados, tensos, segurando o telefone com as duas mãos entre as pernas. O olhar imóvel, em direção a alguma vitrine de loja que ela não tinha como enxergar direito dali. Só podia pensar.

Quando eu chegava com os cafés, ela tirou a bolsa para que eu me sentasse a seu lado. Senti-me culpado pelo que pensei sobre mulheres acharem que bolsa tem bunda. Ela pôs a bolsa à sua direita, bem encostada no corpo. Chegou-se um pouco mais para onde eu ia sentar. Assim a bolsa não ocupava tanto espaço.

Eu, primeiro, arrastei com a perna uma mesinha para junto do sofá, pousei os cafés e me sentei a seu lado. É estranho conversar assim, sentado ao lado. Parece coisa de namorados.

Ela ajeitou um pouco o corpo na poltrona, de frente para a mesa. As pernas se encostarem em mim. Quase se deitou no meu colo quando esticou as duas mãos para alcançar o copo menor: “Este aqui é o meu?”

Era sim. Mas ela não me esperou responder para esquentar as palmas das mãos no calor do copo de isopor. Sorriu com a ponta do lábio. o calor lhe fez bem. Depois voltou para o encosto da poltrona, trazendo o copo, ainda com as duas mãos, para juntos do peito. Pose de comercial de café. Se eu estivesse sentado de frente pra ela, não resistiria a tirar uma foto.

Fiquei com inveja do copo. Queria um pouco de atenção também. Tive que interferir para quebrar o clima dela com o copo: “Tudo bem?” A pergunta era acompanhada por um sorriso irônico. A resposta, “Tudo. E você?”, não servia. Já tínhamos nos encontrado antes, chegamos ali juntos. Não era caso de seguir o protocolo de cumprimento. Insisti, provocando, para puxar conversa: “Tudo mesmo?”. Ela olhou para baixo: “Ah! Ainda não rolou. Mas tenho de ter paciência.”

A cara dela não era de eu estar me metendo. Também não era de quem não queria me contar ou que eu perguntasse. A frase seguinte foi de quem não queria falar: “Vou pegar açúcar”. Falou e já foi se levantando. Ela deveria ter-me pedido para pegar o açúcar. Eu teria gostado de agradar. Sempre esqueço de pegar o açúcar, me esqueci de pegar para ela.

Foi para o balcão pegar o açúcar. Só depois da metade do caminho se lembrou de levantar a cabeça para olhar para onde ia. Pegou rápido, dois saquinhos. Esqueceu de abrir o copo. Pousou os saquinhos, abriu o copo. Tudo isso apressada. Rasgou um saquinho. Despejou no copo. Rasgou o outro. Despejou também. Pegou a tampa. Lembrou-se de mexer. Pegou o misturador, começou a mexer. Pousou a tampa de novo. Pegou outro saquinho, achou pouco o açúcar para o tamanho do copo, e era um copo menor que o meu. Rasgou e despejou. Misturou de novo, com pressa, mal misturado. Jogou fora o misturador e tampou o copo. Olhou para mim e voltou, olhando para baixo de novo.

Sentou-se agora com o corpo mais virado na minha direção, como quem quer conversar. Mas não falou nada. Segurava o copo, agora, com uma mão só. Ajeitou o corpo no sofá e ficou bem encostada em mim. Fiquei encabulado, não precisava. Ela puxou a bolsa pra trás, pro encosto da poltrona junto da bunda dela. Apoiou o peso do próprio corpo no encosto.

Cheirou o café: “Agora sim. Docinho!”. Falou como se a sensação de doce fosse olfativa. Lembrei-lhe: “Doce se sente com a língua, não com o nariz… meu doce”. Ela riu de leve e me chamou de besta. Fingiu dar-me um tapa no ombro. Se diverte com as cantadas toscas que eu improviso para lhe divertir. Fiz cara de nojo: “Eca! Açúcar!” Ela não quis comentar, mais um vez, a minha aversão a açúcar.

Tomou seu copo, menor, mais rápido que eu. O meu, além de maior, eu espero mais para esfriar e bebo, primeiro em bicadas, até ficar morno e perder a graça. Aí viro de vez tudo o que sobrou. Quando terminou, o meu ainda quase cheio, deitou a cabeça no encosto sintético da poltrona, de olhos fechados. Fez um movimento de pescoço até que sentiu um pedaço da testa encostado em meu ombro.

Arrumei-lhe um cachinho de cabelo que caia na testa. Não precisava. Era pouco, não atrapalhava. Foi uma desculpa para tocar-lhe com a mão. Beijei-lhe a testa. Ela abriu os olhos. Arrumei de novo o mesmo cachinho de cabelo, que já estava arrumado, e inclinei a cabeça para tocar-lhe a testa com a bochecha. Só toquei rápido e voltei a cabeça à posição ereta. Quase ereta. Ainda se inclinava um pouco em sua direção.

Ela fechou os olhos de novo e ficou quieta. Tem gente, têm dias, que é assim. A pessoa não quer falar, só quer um café e ficar perto de quem queira ouvir.

 

Benny Golson – Killer Joe

E a música do filme, óbvio.

 

Sessão da Tarde

Curioso.
Numa tarde, você escreve algo sobre destino.
Na outra, ouve falarem dele na Sessão da Tarde.

“You know what Napoleon gave Josephine as a wedding present? It was a gold locket. And on the inside, he made an inscription. Destiny.” (The Terminal)

 

 

Caminho pra Escola

Estou indo pra escola. Queria jogar bola, todo dia quero, mas todo dia vou pra escola. As outras crianças também, nenhuma quer ir pra escola, mas todas vão mesmo assim. Algumas gostariam de jogar bola, outras de brincar de bonecas, jogar vídeo-game, dormir. Dormir é bom! Já têm umas meninas da escola que preferiam namorar. Os meninos não, se já saíram da cama, quase todos preferem jogar bola. No entanto, vamos, todo dia, pelos mesmos caminhos, depois de tomar os mesmos cafés da manhã, para a escola. Ao menos eu tenho a desculpa de que todos que jogariam bola comigo também estão pra escola. Só se jogasse sozinho. Eu bem que preferia jogar sozinho, mas vou pra escola.

E eu aqui, carregando a mesma mochila, usando a mesma roupa… Porcaria de roupa ridícula! Minha mãe tem mania destas camisetas com estampas de bebê. Meus tênis ainda tem estampa, são vermelhos com elefantinhos. Ela ainda me compra cuecas estampadas, aquelas feitas para crianças pequenas que não usam calças. Dá pra acreditar?

Todo dia eu penso nisso e me lembro de, no dia seguinte, pegar uma roupa diferente. No dia seguinte… Nunca me lembro na hora de pegar a roupas. É sempre pelo caminho.

Na saída da escola, vou passar na banca de jornal e comprar os quadrinhos desta semana. Leio vários. Tenho de ler vários. As histórias se fragmentam entre eles. Estratégia para vender mais. Nestes quadrinhos, cada história começa num, se divide em três ou quatro ramificações que continuam em outras revistas diferentes. Sem dizer que as histórias de cada uma são continuações de histórias de outras revistas, que você não vai entender se não tiver lido. É como se a mãe, ao sentar para assistir novela das oito, assistisse as personagens dela interagindo com as das outras novelas em situações que ela só entenderia se tivesse assistido também as outras. Eles dizem que é para evidenciar que o mundo é um só. Mentira. É estratégia para vender mais. A gente que gosta de ler compra. Já, por várias vezes, disse que não compraria mais, me sinto enganado, manipulado. Não adianta, na semana seguinte compro.

Um tema recorrente nesses quadrinhos é o destino. É um jeito clássico, e já bem batido, de se fazer a história seguir um determinado rumo sem ter de quebrar a cabeça com a lógica dos fatos. É o destino e acabou. Mas com tanta gente no mundo, eles foram se encontrar, logo os dois, assim do nada, tão longe… é o destino. É uma explicação convincente pra quem escreve se for também para quem lê.

E talvez o destino exista mesmo, e seja tão clássico e batido como nos quadrinhos. Talvez destino seja isso. Ir pra escola em vez de fazer o que eu quero, com a roupa que eu odeio, depois ler os quadrinhos de que eu reclamo. E porque eu faço isso se não quero? Não sei. Será que é o destino? E do destino ninguém pode fugir? Quem tem explicação ma dê, por favor. Talvez, no final, isso tudo que eu fiz sem ter porquê se justifique. De repente, na última página, eu vou encontrar um tesouro no caminho pra escola e ficar com uma gata que gosta de conversar sobre quadrinhos, ou descubra que, para ser astronauta, preciso ter assistido todas estas aulas, fazer uma prova sobre quadrinhos e usar roupas ridículas. Ou talvez, meu destino seja viver um dia igual atrás do outro.

Depois do almoço, é hora de jogar bola. Aí ninguém me impede, nem o destino. Bom, talvez o tempo. Mas não parece qua vá chover nem esfriar. O céu está com cor de céu, com aquelas manchas de céu que nós chamamos de nuvens, mas que bem podem ser poluição ou fumaça de escapamento de discos-voadores. Tanto céu! Chegando tão longe e nós aqui embaixo. Tem de ter alguma coisa lá.

Gostava de saber onde se penduram as estrelas. E a lua? Como se liga na tomada? E deve haver um chão lá também, para elas andarem assim no céu. O sol? Cadê o sol? Me ensinaram a não olhar direto para ele, mas algumas vezes olhei. Me pareceu uma luz forte, desfocada, vista de longe. Daquelas de iluminação, holofotes, em fotos. Nunca dá para saber direito o contorno do holofote. A luz faz uma nuvem em torno dele que borra a foto. O sol me parece ser assim. Deve ser um lustre daqueles globos de pendurar que estiveram em moda há alguns anos atrás, mas com uma lâmpada forte.

Os antigos achavam que o céu fosse um deus. Ora, eles foram os inventores da palavra deus. Se a usaram para o sol, é porque é isso que ela significa. Nós é que usamos errado. O que é um deus? Não sei, mas são o sol, acho que a lua, os planetas que eu não sei diferenciar das estrelas, o escuro, o tempo, o termo, o destino, a esbórnia, o fogo, o trovão…

Hoje em dia, nós acreditamos numa coisa que chamamos de Deus. Mas, se ela é tão diferente dessas outras em segundo nossa literatura, tão grande, poderosa, orgulhosa e vingativa, deve se ofender por ser chamada assim. Por ser chamada por um nome que pode significar qualquer coisa.

Nisso, vem um vento forte, quente, barulhento, como um espirro. Bagunçou as folhas, levantou poeira, sujeira do chão. Como o vento poderia ser um deus? Só serve para isso: fazer bagunça. E Deus de verdade, pra quê faria uma coisa assim? Se ele existe, não vejo lógica nessas coisas que faz. Medo, dizem que ele se ofende fácil e é vingativo.

Será que existe mesmo alguém lá em cima? Deus? Você está aí? Ou melhor, vós estais aí? Ele não responde. Talvez tenha sido muito atrevimento meu tentar provar-lhe.

As nuvens agora flutuam mais rápido. O vento forte pode tê-las agitado. Tem gente que se distrai procurando imagens formadas pelas nuvens. Para mim, todas tem forma de algodão, de tufos de algodão. Meia dúzia de tufos voando aqui, mais meia dúzia voando ali. O céu sempre da mesma cor. Um azul claro que nós ensinam a dizer que é cinza de poluição.

As nuvens, flutuando, cobrem o sol e posso olhar em direção a ele, filtrado por elas. Ele é uma mancha disforme, pouco redonda, em tons amarelos e laranjas, atrás da nuvem. As bordas da nuvem ficam escuras, interessante. É algum efeito de contraste. Iluminando o meio, a borda escurece.

A nuvem logo sai da frente do sol e ele me atrapalha os olhos. Incomodado, de surpresa, pisco algumas vezes virando o rosto para o lado. Vejo então um reflexo, uma imagem. Ilusão. Parece o desenho de um rosto, contornado a luz no céu, atrás das luzes.

Não era uma nuvem em forma de algo. Era uma imagem de luz, que durou muito pouco, atrás delas. Procuro de novo e não a acho. Escuto um trovão. O céu estava limpo. Procuro, longe no horizonte, de onde ele vem. Vem mais outro. O chão se levanta num terremoto calmo, numa onda sólida. Não é lento, mas não tem a violência que se espera de uma catástrofe natural. Não muito longe de mim, o chão se dobra. O lado de lá vem-me por cima, como se fosse um cobertor. É um livro que se fecha.

Café no Posto

Eu cheguei cedo ao trabalho. Não muito. Mais ou menos meu horário normal. Mas, depois de marcar minha presença, pendurar a mochila e dar bom dia às vivas-almas que já tivessem chegado e eu quisesse cumprimentar, lembrei-me de que ainda não tinha tomado café. Ultimamente vinha tomando café no trabalho. Não gosto. Gosto de tomar café na padaria. No trabalho não tem pão fresco, e o café está sempre azedo.

Pensei nos problemas do trabalho, nos desaforos das últimas semanas, e o café azedo do trabalho, com pão de queijo de segunda linha, me pareceu o último desaforo. Já este inaceitável.

Lembrei-me do café do posto de gasolina. A mais ou menos um quilômetro dali. Quando chego cedo, ainda mais cedo, tomo café lá, antes de estacionar no trabalho. Saí para o posto como cheguei, sozinho. Tinha sono. Que não esperassem de mim comportamento mais civilizado que o bom dia automático que eu havia dito sem olhar ninguém. Voltei pro carro e fui para o posto, como se ainda nem tivesse chegado ao trabalho.

Sentei no primeiro tamborete do balcão, o mais da esquerda, último para quem chega — é uma questão de referencial. Para mim, o primeiro tamborete é esse. Nos mais à direita, mais próximos à entrada, você fica atrás da bandeja do bolo, da fruteira, do display com propaganda da máquina de café, — a de marca, automática, novidade que você pode ter em casa, eu gosto mesmo é do café da máquina tradicional — da estufa do pão-de-queijo ou da meia-bola de isopor onde ficam espetados os pirulitos de chocolate. Esses não merecem ser os primeiros. O mais da esquerda, os dois mais da esquerda, diga-se a verdade, são os melhores para fazer o pedido, vê-lo ficar pronto, recebê-lo e, ainda por cima! falar com a menina opera a cafeteira.

Quando eu cheguei, ela estava enxugando louça, com um pano de prato já úmido, debruçada sobre sua bancada. A cabeça enfiada no estreito vão entre a estufa e a propaganda da máquina de café, ouvindo algo do cliente do penúltimo tamborete. Eu já o vi várias vezes. Ele mora ali perto, trabalha em casa e toma café no posto, todo dia, no mesmo horário. Demora bastante. Coisa de quem trabalha em casa e não tem patrão. Conversa com todos do posto, leva trinta minutos para tomar o café com leite, fuma na calçada, conta o que fez no trabalho ontem e pra quê vai fazer o que vai fazer hoje. Ouve todas as histórias da menina do café. E as comenta, dando-lhe sempre razão. Parece coisa de quem está dando em cima, cercando a presa, mas tem algo nele que me faz acreditar que seja um interesse desinteressado. Deve estar ali sempre, e por tanto tempo, apenas para quebrar a solidão do trabalho em casa.

Depois de um tempo ouvindo-o, ela pediu-lhe licença e veio à minha frente, ainda secando a mesma louca, era um prato: “Oi, amore, vai querer café?” Ela pergunta só para ter certeza.

“Você faz com pouco café e bastante leite?” Eu também digo isso só para ter certeza de que ela ainda se lembra de como ensinei que gosto. Eles normalmente puxam muito o café, ele fica aguado e cabe pouco leite na xícara. Gosto de bastante leite, sem espuma, — espuma não é leite — com o café curto, forte.

Ela fez cara de se lembrar. Acho que fiz bem em dizer para lembrar-lhe. Finalmente pôs a louça no escorredouro, virou de costas para preparar meu café e, logo que encostou na máquina, voltou a conversar com o sujeito do penúltimo tamborete. Falou com a voz mais alta, erguendo-se nas pontas dos sapatos para falar por sobre a tralha que a atrapalhava vê-lo. Falavam sobre algum problema para ela tirar um documento. Procurei não ouvir mais do que as vozes altas obrigavam. Peguei o telefone.

Aproveitei para ver os recados que chegaram pelo caminho. Ignorei quase tudo. Só besteiras, nada de importante. Pessoal do trabalho falando mal dos outros, fotos espirituosas, vídeos pornográficos ou cômicos, não me animei a vê-los.

Meu café chegou ao balcão, quente, senti na mão, ao tentar pegar a xícara. Achei boa idéia usar o tempo em que deveria estar trabalhando para olhar os emails do trabalho. Quase tudo lixo também. O que não era, não me dizia respeito mais do que o lixo. Separei dois ou três, no máximo, para verificar e responder depois. Bebi um pouco do café, já estava bom.

Os emails do trabalho me enfadaram. Olhei um pouco pro telefone, procurando o que fazer. Olhei a agenda. Nenhum compromisso com horário marcado. Tentei umas quatro vezes abrir um site de notícias, mas o telefone não tinha sinal. Bebi mais café, cheguei na metade da xícara.

Segurava o telefone com as duas mãos, como se estivesse pronto a digitar algo. Pensei um pouco. Vi a imagem do fundo da tela, pensei se não podia ter escolhido uma melhor. Não que aquela não fosse legal. Lembrei das fotos do dia anterior, das dos últimos dias. Fotos de cafés, de algumas plantas, de um passeio, de um pica-pau no estacionamento do trabalho. Fui olhá-las. Quase todas tinham algo que eu queria mudar. O pica-pau estava irreconhecível, faltava uma boa lente de zoom. O passeio era igual a muitos outros, ou a todos. O café… era só um café. Nem sei por que tenho essa essa mania de fotografar café. Terminei o café, já morno.

Não sei se fiz alguma cara estranha. A menina do café estava ali à minha frente, dentro do balcão, enxugando outra louça. “Está tudo bem com você? Você está tristinho…”

Sorri, fazendo que não, que nada, com a cabeça. Pisquei-lhe o olho, para que ficasse claro que não queria conversar disso, porque era mentira ou porque não era verdade. Tirei um pouco a mão do telefone, a esquerda só, — o telefone, escondi no colo, com a direita — para empurrar-lhe a xícara. “Faz mais um pra mim?”

Counting Crows – Colorblind

Ser daltônico…
Não distingüir cores…

Engraçado como se redescobre algo já conhecido.

Asas

Era um peixe que nadava. Nadava sempre, mesmo que não tivesse vontade. Vida de peixe é essa, nada sempre, sempre nada. Quem os vem no rio, diz que passam a vida sem nada para fazer. Nadam, sempre, e isso, acredite-lhes, é bastante para ocupar todo o tempo.

Este peixe não nada em rio. É de água salgada, do mar. Nada em alto mar, mar aberto. Peixe solitário, via só água por meses, e meses, e meses… Isso para um peixe é bom. Perigo para o peixe é encontrar outro, maior, que o coma. Ou terra, onde encalhe. Já viu terra, praia.

Conhece navios, há gente neles. Gente. Eles vivem na terra. Queria conhecer essas outras coisas que não há no mar: a terra, as montanhas, as florestas, os desertos, como alguém pode viver onde não há água? Queria poder chegar lá onde os peixes não chegam.

Já viu aviões e passaros, eles voam. Queria pode voar como eles, ver tudo de cima, ver como é este brinquedo chamado mundo, este aquário onde estamos.

Procurando comida perto de uma ilha, encontrou um pássaro grande, parecia morto, flutuando. Tinha acabado de cair, ainda estava morno. Resolveu pegar-lhe as asas. Eram maiores que o tamanho proporcional a seu corpo. Isso devia compensar ser mais pesado que uma ave.

Lembrou-se de Ícaro. Não queria, como ele, despencar se as asas descolassem, procurou quem lhas costurasse às costas.

Encontrou um peixe sapateiro, costureiro. Ele lhas costurou com cuidado, ponto a ponto, bem fundo na carne. Não chorou. Peixes não são capazes de chorar. Vivem com os olhos molhados por outros motivos. Animais não choram. Têm o instinto de fugir, de atacar. Chorar é inutil.

As asas ficaram perfeitas! Era até possível batê-las, fraco, lerdo, sem jeito. Batiam com um movimento do que deveriam ser seus ombros. Contudo, não era o bastante pra voar. Olhou para o céu, aviões não batem asas, e voam. Não conhecia a pipa, mas ela nem asa tem para bater, e voa. Conhecia os urubus. Eles têm asas grandes de penas, e planam. Voam planando. Suas asas são secas. Ele conhecia também uma ilha pequena, com uma montanha, uns duzentos ou trezentos metros de altura. podia se atirar de lá, como já viu urubus fazerem, e planar.

Foi para lá, não era longe, mas as asas já lhe atrapalhavam nadar. Imagina nadar arrastando uma trouxa de roupas.

Chegando à ilha, saiu da água, com medo. Não sabia se podia respirar em terra. Talvez devesse ter tomado tambem os pulmoes da ave. Surpreendeu-se por conseguir. Respirar fora d’água, quem sabe, fosse um poder adicional das asas. Mas, já que podia, não se preocupou mais com isso. Preocupou-se mesmo com como chegaria ao alto da montanha. Se arrastando. Devia ter pego também as pernas. De barriga no chão, subiu. E o chão machucava-lhe a barriga. Ardia, arranhada. Começou a escolher a sombra, o barro, chão mais úmido, folhas verdes. Em alguns lugares, não havia escolha e, mesmo onde havia, o chão lhe esfolava.

Escureceu, e temeu pela noite. Faltava muito ainda. Temeu pelos pássaros. Surpreendeu-se de nenhum ter-lhe vindo comer ainda. Devia ser outro poder das asas, afastava os predadores. tomavam-no por ave? Teria se transformado em ave? Uma ave sem pernas? Sem penas? Com o escurecer, aprendeu o que é o frio. Com a noite, o que é solidão. No mar, você está sempre envolto pela água. A temperatura é mais ou menos constante. É como uma mão, um abraço, um colo. Ali, não há nada além do chão frio.

Com o amanhecer, conheceu o alívio. Levou três dias até o alto. Faminto, não sabia o que comer do caminho. Talvez as asas lhe dessem também o poder de comer o que os pássaros comiam. Mas não lhe deram o de encontrar e reconhecer essa comida. Não havia porque se preocupar em comer agora. Comida pesaria na barriga, dificultaria o vôo. Barriga vazia deve voar melhor. Se não conseguisse voar, se caísse e se esborrachasse, não seria a barriga cheia que o salvaria. Será que foi isso que aconteceu com a ave de quem pegou as asas?

Lá no alto, chegou-se a beira da ribanceira. Olhou para baixo, o verde, plantas, árvores, depois a areia da praia. Depois as ondas. Ao fundo, o mar. O mar, seu mar. A água conhecida. Olhou, pulou, de asas abertas, sem saber se conseguiria. Sem criar coragem. Coragem pra quê? Não faria diferença ter coragem ou não. Ele saltaria mesmo. E saltou, sem a coragem. Aproveitaria o que viesse. O vôo ou a queda livre.

Planou. Sem mexer as asas, conseguiu planar parecido com como os urubus faziam. Logo perdeu altura, caia suave, aos poucos, aterrisou, na areia da praia, antes do mar.

Subiu de novo. Algo havia de errado. Pelo caminho, olhou os urubus. Eles se inclinavam para subir, para descer e para virar. Daí mais três dias, quando chegou de novo ao alto, tinha na cabeça o que fazer, como fazer. Na beirada da ribanceira, teve medo. Dessa vez, teve medo. Não de se machucar. Teve medo de errar e de ter que subir tudo de novo, mais três dias. Prestou muita atenção antes de tentar. Criou coragem, coragem de tentar e talvez errar, e pulou.

Planou de novo. Foi atrapalhado tentar até conseguir. Nunca havia imaginado que o ar pudesse se parecer com a água e apoiar o corpo, as asas, servir de guia. Antes de perder metade da altura, conseguiu subir de novo. Subiu mais. Ganhou o mar. Errou uma curva, acertou outra. Retornou para sobrevoar a terra. Deu algumas voltas na ilha, por uma manhã inteira talvez, até sentir-se confiante. E foi embora.

Voou dois dias de mares.

Chegou a um grupo de ilhas. Algumas iguais à sua. Outras maiores, outras menores. Umas que eram só uma pedra. Uma grande, que parecia não ter fim.

Viu plantas, árvores e rios largos, tão largos que pareciam o mar.

Viu gente plantando na areia e nas pedras.

Viu guerra num campo verde.

Viu cinco homens esfolando uma foca, numa praia gelada. Uma praia só de neve e gelo. Cercados por outras focas, que os olhavam de perto sem medo.

Viu uma floresta cortada por vales. E nos vales, rios de água prateada, espumosa, alimentados por cachoeiras que se atiravam da ribanceira, como ele se atirou para voar.

Viu montanhas altas onde, voando, pode subir sem esfolar a barriga. E, do alto da mais alta, viu o mundo todo.

Voltou e pousou numa ilha. Uma que tinha também uma montanha de uns trezentos metros, com uma ribanceira, como a ilha de onde começou seu vôo. Não sabia se era a mesma. Tinha visto tanta água e tantas ilhas iguais, de lá do alto. Desacostumado, a visão extensa lhe tirou a referência. Estava perdido. Mas era uma ilha, como a sua de partida. E, se era igual, lhe servi igual. Pousou, no alto da montanha igual, que poderia mesmo ser a mesma.

Pousado, descansando, deixou-se ficar à beira da ribanceira. Se tivesse pernas, sentaria com elas balançando ali. Olhou as árvores, iguais a tantas, e ao fundo, o mar, o oceano, a água, como tanta água.

Estava cansado, mas não exausto. Triste por algumas coisas que viu, mas feliz por tê-las visto todas.