Aziago

Parecia que a vida estava dando a guinada que ele tanto queria. Aos poucos. A última semana e, em particular, os últimos dois dias tinham ido muito bem. Tinha uma confiança nova, insensata mesmo. Dormir voltava a ter gosto. Sonhar também. E sonhava, muito.

Dia de acordar mais tarde para o trabalho, e sair mais cedo. Evento do departamento. Tomou banho com calma. Tão difícil poder tomar banho com calma pela manhã. Aparou a barba. Lembrou-se dos comentários do colega sobe seu excesso de perfume. Exagerou mesmo assim. Tomou café na padaria. Sente-se como rei quando toma café na padaria.

A agenda do dia tem pouca coisa, mas o suficiente para lotar o expediente mais curto. Resolve os dois problemas que reservou, conhece gente nova. Adianta uns documentos para a próxima semana. Estranha a colega que ele não encoste quando precisa digitar algo em seu teclado. Estranha, mas não pensa muito nisso. Lembra-se que não a cumprimentou hoje com o seu tradicional beijo na testa. Os colegas tradicionais ele costuma apertar a mão, beijar o rosto das meninas, sem encostar o rosto nem o lábio na bochecha, como elas fazem. Mas os colegas estimados, os amigos ou quase, ele faz questão de abraçar e sorrir,mas garotas, beija a testa. É o mais velho da equipe, bem mais velho, permite-se tratá-los assim. Não se lembra porque pulou o beijo dela, mas já passou. Agora não seria mais um beijo de bom dia. Não almoçaram juntos.

No almoço, outro colega comentou que o namorado dela anda pegando no pé, ciumento. Por isso ela não vai ao evento. Pensou num filho da mãe que, ontem, olhou para os dois e deu risada sem motivo. Odeia fofoca, mais do que odeia esse filho da mãe. Sexta-feira é dia de peixe, a melhor comida que existe. Pediu muito mais do que consegue comer e desperdiçou a salada toda. Fingiu que foi porque o peixe quente a estragou.

Ficou feliz dos amigos colegas quererem parar para um café na volta. Sabia que alguns deles queriam fumar. Ele não, só fuma um charuto, de vez em quando, dois ou três por ano, em ocasiões especiais. Disse-lhes que fossem para as mesas de fora fumar, lhes levaria o café. Cumprimentou a menina bonita e quietinha que fica no caixa à tarde. Perguntou pela amiga morena, que sempre lhes faz o café. “Tua amiga não veio?” “Ela saiu ontem. Discutiu com o gerente… Eu faço o café, mas não da pra te dar atenção que estou trabalhando sozinha até contratarem mais alguém.”

Ele ficou triste, levou os cafés, que tomou com os amigos. Desta vez não participou da conversa, pensativo. Gostam desse horário do café para alinhar as atividades e trocarem informação sobre as especialidades de cada um.

Depois do café, foi ao banheiro. Não era sua vez de pagar. Na saída, deixou dois cartões de visitas com a menina do caixa. “Quando ela aparecer, diz pra falar comigo. Você também, quando puder.”

A tarde não foi mais a mesma, nem o caminho de volta. Pensou na terapia, que não teve essa semana, e na academia, que faltou na quarta-feira. Queria faltar hoje também. Pensou em como estava avoado e não prestaria atenção, atrapalharia os outros. Não, não atrapalharia, queria uma desculpa para não ir.

Chegando em casa, deitou-se na cama, abraçado ao travesseiro. Sempre abraça o travesseiro. Desta vez não quis ligar a música, nem sonhar. Não conseguia saber o que queria ouvir. Eram sete e meia ainda. Só tinha vontade de dormir e nem sabia se queria se levantar amanhã.

Lembrou-se de um amigo antigo que, nessas horas, o chamava para dividirem uma bebida e um charuto. Não podia beber pois estava dirigindo. Saiu, comprou um vinho, para depois, à noite, sozinho em casa, e um charuto. Passou em frente à vitrine de lingerie. Um modelo chamou-lhe a atenção por ser muito simples e, por isso mesmo, muito bonito. Outro, por ser extravagante demais, chegou a achá-lo ridículo mesmo. Lingerie lhe lembrou café da manhã, e ele se lembrou de ir.

Procurou uma cadeira ao ar livre no café, pediu seu chá. Sentou-se, acendeu o charuto! com dificuldade por causa do vento, mais gelado que seu chá. Dessa vez, o frio não o deixou mais triste. Levantou o rosto para a primeira baforada e, nisso, deu de cara com a lua, crescente, já mais da metade cheia, bem em cima de si. O céu completamente limpo. A bosta do charuto nunca lhe soube tão bem.

Percebeu que o melhor que fazia era ficar ali, quieto, sozinho com sua lua, parado. Abriu o caderno, pegou o lápis e ficou… pensando… e pensando em como contar como se sentia.

Afoguei-me

Afoguei-me,
completa e inevitávelmente,
no castanho de teus olhos.
Eles não têm outra culpa
que estarem no rosto onde estão,
iluminarem teu sorriso,
que de tudo é a luz.
Porteiros que são de tua alma,
deixam-me vê-la de longe.
Ao aproximar-me,
envolvem-me como uma onda alta,
fluida, morna, aconchegante,
do oceano castanho que me encanta.
Desmaiando de conforto,
pareço perder a consciência
que não tenho.
Imagino o azul,
do céu lá fora,
a luz e o calor do sol
que ilumina o dia.
O resto do mundo nesse azul triste.
Eu aqui, feliz, envolto e embalado,
pelo oceano mais lindo que pode existir.
Quando meus olhos se fecham,
é porque, ofuscados,
não sei mais se este calor
que sinto na pele,
é meu ou teu.
Tenho medo de abri-los
e descobrir que não somos um só.
De olhar para o lado errado,
ver algo mais,
talvez o azul do céu,
e esquecer,
por um instante que fosse,
o lindo castanho
onde amei me afogar.

 

Desencontro

Pareciam feitos um para o outro. E é o que diria quem os visse ali, jantando, discutindo o filme que veriam juntos daí a pouco. Pratos já vazios, mãos pousadas sobre a mesa, brincando com os pés dos copos do vinho que bebiam. Os copos um ao lado do outro, as mãos quase se tocavam.

Era aquele momento, vocês sabem, aquele capítulo da novela, quando o casal ainda não sabe se os dois estão pensando a mesma coisa. Se o outro quer o mesmo. E perdem tempo rodeando. Estão os dois agora fantasiando juntos as mesmas coisas, com medo de tentar o próximo passo, o óbvio, que ainda não estão na sala do cinema. Lá na sala o passo óbvio será ainda outro, o abraço de sofá, o beijo. Aqui é apenas as mãos se tocarem e um deles dizer um “Te gosto muito”, ou mesmo um mais discreto e enigmático “Que bom você estar aqui comigo”.

O protocolo não estabelece formalmente de quem deve ser a iniciativa, mas ele se sente, orgulho besta de homem, em obrigação. Tímido, e muito tímido mesmo, pensa rápido em o que pode dizer sem se expor muito. Besteira temer se expor. Quem o olha de fora sabe o quanto já está exposto. E, se ela não merecesse essa exposição, melhor não estarem ali.

Ele não consegue pensar na frase. Chega o silêncio, de alguns segundos, parece muito. Encabulado, ele olha para a toalha. No íntimo, está apavorado, fugiria. Fugiria mesmo sabendo que se odiaria para sempre. Olha a mão dela e pensa em como poderia pegar-lhe os dedos, um carinho discreto.

Um barulho do lado de fora lhe chama a atenção. É uma chuva forte, de verão, mas com frio e ventania. Admira-se. Um homem, de charuto aceso na mão, está encostado ao vidro que dá pra mesa deles, tentando se proteger da chuva. Ele se lembra de que tem de falar algo. O silêncio é mais apavorante que o medo da rejeição. Não, de jeito nenhum, não vai falar do tempo de jeito nenhum.

Ele achou então que já havia deixado passar o bonde, o momento. O longo silêncio fez parecer ridícula qualquer coisa que ele dissesse. Fingiu um súbito interesse e perguntei-lhe algo sobre os problemas com o ex. Ela respondeu, decepcionada pelo assunto não ser o que queria. Percebia-se que não se interessava pela conversa. Ele insistiu. Aos poucos a conversa engrenou-se, infelizmente, por esse caminho. Distraíram-se.

Na poltrona do cinema, depois, no escuro, faltou o óbvio. Porque já não era mais óbvio. Ela também, decepcionada, mas tão culpada quanto, já não queria mais. Não queria alguém assim. A princípio, apenas por decepção, porque preferisse alguém diferente. Depois, a decepção virou raiva, indignação por sentir-se desfeita. Contrariada, a raiva soube-lhe suficientemente bem.

Ele demorou mais a entender o que aconteceu. Quando se tocou, percebeu que ela também não era como ele queria. Lamentou não ter rolado mais nada naquela noite. Afinal, tanta coisa rola com tanta gente, tantas noites, e é bom, mesmo que não dê certo no final. Mas achou melhor não terem continuado. Vai saber em quê daria esse relacionamento que, de forma alguma, daria certo…

Sem nem combinarem, por coincidência, nunca mais tentaram se encontrar.

Outro Diálogo Impromptu

“Senta aqui do me lado.”

“No chão?”

“No chão.”

Ela se sentou, não se importava em sentar no chão. Perguntou por perguntar. Ele gosta disso.

“Pega.” Ofereceu-lhe uma fruta e um copo de suco.

Ela pousou o copo no chão, a seu lado, e segurou a fruta para comer.

“Não come ainda. Atrapalha beijar.”

“Beijar?” Ela riu da cara de pau dele.

Ele pôs-lhe no rosto, do lado oposto, a mão, cobrindo a bochecha e a orelha. Aproximou-lhe o rosto do seu com carinho e beijou-lhe a bochecha do outro lado, o que estava mais perto de si. Teve de se torcer um pouco para isso, o beijo saiu meio torto. Sem querer, muito perto da orelha. O nariz tocou-lhe os cabelos no começo do pescoço e ele sentiu o cheiro gostoso de seu perfume. Esse perfume lhe fez pensar. Ele demorou um pouco nessa posição, mas só pensava. Achou então que havia passado do limite, e a soltou.

Ela quis fazer-lhe graça, ou provocar, ele não tinha certeza: “Achei que era outro tipo de beijo.” Sorriu sapeca.

Ele então se inclinou em sua direção, abraçou-lhe a cabeça com as duas mãos. Trouxe-lhe o rosto junto ao peito e ao pescoço. Deitou sua cabeça sobre a dela. Muito rápido, afrouxou o abraço. Antes de soltá-la, ainda abaixou um pouco sua cabeça e beijou-lhe a testa, queria falar algo e não sabia o que.

Quando a soltou e se sentaram novamente como antes, olhando o jardim, ele ainda achou que tinha que completar: “Eu também achei.”

O que poderia ser uma entrada de diário se eu tivesse um diário.

Sentenced to drift far away now,
Nothing is quite what it seems,
Sometimes entangled in your own dreams.
Genesis, Entangled, 1976

Na saída da academia, eu não queria voltar direto pra casa. Queria ver gente, algo bonito que me encantasse.

Essa pra mim normalmente é a deixa para tomar um café. Mas minha vila é muito residencial e a vizinha, onde fica a academia, tem bares, não café. Não quero beber. Até tem onde tomar café. Mas o que quero é gente, coisas acontecendo.

A Paulista é perto. Hoje vim de carro. Rapidinho chego no meu café preferido. Acho que é o preferido. É gostoso lá.

Iced TeaO caminho foi super-tranquilo, pelo Pacaembu, ainda bem que é segunda-feira, não tem futebol. Consegui fácil um lugar pra estacionar, quase em frente ao café. Será que já vai fechar? É segunda-feira. Será que fecha às dez? Queria escrever algo, ter tempo de escrever algo mesmo que fosse no celular.

O adesivo na porta, com os horários, diz que fecha as onze. São nove e meia. Talvez dê para comprar lápis e um caderno na papelaria para escrever algo a mão. Faz tempo que não escrevo algo a mão. Quero aprontar uma arte. Tive uma idéia.

Tudo muito perfeito. Livraria aberta, comprei um lápis, dois, para se quebrasse a ponta, com borracha embutida, uma caderneta igual à que carrego na bolsa, na bolsa que não está comigo hoje, trouxe só a mochila fedida do quimono.

Voltei pro café e nem tinha fila. Peguei um suco de laranja pra matar a sede de carboidratos. Glicemia caiu na academia, cai sempre, como pouco açúcar. Pedi também pra me fazer um chá verde. Chá verde tira a fome. A moça do caixa me reconheceu e brincou: “Que triste tomar café a sozinho!” Sorri. “Vim pela companhia de vocês.” Ela não devia ter brincado, mas não fez por mal, realmente ali eu destoo. Quase só há casais.

A menina que fez meu chá também me reconheceu: “Se quiser mais gelo, bebe um pouco e volta aqui.” Agradeci. Acho que estou tomando muito chá aqui.

imagesGosto de sentar com meu copo na varanda, ao ar livre. Mesmo com os fumantes por perto. Já não me incomodam mais. Aprendi a evitar o vento que traz a fumaça deles.

A varanda foi feita para eles, para os casais deles. O intruso sou eu.

Varanda quase vazia. Só os sofás, cobertos por guarda-sóis, ocupados, por casais. Deixá-los, merecem. Fico com uma cadeira, no canto, bem no canto, discreto. Lá posso ver tudo.

A minha é uma das únicas mesas ocupadas. A outra é praticamente ao lado. Três mulheres conversam. Duas garotas novinhas e uma senhora. Não parecem ser família.
Abro a caderneta, olho pra cima. Uma estrela apagada no céu de São Paulo, entre os prédios. Presto atenção até achar outra. Achar não, ela é quem me acha, aparece sozinha. Encontro outra e outra e outra e mais duas brilhantes. Conto até mais de dez. Não quero mais escrever a mão. O que vou aprontar naquela caderneta, apronto depois.

Pego o telefone pra publicar algo e pulo para a cadeira do lado, fora da luz, pra ver melhor as estrelas.

Abro o editor e começo a escrever. Percebo que, mudando de cadeira, fiquei bem de frente para uma das garotas da mesa do lado, é bonita. E me olha. Não planejava isso.

Entangled, by Kim PoorReveso entre olhar o céu e escrever. A garota conversa com as amigas e me olha, mexe nos cabelos, a palma da mão virada para mim. Parece aqueles sinais que ensinam em treinamento sobre linguagem corporal. Acho legal, mas as estrelas, no céu feio de São Paulo exigem atenção para serem vistas, e são tão bonitas!

Preciso dar-lhes essa atenção, me encantam. Como me encanta escrever sobre elas. A garota, sei que me arrependerei de não lhe dar atenção igual. Mas também sei que não é ela o que eu quero, muito menos o eu vim procurar e achei, quase sem querer, olhando para cima.

Queria estar no alto do maior dos prédios e sentir bater em mim o mesmo vento que bate naquelas estrelas. Sentir-me içado a elas como pipa, imaginando quem, eu mesmo?, seguraria a linha lá embaixo.

Noite de Domingo

Eu me sentei no sofá com o notebook no colo. Demorou para funcionar a wifi, fiz uma gambiarra besta pra funcionar, nem parece que trabalho na área. Abri logo na lista dos meus rascunhos, queria terminar o que eu trabalhei à tarde, no teatro e no café.

O rascunho estava longo já, e nem tinha todas as idéias. Levou umas três horas pra ficar assim. Ia precisar de, ao menos, mais umas quatro ou cinco pra terminar. Não ia conseguir terminar hoje. Preciso dormir.

Olhei as últimas publicações. Não publiquei nada esta semana, só umas notas, sobre dois discos. O último texto mesmo já tem uma semana e foi algo que eu escrevi no cafe, de improviso, também porque estava chateado de não ter o que publicar.

Os últimos dias estão já naturalmente corridos e eu ainda resolvo desenterrar minha lista de coisas por fazer e esgotar de vez minha agenda terminando-as.

De volta aos rascunhos. Eu precisava terminar algo. Tenho uns cento e cinqüenta rascunhos. Coisas que quero elaborar. Olhei os últimos, nada que pudesse ser trabalhado com pressa. O da tarde estava bom, os outros iam no mesmo raciocínio. Não queria fazer corrido, mal-feito, mas não tinha tempo para fazer como gosto.

Fiquei chateado. Cercado por uma coleção de rascunhos inacabados. Mais de cem rascunhos, mais de cem assuntos, inacabados. Não sei por quê, mas este blog não pode ser outro assunto inacabado. Ainda não sei.

Os outros rascunhos, alguns não sei terminar, outros me deixaram triste. Os mais antigos, sei que nem adianta olhar.

Lembro que lotei minha agenda para a semana. Não vou ter tempo pra nada, ao menos até quinta-feira. Quiçá nem na quinta-feira mesmo. Fico num desespero infantil. Quero algo pronto agora! Não terei.

Enquanto espero a máquina de lavar acabar com a minha roupa de amanhã, tenho tempo só de escrever o que acho que aconteceu. O porquê de eu postar só esta nota, sem história, sem moral, sem graça.

 

 

Blind to the Beautiful – Fish

Feast-of-Consequences-sm_0

And I stopped believing in miracles a long long time ago,
I lost my faith and I sacrificed my soul

Algum filho da mãe tentou fraudar meu cartão de crédito pra comprar passagens de avião. Por isso o banco o bloqueou e o pagamento do iTunes Store ficou pendente até a semana que vem, quando eu vou receber o cartão novo.
Muito grato à Apple, que deixou o pagamento pendente e me entregou as músicas, pude ouvir estas últimas duas semanas, algumas vezes, revezando com outros que comprei junto, o novo disco do Fish, A Feast of Consequences.

É claro que eu adorei!

O primeiro single, e acho que também o primeiro vídeo, lançado para a promoção do disco (CD também é disco, e AAC fica guardado no HDD que também é um disco) é Blind to the Beautiful.

Muito adequado para este fã que a cada dia mais se aproxima da misantropia.

Anthem

Depressão, ou melhor, estar deprimido, porque depressão hoje é doença, não se pode usar a palavra em qualquer contexto que já nossos amigos nos querem levar ao psiquiatra. Estar deprimido é algo que toma a gente de forma estranha. As primeiras partes do corpo que caem por terra, vencidas, são o ânimo, o entusiasmo. Se houver ao menos revolta, raiva para se insurgir, o animal revida, contra o que estiver em seu caminho, à sua frente, dentro de si, ou contra si. Se não, a chuva escorre, do céu para o rio, para o mar, e evapora, para o céu de novo. A chuva, o rio, as nuvens… a água não sente.

Por anos, ouvir música foi para mim um mergulhar em sentir. Sem ter motivo ou animo para sentir, a experiência do som, as imagens criadas na mente, me levam para onde não posso estar, trazem lembranças que não tenho. Pintam o quadro da imaginação e me levantam da cama e da poltrona sem sabor, onde depois me sentarei de novo para escrever, me deitarei para sonhar. Eu não posso abandonar a música, de jeito nenhum.

Mas há momentos na vida em que os ouvidos parecem tão entupidos, a cabeça cheia, o coração surdo, os olhos encharcados cegos ao som e sua cor, que a música não entra. Bate n’alma, na alma feita refratária, e volta ao espaço. Ecoa. Perde-se na distância, enfraquecendo aos poucos. Nesses momentos, a cama e a poltrona não são mais que o chão ao fim da queda. Não há sonho, só o eterno acordado olhar o teto, sem sono. Nem sonhos para depois escrever.

Houve um tempo em que o cinema era para mim como a música. Não me convém agora tentar entender e teorizar sobre o porquê. Nem tentar recordar quando e por que esse tempo acabou. Mas o cinema não tem a mesma poesia da música. O quadro pintado no cinema é visível. Por mais nuanças que fiquem subentendidas, o sonho que você vê não é o seu. É o de alguém que trabalhou para te mostrar como é o dele. O sonho contado não mostra tudo, só o essencial. O resto é seu. O cinema é uma sala escura onde vestimos os olhos de outra pessoa.

E é engraçado eu falar em poesia na música porque poesia é uma coisa da qual eu nunca gostei. Não vejo sentido nas frases montadas quase ao acaso, forçadas, para conseguir uma rima. O que tem de ser dito deve ser dito como é, não alterado, rodeado de ruído para rimar, para soar bem. A verdade não tem de soar bem. Tem de ser como é. Cinema não tem poesia. Ele é como é. A imagem está ali, o som também. Não há muito o que completar.

Foi num dia, numa tarde, assim de apatia, comida sem sabor, música sem poesia, lápis calado, papel em branco, que entrei no cinema pouco depois do almoço. Sessão da tarde. Coisa de adolescente desocupado. Antes fosse, eu era um adulto desocupado, e isso é imperdoável.

Eu não procurava poesia, acho que não. Só queria um lugar para descansar, uma vida passando na tela na minha frente para eu ver sem pensar. Sem efeitos especiais, sem som alto. A poltrona, um copo grande de chá gelado e um filme, bem ao estilo sessão da tarde, no escuro do cinema, sozinho na minha casca ranzinza.

O filme foi uma grata surpresa. Gostei, logo de cara. A música, o céu nublado, o caminhar do protagonista, suas descobertas. Sua descoberta. Duas pessoas conversando sobre a vida no barco calmo no lago. Estava eu aí já solto, descansado. A personagem tinha também sua casca. E falando da casca, então, a frase que eu nunca ainda havia ouvido:

There’s a crack in everything. That’s how the light gets in.

Frase simples, óbvia. O filme, que eu estava gostando bastante, não terminei de assistir. Jurei voltar no fim-de-semana para terminar. Já se passaram três e, mesmo querendo muito assistir, preferi outros, nenhum melhor que ele. Mas a frase guardei. Ainda no cinema, peguei o caderno de dentro da mochila, um toco de lápis, e, no escuro, sem ver o que escrevia, anotei para pesquisar depois. Não precisava, ela latejou na minha cabeça várias vezes até o final do dia.

À noite trabalhei. Nem tinha muito o que fazer. Trabalhar à noite é assim. Precisava encontrar com quê me distrair para não pegar no sono. Procurei sobre a frase. Foi a primeira vez que vi uma letra de música de Leonard Cohen. Procurei ouvi-la. Estranhei. Procurei outras. Li sobre ele. Poeta, a certa altura começou a musicar alguns de seus poemas. Por isso é tão diferente.

Li mais textos dele. Comprei um disco para ouvir no carro. Ouvi também, na semana seguinte, no trabalho. Mostrei para alguns colegas, poucos gostaram ou disseram gostar. Alguns disseram que não é música, que parece falado, recitado. Eu também estranhei isso quando ouvi a primeira vez. É uma recitação cantada, um falar cantado, me lembra o modo como alguns padres dão a missa.

Não é só que eu nunca tenha gostado de poesia, de lê-las. Algumas vezes tentei escrever alguma para ver no que dava, tentar pegar gosto. Também nunca consegui. Nunca consegui nem saber de que jeito queria que as minhas fossem. Brinquei várias vezes tentando fazê-las e sempre odiei o resultado. Na escola, quando obrigado a escrever uma, invariavelmente me envergonhava do resultado, mesmo que a nota fosse boa e a professora elogiasse.

Das dele gostei. Procurei mais. Achei músicas, poemas sem música, voz. Voz de gente, lendo seus próprios textos sem presunção. Achei algumas coisas que eu sempre quis dizer, e outras que gostei de que haja quem as diga, ditas sem mais forma que o dizer. As rimas, os versos, discretos, não me chamavam a atenção. São textos com ritmo, alinhados ao da música simples.

Se eu tivesse conhecido isso antes, talvez não gostasse. Talvez mesmo haja momentos certos da vida para se aprender a encontrar a beleza de cada coisa. Ouvi e li muito nos últimos dias, nas últimas duas ou três semanas. Já estou entendendo que, se eu gostar de poesia, é daquela, pois é assim que eu gostaria de as escrever.

 

Cantar

Eu nunca tive jeito para cantar. Gosto de música, mas não tenho o mínimo jeito de agradar alguém cantando. Gostaria. No momento do carinho, beijando o pescoço, cheirando os cabelos, o próprio pescoço, fingindo que não quero a boca, descansando as bocas de tanto beijar devagar, encostar as bochechas, o nariz na orelha, a boca perto, cantar baixinho, só pra ela ouvir, uma música que me emociona, que tenha uma mensagem, uma frase, que eu quero que ela ouça. Acho que, no máximo, conseguiria com isso uma risada carinhosa.

Queria entender de música, ter jeito para compor uma, uma simples, tinha de ser simples, músicas simples dizem mais, violão, contrabaixo, adoro contrabaixo e voz. Escrever a letra casada com a música. Ensaiar e lhe cantar a música que lhe fiz, pra lhe dizer o que ela sabe, mas gosta de ouvir de novo.

Se não consigo fazer uma música, podia cantar de outro. Havia de ser sincero, ela saber que não é minha. Saberia. E eu imaginaria seu sorriso escondido em meu ombro. Disfarçaria minha timidez escondendo meus olhos em seus cabelos. E teria mais dificuldade de cantar, um nó na garganta, feliz, satisfeito de agradar, se ela me abraçasse mais forte quando percebesse que o som que faço com a boca é cantar-lhe uma música que acho bonita, que queria te sido eu a lhe escrever.

Pôr minha num papel de carta, envelopar, selar-lhe com um tímido beijo de carinho. E tentar postá-la a seu coração.

IMG_0126.JPG

Lógica Infantil vs Estratégia Materna

“Se você não se comportar, não vai ganhar nada no Natal. Papai Noel não traz presente pra quem faz mal-criação.”

Pausa.

“Você está chorando por quê?”

“Porque eu não vou ganhar presente de Natal.”

“Só se você fizer mal-criação.”

“Mas eu vou fazer.”