007

Boa noite, pois não?

Oi, boa noite. Eu quero o “007”.

Desculpe, a última sessão começou há quarenta minutos. O senhor tem certeza?

Sério? Eu não reparei. Agora não sei. Deixa eu ver outro… Ih, eu vou atrapalhar tua fila.

Não, não vai, pode escolher. A esta hora já não tem mais fila.

Não sei, você me ajuda? Qual você assistiria.

Eu? Eu nao sei também.

Me ajuda a escolher.

Ah, eu já assisti quase todos. Quando fecha a bilheteria, depois de começar a última sessão, eu entro escondida numa sala e assisto. Perco o começo do filme, uns vinte minutos.

E você trabalha em todos os dias em que tem sessão, né? Folga em que dias? Deve ter algum em que você sai mais cedo…

É sim. É o ruim de trabalhar aqui. Folgo segunda e terça. Sair mais cedo, só na quarta e na quinta. Ah, e no domingo. Não têm as últimas sessões porque o dia seguinte é de trabalho.

Então ninguém te convida pra ir ao cinema…

Não convida, não rs

Este filme aqui, você viu? Gostou?

Eu gostei sim, é muito bom! Mas não tem mais sessão hoje.

Você não está me enganando só porque trabalha aqui? Gostou? Tem música. Você gosta de jazz?

Eu não conheço, não tenho costume. Mas às vezes, quando ouço num filme, gosto.

Hmmm, escuta. Eu conheço um lugar muito legal pra se ouvir jazz de quarta e quinta. São os dias em que você sai mais cedo. Que tal?

?!?!?!

Vamos lá, teu horário já está acabando.

Mas você não ia assistir um filme?

Quando eu vim pra tua bilheteria, já sabia que não tinha mais nenhum…

Concerto

Quando a convidou, não sabia se ela gostaria. Música é uma experiência muito específica. De todas as formas de arte, é a que mais depende familiaridade. É raro uma pessoa gostar de um tipo de música com o qual não está familiarizado. Demora a encontrar padrões, a reconhecê-los. Ela aceitou. Ele também, escolheu um concerto com programa que parecesse mais palatável. Há coisas a que ele assiste sem ele mesmo saber se vai gostar. Não iria fazer isso com ela. Procurou um programa com temas mais conhecidos, e românticos, para não ser cansativo.

Ela veio bonita. Ou melhor, com roupa e produção bonitas. Bonita ela já é. Mas o vestido preto, esse tecido lustroso que ele não sabe o nome, o penteado, que ele também não sabe o nome, com os cabelos presos para trás, mostrando as orelhas e aquele pedacinho de pele entre os cabelos e elas, o batom e as unhas vermelhos escuros. Coisas de dia-a-dia, mas mereceram um brinde com champanhe no foyer. Fizeram jus a todo o esplendor dela.

As cadeiras não são confortáveis como as de cinema. Quando a luz foi apagada, não dava para ficar de casalzinho igual no escurinho do cinema. Ficaram eretos, precisavam mesmo, para enxergar direito o palco, os músicos.

Ele se distraiu com a música, afinal de contas foi para isso que vieram, na primeira peça e no começo da segunda. Uma nota mais estridente lhe lembrou de olhar descaradamente para o lado e tentar descobrir se ela parecia estar gostando. Ela sorria. Quando viu que ele lhe olhava, olhou para ele, com o mesmo sorriso, depois de novo para o palco.

Ele gostou. Quis fazer algo. Não sabia se lhe fazia um carinho no rosto, no braço. Se lhe beijava o rosto, a orelha, aquele pedacinho atrás da orelha. Não era bem isso o que ele queria transmitir. Apenas pousou-lhe a mão por dentro do pulso e deixou que ela lhe desse a sua. Ficaram com as mãos dadas no colo dela. A dele entre as duas dela. Ele só queria isso, saber que o sorriso dela estava ali a seu lado.

Mais um Bilhetinho

Eu quando estou muito ocupado, e tenho pouco tempo para escrever-te, parece mentira. É exatamente nesses dias que, por coincidência, pareço mais cheio de idéias para elaborar e trabalhar em longas cartas que demorarei para despachar-te. Isso me aflige de uma maneira que sinto-me incompetente de não conseguir, nessas horas, ser sucinto em algum assunto, uma mensagem, que seja sincera, mas curta.
Gostava de que você conseguisse seguir meus pensamentos. Saberia que eta sempre neles, que não param. E que você se envolvesse por eles. Como nos envolvemos. Como se envolvem nossos dedos. Como os trançamos, de mãos dadas. E trançamos nossos braços e envolvemos nossos corpos e nossas consciências. Quando estamos juntos e sozinhos.
E queria que você pensasse assim junto de mim. Porque é assim que penso em você sempre.

Coisas Pequenas

Pela reação exaltada dele, era de se esperar que a dela fosse igualmente nervosa, violenta mesmo, como é de seu costume, carregada de raiva pela repreensão. Pelo contrário, estava visivelmente surpresa. Parada, sem reação. Não entendia como ele tomou por tanta ofensa algo bobo assim. Já logo esse pensamento foi que lhe deixou indignada e com raiva dele.

“Tanta coisa por isso?”

Ele, surpreendido também, não pela frase dela, mas antes por perceber que ela não entendia sua revolta, não soube o que responder. Não soube nem mesmo se respondia ou dava-lhe as costas e ia embora por ter ficado sem palavras. Sentiu-se envergonhado disso. Num primeiro instante, que não foi tão instantâneo assim, sentiu-se reclamando por pouco, sem razão. Era mesmo coisa pequena, ele percebeu. E se lembrou que isso já lhe aconteceu antes, que já se sentiu assim antes. Que muitas vezes deixou passar coisas grandes para depois perder a paciência e as estribeiras com besteiras. Engolir elefantes para engasgar com ratos.

Só que desta vez, algo, alguma coisa que ela disse, que ela fez, ou o modo como bateu o vento, ou o cheiro que vinha da chuva, algo que ele não sabia o que era, lembrou-lhe o sentimento de minutos atrás, de quando perdeu a paciência, e ele, de perplexo pela lógica de ter estourado por pouco, lembrou-se da indignação dos motivos passados e se revoltou de novo, se emocionou e ficou mais triste ainda que antes.

“Parece besteira, e talvez seja pra você, mas é importante. Tudo é importante. Essas coisinhas, coisinhas pequenas, de nada, são importantes. Por que é tudo feito disso, de coisas pequenas. Se a gente descuida delas, descuida de quase tudo que existe. Não é só isso, só essa coisinha, são todas. É isso e todo o resto. Essas coisas pequenas são grãos de areia numa ampulheta. Já grãos demais para que o tempo ande.”

Coisas pequenas são coisas pequenas.
São tudo o que eu te quero dar.
E estas palavras são coisas pequenas que dizem que eu te quero amar.
Madredeus, Coisas Pequenas

Diálogo Impromptu

“Sabe o que é o pior da vida? Ela é longa demais…”

“Mas você, agora mesmo estava reclamando dela ser muito curta.”

Ela riu de ele ainda não tê-la entendido. Inocente o menino ainda. Alisou-lhe o cabelo com a mão e riu antes de falar.

“A vida é curta demais para se aproveitar. São poucas oportunidades, não dá para desperdiçá-las. Quem erra não tem muito tempo para consertar. Menos ainda para tentar de novo. Você tem de fazer as coisas bem feitas sempre, com cuidado. Ninguém sabe se vai ter uma segunda chance.”

“Mas então, decida-se, é curta ou longa?”

“É curta para tentar. Mas é muito longa para lamentar. Você vai ver que não dá muito tempo para fazer. Mas, depois de feito, é muito tempo para viver a coisa mal feita.”

Mesmice 847

Eu quero pegar uma bebida, mas primeiro vou ao banheiro. Tem graça depois ir ao banheiro de copo na mão. Desço a escada para o banheiro já pensando na fila, mas não há. Claro, não há fila, mas o chão perto do mictório está todo mijado. Eu tento fazer o meu xixi direitinho, dentro da cuba do mictório, de perna aberta e na ponta do pé para pisar o mínimo possivelmente dos outros. Estes banheiros são assim. Sorte minha ser equipado para mijar em pé. A torneira está ruim. Tenho de apertar umas três vezes para conseguir lavar as mãos. Este sabão não vou usar, tem cara de ser fedido. Não tem toalha de papel e daquele secador eu não gosto. Seco as mãos nas calças mesmo, enquanto subo a escada.

Agora sim a bebida. Aqui ao lado o pessoal faz um chá gelado muito gostoso. Eu pego dois copos, dos maiores, de chá verde, ajuda a emagrecer. Vou esperar o gelo derrete antes de beber, pra ficar bem gelado.

Faz parte do plano não almoçar nem jantar. Mas tem o balcão da padaria. Eu adoro pão. Pego um que vale por dois. O os dois copos na mão, seguro o saco do pão pelo no, por entre os dedos. Fica firme, mas as mãos cheias chamam a atenção. O pessoal olha pra mim. Dois copões, um pão grande. Não combinam com eu estar sozinho.

Cumprimento o porteiro, já somos conhecidos, todos esses anos… Ele me cumprimenta sorrindo. Desço os degraus e me sento. O saco do pão no colo, cada copo de um lado. Teclo pros amigos onde estou. Teclo no facebook também. Não para os outros. Eu o uso para me lembrar depois. Pego da mochila um lápis e o caderno que cabe no bolso. É no bolso mesmo que os deixo, para se quiser anotar algo para escrever depois. Desligo o telefone. Abro a boca do saco do pão e encosto a cabeça para trás com os olhos fechados.

As luzes começam a se apagar. O filme já vai começar.

Um Parágrafo Inevitável no Café

A lua hoje não estava em seu lugar habitual, sobre mim, em meu céu do café. Ao invés, vi-a pelo caminho. Logo que saí. Vi-a por entre galhos e folhas de uma árvores. Grande, ou melhor, próxima. Bem definida, brilhante, linda de morrer.nem a poluição urbana de fios, postes e aquelas lâmpadas amarelas feias, nem a poluição, foi capaz de lhe ofuscar. Sem nem procurar, era impossível não vê-la. Eu vim para cá. Ela para onde foi? Onde está? Mas cá, está de novo meu companheiro vento, fresco, frio mesmo. Estão meu chá, meu caderno, os balconistas que já me conhecem de nome e sabem meus gostos. Estão os casais de sempre. Não os de sempre, que cada vez são diferentes, difícil de se repetirem. Mas cá estão. E no céu, sobre mim, no céu limpo sem nuvens, não está a lua, só duas estrelas bem distantes, separadas.

Choro

“Você é muito alegre!”

“Alegre? Eu? Imagina. Sou muito chorão!”

“Você? Chorão? Não pode ser. Quando foi a última vez que você chorou?”

“Agora.” Riu. “Estou chorando por dentro.”

Mas riu mesmo e não foi convincente.

“Faz tempo mesmo que eu não choro.”

“Viu? Eu falei…”

“Não, me deixa terminar. A última vez que eu chorei já tem mais de seis meses. Mas não é porque não tenha motivo. Ou melhor, não é porque não tenha algo que, noutros tempos, eu tomaria como motivo para chorar. Eu só… já não ligo tanto…”

“Seis meses não são tanto tempo.”

“Para você não é? Vê-se que você sim é alegre. Pra mim, seis meses sem chorar soam como uma eternidade. Me soa estranho até.”

“E chorou por quê?”

“Não me lembro. Mas todo mundo, se parar para pensar, encontra motivo para chorar.”

“Então você tem motivos…”

“Ah, sim, vários motivos.”

“Então porque faz tempo que não chora?”

“Talvez, já tenha me acostumado… e os motivos já não mais me emocionem.”

“A maior expressão da angústia. Pode ser a depressão. Algo que você pressente. Indefinível Mas não tente se matar. Pelo menos essa noite não.”
— Lobão; Essa Noite, Não

Impromptu

Deve ter algum nome para isso. Não querer sair. Mas sair, de saudade de sair e escrever algo. Pedir a bebida de sempre. Se frustar porque não tem a mesa de sempre. Abrir quase dez textos já começados. Escrever uma ou duas frases em cada um. E fechá-los de novo. Perde uma hora nisso. Fuçar os rascunhos de cima a baixo e não encontrar nada que queira terminar. Nem querer escrever nada novo. A bebida não ter gosto e o tempo passar. Cansar de se esperar.
Na terceira vez em que fuça toda a lista de rascunhos e não encontra nada, se arrepender de já ter avançado tanto nos rascunhos que sabe que sabe não vai, nem quer, terminar. E achar um, já enorme, dos maiores que já escreveu. E ele ainda precisar de muito trabalho para ficar pronto. Não ter vontade de mexer nele, é passado, é de um dia que já passou. Arrepender-se de não tê-lo terminado na época e de haver gasto nele tanto esforço que poderia ser empregado em outra coisa, que fosse acabar.
Achar-se besta por se impressionar com uma coisa assim boba. Fuçar a lista mais uma vez, achar os mesmos rascunhos. Nada vai brotar ali sozinho. Ver aquele ali de novo. Lembrar de seu tamanho e de sua crueza. Olhar para o copo ainda cheio. Depois para cima e ter vontade de chorar.
Abaixar a cabeça e rascunhar rabiscos de pensamentos desconexos só para se saber escrevendo. Deve ter algum nome pra isso.

Post Longo

«Já têm uns 20 anos que eu não venho aqui. Passei na porta algumas vezes, mas não entrei.»

O lugar não tem muro. É cercado por grades. Um portão feio, de grade de metal também está aberto. Só a metade da direita. Atrás da da esquerda, tem um latão grande, alto, de lixo. O lugar parece bem feio, grama mal cuidada. Mato mesmo. Os pedaços de cimento, descascados. Do portão começa uma escada larga, de paralelepípedos, que sobe para o resto do terreno, que é bem mais alto.

Ele subiu a escada e ela foi atrás. Teve medo de algum bicho no mato ou no lixo. As beiradas da escada eram caiadas, os pilares das grades também. Tudo ali é caiado. Caiação velha, mal cuidada, vários pedaços gastos, sujos, lascas de cimento caídas mostrando os blocos e os tijolos.

No meio da escada, um degrau maior, ele parou para ver a quadra de bocha que ficava à esquerda em um pedaço de terreno naquele nível. Ela não sabe de que ele tenha jogado bocha alguma vez. E ele se debruçou na mureta da quadra, de alvenaria caiada também. Mas, por dentro, revestida de madeira velha sem verniz e estragada em vários pedaços, e com piso de terra batida, vários desníveis. Ficou olhando longa e alternadamente pras pontas da quadra, de onde os jogadores lançam as bolas. Não longamente o suficiente para que se achasse que acompanhava uma partida imaginária. Estava avoado.

Ela chegou perto, para ver se ele se tocava de ela não ver sentido naquilo, mas não encostou nele. Nem se encostou na mureta. Tinha medo de se sujar com cal ou poeira.

Depois da quadra de bocha, havia o muro muito alto que dava para a casa ao lado. Entre os dois, mato mal cuidado crescia mais do que o devido. Ele pegou sua mão e voltou para a escada, ela atrás. Não subiram, cruzaram-na. Saindo dessa escada por onde vieram, a partir do degrau maior, mas para a direita, subia outra escada, menor, meia dúzia de degraus, para um prédio térreo.

Subiu essa. No final, uma torneira, ele olhou e pousou a mão na manopla. Depois segurou-a. Foi até a porta do prédio. Olhou os avisos afixados à parede. Olhou para dentro da sala. Ninguém veio lhe incomodar ou perguntar o que queria.

Ladeou o prédio, ladearam, pelo caminho entre ele e a escada maior. Passaram por dois banheiros, ou vestiários, que ele fez menção de olhar mas desistiu, afastado pelo mal-cheiro.

Menos de dez passos mais, e o caminho encontrou o fim da escada maior. Era uma quadra pequena, coberta, mas fechada dos lados apenas por grades. Não tinha entrada direta. Subiram dois degraus que davam para a ponta de uma arquibancada de quatro ou cinco lances, separada da quadra também por grade. No meio dela, junto a um pequeno portão da grade, que dava direto para a quadra, ele se sentou. Pela mão dela, que ele segurava, pediu-lhe que se sentasse a seu lado. Ela hesitou: “Está sujo!”, “Não faz mal!”. Ela se sentou, sem saber porque, e ele ficou feliz com isso. Chegou-se-lhe bem e a abraçou como adolescente.

Do outro lado da quadra, não havia arquibancada. As laterais, da quadra e do prédio baixo, davam para a de um campo de futebol. Depois dele, parecia haver uma escola. Atrás do gol da esquerda, um muro muito alto, caiado, que passava atrás também de um dos gols da quadra.

«Eu acho engraçado quando vejo em filmes americanos os adolescentes falarem em serem populares, e hoje em dia as crianças falando nisso também. Me parece uma preocupação extremamente inútil. No meu tempo de escola, eu era muito popular no sentido de que todos me conheciam, sabiam quem eu era, e falavam de mim. Mas raramente isso era algo de bom. Eu era conhecido porque era o estranho da escola. Não sabia jogar futebol, bolinha de gude, bafo, andar de bicicleta. Mal sabia correr. Não me interessava por aqueles assuntos normais dos moleques: carro, exército, maconha, festa, roupa. Acabava sendo excluído da maioria das brincadeiras e das conversas. E de outras, eu mesmo acabava me excluindo. Tinha poucos amigos. E mesmo quando falavam de mim por causa das minhas notas, que eram muito boas, não era por admirarem isso. Era por que isso me fazia ainda mais aberração comparado aos outros alunos.

Por mais que eu me achasse superior a todos, e eu me achava, – os professores mesmo me diziam que eu era ” o melhor aluno da história desta escola” e eu sei que devia ser verdade – a gente se ilude de que isso basta, mas tem um tipo de reconhecimento, não sei se é uma espécie de respeito ou de aceitação,  que faz falta. Um dia você vai precisar de alguém, principalmente quando não se sente cercado de outros como você. É um desespero, de se sentir sozinho, estranho, isolado, que não dá pra explicar. As pessoas te excluírem, zombarem e mesmo os que falam que te admiram não se interessarem por mais de duas ou três frases numa conversa com você, você acaba se acostumando a isso. Cria hábitos para fazer as coisas sozinho e, eventualmente, conhece gente que gosta de fazer algumas coisas em comum com você, embora não cheguem perto noutras ocasiões.

Mas tudo o que é normal também acaba tendo sua esquisitice. A da minha escola era o handebol. Era uma esquisitice da cidade toda. O time da cidade era muito bom e, em particular, o da minha escola também. E quando chegávamos à idade de poder começar a aprender a jogar, estávamos todos mais ou menos no mesmo patamar. Uns com mais aptidão física que os outros, mas todos igualmente ignorantes. Eu vi nisso uma oportunidade e a abracei, abracei de todo coração. Era magricelo, fraco, baixinho, descoordenado, atrapalhado. Mas me empenhei em estudar aquilo, observar e treinar. Eu corri muito para aprender a correr e saltar. Passava horas mexendo com a mão numa bola pra melhorar a pegada. Fuçava jornais, vivia atrás de onde assistir jogos para aprender.

Quando cheguei na idade e vieram os primeiros testes na escola, eu já tinha uma ideia de como as coisas funcionavam. O professor me separou para o grupo que ele ia testar e treinar mais sério. Eu fiquei feliz, era um grupo grande, ainda iria afunilar mais, mas eu não tinha sido excluído logo de cara. Fiquei feliz, mesmo com a maioria dos outros alunos rindo de mim, desconfiados do moleque que nunca conseguia nada que não fosse nota de prova em sala de aula.

Umas semanas depois, o professor veio até mim num treino e me separou de todos. Me pôs para fazer uns exercícios diferentes de coordenação no canto atrás de um dos gols. Eu estranhei, não gostei de ser separado. No fim da aula, ele montou dois times e me pôs nos dois para jogar um contra o outro. Me disse pra jogar sempre no time que estivesse atacando, que fizesse assim e assim, por que eu era diferente, era o único que ia conseguir jogar de pivô.

Demorou pro resto da molecada entender o que eu estava fazendo. Me ignoraram boa parte do jogo. O professor teve de lhes chamar a atenção, eu tive de ajudar a explicar até eles entenderem. Eu acabei aparecendo porque era o único que jogava diferente.

O professor era também técnico do time da cidade, e chamou a mim e mais outros alunos da escola para treinar com ele na escolinha do time. Eu treinava na minha escola duas vezes por semana e aqui, nesta quadra, mais três vezes. Da escolinha, nós evoluímos até o time de cima.

Foi a melhor época da minha vida. Eu era bom em algo que eu e os outros valorizávamos. Matei aula pra jogar, pra treinar… Uma vez, machuquei o joelho. Nos primeiros dias, quase não conseguia andar. Passei duas semanas treinando mancando, de medo de alguém ficar melhor que eu e tomar meu lugar. Não tomaram, mesmo quando chegaram mais pivôs pra treinar comigo. Fazendo aquilo, eu era o melhor. Dava conselhos, ajudava a ensinar. Os moleques três, quatro anos mais novos que eu me davam parabéns e cumprimentavam na escola e na rua no meu bairro. Tinha meninas que matavam aula pra me ver jogar. Os meus colegas me respeitavam e os outros, por mais que estranhassem meu jeito, meu modo de andar, de falar, de vestir e tudo mais, me respeitavam.

Não foi um mar de rosas. Eu fiz amizade com garotas de quem eu gostava e as ajudei a ficar com colegas meus de quem elas gostavam. Apanhei de gente de outros times sem nem saber por quê… continuei excluído de muitas coisas e ouvindo ainda muita besteira e encheção de saco em várias situações. Mas aqui eu era feliz. Por que eu nunca quis ser conhecido ou admirado, eu sempre só quis que quem me conhecia me respeitasse.

Eu participei de competições, ganhei torneios pela escola e pelo clube. O time era muito bom. Uma vez, quando eu já tinha parado de jogar, fui assistir um torneio e, no intervalo, dois árbitros conversavam com um mesário sobre o time que viram lá na minha cidade, do pivô narigudo e o técnico de bigode: “Aquele time ensinava a jogar. Nunca vimos nada daquele jeito.” Éramos nós. Era outro tempo. Esse esporte se desenvolveu muito por aqui, nestes últimos vinte anos. O pessoal de hoje é muito melhor. As meninas que ganharam o mundial no ano passado… Na minha época, isso era impensável. Nunca imaginamos que seria possível. A coisa era muito mais rudimentar. Mas, para a época, nosso time impressionava.

Naquele tempo, isso era esporte totalmente amador, sem patrocínio nem fonte de recurso nenhum. Quem mantinha o time, taxas, técnico, despesas básicas, era a prefeitura. O pessoal tinha de conciliar com escola, trabalho. Com o tempo, eu cresci, mudei de escola, depois fui pra faculdade. A gente começou a trabalhar. A prefeitura mudou de partido. Foi ficando difícil conciliar os horários de todo mundo pra treinarmos. O pessoal acabou saindo aos poucos. Não era fácil jogar noutro clube se você não fosse sócio, se não tivesse já alguma ligação. Ainda assim, se conseguisse, era complicado, se precisasse trabalhar, ou se estudasse à noite.

Eu fui um dos últimos a sair. Teve uma época em que eu já fazia faculdade e terminava o colegial ao mesmo tempo. Até nos fins-de-semana, eu tinha aula, curso e ainda trabalhava em casa de freelancer. Segurei o máximo que podia. Nos últimos meses, já tinha sobrado pouca gente do time original. Os novos estavam desanimados. Os mais novos eram promovidos logo para os times de cima para conseguir montar o quadro inteiro pra jogar. Eu percebi que, quando comecei, tinha sido assim que nós subimos, porque já então era assim que funcionava. O jogador tinha prazo de validade, vencia ao ficar adulto.

Quando eu resolvi que não valia a pena mais e que ia parar para poder me dedicar direito à faculdade e ao trabalho, foi no final do ano, antes das férias. Vim pro treino chateado. Encontrei um colega ali na bocha, a gente costumava ver os tiozinhos jogando. Quando o técnico chegou, encontrou só os dois. Subimos aqui, chegou mais um. A gente conversou sobre parar, que não adiantava mais.

De repente, antes da hora marcada, e isso foi muito estranho é curioso, começou a chegar o pessoal todo, os caras que já tinham parado, os da antiga, todo mundo. O pessoal saiu do trabalho no meio do expediente, faltou na aula, pegou condução de longe e veio aqui jogar aquele dia, todo mundo junto. Um ou outro tinha comentado entre si que estava com vontade de aparecer, mas, no geral, todos vieram sem combinar nada. Pura coincidência! Nós montamos os mesmos times da época em que começamos. Eu joguei com o pessoal que tinha sido mirim comigo.

Jogamos tanto, nos divertimos tanto, que não parávamos. Ninguém queria sentar pra descansar. Eu costumava perder dois quilos a cada treino. Naquela vez, joguei tanto, que passei o dia seguinte todo com enxaqueca, desidratado. O caseiro não fechou o portão às dez como costumava, fomos embora de madrugada. Pegamos os últimos ônibus.

O pessoal que tinha começado comigo na minha escola voltou, a maioria comigo, no mesmo ônibus de sempre. Nos despedimos só o habitual, sem mais palavras de adeus ou coisa do tipo. Desci do ônibus em frente à catedral, como sempre fiz. Já era de madrugada, escuro, a rua estava vazia, ventando e ameaçando chover. Dava pra sentir aquele cheiro de água no vento que levantava a poeira do chão. As únicas luzes que me lembro acesas eram as dos postes, a da cruz da catedral e a vermelha da santinha que uma senhora tinha na frente de casa. Sabe esses nichos que o pessoal faz na entrada de casa, ao lado da porta, com uma santinha e uma lâmpada vermelha de abajur… A rua vazia, a escola fechada, apagada, o ônibus já tinha ido embora.

Foi quando eu me senti sozinho e, pra não chorar, desci a rua, até a esquina de casa, andando devagar, com os olhos úmidos. Parece bobeira, era um esporte só. Depois eu joguei noutros times, mas não fiquei muito tempo em nenhum. Eles não eram iguais. Eu não era igual mais. Até hoje, quando encontro alguém do time, a gente acaba se cumprimentado igual, sem combinar. O tapa com as costas da mão e um “Igual àquele, nunca mais.”

Na minha escola, quando vou votar, – eu ainda voto lá por causa disso – eu me sento no muro e fico olhando a quadra onde eu comecei. O segurança estudou conosco, me conhece e não fala nada. Aquela quadra mudou bastante, diminuiu, tiraram a marcação de handebol. Acho que não devem mais ligar para isso. Mas, pela janelinha do guichê da secretaria, ainda dá pra ver os troféus que nós ganhamos. A foto do professor, ele foi diretor até algum tempo atrás.

Tinha dois ginásios onde jogávamos. Um pra trás da favela que havia depois da minha escola, perto de onde é hoje a Federal. Está igual, passo sempre na frente, quando vou visitar meus pais. O pessoal só usa para os campeonatos locais de futebol de salão. O outro, o principal, na cidade, junto da rodovia, mudaram, estragaram tudo. Reformaram pro time de vôlei que o banco trouxe pra cá. Ficou bonito! Expandiram as arquibancadas pra dentro da quadra, mas ela diminuiu. Ficou pequena demais! Só dá pra jogar vôlei, agora.

Aqui, eu passei umas duas ou três vezes em frente. Não é meu caminho, fica fora de mão. Estacionei na rua e fiquei olhando. Uma vez, dei a volta a pé, olhei por aquela grade de trás do campo de futebol. Não entrei.

Eu tinha guardado uma camisa de quando jogava. Vermelha e branca, listrada na horizontal. Número onze em verde, no peito e nas costas. Eu gostava de usar a onze. Mas quando me mudei, não consegui encontrá-la. A mãe tinha mania de doar minhas coisas na igreja sem perguntar.»