Eu estava estudando, talvez só lendo, sentado numa mesa antiga, de madeira, no meio de um gramado. Esse gramado, de verde extremamente homogêneo, bem cuidado. Parecia aparado, mas eu sei que não era. Aquela grama perfeita nascia toda do mesmo tamanho. Perfeita. Você, se a visse, a tomaria artificial. Eu sei que não. Havia terra por baixo. Aquela grama perfeita era natural, crescia toda da mesma cor e tamanho. E tinha o cheiro de grama e terra que eu não sentia. O dia estava ensolarado, muito iluminado. Luz do sol boa para ler. Devia fazer calor. O sol devia me queimar. Mas não. Estava fresco, não esse fresco de ar condicionado. Fresco de tempo fresco. E o calor do sol na pele, eu não sentia. Nem suava. Fiquei pouco tempo ali algumas horas, em poucos minutos.
Na verdade, não sei até que ponto eu lia por trabalho de estudante que aprende e se prepara para o futuro, ou se aquilo era só lazer. Ler me agradou, sempre. Quando eu era pequeno, eram os gibis. Adolescente, os livros que retirava na biblioteca municipal, dois a cada dois dias. A partir da faculdade, o tempo rareou, as leituras de temas profissionais concorriam só com textos curtos normalmente informativos, escolhidos por minha curiosidade.
Quando me toquei da inutilidade de ler aquele livro, do qual não me lembro nem nunca me lembraria, que suspeito ser de páginas em branco que eu olhava como bobo, procurei, atrás de mim, só atrás, algum lugar onde chegar à beira do gramado. Algo, qualquer coisa. Não achei nada, não vi o fim do gramado. Em pé, também não vi mais a mesa nem o livro. O que só serviu para aumentar a minha suspeita de que ele fosse uma ilusão.
Virei-me e andei. Logo ao passar meu curto horizonte, encontrei um pequeno muro de arbusto de delimitava o gramado. Exatamente no meu caminho, à minha frente, indo reto, ele tinha uma passagem. Passei por ela. Dava num corredor por entre arbustos que, só depois de andar já bem adiante, percebi serem altos. Não parecia ter fim o corredor. Quando me cansei, ou melhor, me enfastiei, quis voltar. Atrás de mim, não havia mais o fim do corredor com a passagem para o gramado. Ele terminava em muro, e havia outros corredores fazendo esquina com ele. À minha frente também. Era um labirinto.
Lembrei-me da estratégia de Teseu. Seguir sempre o muro à minha esquerda, até dar a volta e encontrar a saída. Segui. Segui e segui. por dias, minutos. Parecia não ter fim. Devia ser enorme. E se eu não tivesse tempo, na vida toda, de chegar à saída, acompanhando o muro à minha esquerda? O que eu poderia fazer?
O desespero chegou aos poucos, trazendo confusão, enquanto eu tentava arrumar um jeito de encontrar mais rápido como sair dali. Andei por todo lado, barata tonta, como formiga quando se lhe bagunça a trilha. Demorou ainda muito mais. A confusão era como o efeito de uma bebida que batia na cabeça de sopetão e tirava a razão, a reação e a vontade. A competência, não foi necessário tirar, já não existia mais. De não conseguir nada, nem fazer nada, fui me anestesiando. Misto de revolta e resignação. Ou mesmo de pura percepção. Por fim, fiquei cansado, tonto e nauseado de vez. Queria ao menos o alívio de tombar no chão que me escorasse.
Eu não via todo o labirinto de uma vez, só os muros e corredores à minha frente, à minha vista, mas tinha certeza de já tê-lo conhecido todo. De já tê-lo visto, todo igual e infinitamente repetido, por completo. Assim como, quando me virei procurando a entrada, não a encontrei, não devia haver mais essa entrada, nem uma saída. Até porquê, ora, quem disse que, onde há entrada, há saída?
Minha visão se turvou de vez. Perdi o equilíbrio sem esperança de conseguir me levantar de novo. A única saída era por cima. Não tenho asas. Só poderia sair dali se Deus me esticasse a mão e me içasse. Mas nem tentei levantar a minha em Sua direção. É inútil. Deus já não existia mais. Era tarde demais. Tanto tempo havia se passado que já era cedo. Meu tempo se acabava e eu tomei consciência de que não adiantava mais nada. Nem chorar. Por isso, larguei meu corpo no chão, e chorei. Chorei sem pensar como, sem pose, sem cena, só chorei, inútil, inutilmente.
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tanta coisa
Tanta coisa faz-me falta, tanta coisa! Tantas coisas, muitas mesmo, que nunca tive! E na, minha idade, isso já é um problema. É quando percebemos que o tempo passou e (o que ainda não tivemos) não teremos mais. Há muitas músicas sobre isso. Lady Let it Lie do Fish me vem logo à cabeça. Mas as letras do Fish sempre vem vêem à cabeça. Há outras, de outros autores. Livros, poemas, posts no Twitter e no Face, textos em blogs e artigos. Eu sei que o sentimento não é privilégio meu. Isso conforta. É um pouco de conforto em se sentir normal na frustração comum. Já as coisas que tive e acabaram são as que mais fazem falta. Elas deixam a lembrança do gosto, do cheiro, do calor de algo. Às vezes, alguma coisa acontece (déjà-vu?) e aquela lembrança vem, não à cabeça, não à memória do pensamento. Ela vem a outros sentidos. Àqueles que não existem na ciência. E, quando muito reais, à pele, arredias ao tato, sentimos só seu calor. A fonte não está ali aos olhos ou ouvidos. Muitas vezes (na verdade, quase sempre) nem lembramos de onde vem. Eu fecho os olhos e não tenho mais nem a imagem da pessoa ou do evento. Mas sei como é. Só resta, de olhos fechados, imaginar. Imaginar alguém, algo, quando, onde. Nem sempre isso tudo é relevante. Imagino só o relevante. É o relevante é tão pouca coisa! E de viver essa imaginação, ela se torna real e deixa lembranças como as outras. Lembranças que se desmembram em sentidos e ficam guardadas. Um dia, uma dessas lembranças (ou várias?) e as frustrações a ela associadas são também acordadas por um déjà-vu. Me lembro de escrever algo sobre o que foi despertado, sobre essa nova encarnação sensitiva. Ultimamente, tenho deixado isso pra depois. A pouco, saí do cinema, olhos úmidos. Algumas cenas me desviaram a atenção do filme, me fizeram criar uma história minha própria. Quis escrever. Tinha de ser uma música. Invejo (invejo mesmo, com tudo o que há de bom e ruim nesse sentimento) quem escreve uma letra de música. Quem tem quem a cante ou para quem a cantá-la. Invejo. Algumas coisas não podem ser escritas sem música.
Não me julguem os que deixo pelas bateiras pretensiosas que digo em meu leito de morte. Pela condescendente mostra de pieguice que me permite a auto-piedade. Ou pelas observações filosóficas boladas de última hora por que se desespera em não ter dito ou mesmo imaginado algo de bom durante sua vida. Não me olhem, não falem, não me ouçam. Esqueçam tudo o que então eu fizer ou disser. Não chamem o padre para um arrependimento final, para a última chance de me desdizer. Talvez eu aceite, e isso eu não me perdoarei. Lembrem-se do passado, do que fui. Bom ou mal, é isso que sou. Principalmente não me olhem. Deixem-me quieto, sossegado. Dêem-me só paz e calor, por favor.
Volta das férias sem telefone, segunda-feira é dia de trabalho. A lista do Oscar já saiu e os filmes que não passaram por aqui no ano passado, estreiam esta semana. Ontem ninguém quis ir ao cinema comigo. Eu não deveria ligar para isso, mas já ando achando meio estranho sair para o cinema sozinho numa sexta-feira à noite. Dormi, cedo, me deitei às seis. Acordei para ver o que havia na televisão depois da novela. Só porcaria. Pelo telejornal da RTPi, descobri que o Brasil está estocando a céu aberto um derivado super-perigoso de petróleo (ou coisa que o valha, não prestei atenção) e também que há um português preso em algum lugar do mundo acusado de colaborar com terroristas. Não entendi direito as provas contra ele, parece que a principal prova é ele ser muçulmano. Preguiça de escrever, muita preguiça, e até de anotar para mais tarde as ideias que tenho. Penso nos motivos para escrever ou não cada ideia dessas e acabo chateado, encontrando motivos para não escrever nenhuma. Volto para a cama antes das onze. Saudades de dormir às duas… Percebo que antes havia me deitado com um travesseiro só é procuro pelo segundo. Ele está sobre bancada, em frente à janela. Pego-o e deito abraçado a ele. Está fresquinho, gostoso, bem cheio e fofo. Só então me lembro de que é de penas de ganso, uma frescura à qual me permiti. Vai me fazer companhia, vou demorar a dormir.
Amanhã são dez dias de viagem, o último dos dez. Foi-se a idade em que eu gostava do sol. Também foi-se a idade em que ferias eram para descansar, elas hoje dão muito mais trabalho do que trabalhar. Estou de saco cheio da areia grudando na roupa, da umidade, gosto de sal pegado no beiço e na barba, e do hotel fraco que parece improvisado nas temporadas. Mesmo assim, não consigo imaginar a vida de casa de novo. Estrada amanhã e depois. Segunda-feira tem trabalho. Rotina vem aí.
Depois de uma semana viajando, me lembrei de que agora uso barba. Minha já famosa barba malhada, preta com branca, um dálmata ao contrário. O cabelo, carente de corte já há algumas semanas e de xampu desde que saí de casa, eu já percebia me incomodando. A barba, foi quando a água do mar bateu nela e ficou pingando salgada na minha boca que percebi. Não trouxe o barbeador para aparar e não quero procurar um barbeiro que saiba fazer isso. Hoje em dia, barbeiros que sabem cuidar de barba são raros. A maioria nunca viu uma navalha. Chamam-se barbeiros porque tem preconceito com a palavra cabeleireiro. Pensam que barbeiro é um cabeleireiro heterossexual. Não entendem de barbas, nem de palavras. Minha barba vai ficar aqui, até porque não tenho porquê tentar agradar a alguém, cuidada apenas com condicionador, para não pinicar, até voltar a São Paulo e Seu Antônio apará-la como tem feito, sábado sim, sábado não, nos últimos seis meses.
Durante a peça, o ator tem um insight de que o cenário é totalmente equivocado. A música, descabida, inconveniente mesmo. As personagens, inverossímeis e clichés como se produzidas em xerox de outros roteiros. O roteiro mesmo,igual a qualquer outros. O fim, o de sempre. A música, copiada e transcrita da última moda, sua ela boa ou ruim, desde que moda. Está ali porque é mais um. Porque coube-lhe esse papel de mais um. Cabe desempenhá-lo. Não necessita de arte, nem a tem, já sabe onde dá.
Frustração maior é sentir-se superior, porém incapaz. É não compreender como tudo o que é certo, tudo o que lhe foi ensinado, dá errado no caminho dos mais errados que você mesmo condenou. É de sentir-se pior que inútil, pior que zero. É saber-se negativo. Suspeitar que os que lhe importam estariam melhores sem si. Isso é o time não há onde nem porquê desenvolver melhor a ideia.
Assórtido
Eu tinha planos de escrever (e ler) bastante durante a viagem. Mas estou cansado e não encontro tempo. Muita coisa pra fazer.
Dormir, café da manhã, mais dormir, ler três páginas na praia, nadar no mar, banho, lanche, andar na areia com inveja de tanta gente, jantar, compras, banho…
Preguiça de buscar o tablet no carro (preguiça de tudo). Tem um filme na TV. Velho, de quando eu tinha quinze anos, mas ainda não vi. Na época eu não via cinema, não tinha videocassete.
O filme me distrai. É igual a tantos que eu já vi. Mas é um filme ruim do qual eu gosto.
De algumas cenas, me lembro, dejá vu. Até pensei que tivesse já visto. Não vi. O filme não. Mas, na cena em que toca aquela música, e me lembrei de que é o filme dessa música, me lembrei do clipe e me lembrei de que as cenas são do clipe. E me lembrei de ouvir essa música quando tinha quinze ou dezesseis anos. Me lembrei.
Engraçado, acho que foi a primeira vez em que prestei atenção à letra.
Hotel Estranho, Copo na Mão
O hotel é multi bom. Moraria aqui. Visitaria, frequentaria, sem problemas. Com muito prazer. O vinho foi comprado na cidade. Estranho alguém de viagem comprar algo assim, passeando, sem nada a ver com o lugar. Mas vi o vinho que tinha tudo a ver comigo, ou parecia ter… Depois do jantar (o jantar foi marreco, muito bom, mas nada de especial), no quarto, o copo cheio do vinho verde gelado… TV a cabo, os canais de sempre… os mesmos de casa, os mesmos de sempre… Que saco! Nada de especial! Nada sobre o quê valha a pena escrever. Largo a merda do copo e vou à varanda. Talvez veja, na rua ao lado do hotel, algum carro chacoalhando, alguma cabeça, dentro de um desses carros, subindo e descendo. Algo que chame a atenção. Saio com o copo e olho para a rua. Só vejo alguns faróis estacionados. Sei o que eles significam. Sei o que lá há. Dane-se. Não quero saber. Olho pra cima. O céu de sempre… Não. O céu está limpo. Muito limpo. No começo da noite, havia ali só uma estrela, bem brilhante. Ela ainda está lá. Parece um farol. A seu redor, dezenas de outras. Parecem aquelas fotos de enciclopédia. O fundo todo negro. Elas, brilhando. Brilhando. Brilhando. Brilhando. Quem. Desenhou esse céu só tinha dois lapis: o preto completamente preto e o brilhando completamente brilhando. Eu já sei do que escrever. Não vai ser grande coisa, mas já sei do quê. Dizem que o principal assunto da música do Sul é o céu. Eu já sei porquê. Não sei porque não fico feliz com isso, nao fico nem dez minutos, olhando, mas descobri porquê. Volto. Terminar a garrafa, sozinho. Depois, sei lá quando, escrevo algo. Agora sei. Que merda! Eu sei. O céu negro. As estrelas luminosas! Perfeito! Como pintado. O céu perfeito! Que merda! Porquê que eu vi? Vou terminar aquele vinho e escrever algo. Sei lá. Fuçar uns sites pornôs. Procurar esse céu neles. Esquece. Eu também tenho de esquecer. Mas não dá. Esse céu é perfeito!