fim

Agonizo se tento retomar a origem das coisas.
Sinto-me dentro delas e fujo.
Salto para o meio da vida como uma navalha no ar que se espeta no chão.
Não posso ficar colado à natureza como uma estampa e representá-la no desenho que dela faço. Não posso!
Em mim, nada está como é, tudo é um tremendo esforço de ser.
— Secos e Molhados, Angústia

 

Passaram o dia juntos. Nada de mais. Almoço de fast-food, café demorado (mais pela conversa, muita conversa e risada, do que pela bebida), passeio pela avenida, pausa para atender uma ligação e ajudar um colega do trabalho, e mais conversa sentados no banco do parque, olhando as árvores, as flores e os passarinhos. Chegou a hora da despedida. Nunca é a melhor hora. E pra quem já está escondendo algum pensamento ruim, uma palavra mal escolhida, uma frase óbvia pode piorar de vez e acabar com tudo:

“Tchau!”
“Tchau, tenho de ir logo pra casa.”

Enquanto ela ia embora, imaginá-la em casa, um mundo que ele já sabia existir mas no qual não pensava, um mundo que não era seu…

Teve inveja. Inveja dela que ia embora sem se mostrar entristecida. Inveja de quem não ouvia por aquele “Tchau, …”. Inveja de quem conseguiria ouvi-lo sem se entristecer. Ele não conseguiu. Hoje não conseguiu. A princípio, voltou para o banco, sentou-se sozinho, olhou as flores, fotografou-as para se lembrar dali. Mas, daí a pouco, não quis mais se lembrar.

Ainda assim, ali ficou até que veio a noite. Não sabia mais para onde ir. Ficou só, no escurou. Queria frio que o obrigasse a se encolher, mas só sentia mormaço da umidade do verão. Imaginou que o mormaço fosse um abraço e, de imaginar os braços, ficou triste. Tentou então imaginar outros. Os outros, todos desesperadamente iguais, o jogaram num abismo que era um labirinto vertical sem saída no qual não não consguia parar de cair e se perder mais e mais. Quis acabar com tudo e nem sabia por onde começar.

Saiu. Procurou uma solução para o quebra-cabeça dos pensamentos confusos. Achou outros.

Entrou num bar, procurando com quem falar sobre isso, cheio de gente como ele. Gente que nao se conhecia. Só teve coragem de falar com o barman. Ainda assim, foi após alguns ensaios. Pediu uma dose de bebida. Todos ao redor, faziam o mesmo, apesar de alguns fingirem agir como planejaram.

Viu garotas dando em cima dos outros homens e se lembrou de que havia outras mulheres no mundo. Começou a pensar em onde estariam, enquanto bebia, em bicadas mínimas, molhadelas de beiço, a bebida batizada. Lembrou-se de vários lugares, mas em nenhum deles elas estavam. Havia outras lá, mas não serviam, não se qualificavam ou não eram para seu bico. Terminou o copo.

Olhou ao redor, àquele mundo que não queria, e pediu a segunda dose. Quase se distraiu bolando um mundo ideal, mas acordou para não deixar o barman pôr-lhe gelo no copo. Ele deixou de lado o copo com gelo e deu-lhe outro, puro. Bebericando nesse, reparou que nenhuma garota lhe dava em cima. Reparou numa, que estava conversando com um moleque bêbado e brincou de imaginar-lhes o diálogo: o que ele falava e o que ela provavelmente respondia, o que devia responder. Interpretou bem os papéis deles, pensou, melhor que eles mesmos. Tanto que, extrapolando a cena, imaginou-a se apromimando e, no papel dela, rejeitou a si mesmo. Foi assim que. aos goles, terminou o segundo copo.

Quando ia pedir o terceiro, pediu a garrafa inteira. O barman ficou seu amigo. Tinha um amigo.

Amanhã acaba, dizem.

Imaginou o dia seguinte, seria igual, e o seguinte também. Desejou que não fossem, mas a experiência lhe mostrava que seriam. Pensou em tudo o que podia fazer diferente e não encontrou nada realmente diferente a acontecer ou a fazer. Desejou que os amanhãs, todos iguais, também não existissem mais. Tentou beber um copo quase cheio, a cabeça já tonteava, e não conseguiu. O esôfago ardeu-lhe ao álcool aquecido pelo corpo, precisava encontrar por onde sair. Não conseguia beber no ritmo que precisava. Chorou.

Uma porta se abriu em alguma parede e ouviu uma música horrorosa sobre alguém que se fingia na pele dele, que fingia sentir o mesmo que ele. Xingou, sem conseguir pronunciar o xingamento, e terminou o copo. Olhou a garrafa, ainda estava pela metade, e a desprezou enquanto cambaleava querendo chorar a dificuldade de encontrar a saída. Sabia ter feito besteira, antes e depois de entrar ali.

Chegou na calçada e andou. Deu dois ou três encontrões em quem vinha no outro sentido, sem nem perceber o quanto se machucou. queria ao menos chegar sozinho em algum lugar, conseguir ficar quieto sem pensar em nada. Não conseguia. E, quando percebeu, chorou.

Chorou, chorou pedindo o fim que não sabia onde estava.

Faz-me falta escrever à mão. Aquela escrita a lápis que eu odiava no tempo de escola. Odiava porque, não sei se aperto muito o lápis, mas minha mão, meu pulso, o cotovelo, logo doem muito. Além de que, à mão, eu escrevo muito devagar. Sempre escrevi devagar à mão. E isso não tem nada a ver com a caligrafia. Minha letra é bem desenhada, tem seus rococós, é uma letra bonita todos dizem. Mas ela ficou assim conforme eu fui pegando pratica. Devagar e dolorido sempre foi. Mas hoje, que me acostumei com o teclado, o mouse e a tela do tablet, sinto falta da liberdade do papel. De escrever fora das linhas, das margens, das bordas. De errar o formato da letra, tremer, apertar ou afrouxar o lápis, borrar. Apagar e deixar marca. Fazer uma bolinha no “i” e riscar o “ç” como os professores me diziam para não fazer de jeito nenhum. O cheiro do papel, da tinta e do grafite. Sinto falta de segurar o papel e senti-lo com a mão esquerda, enquanto a direita trabalha. E de, no final, juntar as folhas e segurar o que fiz, pelo volume ter ideia de quanto trabalho me deram. Depois grampear e passear dias preocupado com onde escondê-lo. Até um dia achar melhor rasgar e queimar no forno à lenha do quintal. Hoje, não consigo ver ao mesmo tempo o começo e o fim, minhas mãos não doem, não há cheiro, e é tão fácil de esconder que parece que não fiz nada.

Uma Despedida

Ele se despediu primeiro dos outros, não de todos, mas para ela foi como se fosse. Quando chegava para despedir-se dela, foi impossível não se lembrar, naqueles poucos passos, de todas as conversas tímidas, dos momentos de companhia, do café para aliviar a cabeça, das conversas frustradas que preferia ter acertado antes desta.

“Tchau!”
“Vai mesmo?”
“Preciso.”
“Não quero.”
“Também não queria.”

Ela lhe toca o braço, o cotovelo, com a mão, de leve, como faz quem tem medo de tocar o outro. Não durou um segundo nisso. Mas condensadas nesse mínimo tempo, passaram pela cabeça dele vários flashes desordenados de outras lembranças. De momentos em que ficaram próximos e, sem querer, se encostaram. De vezes em que, sem maldade, calhou de perceber que estavam encostados e se deixou ficar, só pelo gosto de dar a ela a chance de se afastar e de ficar feliz por ela não o fazer. De quando a faz abraçá-lo pelo pescoço, toda torta, para ilustrar-lhe como faziam os dois garotos da história que contava. Lembrou-se ainda, e com isso então seu coração se apertou, das vezes em que ficaram próximos, muitos próximos, sem se encostar, e sentiu-lhe o perfume ou o calor e também a angústias da vontade e do medo de tocá-la e lhe fazer carinho. Isso o fez se lembrar também de três sorrisos dela que viu bem de perto e dos olhos dela no terceiro. Pareciam alegres e ele achou que podia ser alegria por ser evidente que ele gostava de olhar seu sorriso. No dia desse sorriso, estava triste e isso lhe deu coragem para atrever-se a, discreto, sentado à seu lado, alcançar-lhe o braço com as pontas dos dedos e, por três ou quatro minutos, fazer-lhe um carinho, um leve cafuné perto do cotovelo. O carinho não ajudou na tristeza, mas aliviou-lhe um pouco alma angustiada. Lembrou-se dessa angústia, sentiu-a de novo, quando chegou perto, a uma distância em que teve de encolher muito o braço para passar-lhe a mão na cabeça antes de lhe beijar a testa, como gosta de fazer, e percebeu que era a distância certa para lhe afagar o rosto e encostá-lo a seu peito. Teve uma sensação estranha na garganta.

Isso tudo não durou um segundo porque ela também teve lembranças e logo se arrependeu da leveza de sua mão, do medo que teve. Deslizou-a poucos centímetros, ainda de leve, pelo cotovelo, para retirá-la. Imediatamente a repôs firme, mas com carinho, segurando-lhe o braço. Só as pontas dos dedos se mantiveram leves. Com elas, não resistiu à tentação de discretamente fazer-lhe carinho.

Ambos ignoraram que tiveram o mesmo flashback.

“Você não vai sumir, né?”

Ele sorriu para não contrariá-la, mas já sabia como essas coisas progridem. No começo, ninguém some. Mas a distância e o rarear do convívio, as novas companhias. Aos poucos vão sumindo tanto quem foi quanto quem ficou. Ela entendeu que ele não queria sumir. Ele também.

“Vai me fazer falta.”
“Saudade?”

Então foi ela quem sorriu, porque ele não entendeu.

“Mesmo que você não suma, vai-me fazer falta.”

Ele não entendeu, ainda assim, mas gostou de ouvir a frase enigmática. Tímidos demais, abraçaram-se aparentemente frios, constrangidos por algo, ansiosos em terminar a despedida. Ambos se sentiram culpados e se arrependeram disso depois.

Ele terminou as despedidas e saiu com a cabeça pesada, olhando para baixo, sem sentir o chão onde pisava.

Dois Olhos

A princípio, eram dois olhos. Melhor dizendo: um par de olhos. Ao menos foi isso que me pareceram. Dois olhos, encimados por sobrancelhas, pela testa, entre eles começava o nariz. Abaixo, parecia-me haver bochechas, ladeando o nariz. Mais abaixo, a boca e o queixo. Olhos.

Belos olhos, por assim dizer. Feitos com todas as partes que, na aula de biologia, nos ensinam que os olhos têm. Piscavam, às vezes. Sinal de estarem vivos e atentos. Olhos acordados nunca conseguem ficar abertos congelados, estáticos, sem piscar. Isso é coisa de fotografia. Olho de verdade pode nem se mexer, mas pisca. De quando em quando, pisca.

Tenho certeza de que até seriam capazes de chorar. Todo olho é capaz de chorar. Mais cedo ou mais tarde, encontram um motivo. Motivos aí estão, por toda parte, espalhados pelo mundo. Não precisa procurar. Dobra uma esquina, abre a porta ou olha para o lado, e lá está um, ao menos um.

Sento-me, talvez por coincidência, à sua frente. Logo à sua frente. Vejo-os diretamente, sem esforço, sem nem precisar procurar-lhes com meus olhos. Não tenho o que pensar ou fazer. Olho. Passivamente. É o resultado de estar parado. Meus olhos estão virados para eles. Vejo-os, a menos que tomasse alguma ação para evitar. Não tomo. Isso me daria trabalho. E trabalho não quero.

São um painel, descanso, pano de fundo. Cabeça vazia, cansado, largado, não penso. Tenho à minha frente o formato e as cores daqueles olhos, o reflexo em suas meninas, suas piscadas. Não presto atenção. Tenho consciência, ou seja lá de que sentido isso se trate, de que estão ali, na minha frente.

Tenho consciência também de que, de repente piscaram diferente. Na verdade, para mim, foi só um movimento diferente na imagem. Não me chamaria a atenção se não acontecesse de novo. Aconteceu. Comecei a despertar do transe de preguiça, ainda sem perceber direito o que se passava, sem formar, com nitidez apropriada, a imagem em minha cabeça. Piscaram de novo. E de novo.

Antes de eu estar com o foco claro, piscaram mais uma vez, como asas batendo. Bateram feito asas. E voaram.

Me lembro do concurso de redações da escola quando eu estava no segundo colegial. A participação não era obrigatória, mas quem não participasse teria de fazer uma redação “valendo nota”. Acho que eu fui o único que não se inscreveu e preferiu fazer a redação para nota. A professora ficou brava comigo, disso também me lembro. Não me lembro, acho que pela hora, sono, vinho, o que escrevi. Mas me lembro também que a professora gostou e ficou mais brava comigo. Teve uma menina da classe que se inscreveu para o concurso é só escreveu:

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e acabou a história da abelhinha….

Que inveja da redação dela!

“There is no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark.”

Dizem que a lua tem um lado escuro porque leva, para dar a volta no sol, o mesmo tempo que leva para girar em torno de si. Isso, obviamente, é pura lenda. A lua tem ciclos de dia e noite semelhantes aos da Terra.

Ela é quem olha aqui para baixo e só vê noite.

Pensamento de Café

Não aguento mais gente briguenta chorando por não entenderem esse seu jeito “autêntico e espontâneo”. Por favor, quando eu estiver assim muito autêntico e expontâneo, me peçam para baixar a bola.

face

Eu abri o face, enfastiado, desanimado, sem imaginar com quê me distrair. Abir o face é um reflexo inútil (sim, reflexos podem ser inúteis) de quando não tenho o que fazer. Abro para ver se tem algo de interessante a passar o tempo também inútil. Raramente tem.

Vídeos que eu não assisto. Fotos mal tiradas de temas que eu não consigo identificar. Um amigo meu posta várias selfies por dia, cada uma com uma roupa diferente. Acho bacana, mas é difícil alguma me chamar a atenção. Já fotos de paisagens, eu costumo invejar.

Nem presto atenção em quase nada. Corro a página com pressa. Procuro notícias sobre a política no clube, shows ou lançamentos de artistas de que eu gosto. Mas é Carnaval. No Carnaval, não há notícias, não há nada demais.

Parei de correr a página para ver um desenho. Simples e muito bem feito. Uma banda, de um tempo para cá, anda postando fotos com um ou dois versos de letras de suas músicas. Normalmente passo sem olhar. Mas o desenho que eles postaram hoje me chamou a atenção. E o desenho me chamou a atenção aos versos.

Costumo encabeçar alguns posts com versos de músicas que eu gosto. Procurei a letra dessa para me lembrar porque nunca comecei um post citando-a. Não tenho certeza de se gosto da letra toda (de todos os seus sete ou oito versos, é curta). Mas gostei do desenho e gosto do início.

Só isso já bastava.

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A noite estava, até então, perfeita: ela se atrasou (culpa de um imprevisto no trabalho e da chapinha que ela não sabia onde pôs), o filme era uma porcaria e (em vez de levá-lo a sério) divertiram-se remedando-o e fazendo piadas com as situações ridículas que os coitados dos atores passaram, o restaurante que queriam estava lotado. Chegavam à meia-noite sentados feito crianças no banco do parque com um pão e meia garrafa de vinho que compraram no mercado (beber de estômago vazio é para alcoólatras dizia o pai dele).

“O que você quer fazer depois?”, ela perguntou.
“Antes de dormir, escovar os dentes rs”

Ela também riu. Tomou-o por tímido. Não estava errada. Ele notou o quão ridículo que era fazer rodeios para o que ela, com certeza, já sabia que ele queria.

“Quero qye você durma no meu colo.”, falou encabulado, mas nervoso e feliz por ter vencido a timidez.
Ela tomou-o não ser direto por romantismo, e gostou. Achou que tinha de dizer algo em troca:

“Eu quero que você me ame esta noite, como se não houvesse amanhã.”

Sua frase fez com que ele pensasse, ou se lembrasse, uma coisa que lhe incomodou. Alguns homens teriam dado risado da frase dela. Frase pronta que parecia tomada de um diálogo de telenovela. Ele não. Ele se incomodou com a palavra que ela usou para o que fariam. Pode ter sido só força de expressão, e ele achava mesmo que era, um eufemismo no lugar de outra palavra que ela não quis dizer. Ora, mulheres também têm direito ao pudor. Mas ele se incomodou. Imperdoável infantilidade sua, ele reconheceria depois. Mas soltou-a do abraço e começou a pensar em como terminar logo a noite que, de repente, tornou-se-lhe incômoda.

Ela, obviamente, perguntou-lhe o que aconteceu. E isso o deixou sem graça, mas resolveu-lhe o problema de como abreviar a noite:

“Se você acha que isso é possível… Na verdade, se você acha que amor é algo que possa ser usado nessa frase… Você não sabe o que é amor… Você está pensando em outra coisa… E quem não sabe o que é amor, para mim não serve.”

P.O.

Acordei no meio da madrugada, pouco mais de duas e meia. Na verdade, nem sei se dormi. Devo apenas ter ressonado. Até imagino o quanto ronquei, aquele ronco dos agitados, do sono mal dormido de quem se deitou por obrigação ou por fastio de estar acordado.

O coração está bem agitado. Poderia ser por um pesadelo, mas acho que eu me lembraria se tivesse sonhado. Desconfio do energético com pinga. Antes de me deitar, o refrigerante havia acabado, e eu queria alho gasoso e bem gelado para me aliviar no calor da noite de verão. Calor que veio acumulado, nas paredes do apartamento e no meu corpo do dia todo. O vento não entrava pela janela da sala, culpa mais dos mosquitos que poderiam entrar por ela do que de um projeto mal feito do arquiteto. Peguei a única coisa gasosa da geladeira, três latas de energético, que eu guardo para quando preciso acordar cedo. Achei que álcool me faria pegar no sono, já que sono eu não tinha, e procurei embaixo da geladeira, onde tenho uma adega improvisada. Havia vinho, tinto e madeira, houvesse verde eu não precisaria fazer a gororoba. Não havia verde. Mas tinha uma garrafa de pinga que eu uso quando flambo cogumelos ou frutas. Lembrei-me do guaraná com vinho licoroso vagabundo que minha mãe gostava e me deixaria beber junto quando lhe fazia companhia no trabalho. Batizei o energético com a pinga, imaginando que o gosto ficaria parecido com o familiar da minha infância, e deixei no freezer enquanto tomava banho. Quando bebi, já havia uma fina pele de gelo em cima. Mas não me refrescou.

Deitei-me, com a janela do quarto meio aberta, persiana fechada. Parecia que não deixavam o vento passar. Talvez não houvesse vento mesmo. De pronto, já me senti todo suado e sujo. Sensação de que o banho não foi o bastante para essa noite. Tive coceira nas pernas. Nos braços, não achei mosquitos.

Coloquei uma música. Sempre que ouço música à noite, acabo dormindo. Achei que o efeito seria o mesmo, mas a música só serviu para me inquietar e irritar. A coceira nas pernas. Virei-me de ponta-cabeça, com o travesseiro nos pés da cama. Nada. O travesseiro esquentou.

Isso demorou, não sei quando dormi. Sei quando acordei. Reflexo de sempre olhar o relógio. Virei-me da esquerda para a direita e de volta, procurando um pedaço fresco do travesseiro ou da cama, uma brisa, uma cabeça vazia. Tudo era incômodo.

Tirei a roupa suada. Abri a gaveta do armário e peguei uma camiseta bem grande. Não a vesti. Dobrada, cobri o travesseiro com ela. Pus minha cabeça em cima. Estava fresca ali. Abracei o travesseiro, ilha de frescor numa noite suada e abafada. Imaginei-me envolto, na verdade, imaginei-me envolvido nessa ilha. Uma sensação gostosa de alívio e conforto foi-se espalhando por mim, não sei dizer se a partir da pele que tocava a roupa fresca do travesseiro, ou se vinha de dentro de mim, fruto de pura imaginação.

Foi essa dúvida que me levou a usar a imaginação e logo passei a distrair-me com ela. Lembrei-me de situações imaginadas ainda há poucas horas, quadros pintados, histórias por contar. E tentei elaborá-las, preencher as lacunas, descorá-las com nuances de decoração. Normalmente, imagino com cuidado e detalhamento os cenários e o fundo de minhas histórias, procuro o lugar certo para cada coisa na cena e a coisa certa em cada lugar. Curiosamente, dessa vez, não houve fundo, e só depois me toquei disso, só o tema, só a história envolta em penumbra e no frescor de conforto. E me envolvi nela. Timidamente, no começo, confesso, e isso há de se compreender. Quem já se envolveu em uma história sonhada acordado de madrugada compreende.

A tensão da história cresceu em mim e me inquietou. Não foi a inquietude do pânico, mas a da pressa de devorar os capítulos do livro. Notei minha respiração acelerada. Já sabia que, desta vez, com certeza não tinha a ver com nenhuma bebida nem com pesadelos. Era a aceleração do sonho. Não lamentei ser apenas sonho. Pelo contrário, diferente da decepcionante realidade, sendo sonho, poderia se extender e durar o quanto eu quisesse. E durou.

E quando eu, por fim, imaginava qual o melhor fechar de cortinas, o posfácio, aquela frase final que falta em muitos filmes, acordei sem querer para o quão freqüente é, logo ao acordarmos, esquecermos nossos sonhos, para sempre. E o esquecimento não podia ser o destino desse sonho. Quando percebi isso, antes que esse pensamento se tornasse preocupação e depois inquietação, levantei-me.

Acendi a lanterna do celular e procurei um caderno de anotações na gaveta. Peguei um, novo, em branco ainda, e também um lápis e a caneta, não sabia qual usar. Tinha de escrever tudo para não esquecer. Escrevi, infelizmente sem me lembrar de alguns detalhes e, mais infelizmente ainda, sem conseguir descrever os de que me lembrava do jeito como deles me lembrava. Mas escrevi, para não esquecer mais. Isso é importante, não esquecer.

Escrito, tive medo de que alguém o encontrasse e fuçasse, e se intrometesse tentando mudá-lo. Precaução com ares de adolescente ingênua, voltei à gaveta pegar cola e fechei o envelope. Estava agora seguro, ninguém abriria um envelope com o sonho de outra pessoa. É possível intrometer-se num livro, num caderno, lê-los, não num envelope. Ia sossegar assim, mas não. Como pode um sonho sobreviver num caderno selado? se nunca mais fôr lido? Morreria, como animal asfixiado. E isso eu não poderia deixar. Seria crueldade demais! Minha. Comigo mesmo. Com um sonho que há poucas horas me confortou e tirou o fôlego.

Estava decidido. Vesti novamente a calça e a camiseta que me serviam de pijama no verão, calcei as sandálias e saí para a rua. Já fora de casa, a noite não parecia abafada pelo verão. Era fria, escura, úmida de relento e solidão das ruas desertas e sujas do bairro que, durante o dia, foi oficina das bagunças de foliões. Andei, sem saber para onde, pela noite fresca, atrás de uma caixa de correio. Selo não é necessário. Não há endereço no envelope. Certas cartas devem ser enviadas sem endereço. Não precisam disso para encontrar seu destino.