Socas

 

SocasMinha avó não as tirava dos pés, ela dizia que seu pai, meu bisavô, também não. Daí veio o apelido da família, o sobrenome que tinham antes de deixar a pequena aldeia de Olmos, próxima a Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes para tentar a vida ao Brasil.

Dona Maria Socas, minha avó, Seu João Pedro Socas, meu bisavô. Minha bisavó devia ter outro apelido, que trazia ainda de solteira. Naqueles tempos, não era prático mãe e filha de mesmo nome, Maria, terem também o mesmo apelido.

Os documentos portugueses não registravam apelidos na época (início do século XX). Ora, o que nós brasileiros chamamos de sobrenomes era, para os portugueses de então, pouco mais que isso mesmo, apelidos. Não era incomum as pessoas deixarem de ser conhecidas por um passarem a sê-lo por outro ao se mudarem, casarem, adotarem profissão. Ou serem conhecidos por mais de um, em contextos diferentes. Por isso mesmo, ninguém da família se preocupou em registrar o motivo pelo qual, chegando a Santos, o escrivão registrou minha avó como Maria dos Santos e não Maria Socas, e meu bisavô, João Pedro dos Santos, e não João Socas. Porventura o escrivão, estranhando a palavra, incomum no Brasil, e o sotaque, carregado, de camponeses que misturavam o mirandês com o português e soavam, na maioria das vezes como espanhóis. Talvez esse escrivão tivesse entendido Santos em vez de Socas e acrescentado o “dos” por ser costume no Brasil.

Meus tios e minha bisavó, viraram dos Anjos. Seria esse o apelido original de minha bisavó? Ou pegaram outra fila, com outro escrivão ruim de ouvido? Na hora, ninguém percebeu. Ninguém soube ler o que estava escrito no papel. Só percebiam que tanto nos que traziam da terra quanto nos novos, a primeira palavra escrita a caneta era a mesma: “João”, “Maria”, imaginavam ser seus nomes.

E viam que nos novos, havia um escudo de formato curioso, com estrelas dispostas em cruz.

 

a garota mais bonita

Um texto que ainda não está nada bom.
Está me deixando louco. Travei.
Ainda vou alterá-lo bastante.
Mas para dar uma idéia de como são no começo:

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subindo o caminho da montanha
eu sabia, haveria de encontrar
arvores, flores e passaros
pedras, a paisagem do vale
todos eles eu vi muito bonitos
mas nao era nenhum deles, por deus, nenhum deles
que eu subia a encontrar
eu queria de todas as vistas a mais bela, ela
o sol não queimava, é certo,
agradável me era a manhã
mas se eu quisesse parar a olhar
com tudo que meus olhos ali pudessem achar
ainda assim, não era isso que queria
meu objetivo estava mais ainda ali acima
após a trilha, mais alto que o fôlego, lá em cima
de longe eu a vi chegar
eu tenho logo que alcançar
tem dois lado este morro
se subo por este, não vejo o outro
não poria deixá-la por lá partir
sair-se assim seria fugir
o que faria eu ali, no alto sozinho
depois de tão cansativo caminho
infrutífero, eu não poderia deixar
o topo do morro é algo plano
pedras, árvores, e arbustos, um único vão
parada ao centro dele, ela está
a mais bonita que neste mundo há
de longe a vi e já sabia
ela olhava lá de cima para muito longe
talvez alguém ainda mais linda ela quisesse encontrar
não poderia, ela era a mais perfeita
com seu jeito imperfeito,
coberta por seu sorriso de sua boca e de seus olhos
que como espanto me viram chegar
com respeito eu disse olá
fiz um gesto a cumprimentar
apenas beijei-lhe a mão
fique com deus, deixe-se estar
já tinha eu que voltar
que poderia querer a mais
deixei lá em cima a mais bonita
para o mundo enfeitar

 

A História como Contada por J.P.Wentling


All in all you are a very dying race, placing trust upon a cruel world. 
You never had the things you thought you should have had,  and you’ll not get them now, 
And all the while in perfect time your tears are falling on the ground.
   — Genesis, Squonk, 1976

 

trick-squonk“Eu lhes conto, é verdade… é verdade… eu vi”

“Meu Deus, lá vem você com essa história de novo, Wentling! Pare de beber e veja a besteira que você fala.”

“Eu vi, é verdade!”

“Claro!”

“O quê que é verdade?”

“O quê? Eu te conto.”

“Não, não conta. E você, não lhe dê corda! É um pinguço que não sabe o que diz.”

“Não sou um pinguço. Eu nunca bebi antes de ver aquilo.”

“Claro!”

“Mas me conte.”

“Vou te contar, esses aí não acreditam, eu talvez também não acreditasse… Pare de rir. Cala a boca, aí… e encha meu copo de novo.”

“É por minha conta essa, pela história.”

“Uma bebida não paga essa história…”

“Sem beber, ele nem teria história…”

“Chega! Sabe, rapaz…”

Antigamente, há não muito tempo atrás. Há não muito mesmo, eu já era adulto casado, embora não ainda não tivesse nenhum filho. Esta região era nossa de verdade. Nossa, não desses comerciantes e moleques de cidade que vieram para cá, derrubar árvores, construir ruas, armazéns com máquinas. Nós plantávamos, tínhamos nossas criações, galinhas, algumas vacas, porcos. Cada família cuidava de sua vida, cada um em sua terra.

Olha as árvores, por aí, imagina como era aqui antes de abrirem tantas ruas, trilhas, pasto, antes de subirem essas casas todas. Eram só as árvores e os sítios.

Para conseguir gado novo para a criação, precisávamos ir ao mercado da cidade, dois dias de viagem. Carne pra comer mesmo, era muitas vezes mais fácil caçar.

Eu saia pra caçar, passava dois ou três dias no meio mato. As vezes com amigos, trazíamos pra casa um alce, um bufalo, um veado. Se eu ia sozinho, voltava no mesmo dia com dois ou três coelhos, sempre trazia junto uma raposa ou lontra com pele que pudesse vender para ganhar mais algum dinheiro.

Uma vez, saí sozinho pra caçar. Sozinho não dá para pegar um alce, é muita carne para uma família só, e é difícil de carregar. Mas dá pra se aventurar a pegar um veado. E eu encontrei um e passei algumas horas o cercando, com cuidado para chegar perto sem assustar. Esses bichos não são espertos, se se assustam com barulho, logo correm para o outro lado, e correm muito. Muito mesmo.

Quando cheguei perto o sificiente para atirar, estávamos na várzea do rio, não parecia haver para onde ele fugir. Peguei a arma com cuidado, carreguei, não demorei mais que alguns segundos, quando fui mirar, o bicho havia sumido, sumido mesmo, como se tivesse se enfiado numa toca, kkkkk uma toca para um veado. kkkkkkkkkk

“Mais, mais, sirva mais.”

Eu já estava cansado, enganado pelo veado, bichinho filho-da-puta, a volta da várzea é uma senhora subida e, lá não tinha algo assim pra beber, só água, mato, umas arvorezinhas bestas. Sentei-me num troco quebrado pra descansar e curar a raiva.

A menos que você goste de olhar mato e árvores, não há nada o que fazer ali, nem o que ver, nem o que ouvir. Num dia sem chuva, sem vento, nem a água faz barulho. Isso deixa o caçador louco. Perder a caça e se achar assim no meio do nada, sem uma porcaria de pássaro em que atirar, você se sente o grande perdedor: caça caçada e não caçador.

Mas, ali havia um barulho. Parecia um guincho, alguém gemendo de frio. Não poderia ser alguém, quem estaria lá além de mim. Também não poderia ser vento,  não havia vento, nem frio, nem nada. Já era meio da tarde, estava morno. Olhei e não achei ninguém, nem nada.

Procurei, nem tinha nada melhor pra fazer, procurei, procurei muito. Quando achava que chegava próximo ao gemido, ele ficava mais forte e sumia, aparecia de novo, então, noutro lado. Às vezes me parecia ouvir mais de um ao mesmo tempo. Outras vezes, a pausa era muito longa.

Contam-se muitas historias de fantasmas. Aquilo, se era fantasma, era de uma história que nunca ouvi contarem. Fiquei muito tempo procurando por algo. Só aquela água da várzea, alta, mais parecia um pântano, cobrindo os pés das árvores.

Fiquei cansado também de procurar, mas a curiosidade não passava. Fiquei parado, olhando como muito cuidado para um canto, parece que vi algo atrás de uma arvore. Parecia parte do lombo de um bicho. Prestei atenção, não havia nada, mas depois, alguns metros mais para o lado, mais alguma coisa parda, quase da cor das arvores e do mato, se mexeu. Seria uma planta? um rato? Algum bicho que eu pudesse comer ou vender a pele?

Cerquei essa outra arvore e, de novo, nada. Fosse o que fosse, o bicho era bom, sabia fugir, se esconder.

Se eu atirasse logo que o visse, era capaz de estragar e pele. Fiquei eu ali cercando com o olhar, tentando me aproximar cada vez como mais cuidado de onde percebia movimento, mas sempre quando chegava aonde ele devia estar… não achava nada, só a água da várzea. E dentro dela, também nada.

“Por que meu copo ainda está vazio?”

Era pra se ficar com raiva. Mas quem gosta de caçar não, a diversão é maior. Enquanto o bicho não sumir de vez, você quer continuar, e não tem tempo pra raiva. Nem vi o tempo passar. Quando começou a escurecer, vi um brilho no meio de um tufo de mato. Era um olho… era um olho refletindo o resto de luz da tarde. Conforme escureceu ele ficou realçado. O sol fraco batia na água, que brilhava muito, ela no olho, que também brilhava como, nas história, dizemos que brilham os diamante.

Meus olhos foram se acostumando a luz enfraquecida do entorno, deu pra ver…

“Foi a bebida!”

“Cala a boca, já disse que eu não bebia, enche logo meu copo.”

Ele estava atrás do tufo de um mato alto mas ralo. Dava pra ver só esse olho e partes do contorno do corpo. Por então, eu achei que fosse um roedor, talvez um rato, um ratão muito gordo. Dei a volta, ao largo, pelas costas dele. Consegui vê-lo. Não parecia bicho de que se aproveitasse a pele, a aparência dela era horrível, feia, nojenta, toda lambuzada, enlameada, tinha alguns pelos grandes e grossos mal distribuídos, estava cheia de insetos e bernes visíveis. Também não acho que alguém tentaria comer algo assim, talvez fosse um gambá já velho, doente. Não devia servir pra nada. Mas eu não conhecia aquilo, nunca havia visto nada parecido. Eu tinha que trazer pra que alguém me dissesse com certeza o que era.

Eu já sabia que ele era bom em fugir e se esconder. Não sabia como fazer para pegá-lo, fiquei olhando, pensando como e ele também parado, sem me notar. Não demorou e ele cobriu os olhos e o focinho com as mãos, e voltou a gemer, gemer alto. Era o som que eu tinha ouvido antes. Eu ainda não sabia como chegar perto. O gemido dele aumentava e ficou cada vez mais choroso. Parecia um choro mesmo, como se fosse uma velha azeda da vida chorando no velório do último parente vivo.

Dizem por aí que eu o enganei, que me fiz de amigo. É mentira! Eu sou caçador, eu não traio! Além disso, não há traição entre animais. É a vantagem deles por não falar. Preservam sua honra de palavras vazias como as das pessoas.

Na minha bolsa, eu tinha um saco grande, cabia um porco inteiro, levei as mãos às costas, fucei a bolsa com cuidado. O choro do bicho ia mais alto e já me incomodava muito, sem falar que ele fedia. Achei o saco. Abri a boca dele e olhei o chão. Um pouco pela direita era mais seco, daria uns quinze passos até chegar ao bicho. Com cuidado, ele não perceberia a tempo de fugir ou se esconder. Ele ainda estava com o focinho e os olhos entre as mãos chorando. Medi bem a distancia e como seriam os passos, calculei o momento, corri. O barulho de choro me ajudou, quando ele percebeu, eu já o estava cobrindo com o saco. Pondo-o boca do saco adentro, pelo lado. Ainda consegui vê-lo todo, por uns segundos. Era a coisa mais feia que já vi, nem dá para falar direito como era. Mas eu o vi bem, a água ali, empoçada, brilhava muito, iluminou-o bem, eu o vi muito bem.

Era do feitio de um roedor, mas não parecia bicho da terra, de carne, e também não parecia peixe ou outra coisa da água, nem sapo. Estava com a boca aberta, a língua, um trapo vermelho muito torto comprido cheio de insetos, pendurado pra fora da boca, pingando. Dentes podres, quebrados, enormes. Tinha pêlos por todos os lados, irregulares, como se o tivessem começado a depenar, depilar, como água quente mas não tivessem terminado o serviço. Os olhos também eram muito grandes como de um louco drogado pelos medicos. O nariz, grande, era indefinível com tanta gosma que o cobria.

Peguei o saco com o bicho dentro e amarrei a boca (do saco) para ele que não fugir. Tive medo que me mordesse, mas ele não se mexia, não vou dizer que era como um peso morto, porque ainda chorava. Eu ouvia o gemido e o sentia tremer. Era como se só isso houvesse de vida nele. como se o resto do corpo, corpo gelado que ele tinha, embora tremesse, fosse morte.

Cheirava mal. O cheiro era muito peculiar. Não sei dizer se mais próximo de latrina, de peixe podre ou de cadáver. O cheiro sim parecia a morte. E era intermitente, em momentos piorava. Seria mesmo um gambá? Um rato-gambá, algo assim, imaginei. Não parecia pesar muito, mas o saco molhou quando o peguei, e ficou mais pesado, o peso de um leitão grande talvez. O saco pingava.

Eu não sabia pra quê que servia aquela porcaria, mas foi tudo o que eu cacei e eu estava cansado, não tinha mais comida, a querosene do lampião só daria para mais esta noite e eu precisava encontrar logo alguém que conhecesse aquilo. Voltei pra casa. não queria dormir aquele noite no mato. Dali para casa, devia levar umas oito, dez horas. Eu chegaria de madrugada e dormiria com minha mulher junto ao fogo.

Prendi o saco à uma forquilha e a apoiei ao ombro, acendi o lampião, pus-me no caminho de volta. Não havia trilha, mas as árvores na subida do morro eram bem espaçadas. Eu já conhecia ali há muito tempo, fui criado aqui. De noite ou de dia, estas terras são sempre iguais para mim. Subi o morro, desci do outro lado, peguei o caminho pelo vale. Havia andado uma hora e meia no máximo, quando o peso do saco aliviou.

Parei de pronto, abri o saco, estava encharcado, gelado e… vazio.

Olhei em torno, estava sozinho numa clareira. Pelo caminho por onde vim da várzea, um havia só um rasto molhado, brilhava, brilhava muito, mais que a lua, o saco molhado também brilhava. não era água. eram suas lágrimas, ele se desmanchou nelas.

 

The Squonk is of a very retiring disposition and due to its ugliness, weeps constantly.
It is easy prey for hunters who simply follow a tear-stained trail.
When cornered it will dissolve itself into tears.

True or false?
— Genesis, Sleeve notes to Squonk, 1976

 

Tem Dias

See the lonely man there on the corner,
What hes waiting for, I dont know,
But he waits everyday now.
Hes just waiting for something to show.
— Genesis, Man on the Corner

Tem dias em que tudo o que eu queria era continuar dormindo abraçado com meu travesseiro.
E não é só por causa do sono, não.

Sob as Copas

Jurarei eterno amor, saudades a vida inteira, ao nascer do sol no pomar das laranjeiras.
— Madredeus, O Pomar das Laranjeiras

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Odeio cimento, zinco, telhas Eternit.

As árvores sempre fizeram parte da minha vida.

Os momentos mais agradáveis que ficaram gravados na minha memória, acho que em todos estou junto de uma árvore. Lembro-me das laranjeira e pitangueiras de casa. Da figueira, do romanzeiro e da pitangueira de minha avó. Da ameixeira de minha outra avó, além de várias outras árvore que nunca soube identificar.

Sempre gosto de estar assim, à sua sombra.

Gosto de passar horas, deitado olhando por suas folhas.

Senna

 

Eu me lembro de quando ele morreu.
Na época, era impossível não me sentir culpado. Acho que todos se sentiram. quem não, tenho certeza, deveria.
Acompanhei boa parte da carreira dele, já antes da F1. O que fascinava a todos era a sua agressividade irresponsável, inconseqüente, no melhor estilo Gilles Villeneuve (o maluco-mor), que aliás, como ele, também morreu na pista (em Zolder, 82).
O vídeo de seu acidente está no youtube, não vou descrever.
O corpo levou uns quatro dias para chegar a São Paulo, eu quis ir às homenagens, mas não podia, tinha alguma prova importante na faculdade. Ao menos poderia tentar ver um pouco, pois o caminho do cortejo incluía a avenida em frente à faculdade, no caminho do aeroporto à Assembléia. Mas chegando à faculdade de manhãzinha, antes das sete, descobri que não haveria mais prova, feriado nacional pelo luto.
Fiquei ali pela praça, em frente à faculdade esperando o cortejo, no início sozinho, depois espremido em meio à multidão. Alguns colegas de faculdade me encontraram e se juntaram ao aperto.
Devia ser entre nove e dez da manhã quando ele chegou, batedores, carros da polícia federal, cavalaria, caminhão dos bombeiros, a urna em cima coberta por uma bandeira.
As, pessoas civilizadamente se conservavam na calçada e aplaudiam, acenavam, choravam. O barulho era inevitável, mas o repeito e acato, notáveis.
Passou rápido. Foi instintivo correr atrás, mais algumas pessoas correram também.
E fui correndo, em direção ao centro da cidade, para depois seguir à Assembléia. Por bem treinado que eu fosse na época, não consegui agüentar por mais que dois ou três quilômetros o ritmo do caminhão vermelho, logo ele se distanciou. A multidão que corria junto se dispersava. Logo no primeiro túnel já não havia mais ninguém. Eu continuei correndo, já não pelo mesmo caminho que o cortejo, fui pelas calçadas, meio-fio, não sabia o caminho direito, percebi, dei várias voltas até chegar. Corri uns seis, oito, dez quilômetros, não sei, nunca conferi, acho que foi uma hora ou pouco mais.
Fiquei uns minutos olhando o prédio por fora. Muita gente chegou antes, nunca vi tamanha fila. Um homem de camisa amarela e paletó verde chorava sentado na guia como se tivesse perdido o próprio filho, não tinha coordenação para passar o lenço nos olhos ou no nariz, e se desesperava com isso.
“Está todo mundo arrasado!” Quem observou foi um dos meus colegas de faculdade. Quando se separaram de mim (ou eu deles) continuaram de metrô. Eu que fui a pé ainda cheguei um pouco antes.
Continuamos olhando. Tive vontade de conversar com o homem do paletó verde. Mas falar o quê? Olhamos por uma meia hora o prédio, a fila, os carros de figurões furando fila. O homem do paletó verde se levantou e foi em direção à fila, não conseguia andar mais que alguns passos por minutos, tamanho o nervosismo.
Eu e meus colegas então nos viramos e começamos a andar embora, pra casa, esse não era dia pras nossas farras de estudantes, mas não precisávamos pegar horas de fila pra entrar na estatística dos que passaram seus três segundos na frente da urna.
Do metrô, cada um seguiu seu caminho. Acho que foi a primeira vez que nos despedimos como adultos, sem brincadeiras bobas ou piadas infames.
Ao chegar em casa, recolhi todos os meus posteres da parede, dobrei e coloquei numa caixa. Ficaram ali guardados uns dez anos, até que minha mãe resolveu correr com ela para abrir espaço.
Acho que, depois disso, eu raras vezes acordei cedo num domingo.

 

Little John, Jonnie the Kid

To dream the impossible dream, to fight the unbeatable foe, to bear the unbearable sorrow, to run where the brave dare not go. To write the unwritable wrong, To be better far than you are, to try when your arms are too weary, to reach the unreachable star.
This is my quest, to follow that star, no matter how hopeless, no matter how far.
— Joe Darion, The Quest, interpretada por, entre outros Elvis Presley, Frank Sinatra e Plácido Domingo

 

 

Este, meus amigos, é Little John. Jonnie, The Kid. O mais destemido dos colonos deste lado da fronteira.

Vocês que não são daqui talvez não saibam, mas estas terras foram divididas a custo de muita luta. Quem primeiro chegou, teve a prerrogativa de mapear o terreno e estabelecer seus limites consonante o que era capaz de explorar e defender. Muitos chegaram quando os mapas e plantas das propriedades já estavam definidos e, por isso, outro caminho não acharam que o do confronto para conseguir chão onde erguer teto e trabalhar.

Há ainda alguns que, mesmo tendo oportunidade de conquistar seu território de forma honesta, preferiram o caminho da vilania. Dentre esses está Baby Hugh. Baby coleciona histórias de negociatas com o poder, de crime acobertado pela lei, de toda sorte de suborno para legitimar sua vida fácil.

Hoje, prestes a estarem frente a frente em duelo, sem capangas ou protetores, ambos sabem que a luta deverá ser justa e honrosa, se não por vontade conciliada, pelas condições em que se encontram nesta seara, isolados de todo o resto do mundo, separados apenas pelas fronteiras de seus territórios. Fronteiras artificiais com as quais nem Little John, o primeiro a chegar, nunca concordou e Baby Hugh, o invasor, nunca pediu acordo.

Little John examina suas armas, não queria que as coisas se resolvessem assim, mas é obrigado a isso. Lança o olhar para fora da janela, o Sol já nasceu há algum tempo. Seu pensamento vaga um instante, pensa no colo da mãe, no café da manhã, em todas as suas glórias do passado e nas do futuro. Percebe que melancolia é como preguiça e não resolve, apenas serve de muleta aos fracos.

Decidido, suspira, olha nos olhos o inimigo que também está a postos, levanta alto seu travesseiro e com um feroz grito de guerra parte ao ataque em direção à cama do irmão.

Valha-lhe Deus, desta vez a mãe não o interrompa antes da vitória.

Lua e Estrelas

The space around the stars is something that you know.
A billion miles of darkness left you feeling low

— Marillion, Space

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Hoje está mais difícil de blogar, estou mal-equipado, apenas o iPhone.
Então peço desculpas pela texto curto.
Eu não podia deixar passar em branco o dia de hoje, ou melhor: a noite.
O céu não estava claro, pelo contrário, temi chuva, mas quando escurece a noite, a lua surge e pipocam estrelas, sempre me toma um maravilhamento.
Fiquei tanto tempo olhando o céu, tentando identificar as estrelas, adivinhar come é a lua de perto, que quis ter adormecido ali, na espreguiçadeira da varanda, com apenas esse céu por cobertor.

Perdoem-me a qualidade das fotos. Ao vivo é mais bonito do que eu consegui fotografar. Na minha foto, a Lua fica desfocada, as estrelas nem aparecem. Ao vivo, é tudo um quadro muito bem pintado e brilhante.

Everybody in the whole of the world feels the same inside.
Everybody in the whole of the whole of the world.
Everyone is only everyone else.
Everybody’s got to know.
Everybody lives and loves and laughs and cries and eats and sleeps and grows and dies.
Everybody in the whole of the world, we’re the same inside

 

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Lua de Doido

If this desert’s all there’ll ever be, then tell me what becomes of me.
A fall of rain?
That must have been another of your dreams, a dream of mad man moon.
— Genesis, in Mad Man Moon, 1976

night_skyPara os índios, no passado só havia dia, com o o Sol no céu. Então alguém, enquanto Tupã passeava, resolveu mexer no Sol e, por acidente, o quebrou.

Tupã, por castigo, transformou o traquinas em macaco e tratou de consertar o Sol.

Mas o concerto não ficou perfeito. O Sol começou a caminhar pelo céu, do mar para o longe da floresta. Dava volta ao mundo, que eles não sabiam se era ou não redondo, e, até aparecer de novo no horizonte do mar, tudo ficava escuro.

Para tentar resolver, Tupã pegou migalhas e pedaços que sobraram do conserto do Sol e os aproveitou para fazer a Lua e as estrelas para iluminar o céu à noite.

Então, se não fosse a molecagem, eu agora não teria o que olhar quando me debruço na janela e olho pra cima procurando até onde isto tudo. Não haveria a noite para que eu escrevesse dela e do céu estrelado? Aquele sujeito não deveria ter sido transformado em macaco, mas em estrela também. Uma bem brilhante para passar o resto dos tempos vendo a coisa maravilhosa de que é responsável.

Viriato

 

21995-zamora-viriato“Enquanto ele comandava, ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele.”
    — Diodoro da Sicília

 

Os Portugueses creem-se os inventores da guerrilha, talvez tenham sido, não sei.

Há mais ou menos 2000 anos, quando os romanos tomavam a Peninsula Ibérica, os Lusitanos, pouco numerosos, organizados em pequenas comunidades e vilas rurais, sem uma unidade nacional, um governo, rei, exército ou coisa do tipo resistiu bravamente até o último momento.

Sem rei, sem exército, cada família ou comunidade enviava representantes para conversar com as outras e organizar a defesa da terra. Desses representantes, Viriato, camponês da Serra da Estrela, pastor, de família prestigiosa (provavelmente não havia o conceito de nobreza), sobressaia-se.

Nos contatos entre as aldeias, cada vez mais estava claro: os Lusitanos simplesmente não tinham como constituir um exército para batalhar em campo a resistência a Roma. Resistir era loucura!

Viriato e mais alguns malucos que o seguiram – e para o que se propuseram deviam ser malucos mesmo – deixaram a terra decididos: “Se não podemos combatê-los, vamos fazê-os mudar de ideia.”

Por sete anos, conciliou tentativas de acordos diplomáticos e feitos militares folclóricos e incríveis. Avançou com seu pequeno grupo escondido em direção a Roma. Em cidades onde a opressão romana era mais sentida, atacava sorrateiramente acampamentos do exercito romano à noite. Os soldados, quando amanheciam, encontravam mortos generais, juízes, coletores de impostos e outras pessoas que a população local identificassem como opressores.

Espalhava o terror entre o comando do exercito romano e a admiração entre o gentio.

Seu grupo cresceu com isso, aos poucos, virou um pequeno exército que o permitia ataques estratégicos e emboscadas contra tropas mais numerosas. Enfrentou em combate Serviliano que perdeu 3000 soldados numa batalha contra poucas centenas de lusitanos e simpatizantes. Os romanos, a esse ponto já recuavam muito longe da península.

Serviliano, capturado, trocou sua vida por uma acordo de paz. De volta a Roma, é desonrado e desautorizado pelo Senado que novamente declara guerra aos Lusitanos e envia Servílio Cipião com dois exércitos em direção à península.

A superioridade numérica dos romanos não basta. Baixas impressionantes de altos funcionários e militares romanos voltam a opinião pública contra a campanha. Cipião sugere a Viriato negociarem nova paz. Viriato, já então tratado por Roma como Imperador Ibérico, envia três homens seus de confiança: Audas, Ditalco e Minuros.

Cipião compra-os e eles, de volta ao acampamento assassinam Viriato. Tal o respeito que desfrutava o lusitano que os assassinos, ao reclamarem sua recompensa, são enviados a Roma e condenados à morte pela traição. Ouvem do próprio Imperador: “Roma não premia quem trai tão valiosos homens.”

Os lusitanos continuaram batalhando. Viriato foi substituído por Táutulo, e este por Sertório. A impossibilidade de vencer os romanos se impôs, a Lusitânia é anexada, mas os feitos dos seus obrigaram Roma a acordar termos dignos.

A Lusitânia já não existe mais, misturados aos mouros, aos godos, aos galegos, seu sangue faz parte desse Portugal em que o sul da Galícia se tornou. É esse sangue que temos em nossas veias.

Quando lutamos por nosso orgulho, não há concessão justificável.

“Ó Pátria ergue-se a voz dos teus egrégios avós… ” ouça-a e eu não preciso explicar mais nada.

 

CRUZ