Eu encontrei um lugar onde facas podem ser fadas
Problemas podem ser borboletas
Banheiro pode ser dinheiro
E até a lama pode ser cama
É o corretor ortográfico……
pegadas de socas em solo lunar
Eu encontrei um lugar onde facas podem ser fadas
Problemas podem ser borboletas
Banheiro pode ser dinheiro
E até a lama pode ser cama
É o corretor ortográfico……
Boa noite, pois não?
Oi, boa noite. Eu quero o “007”.
Desculpe, a última sessão começou há quarenta minutos. O senhor tem certeza?
Sério? Eu não reparei. Agora não sei. Deixa eu ver outro… Ih, eu vou atrapalhar tua fila.
Não, não vai, pode escolher. A esta hora já não tem mais fila.
Não sei, você me ajuda? Qual você assistiria.
Eu? Eu nao sei também.
Me ajuda a escolher.
Ah, eu já assisti quase todos. Quando fecha a bilheteria, depois de começar a última sessão, eu entro escondida numa sala e assisto. Perco o começo do filme, uns vinte minutos.
E você trabalha em todos os dias em que tem sessão, né? Folga em que dias? Deve ter algum em que você sai mais cedo…
É sim. É o ruim de trabalhar aqui. Folgo segunda e terça. Sair mais cedo, só na quarta e na quinta. Ah, e no domingo. Não têm as últimas sessões porque o dia seguinte é de trabalho.
Então ninguém te convida pra ir ao cinema…
Não convida, não rs
Este filme aqui, você viu? Gostou?
Eu gostei sim, é muito bom! Mas não tem mais sessão hoje.
Você não está me enganando só porque trabalha aqui? Gostou? Tem música. Você gosta de jazz?
Eu não conheço, não tenho costume. Mas às vezes, quando ouço num filme, gosto.
Hmmm, escuta. Eu conheço um lugar muito legal pra se ouvir jazz de quarta e quinta. São os dias em que você sai mais cedo. Que tal?
?!?!?!
Vamos lá, teu horário já está acabando.
Mas você não ia assistir um filme?
Quando eu vim pra tua bilheteria, já sabia que não tinha mais nenhum…
Quando a convidou, não sabia se ela gostaria. Música é uma experiência muito específica. De todas as formas de arte, é a que mais depende familiaridade. É raro uma pessoa gostar de um tipo de música com o qual não está familiarizado. Demora a encontrar padrões, a reconhecê-los. Ela aceitou. Ele também, escolheu um concerto com programa que parecesse mais palatável. Há coisas a que ele assiste sem ele mesmo saber se vai gostar. Não iria fazer isso com ela. Procurou um programa com temas mais conhecidos, e românticos, para não ser cansativo.
Ela veio bonita. Ou melhor, com roupa e produção bonitas. Bonita ela já é. Mas o vestido preto, esse tecido lustroso que ele não sabe o nome, o penteado, que ele também não sabe o nome, com os cabelos presos para trás, mostrando as orelhas e aquele pedacinho de pele entre os cabelos e elas, o batom e as unhas vermelhos escuros. Coisas de dia-a-dia, mas mereceram um brinde com champanhe no foyer. Fizeram jus a todo o esplendor dela.
As cadeiras não são confortáveis como as de cinema. Quando a luz foi apagada, não dava para ficar de casalzinho igual no escurinho do cinema. Ficaram eretos, precisavam mesmo, para enxergar direito o palco, os músicos.
Ele se distraiu com a música, afinal de contas foi para isso que vieram, na primeira peça e no começo da segunda. Uma nota mais estridente lhe lembrou de olhar descaradamente para o lado e tentar descobrir se ela parecia estar gostando. Ela sorria. Quando viu que ele lhe olhava, olhou para ele, com o mesmo sorriso, depois de novo para o palco.
Ele gostou. Quis fazer algo. Não sabia se lhe fazia um carinho no rosto, no braço. Se lhe beijava o rosto, a orelha, aquele pedacinho atrás da orelha. Não era bem isso o que ele queria transmitir. Apenas pousou-lhe a mão por dentro do pulso e deixou que ela lhe desse a sua. Ficaram com as mãos dadas no colo dela. A dele entre as duas dela. Ele só queria isso, saber que o sorriso dela estava ali a seu lado.
Eu quando estou muito ocupado, e tenho pouco tempo para escrever-te, parece mentira. É exatamente nesses dias que, por coincidência, pareço mais cheio de idéias para elaborar e trabalhar em longas cartas que demorarei para despachar-te. Isso me aflige de uma maneira que sinto-me incompetente de não conseguir, nessas horas, ser sucinto em algum assunto, uma mensagem, que seja sincera, mas curta.
Gostava de que você conseguisse seguir meus pensamentos. Saberia que eta sempre neles, que não param. E que você se envolvesse por eles. Como nos envolvemos. Como se envolvem nossos dedos. Como os trançamos, de mãos dadas. E trançamos nossos braços e envolvemos nossos corpos e nossas consciências. Quando estamos juntos e sozinhos.
E queria que você pensasse assim junto de mim. Porque é assim que penso em você sempre.
Pela reação exaltada dele, era de se esperar que a dela fosse igualmente nervosa, violenta mesmo, como é de seu costume, carregada de raiva pela repreensão. Pelo contrário, estava visivelmente surpresa. Parada, sem reação. Não entendia como ele tomou por tanta ofensa algo bobo assim. Já logo esse pensamento foi que lhe deixou indignada e com raiva dele.
“Tanta coisa por isso?”
Ele, surpreendido também, não pela frase dela, mas antes por perceber que ela não entendia sua revolta, não soube o que responder. Não soube nem mesmo se respondia ou dava-lhe as costas e ia embora por ter ficado sem palavras. Sentiu-se envergonhado disso. Num primeiro instante, que não foi tão instantâneo assim, sentiu-se reclamando por pouco, sem razão. Era mesmo coisa pequena, ele percebeu. E se lembrou que isso já lhe aconteceu antes, que já se sentiu assim antes. Que muitas vezes deixou passar coisas grandes para depois perder a paciência e as estribeiras com besteiras. Engolir elefantes para engasgar com ratos.
Só que desta vez, algo, alguma coisa que ela disse, que ela fez, ou o modo como bateu o vento, ou o cheiro que vinha da chuva, algo que ele não sabia o que era, lembrou-lhe o sentimento de minutos atrás, de quando perdeu a paciência, e ele, de perplexo pela lógica de ter estourado por pouco, lembrou-se da indignação dos motivos passados e se revoltou de novo, se emocionou e ficou mais triste ainda que antes.
“Parece besteira, e talvez seja pra você, mas é importante. Tudo é importante. Essas coisinhas, coisinhas pequenas, de nada, são importantes. Por que é tudo feito disso, de coisas pequenas. Se a gente descuida delas, descuida de quase tudo que existe. Não é só isso, só essa coisinha, são todas. É isso e todo o resto. Essas coisas pequenas são grãos de areia numa ampulheta. Já grãos demais para que o tempo ande.”
Coisas pequenas são coisas pequenas.
São tudo o que eu te quero dar.
E estas palavras são coisas pequenas que dizem que eu te quero amar.
— Madredeus, Coisas Pequenas
“Sabe o que é o pior da vida? Ela é longa demais…”
“Mas você, agora mesmo estava reclamando dela ser muito curta.”
Ela riu de ele ainda não tê-la entendido. Inocente o menino ainda. Alisou-lhe o cabelo com a mão e riu antes de falar.
“A vida é curta demais para se aproveitar. São poucas oportunidades, não dá para desperdiçá-las. Quem erra não tem muito tempo para consertar. Menos ainda para tentar de novo. Você tem de fazer as coisas bem feitas sempre, com cuidado. Ninguém sabe se vai ter uma segunda chance.”
“Mas então, decida-se, é curta ou longa?”
“É curta para tentar. Mas é muito longa para lamentar. Você vai ver que não dá muito tempo para fazer. Mas, depois de feito, é muito tempo para viver a coisa mal feita.”
Eu quero pegar uma bebida, mas primeiro vou ao banheiro. Tem graça depois ir ao banheiro de copo na mão. Desço a escada para o banheiro já pensando na fila, mas não há. Claro, não há fila, mas o chão perto do mictório está todo mijado. Eu tento fazer o meu xixi direitinho, dentro da cuba do mictório, de perna aberta e na ponta do pé para pisar o mínimo possivelmente dos outros. Estes banheiros são assim. Sorte minha ser equipado para mijar em pé. A torneira está ruim. Tenho de apertar umas três vezes para conseguir lavar as mãos. Este sabão não vou usar, tem cara de ser fedido. Não tem toalha de papel e daquele secador eu não gosto. Seco as mãos nas calças mesmo, enquanto subo a escada.
Agora sim a bebida. Aqui ao lado o pessoal faz um chá gelado muito gostoso. Eu pego dois copos, dos maiores, de chá verde, ajuda a emagrecer. Vou esperar o gelo derrete antes de beber, pra ficar bem gelado.
Faz parte do plano não almoçar nem jantar. Mas tem o balcão da padaria. Eu adoro pão. Pego um que vale por dois. O os dois copos na mão, seguro o saco do pão pelo no, por entre os dedos. Fica firme, mas as mãos cheias chamam a atenção. O pessoal olha pra mim. Dois copões, um pão grande. Não combinam com eu estar sozinho.
Cumprimento o porteiro, já somos conhecidos, todos esses anos… Ele me cumprimenta sorrindo. Desço os degraus e me sento. O saco do pão no colo, cada copo de um lado. Teclo pros amigos onde estou. Teclo no facebook também. Não para os outros. Eu o uso para me lembrar depois. Pego da mochila um lápis e o caderno que cabe no bolso. É no bolso mesmo que os deixo, para se quiser anotar algo para escrever depois. Desligo o telefone. Abro a boca do saco do pão e encosto a cabeça para trás com os olhos fechados.
As luzes começam a se apagar. O filme já vai começar.
A lua hoje não estava em seu lugar habitual, sobre mim, em meu céu do café. Ao invés, vi-a pelo caminho. Logo que saí. Vi-a por entre galhos e folhas de uma árvores. Grande, ou melhor, próxima. Bem definida, brilhante, linda de morrer.nem a poluição urbana de fios, postes e aquelas lâmpadas amarelas feias, nem a poluição, foi capaz de lhe ofuscar. Sem nem procurar, era impossível não vê-la. Eu vim para cá. Ela para onde foi? Onde está? Mas cá, está de novo meu companheiro vento, fresco, frio mesmo. Estão meu chá, meu caderno, os balconistas que já me conhecem de nome e sabem meus gostos. Estão os casais de sempre. Não os de sempre, que cada vez são diferentes, difícil de se repetirem. Mas cá estão. E no céu, sobre mim, no céu limpo sem nuvens, não está a lua, só duas estrelas bem distantes, separadas.
“Você é muito alegre!”
“Alegre? Eu? Imagina. Sou muito chorão!”
“Você? Chorão? Não pode ser. Quando foi a última vez que você chorou?”
“Agora.” Riu. “Estou chorando por dentro.”
Mas riu mesmo e não foi convincente.
“Faz tempo mesmo que eu não choro.”
“Viu? Eu falei…”
“Não, me deixa terminar. A última vez que eu chorei já tem mais de seis meses. Mas não é porque não tenha motivo. Ou melhor, não é porque não tenha algo que, noutros tempos, eu tomaria como motivo para chorar. Eu só… já não ligo tanto…”
“Seis meses não são tanto tempo.”
“Para você não é? Vê-se que você sim é alegre. Pra mim, seis meses sem chorar soam como uma eternidade. Me soa estranho até.”
“E chorou por quê?”
“Não me lembro. Mas todo mundo, se parar para pensar, encontra motivo para chorar.”
“Então você tem motivos…”
“Ah, sim, vários motivos.”
“Então porque faz tempo que não chora?”
“Talvez, já tenha me acostumado… e os motivos já não mais me emocionem.”
“A maior expressão da angústia. Pode ser a depressão. Algo que você pressente. Indefinível Mas não tente se matar. Pelo menos essa noite não.”
— Lobão; Essa Noite, Não
Deve ter algum nome para isso. Não querer sair. Mas sair, de saudade de sair e escrever algo. Pedir a bebida de sempre. Se frustar porque não tem a mesa de sempre. Abrir quase dez textos já começados. Escrever uma ou duas frases em cada um. E fechá-los de novo. Perde uma hora nisso. Fuçar os rascunhos de cima a baixo e não encontrar nada que queira terminar. Nem querer escrever nada novo. A bebida não ter gosto e o tempo passar. Cansar de se esperar.
Na terceira vez em que fuça toda a lista de rascunhos e não encontra nada, se arrepender de já ter avançado tanto nos rascunhos que sabe que sabe não vai, nem quer, terminar. E achar um, já enorme, dos maiores que já escreveu. E ele ainda precisar de muito trabalho para ficar pronto. Não ter vontade de mexer nele, é passado, é de um dia que já passou. Arrepender-se de não tê-lo terminado na época e de haver gasto nele tanto esforço que poderia ser empregado em outra coisa, que fosse acabar.
Achar-se besta por se impressionar com uma coisa assim boba. Fuçar a lista mais uma vez, achar os mesmos rascunhos. Nada vai brotar ali sozinho. Ver aquele ali de novo. Lembrar de seu tamanho e de sua crueza. Olhar para o copo ainda cheio. Depois para cima e ter vontade de chorar.
Abaixar a cabeça e rascunhar rabiscos de pensamentos desconexos só para se saber escrevendo. Deve ter algum nome pra isso.