Da série “Esboços de Diálogos”

“Quê que foi? Você não sente mais nada por mim?”

“Sinto sim, igual.”

“Então?”

“É diferente agora.”

“O quê?”

“Todo esse tempo, eu sentindo o mesmo por você, onde você estava?”

 

Osgas

Tem gente que as chama de lagartixas, mas elas não são. As lagartixas são calangos, verdes ou cinzas, cascudos, grandes, que obviamente não conseguem subir uma parede. Imagine um calango, uma lagartixa, tentando subir a parede de azulejos do banheiro, toda molhada, durante seu banho. Osgas sobem.

Osga

Elas são claras, às vezes, de tão claras, translúcidas, que se lhes vêem as vísceras. Uma pele nojenta, não tenho coragem de tocar, mas tenho certeza de que é fina, macia, gelada, nojenta. Comem moscas e larvas. Vivem onde há gosma. As moscas comem e fazem o ninho na gosma. A osga vai atrás do ninho da mosca.

Um lugar onde elas gostam de viver é a pocilga. Principalmente quando a gente alimenta os bichos com comida de verdade, não ração, e com papa. Era o caso dos porcos de meus avós. A avó juntava os restos da cozinha: cascas de legumes e frutas, folhagem, toco de fruta, a sobra do arroz e do feijão, fazia um sopão e engrossava com farinha de milho. Lavagem é o nome. Tem gente que acha que lavagem é dar banho no carro no fim-de-semana. Isso é banho. Lavagem é comida de porco. A gente jogava a gororoba no coxo e o bicho vinha feliz. Depois não dava para brincar perto dali, com o bafo dele.

Coitado do Dondom, o cachorro da avó, um cachorro grandão, parecido com o Scooby-Doo e o Marmaduke. A casinha do Dondom repartia o teto com a do porco. A pocilga dos meus avós era um coberto dividido em quatro aposentos de mais ou menos uns dez metros quadrados cada, dois e pouco de altura, parede de treliça, todos com portas individuais para o quintal.

Dondom morava no mais próximo á área de serviço e à cozinha. Sua casa era a única que não tinha folha na porta, ele entrava e saia quando queria.

Atrás da dele, escondido pelas árvores e plantas, pra não chamar a atenção de quem passasse na rua, ficava a do porco. Cada ano era um porco diferente. A avó criava para comermos na Páscoa. A casa do porco não tinha folha na porta porque não tinha porta. Meu pai fechava com tábuas pregadas. O porco entrava ali quando era pregado e só saia para o abate. Isso foi necessário quando um porco grande, mais de cem quilos, conseguiu subir a porta, ou a subiram para ele, e tentou atacar a avó na cozinha. Porco é bicho feroz. Quem anda no mato sabe que é o bicho mais perigoso de se encontrar a solta. Atacam é atrancam pedaços, comem até os ossos. Naquele dia, a casa estava cheia de crianças. A avó conseguiu fugir e trancar o porco na cozinha e buscar meu pai e os irmãos para pegar o bicho. O medo de que acontecesse de novo fez meu pai abolir a porta e transformar o chiqueiro em calabouço. Mas ficou o aviso: nunca ponham a mão na treliça. Porco morde sem dó e arranca pedaço.

Wild BoarAo lado da do porco, também coberta pelo mato, mas com porta. Uma porta enorme para o que guardava. Era a casa dos porquinhos-da-índia. Eram menores que a treliça, não sei como não fugiam, disciplinados. Nem sei como os gatos da avó, ela tinha quase cinqüenta, não os comiam. Talvez comessem. Aqueles bichinhos dai cria a cada vinte dias. Nascem mais de dois punhados de cada vez. A casinha deles parecia vazia. Chão coberto de folhas grandes, eles ficavam amontoadinhos num canto, ou no meio. Tinha de prestar atenção para encontrar, não faziam espaço. O tio conseguia comer um por dia e, ainda assim, eles nunca acabavam, tantos nasciam.

O quarto alojamento, na frente, ao lado do Dondom, não tinha a parede da frente. Meu avô usava para guardar madeiras. Não sei de onde ele tinha tanta madeira. Ficavam aí e mais noutro coberto grande, do outro lado do quintal, maior que meu apartamento. Esses depósitos de madeira serviam bem para a hora de brincar de esconder. As tábuas ficavam deitadas. A gente entrava nos vãos entre elas e ficava mocozado, esperando a hora de correr pro pique. Havia-se de tomar cuidado com aranhas. Podia ter cobras e escorpiões também, mas nunca vi. Aranhas sim aos montes, de todos os tipos.

Foi numa dessas brincadeiras de esconder que meu irmão, mal perdedor, me jogou uma tora maior que meu braço, para me atrapalhar alcançar o pique, e abriu minha cabeça. Eu atravessei a rua correndo, pra casa, carros freando em cima. Eu com o sangue escorrendo pela cara, não via nada. O pai, quando viu, quebrou uma garrafa de vidro de álcool, naquele tempo havia álcool em garrafa de vidro, mas talvez a garrafa fosse de pinga mesmo, e despejou tudo na minha cabeça. A mãe e eu quase desmaiamos, ela de susto, eu do álcool arder o machucado. Não podiam me levar para o pronto-socorro. Naquele tempo, isso daria Febem para meu irmão. Para estancar o sangue, minha mãe abriu a água do bidê – tínhamos bidê, isso era muito chique! – fechou o ralo e enfiou minha cabeça dentro. Machucava o pescoço, a cabeça, eu achava que ia me afogar.

Sangue

Meu irmão apareceu na porta do banheiro rindo de eu estar morrendo. A água gelada do bidê, a rebeldia com a brutalidade do tratamento, me deram força pra me erguer um pouco e xingá-lo com as piores palavras que eu conhecia: “Seu bobo!” Tomei um tapa da mãe: “Não fala palavrão que não foi assim que eu te criei!” O filho-da-mãe saiu rindo. Foi ver TV.

Ganhei vinagre no machucado e um monte de café na cabeça. Meu pai disse que eram para desinfetar e estancar o sangue. Acho que funcionaram, sobrevivi. A mãe enrolou então tudo, minha cabeça também, com um cueiro. Cueiro é uma fralda de pano grosso, coisa de português. Ficou parecido com os lenços que ela usava. Mas os lenços eram de linho ou seda, floridos. O cueiro era de algodão grosso, branco, duro de tantas vezes que o ferveram. Não me deixaram deitar: “Não, pancada na cabeça, se dormir, morre. E o sangue tem que escorrer pra baixo, pra não escapar pelo machucado.”

Ganhei ainda mais uma bronca: “O que é isso na tua roupa?” Parecia ovo. “A gente lava pra vocês sujarem?” Minha irmã apareceu para fazer o comentário que revoltou o estômago da mãe: “Eu vi quando a gente estava brincando e ele se escondeu. Ele deitou num canto entre as madeiras que estava cheio de ovos de osgas.”

“Mata! Mata!”

“Mata! Mata!”

Eu fico imaginando quantos crimes absurdos já não foram cometidos por frescuras como essa. Matar? Matar algo que entrou voando pela janela só porque você tem medo do que seja.

Eu segui o bicho com os olhos. Foi difícil. Ele voava irregular, em zigue-zague, em juntos às luzes que rodeiam a sala. Perdi-o de vista algumas vezes, quando achava, ele logo sumia de novo.

Por fim, posou na cortina, junto à janela por onde entrou, era um marimbondo.

“Mata!”

A irmã já devia saber que eu não mato bicho. Nem encosto, tenho aflição, medo de machucá-lo. E também que não gosto de histeria. “Cala a boca” Vai se trancar no quarto e pára de gritar. Senão eu jogo ele dentro da tua roupa.”

O marimbondo não vai atacar ninguém. Mesmo que atacasse, olha o tamanho dele, no máximo vai deixar uma urticária no lugar da picada. Dobrei a cortina por cima dele, para não fugir. Pela renda da cortina, dava para vê-lo quase imóvel. Preso como em rede de pescador.

Com a outra mão, abri todo o vidro da janela. Fiz força, era grande, pesada, de metal e vidro grosso. E a pintura atrapalha corrê-la. Enfiei a parte dobrada da cortina para fora, por entre a grade e chacoalhei.

O bichinho foi embora, nem vi. Olhei para fora, para a janela toda. Conferi a cortina para ver se não estava agarrado ali. O chão, ver se ele não caiu para dentro. A irmã já veio correndo.

“Matou?”

“Joguei pela janela.”

“Ai. Ai. Por que não matou? Seu #&!@$ Ele vai voltar! Da próxima vez, eu mato com inseticida.”

“Marimbondo não vai morrer com inseticida.”

“Eu vou pegar a vassoura e derrubar aquele ninho deles que tem na atrás do teu quarto.”

O tal ninho era uma colmeia. Grande, do tamanho de uma bola de futebol. Quando chega a um tamanho desses, é questão de tempo até que não agüente o próprio peso e caia sozinha.

Não é o tipo de coisa que se tire com vassoura. Chamamos os bombeiros já, eles que tiram. Disseram que estava longe das janelas, virado para trás do morro, era muito alto, e não oferecia perigo. Que não precisavam tirar, então tínhamos de deixar lá.

“Cadê a vassoura.”

“Eu vou passear. Liga pros bombeiros se você precisar que te levem pro Pronto-Socorro.”

 

Sonho

Well, just spread your wings.
Yes, we’ll get higher and higher. Straight up, we’ll climb.
Higher and higher. Leave it all behind.
We’ll get higher and higher.  Who knows what we’ll find?
So baby dry your eyes. Save all the tears you’ve cried. That’s what dreams are made of.
Baby, we belong in a world that must be strong. That’s what dreams are made of.
And in the end on dreams we will depend ‘Cause that’s what love is made of.
Van Halen, Dreams

Depois de tanto subir, estavam os dois cansados. Ele que ia para o tudo ou nada. Também o amigo, que veio não por solidariedade, mas por amizade mesmo, pelo apoio e pela última companhia.

Chegaram à beira do abismo. Olharam em torno, as árvores pelas outras montanhas, os pássaros no céu. Só não olharam um ao outro. Olharam para baixo, por fim. Não se via nada. ambos sabiam que a chance de dar certo era mínima.

“Tem certeza de que é isso que você quer?”

Hesitante, não para responder, mas para ter certeza de que não se confundia ao dar a resposta que já sabia há muito. Assertivo porque a sabia, indubitável, a única possível.

“Sim, é o que eu quero. Você bem sabe disso. Há tanto que me conhece.”

“Mas eu pergunto se quer mesmo fazer. Querer e querer fazer são coisas diferentes. Você não tem como saber se vai dar certo. É sua vida. Ninguém vai te julgar. Você está consciente? Vai mesmo?”

Ele olha para baixo. Pensa, pensa bastante. O amigo espera. É para isso que servem os amigos, perguntar, explicar, segurar a ansiedade, esperar, sem pressa. Ele olhou bem, avaliou o perigo iminente, a tragédia anunciada, que já conhecia. Emocionou-se e, visivelmente emocionado, explicou:

“Foi para um dia ter isso que eu vivi até hoje, esperando a hora de poder tentar. Se nunca tivesse oportunidade, continuaria vivendo sonhando, mesmo quando já não tivesse mais força física nem lucidez para fazer. Mas hoje, que eu tenho a chance, se não tentar, vou passar o resto da vida infeliz pelo sonho que, covarde, não tive coragem de realizar. Que sentido teria todo o resto então? Viver por viver? Sobreviver hoje para tentar sobreviver amanhã? Para quê? Uma vida sem fim?”

Foi quando o amigo se calou que ele entendeu a força retórica que essas palavras tinham. Percebeu que não havia nada que pudesse ser dito em resposta. Seu argumento encerrava o assunto. E era melhor assim. Chorou nervoso. Chorou também porque sabia que nada fazia sentido se não tentasse e desse certo. Nada fazia sentido se falhasse, ou se não tentasse. E chorou também porque sabia das chances e tinha pena do amigo, que viveria após seu fracasso, que viveria uma vida sem esperança sabendo que sonhos não se realizam.

“Eu sei que não é justo pedir isso, — chorou mais e engasgou — mas se me faltar coragem, você me empurra?”

Pediu com o choro da certeza de que queria fazer, mas temendo um instinto animal que o freasse. É o maior medo que alguém pode ter. Então, vendo que transferiu ao amigo a responsabilidade por uma eventual covardia sua. não teve mais coragem de recuar. Chegou-se à beirada do abismo. Abriu os braços como já vira tantas aves de rapina fazerem. Fechou os olhos. Respirou o ar fresco, leve, da liberdade, e deixou-se cair para seu sonho.

 

O do casal que passeava de mãos dadas.

Era bonito vê-los caminhar pelo bairro duas vezes por dia, todos os dias.

Pela manhã, logo cedo, de mãos dadas, desciam a rua onde moravam até o parque. Eram uns cinco quarteirões. Nessa descida, ia quase uma hora. As pessoas logo associam a velhice com falta de força, mas não, as primeiras coisas que se perde são a coordenação, a agilidade, a firmeza. Descer é muito mais difícil que subir. Cada passo para baixo é um impulso para um abismo, sem saber se o pé vai chegar a tempo e a jeito de manter o corpo em pé. Imaginem então em que passo eles desciam. Era assim, meio passo, bem lerdo, de cada vez. A cada vez que pousavam o pé no chão, uma pausa para se certificarem dele estar perfeitamente apoiado, antes de passar o peso do corpo para ele. Depois, outra pausa, para verificar o chão e criar coragem para a aventura do próximo. Iam de mãos dadas, um dando coragem e apoio ao outro.

No fim da rua, paravam na padaria, compravam um pão doce, não tinham dentes bons para mastigar outro e um copo bem grande de café com leite. Atravessavam a rua para o parque. Sentavam-se num dos bancos altos com mesa de piquenique. Às vezes, quando esses bancos estavam todos ocupados, pediam licença. Que, se não incomodasse, nós precisamos nos sentar nos altos, não conseguimos nos levantar dos outros depois, o senhor poderia trocar conosco? Uma vez, cedi-lhes o banco onde estudava, foi assim que tivemos a primeira conversa e ficamos amigos.

Faziam o café da manhã bem demorado no parque. Repartiam o pão doce e o copo de café. Sentados ali mesmo, conversavam, olhavam os pequenos que as mães levavam aos brinquedos, procuravam com os olhos passarinhos pelos galhos das árvores e borboletas pelas flores, depois voltavam para casa. Subiam a rua devagar, quase como haviam descido.

À noite, sempre de mãos dadas, caminhavam pela travessa arborizada que fazia esquina quase com o prédio onde moravam. Chegavam à ruas emaranhadas, todas também muito arborizadas, desenhadas assim, cheias de curvas redundantes, para espantar o trânsito. Iam pelo meio delas até a igreja. Quartas-feiras, sextas, sábados e domingos, havia missa. Assistiam, sentados junto à porta. Ao final, iam à sacristia, cumprimentar o padre e as irmãs, criados todos ali no bairro, perguntar por suas famílias. Encomendar que se lembrassem de amigos e parentes nas orações. Convidavam-nos para o chá. Eles, às quartas-feiras, costumavam aceitar. No fim-de-semana, os horários da igreja são apertados.

O chá tomavam todas as noites num café a duas casas da igreja. Chá de mato, camomila ou erva-doce, e bolo de três. Quando o padre ou as irmãs lhes acompanhavam, compartilhavam histórias engraçadas ou bonitas. E riam ou sorriam felizes, juntos. Quando estavam só os dois, sentavam-se com as duas mãos dadas sobre a mesa e conversavam baixinho, conversando ninguém-sabe-o-quê, sem largar as mãos, enquanto o chá esfriava. Depois bebiam, com caretas, o chá frio e pediam outro para beber ainda quente.

Já a volta do chá, não tinha as mãos dadas. Voltavam de braço dado, pela calçada escura de coberta das copas de árvores, como os namorados de antigamente. Antigamente havia namoros bonitos. Andavam bem devagar, arrastando o pé. Apontavam as estrelas, a lua, por entre uma e outra árvore. Discutiam qual a mais bonita, a preferida de cada um. Lembravam-se das estrelas que admiravam em noites especiais e de coisas que lhes aconteceram nos dias, ou noites, que ficaram marcados pela estrela que viam agora. As estrelas eram as fotos de suas lembranças. Deviam ter sido postas lá para servir como diário, aquele diário que se escreve antes de dormir. Pareciam não ter pressa de pegar a novela. Passear pela rua, de braço dado, olhando o céu, devia ser melhor.

Ela faleceu no início do ano. Um tombo no banheiro. Bateu a cabeça e não resistiu mais que dois dias. Ele, triste, não teve força para chorar como quis. Pediu desculpas a todos, uma cadeira junto ao caixão, emudeceu, pensativo.

Com os olhos tristes, mas secos, tentou continuar a vida como tinha sido com ela. Os passeios, o café, a missa, o chá. Conseguiu por dois meses. Talvez tivesse conseguido mais. O choro veio quando, leu sobre o espaço. Leu que a lua e as estrelas não estavam no céu para lhes iluminar a noite, que elas não apareciam todas as noites para ver-lhes. Percebeu que ela não estava lá, mas a lua, e as estrelas sim. Percebeu que elas não ligavam. Sentou-se na calçada, nem sabe como, chorando. Passaria a noite toda ali se os vizinhos não lhe acudissem. Não queria ajuda… Não queria… Queria…

Levado para casa, trancou-se. Não passeou mais. Perdeu a próxima missa. O padre, preocupado, foi procurar-lhe. Encontrou-o morto sentado no sofá. O lugar a seu lado ainda estava fundo, deformado por ela. Ninguém sabe como ou porque morreu. Segundo a perícia, não há como ter sido suicídio. A morte foi natural, súbita.

A descerem seu caixão à sepultura, ao lado da dela, os que o seguravam tiveram todos a mesma impressão. De que algum tambor ou coisa do tipo batia dentro. Uma pulsação. Como se o coração dele, batesse de novo, feliz por reencontrá-la.

Outro Sonho

Quando a conversa começou a incomodar, e conversar sobre a verdade sempre incomoda, ele teve dificuldade em se manter no assunto objetivamente. Não encontrava as palavras. O raciocínio para explicar não funcionava, não fazia sentido. Então contou uma história que ninguém nunca saberia se era verdade, nem se tinha algo a ver com o assunto:

– Eu tive um sonho estes dias que deve significar algo..

– … Que você estava dormindo.

– Você nunca sonhou acordado? Os sonhos são sempre os mesmos, acordado ou dormindo. A diferença é só da forma que eles tomam. Ou você acha que, dormindo, é uma pessoa diferente da que é acordada?

– Sou tão diferente quanto você bêbado pode ser de sóbrio.

«Só bebi um copo. Mas no sonho… No sonho eu havia bebido muito… Muito mesmo. Não sei dizer quanto, Eu me lembrava de ter bebido muito. Mas agora não me lembro de que estivesse bêbado. Podia ter sido uma experiência dessas como Santo Daime ou coisa do tipo. Como primeira viagem com drogas. Eu não tinha experimentado nada disso antes de dormir e, no sonho, também não. Mas algo devia ter feito.

Eu me lembro de estar bebendo com os amigos do trabalho, numa mesa ao ar livre, de um restaurante perto do trabalho, onde vamos sempre. Mas era hora do almoço. Havia sol e, não olhei relógio, ninguém me disse, mas eu sabia que era hora do almoço. Tínhamos saído do trabalho na hora do almoço e fazíamos um happy-hour no restaurante.

Estava divertido. Falamos muita besteira. As de sempre, sobre o trabalho e as namoradas. A diferença foi que, não precisando comer, falávamos sem freios nem pausas. Pegamos pesado, principalmente sobre os malditos espíritos de porco do trabalho.

O sonho podia ter terminado nisso. Nas besteiras todas. Elas demoraram. Não terminou. De lá, eu fui para casa. E, em casa, que não era a minha casa… era outra, mas eu sabia que eu morava lá… em casa, eu encontrei todo mundo. Destranquei a porta da rua, abri, entrei, fechei sem trancar. Quando me virei, ali na sala, estava todo mundo. Todo mundo.

Minha família, parentes, amigos, amigos do trabalho, o balconista da padaria que me faz café toda manhã, o jornaleiro. Estavam todos lá. Todo mundo que, faz parte da minha vida. Parecia aquela montagem da capa do Sgt. Pepper. Eu pensei que fosse meu aniversário. Não era, mas não tem lugar no tempo. No sonho, seu aniversário pode ser qualquer dia. Inclusive pode ser hoje e hoje pode ser o dia que você quiser. Ou melhor, o dia que o sonho quiser. O sonho é um livro, e você lê, não escolhe nem quer.

Me disseram que tinham algo para me dizer. Não perguntei, anunciaram logo. Sonho é assim também, a gente não precisa fazer o que faria. Ele tem uma lógica dramática para dar o efeito necessário.

Sentei-me, a sala ficou menor e, onde estava a porta, agora havia uma poltrona. Uma poltrona com o encosto bem reclinado. O que me facilitava olhar para cima. Isso era importante porque todos pareciam tão mais altos que eu.

Perguntei o que era. Eles fizeram menos de alguns segundos de rodeio e, logo que o primeiro tomou coragem de me falar, os outros todos começaram a se atropelar falando, contando, resmungando. Todos a mesma coisa, as mesmas coisas. Na verdade, cada um falava segundo e como lhe apetecia pela parte que tomava em minha vida, pelo quanto lhe era afetado.

Em resumo, estavam cansados de me ter na direção do drama que interpretavam. Foi aí que me toquei. É lugar comum dizer que somos diretores de nossas vidas, ou personagens principais. Mas eu percebi que os outros são coadjuvantes, figurantes nessa trama. Eles não têm vida, não tem falas ou atuação quando não estão à nossa vista.

Eles, meus atores, meus coadjuvantes, não traziam reivindicações como qualquer trabalhador insatisfeito, comunicavam-me que partiriam. Demissão em massa da companhia. Que eu era um péssimo diretor. Que minhas decisões tiram toda a graça da história. Que ela fica confusa, sem sentido, piegas. Que ninguém a levaria a sério, uma história como essa nunca poderia ser real. Surpreenderiam-se se alguém a levasse a sério. Que nem eu devia acreditar numa história dessas.

E eu percebi que, quando paro para pensar, ela não faz tanto sentido mesmo. Nenhuma vida deve fazer. Parece escrita por várias mãos diferentes, cada uma tentando levar a história para um lado diferente. Se a encenasse num teatro de verdade, a crítica não me pouparia.

Vencido o primeiro trauma, o de abrir a porta a se expressar, eles partiram para os desabafos. Alguns ficaram agressivos, outros chorosos, uns se jogaram no fundo do sofá, ou num canto junto à parede, de cara fechada, discordando de tudo que eu dissesse ou mesmo de minha cara. Poderia dizer que as máscaras caíram, mas foram eles que as começaram a tirar. Tiraram as máscaras, a maquiagem, o figurino. Mostraram-se aos poucos como são. Não porque quisessem, mas porque não viam mais sentido em representar sob minha direção.

Aos poucos foram saindo. E quando fiquei sozinho, pasmo ainda, impressionado, a ficha caindo, levantei-me e fui para o quarto. Parei em frente ao espelho, curioso. Eu também devia ter uma máscara, maquiagem. Eu também devia ser algo diferente do que representava.

Tirei as roupas, deviam ser figurino da personagem. Esfreguei meu rosto. Devia ter maquiagem, não tinha. Exercitei a voz, procurando o modo mais natural, a voz verdadeira, mas todos os tons me soaram artificiais. Não sei se foi porque eu estava prestando atenção nisso.

Procurei mais por maquiagem, próteses, coisas que me representassem figurino. Eu encontrei, não exatamente isso. Encontrei em meu umbigo, naquela espiral emaranhada de tripas. Consegui enfiar meu dedo nele. E, passada a aflição que me deu ânsia de vômito, achei mesmo que, mesmo dormindo, ia vomitar, tomei coragem de tentar esgarçá-lo.

Descobri que meu umbigo era como que uma boca de saco fechada por um elástico. Abri a boca do saco, pronto para me encontrar lá dentro.

Antes de morrer murcho, vazio, e acordar suando frio, impressionado, chamando aquilo de pesadelo, vi saírem por ali, de dentro do meu umbigo, a boca do saco que eu pensei que fosse eu… não saiu por ali uma pessoa, um ator. Saíram em fila, não me lembro a ordem: uma raposa, uma harpia, um javali, e uma coruja pousada no galho de uma cerejeira.»

Last Crack

There is a crack in everything.That’s how the light gets in. — Leonard Cohen, Anthem (1992)

Acordei tarde, na hora do almoço, tinha trabalhado a noite toda, até quase de manhã. Foi para a cama só depois do café da manhã. As duas canecas grandes, cheias de cafeína, não me atrapalharam dormir. O dia de sol, tempo bom, também não. Ainda assim, dormi pouco. Quatro horas, no máximo. Não que fossem o suficiente para descansar. O telefone não sabe a que horas eu me deitei, a pessoa que liga sabe, e não pensa duas vezes antes de me acordar pedindo um favor para sua comodidade. Sono disperso pela indignação, tomei banho e saí para almoçar.

Ia almoçar sem vontade. Saí mais pelo passeio. O restaurante como destino é apenas um reflexo da preguiça de pensar, característica de quem está cansado e com sono. Fosse ainda de manhã, teria ido para a padaria tomar café ou para o trabalho, sem pensar também. Como era almoço, o máximo em que pensei foi que, depois, queria passear, tomar café, queria comprar uma daquelas geringonças de passar a roupa no cabide, na vertical, com vapor, então iria a um restaurante próximo ao shopping. Não no shopping. Não gosto de comer lá. Muita gente, barulho, confusão, gente. Odeio multidão. O mesmo para o café. Só iria ao shopping para comprar a geringonça porque nem sei mais onde se encontram lojas de eletrodomésticos fora do shopping. Está certo que poderia ir a Pinheiros ou à Lapa, mas teria de aturar a mesma multidão, só que na rua, e sem opções boas para tomar café.

No metrô, a caminho para o restaurante, percebi que aberração que era almoçar logo ao acordar, não importa a hora. Comida de sal misturada ao gosto de cabo de guarda-chuva e bafo de pasta de dente. Quem consegue almoçar com gosto de pasta de dente na boca? Não que seja uma combinação ruim, mas pasta de dente é feita para depois, não antes da refeição. Trabalhar à noite bagunça nossas referências e idéias assim. É uma confusão que surpreende até por não sabermos o que nos confunde nela.

Sentado no restaurante, quase vazio ainda, com o cardápio na mão, tudo me pareceu estranho de mais para comer. Meus olhos ainda não estavam suficientemente acordados para não se incomodarem com o sol. Deviam até ter um pouco de ramela no canto. Tive vontade de pão-com-manteiga. Acho que associei meu sono, que ainda começava a dispersar, com a hora do café. Fugi da comida de sal, pulei para a sobremesa: “Tem coalhada fresca?” O garçom fez cara ofendida para responder que sim. Acho que pensou que eu perguntava se a coalhada não era velha. Eu me referia à coalhada de sobremesa, que as pessoas misturam com açúcar, batem com morango e chamam de iogurte. Restaurante árabe, ele devia saber. Eu gosto quase pura, só umas gotas de mel. A coalhada do almoço, que eles chamam de seca, é mais fermentada e muitas vezes vem batida com pepino. Faz-me imaginar um iogurte com sabor de salada.

Contrariado também por atender uma mesa que só pediu sobremesa, ele perguntou pela bebida. Água com gás… e um pedaço de limão. O pessoal da calçada se atirava para o balcão. Haviam acabado de sair do forno as esfirras. São muito boas as dali, a de carne e a de verdura. Se combinassem com acordar, pediria uma. O garçom já estava retirando o prato e os talheres que eu não ia usar, quando me lembrei da esfirra de queijo: “Me traz uma esfirra também, de queijo… branco.” Desta vez, ele anotou sem se ofender. Não consegui evitar rir. Quase pedi queijo fresco.

Comi em pouco tempo, não rápido. Era pouca coisa. Por mais calma que eu tivesse não conseguiria demorar. Até tentaria, mas esses dez ou quinze minutos foram suficientes para o restaurante pequeno, já normalmente apertado, lotar de gente esperando mesa para almoçar. Levantei-me e fui direto pedir minha conta direto no caixa, liberando a mesa para duas meninas que, folgadas, passavam à frente dos outros.

Senti falta do café, da cafeína. Não gosto do café dali. O espresso é daqueles ruins que têm gosto de terra. No coado, mania que esse povo tem, eles já açucaram, e muito, na própria cafeteira, ao coar. Eu prefiro guardar minha quota de cafeína para depois, descansado, num lugar tranquilo e com café bom.

Sem ânimo de fazer nada sério, pensei se voltava para casa. Lembrei-me do que queria comprar. Já havia algum tempo que eu não ia aquele shopping. Fui a pé do restaurante. Não gosto daquele caminho. Avenidas largas, movimentadas, poeirentas, barulhentas, sujas, fedidas, cheias de mendigos e trombadinhas. Ainda assim, aproveitei para olhar bem, ver se havia algo de novo. Não vi nada de bom, nada de novo.

Entrar no shopping, naquela multidão que o entope na hora do almoço, me deixa nervoso. Logo que entro, me arrependo e já quero sair. Vou buscar logo o que quero e puxar o carro. Deixa ver se ainda tem aquela loja no fundo do corredor da direita, não foi pra isso que vim, mas deixa aproveitar. No último fim-de-semana, andei um monte pela Liberdade atrás das outras duas filiais dela e descobri que eram só uns quiosques pequenos. Não tinham tudo o que eu queria. A loja fechou, agora é outra. Besteira ter procurado. O site mesmo não a listava mais. Banheiro. Acho que já andei muito. Não vejo a hora de sair pra rua de novo. Melhor ir logo embora, deixa pra lá o que vim comprar. Olhei uma vitrine antes de sair. Talvez ali tivesse e eu não perdesse a viagem. Nada a ver, não tinha. Saí. Ufa!

Não gosto de passear em shopping. Shopping por shopping não faz sentido. E olha que eu sou da geração que, quando adolescente, era chamada de “geração shopping center”, A molecada punha os panos, a roupa de marca, que noutros tempos seria chamada de “roupa de missa”. Na nossa época era a roupa de shopping, algumas mães da minha idade ainda falam assim: “Vou vestir o meu filho com a roupa de shopping pra sair.” Aqueles prédios de lojas eram novidades que, sem dinheiro, só servia para passear. Vestidos os panos, iam ao shopping só para andar e olhar, azarar as meninas, urubuzar. Ficavam bobeando encostados nos muros em torno das escadas rolantes. Eram os chamados “bobódromos”. Eu odiava. Com minha cara de pobre, odiava entrar lá e ser seguido pelos seguranças, ouvi-los conversando no rádio: “QAP? QSJ nariz passando para seu setor. QSL?”

Eu saí do shopping, para o sol. Ardia. Pensei em voltar a pé para casa. Aproveitar o sol. A gente que trabalha não tem o mesmo direito do preso a uma hora de bobeira no sol por dia. É preciso aproveitar. Além de tudo, eu gosto de andar. Atravessei a avenida. São uns quatro ou cinco quilômetros dali pra casa. O caminho é praticamente plano. Deve dar uma hora a pé. E desse caminho eu gosto, tem muita coisa para olhar. Mas muito antes dos primeiros trezentos metros, as minha costas machucadas, machucadas desde o fim-de-semana, acho que machuquei dirigindo, depois piorei com um tombo, doeram até me irritar bastante e me fazer desistir da caminhada. Doeram muito. Eu achei que não chegaria nem ao metrô.

Quase cheguei. Poucos metros antes do metrô, havia outro shopping. Na verdade, só uma galeria com nome de shopping. Esse já é o tipo de coisa que me agrada. Nessa galeria, já houve duas salas de cinema. Elas fecharam quando as grandes redes chegaram ao Brasil. Do outro lado da avenida, noutra galeria, também já houve mais duas salas, grandes, muito boas. Também fecharam poucos anos depois destas. No prédio ao lado, onde funcionam duas faculdades, um canal de televisão, e estações de rádio, houve também dois cinemas que fecharam. Mas, em seu lugar, abriram um teatro muito bacana e um cinema discreto, com quatro salas pequenas, uma lanchonete e um restaurante metidos a bestas, mas programação muito boa. É um dos meus preferidos. Eu havia passado ali no fim-de-semana e olhado a programação. Já era muito tarde. Não dava tempo de jantar e assistir algo, Eu morria de fome, mesmo, e deixei para outro dia o passeio ao cinema. E havia ali ao menos seis filmes que eu queria ver. Hoje podia ver um. Pensei em poltrona de cinema, com o encosto bem alto e levemente reclinável, e no alívio que seria para as minhas costas.

Desci ao saguão, na verdade, uma espécie de corredor, do cinema para olhar os cartazes. Não sei dizer o quê mas algo pareceu ter mudado desde o fim-de-semana. Os cartazes, sua disposição, haviam mudado. Claro, quinta-feira é dia de mudar a programação da semana. Talvez alguns dos filmes que eu queria ver não estivessem mais disponíveis.

Subi à bilheteria, do outro lado, atravessando todo o saguão e subindo um lance de escada para o nível da calçada, já do lado de fora. É a mesma bilheteria do teatro. Havia mais cartazes na parede externa, ao lado da bilheteria, com as salas e os horários das sessões, em letras grandes, nos rodapés, em etiquetas brancas grandes, impressas a laser. Eram só quatro, um em cada sala. Que pena! Ao que parecia, alguns dos filmes que olhei no fim-de-semana e minhas lombrigas queriam ver saíram da programação sem que eu os tivesse assistido. Logo hoje! Eu vim na quinta-feira. Devia ter vindo na quarta, antes de virarem a programação.

Esses quatro que ali estavam, pareciam todos muito bons, ao menos eu estava curioso de vê-los todos, mas queria vê-los de fim-de-semana, no próximo talvez, noutras circunstâncias, ou com alguma companhia. Fiquei com raiva de mim. Velho rabugento fica procurando motivo para não fazer as coisas. Resolvi que tinha de ver um e pronto. Que escolhesse um, em vez de arrumar desculpas. Não conseguia decidir. Olhei os horários para encontrar um que terminasse a tempo para eu não perder meus compromissos à noite. Alguns filmes tinham horários esquisitos. Intervalo de duas horas entre as últimas sessões, quatro entre as primeira. Algo estava faltando. Entrei no caracol, aquele que fazem com suportes e fitas vermelhas para organizar filas, não havia fila, só o caracol e um homem, que chegou sem olhar os cartazes e já foi direto à bilheteria. Era o único à minha frente. Indeciso, nem percebi que havia outros dois guichês além do que o atendia.

Apressado, ele foi direto ao guichê, já com a carteira na mão, e perguntou qual seria o próximo filme a começar. A moça respondeu-lhe um que não estava nos cartazes. Interessei-me. Havia outros filmes. Olhei em torno e, na ponta do caracol, encaixado a um dos suportes da fita, havia um pequeno painel, onde fixaram um impresso de meia folha de sulfite, talvez o resto do papel usado para os horários que etiquetavam os cartazes, camuflada pela poluição visual, com a programação completa, uns oito ou nove filmes ao todo. Além dos quatro dos cartazes da parede, que deviam ser os carros-chefes, das sessões noturna, as mais procuradas, havia alguns outros já a mais tempo em cartaz, com poucas sessões espalhadas pelo dia. Um deles tinha só uma sessão e era um dos que eu mais queria ver: nome sugestivo, bons atores. A sessão começava pouco depois das três, eram duas. Dava tempo ainda de tomar um café, recarregar a cafeina, e escrever, tentar escrever algo. Três e pouco mais entre uma hora e meia e duas horas, o filme acabaria antes das cinco. Perfeito, dava tempo, apertado mas dava, para tudo.

Pedi o ingresso. A moça me mostrou o mapa da sala para que eu escolhesse a cadeira. Todos os lugares estavam em verde. Até então eu era o único para ver esse filme. Quinta-feira, logo após o almoço, cinema europeu no meio da tarde. Não ha muitos esquisitos como eu vagabundeando pela avenida, procurando algo para ver, e descansar as costas.

Ao lado da janela do guichê, no pequeno balcão de madeira, havia uma pequena pilha de folders de programação. Peguei um, para programar o fim de semana. Não gosto de fazer as coisas assim tão de improviso. Fui para o café, não o do cinema. Fui para o da galeria ao lado. Lá o cafe é ruim, mas o lugar é muito mais confortável, e eu não preciso pedir café. Tem outras coisas, chá, shake, suco, chocolate. E também gente interessante passando. No daqui, só poucos casais sentados tagarelando, disputado quem é mais intelectual. Imagino o que fazem da vida, que têm a tarde livre para isso.

Andando ainda os primeiros metros, abri o folder, curioso. Dei de cara com o filme que eu ia ver. Duas horas de duração. Eu não tinha conferido antes. Duas horas, mais trailers, propaganda etc. Não terminaria antes das cinco e meia. Eu tinha compromisso às sete e ainda de passar noutro lugar antes. Fiquei preocupado de me atrasar, não podia. Tentei relaxar, pensava nisso depois. Estava ali para relaxar mesmo. Entrei na fila do café. À minha frente, um rapaz brigava com o namorado que estava indeciso sobre que que queria. A menina do caixa pediu-lhes licença para me atender primeiro. Eles, distraídos discutindo, nem perceberam e ela me perguntou o que eu queria. Pedi meu chá, english breakfast, um bem grande e quente. Depois corrigi, gelado. Estava muito calor hoje, quente não cairia bem. Ela concordou. Hesitou em algo, me olhou, olhos arregalados, caiu na gargalhada: “Esqueci o código do chá.” Eu me lembrava. Peço tanto que já sei o código que usam. Ela ficou encabulada pelo cliente ter-lhe ajudado com isso. Fez piada sobre sua trapalhada. Tentou desviar a atenção falando das gorjetas grandes que recebeu. Aí ficou ainda mais sem graça e pediu desculpas, que não estava dando indireta para receber gorjeta. Achei graça. A trapalhada me distraiu, o chá estava pronto antes de ela terminar de cobrar.

Sentei-me num sofá, com dificuldade. Muita dificuldade. O sofá já era baixo e o fundo do assento, a parte mais junta ao encosto, mais baixa ainda. Fiquei com vergonha de me verem arcando com esforço. Sentando feito velho caquético de piada. Já todos dizem que sou velho e que pareço ainda mais velho do que realmente sou. Com esta barba cheia de tufos brancos que cultivo nos últimos dias (promessa, que me está saindo uma agradável experiência) e ainda dificuldade para sentar e levantar, tomar-me-iam por ancião. Talvez eu fosse mesmo.

Eu não ia conseguir digitar com o copo na mão. Puxeu com o pé uma mesa de centro para perto de mim, foi difícil alcançá-la. Pousei o copo. Ainda assim, com o fundo do sofá mais baixo que a frente, a sensação de estar com as pernas pro ar e a dor nas costas, era difícil alcançá-lo.

No sofá ao lado, à minha esquerda, em “L” com o meu, duas meninas, uma delas linda, por sinal, namoravam e riam muito. Mais riam do que namoravam, algum chato poderia dizer. Esses chatos não sabem que rir junto é uma das melhores partes do namoro. Riram de minha cara de dor tentando mexer no tablet e no copo. Não as culpo, deve ser mesmo engraçado ver alguém, sem mais explicação, franzir a testa e gemer para digitar. Coisas completamente desconexas.

Bebi só um pouco de chá e fucei meus rascunhos. Não tinha nenhum que eu me animasse a terminar. Fucei um a um. Não achei nada nada. É engraçado, tenho várias anotações de coisas sobre as quais eu gostaria de escrever, coisas que quero elaborar, rascunhos, memórias, mas, a maioria, eu nunca encontro um momento em que queira trabalhar. Eu olho, acho bom, legal, mas deixo para depois porque quero outro coisa. Mesmo tendo mais de uma centena de rascunhos, quando vou escrever, quase sempre, estou com vontade de algo diferente, que não tenha nada a ver com nenhum deles. Acho que perdi meia hora nisso: abre rascunho, confere, fecha, passa para o próximo. Devo ter aberto ao menos duas vezes cada. Não me apetecia trabalhar em nenhum. Assuntos bons, mas passados, eu acho. Às vezes, encontro três ou quatro histórias para escrever, mas como só consigo uma de cada vez, deixo as outras para quando acabar a primeira. Quando acabo a primeira, as outras já ficaram datadas, para mim. Já passou o momento que me motivou a escrevê-las. Caem na caixa de saída, esperando que um dia o carteiro as venha pegar.

Precisava escrever, produzir. Talvez algo rápido sobre minha dor nas costas. Curto, rápido, só para não perder o embalo. Já me aconteceu antes, cada dia sem escrever, deixa o dia seguinte mais difícil. Se descuido, acabo me esquecendo do gosto, me acostumando a deixar de sonhar, murcho por dentro. Uns quarenta minutos ainda para o filme. Eu, o tablet e meu chá. Escrevi umas linhas, texto curto, uma pequena entrada de diário. Serviria como uma anotação para eu saber, no meu timeline, em que época machuquei as costas. Não que isso seja algo memorável, mas eu vou me lembrar e, encontrando o post sobre isso, vai ser mais fácil situar os outros no tempo.Não ficou grande coisa, nem precisava. Era algo para publicar. O importante é continuar publicando, continuar falando, continuar respirando. “Aconteça o que acontecer, continue respirando”, me disseram uma vez num treinamento motivacional. Treinamento que esqueci, mas a frase cai bem aqui. Escrever é falar, falar é respirar, e tenho que continuar respirando.

Uma japonesa, seus quarenta e poucos anos, sentou-se a meu lado. Não ficou ali nem dois minutos. Mudou-se de lugar, me olhando. Eu devia estar fazendo careta, com uma expressão horrível que a deixou com medo de ficar no mesmo sofá. Uma balconista veio ao vão entre meu sofá, agora de novo só meu, e o das namoradas. Trazia um copinho para as meninas. Disse que era chantilly, cortesia, um copo cheio só de chantilly. Não havia quando elas pediram suas bebidas. Agora que terminaram de fazer, ela achou por bem trazer-lhes um copo cheio e agradecer a paciência. Elas, encantadas com o copo que parecia coisa de criança, agradeceram e comeram de colherinha, rindo da lambuzeira, até enjoarem as duas.

Enquanto isso, eu tentei escrever. Foi rápido. Relativamente. Eu escrevo devagar. Mesmo esse texto curto. elas terminaram chantilly, provavelmente enjoaram antes de terminar, mais rápido do que eu digitei. Foram embora. Eu, em vinte minutos, já postava meu texto, cru, sem arte nenhuma, e me levantava para ir ao banheiro. Interromper cinema para ir ao banheiro não dá. Na saída do banheiro, voltei ao balcão pegar algo para beber no cinema ao invés do tradicional refrigerante com pipoca. Agora o chá que peguei foi quente. A sala de cinema é fria, tem ar-condicionado.

Apressei o passo pensando estar atrasado. Nem precisava, é muito perto, não fez diferença a pressa. O garoto na porta da sala (bilheteiro? lanterninha? ainda se diz lanterninha?) me cumprimentou errado: “Bom filme, senhor, bem vinda. Digo, bem vindo.” Eu já estava dentro da sala quando processei o que ele disse. Procurei meu lugar, Terceira fila, bem perto da tela. Eu gosto. Me concentro melhor no filme, vendo bem de perto. E ali, eu ia ficar bem apoiado na poltrona um pouco inclinado para cima, esticando as costas. Era uma boa fisioterapia.

Encaixei o chá no porta-copo do braço da poltrona. Sentei. Arrumei a mochila, pendurada no meu joelho. Havia algumas pessoas só, poucas. Uma mulher tagarelava muito algumas filas atrás de mim. A filha dela estava em Páris e ela precisava contar sobre a cidade antes que sua amiga, ou amigo, não olhei, visse no filme.

Ajeitei o corpo ao encosto. Ah! Que alívio! Muito melhor que chá! que café! sexo! que colo! que coçar urticária! Só quem já machucou as costas sabe como é. Não é uma dor que cause sofrimento. Mas incomoda os movimentos. Sem perceber, você se torce todo para tentar fazer as coisas e não consegue. Na poltrona do cinema não. Aquela poltrona era uma massagista, numa massagem que teria final feliz.

As luzes logo se apagaram. Pouca propaganda, poucos trailers, o filme começou. Me lembrei de colocar o telefone e o tablet em mudo. Não quero que me odeiem como odeio quem deixa telefone tocar no cinema. Como eu poderia me ofender com os outros se isso acontecesse comigo também? Ainda bem que me lembrei a tempo. Guardei tudo e me ajeitei de novo na poltrona.

A primeira cena do filme, achei-a estranha, escura, pesada, barata. Depois, logo em seguida, com a música, e, depois, com a apresentação da história, comecei a achar tudo muito bonito: fotografia, som, atuação, história, a música incidental. Vi outras cenas, de outras histórias, passarem, na minha memória. Em menos de cinco minutos, antes mesmo da música terminar, quando alguns nomes ainda passavam na tela, uma lagrima escorreu de um de meus olhos. Não a limpei. A luz estava apagada, ninguém me via.

Percebi que assisti tudo, ou quase tudo, sorrindo. Cara de bobo de quem pára de pensar só pra achar bonito. Percebi e deixei. O sorriso ali ficou, olhando a tela, atá a bexiga incomodar. Minha mania de chá. Olhei o relógio. Faltava ainda uma hora. Estava exatamento na metade do filme. Eu tinha de agüentar, estava muito bom. E agüentei.

O sorriso persistiu, por muito tempo ainda, enquanto a bexiga queria se revoltar. Esqueci-me dela, por longos momentos. Aquela lágrima do início há muito já havia secado. Agora o sorriso assistia, emocionado, o melhor e o pior que acontecia às personagens. Assistia assim, cruel, sorrindo, não importa o que acontecesse, encantado com tudo. Sorrisos encantados, persistentes, são assim cruéis. A culpa não é deles. A culpa é nossa por, tristes, nos ofendermos com o sorriso, em vez de abraçá-lo.

A bexiga apertou mais. No desespero, olhei, faltava quase meia hora. E o filme chegava a um momento que prometia. Abaixo do horário, o telefone acusava várias ligações perdidas e um SMS, mensagem indesejada. Eu não devia ter olhado, Maldito chá. Tem gente que procura de todas as formas um meio de incomodar e chamar a atenção. Parecem mosquitos procurando a fresta da veneziana pra incomodar o sono do casal que dorme feliz, cansados da noite, de conchinha.

A mensagem me distraiu, quase fez a bexiga estourar. Contrariado, o velho rabugento voltou a se manifestar em mim, saí para o banheiro pensando que perderia a melhor parte do filme. Da porta, olhei para trás, para a tela. Pelo choro do protagonista, estava perdendo mesmo. Saí, nervoso, irritado, com vontade de vomitar fel. Ainda assim, fechei com carinho a porta atrás de mim, com cuidado para não fazer barulho, nem deixar nenhuma fresta por onde passasse luz ou ruído que atrapalhasse os outros.

Fora da sala, parei na escada que leva ao banheiro, ele fica no subsolo, respondi o SMS e desci pensando se, depois, voltava. O frio dos azulejos do banheiro, azulejos velhos, feios, que destoam do resto do lugar, esse frio se refletiu todo em minha direção e me deu vontade de chorar. Choro sem o sorriso, expontâneo por hora e meia na frente da tela. Não chorei, só perdi a vontade. Triste fiquei.

Na volta, subindo a escada, não sabia se entrava de novo para ver o fim do filme. Deviam faltar ainda uns vinte minutos. Sem pensar, parei um pouco para complementar a resposta que havia dado à minha mensagem indesejada. Escrevi e enviei embora com a resposta a raiva que começava a aparecer.

Achei melhor não pegar o resto do filme. Não correr o risco de estragar tudo conhecendo o final que talvez não entendesse por conta do tempo no banheiro. Voltaria no fim-de-semana para rever o que tinha assistido e ver com calma o resto. Talvez outra lágrima escorresse e, depois dela, outro sorriso penetra aparecesse.

Ao menos, com essa saída, ainda tinha tempo de caminhar com calma até o metrô para espairecer e ter certeza de não perder meu compromisso.

PDV

No caixa, ele beijou a mão dela, como faz quase todo dia:
— Você cobra para mim?
— Claro. Um café e um pão-de-queijo?
— Dois. E dois pães-de-queijo também.
— Dois? Você tomou dois?
— Sim, dois. Eu tomo dois todo dia.
— Catorze reais.
— Cobra no débito, por favor.
— A máquina está do seu lado, você pode pôr o cartão nela?
— Claro.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Só uma? Pode.
— Você é gay?
— Sou. Por que?
— ‘Tô falando sério, você é?
— E eu não respondi sério? Eu sou.
— Você é casado?
— Com uma mulher. Mas tenho dois peguetes.
— E tua mulher?
— Ela também é. Ela tem as peguetes dela e também pega os meus.
— Eu não acredito. Só acredito se eu vir você com outro homem.
— Isso você não vai ver…
— Não vou ver porque você não é. Eu não acredito que você seja.
— Por que não?
— Porque… — abaixa o rosto, encabulada.
— Então por que você perguntou? — sorriso, feliz por ela ter ficado encabulada.
— Ah! Porque ia explicar…
Não terminou a resposta. Já chegou outro cliente no caixa. Estavam os dois chateados por não acreditarem na resposta que sabiam que era mentira.
Ciao — ele acenou com a mão, piscou o olhou e mandou um beijo.
— Tchau. — Ela também mandou um beijo e foi providenciar o troco do outro cliente.

Olhar

Esta semana, tenho trabalhado à noite, cobrindo férias de um colega. Trabalhar à noite gera a ilusão dos dias livres. Logo dava impressão de que podemos por todos os assuntos atrasados em dia. Ilusão mesmo. Estou trabalhando das dez da noite às seis da manhã, em casa. Após o trabalho, levar as crianças para a escola, tomar café da manhã — é de manhã, oras, — já são nove horas e não dormi nada. Tento dormir, não estou acostumado a dormir de dia, consigo até umas duas ou três da tarde só. Acordo com fome, o estômago se lembra de que passou a hora do almoço e os olhos de que ainda é de dia. Como alguma coisa e já é hora de pegar as crianças na escola. Depois, fazer jantar, academia, banho e já é de novo hora de trabalhar. Acabo percebendo que só dá tempo de fazer o que sempre faço, mas em horários diferentes. Isso frustra. Ter o dia para si parece liberdade. Mas liberdade é poder fazer o que quiser, ou nada, ou dormir porque quer, sem precisar.

Liberdade é fazer o que se quer, mesmo que não seja nada diferente ou especial. É respirar o ar e provar o quão bem ele sabe.

Acordei segunda, terça e quarta-feira à mesma hora, depois do almoço. Peguei metrô. Comi sanduiche de pernil e tomei chá, gelado, escrevendo. Tão normal e sem graça como qualquer dia pode ser. Como se não tivesse de fazer diferente por, afinal de contas, serem sempre assim. Para completar, segunda e terça-feira, sentei-me, por coincidência, no mesmo lugar, no balcão alto de madeira que me serviu de mesa de merenda e também de escrivaninha. Quarta-feira e hoje, sentei-me numa mesa. Por coincidência na mesma mesa. Fico imaginando se amanhã e no sábado sentarei-me também duas vezes no mesmo lugar. Há um ditado que diz que algumas coisas só acontecem uma vez, mas nada só acontece duas. Essas coincidências devem ser assim. Esta do lugar deve ser e eu aguardarei, talvez com uma ajuda, que se repita uma terceira vez para não desmentir o ditado que desenterrei.

Nesta mesma mesa, ontem, sentei-me, não tenho certeza mas acho que na mesma cadeira ou noutra na mesma posição, de frente a uma mesa com quatro meninas. A mesa ainda está ali, na mesma posição. As cadeiras não todas. Cadeiras são leves por isso o pessoal toma a liberdade de mudá-las de posição, de uma mesa para a outra conforme a conveniência. Enquanto eu escrevia e tomava meu chá — mas, principalmente, escrevia — a menina mais próxima à minha mesa, sentada de lado para mim, quase encostada à minha mesa, me olhou. Essas olhadas normais de quem relaxa os músculos do pescoço e dos ombros, cansados de manterem a cabeça parada muito tempo na mesma posição, com um movimento diferente. Olhada de quem se cansaram os olhos de uma cor, um canvas, uma iluminação, e os relaxa, espreguiça-os, olhando se há alguma novidade no que está em volta. Olhar despretensioso, sem maior intenção, que teria passado em branco se não tivesse cruzado com o meu e eu notado a expressão de desprezo que eles sincronizaram, junto com a boca e o nariz. Parece que, para ela, eu, por algum motivo, não tinha direito de relaxar meus olhos e pescoço como ela se isso me levasse a vê-la. Coisa de mulher antipática, as que se acham bonitas costumam ser. Nisso não a culpo, por se achar bonita, era muito. Seu olhar de desprezo não me faz diferença, assim como sua beleza. Imagino pelo quê ela julga as pessoas com quem se relaciona.

As outras três, apenas olhavam para o centro da mesa. Não tinham o mesmo movimento periscópio de pescoço quando precisavam aliviar a tensão. Em vez, olhavam para  grupo, uma a outra, ainda conversando. Conversavam. Papo de meninas provavelmente. Aqueles burburinhos que não atrapalham, mas, às vezes, chamam a atenção por uma palavra ou sílaba pronunciada mais alto.

Foi assim que, após um pequeno silêncio na conversa, uma delas me surpreendeu dizendo alto algo sobre “…quando fulano e eu paramos de ficar…” O silêncio quebrado por algo assim, não é coisa que passe despercebida, mesmo para quem está de fora da conversa, só tentando escrever e beber chá. Isso por si já, quando eu tinha a idade delas, não era coisa que se dissesse em voz alta. Distraída então a minha atenção, fiquei curioso de ver a cara da dona da frase. Ela estava na posicao oposta à da loira que me desprezou, também de lado para mim. Outra delas, que estava de costas para mim, me encobria vê-la. Inclinei-me um pouco para a direita e vi seu corpo pequeno, vestido azul. Depois inclinei-me para a esquerda, e vi seu rosto. Não devia ter dezoito anos ainda. Admirei-me por um instante, mas depois, pensando bem, lembrei-me de que, quando era adolescente,mas conversas também iam por aí. A diferença é que não conversávamos sobre isso em voz alta num café lotado.

Olhei as outras meninas da mesa, mais comedidas, até mesmo a antipática, mais velhas também, ligeiramente. A loira devia ter uns 21. As outras duas por aí também. Talvez vinte. A que estava de costas para mim, via-se que era patricinha, como as duas anteriores, a loira e a da fala alta. A quarta, de frente para mim, era diferente. Pele mais morena, não usava roupas novas e de marca. Via-se que era diferente das outras. E falava pouco, em meio à falação da mesa. Uma morena bonita, sem produção. Parecia tímida. Olhava muito para a mesa e para a menina à sua frente, a que estava de costas para mim, não diretamente no rosto.

Falaram algo como “Vamos” e se levantaram as outras três. Achei que iam embora. A morena continuou sentada e falou algo, uma ou duas palavras só, para a loira antipática. As três foram para o caixa, ficou a morena guardando a mesa.

Ela tinha um papel que segurava com as duas mãos, estendidas sobre a mesa. Olhou-o e mexeu nele, primeiro esfregando com os dedos como se estivesse verificando se era uma única folha, depois enrolou-o feito cigarro. Quando consegui, desenrolou-o quase todo e olhou na minha direção. Não era aquele olhar de quem relaxa, espreguiça os olhos. Ela o fixava em algo, na minha direção, mas o olhar ia longe, passava por mim.

Eu, numa pausa entre duas frases que digitava, olhei-a. Um olhar não só fisioterapêutico, confesso que foi curioso também. Ela se incomodou, eu percebi. Seu corpo recuou um centímetro, ou até menos, foi um movimento imperceptível, mas que aconteceu, como se meu olhar, talvez inesperado, a tivesse empurrado. Ainda assim, o olhar dela permaneceu fixo. Isso me incomodava. Fiquei olhando-a como se jogássemos o isso. Nossos olhares se esgrimavam. O meu, fixo, desafiando o dela, insistente, que me incomodava. Foi complicado resistir à tentação de desviar, procurar algo ao fundo para olhar perdido como ele fazia. Era como se estivesse segurando dois imãs juntos com os polos equivalentes se tocando e se repelindo. A tensão me fazia mexer imperceptivelmente meu corpo, como ela já havia mexido o seu também havia pouco. Então, percebi que o dela não me atravessava. Percebi que ela não olhava algo atrás de mim é que eu não era apenas um obstáculo no meio do caminho. Era a mim que ela olhava. Mas meus olhos, no meio do caminho, não eram vistos por ela. Ela não olhava exatamente para mim, olhava para dentro de mim. Seu olhar atravessava minha retina, entrava por meus olhos e ia para algum lugar dentro de mim. Fez como eu já havia feito alguma vez antes, fingindo que olhava outra coisa para não denunciar o que olhava, não deixar os olhares se cruzarem mesmo quando os olhos se viam.

Eu, quando fiz isso, foi por timidez e covardia. Timidez que é apenas um nome diferente para covardia. Ela, eu não sei porque fazia, o que pensava. Acho que ela enxergava algo dentro de mim, por como me olhava. Eu não via nada além dela me olhando.

Eu não sabia como agir. Se deixava olhar, pedia para parar, dizia “oi”. Se pegava um cartão de visita, desenhava ou escrevia algo e lhe entregava. Tampouco sabia o que devia sentir, incômodo, vaidade, excitação, dúvida, desprezo? Desprezo como da amiga dela?

Olhei-a, sem mexer meus olhos que já a fitavam, e tive inveja de como seu olhar foi mais forte que o meu. Finalmente fugi, olhei para baixo. Tentei escrever, não consegui. Olhei-a. Ela ainda me olhava e percebia, acho eu que percebia, cada coisa que eu pensava, pois cada vez que eu pensava em algo, ela mexia um músculo do rosto, da bochecha, da pálpebra, do lábio. Sua expressão facial continuava reagindo, imperceptivelmente. Não sei se seus movimentos se sincronizavam com algum meu. Parecia estar começando o movimento para responder a algo que eu lhe dissesse. Um movimento varias vezes freado pois eu nunca cheguei a lhe falar algo. Apenas inisisti em tentar olhar-lhe também. Insistência várias vezes frustrada. Queria saber o que acontecia ou tentar me concentrar em escrever. 

Foram dois ou três minutos longos. Uma estranha, bonita sim, me olhando fixo, me esperando falar algo. E eu, se sabia da oportunidade que me diriam que eu não devia ter perdido, só pensava em outras vezes, em vezes em que quis que algo assim acontecesse e não aconteceu. Fiquei triste.

As amigas dela chegaram do balcão, com cafés e shakes. Chegaram, por coincidência, quando eu desisti e arrumava minha bolsa para ir embora.

Aquela morena não era a mais bonita, mas, no silêncio de seus olhos, tinha um poder enfeitiçante que eu ainda não entendi.