Mentira e Verdade

A maior mentira é a de quem diz que odeia mentira e quer sempre ouvir a verdade. Porque a verdade, meus amigos, a verdade, mais que doer, ela constrange. A mentira doi. A verdade tortura. E todos sabem disso. Por isso, há coisas que nunca devem ser perguntadas e perguntas que nunca devem ser respondidas. Mas o silêncio, ah! o silêncio também é resposta. E essa, mais que qualquer outra, é uma resposta sempre verdadeira.

Bolinhas de Gude

Eu nunca entendi o jogo de bolinhas de gude. Às vezes, via, na escola, os colegas jogarem em vez de brincarmos de outra coisa. Me enfadava. Para mim, era um jogo sem fim, sem sentido, extremamente ritualizado com dúzias de fórmulas e palavras mágicas que deviam ser pronunciadas em voz rápida, ininteligível, em momentos específicos. Me parece que elas era usadas para invocar as entrelinhas do livro de regras. Também me aborreciam as discussões constantes provocadas pelas diferenças entre as palavras mágicas e os rituais de cada um. Era como um religião primitiva. Cada grupo tinha sua própria versão. Sem falar na margem que havia para alguém inventar na hora do apuro uma regra que lhe beneficisse, fingindo que “na minha rua sempre jogamos assim.”

Os jogos de bolinhas de gude dos colegas contribuíram muito para minha familiaridade com o Professor Jacó, o professor de português de meus irmãos que servia de bibliotecário na hora do recreio. Nas temporadas de bolinhas (porque criança tem temporada para cada brincadeira), eu passava na biblioteca no começo do recreio, pegava um livro ou gibi e lia sentado no degrau, chamávamos de pódio, onde se esteava a bandeira à quartas-feiras.

Um dia, o professor me perguntou porque eu aparecia na biblioteca todo dia, coisa muito rara entre crianças. Expliquei que meus colegas estavam todos jogando bolinhas de gude. Mas não tive tempo de explicar que não gostava. Ele já puxou do bolso a chave para fechar a biblioteca: “Bolinha de gude? Eu adoro. Vamos lá com eles. Eu quero jogar também.”

a dream of…

O menino, já nem é mais tão menino assim, admira a lua que já está no céu, embora ainda a noite não tenha escurecido. Gosta de olhar a lua, especialmente nessas cenas inusitadas de ela sair ainda à luz do sol. Ele ouve uma música. Uma que provavelmente nunca ouviu antes, mas que soa conhecida. Vem do céu. Ele olha na direção e vê uma nuvem grossa, escura, pesada, de onde parece vir a música. O som é muito baixo, quase inaudível. A nuvem não, vem longe mas é bem visível. É brincadeira comum de crianças e adultos achar formas às nuvens. E ele a olha, procura uma forma, percebe que são, na verdade, várias nuvens que se entremeiam e sobrepõem como relevo de um desenho. Tenta imaginar o que formam. A princípio, um pedaço lhe lembra a coxa do frango do jantar de domingo. Outro pedaço, uma asa, do mesmo frango, mas em escala bem maior. A nuvem se aproxima e, quando esta já perto, ele reconhece um cavalo, um lindo cavalo, magro, forte, com os músculos, rabo e crina todos muito bem delineados. Ele pousa, na areia da praia, não muito longe dali. O menino, perplexo, estranha sua cor, seu jeito e começa a se aproximar. Não está ainda muito perto quanto percebe, tem certeza, a cor… a praia… o cavalo não é uma nuvem, ele é feito de areia. Logo que pensou isso, o bicho, a nuvem, levantou sua cabeça em direção à lua e partiu de novo. Voou deixando um rastro de poeira e música, da praia onde estava o menino. Voou para a lua. O menino… o menino já não estava perplexo. Tinha pena. Pena de não ter podido, de não saber se teria sido possível, por ser de frágil areia o cavalo, montar em suas costas e ir junto.

Deus Não Morreu

Não, Deus não morreu. Ele simplesmente se cansou desta brincadeira sem sentido. Deste bando de playmobils que espalhou pela Terra. Somos brinquedos velhos, chatos já. Ele deve ter arrumado outra brincadeira. E não pense, por ele não estar mais por aqui, que agora tudo seja possível. Não é. Muito pelo contrário. Agora sim, nada mais é possível. Porque, bonecos que somos, nos acostumamos a seguir o roteiro da brincadeira, movidos por suas mão e vontade divinas. Foi cômodo isso, até agora. Mas e agora? Sem o grande titereiro nos movendo, o que fazemos? Pensar? Julgar? Agir? Só o que queremos mesmo é outro que faça isso por nós. Precisamos de um barco e água corrente para nos carregar ao mar ou cachoeira. Tanto faz. E cursos d’água, dentre nós mesmos, existem alguns. Aquelas pessoas mimadas sem ética que manipulam os outros segundo seus interesse e a apatia deles. Para elas Deus também não liga mais. Mas para eles… ah!… para eles a existência de Deus nunca fez diferença mesmo.

Para ser bom, não pode ser assim.

À noite, em frente à televisão, na poltrona, deixo as luzes apagadas para elas não esquentarem tanto a sala. Está calor hoje, primavera é época de estio em São Paulo. Na escola nos ensinam que primavera é das flores e verão do calor. Em São Paulo, não. Aqui, a estação mais quente é a primavera, muito quente e seca. O verão é da chuva. Chuva forte, morna, ela não deixa a temperatura subir tanto.

Eu tenho de trabalhar, tenho o que fazer, mas a vontade é nenhuma. O fim-de-semana foi cansativo, trabalhei também. Domingo, depois do Fantástico, já é crueldade demais. É quando o notebook quente em cima das pernas mais incomoda. Parece que ele sua também.

Hora de desistir, deixar para amanhã o que pode ser feito amanhã. Tem só uma coisa que eu preciso fazer agora, mas preciso pensar. Pensar sem vontade é difícil. Com preguiça, a gente faz mais fácil o automático.

Largo o note no pufe que me serve de apoio para as pernas, trago algo gelado da cozinha e me jogo no sofá, agora me jogo, procurando algo na televisão para distrair os olhos enquanto tento pensar.

Televisão no domingo à noite só serve como abajur. É triste pensar em alguém que não tenha nada melhor para fazer no domingo à noite do que assistir televisão. Aqueles programas de futebol onde quatro ou cinco homens falam as mesma coisas que a gente pode ouvir no bar no dia seguinte ou no anterior, uns filmes batidos (muito batidos), noticiários repetidos e cheios de amenidades que foram rejeitadas pelo editor nos outros dias da semana, reprises de documentários que eu já vi, imitações de documentários.

Passo duas ou três vezes com o seletor por todos os canais e não tenho paciência com nenhum. Dois canais de variedades com programas, seriados ou filmes (sei lá), que se fingem eróticos. Paro para pensar: não dá pra levar a sério esses programas. A começar pelos casais, tão lindos que parecem manufaturados. Peles lisas, brilhantes, oleadas. É cômico seu ritual. O casal está na cozinha ou no trabalho, são sempre os mesmos lugares, mas nunca os lugares certos. Nunca tiveram nada um com o outro mas, de repente, cruzam o olhar, falam uma provocação, também sempre as mesmas, e se atracam. Quem escreve esse roteiro deve ser virgem. É a única explicação. Esses programas são supostos a excitar alguém? Pulam a melhor parte: o frio na espinha, chegar perto, falar algo, ouvir, fazer carinho, não saber o que fazer, se expor e tentar. Vão logo à parte uro-ginecológica. Fingida ainda por cima, simulada, muito mal simulada. Ainda por cima, não há suor, a maquiagem não borra, o cabelo não bagunça. Coisa sem graça!

Essas coisas não são assim. Para ser bom, não pode ser assim.

Salada de Tomates

Hoje eu gostaria de escrever sobre uma coisa bem simples. Como… como… como sobre como fazer uma salada de tomates. Sim, uma salada de tomates. Uma coisa bem simples que, para falar a verdade, eu nem sei direito se sei fazer. Algo que não julgue o senhor, por ser assim simples, seja simples. Porque isso de cortar, saltar, azeitar, servir, pode parecer ridiculamente trivial para quem sabe, para quase todo mundo. Mas para os que não sabem, os quase ninguém, isso é matéria avançadíssima. Não sabem os espertos o que é ter numa mão uma faca e na outra o tomate, e não fazer a mínima ideia de como usá-los, saber sem o mínimo de habilidade para um ter pena do outro. Imagine-se, a dama ou o cavalheiro, em tal situação. Imagine. Imagine o que é estar impotente, ou melhor, imobilizado, diante do que para os outros é o óbvio. Imagine. E acho que então começará a entender os sofrimentos humanos.

Aprendendo a Voar

Bem a propósito desta minha fase Learning to Fly.

Acho que eu tinha dez anos…

listas que só fazem crescer

Não gosto:
Diálogos de novela
Acordar ou dormir cedo
Fazer o que convém ao chefe e não o que precisa ser feito
Retórica, eufemismos e meias palavras
A mesmice da pornografia e dos rituais ensaiados de sedução
Chamar a atenção
Procurar lugar para estacionar
Fotos de gente
Lugares abafados
Bolo de cenoura ou que adocem meu café sem me perguntar
Sutiã e calcinha de conjuntos diferentes
Convites para confraternizações, festas e eventos

Gosto:
Cinema
Música que tome tempo para ser feita
Média e pão com manteiga na padaria
Deixar portas abertas à imaginação
Pitanga
Paisagens floridas, serras e água
Ouvir uma palavra de carinho ou de desejo, envergonhada, no meu ouvido
Surpresa discreta e segredos íntimos
Andar pela areia da praia a qualquer hora, sem destino definido
Encontrar-se pra beber café e falar besteira

Isso… e muito mais…

Isso nas Suas Costas

“Isso nas suas costas…” Ele descuidou e ela percebeu. Não estava nos planos, mas ele, embora acostumado a esconder, já não conseguia mais manter o tempo todo tanta vigilância. Chega uma hora em que todos temos que relaxar da preocupação. Ele relaxou, por pouco tempo, já havia relaxado de outras vezes e deu sorte, desta não, ela percebeu. Na verdade, viu. Chegou à casa dele, encontrou a porta destrancada e foi entrando. Ele não notou, saiu do banho com a porta aberta e ao vê-la, antes que pudesse jogar a toalha sobre as costas, ela o viu, nu. É verdade que causa espécie um homem surpreendido nu cobrir as costas e não o sexo com a toalha. Foi isso que o fez sentir-se ridículo e confessar, completar a frase dela, sem desculpas esfarrapadas: “… são asas.” Só depois disso sentiu-se envergonhado e tirou a toalha das costas, não cobria nada e, mesmo que cobrisse, agora seria inútil. Já havia se entregado.

“Você não é corcunda? Deformado?” Isso era no que ele fazia todos acreditarem. Às vezes, é mais fácil esconder o caqui chamando-o de tomate do que levando-o para longe. Foi o que ele fez. As asas, grandes, brancas, parecidas com as de cisnes, ele escondia, apertadas junto ao corpo por ataduras. Depois uma camiseta bem justa, bem grossa, de algodão, o mesmo das ataduras. Por cima vestia a camisa. O volume nas costas, dizia ser uma má-formação que lhe incomodava. Mudava de assunto. Os outros mudavam também, sem desconfiarem. Ele nem se deu ao trabalho de responder. Pensava nas conseqüências, se podia confiar nela.

“Eu sempre achei mesmo muito estranho, você, tão bonito, forte, ser corcunda.” Ele riu feio, indignado pelo preconceito dela. Não lhe importava agora ser bonito ou feio. Mas para ela, ser bonito era incompatível com ter um defeito. E ele também se envergonhou. Primeiro, por pensar em defeito quando pensou em corcunda. Depois, porque se lembrou de que é mesmo bonito e forte, e que não tem o defeito que fingia. E se sentiu pego no pulo por achar que fosse só preconceito. Por fim, porque percebeu que se deixou enganar pelo raciocínio. Porque ser bonito e não ser corcunda não quer dizer que não haja bonitos corcundas por aí.

“Você é um anjo?” Ele não quis ser agressivo, mas talvez ela tenha achado agressiva sua negativa. Foi apenas o “não” de um jovem enfastiado que não tem medo de arrumar confusão para sua cabeça se se deixar tomar por algum ser celestial. Quis dar-lhe as costas, mas não lhe expor as asas. Preferiu ficar de frente, encarando-a. Ela, provavelmente, tomou isso como coragem. Não foi. Foi sentir-se vulnerável e, sem pensar, fugir de encarar-lhe com as costas, que eram diferentes das dela, para encarar-lhe com os olhos, iguais aos de todo mundo. Ela, se tivesse juízo, aproveitaria o ensejo, a visão de homem tão bonito, nu, de frente para si, tentando cobrir o sexo com uma toalha pendurada na mão, mas revelando-lhe todo o resto, o que ela mais gosta, seu peito, os braços, a boca, as pernas… Ela, se tivesse juízo, deixaria a conversa para quando o visse vestido. Mas, curiosa que é, mulher que é, não fica à vontade e não pára de perguntar.

“Você voa?” E essa realmente deve ser a primeira pergunta que qualquer pessoa teria, embora a maioria calasse. Ele já a esperava. “Eu consigo. Mas não tenho o costume. Não quero que me vejam e acabo perdendo a pratica. Além disso, eu acabo estranhando quando as tiro de debaixo das roupas.”

“Mas por que você as esconde?” Pergunta compreensível vinda de quem não tem asas. Como respondê-la de modo a que quem não tem asas entenda? “Por isso mesmo: voar. Você acha que as pessoas aceitam alguém que pode fazer algo que elas não podem? Voar? Imagina. Anjo? Bruxo? Presunçoso? Um filho-da-puta que acha que pode isso-e-aquilo só porque tem asas? Olha só o idiota, porque voa se acha melhor do que eu… Você acha que as pessoas não gostam do que é diferente. É ainda pior, elas têm ódio, absoluto, de quem faz o que elas gostariam de fazer. É melhor passar-se por coitado. Te ignoram.” A resposta saiu consciente, ele já tinha pensado várias vezes nisso, sabia o que falava, mas não menos emocionada. Pela primeira vez, ele teve a quem dizer isso, que ele já havia concluído várias vezes. Falou com raiva, mas mantendo o tom de voz em um nível sóbrio que realmente lhe tomariam por anjo.

“Mas não machuca escondê-las assim?” Sim, machuca. E ele chorou para responder. Não caiu no lugar comum de dizer que o que mais machuca é, por dentro, como se sente. Mas foi isso que ela pensou quando percebeu que ele ficou nervoso. Não com vontade de chorar. E ele até gostaria mesmo de chorar, desabafar anos de tormento. Ainda assim, nem perto chegou. Surpreendeu-se com como o enfrentar as dificuldades endurece o coração. Sentiu-se mesmo superior aos que choram tocados pelo sofrimento.

Ele calou a resposta e ela, pasma e já com medo, sentiu como se o estivesse interrogando, pondo-o na parede. Ele, por outro lado, conformado em ter-sido descoberto, passou da sala para o quarto e não se preocupou em fechar a porta. No caminho, sem querer, relaxou o braço da mão que segurava a toalha e ela o viu todo. E ela se admirou com sua perfeição, ao vê-lo de lado e, mais ainda, ao vê-lo de costas. Mas sua excitação não foi mais que automática, dados os olhos com que, por alguns anos, se acostumou a ver o amigo. Ele mexeu numa gaveta, procurava algo.

Ela queria falar algo para quebrar o silêncio. Não percebia que o silêncio era simplesmente uma rejeição. Ele não a queria lá. “Você nunca as usa? Não as deixa solta?” Ele não abriu mão do silêncio. Achou-a mesmo indelicada por não se constranger e sair. De quê mais do que perguntas sem respostas uma pessoa precisa para saber que deve ir embora? Não sabemos se era o que procurava, mas ele encontrou um frasco de perfume, ainda lacrado. Deixou-o sobre o móvel. Logo encontrou também uma escova e uma sunga. Notou o início de uma eração e não a vestiu, deixou-as também sobre o móvel. Pensou se conseguiria que a amiga fosse embora se, sem expressão, a pegasse pelo braço e a tentasse debruçar de quatro na cama. Se conseguiria que ela se ofendesse e fosse embora. Não tentou e ela ficou. Olhou-o escovar um pouco os cabelos, romper o lacre do frasco e se perfumar.

As asas, ele às vezes as usa. De tempos em tempos, acampa num morro, nunca o mesmo, à beira-mar, numa praia deserta. Passa a noite em frente à fogueira, olhando as estrelas e o negrume do mar, aquece-se com um cobertor e chá. Espera o sol nascer. Acordado, para não perder nada. Assiste devagar, como se pudesse controlar a velocidade do sol. Tira uma foto, uma só, para guardar. Estão ali, no painel da parede do quarto. Por fim, tira a roupa, espreguiça as asas, abre-as e pula. Pula já sabendo que, um dia, elas não funcionarão.

Diário

A menina abriu a gaveta das meias e calcinhas e tirou de dentro o caderno, de capa dura e páginas firmes, amarelas, que o pai lhe deu. Na capa preta, está escrito o ano, com caneta dourada, de tinta com glitter. A caneta é feita para escrever na pele, imitar tatuagem, mas é boa mesmo para enfeitar. Embaixo do ano, o nome dela, menorzinho, com a mesma caneta. Ela usa um elástico largo, dois dedos de largura, grosso, colorido, desses que usam para fazer cintos de criança. Ela o usa para manter o caderno fechado. Não precisa de fecho com cadeado ou senha. O que tem lá dentro é segredo, sim senhor, mas está mais bem guardado assim, sem cadeado, para não chamar a atenção. Algumas meninas fazem scrapbooks, diários. Ela, quando disse para o pai que faria um, ele lhe contou várias histórias de como essas coisas acabam, invariavelmente, nas mãos de algum parente cruel que as lê sem discreção, causando embaraço à autora. Há algo nos momentos que retratamos em diários que nos leva a deixá-los ali, escritos, e não ditos. Esse algo é, obviamente, constrangedor ou embaraçoso, ao menos para a timidez de quem escreve. E escrito, tudo tem outra dimensão, maior ou menor, melhor ou pior. Por isso os diários são secretos. São diálogos internos, secretos, para serem relembrados para sempre, para nunca, esquecidos no armário. Por isso o pai lhe deu a ideia: “Você desenha muito bem. Não escreva um diário. Desenhe um.” É o que ela faz. Para todos os efeitos, esse é só um caderno de desenhos. Por algum motivo que ninguém imagina, são desenhos separados dos outros. Para os outros, ela tem cadernos grandes, guardados na estante da sala ou na bancada do quarto. Neles há paisagens, retratos, cenários, coisas que aprende em manuais e métodos de desenho, animais, flores e muitas princesas. Já este, ela não resistiu à tentação de esconder embaixo das calcinhas e meias, e talvez essa seja a única dica de que o que está ali é muito íntimo. As páginas são numeradas, não em sequência ordinária como páginas normais, mas por datas. Cada página tem uma data, em cima, na borda, à vezes mais uma, na em baixo, junto à lombada. Isso é para lembrar em que dia, ou dias, aconteceu aquilo. Os desenhos são mais simples, alguns óbvios para quem está familiarizado com a data da página, outros indecifráveis: um bolo, uma cavalo selado, um avião, poncho e bombachas, um vaso quebrado, uma bochecha suja de batom, um rato de saia, dois morangos, um carteiro, um martelo, uma maçã e um beija-flor, um peixe de biquíni. São umas cento e cinquenta páginas, não desenhou em mais de vinte. Tem só onze anos e muitas páginas ainda onde desenhar.