Penugens

Ela voltou do chuveiro, de camisola. Ele acha feio, estranho, mulher usar esses roupões de motel. Da primeira vez que saíram juntos, quando ela ia para o banho, deu-lhe uma camisola. Um presentinho que, como disse, não tinha a ver com o que fizeram, mas com a elegância que ele tanto admirava nela. O tecido é fino. Ele acha que é seda, mas não entende disso. Ela dobra bonitinho, fica um rolinho pequeno, do tamanho daquele canudo de papelão de dentro do rolo do papel higiênico. Ela então se acostumou a carregá-la assim, dentro da bolsa.

Ele estava de cuecas, jogado na cama. Levantou-se para tomar uma ducha também. Logo que pisou fora da cama, fez-lhe um carinho no rosto, ali na curva da mandíbula, junto do queixo. Usou isso como apoio para chegar-lhe a cabeça para si e beijar-lhe a testa. Foi de improviso. O beijo acabou saindo na franja. Mas ela gostou mais ainda. Gosta das coisas imperfeitas. São mais sinceras, expontâneas. Por isso mesmo, mais verdadeiras. Sorri.

Ele fica um pouco triste. Este ritual da hora de ir embora sempre o deixa triste. Às vezes pensa se vale a pena. Entra no box de cuecas. Acha feio as pessoas andarem peladas depois do sexo, as coisas balançando. Parece-lhe agressivo. Como se, depois d terem-se visto nus, não se devessem mais respeito. Uma coisa é a nudez na hora do clima. Outra é depois, quando a gente está cansada e não se preocupa mais em esconder as pelancas. Parece-lhe só agressivo.

Ele pendura as cuecas na borda da porta do box, ela deixou a água aberta, mais fria do que morna, como sabe que ele gosta. Põe xampu na cabeça, mais do que precisa. Vai acabar usando o excesso desse xampu para lavar o corpo. Ela percebe que ele se esqueceu da toalha e pendura uma ao lado das cuecas. Bobo, ele abre os olhos para ver o que é. O xampu machuca-os. Ele demora muito para enxaguar. Se enxuga, não por inteiro. Gosta de sair pingando do banho. Veste as mesmas cuecas, se enrola na toalha e sai do box pensando que também gosta quando ela sai do banho pingando. Se excita com os cabelos dela pingando e as gotas escorrendo por seu pescoço e colo. Imagina-lhe a pele fresca e aquela risadinha que acompanha o sorriso quando ele a abraça para se refrescar nela.

Ela gosta de o ajudar a vestir a camiseta. Pegou esse gosto vendo-lhe a cara de feliz ao vesti-la a camisa. Ele gosta de vestir-lhe a camisa. Segurar-lhe a camisa como o garçon faz com o paletó ao fim da refeição. Beijar-lhe de leve o ombro. Um beijo que ela vai levar consigo, ele imagina com carinho, pois ele o guarda cobrindo com o ombro da camisa. Depois abotoa por ela, vendo seu corpo sumir aos pouquinhos a cada botão fechado. Depois disso, deixa-a terminar sozinha.

Quando procura as próprias calças e meias, ele não consegue segurar um comentário despeitado, ela o há-de perdoar: “Ele é moleque.” Fazia tempo que não se referia a ele. Sabe que ela não gosta, que se sente desconfortável. Não há coisa certa para se responder a um comentário desses. Ela entende, mas desta vez não gosta. Ele estragou o momento com esse ataque que, sabe, não adianta em nada.

Ela reage sem pensar. Não sabe se se sentiu ofendida também ou se só o quer provocar. “Você um dia também já foi moleque.”

Demorou dizer isso. Ele então já estava se penteando e passando desodorante com a necessaire em cima da pia. Arrependeu-se. Dói-lhe que ela o defenda. É uma dor diferente, do estômago vazio. É um gosto amargo que lhe sobe do estômago para a língua. Ele vê, dentro da necessaire aberta, o rastelo da gilete. Fica triste porque não se conforma de ela não ter alguém que lhe trate como merece. De, por isso, eles estarem ali. “Isso não tem a ver com idade. Um dia ele vai ter a minha e ainda assim, de manhã, quando olhar no espelho para fazer a barba, só terá penugens para raspar. É isso também não tem a ver com barba.”

Ele falou e ela ouviu quieta. Já sabiam que ele tinha estragado o dia é que voltariam em silêncio.

So and So

Um cineminha mais-ou-menos, como diria a própria protagonista do filme. Na volta para casa, trânsito. Um caminho mal escolhido. E eu sempre me pergunto, nessas ocasiões, se foi realmente uma má escolha ou se eu não queria mesmo uma desculpa para me demorar olhando o caminho, a paisagem. Não havia paisagem. Ruas feias, prédios feios, zona decadente, zona mesmo. Eu voltando e a molecada descendo a rua, muitos com garrafas na mão, ou outros, quase todos, com copos descartáveis. Vinho vagabundérrimo, refrigerante cítrico misturado com pinga, ou mesmo álcool, drinks a base de açúcar, catuaba, álcool e nem eles mesmos imaginam o que mais. Garotas bonitas passando, garotos, há garotas feias também. Passa um casal, ambos muito bonitos. Junto a eles, a amiga, não tão bonita, segura um copo de bebida ligeiramente esverdeada. Andam com pressa os dois à frente, o casal. Ela, apressa o passo a lhes acompanhar. Percebe-se que não queria correr. Atrapalha-se a beber. Provavelmente bebê para esquecer que não é tão bonita quanto os amigos e conseguir se enturmar com os desconhecidos como eles se enturmariam se não estivessem em casal. Talvez para sair de lá em casal. Outra garota passa, também não é das mais bonitas, sozinha, fantasiada de capeta. Deve ser um modo de sinalizar aos homens. “Ei, eu não sou comportada. Sou uma capeta. Venham em mim. Vocês sabem o que eu quero.” Ilusão dela. As outras também querem isso e, muitas delas, são mais bonitas. E nem precisam de fantasia de capeta. Eu vou só subindo a rua, avanço cinco metros e paro, mais cinco e paro, me divertindo em imaginar o que se passa com cada um. De alguns, tenho inveja, de outros, invento alguma desculpa esfarrapada, desfaço. Eles vão procurar companhia. Eu volto para dormir.

Mentira e Verdade

A maior mentira é a de quem diz que odeia mentira e quer sempre ouvir a verdade. Porque a verdade, meus amigos, a verdade, mais que doer, ela constrange. A mentira doi. A verdade tortura. E todos sabem disso. Por isso, há coisas que nunca devem ser perguntadas e perguntas que nunca devem ser respondidas. Mas o silêncio, ah! o silêncio também é resposta. E essa, mais que qualquer outra, é uma resposta sempre verdadeira.

Bolinhas de Gude

Eu nunca entendi o jogo de bolinhas de gude. Às vezes, via, na escola, os colegas jogarem em vez de brincarmos de outra coisa. Me enfadava. Para mim, era um jogo sem fim, sem sentido, extremamente ritualizado com dúzias de fórmulas e palavras mágicas que deviam ser pronunciadas em voz rápida, ininteligível, em momentos específicos. Me parece que elas era usadas para invocar as entrelinhas do livro de regras. Também me aborreciam as discussões constantes provocadas pelas diferenças entre as palavras mágicas e os rituais de cada um. Era como um religião primitiva. Cada grupo tinha sua própria versão. Sem falar na margem que havia para alguém inventar na hora do apuro uma regra que lhe beneficisse, fingindo que “na minha rua sempre jogamos assim.”

Os jogos de bolinhas de gude dos colegas contribuíram muito para minha familiaridade com o Professor Jacó, o professor de português de meus irmãos que servia de bibliotecário na hora do recreio. Nas temporadas de bolinhas (porque criança tem temporada para cada brincadeira), eu passava na biblioteca no começo do recreio, pegava um livro ou gibi e lia sentado no degrau, chamávamos de pódio, onde se esteava a bandeira à quartas-feiras.

Um dia, o professor me perguntou porque eu aparecia na biblioteca todo dia, coisa muito rara entre crianças. Expliquei que meus colegas estavam todos jogando bolinhas de gude. Mas não tive tempo de explicar que não gostava. Ele já puxou do bolso a chave para fechar a biblioteca: “Bolinha de gude? Eu adoro. Vamos lá com eles. Eu quero jogar também.”

a dream of…

O menino, já nem é mais tão menino assim, admira a lua que já está no céu, embora ainda a noite não tenha escurecido. Gosta de olhar a lua, especialmente nessas cenas inusitadas de ela sair ainda à luz do sol. Ele ouve uma música. Uma que provavelmente nunca ouviu antes, mas que soa conhecida. Vem do céu. Ele olha na direção e vê uma nuvem grossa, escura, pesada, de onde parece vir a música. O som é muito baixo, quase inaudível. A nuvem não, vem longe mas é bem visível. É brincadeira comum de crianças e adultos achar formas às nuvens. E ele a olha, procura uma forma, percebe que são, na verdade, várias nuvens que se entremeiam e sobrepõem como relevo de um desenho. Tenta imaginar o que formam. A princípio, um pedaço lhe lembra a coxa do frango do jantar de domingo. Outro pedaço, uma asa, do mesmo frango, mas em escala bem maior. A nuvem se aproxima e, quando esta já perto, ele reconhece um cavalo, um lindo cavalo, magro, forte, com os músculos, rabo e crina todos muito bem delineados. Ele pousa, na areia da praia, não muito longe dali. O menino, perplexo, estranha sua cor, seu jeito e começa a se aproximar. Não está ainda muito perto quanto percebe, tem certeza, a cor… a praia… o cavalo não é uma nuvem, ele é feito de areia. Logo que pensou isso, o bicho, a nuvem, levantou sua cabeça em direção à lua e partiu de novo. Voou deixando um rastro de poeira e música, da praia onde estava o menino. Voou para a lua. O menino… o menino já não estava perplexo. Tinha pena. Pena de não ter podido, de não saber se teria sido possível, por ser de frágil areia o cavalo, montar em suas costas e ir junto.

Deus Não Morreu

Não, Deus não morreu. Ele simplesmente se cansou desta brincadeira sem sentido. Deste bando de playmobils que espalhou pela Terra. Somos brinquedos velhos, chatos já. Ele deve ter arrumado outra brincadeira. E não pense, por ele não estar mais por aqui, que agora tudo seja possível. Não é. Muito pelo contrário. Agora sim, nada mais é possível. Porque, bonecos que somos, nos acostumamos a seguir o roteiro da brincadeira, movidos por suas mão e vontade divinas. Foi cômodo isso, até agora. Mas e agora? Sem o grande titereiro nos movendo, o que fazemos? Pensar? Julgar? Agir? Só o que queremos mesmo é outro que faça isso por nós. Precisamos de um barco e água corrente para nos carregar ao mar ou cachoeira. Tanto faz. E cursos d’água, dentre nós mesmos, existem alguns. Aquelas pessoas mimadas sem ética que manipulam os outros segundo seus interesse e a apatia deles. Para elas Deus também não liga mais. Mas para eles… ah!… para eles a existência de Deus nunca fez diferença mesmo.

Para ser bom, não pode ser assim.

À noite, em frente à televisão, na poltrona, deixo as luzes apagadas para elas não esquentarem tanto a sala. Está calor hoje, primavera é época de estio em São Paulo. Na escola nos ensinam que primavera é das flores e verão do calor. Em São Paulo, não. Aqui, a estação mais quente é a primavera, muito quente e seca. O verão é da chuva. Chuva forte, morna, ela não deixa a temperatura subir tanto.

Eu tenho de trabalhar, tenho o que fazer, mas a vontade é nenhuma. O fim-de-semana foi cansativo, trabalhei também. Domingo, depois do Fantástico, já é crueldade demais. É quando o notebook quente em cima das pernas mais incomoda. Parece que ele sua também.

Hora de desistir, deixar para amanhã o que pode ser feito amanhã. Tem só uma coisa que eu preciso fazer agora, mas preciso pensar. Pensar sem vontade é difícil. Com preguiça, a gente faz mais fácil o automático.

Largo o note no pufe que me serve de apoio para as pernas, trago algo gelado da cozinha e me jogo no sofá, agora me jogo, procurando algo na televisão para distrair os olhos enquanto tento pensar.

Televisão no domingo à noite só serve como abajur. É triste pensar em alguém que não tenha nada melhor para fazer no domingo à noite do que assistir televisão. Aqueles programas de futebol onde quatro ou cinco homens falam as mesma coisas que a gente pode ouvir no bar no dia seguinte ou no anterior, uns filmes batidos (muito batidos), noticiários repetidos e cheios de amenidades que foram rejeitadas pelo editor nos outros dias da semana, reprises de documentários que eu já vi, imitações de documentários.

Passo duas ou três vezes com o seletor por todos os canais e não tenho paciência com nenhum. Dois canais de variedades com programas, seriados ou filmes (sei lá), que se fingem eróticos. Paro para pensar: não dá pra levar a sério esses programas. A começar pelos casais, tão lindos que parecem manufaturados. Peles lisas, brilhantes, oleadas. É cômico seu ritual. O casal está na cozinha ou no trabalho, são sempre os mesmos lugares, mas nunca os lugares certos. Nunca tiveram nada um com o outro mas, de repente, cruzam o olhar, falam uma provocação, também sempre as mesmas, e se atracam. Quem escreve esse roteiro deve ser virgem. É a única explicação. Esses programas são supostos a excitar alguém? Pulam a melhor parte: o frio na espinha, chegar perto, falar algo, ouvir, fazer carinho, não saber o que fazer, se expor e tentar. Vão logo à parte uro-ginecológica. Fingida ainda por cima, simulada, muito mal simulada. Ainda por cima, não há suor, a maquiagem não borra, o cabelo não bagunça. Coisa sem graça!

Essas coisas não são assim. Para ser bom, não pode ser assim.