Dirk Ohm – Illusjonisten som forsvant

Dirk Ohm – O Desaparecimento do Ilusionista

It’s all about the mind.

O alemão Dirk Ohm, ilusionista, em viagem pelo interior da Noruega, desapareceu do hotel e nunca mais deu notícias. Dirk Ohm existiu de verdade e sumiu de verdade, em fevereiro de 2013.

Foi a partir daí que o roteiro deste filme foi feito. Claro que, como o sujeito sumiu sem deixar pista nenhuma, ninguém nem sabe se ele está morto, apesar do filme ser dedicado à sua memória. Não se sabe o que aconteceu. Ha muitas suposições. A história do filme não é então a que aconteceu de verdade. Nem o roteirista fez um documentário ou uma reconstituição do que se sabe antes do sumiço. Ele é uma fantasia criada sobre o desaparecimento, o inverso, o que se conhece da personalidade do ilusionista e sobre ele ser um ilusionista.

Eu sempre gostei de mágicos. Nem sei se posso chamá-lo de mágico. Não sou assim um iniciado do meio para me importar em saber a diferença entre mágicos, ilusionistas, escapistas, aqueles caras que só fazem truques com cartas e os outros. Para mim são todos mágicos. Podem se ofender à vontade. Para mim, vocês são todos mágicos. E acho que esse é um modo muito mais legal de se pensar.

Gosto muito de circo, só por causa do mágico. Aquelas coisas de malabaristas, equilibristas, trapezistas e animais amestrados, eu acho muito chatas. Ainda assim, não gostei quando o governo de São Paulo proibiu as apresentações de animais nos circos. Por causa disso, os circos começaram a rarear por aqui. E, com eles, rarearam também os mágicos.

Apesar de gostar, eu nunca quis aprender mágicas para ser um. Gosto de ver e imaginar os quadros que pintam. São ótimas personagens para histórias.

People think they like you when you’re gone.

Imagine um sujeito que não é nada de especial, mas te surpreende volta-e-meia, com algo que sai de sua orelha, que brota da mão, que encontra em meio a seus cabelos. O sujeito que parece saber o que você está pensando sem que você nem ao menos esteja pensando.

Ele chega do nada a uma lanchonete. Se senta, pede um milk-shake de cenoura e, diante da recusa do garçon, começa a aprontar. Vai até uma criança que está chorando e, com uma das mãos, recolhe o choro, embola, guarda no bolso. Com a outra mão, acende uma chama, um fogo-fátuo. Joga-a no bolso, de onde sai uma explosão luminosa. Enfia então a primeira mão de novo no bolso e tira de lá uma risada, para gargalhada da criança.

Depois, vai até um casal que está brigando. Passa o braço entre os dois e ali aparece um espelho. Dupla-face. Cada um, agora, vê só a si mesmo, refletido. Ele faz sinal para que se aproximem do espelho e, quando já estão achando chato verem só os reflexos, o espelho some e eles percebem que estão se enxergando um nos olhos do outro. A birra some e aparece em seus rostos sorriso constrangidos pelo flagrante de criancice da briga boba.

Pula o balcão. Tira da fruteira uma banana. Descasca-a e, dentro, há uma cenoura. Coloca-a na batedeira do milk-shake e liga. Pára um pouco para experimentar e faz careta. Vai até a criança que chorava. Olha sua orelha. Dela, puxa um talo de funcho. A criança tenta pegar. Ele quebra ao meio e lhe dá um pedaço. A criança experimenta, estranha o gosto forte e cospe rindo. Ele joga o outro pedaço na batedeira. Cinco segundos e está pronto. Arranca a touca da cabeça de um dos funcionários e joga tudo dentro. Alguém grita um palavrão. E de dentro da touca sai um coelho arrotando a cenoura e funcho.

Ele então se senta de novo. Pede, de novo, o milk-shake. E, enquanto todos o olham comentando “o que será que está acontecendo?”, ele já não está mais lá. Um barulho no balcão chama a atenção. Todos se viram.

É o coelho, todo lambuzado de amarelo, brincando com a bisnaga da mostarda.

Adorei este filme!

Love is the perfect illusion.

Dirk Ohm – Illusjonisten som forsvant (2015) – trailer

pensamentos ao léu #2537

Eu pego o caderno e o lápis correndo. Também correndo procuro, sem prestar muita atenção ao caminho, por um lugar para ficar sozinho. Não acho, nem tenho ideia. Dou umas duas voltas em torno de mim mesmo antes de paralisar pelo inútil do desespero.

Aqui não tem o parapeito da minha janela. Há janelas sim, mas com grades. Aquelas grades para evitar de criança cair, mas que também impedem o adulto de se debruçar para fora e respirar ar fresco. Parecem frágeis demais essas grades para o peso de uma criança. Mas, para o nariz e os olhos de um adulto, intransponíveis.

Tampouco minhas árvores para subir onde os outros tenham medo e ignorar-lhes os pitos e ameaças. Árvores fazem muita falta. Gosto das pitangueiras. Mas para fugir do mundo as mexeriqueiras são as melhores. Quando dá sede, pega uma fruta, chupa o caldo. Dá pra passar o dia todo escondido na copa de uma.

Penso em fugir para o terraço, mas também não tenho um. Como seria bom fugir para o terraço! Sentar-me escondido no canto, longe da vista da janela para pensarem que sumi. Como quando eu era menor e subia na laje da garagem, onde ninguém tinha desculpa de aparecer de repente para encher o saco fingindo que estava só de passagem. Laje não é passagem, quem aparece lá não dá para esconder que foi só para encher o saco.

Percebi que o lápis estava sem ponta. Peguei o canivete na mochila – que agora não era hora de por-me a descobrir onde havia um apontador, esses apontadores vagabundos de hoje – e cheguei à cozinha para fazer-lhe ponta. Lasquei-lhe com força, sem jeito nenhum, como se fosse psicopata de filme a cortar fora os membros de alguém. Dei de cara dois talhos fortes. O primeiro arrancou ao lápis uma lasca comprida, que, desajeitado, enfiei-lhe a lâmina mito longe da ponta e ainda tive de fazer força demais. Saiu aquela tripa que era quase uma lombriga, expondo parte da grafite que devia ter ficado escondida. O segundo, tentei não pegar tão longe da ponta, peguei também errado, de atravessado, como se fosse cortar uma tora do lápis a machado. A lâmina espirrou, quebrou a grafite exposta, lascou a madeira e quase me pegou o dedo. Tive nos talhos seguintes mais cuidado. Não de medo de machucar-me, mas de ver que errando assim, demoraria mais a acabar e fugir dali. Para consertar os erros, desperdicei uns cinco centímetros do lápis. Mas ao acabar, ele estava com a ponta comprida, igual quando minha mãe apontava seus lápis de escrever em pano antes de costurar, feito ponta de lança de portão.

Eu fechei o canivete e o de volta na mochila. Por falta de onde me meter, fui ao banheiro pensar. Sentado na privada, diz o folclore urbano, é o melhor lugar para pensar. Abri o caderno no colo e não tive ideia de por onde começar. Alguns rascunhos e notas eu já tinha mas nada que eu quisesse mexer agora. Impaciente, não quero desperdiçar as notas que tenho para terminar porque não quero demorar. Quero desembuchar logo algo. Considero escrever alguma coisa simples, as casas de sempre. Estou de saco cheio das coisas de sempre.

Encosto o lápis no papel para forçar-me a começar algo. A ponta do grafite estão tão afiada que eu acho que vai se esfarelar quando a apartar de encontro ao papel. Sempre apertei com força lápis e caneta de encontro ao papel. As professoras me chamavam a atenção para isso. Demorava a escrever e cansava muito o pulso na escola. Ficava muito tempo com ele dolorido depois. Minhas canetas, era comum quebrarem antes de acabar a tinta. Os lápis estavam sempre de ponta cega precisando apontar.

Tenho um calombo no pulso, por sobe ele passa aquela veia onde procuramos a pulsação. Esse calombo é o que mais me doía na escola depois de escrever muito. Segurando o caderno com a esquerda e o lápis com a direita. Foi o calombo da esquerda que eu vi. Não era esse o que doía, eu escrevo com a outra mão. Olhei o da direita e depois voltei ao da esquerda. Pareciam iguais. Passei um dedo sobre ele, para sentir se parecia inchado, inflamado ou coisa assim. Burro eu, se escrevia com a outra mão, este também não podia ter tal problema. Senti-o macio, como pelica, frágil.

Lembrei-me da ponta do lápis, bem afiada encostada de novo no caderno e de tantas vezes que tentei sentir-me o pulso. E das poucas em que consegui. E foi quando encontrei algo para pôr no papel. Levantei o lápis, segurei-o como pincel. Com o polegar ao seu largo fazendo força, nem precisei de muita, enfiei-lhe a ponta na veia do pulso.

Sentindo a pressão cair, a cabeça leve, tonteei, acho que para desmaiar, enquanto algumas gotas de sangue pingavam no papel.

Edward scissorhand

I am not complete.

A Cá era uma menina da minha escola. Fizemos colegial juntos na mesma classe, os quatro anos. Os três primeiros à noite, o último à tarde. Na minha escola, escola técnica, o colegial tinha quatro anos. O pessoal achava que eu gostasse dela. Teve até uma vez em que uma amiga em comum me viu chateado e veio me falar que já tinha percebido que eu estava chateado pela Cá estar namorando. Eu fiquei bravo. As pessoas assumem como verdade as coisas que imaginam e tentam pescar alguma oportunidade para imaginar mais algo que sirva como evidência. Isso aconteceu até com o namorado dela que, antes de me conhecer, queria me bater, de tanto ciúme do quanto a Cá falava de mim.

1990 - Edward Scissorhands

Cá era muito legal, um amor de menina, mas antes de descobrir isso, eu já tinha me interessado por outras garotas. Ela era magrinha, branquela. Não era exatamente meu tipo. Acabamos ficando amigos. Voltávamos juntos da escola, conversávamos bastante. Enquanto as outras meninas só falavam de dançar, comprar roupa e namorar, ela estava sempre preocupada com alguma coisa dos irmãos menores, tinha seis. Era crente, por decisão do pai, desde quando tinha uns dez anos de idade, mas carregava um santinho de Nossa Senhora Aparecida na carteira e rezava para ela todo dia. “Meu pai me ensinou a acreditar nela. Não adianta ele me falar agora para fazer o contrário.”

Edward scissorhands - 4

Chegava da escola depois da meia-noite e acordava às seis para trabalhar. Trabalhava em período integral. Meus outros colegas de escola trabalhavam meio-período para terem dinheiro pra gastar com roupa e carro. A Cá era a única que eu via que trabalhava pra ajudar em casa. E gostava disso, se preocupava com os irmãos e se orgulhava em fazer sua parte.

Nas épocas mais puxadas, no fim da tarde, no intervalo entre sua saída do trabalho e o início da aula, nos encontrávamos na biblioteca da escola para estudar. Eu gostava de ajudá-la a estudar porque sabia que não era preguiçosa. Não tinha tempo de verdade.

1990 - Edward Scissorhands - 3

A lembrança que eu tenho mais clara dela é de quando eu me sentava na sua frente, entre ela e a Fá, nos meus dias tristes. Eu olhava o cabelão da Fá na minha frente. Sem me debruçar muito na cadeira, eu chegava perto e ele cobria minha visão como se me escondesse. Eu ficava ali, reparando nos fios do cabelo da Fá, um de cada cor, pensando nas besteiras que me deixavam triste. Invariavelmente, não sei se de propósito, a Cá me chamava (me chamava de Lê), não me olhava no rosto (talvez soubesse que não se olha no rosto de um Lê triste), pousava firme a mão magrinha e gelada no meu braço e me mostrava no caderno algo que estivesse estudando. Eu me distraia e procurava dar atenção.

No final dos anos oitenta, início dos noventa, quase ninguém ia ao cinema. Era a moda do videocassete e das locadoras. As meninas se juntavam no fim-de-semana na casa de uma delas, alugavam um filme e faziam uma sessão com pipoca. Uma segunda-feira, eu cheguei na escola, dei boa-noite, elas falavam do filme que assistiram no sábado. Cá me olhou com a cara esquisita, como se tivesse percebido algo ao me ver: “Lê, você tem de ver. É tão legal! Ele é tão como você.”

1990 - Edward Scissorhands - 2

Demorou mais de vinte anos para eu assistir esse filme. Acho que eu teria chorado de qualquer forma, achei tão triste! Tão triste mesmo! Mas eu tive de fazer uma pausa para tomar dois cafés e espairecer, antes do fim, porque ficou difícil segurar o choro quando me lembrei da Cá e de ela ter dito que ele se parecia comigo, porque comecei a perceber coisas que ela sabia de mim sem eu lhe contar.

Eu precisava de, no final do filme, ela ter-me posto a mão no braço e me desviado a atenção para alguma coisa em seu caderno.

Sweetheart, you can’t buy the necessities of life with cookies.

The Breakfast Club

1985 - The Breakfast Club

… And these children that you spit on as they try to change their worlds are immune to your consultations. They’re quite aware of what they’re going through…
   — David Bowie

Este filme também é um dos que passaram de madrugada, Corujão ou coisa do tipo, na Globo, quando eu era adolescente. Eu me lembro que foi numa noite em que eu já estava acostumado a minha rotina de voltar da escola, cear assistindo o Jô e estudar vendo um filme. Este, quando começou, sem ação nenhuma (nenhuma, nenhuma mesmo), me pôs na retaguarda. Eu já tinha assistido alguns filmes que gostei muito e que começaram sem ação. Eu gosto desse tipo de história. A vida não é uma coisa frenética, ágil, muito pelo contrário. Ela se constrói aos poucos, enreda, enfada e enovela. De forma que eu vejo mais sentido, e me emociono mais, com histórias que são contadas por coisinhas, coisinhas simples, que acontecem todo dia, e que são tramadas com calma para chegar a algum lugar que nem sempre percebemos logo de cara.

Cinco adolescentes chegam à escola no sábado para ficar de castigo por alguma coisa. E é isso que eles fazem, ficam de castigo. Os cinco na biblioteca enquanto o diretor, que deve ser um mal-amado sem família, põe-se de castigo na própria sala, pelo gosto de saber que eles estão se fodendo. Cada um dos cinco é um estereótipo completamente diferente do outro. Sem nada para fazer, eles conversam e se provocam. E como é bom provocar!

Fazem o que adolescentes fazem melhor! Fiquei pasmo com quanto de mim encontrei lá!

Eu me lembro de quando passaram os filmes do Monty Python, acho que foram três ou quatro na mesma semana, e na escola todo mundo começou a fazer piadas com Sir Galahan, os Homens Que Dizem “Ni” e, principalmente, Shuberries. Achei que, da escola também, mais alguém tivesse visto este além de mim. E me decepcionei, nos dias seguintes, quando tentei falar dele e ninguém deu bola. Fiquei chateado, me sentindo deslocado. Bom, naquela escola, eu sempre me sentia deslocado. Até estar já adulto feito (e, para falar a verdade, também desde então), todos os dias, encontrei alguma coisa que pudesse me remeter a este filme, que pudesse usar algo dele para comentar.

1985 - The Breakfast Club
A frase do final nunca saiu da minha cabeça. É sempre que alguém era babaca comigo por eu ser ou um CDF, ou um atleta amador pretensioso, ou um babaca metido que achava que os outros tinham de responder por seus problemas, eu me lembro dela. Das músicas, da senha do punho, não. O que eu sempre me lembrei foi dessa frase é dos choros, e também das caras de perdido.

A primeira pessoa que eu encontrei que também o havia assistido e gostado foi uma garota na faculdade. Na época, o filme já tinha uns dez anos. Era namorada de um amigo e me indignei com ele não ter dado bola para o que ela dizia do filme.

Engraçado que, hoje, não sei dizer de alguém que eu conheça e que o tenha assistido. Sempre falo dele, e ninguém sabe do que se trata (saberiam se eu falasse de Velozes e Furiosos, MMA  ou da bunda de alguma gostosa de plantão), mas quando olhei aquele livro sobre os 1001 filmes, ele estava lá, listado como cult de uma geração e que a última cena era, inclusive, tema tradicional de camisetas e tatuagens. Acho que começo a entender o que cult e geração querem dizer.

Os cinco atores fizeram muitos filmes naquela época, depois sumiram.

É algo parecido com quando li Os Meninos da Rua Paulo. Este filme me lembra de coisas que eu já queria ter esquecido. Mas eu sou apaixonado por ele!

floripa, noite de inverno, côtes du rhône, com uma pausa para um charuto e outra para quase tirar uma pestana

Meu irmão mais velho, o Zezinho, era muito estudioso. Seu nome, na verdade, era José, igual ao pai e ao avô e avô do pai e a todos os pais e avôs dos quais a família se lembrava. Coisa de português, o filho mais velho ter o mesmo nome do pai ou do avô. Coisa de família da Ilha da Madeira, quando se precisa de nome para um filho, o primeiro que se pensa é José, de São José, o padroeiro da ilha. Acho que é por isso que, até pouco tempo atrás, o nome mais comum aqui em São Paulo era José. A maioria dos portuguesas daqui me parece ter vindo da Madeira. Em Portugal mesmo, embora os brasileiros pensem ser Manuel, parece-me que o nome mais comum entre homens é Rodrigo. Aqui no Brasil, hoje em dia, acho que é Tiago. Ou Thiago. Mania de brasileiro escrever como se fosse outra língua. Podem os Tiagos me xingarem, mas esse é um nome com o qual eu não me conformo. É uma invenção totalmente descabida. Os italianos chamam Jacó, o profeta de Iago. Por ser um homem santo, virou Santo Iago. Santiago (Sant’Iago) na escrita dos italianos. A igreja Católica Apostólica comum aqui do Brasil é a Romana, a mesma deles, os italianos. O Santiago dos italianos deu até nome à capital do Chile, país onde a língua só tem San, não Santo. Acho que, por isso mesmo, as pessoas assumiram que Santiago fosse São Tiago e começassem a batizar seus filhos com esse nome inventado. Meu amigo Tiago que me perdoe essa falta de reverência por seu nome, mas ele devia se chamar Iago ou Jacó. Eu já lhe disse isso.

Sempre tive inveja de meu irmão herdar o José tradicional da família e eu não. Ele mereceu isso por ser o filho mais velho. Mesmo assim, eu poderia ser um José Alexandre ou qualquer outra coisa. Mas, pensando bem, estaria reclamando de ter nome composto, como ator de novela mexicana ou personagem de comercial de cerveja. Hoje estou bem com meu nome, mas sempre tive inveja do José dele.

Tive inveja também de outras regalias que ele tinha por ser o mais velho: ser o escolhido pelo pai para ajudar nas reformas e consertos da casa, nas coisas perigosas como subir no telhado, mexer nos fios e nas ferramentas. Disso não posso me queixar porque, embora, preterido, o pai sempre ficou feliz de eu procurar me meter nessas coisas para as quais ele não me chamava mas arrumava um jeito de me deixar ajudar.

O Zezinho também podia usar uma gaveta maior na escrivaninha onde fazíamos a lição em casa. Quando o pai a comprou, éramos três, cada um tinha sua gaveta, pequena, à esquerda. A gaveta maior à direita, sobre o colo de quem se sentava na cadeira, tinha bugigangas de uso coletivo. Quando o caçula nasceu, Zezinho passou sua gaveta para ele e pegou a maior para si. Ninguém reclamou. Parecia natural que ele, mais velho, decidisse o que fazer.

Essa gaveta maior tinha também outra regalia: tinha fechadura. Ele podia guardar lá o que quisesse e trancar para garantir sua privacidade. E, direito supremo de filho mais velho, a mãe nunca questionava o que estava trancado ali. Meu pai nunca nos deixou trancar, ou mesmo fechar, nenhuma porta dentro de casa. Mas a fechadura da gaveta do Zezinho era diferente. Acho que nem o pai podia imaginar algum mal lá.

Mas eu, quando tinha meus treze ou quatorze (quando aprendi a escrever era quatorze, hoje, vejo a maioria das pessoas escrever catorze), ele tinha dezessete ou dezoito, achei muito óbvio o que ele via guardar lá. Meu irmão mesmo surpreendeu-me por ser tão inocente em guardar esse tipo de coisa num lugar tão óbvio, a única fechadura trancada dentro de casa, e, mais que isso, um lugar onde, quando éramos pequenos, ele mesmo me ensinou como fuçar. Um vez, querendo me mostrar como era esperto, ele me mostrou que bastava entrar em baixo da escrivaninha, ela era larga o suficiente para mesmo um adulto sentar-se à vontade embaixo, passar a mão por trás da gaveta e alcançar as coisas que estivessem guardadas mais no fundo. Foi assim que tive acesso às suas três coleções de revistas. Podia até haver mais lá, mas eram essas três que eu alcançava.

A Playboy, várias vezes peguei a da Luma de Oliveira e a da Luciana Vendramini. Cheguei a emprestá-las a um colega da escola para tirar xerox no trabalho. Foi embaraçosa a saia justa quando a mãe as encontrou nas minhas coisas, ou melhor, nas coisas da avó. Eu as estava olhando no meu quarto quando ouvi barulho de fora e as enfiei num baú de coisas da avó que ficava ao lado do meu guarda-roupas. Não sei como foi, mas acabei as esquecendo lá. Daí a um ou dois dias, a mãe foi mexer no baú para procurar cobertores e as encontrou. Tive de mentir que um amigo me pediu para guardá-las. Foram confiscadas e, daí uma semana, quando meu irmão descobriu, tivemos uma conversa séria.

Imagino a cara que minha mãe faria se tivesse encontrado as revistas de meu avô, que eu encontrei uns cinco anos depois de ele morrer. Revistas dos anos sessenta que, quando eu era pequeno, não serviriam mais nem para propaganda de lingerie. Meu avô era muito alto, um metro e noventa e quatro. Aliás, a mesma altura do Zezinho. Talvez essa altura fosse outro privilégio que acompanhasse o nome de José, comum aos dois. Minha avó tinha na copa duas cristaleiras, uma sobre a outra. Eu não sei como podia, até porque uma era escura e a outra mais clara e avermelhada, os desenhos e feitios não tinham nada a ver um com o outro. Mas as duas juntas, uma sobre a outra, se passavam por um móvel só, desenhado para ser daquele jeito mesmo. Mas era um móvel muito alto, que quase batia no teto. Uma vez fui tentar resgatar uma bolinha de ping-pongue que foi parar lá e descobri o esconderijo da pornografia de meu avô. Lugar alto, não tinha como outra pessoa, sem escada, alcançar lá. Eu procurei se havia mais, eram poucas, pulei o muro do quintal e joguei no lixo da vizinha para que minh avó não soubesse. Era uma última reverência, póstuma já, de ética masculina que eu poderia ter com meu avô.

A segunda coleção de meu irmão que eu conseguia alcançar era a da Ele & Ela. No começo não dei muita bola, porque confundi com a Ela, revista de costura e coisas de mulher que minha madrinha às vezes lia para manter-se atualizada em sua profissão. A revista era quase um lixo. Acho que, por isso mesmo, mais interessante que a Playboy. Mulheres desconhecidas, sem PhotoShop, ou seja-lá-o-que-a-Playboy-usasse-naquele-tempo, arreganhadas sem arte nenhuma, mostrando tudo. Essa revista tinha também um encarte chamado Fórum, onde eram publicados “relatos” enviados por leitores de suas aventuras eróticas. Para um adolescente CDF como eu, que lia mais ou menos um livro por dia, esse encarte era o máximo. Hoje, vinte e cinco anos depois, tenho certeza de que os relatos, ao menos as versões publicadas, não eram dos leitores. Eram todos coisas muito bem escritas. Por causa deles, fui procurar os “contos” publicados também na Playboy. Lá era publicado um por edição. Os autores usavam pseudônimos. Um dos que publicava lá era o Marcos Rey, autor dos livros políciais que eu adorava.

Mas a terceira coleção de revistas de meu irmão era a que eu mais gostava: a de quadrinhos. Havia Chiclete com Banana (chiclete com banana é de comer?  chiclete com banana cola na sola do sapato? chiclete com banana pega fogo?), Circo, Mad e algumas outras. Da Mad, eu só gostava da dobradinha. O resto da revista era um lixo. E ainda é. Circo misturava coisas muito boas com outras muito ruins. Foi nela que li algumas das coisas que mais me marcaram, como a história do cara que chega em casa e descob que toda sua vida era um teatro, O Show de Trumann em uma HQ do ponto de vista do ratinho de laboratório. Essa foi, até hoje, a minha HQ preferida. A cada dois ou três meses me acontece algo que me lembra ela. As máscaras caindo, o mundo, o chão, se desfazendo. Mas revista mesmo, a preferida foi a Chiclete com Banana. Quase tudo nela era bom. E o que não eraera uma bobagem engraçada. Ela tinha minhas personagens preferidas, Los Três Amigos (Angel Villa, Laertón e Glauquito… e Miguelito, per supuesto), com meus cartunistas preferidos, Angeli, Laerte e Glauco. E havia outros e havia a tia do Angeli e só faltava o papel feder a uísque e maconha.

Depois que meu irmão morreu, eu não tive mais sua coleção para fuçar. Essas revistas também não duraram muito mais do que isso. A Editora Circo deve ter durado uns dois ou três anos. A Chiclete com Banana deve ter durado umas dez ou doze edições. Eu comecei a procurar os quadrinhos dessa turma nos jornais, na Folha ou no Estado, não me lembro bem. A mãe e a madrinha compravam jornal velho por quilo para forrar as gaiolas dos passarinhos. Eu corria nas páginas de quadrinhos. Os próprios Angeli, Larte e Glauco tinham suas tirinhas, muito boas, misturadas às de outros cartunistas, embora eu sentisse falta deles juntos em Los Três Amigos. Separados, eles perdiam sinergia. rs Me sinto um gerente enrolando com uma buzzword quando digo isso. Mas separados eles realmente perdiam sinergia. Talvez pela falta de um zoando com o outro enquanto faziam as tiras. Isso para mim era muito claro durante uma fase do Angeli em que ele publicava tirinhas intituladas Angeli em Crise. Ele, quando não tinha ideia do que fazer, fazia um quadrinho extremamente vago do que tinha na cabeça. Na maioria das vezes sem texto, sem nexo, aparentemente sem propósito. Era objeto dele lidar com a falta de idaias quando precisava ter uma ideia para publicar na próxima edição do jornal. Todos têm seus dias sem ideias. Dias sem ideia nenhuma.

Eu não tenho contrato com nenhum jornal para escrever. Quando acho que tenho de escrever, e acho que tenho de escrever todos os dias, e não tenho ideia, me sento na frente do tablet com cara de bobo. Acabo só fuçando na internet por musicas novas, por informação inútil sobre assuntos que me interessam, e disperso.

Mas quando quero mesmo escrever, e não tenho ideia, deixo o tablet no braço da poltrona e abro uma garrafa de vinho. E fico pensando num monte de coisas que não quero escrever e em desculpas para não escrevê-las.

uma pausa para um pensamento meloso

Se houver um espacinho em seu coração… ou mesmo que não haja, mas você queira-me fazer este favor… leva para si este carinho que tenho comigo… … … porque, no meu coração, ele, de tão grande, não cabe mais.

Eu não queria ficar trancado no hotel. Não tirei férias para sair de casa e me trancar noutro quarto. Puxei a poltrona para o terraço do quarto, peguei um copo de vinho e me sentei lá. Não vou dizer que estava ao relento porque uma beirada do telhado cobre o terraço por inteiro. Coloquei os fones de ouvido e fiquei escutando radio tentando enxergar algo. Não dava para ver nada porque a última madeira horizontal do parapeito do terraço ficava bem à altura de meus olhos. Afundei-em um pouco na poltrona e consegui ver por baixo dessa madeira. Via só o estacionamento lá embaixo e um pedaço das árvores dele. Por cima, pelo vão entre o parapeito e o telhado, só dava para ver que o céu estava nublado, nenhuma estrela, nenhuma lua. Já sabia que a noite estava muito fria, mas levou uns dez minutos para me incomodar. Consegui um cobertor bem grosso. Enrolei-me nele como se fosse uma pala, voltei a sentar-me e a afundar-me na poltrona e, entre bebericos do copo que deixava pousado no parapeito, tentei prestar atenção ao rádio. Passou um carro ao lado do estacionamento. Parou logo em seguida, na ladeira que serve de mirante aos namorados. A cidade não tem motel, mas tem essa ladeira. Vi os faróis se apagarem por trás de uma copa de árvore e deitei a cabeça de lado. Esqueci, por uns vinte minutos, do vinho que estava sobre o parapeito. Procurei de novo por estrelas. Só vi dois raios estourarem no horizonte, além da serra, sobre os morros. Eles me eram suficientes. Estava cansado.

Cemitérios

Eu fui criado morando junto de cemitérios.

Quando criança, morávamos num sobrado numa estrada de periferia. Do outro lado, o cemitério. Do terraço tínhamos visão panorâmica de tudo ali. Era, de longe, o maior terreno da cidade. De se perder de vista o final mesmo. Hoje está bonito, bem arborizado, florido. Naquela época era só um capão esburacado com os  túmulos dos primeiros defuntos enterrados ali. Todos pobres que não tiveram dinheiro para pagar um cemitério particular. O muro é, na verdade, os ossários para onde são levados os restos dos túmulos desocupados. Cemitério de pobre é assim. A cada dois ou três anos, tem de pegar uma caixa de sapatos e ir à exumação do parente para ver se o corpo já está bastante comido para ser passado à caixa de sapatos e guardado numa gaveta do muro. Se não fôr, o coveiro despe o defunto, joga o corpo direto na terra, cobre-o só um pouco e já reaproveitam a cova para o próximo enterro.

Quando cresci, fui morar com minha avó, na cidade. Há dois quarteirões da casa dela, atrás da catedral, ao lado da minha escola, o Cemitério da Saudade. Toda cidade tem um cemitério chamado “da Saudade”, na rua “da Saudade”, junto à igreja matriz. É lá onde estão enterrados os primeiros defuntos, os mais antigos, dos primeiros moradores da cidade. É lá que as famílias mais antigas da cidades têm sua campas. São casinhas, dois metros abaixo da terra, um acima, você entra por uma porta e uma escada, prateleiras dos dois lados, os caixões são colocados nas prateleiras sem terra por cima. Conforme lotam, as famílias pagam para os coveiros sumirem com os caixões mais antigos, dos parentes já esquecidos, para dar lugar aos novos. Desses caixões, desses corpos, não sei o que é feito. Creio que sejam enterrados no chão também.

Me lembro, sempre que vinha visita de fora, o pessoal comentando o horror que era nossa proximidade com o cemitério. Para mim, sempre foi algo natural. Igreja, escola, hospital, cemitério. Tudo parte normal da vida, não há porque negá-lo.

É engraçado como as pessoas passam todos os dias pela calçada do cemitério, esperam o ônibus encostadas ao muro dos ossários, as crianças brincam de empinar pipas sobre os túmulos e, até mesmo, os adolescentes descobrem o sexo escondidos nos corredores entre as campas, sem pensar em porquê ter medo. No entanto, quem vem de outro bairro se apavora com a possibilidade de enxergar do quintal ou da janela da escola a copa de uma árvore que nasce no cemitério, ou apenas de saber que dali se ouve, duas ou três vezes por dia, a sirene do rabecão lento, chegando ao velório.

Por ali, para quem mora ali, a coisa é diferente. Não que todos achem tudo normal. Cada um tem seu limite. Há, por exemplo, o terreno baldio em torno do velório. Ninguém se atreve a construir ali por não querer dividir o muro com as constantes macumbas. Há também as duas ruas sem saída que ladeiam o cemitério. O bairro não é de gente rica, mas essas duas ruas, estreitas, sem asfalto, casas bem pobres, conseguem constrastar com as outras, de aposentados e operários. Essas duas ruas foram, na verdade, deixadas durante o loteamento, meio que abandonadas. As pessoas não queriam morar ali. Não queriam dividir os muros de seus quintais com os dos fundos do cemitério. Temor muito mais dos vivos que podiam lhes invadir os quintais à noite do que dos mortos, agora todos honestos. Essas ruas foram depois ocupadas por pessoal mais pobre que, ainda assim, preferiu não ter quintal e deixar uma espécie de passagem de servidão entre as frentes das casas e o muro do cemitério.

A gente passava ali no fim da tarde, comecinho da noite, e via as crianças brincando sem medo naquela rua-corredor sem saída. Logo pequenas aprendem que não o devem ter.

Eu, quando era adolescente, às vezes jogava bola no campo atrás da igreja. Na volta, contornava ao contrário o quarteirão para alongar a conversa com o amigo que morava na rua do velório. Quando ele entrava, eu continuava para casa, pela calçada do cemitério, que era mais iluminada do que a do posto de saúde. Passava na boca de uma dessas ruas sem saída e sempre olhava, de relance, medo de violar a privacidade de alguém, as crianças brincando.

Um dia, voltando assim, uma menininha dobra a esquina correndo, vindo da rua sem saída para a avenida, e tropeça. Estava enrolada num lençol branco. Assustaria quem procurasse por fantasma ali. Dois ou três adultos, para dentro da rua, encostados às paredes das casas, fumando e conversando, ignoraram totalmente seu tombo. Eu me abaixei para perguntar se ela se havia machucado. Com receio de ser mal entendido. As pessoas por aqui gostam de pensar que homem feio, quando fala com criança, tem más intenções. A menina se apoiou com as mãos chão e começou a se levantar, cara suja da poeira da calçada, sem me olhar. Só chacoalhou a cabeça que não, que não se machucou, como se estivesse encabulada de cair feito criança que era. Um dos pés pisava bem para dentro da borda do lençol. Foi nele que ela havia tropeçado. Antes que caísse de novo, segurei o lençol, firmei para que o pé não escorregasse e disse-lhe que o puxasse mais para cima, para não tropeçar de novo. Perguntei se não tinha se machucado mesmo. Ela agora disse que não. Perguntei se não ia voltar para casa para olhar direito e apontei com o rosto para a rua de onde ela vinha. Ela apontou com a mão por cima do cemitério, talvez em direção à outra rua sem saída: “Eu moro lá.” E saiu correndo de novo pela calçada.

Eu não tenho medo pois a luz de teus olhos adormecidos ilumina a noite que, lá fora, gela o corpo de quem não pode agora te abraçar para te aquecer. Estou cansado, mas sei que, mesmo quando dormir, teu perfume vai-me acampanhar como se segurasse minha mão… não importa para onde os sonhos me levem.

versinho tosco nº357

Eu quero rimar, sem saber porquê
A rima ou sua falta não mudam o que quero dizer
Gostava de ao menos conseguir acertar o mínimo de técnica
A tônica, o ritmo, a métrica
Contanto que isso não contaminasse o conteúdo
Nem desse ares de filustria a algo que creio tão comum
Queria conseguir dizer algo bom também
Mas sobretudo
Contar todos os segundos que penso a cada segundo
Um por um