Primeira Foto

Dia e noite de criança hoje. Comprei minha câmera nova, especialmente para fazer boas fotos para meu blog. D’us me ajude, eu não precise mais procurar fotos no Google e aprenda a fazer fotos que digam o que não sei escrever.

A escolha não foi muito difícil, escolhi a loja que tinha a maior variedade e os melhores preços (fácil, fácil, pois era a mesma), anotei os modelos que estavam no meu orçamento, fui no Google. Fui no Google e escolhi a que é melhor para fotos noturnas.

Fotos noturnas, é óbvio!

Manual, documentação, livros sobre fotografia, pra quê? Gosto de escrever, fotografar tem de ser fácil porque será só para ilustrar, mas bem ilustrado, o que eu escrever.

Abri o manual só para saber como pôr pra funcionar o que eu queria. “Onde fala nisso? E isto aqui, onde diz como faz?” Pendurei a engenhoca no pescoço e já saí atrás de uma foto.

Qual? Onde? Tinha que ser especial.

Queria fotografar o céu sobre o mar. Estava noite, neblina e um trânsito de fim-de-feriado para ir à praia e voltar na mesma noite.

Não teria o mar, seria só o céu então.

Parti pro interior, pra serra, não muito longe. Sei onde achar, aqui perto, uma paisagem bonita com vale e montanha, longe da cidade e das rodovias. Fui direto. A paisagem não era o que importava. No alto da montanha, eu queria ficar sozinho com o céu.

Mas o grande problema eu só percebi quando cheguei, e devia ter-me sido óbvio. Noite nublada, cadê a lua? Como eu podia debutar minhas fotos em meu blog se a atriz principal não estava disponível.

Frustrado, encostei o carro na beira da estrada, desci e fiquei olhando. As nuvens se juntavam todas na mesma direção. Devia ser onde escondiam a lua. Malditas! Ou, espera, ou era lua cheia? Nem me lembrei de olhar. Vacilão eu.

No resto do céu, ali no escuro, muitas estrelas. Pareciam flores plantadas num jardim.

A foto não teria uma solista, seria uma panorâmica de um elenco inteiro. Ajustei a câmera como vi no manual e, vai que a primeira fica tremida, bati três fotos. A bateria – que burro sou! não carreguei a bateria – só durou três fotos e nem pude conferir ali como ficaram. Corri pra casa.

Em casa, bateria carregando, cartão com as fotos no notebook. As fotos estavam umas porcarias. Não tinham nada a ver com as que eu vi nos livros e sites que ensinam a tirá-las.

Mas se prestar atenção (esta é a primeira, clique para vê-la inteira), dá pra notar algumas estrelas. Tem seu charme, me prende a atenção ficar olhando e procurando estrelas nela. Cada vez que procuro acho mais uma e a foto me parece mais bonita e misteriosa.

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Pensando bem uma primeira foto misteriosa e com estrelas escondidas não pode ser ruim.

Não é assim mesmo que deveríamos povoar a nossa imaginação: estrela por estrela?

A lua? A lua, quando eu tiver estrelas suficientes, tenho certeza de que ela vai aparecer para olhar.

 

Heartbeat

I need to feel your heartbeat so close feels like mine.
— King Crimson, Heartbeat

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Onde estávamos não era mesmo lugar para isso. É certo que, quando não dá pra prever quando essas idéias vão dominar o pensamento, ou melhor, se vão se manifestar, quando já o dominam.  A tensão é constante.

Até dá para imaginar as condições que lhes darão ensejo, mas quem as quereria evitar. O risco é o preço pago. Certas situações podem ser controladas. Aquela ali, por certo, não podia. Transpareceu e claro, a um e a outro, uma certa ansiedade. Não sei o quanto a cada.

Eu, tímido, segurei, e só Deus sabe como, a vontade de dizer coisas que não sabia se devia. Você imagina.

Eu não podia estragar tudo. Tudo estava muito bom. Se tivéssemos tempo, eu queria continuar com calma. Curtir anos e anos da conversa, do paseio, do caminho de volta…

Mas o tempo é para os anjos, que vivem muito antes e depois de nós. E anjos, definitivamente não somos.

Nosso tempo, por fim, cessaria e precisaríamos ir. Como fomos. Mas, antes de ir, aproveitamos. Tudo muito agradável. É sempre bom e muito agradável estar com você.

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No caminho, por mais que dissimulássemos nós sabíamos, eu sabia e acho que você também, o que se passava. A conversa divertida, de repente, pareceu inoportuna. Houve um pequeno silêncio. Silêncio encabulado de quem sabe que não pode evitar mais. Não mais que cinco segundos. Mas, afinal de contas, não precisávamos nem de tanto tempo, de mais nada. Nos havíamos denunciado há tempo.

Já por então andávamos uns centímetros mais próximos um do outro. Aproximávamo-nos inconscientemente ao andar. Nossas mãos se roçaram, e isso foi sem querer. O último sem querer que era permitido, mesmo não havendo regras sobre esses limites. Fiz menção de segurar tua mão, não mais sem querer. Na verdade, não foi segurar Foi mais como apenas tentar tocar de leve a palma da tua mão para que você percebesse o que já devia saber. Mas quando as mãos se tocaram, percebi que você fazia o movimento equivalente, como tentando facilitar que tocasse sua mão.

Eu precisava de contato. Saber que você existia mesmo. Que você estava ali comigo agora, mas também onde fosse. E todas aquelas coisas que parecem bobas quando a gente fala mas que se precisa sentir de verdade morno conta morno do toque para saber que não é sonho.

Nos voltamos um ao outro como se, constrangidos, precisássemos nos explicar. A emoção era grande, não conseguíamos, mas era também evidente. Ao notarmos, um no rosto do outro, a expressão que já esperávamos, as palavras, se necessária eram foram sumariamente deixadas pra depois.

É difícil explicar que beijo foi aquele. Não era lascivo, mas tinha desejo, tinha. Como tinha! Desejo que não de carne. Era desejo de sentir, de se mostrar, de revelar. Num primeiro momento nem sei se era prazeroso. Era de amor, de carinho. Não sei em nível era de cada um. Não era desejo de ter, era de ser aceito.

Meu coração batia muito forte. Se não estivesse com você, estaria constrangido.

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Encostamos nossos corpos, porque não havia mais cerimonia a fazer. Não nos temíamos. Pelo contrario, era como se estivéssemos escorando nossas almas, buscando suporte, apoio um no outro.

Assim, senti teu coração também. Não eram só do meu coração, aquelas batidas em meu peito, eram do teu junto. Peito com peito, disputando um com o outro, fortes e acelerados. Não sei se você também percebeu. Quando a tensão, a ansiedade e o medo passaram, a emoção quis fazer meus olhos escorrem. Interrompi o beijo, pousei a boca em teu pescoço, a cabeça deitada em teu ombro. Você deitou a cabeça na minha, escondendo gostoso os meus olhos, como se lhes desse colo. Não chorei. Já não tinha porque chorar. Estava com você, você me abraçava. Não tinha o que temer ou o que mais querer.

Sentia também teu pulso. Em meus lábios no teu pescoço. E o meu. Em meu pescoco grudado a teu ombro. Nos apertamos tão forte que tua boca tocou minha nuca. Não liguei. Não tinha porque ligar, era você.

O meu pulso era um latejar pelo corpo todo. Quando percebi que o seu também era, seu seu contato e seu calor me acalmaram. Nossos corações agora batiam fortes, apressados, mas já sossegados. Sincronizavam-se. Deslizei minha boca do teu ombro para a tua, com cuidado para que ela não desencostasse de você.

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Durante esse segundo beijo, a emoção finalmente derrubou uma lagrima, talvez duas. Engasguei. Não dava para dizer nada. Não precisávamos. Nossas bocas tudo diziam sem precisar de palavras.

E, mesmo quando elas voltaram a descansar em nossos ombros, eu passaria a noite, a vida toda assim se aguentássemos.

Sem desgrudar, juntos deslizamos nossas mãos, bem devagar para sentir melhor não perder contato e, ao invés disso, sentir o caminhos por onde passavam.

Elas se tocaram, enroscamos os braços. Forçamos nossos braços puxando para baixo, e para de encontro ao corpo, e tentando enroscá-los mais. Doía, mas só queria ficar mais junto. Apertamos as mão, os dedos trançados, como se assim nunca mais os conseguiríamos soltar.

Eu sentia nossos corações baterem nos nossos peitos. E também nos nossos lábios, braços, mãos, testas, cinturas, pescoços, pernas. Difícil saber onde estava cada parte. Nossos corpos, ali grudados, e daquele jeito emaranhados, pareciam um único coração palpitando.

Queríamos ser inseparáveis. Queríamos que, naquela instante, um anjo, porque eles têm o tempo, passasse e dissesse amén.

Embrace (1)

Feriado de quem Bebeu Menos do que Devia

Estes últimos dias, este fim-de-semana principalmente, foi muito intensos.
Páscoa, muito trabalho e muita coisa escrita. Muita coisa de lugares onde eu não mexia ha muito tempo.
Não sobrou muito tempo pra pensar e eu, quando não penso, tendo a fazer muito mais asneira que o normal. 🙂 brincadeira
O backlog está grande, a vazão já é pequena, ao menos menor do que eu queria.
Preciso descansar, assistir 16 horas de Wagner (o Ciclo do Anel) e pensar se o squonk é uma raposa ou um javali.

Pôr-do-Sol

We have no past, we won’t reach back.
Keep with me forward all through the night.
And once we start the meter clicks and it goes running all through the night.
Until it ends, there is no end.

— Cindy Lauper, All through the Night de Jules Shear

Sunset-Mountain-18

Quando o sol chega perto do horizonte e sua luz amarela, é hora de sair do escritório, deixar a cidade e subir o morro.

Ele já vai se esconder e, com ele, vai-se o dia.

Tenho que chegar no alto, vê-lo se sumindo aos poucos atrás das montanhas. O céu fica cobre, escurece. As árvores se tornam negras. Sons e criaturas noturnas aparecem.

Quanto menos enxergo, mais vejo.

Talvez desta, vez ele não volte. Essa noite devia durar para sempre.

 

Ficar Acordado

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I stand and gaze upon your smile.
A deep reflection held in my soul as a child

— Renaissance, The Day of the Dreamer

Às vezes penso que não querer acordar é pura preguiça.
Eu escrevo antes de dormir. É quando tenho mais tranqüilidade, o tempo está mais fresco e estou mais desperto, entusiasmado.
É quando as ideias que pensei durante o dia estão mais frescas e aquela pena de tudo que não posso fica mais dolorosa.
Às vezes, antes mesmo de acordar ou sonhar, eu não quero dormir, porque dormir é parar de sonhar.

Darkness

Walking through the undergrowth, to the house in the woods. The deeper I go, the darker it gets.
— Peter Gabriel, Darkness

darkness

“Eu não sei se consigo expllicar. Foi muito surreal.”

“Você não tem que explicar, nem eu. Só conte. E aí procuraremos um jeito de aproveitar isso para explicar o resto.”

“Eu vou tentar, só não sei se consigo explicar direito.”

“Só conte, não exploque, conte. Pesadelos são como sonhos. Você tenta explicar os sonhos bons? Então pra quê explicar um pesadelo? Só conte como se lembrar. O resto não vem ao caso.”

 

Bom, eu não me lembro do começo. De como começou.

O primeiro que me lembro foi de ter acordado na minha cama, no colo de minha mãe. Só que não era bem no colo, ele estava me segurando muito forte, como quando se segura alguém com convulsões para que ele não se machuque, estava gostoso, mas muito quente, abafado. Sentia quente a respiração dela. Minha cabeça estava vazia, não havia barulho nem ninguém em volta. Fiquei assim muito tempo. Demorou para que, com a respiração dela, lhe sentisse também o hálito e o quente do bafo. E isso me incomodou, comecei a ficar com muito calor, quis sair, mas ela não deixava. Me mandava ficar quieto, voltar pra cama, deitar quieto. Me puxava de volta pelo braço, pelo pé.

Foram minha avó e minha madrinha que a fizeram me soltar. Queriam que eu fosse para a sala fazer-lhes companhia. Que já estava acordado e era tarde para ficar na cama de bobeira. “Esse menino não pode ficar assim, acostumado com cama.”

Saímos os três do quarto. Eu feliz da vida, havia me livrado das fungadas quentes de minha mãe em meu rosto. Passamos do meu quarto à sala. Mas essa sala já não era a de casa, era da casa de minha avó. Eu me deitei no sofá grande. Minha avó e minha tia, uma em casa poltrona, tricotando. O sofá era fresquinho, bem melhor que o colo de minha mãe. A sala, mesmo com a cortina fechada, era clara. As duas gostavam de contar história, eu ouvia. Sei lá quantas história eu ouvi. O sonho podia ter terminado logo que percebi que o lugar era gostoso e a conversa boa. Teria acordado leve, nostálgico do sonho não continuar.

Dava pra ouvir que, do portão, crianças me chamavam para brincar. Mas eu ficava ali, ouvindo histórias. Que indelicadeza! Acabar com uma boa conversa, mesmo que só uma das partes falasse, para ir brincar! Isso não se faz.

As histórias não acabavam e o sofá começou a me incomodar as costas. Sabe aquele mal-estar de estar muito tempo deitado? Eu não tinha coragem de desapontá-las, pedir que parassem para eu sair para brincar. Fui esperando que encerrassem sozinhas as histórias. Besteira, à história de uma, se seguia a história da outra. E assim, e assim, e assim, e eu impaciente e cada vez mais com medo de que as crianças se cansassem de me chamar.

Quando saí dali para brincar, foi escondido, enquanto as duas contavam história olhando com muita atenção para o tricô. Não pude ver a reação quando perceberam.

Pulei a janela. Meu pai chegava com um saco grande, desses de batatas, cheio de coisas da feira. Ele costumava mesmo pegar restos da feira para alimentarmos as galinhas. Fedia. Ele, não o saco. Ele fedia muito a suor, escorria. Passei por ele correndo. Cuidado para não encostar nele, assim suado. Que nojo!

Pulei o muro e fui para a rua. Lá estava a criançada que, estranho, não parecia me notar ali. Como se não me esperassem, como se ninguém tivesse me chamado. Brincavam de algo que eu nunca vi, tinha uma bola, pedras, meninos e meninas misturados, corda, riscos de giz no chão. Parecia haver lógica, mas não a compreendi.

Alguém que passava disse-lhes que me juntassem à brincadeira e eles concordaram. Todos ao mesmo tempo repetiram um gesto mecânico, sem emoção, indicando que eu pisasse no asfalto, onde eles estavam.

Eu tentei brincar com essas crianças, mas não conseguia. Os pés não funcionavam, as mãos também não. Eram membros bobos, ou inteligentes demais. Não faziam o que eu queria. E as crianças, elas falavam outra língua, não era português. Eu não as entendia. Pelos gestões, expressões e tom de voz percebia que reclamavam de mim. Provavelmente por minha inaptidão para aquela brincadeira. Mas eu não compreendia uma palavra que me indicasse o motivo da reclamação, o que eu tinha feito de errado. Alguns eram duros, expressão claramente agressiva.

A reprovação me frustrou e a incompreensão me deixou aflito. Fugi, covarde. Virei as costas à rua e corri de volta para casa. Mas já não estava lá casa nenhuma. Onde devia estar o portão de minha avó, estava o da escola. E nem era o da rua, era o que levava do pátio para o corredor das salas de aula.

E quando passei por ele, entrando, não foi ao corredor que cheguei, foi a uma das salas de aula. Além do que se espera encontrar numa sala de aula, estava, no estrado em frente à lousa, dedicado ao professor, o sofá de minha avó. Aquele sofá onde eu estava deitado antes.

Sentei-me nele, era meu lugar, todos em casa já sabiam. A professora quando chegou, sentou-se a meu lado, sem pedir licença. Logo que começou a aula, ofereceu o colo para eu deitar a cabeça. E eu deitei, como se fosse o filho que ela não levava à aula.

Os outros alunos vinham mexer comigo como se eu fosse bebê, e isso não me incomodava. Estou agora envergonhado de perceber isso, mas não fiquei envergonhado. Deixei e até gostei de chamar a atenção. Pediam-me minha mamadeira e minha chupeta emprestadas.

Havia uma mamadeira e uma chupeta ali! Não sei de onde apareceram, não sei de onde! Emprestei-as para as criancas. Que começaram a brincar com elas. Agora me ignoravam. Distraíram-se com minhas coisas e me deixaram ali sozinho com a professora. E ela também já me ignorava. Cuidava já de algo que escrevia em seus papéis. Cuidava como se eu não estivesse ali no seu colo. Não me tocava mais. Confuso, sentei-me. As largaram minhas coisas, mamadeira e chupeta, e um pano que parecia uma fralda, babadas e rasgadas, e foram brincar fora do estrado. Tive nojo das coisas e chorei. Chorei muito de reação ao nojo

A professora sumiu. Desapareceu. Quando percebi isso, o sofá também não estava mais ali. Eu estava sozinho na frente da classe, sentado no chão, no estrado.

Senti vertigem, como quando bebo muito e me atiro na cama. Fiz muita força com os músculos frouxos para abraçar o joelho. Tentava levantar a cabeça, ela caía, para frente, causando náusea, ou para trás, batendo na parede. A cabeça mesma não doía com a pancada, mas sentia sangue no fundo do nariz. Acho que chorava e, o mundo girava, tinha que fazer muita força para respirar com a boca, pois o sangue, ou o que fosse, entupia meu nariz. Crianças, acho que eram crianças, me cercaram. Vinham, puxavam-me a orelha e o nariz. Zombavam de meu vexame.

Por fim, tombei de lado. Tombado, tive força para me enrolado e forçar a testa de encontro ao joelho. Acho que isso é posiçãoo fetal, não. Não havia mais o estrado. E eu só queria que fossem embora e me deixassem chorar sozinho.

Me acertaram uma bola. Assustado abri os olhos, era o pátio. Não queria saber como tinha ido parar ali. O choro e a vergonha viraram raiva. Virei animal, se já não era. Um garoto que ria muito de mim pareceu-me estar um pouco mais próximo que os outros. Julguei-o culpado e, com muita raiva, joguei de volta a bola no filho-da-puta! Admirei-de de como, cansado e com o corpo dolorido de tanto choro, náusea e vertigem, de como acertei-lhe forte, certeiro no rosto.

Alguns meninos, e as meninas todas se afastaram.

Ele, tombou. Morto? Não, ainda podia se levantar. Se se levantasse, me atiraria ensandecido sobre ele. Provavelmente apanharia, mas agora era animal. Morreria por vingança ou justiça, mas não seria humilhado de novo.

A bola havia rebatido nele e voltado para mim. Outro moleque ainda ria. Peguei a bola e, numa corrida de três ou quatro passos, acertei-lhe também. Também tombou.

As crianças, agora, ficaram todas quietas e começavam a ir para o portão, como se nada fosse, caminho de casa. Eu, agitadíssimo, parado olhando. Um professor veio e pôs-me a mao no ombro, isso me acalmou imediatamente, embora ainda sentisse a pulsação do esforço nas veias por meu corpo.

Algumas crianças, que eu já havia visto por ali algumas vezes e que, ao invés de ir embora, chegavam, vieram com a bola para mim. E começamos a brincar, essa brincadeira eu conhecia bem ou mal, tanto quanto eles a conheciam.

Brincamos bastante, até que minha mãe apareceu no portão da escola. Ela não podia saber que eu estava brincando. Corri dela, corri. Ela deve ter-me visto brincando. Ela não queria que eu brincasse. Que vergonha! Corri dela. Corri de vergonha. De não saber o que lhe dizer. Corri da escola. De tudo que agora estava às minhas costas.

Correndo, entrei no terreno da igreja pelos fundos. Nos fundos da igreja, havia a vila dos padres, o campo de futebol e o mato. No mato havia trilhas. Entrei na primeira e continuei correndo. O mato crescia, fechava. Apareciam árvores. A trilha virou uma alameda.

Corri, corri, fugindo. Correr, agora, já não me cansava, pelo contrario, trouxe conforto e calma. Ri. Algumas outras crianças, novas crianças, me alcançaram, algumas vindas do meio do mato ou de bifurcações. Corremos juntos. Corremos rindo. Era uma algazarra bem ordenada pelo caminho da alameda.

Queriamos correr mais. Demo-nos as mãos e continuamos correndo a tarde toda. As outras crianças, demorei perceber, conforme corriam, elas iam se cansando e ficando pelo caminho, uma a uma. Quando o sol começou a se pôr, éramos só dois, ainda de mãos dadas.

Eu já não me lembrava de mais nada do que havia acontecido antes. Acho que mesmo agora não me lembro mais. Eu só queria correr. O sol se punha, noite chegava, a alameda escurecia com barulhos que não deviam estar ali. Não eram corujas, cigarras, grilos. Isso eu não estranharia. Eram de outros tipos os barulhos.

Percebi que já corria sozinho quando também percebi que não conseguia mais enxergar as laterais da alameda. Avistei uma claridade lá no fundo, ou seria uma escuridão menos escura? E continuei, devia ser o fim da alameda.

Os barulhos, parece que percebendo que eu fugia se atiraram na minha direção, à caça. Desesperei-me. Gritos vinham de trás de mim, pela alameda, cada vez mais perto. Barulhos de máquinas, de guerra, de despertador, de telefone, de freada, todo tipo de barulho ruim.

Eu tropeçava, me levantava, chorava, desistia, me entregava, voltava a correr. Os barulhos cada vez mais perto. Eu não senti, mas sabia que tinha molhado as calças.

Nos últimos metros, uma luz brilhou no fim da alameda, como se lá alguém houvesse acesso luz elétrica e ela me ofuscasse os olhos, já acostumados à escuridão. Minhas pernas passaram a se mexer em falso, eu não saia do lugar. Era como se não houvesse mais atrito entre elas e o chão. Como se eu andasse sobre gelo. Eram precisos vários passos para cada centímetro avançado. Meu desespero agora era o de alguém que seria engolido pela morte.

Na verdade, devem ter sido segundos, mas eu poderia ter corrido o mundo todo nesses segundos, tantos dias demorou para eles passarem.

Finalmente, no passo que me atirou para a saída da alameda escura, para aquela luz, onde os barulhos já não me alcançariam, larguei-me ao chão, caído, abatido, completamente exausto, atordoado, emocionado, sem força para sequer suspirar. Mas aliviado!

O alívio não durou. E de alívio, agora, foram segundos que realmente não pareceram nada, tão rápido passaram. Logo ouvi um rumor. E, em seguida, vozes raivosas à minha volta.

Estava num circo, parecia enorme. E no meio estava eu, de joelhos, entregue, sozinho, e nu.

Não me protegi da multidão porque era inútil. Isso não foi nenhum ato de coragem. E já não conseguia mais reagir, nem mesmo lamentar ou chorar. Só  ficar parado, engasgado. O circo era redondo, como se eu estivesse dentro de uma bola cercado pelo mundo todo.

E eu só queria saber que aquilo ali era um sono para tentar acordar.

 

Macarronada

Please show me, please show me how to feel further from fantasy. I’m closer to you.
More I remember, The more I’m pulling through.

— Annie Haslam, Further from Fantasy de Kit Hain & John DeNicola

Não sei tem tem coisa pior pra quem escreve bem, já há algum tempo. Eu, quase quarenta anos, nem todos escrevendo, é bem verdade, estou hoje numa daquelas noites em que me sinto molho de tomate todo bagunçado pelo espaguete.

Deixe ilustrar melhor, espaguete não. Imagine aquela macarronada do domingo. Macarrão molenguento, cozido mais do que devia. Molho de tomate com queijo ralado barato, que cheira forte pela casa toda e deixa a toalha da mesa cheia de manchas laranjas.

Sou o molho. O macarrão, cada fio é uma das idéias.

Ah, sim, almoço de domingo, de família portuguesa, tem que ter vinho. Tudo bem, os da minha não tinham. Mas dá pra pegar a idéia, estou com o vinho aqui ao meu lado. Não é ele quem atrapalha, não. Acabei de pegá-lo, as ideias já estavam emaranhadas em mim por todo lado antes que eu o tocasse.

Só não consigo decidir por onde começar, o que deve ser contado primeiro, e o que se segue. Deixam-me louco. Cada idéia nova é logo seguida de outra, não as consigo criticar, selecionar. E, se, burro que sou, revisito as que posterguei, o arrependimento as trás à frente e a confusão só piora.

É tanta coisa por dizer. E não sei o quê.

Queria que fosse fácil, como naquelas cenas de filme, quando um gesto, uma palavra, um beijo, deixam tudo falado e o final é feliz.

Aí só seguem a música e os letreiros.

THE END

flor

Passeei outro dia atrás de uma bela flor, já sabia onde encontrá-la.
Mas que descuido o meu, esqueci de experimentar seu perfume.

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Contar

Começo a perceber que há duas formas de contar uma história:
pegar uma verdade e colori-la de fantasia ou
pegar uma fantasia e acreditar que seja verdade.

E então percebo que a verdade não é nada, só importa a fantasia.

13. Close to the edge2

 

Por isso não quero mais viver a verdade.
Prefiro a fantasia.
Ela está aqui perto, dentro de mim, e quero que ela viva, mais verdadeira que a verdade.

A Louca do Trapiche

Y su cuerpo se enraizó en el muelle.
Sola en el olvido, sola con su espíritu, sola con su amor el mar.
Sola en el muelle de San Blás.
Maná, El Muelle de San Blás

Não sou de passar férias na praia, gosto de praia para passear. Passar o dia, o fim-de-semana. Carnaval na praia, de jeito nenhum.

Mas uma vez, numa viagem de férias, me programei para passar pousa duas noites numa praia no sul do país e aproveitá-la no dia entre elas. Após o café, desci para a areia e, logo de cara, gostei bastante daquela praia. O entorno é urbanizado tem asfalto, calçadas, hotéis, café, restaurante, banca de jornal, os serviços básicos. Sou da cidade, pausas para o café, passar a manhã de folga lendo o jornal do dia, sinal de celular para enviar fotos da folga para os amigos, isso é muito importante para mim. A areia e a água eram muito limpas, a água ia bem rasa numa faixa que até razoavelmente bem dentro do mar. Dava pra andar bem pra dentro dele sem precisar nadar. Odeio nadar. Praia é para ficar de bobeira.

Pela areia, muitas crianças, digo crianças, mas eram adolescentes, brincando. Namorico, futebol, corda bamba esticada entre troncos de árvores. Cachorros também fuçando troncos de árvores. Lugares freqüentados por turistas têm muitos cachorros, porque turistas deixam lixo, e é lixo com resto de comida.

Mais pra frente da praia, trapiches e barcos, alguns particulares, poucos de pescadores, e duas ou três escunas para passeios de turistas. Nessa hora, já sol nascido e dia estabelecido, ainda não havia muitos pescadores por ali, estavam pelo mar trabalhando. Pescador acorda cedo, nove, dez horas da manhã, já é dia longe, praticamente hora do almoço.

Mas a maioria das pessoas que estavam na praia era mesmo de aposentados, passeando, curiosamente em casal quase todos. Deve ser uma terra de casamentos felizes, sorri. Alguns turistas, a época do ano era relativamente fria para turismo e os adolescentes.

E um grupo de adolescentes lá pra frente da praia, passando pelos trapiches, fazia muita algazarra, eu ouvia. Faziam galhofa de uma velha, parecia mendiga, que estava sentada na ponta de um dos trapiches, embaixo de um guarda sol junto de algumas tralhas. Não dava pra ouvir o que era, eu estava longe deles, mas como gritavam alto pra ela e riam também alto entre si, percebia-se que não eram nada respeitosos. Mordi-me, fui ao trapiche dela, revoltado, ver se precisava de algo.

Os adolescentes atravessaram a rua e foram por uma travessa. Não iriam mais incomodá-la, não agora.

Passando por um carrinho, no caminho, peguei um cachorro-quente e uma coca, iria fingir que eram para mim, mas oferecer a ela. Chegando ao trapiche, ele pareceu-me longo, como se fosse mais longo do que o que eu andei para alcançá-lo.

Faltando poucos passos para chegar nela, eu olhava o horizonte como ela: “Vó, eles estavam mexendo com a senhora?”, mania de chamar de vó às senhoras de idade.

Ela demorou dar mostra de ter-me percebido. Quando deu, foi um pequeno movimento do rosto, acho que para me enxergar de rabo-de-olho. Os olhos mesmo continuavam para o horizonte.

Ela chorava. “Deixa estar filho, não ligo.” Essa voz não tinha emoção. Prova de que ela não ligava mesmo.

“Mas a senhora esta chorando…”

Ela, sem mexer a cabela, enxugou as que haviam escorrido, com o babado do vestido bege florido. A boca sorriu breve com os olhos ainda chorando, agora sem escorrer. Olhos muito tristes.

“Eles não têm como me ofender, são como esses pássaros barulhentos que têm por aqui. Seu barulho não significa nada, se eles não significam nada para você. Mas te deixam louco se você lhes der atenção. Deixa estar, quem lhes daria atenção se já não fosse louco?”

“A senhora está bem?”

“Tanto quanto posso filho, eu já sou velha, passo bem como pode uma velha. Você veio aqui perder tempo comigo?”

“Vou pro Sul, estou passando o dia aqui na praia pra descansar, olhar o mar. A senhora olha também. Daqui a vista é melhor?”

“Não sei, filho, nem vejo o mar, há tanto tempo estou aqui olhando que mal me lembro como é o mar.”

Por curioso e louco que fosse o que ela disse, não me espantei. A gente não se espanta quando fala com mendigo. Espera mesmo que digam o que ninguém mais teria coragem de dizer. Esse é seu direito. Seria louca ela? Como aqui no trapiche não via o mar que estava por todos os lados?

“A senhora aceita?”

Ela agora se virou. Os olhos cheios de água não escorriam. Se diria que o choro parecia estatico, empedrado, eterno, no seu rosto acinzentado de costume de ser queimado ao sol. Com as mãos, ofereci-lhe o sanduíche e a coca. Ela pegou quieta. Mas, logo que já estava com o rosto apontado de novo para o horizonte, antes de começar a morder:

“Tem gente que se ofende de aceitar comida da mão dos outros, eu não. Muito agradecida, filho.” O tom de voz, embora didático, era de agradecimento mesmo. Nos poucos segundos ou frações de segundos em que ela olhou para mim, seu olhar era como o da avó que recebe do neto o café da tarde, na soleira da porta, enquanto cose. Achei meigo. Já o olhar para o horizonte, era vicioso. “A gente vive como pode e ajuda quem pode. Por que não se deixar ajudar, né, filho?”

Estava quase sob um guarda-sol velho, grosso, uma vareta quebrada pendia boba. A sua direita, duas caixas de madeira estavam na sombra do guarda-sol, dessas de hortaliça que a gente pega no lixo da feira, uma sobre a outra, desalinhadas. Umas coisas dentro. Parecia haver um cobertor, uma caneca, uma livro sem capa, com letras miúdas, me representou uma biblia já bem manuseada. Distraí os olhos, não queria xeretar. Voltei o rosto para ela, sorrindo divertido, mas tentando que ela não percebesse que já a tomava por louca:

“Que que a senhora olha aqui então?”

“Não olho, espero. Estou esperando meu marido. Fico aqui. Espero ele voltar.”

Parecia o tom de voz de quem conta uma mentira. Sem emoção, resignado. Tom de quem conta uma mentira só pra se ver livre da pergunta.

“Onde ele está?”

“Ele saiu pro mar, trabalhar. Diz que a pesca aqui, pra cá das ilhas não está boa mais. Ele foi pra além. É muito longe, mas já volta.”

Devia ser longe mesmo, eu não via ilha nenhuma. Nem lembro de nenhuma ilha famosa por ali.

“Faz tempo que ele saiu?”

“Algumas semanas, eu acho. Depois de alguns dias esperando em casa, comecei a ficar impaciente, essas pescarias não costumam demorar mais de um dia, mas ele avisou que ia pescar bem longe. Não agüento esperar em casa, vim esperar aqui.”

Não entendo de pesca.

“Algumas semanas? É normal isso?”

“Ele jurou que volta e eu jurei esperar. Estou aqui esperando, ele já deve estar chegando.”

Agora fiquei impressionado. A falta de emoção já transparecia a mentira mesmo. Não a mentira de quem quer enganar ao outro, mas a de quem engana a si, a de quem quer enganar tanto a fé quanto o sofrimento.

“A senhora devia esperar em casa, não?”

“Minha casa, trouxe para cá.” Apontou com a orelha para as caixas. “Ele pode chegar a qualquer momento. Vai ficar feliz de ver que não arredo pé daqui, esperando.” Sorriu. Sorriu como quem já imagina a cena. A mentira já tinha virado verdade, ela se convencera. A voz estava rouca.

“O vento do mar é frio. A senhora está com vestido de verão. Por que não se cobre, põe um agasalho?”

“Não, não. Ele pode passar ao largo sem me reconhecer. Ir para outro trapiche. Aí perde a graça, estou velha demais para correr para o outro trapiche atrás dele. Ele se lembra que eu estava assim, quando chegar, virá para cá. Ele já chega”

Ela me deixava sem palavras, olhei o horizonte de lado a lado, devagar, procurando as tais ilhas e um pescador velho que chegasse num barquinho com uma montanha de peixes. Eu precisava arrumar ajuda para ela ou ficava louco igual.

“O pior, filho, não são os meninos. Têm uns que vêm aqui como você. Não me chamam louca, não xingam. Conversam, me oferecem lanche, e tentam me levar pra internar.”

“Já não sou louca.”

Tive vergonha de meu pensamento, eu a julgando. Ela já não era louca, disse. Tinha consciência de que ele não voltaria? Ou estava eu enganado? Ele voltaria? E se não voltasse? Que bem faria a ela estar trancada em casa, num hospital, num abrigo, sofrendo e chorando mais ainda do que aqui? Por não poder estar aqui. Por terem lhe negado seu sonho de negação.

“Os pescadores e os comerciantes não deixam me levarem, eles conhecem meu marido. E sabem que estou melhor aqui sozinha.”

“Bom, fica com D’us, vó, bom dia.”

“Amén, filho, boa tarde.” me corrigiu, já eram mais de onze horas.

Eu fui embora.

Daí a alguns anos, noutra viagem para o Sul, parei um começo de noite para pousar nessa praia de novo, curioso, lembrando da conversa com a velha.

Antes de procurar pouso, fui até o trapiche. Estava desativado um cordão de plástico amarelo e preto queria impedir o acesso.

Mas, na luz ruim, ofuscada pelo pôr-do-sol ao fundo, ela estava lá na ponta do trapiche. Parei o carro, passei pelo cordão e fui andando pelo trapiche. Estava muito estragado tábuas soltas, algumas faltando, outras podres, tinha que ter muito cuidado. Parecia muito mais comprido do que me lembrava. Um cachorro dormia no meio do caminho. Ele acordou, tive medo, mas fui ignorado. Seria dela o cachorro? Amigo dela talvez.

De longe ela parecia muito suja, esfarrapada, mas quando cheguei perto vi que não. Era um montinho de terra, embaixo do mesmo guarda sol já todo quebrado sem a lona. As caixas estavam quebradas e tinham só com algumas poucas porcarias. Presos ao monte de terra, galhos, teias de aranhas, escorpiões, ramos de plantas, como que enraizadas naquele montinho de terra e entulho, desciam pela borda do trapiche e mergulhavam no mar.