Heartbeat

I need to feel your heartbeat so close feels like mine.
— King Crimson, Heartbeat

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Onde estávamos não era mesmo lugar para isso. É certo que, quando não dá pra prever quando essas idéias vão dominar o pensamento, ou melhor, se vão se manifestar, quando já o dominam.  A tensão é constante.

Até dá para imaginar as condições que lhes darão ensejo, mas quem as quereria evitar. O risco é o preço pago. Certas situações podem ser controladas. Aquela ali, por certo, não podia. Transpareceu e claro, a um e a outro, uma certa ansiedade. Não sei o quanto a cada.

Eu, tímido, segurei, e só Deus sabe como, a vontade de dizer coisas que não sabia se devia. Você imagina.

Eu não podia estragar tudo. Tudo estava muito bom. Se tivéssemos tempo, eu queria continuar com calma. Curtir anos e anos da conversa, do paseio, do caminho de volta…

Mas o tempo é para os anjos, que vivem muito antes e depois de nós. E anjos, definitivamente não somos.

Nosso tempo, por fim, cessaria e precisaríamos ir. Como fomos. Mas, antes de ir, aproveitamos. Tudo muito agradável. É sempre bom e muito agradável estar com você.

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No caminho, por mais que dissimulássemos nós sabíamos, eu sabia e acho que você também, o que se passava. A conversa divertida, de repente, pareceu inoportuna. Houve um pequeno silêncio. Silêncio encabulado de quem sabe que não pode evitar mais. Não mais que cinco segundos. Mas, afinal de contas, não precisávamos nem de tanto tempo, de mais nada. Nos havíamos denunciado há tempo.

Já por então andávamos uns centímetros mais próximos um do outro. Aproximávamo-nos inconscientemente ao andar. Nossas mãos se roçaram, e isso foi sem querer. O último sem querer que era permitido, mesmo não havendo regras sobre esses limites. Fiz menção de segurar tua mão, não mais sem querer. Na verdade, não foi segurar Foi mais como apenas tentar tocar de leve a palma da tua mão para que você percebesse o que já devia saber. Mas quando as mãos se tocaram, percebi que você fazia o movimento equivalente, como tentando facilitar que tocasse sua mão.

Eu precisava de contato. Saber que você existia mesmo. Que você estava ali comigo agora, mas também onde fosse. E todas aquelas coisas que parecem bobas quando a gente fala mas que se precisa sentir de verdade morno conta morno do toque para saber que não é sonho.

Nos voltamos um ao outro como se, constrangidos, precisássemos nos explicar. A emoção era grande, não conseguíamos, mas era também evidente. Ao notarmos, um no rosto do outro, a expressão que já esperávamos, as palavras, se necessária eram foram sumariamente deixadas pra depois.

É difícil explicar que beijo foi aquele. Não era lascivo, mas tinha desejo, tinha. Como tinha! Desejo que não de carne. Era desejo de sentir, de se mostrar, de revelar. Num primeiro momento nem sei se era prazeroso. Era de amor, de carinho. Não sei em nível era de cada um. Não era desejo de ter, era de ser aceito.

Meu coração batia muito forte. Se não estivesse com você, estaria constrangido.

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Encostamos nossos corpos, porque não havia mais cerimonia a fazer. Não nos temíamos. Pelo contrario, era como se estivéssemos escorando nossas almas, buscando suporte, apoio um no outro.

Assim, senti teu coração também. Não eram só do meu coração, aquelas batidas em meu peito, eram do teu junto. Peito com peito, disputando um com o outro, fortes e acelerados. Não sei se você também percebeu. Quando a tensão, a ansiedade e o medo passaram, a emoção quis fazer meus olhos escorrem. Interrompi o beijo, pousei a boca em teu pescoço, a cabeça deitada em teu ombro. Você deitou a cabeça na minha, escondendo gostoso os meus olhos, como se lhes desse colo. Não chorei. Já não tinha porque chorar. Estava com você, você me abraçava. Não tinha o que temer ou o que mais querer.

Sentia também teu pulso. Em meus lábios no teu pescoço. E o meu. Em meu pescoco grudado a teu ombro. Nos apertamos tão forte que tua boca tocou minha nuca. Não liguei. Não tinha porque ligar, era você.

O meu pulso era um latejar pelo corpo todo. Quando percebi que o seu também era, seu seu contato e seu calor me acalmaram. Nossos corações agora batiam fortes, apressados, mas já sossegados. Sincronizavam-se. Deslizei minha boca do teu ombro para a tua, com cuidado para que ela não desencostasse de você.

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Durante esse segundo beijo, a emoção finalmente derrubou uma lagrima, talvez duas. Engasguei. Não dava para dizer nada. Não precisávamos. Nossas bocas tudo diziam sem precisar de palavras.

E, mesmo quando elas voltaram a descansar em nossos ombros, eu passaria a noite, a vida toda assim se aguentássemos.

Sem desgrudar, juntos deslizamos nossas mãos, bem devagar para sentir melhor não perder contato e, ao invés disso, sentir o caminhos por onde passavam.

Elas se tocaram, enroscamos os braços. Forçamos nossos braços puxando para baixo, e para de encontro ao corpo, e tentando enroscá-los mais. Doía, mas só queria ficar mais junto. Apertamos as mão, os dedos trançados, como se assim nunca mais os conseguiríamos soltar.

Eu sentia nossos corações baterem nos nossos peitos. E também nos nossos lábios, braços, mãos, testas, cinturas, pescoços, pernas. Difícil saber onde estava cada parte. Nossos corpos, ali grudados, e daquele jeito emaranhados, pareciam um único coração palpitando.

Queríamos ser inseparáveis. Queríamos que, naquela instante, um anjo, porque eles têm o tempo, passasse e dissesse amén.

Embrace (1)

10 comentários em “Heartbeat

  1. Isso foi muito difícil de escrever, levou a noite inteira.
    Imagina, pra mim, escrevê-lo, foi um beijo que levou a noite inteira.
    Um só não, porque, pensativo, interrompi várias vezes para pensar e descansar os olhos e o coração.
    Eu sei que ainda precisa de alguns acertos.
    Mas já estou exausto, não de sono.

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    1. Não há ajustes que torne perfeito aquilo que já é. Ou seja, sentimentos, pensamentos, sonhos não são imperfeitos. Podem ser desgastantes, intensos, mas nunca imperfeitos… Jamais!

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    1. Tempo é relativo…tudo depende, depende da hora, do minuto,do segundo. Depende…para quem deseja o dia vira noite, a noite vira dia…

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