Darkness

Walking through the undergrowth, to the house in the woods. The deeper I go, the darker it gets.
— Peter Gabriel, Darkness

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“Eu não sei se consigo expllicar. Foi muito surreal.”

“Você não tem que explicar, nem eu. Só conte. E aí procuraremos um jeito de aproveitar isso para explicar o resto.”

“Eu vou tentar, só não sei se consigo explicar direito.”

“Só conte, não exploque, conte. Pesadelos são como sonhos. Você tenta explicar os sonhos bons? Então pra quê explicar um pesadelo? Só conte como se lembrar. O resto não vem ao caso.”

 

Bom, eu não me lembro do começo. De como começou.

O primeiro que me lembro foi de ter acordado na minha cama, no colo de minha mãe. Só que não era bem no colo, ele estava me segurando muito forte, como quando se segura alguém com convulsões para que ele não se machuque, estava gostoso, mas muito quente, abafado. Sentia quente a respiração dela. Minha cabeça estava vazia, não havia barulho nem ninguém em volta. Fiquei assim muito tempo. Demorou para que, com a respiração dela, lhe sentisse também o hálito e o quente do bafo. E isso me incomodou, comecei a ficar com muito calor, quis sair, mas ela não deixava. Me mandava ficar quieto, voltar pra cama, deitar quieto. Me puxava de volta pelo braço, pelo pé.

Foram minha avó e minha madrinha que a fizeram me soltar. Queriam que eu fosse para a sala fazer-lhes companhia. Que já estava acordado e era tarde para ficar na cama de bobeira. “Esse menino não pode ficar assim, acostumado com cama.”

Saímos os três do quarto. Eu feliz da vida, havia me livrado das fungadas quentes de minha mãe em meu rosto. Passamos do meu quarto à sala. Mas essa sala já não era a de casa, era da casa de minha avó. Eu me deitei no sofá grande. Minha avó e minha tia, uma em casa poltrona, tricotando. O sofá era fresquinho, bem melhor que o colo de minha mãe. A sala, mesmo com a cortina fechada, era clara. As duas gostavam de contar história, eu ouvia. Sei lá quantas história eu ouvi. O sonho podia ter terminado logo que percebi que o lugar era gostoso e a conversa boa. Teria acordado leve, nostálgico do sonho não continuar.

Dava pra ouvir que, do portão, crianças me chamavam para brincar. Mas eu ficava ali, ouvindo histórias. Que indelicadeza! Acabar com uma boa conversa, mesmo que só uma das partes falasse, para ir brincar! Isso não se faz.

As histórias não acabavam e o sofá começou a me incomodar as costas. Sabe aquele mal-estar de estar muito tempo deitado? Eu não tinha coragem de desapontá-las, pedir que parassem para eu sair para brincar. Fui esperando que encerrassem sozinhas as histórias. Besteira, à história de uma, se seguia a história da outra. E assim, e assim, e assim, e eu impaciente e cada vez mais com medo de que as crianças se cansassem de me chamar.

Quando saí dali para brincar, foi escondido, enquanto as duas contavam história olhando com muita atenção para o tricô. Não pude ver a reação quando perceberam.

Pulei a janela. Meu pai chegava com um saco grande, desses de batatas, cheio de coisas da feira. Ele costumava mesmo pegar restos da feira para alimentarmos as galinhas. Fedia. Ele, não o saco. Ele fedia muito a suor, escorria. Passei por ele correndo. Cuidado para não encostar nele, assim suado. Que nojo!

Pulei o muro e fui para a rua. Lá estava a criançada que, estranho, não parecia me notar ali. Como se não me esperassem, como se ninguém tivesse me chamado. Brincavam de algo que eu nunca vi, tinha uma bola, pedras, meninos e meninas misturados, corda, riscos de giz no chão. Parecia haver lógica, mas não a compreendi.

Alguém que passava disse-lhes que me juntassem à brincadeira e eles concordaram. Todos ao mesmo tempo repetiram um gesto mecânico, sem emoção, indicando que eu pisasse no asfalto, onde eles estavam.

Eu tentei brincar com essas crianças, mas não conseguia. Os pés não funcionavam, as mãos também não. Eram membros bobos, ou inteligentes demais. Não faziam o que eu queria. E as crianças, elas falavam outra língua, não era português. Eu não as entendia. Pelos gestões, expressões e tom de voz percebia que reclamavam de mim. Provavelmente por minha inaptidão para aquela brincadeira. Mas eu não compreendia uma palavra que me indicasse o motivo da reclamação, o que eu tinha feito de errado. Alguns eram duros, expressão claramente agressiva.

A reprovação me frustrou e a incompreensão me deixou aflito. Fugi, covarde. Virei as costas à rua e corri de volta para casa. Mas já não estava lá casa nenhuma. Onde devia estar o portão de minha avó, estava o da escola. E nem era o da rua, era o que levava do pátio para o corredor das salas de aula.

E quando passei por ele, entrando, não foi ao corredor que cheguei, foi a uma das salas de aula. Além do que se espera encontrar numa sala de aula, estava, no estrado em frente à lousa, dedicado ao professor, o sofá de minha avó. Aquele sofá onde eu estava deitado antes.

Sentei-me nele, era meu lugar, todos em casa já sabiam. A professora quando chegou, sentou-se a meu lado, sem pedir licença. Logo que começou a aula, ofereceu o colo para eu deitar a cabeça. E eu deitei, como se fosse o filho que ela não levava à aula.

Os outros alunos vinham mexer comigo como se eu fosse bebê, e isso não me incomodava. Estou agora envergonhado de perceber isso, mas não fiquei envergonhado. Deixei e até gostei de chamar a atenção. Pediam-me minha mamadeira e minha chupeta emprestadas.

Havia uma mamadeira e uma chupeta ali! Não sei de onde apareceram, não sei de onde! Emprestei-as para as criancas. Que começaram a brincar com elas. Agora me ignoravam. Distraíram-se com minhas coisas e me deixaram ali sozinho com a professora. E ela também já me ignorava. Cuidava já de algo que escrevia em seus papéis. Cuidava como se eu não estivesse ali no seu colo. Não me tocava mais. Confuso, sentei-me. As largaram minhas coisas, mamadeira e chupeta, e um pano que parecia uma fralda, babadas e rasgadas, e foram brincar fora do estrado. Tive nojo das coisas e chorei. Chorei muito de reação ao nojo

A professora sumiu. Desapareceu. Quando percebi isso, o sofá também não estava mais ali. Eu estava sozinho na frente da classe, sentado no chão, no estrado.

Senti vertigem, como quando bebo muito e me atiro na cama. Fiz muita força com os músculos frouxos para abraçar o joelho. Tentava levantar a cabeça, ela caía, para frente, causando náusea, ou para trás, batendo na parede. A cabeça mesma não doía com a pancada, mas sentia sangue no fundo do nariz. Acho que chorava e, o mundo girava, tinha que fazer muita força para respirar com a boca, pois o sangue, ou o que fosse, entupia meu nariz. Crianças, acho que eram crianças, me cercaram. Vinham, puxavam-me a orelha e o nariz. Zombavam de meu vexame.

Por fim, tombei de lado. Tombado, tive força para me enrolado e forçar a testa de encontro ao joelho. Acho que isso é posiçãoo fetal, não. Não havia mais o estrado. E eu só queria que fossem embora e me deixassem chorar sozinho.

Me acertaram uma bola. Assustado abri os olhos, era o pátio. Não queria saber como tinha ido parar ali. O choro e a vergonha viraram raiva. Virei animal, se já não era. Um garoto que ria muito de mim pareceu-me estar um pouco mais próximo que os outros. Julguei-o culpado e, com muita raiva, joguei de volta a bola no filho-da-puta! Admirei-de de como, cansado e com o corpo dolorido de tanto choro, náusea e vertigem, de como acertei-lhe forte, certeiro no rosto.

Alguns meninos, e as meninas todas se afastaram.

Ele, tombou. Morto? Não, ainda podia se levantar. Se se levantasse, me atiraria ensandecido sobre ele. Provavelmente apanharia, mas agora era animal. Morreria por vingança ou justiça, mas não seria humilhado de novo.

A bola havia rebatido nele e voltado para mim. Outro moleque ainda ria. Peguei a bola e, numa corrida de três ou quatro passos, acertei-lhe também. Também tombou.

As crianças, agora, ficaram todas quietas e começavam a ir para o portão, como se nada fosse, caminho de casa. Eu, agitadíssimo, parado olhando. Um professor veio e pôs-me a mao no ombro, isso me acalmou imediatamente, embora ainda sentisse a pulsação do esforço nas veias por meu corpo.

Algumas crianças, que eu já havia visto por ali algumas vezes e que, ao invés de ir embora, chegavam, vieram com a bola para mim. E começamos a brincar, essa brincadeira eu conhecia bem ou mal, tanto quanto eles a conheciam.

Brincamos bastante, até que minha mãe apareceu no portão da escola. Ela não podia saber que eu estava brincando. Corri dela, corri. Ela deve ter-me visto brincando. Ela não queria que eu brincasse. Que vergonha! Corri dela. Corri de vergonha. De não saber o que lhe dizer. Corri da escola. De tudo que agora estava às minhas costas.

Correndo, entrei no terreno da igreja pelos fundos. Nos fundos da igreja, havia a vila dos padres, o campo de futebol e o mato. No mato havia trilhas. Entrei na primeira e continuei correndo. O mato crescia, fechava. Apareciam árvores. A trilha virou uma alameda.

Corri, corri, fugindo. Correr, agora, já não me cansava, pelo contrario, trouxe conforto e calma. Ri. Algumas outras crianças, novas crianças, me alcançaram, algumas vindas do meio do mato ou de bifurcações. Corremos juntos. Corremos rindo. Era uma algazarra bem ordenada pelo caminho da alameda.

Queriamos correr mais. Demo-nos as mãos e continuamos correndo a tarde toda. As outras crianças, demorei perceber, conforme corriam, elas iam se cansando e ficando pelo caminho, uma a uma. Quando o sol começou a se pôr, éramos só dois, ainda de mãos dadas.

Eu já não me lembrava de mais nada do que havia acontecido antes. Acho que mesmo agora não me lembro mais. Eu só queria correr. O sol se punha, noite chegava, a alameda escurecia com barulhos que não deviam estar ali. Não eram corujas, cigarras, grilos. Isso eu não estranharia. Eram de outros tipos os barulhos.

Percebi que já corria sozinho quando também percebi que não conseguia mais enxergar as laterais da alameda. Avistei uma claridade lá no fundo, ou seria uma escuridão menos escura? E continuei, devia ser o fim da alameda.

Os barulhos, parece que percebendo que eu fugia se atiraram na minha direção, à caça. Desesperei-me. Gritos vinham de trás de mim, pela alameda, cada vez mais perto. Barulhos de máquinas, de guerra, de despertador, de telefone, de freada, todo tipo de barulho ruim.

Eu tropeçava, me levantava, chorava, desistia, me entregava, voltava a correr. Os barulhos cada vez mais perto. Eu não senti, mas sabia que tinha molhado as calças.

Nos últimos metros, uma luz brilhou no fim da alameda, como se lá alguém houvesse acesso luz elétrica e ela me ofuscasse os olhos, já acostumados à escuridão. Minhas pernas passaram a se mexer em falso, eu não saia do lugar. Era como se não houvesse mais atrito entre elas e o chão. Como se eu andasse sobre gelo. Eram precisos vários passos para cada centímetro avançado. Meu desespero agora era o de alguém que seria engolido pela morte.

Na verdade, devem ter sido segundos, mas eu poderia ter corrido o mundo todo nesses segundos, tantos dias demorou para eles passarem.

Finalmente, no passo que me atirou para a saída da alameda escura, para aquela luz, onde os barulhos já não me alcançariam, larguei-me ao chão, caído, abatido, completamente exausto, atordoado, emocionado, sem força para sequer suspirar. Mas aliviado!

O alívio não durou. E de alívio, agora, foram segundos que realmente não pareceram nada, tão rápido passaram. Logo ouvi um rumor. E, em seguida, vozes raivosas à minha volta.

Estava num circo, parecia enorme. E no meio estava eu, de joelhos, entregue, sozinho, e nu.

Não me protegi da multidão porque era inútil. Isso não foi nenhum ato de coragem. E já não conseguia mais reagir, nem mesmo lamentar ou chorar. Só  ficar parado, engasgado. O circo era redondo, como se eu estivesse dentro de uma bola cercado pelo mundo todo.

E eu só queria saber que aquilo ali era um sono para tentar acordar.

 

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