(O Diabo de Folga no) Sábado de Manhã

Se fôr verdade que cabeça vazia é oficina do diabo, eu não posso deixar de acrescentar, meus caros, que o diabo parece-me não ser um sujeito muito afeito ao serviço.

Queria mesmo eu, desocupado no sábado de manhã, ter o diabo a distrair-me, a tentar-me com os prazeres e desfazeres da vida terrena. A prometer-me a danação eterna em troca de dez minutos de esbórnia.

Em vez, o que tenho são sono longe da cama, a manhã livre, a lembrança de um guarda-roupas bagunçado que não vou arrumar, lápis, caderno, nenhum assunto e também nenhuma mesa tranqüila onde me sentar até ter um.

Ando. Encontro nada.

Só vejo as pessoas voltando da zona. A zona já vazia. O teatro – o primeiro teatro onde entrei – fechado. O café querido dos amigos queridos, e ninguém tomando café. A rua onde ficava a empresa onde trabalho e onde, há três anos atrás, reencontrei ao acaso uma amiga, por coincidência, em sua última semana no Brasil. O outro teatro, também fechado, só há o banner grande na porta anunciando a programação para o próximo ano. A cigana que quer pegar-me a mão. Não deixo. “Venha, moço bonito, eu não cobro.” Não sou moço, nem bonito. Turistas tirando foto do que já foi um ponto de ônibus e hoje está maquiado de escultura. Um colega do trabalho. O mesmo calçadão, com uma nova loja de bijuterias e uma doceira muito antiga e tradicional que eu nunca tinha visto antes.

Tem lugares para sentar tranqüilo e escrever. São muitos doces, daqueles que minha avó fazia. Sento e peço meu café da manhã. Café com leite sem açúcar e doces melados, maravilhosos. Preciso anotar e tirar uma foto daqui para me lembrar.

Sento-me com o café, que mais tarde repito, o lápis e o caderno, e quebro o jejum devagar, para espairecer e arrumar assunto.

Imagino como seria bom se a vida fosse como um texto escrito em computador. Se a qualquer momento eu pudesse voltar e escrever aquela página que me arrependi de ter pulado.

Se eu pudesse, no momento em que cheguei em casa, voltar algumas horas e te-beijar as costas nuas enquanto você dormia – não fiz na hora por medo de te-acordar – e acariciá-las, e também teu ombro. E te-contar que eu ia passar boa parte da manhã – passei mesmo – sentado, costas na cabeceira, olhando tua pele, procurando tuas pintas, marcas, diferenças de tonalidades, e achando tudo isso lindo, com pena de saber que, daqui a pouco, o fim de semana ia terminar.

O telefone não tocou, nem o despertador, mas eu acordei com o barulho. Não tinha nada para desligar. Cabeça tonta do sono, olhei pelo quarto com os olhos que giravam, tentando saber de que lado da cama e em que posição estava.

Estava do meu lado mesmo, deitado direito, sobre as cobertas arrumadas. O travesseiro estava mais alto e duro que o normal. O relógio estava deligado, talvez não houvesse luz. Por trás da janela, apesar do frio e silêncio da noite, o sol já estava claro. Eram quase quatro.

Levantei-me, precisava ir ao banheiro. Saí do quarto e procurei uma árvore. Achei uma baixa. Molhei-a devagar, mas demorado, molhei muito. Enquanto isso, caí na tentação de fechar os olhos e acho que cochilei. Fisguei. Achei melhor não correr o risco de dormir assim. Tentei me mexer, mexer a cabeça, sacudir o corpo, para não cochilar de novo. Terminei, fechei as calças. Limpei as mão nos fundilhos.

Reparei a árvore, baixa, bem baixa. Tronco largo marrom e copa verde, em formato de algodão doce, como as árvores que as crianças desenham. O marrom e o verde, sem detalhes de sombras, também pareciam os de crianças.

As árvores ao redor eram muitas, todas muito juntas, mas um pouco mais baixas que esta, Pouca coisa. Vistas de cima, pareciam um grande colchão de algodão verde com a minha árvore mais ou menos no meio, um pouco mais alta, um travesseiro, grande e fofo, também verde.

Desisti. Deitei-me no colchão e ajeitei-me à árvore-travesseiro. Sonhei com uma cama para dormir.

Sábado à Noite

Pele bronzeada, pelinhos dourados nas pernas e nos braços, – tem mulher que não gosta de depilar – cabelo artificialmente loiro, rosto jeitoso. Ela não era linda, mas estava bonita. Vestido preto, não muito curto, justo. Bolsa pequena, de couro, também preta.

Saiu do prédio e está esperando à porta. É um desses prédios baixos de apartamentos sem quintal nem portaria. A porta de entrada do hall do elevador dá direto para a rua. Deve estar esperando o namorado que a vem buscar, ou os amigos. A está hora, não é recomendável mesmo estacionar ali esperando a pessoa descer. Esperar sozinha na porta, por incrível que pareça, é seguro. Assaltar pedestre é mais raro que motorista.

Ela olha para a esquerda, de onde vêm os carros. A carona deve vir de lá também. Eu, do outro lado da rua, na porta da padaria, café na mão, vejo e fico olhando. Inveja do namorado ou dos amigos.

Uma moto passa, mexe com ela, que ignora. Chega um carro, pára. O passageiro abre o vidro e começa a conversar. Deve ser a carona. Não é, vai embora. Chega mais um. Ou melhor, passa e volta de ré. Também um passageiro abre o vidro. Conversam algo alto, com risadas, alguém dentro do carro grita um “Vamos lá” bêbado. Não vão ainda. Alguém pergunta o nome dela. Daí a pouco ela vira e o passageiro da janela aperta sua bunda. Ela desvira. Abrem a porta, ela entra, vão embora.

Eu fico terminando meu café, pensando em quanta coisa há, que eu ainda não conheço, num sábado à noite.

Capítulo XV

Não é possível que eles não tenham ficado juntos. Não é possível. Ou melhor, possível é, que foi o que aconteceu. Mas algo deve ter dado errado, muito errado pelo meio do caminho. E tem de ter sido um mal-entendido, um acidente. Não há outra explicação. Certamente foram feitos um para o outro. Bem, ao menos foram feitos para dar certo por algum tempo, têm muito a ver. Foram feitos para terem uma história juntos, se não eterna, feliz por quanto entendam. Isso é de pensar, de tirar o sono, até de chorar. Não há como deixar de ficar triste. Deve haver uma solução. Deve haver algo que possa ser refeito. E há, há. Tenho certeza. Já sei onde é. É o capítulo quinze, foi lá. Amanhã releio e conserto. Deve haver um jeito de eles ficarem juntos ao final.

Pena

Eu já passei da idade de me encantar feito bobo com penas. Quando crianças, é comum pegarmos penas soltas de pombas, rolas, e brincar de passar o dedo em seus fios tentando soltá-los. Ou penas de passarinhos. Soprar para mantê-las no ar. Já passei dessa idade. A gente nem sabe por que passa. Nem por que pára de fazer isso.

Mas é engraçado que, no caminho do estacionamento para o escritório, no chão de cimento que serve de calçada entre os carros, uma pena caída me chamou a atenção. Era grande, maior ainda que de pombo, malhada fino em preto e marrom. A ponta em preto, contornada em vermelho, depois em branco. Seus fios, perfeitos, perfeitos, todos bem grudados. O contorno também, sem farpas, nem falhas, como se ela fosse uma coisa só, como se ela fosse recortada em papel. O caule bem feito, firme, largo, sem falhas ou dobras. Achei muito bonita.

Depois de olhar um pouco, pensei em quem me visse, no que pensariam do cara no estacionamento, olhando para baixo, parado no sol. Abaixei-me para pegá-la e continuei o caminho para o escritório. Achei que poderia servir para escreve, à tinta, como antigamente. Meu irmão me ensinou com uma pena de pato, há muito tempo, como se faz. Precisa fazer um recorte perto da ponta para a pena reter a gota de tinta que servirá para escrever. Achei também que, com a ponta suja de tinta e deitada sobre um papel com algo bacana escrito, daria uma bela foto, dessas que servem de papel de parede para o telefone ou o computador.

Tem muitos bichos ali. Muitos pássaros diferentes, a maioria de nomes que não conheço. Devia ser de um bonito. Fiquei imaginando, algo como um pavão, um faisão, um gavião, muitas aves com e sem -ão. Mas tinha de ser uma ave voadora para chegar ali. Há também lagartos grandes, tuiús, urubus, corujas.

Lembrei-me que, de alguma forma, a ave perdeu a pena. Tentei imaginar como e onde ela estaria agora, se estaria bem, se se machucou, se doeu. Parei já à porta do prédio, virei-me e olhei ao redor. O terreno aberto, carpinado. O terreno ao lado, pelado, queimado. As árvores longe, na subida do morro onde começa a serra. Ali devia estar a ave que perdeu a pena, que eu não sabia como perdeu.

Não sei porque fiquei triste. A foto que imaginei perdeu a graça. Antes de entrar, mexi a pena com os dois dedos que a seguravam, levantei a mão para o lado e deixei-a cair no canteiro de flores que cerca o caminho para a porta.

Fazer Rir (ou o tipo de besteira que se diz regada a chope)

No happy-hour, depois do primeiro copo, alguns assuntos, não é que só então sejam permitidos, mas abordá-los de forma escrachada soa natural:

“Se é verdade que as mulheres gostam dos homens que as fazem rir, o maior fetiche de vocês deveriam ser os palhaços.”

Algumas mulheres riem, outra não ouvem ou nem dão bola. Poucas levam a sério.

“A questão é o motivo pelo qual fazem rir. Nem todo palhaço é engraçado. Alguns são só palhaços…”

Poderia ser um bom início para uma boa conversa. O que não é o caso na barulheira toda do lugar. Marcar happy-hour em lugar barulhento deveria ser proibido.

“Então palhaço sem graça não tem graça?”

A barulheira atrapalha, ela não quer papo. Já pensando em como ir embora, bebe mais um pouco, sem olhar para o sujeito que tenta puxar conversa. Se levanta para ir ao banheiro, sozinha, contrariando o protocolo que proíbe mulheres sozinha no banheiro. É só uma forma de garantir a última palavra:

“Nem todas mulheres gostam de homens que as fazem rir. Algumas preferem os que fazem chorar.”

Bolo de Cenoura

A mãe me recomendou que não fizesse desfeita: “O que te oferecerem você come ou bebe sem frescura.” Não precisava, eu tenho educação. Foi ela quem me criou, deveria saber.

A recomendação era sobre o café na casa do amigo. Estávamos brincando na rua. Ele entrou pra tomar café, eu voltei pra casa – morávamos há uns cinquenta metros um do outro, praticamente só dobrar a esquina. A mãe dele disse pra me chamar que ela havia preparado a mesa pra mim também.

Eu fui, acanhado. Não era uma criança muito social. Talvez nenhuma criança seja. Eu já conhecia bem a casa, mas bati palmas no portão. A mãe dele gostava disso, eu era o único colega que batia palmas e pedia licença antes de entrar. Dei a volta na casa e entrei pela porta de trás, da cozinha. O pastor alemão me policiando.

Eu sempre quis ter um pastor alemão. Mas eu já tinha um cão, o Rex, que estava na casa de meu avô – do outro lado da rua – porque uma vez minha irmã subiu no muro e, quando viu que ele subiu atrás, se assustou, nem sabia que era ele, caiu e quebrou o braço. Meu pai ficou tão nervoso com o bicho que tivemos de pedir ao avô para protegê-lo. Coincidiu de, pouco depois, morrer o Dondom, o cão da avó, e o avô pediu para deixarmos o Rex morando lá. Dondom era bravo. Rex era muito manso, até covarde. Com ele todos brincavam. E nós e os primos brincando lá com o cão, alegrávamos a casa, disse ele.

Eu entrei na cozinha, estavam todos sentados me esperando. Na época, tínhamos uns oito anos, mas meu amigo tinha uma irmã de dezoito. Sentada de vestido de chita cavado na minha frente. Puxou conversa comigo. “Você prefere café com leite ou chá.” Aos oito anos, a gente ainda não entende essas oportunidades. Eu nem sei se respondi. A mãe deles, talvez eu não tenha respondido mesmo, perguntou se eu queria que esfriasse meu chá como o do filho dela. Isso eu respondi que não. Não gostou dessas coisas de comida amassadinha, chazinho morno, água temperada, a que a mães super-protetoras acostumam os filhos. Ela disse que já ia me pôr a xícara.

A filha do vestido cavado me ofereceu bolo. “Você gosta de bolo de cenoura?” Teimava em puxar conversa comigo. Ofereceu já cortando um pedaço grande e me esticando no prato. “De cenoura? Nunca vi.” Como pode existir bolo de legume? De salada? De cozido? Causou-me estranheza, mas a cobertura de chocolate era convidativa. E o prato já estava à minha frente. Peguei. Não ia esperar que ela tivesse câimbra.

Mordi o bolo com receio. Soube-me a gordura açucarada. Não achei ruim, era bem macio e tinha chocolate por cima. Mas eu nunca escolheria aquele para que minha madrinha fizesse no café do domingo, quando íamos visitá-la. Acanhado, comecei a comer o bolo olhando para baixa, para o prato. Não sei se eu comi rápido, o que é provável, ou se eles comiam devagar, ou ainda nem tivessem começado a comer. Quando terminei, a mãe deles ainda estava esfriando o chá do filho.

“Você gostou. Já comeu. Quer mais um?” Eu não queria, mas me pareceu correto. A mão da irmã mais velha colocou mais um pedaço em meu prato. Olhando pro prato, esperei chegar o chá de meu amigo e ele pegar o bolo. Chegou, ele pegou e mordeu. A irmã deu uma dentada de quase meio pedaço. “Pode comer.” Comecei a comer o meu devagar. Achei que bem devagar. Meu chá nunca chegava. A mãe deles insistiu em esfriar o meu. Me disseram pra não fazer desfeita. Pedir pra não esfriar meu chá seria desfeita? Deixei esfriar, decepcionado.

Meu amigo chegou na metade do pedaço dele e disse que não queria mais. A mãe brigou. Me usou de exemplo, orgulhosa. Que ele desfazia do bolo da irmã… Opa, foi a irmã dele quem fez o bolo? Ela é filha. Filhos não são crianças? Criança pode fazer bolo? A irmã xingou-o de algo, pegou outro pedaço pra si e me ofereceu mais um, que já trazia cortado, equilibrado sobre a faca. Ainda sem chá, tinha na boça o gosto de óleo e açúcar dos outros dois pedaços. A cobertura de chocolate já não parecia tamanho alento, a essa altura. Sem saber exatamente como recusar, ela pôs o terceiro pedaço em meu prato.

A mãe levava a sério, com capricho, o lance de esfriar o chá. Bem frio, pelo jeito. E a filha, o lance de usar o amigo do irmão para se fazer de injustiçada por ele. Não sei quantos pedaços de bolo recebi até chegar o chá, que me foi tirado para ser açucarado. “Como assim, você vai beber sem açúcar? Deixa que eu adoço.” Recusar açúcar, eu podia? Mais bolo. “Que orgulho! Olha como teu amigo gostou, seu chato! Não está bom?” Respondi que sim, perguntei se era frito. Não disse que pensei isso por causa do gosto de gordura. Riram. Ela disse que ia mandar a receita pra minha mãe.

O chá, quando chegou, quase gelado, até que não muito açucarado, me deixou alegre. “Você gosta mais de chá do que de bolo!” Agora foi a mãe quem se fez de orgulhosa. Bebi correndo. Achei que ia acabar e correr para casa. Outro pedaço de bolo apareceu no meu prato enquanto eu tirava a xícara da frente do rosto, escondendo a careta de quem não gosta de açúcar.

Ouvi a voz da minha mãe no portão. Meu pai tinha de ir em algum lugar, provavelmente fazer mercado, e precisava de ajuda. Nunca fiquei tão feliz em carregar compras.

Agradeci e me despedi, correndo. O bolo que estava no meu prato veio atrás de mim no portão. “Não esquece teu bolo. Vou mandar a receita para a senhora. É de cenoura. Ele disse que adorou.” Eu nem me lembro de terceiro nada.

Dobrando a esquina, a mãe teve de fazer o comentário feminino. “Você estava lá e ela com aquele vestido?” Eu disse que não reparei, estava distraído com o lanche. A mãe deve ter tomado por safadeza minha. Safadeza? Eu só tinha oito anos! Disse que o bolo devia estar mesmo muito bom pra eu não te reparado. “Não gostei. Parecia tempura frio.” Já ameaçou brigar pensando que eu tivesse recusado. Não eu não tinha recusado. Nada? Nada. Quanto bolo eu comi então? “Sei lá, uns oito pedaços.” Julguei mais pelo volume que me revoltava o estômago do que por um controle que tivesse feito. Não devo ter errado muito.

“Não gostou? E comeu oito pedaços! Você não tem educação!”

Eu não sei o que respondi. Com certeza não foi nada educado. Mas imagine o que pensei quando estava com a cabeça na privada vomitando quase um quilo de bolo de que não gostei.

No dia seguinte, na escola, meu amigo me deu um papel de carta roxo daqueles decorados – Lolypop ou coisa do tipo, era moda entre as meninas – com a receita de bolo de cenoura escrita em letra feminina. A letra dele, espremida, eu já conhecia.

Minha mãe experimentou a receita. Me jogou na cara várias vezes, até hoje, eu falar que não gosto de bolo de cenoura quando ela faz, mas ter comido oito pedaços do da irmã bonita de meu amigo. Ainda me provoca: “O que não se come por uma saia, né?”

Me lembro, por sorte ou azar do destino, de meus pensamentos neste mesmo dia, há trinta anos atrás.

Criança então, ainda esses pensamentos escrevia em papel fino, de seda, colorido, que usava com varetas de taquara para fazer pipas. E empinava-os no céu, brincando, a tarde toda.

Já agora, velho, meus pensamentos escrevo em sulfite que dobro até fazer um barquinho. Pouso-o então na água para vê-lo flutuar lerdo, quase parado. Até encharcar e, desdobrando-se afundar…

Éter

Eu me lembro de fuçar o armário do banheiro da minha avó. Era daqueles armários de parede, atrás do espelho, com algumas prateleiras pequenas onde não parecia caber quase nada. Mas cabia muita coisa que eu não, criança, fuçava mais pela falta do que fazer do que pela curiosidade.

Nas pequenas prateleiras atrás do espelho, não havia quase nada da minha avó. Tudo era da madrinha. A avó guardava suas coisas no quarto.

Ali havia um vidro de perfume da Avon, amarelo, com cheiro forte de licor. Não me lembro o nome. Era uma delícia cheiro de dar água na boca, dar água na boca mesmo. Eu me lembro da primeira vez em que comi papo de anjo. É um doce daqueles bem doces. Um pedaço de pão-de-ló mergulhado em calda de açúcar, baunilha e licor. Não sei dizer se o cheiro é o mesmo. Quando experimentei o doce, já não cheirava o perfume havia anos. Mas me lembrou de imediato, com a mesma água na boca.

Tinha também a latinha grande de Creme Nívea, que eu nunca soube para quê serve. Mas a madrinha usava aos montes. Tinha sempre uma latinha por perto. Uma na bolsa, outra na máquina de costura, outra no quarto, uma grande em cada banheiro. Uma vez perguntei para quê servia. “Para passar!” Claro, para passar. Certas coisas a gente nem deve perguntar.

Escova e pasta de dente, como em todo banheiro. Escova de cabelo e pente grande, e também um pente-fino, como em muitos banheiros. Uma caixa de grampos de cabelo, que a madrinha usava para prender o seu cabelo ralo. Diferente da avó que tinha cabelos brancos enormes, até as coxas, que ficavam presos sob um lenço grande e eram lavados de manhã bem cedo no tanque do quintal com água fria e, no máximo, duas gotas de azeite, a madrinha já estava ficando careca. Deixava o cabelo crescer bastante e o prendia com grampos para cobrir toda a cabeça. Os grampos serviam também para limparmos os ouvidos.

Pedra-pomes e pedra-hume. Uma para lixar calos, a outra para ajudar a secar pequenos cortes. Pinça, que eu gostava de pegar emprestada para mexer em insetos. Lixas de unha, mertiolate e éter.

Éter é uma coisa que eu nunca soube porque se teria em casa. Perguntei também para quê que servia e tive outra resposta espartana: “Para usar.” A madrinha dizia que seu cabelo começou a cair por causa de tantos produtos químicos que elas usávam no salão quando era mais nova. Talvez éter fosse um deles. Ou, outra possibilidade, e isso explicaria a resposta evasiva, ela usava como um colega meu da faculdade que, mais velho que nós, dizia que, no começo dos anos oitenta, saía para a noite com um lenço cheio de éter no bolso e o cheirava junto com as parceiras de dança “para a conversa chegar logo nos finalmentes.” Não parecia coisa da minha madrinha.

Uma vez, na escola, a professora de Ciências, falando sobre volatilidade, citou o éter: “logo que você abre, o cheiro imediatamente pega a casa toda”. Lembrei-me de um desenho, acho que do pica-pau, em que ele abria um vidro onde estava escrito éter e uma névoa se espalhava por todo lado. Lembrei-me também do éter no armário do banheiro.

Em casa, curioso, fechei a porta do banheiro e peguei o frasco do armário. Com cuidado, deixei o rosto bem afastado, abri. Esperei uns vinte segundos e nada do cheiro. Decepcionado, cheguei o frasco perto do meu narigão. A princípio, não senti cheiro nenhum. Mas quando senti algo, foi de uma vez. Uma dor no fundo dos olhos que parecia que tinham me enfiado fundo agulhas de tricô pelas narinas. À frente da cabeça ficou leve, a nuca pesada. A cabeça caiu para trás. Para não cair de cabeça no chão, tentei me equilibrar de volta para a frente. E foi para a frente que minha cabeça caiu então. Não senti nada mas, anestesiado, ouvi a pancada muito forte da minha testa na torneira.

A madrinha bateu à porta. Quando abri perguntou se eu estava mexendo com éter. Respondi que confundi com o mertiolate, para passar no machucado da testa. O corte grande que eu abri com a pancada na torneira.