listas que só fazem crescer

Não gosto:
Diálogos de novela
Acordar ou dormir cedo
Fazer o que convém ao chefe e não o que precisa ser feito
Retórica, eufemismos e meias palavras
A mesmice da pornografia e dos rituais ensaiados de sedução
Chamar a atenção
Procurar lugar para estacionar
Fotos de gente
Lugares abafados
Bolo de cenoura ou que adocem meu café sem me perguntar
Sutiã e calcinha de conjuntos diferentes
Convites para confraternizações, festas e eventos

Gosto:
Cinema
Música que tome tempo para ser feita
Média e pão com manteiga na padaria
Deixar portas abertas à imaginação
Pitanga
Paisagens floridas, serras e água
Ouvir uma palavra de carinho ou de desejo, envergonhada, no meu ouvido
Surpresa discreta e segredos íntimos
Andar pela areia da praia a qualquer hora, sem destino definido
Encontrar-se pra beber café e falar besteira

Isso… e muito mais…

Isso nas Suas Costas

“Isso nas suas costas…” Ele descuidou e ela percebeu. Não estava nos planos, mas ele, embora acostumado a esconder, já não conseguia mais manter o tempo todo tanta vigilância. Chega uma hora em que todos temos que relaxar da preocupação. Ele relaxou, por pouco tempo, já havia relaxado de outras vezes e deu sorte, desta não, ela percebeu. Na verdade, viu. Chegou à casa dele, encontrou a porta destrancada e foi entrando. Ele não notou, saiu do banho com a porta aberta e ao vê-la, antes que pudesse jogar a toalha sobre as costas, ela o viu, nu. É verdade que causa espécie um homem surpreendido nu cobrir as costas e não o sexo com a toalha. Foi isso que o fez sentir-se ridículo e confessar, completar a frase dela, sem desculpas esfarrapadas: “… são asas.” Só depois disso sentiu-se envergonhado e tirou a toalha das costas, não cobria nada e, mesmo que cobrisse, agora seria inútil. Já havia se entregado.

“Você não é corcunda? Deformado?” Isso era no que ele fazia todos acreditarem. Às vezes, é mais fácil esconder o caqui chamando-o de tomate do que levando-o para longe. Foi o que ele fez. As asas, grandes, brancas, parecidas com as de cisnes, ele escondia, apertadas junto ao corpo por ataduras. Depois uma camiseta bem justa, bem grossa, de algodão, o mesmo das ataduras. Por cima vestia a camisa. O volume nas costas, dizia ser uma má-formação que lhe incomodava. Mudava de assunto. Os outros mudavam também, sem desconfiarem. Ele nem se deu ao trabalho de responder. Pensava nas conseqüências, se podia confiar nela.

“Eu sempre achei mesmo muito estranho, você, tão bonito, forte, ser corcunda.” Ele riu feio, indignado pelo preconceito dela. Não lhe importava agora ser bonito ou feio. Mas para ela, ser bonito era incompatível com ter um defeito. E ele também se envergonhou. Primeiro, por pensar em defeito quando pensou em corcunda. Depois, porque se lembrou de que é mesmo bonito e forte, e que não tem o defeito que fingia. E se sentiu pego no pulo por achar que fosse só preconceito. Por fim, porque percebeu que se deixou enganar pelo raciocínio. Porque ser bonito e não ser corcunda não quer dizer que não haja bonitos corcundas por aí.

“Você é um anjo?” Ele não quis ser agressivo, mas talvez ela tenha achado agressiva sua negativa. Foi apenas o “não” de um jovem enfastiado que não tem medo de arrumar confusão para sua cabeça se se deixar tomar por algum ser celestial. Quis dar-lhe as costas, mas não lhe expor as asas. Preferiu ficar de frente, encarando-a. Ela, provavelmente, tomou isso como coragem. Não foi. Foi sentir-se vulnerável e, sem pensar, fugir de encarar-lhe com as costas, que eram diferentes das dela, para encarar-lhe com os olhos, iguais aos de todo mundo. Ela, se tivesse juízo, aproveitaria o ensejo, a visão de homem tão bonito, nu, de frente para si, tentando cobrir o sexo com uma toalha pendurada na mão, mas revelando-lhe todo o resto, o que ela mais gosta, seu peito, os braços, a boca, as pernas… Ela, se tivesse juízo, deixaria a conversa para quando o visse vestido. Mas, curiosa que é, mulher que é, não fica à vontade e não pára de perguntar.

“Você voa?” E essa realmente deve ser a primeira pergunta que qualquer pessoa teria, embora a maioria calasse. Ele já a esperava. “Eu consigo. Mas não tenho o costume. Não quero que me vejam e acabo perdendo a pratica. Além disso, eu acabo estranhando quando as tiro de debaixo das roupas.”

“Mas por que você as esconde?” Pergunta compreensível vinda de quem não tem asas. Como respondê-la de modo a que quem não tem asas entenda? “Por isso mesmo: voar. Você acha que as pessoas aceitam alguém que pode fazer algo que elas não podem? Voar? Imagina. Anjo? Bruxo? Presunçoso? Um filho-da-puta que acha que pode isso-e-aquilo só porque tem asas? Olha só o idiota, porque voa se acha melhor do que eu… Você acha que as pessoas não gostam do que é diferente. É ainda pior, elas têm ódio, absoluto, de quem faz o que elas gostariam de fazer. É melhor passar-se por coitado. Te ignoram.” A resposta saiu consciente, ele já tinha pensado várias vezes nisso, sabia o que falava, mas não menos emocionada. Pela primeira vez, ele teve a quem dizer isso, que ele já havia concluído várias vezes. Falou com raiva, mas mantendo o tom de voz em um nível sóbrio que realmente lhe tomariam por anjo.

“Mas não machuca escondê-las assim?” Sim, machuca. E ele chorou para responder. Não caiu no lugar comum de dizer que o que mais machuca é, por dentro, como se sente. Mas foi isso que ela pensou quando percebeu que ele ficou nervoso. Não com vontade de chorar. E ele até gostaria mesmo de chorar, desabafar anos de tormento. Ainda assim, nem perto chegou. Surpreendeu-se com como o enfrentar as dificuldades endurece o coração. Sentiu-se mesmo superior aos que choram tocados pelo sofrimento.

Ele calou a resposta e ela, pasma e já com medo, sentiu como se o estivesse interrogando, pondo-o na parede. Ele, por outro lado, conformado em ter-sido descoberto, passou da sala para o quarto e não se preocupou em fechar a porta. No caminho, sem querer, relaxou o braço da mão que segurava a toalha e ela o viu todo. E ela se admirou com sua perfeição, ao vê-lo de lado e, mais ainda, ao vê-lo de costas. Mas sua excitação não foi mais que automática, dados os olhos com que, por alguns anos, se acostumou a ver o amigo. Ele mexeu numa gaveta, procurava algo.

Ela queria falar algo para quebrar o silêncio. Não percebia que o silêncio era simplesmente uma rejeição. Ele não a queria lá. “Você nunca as usa? Não as deixa solta?” Ele não abriu mão do silêncio. Achou-a mesmo indelicada por não se constranger e sair. De quê mais do que perguntas sem respostas uma pessoa precisa para saber que deve ir embora? Não sabemos se era o que procurava, mas ele encontrou um frasco de perfume, ainda lacrado. Deixou-o sobre o móvel. Logo encontrou também uma escova e uma sunga. Notou o início de uma eração e não a vestiu, deixou-as também sobre o móvel. Pensou se conseguiria que a amiga fosse embora se, sem expressão, a pegasse pelo braço e a tentasse debruçar de quatro na cama. Se conseguiria que ela se ofendesse e fosse embora. Não tentou e ela ficou. Olhou-o escovar um pouco os cabelos, romper o lacre do frasco e se perfumar.

As asas, ele às vezes as usa. De tempos em tempos, acampa num morro, nunca o mesmo, à beira-mar, numa praia deserta. Passa a noite em frente à fogueira, olhando as estrelas e o negrume do mar, aquece-se com um cobertor e chá. Espera o sol nascer. Acordado, para não perder nada. Assiste devagar, como se pudesse controlar a velocidade do sol. Tira uma foto, uma só, para guardar. Estão ali, no painel da parede do quarto. Por fim, tira a roupa, espreguiça as asas, abre-as e pula. Pula já sabendo que, um dia, elas não funcionarão.

Diário

A menina abriu a gaveta das meias e calcinhas e tirou de dentro o caderno, de capa dura e páginas firmes, amarelas, que o pai lhe deu. Na capa preta, está escrito o ano, com caneta dourada, de tinta com glitter. A caneta é feita para escrever na pele, imitar tatuagem, mas é boa mesmo para enfeitar. Embaixo do ano, o nome dela, menorzinho, com a mesma caneta. Ela usa um elástico largo, dois dedos de largura, grosso, colorido, desses que usam para fazer cintos de criança. Ela o usa para manter o caderno fechado. Não precisa de fecho com cadeado ou senha. O que tem lá dentro é segredo, sim senhor, mas está mais bem guardado assim, sem cadeado, para não chamar a atenção. Algumas meninas fazem scrapbooks, diários. Ela, quando disse para o pai que faria um, ele lhe contou várias histórias de como essas coisas acabam, invariavelmente, nas mãos de algum parente cruel que as lê sem discreção, causando embaraço à autora. Há algo nos momentos que retratamos em diários que nos leva a deixá-los ali, escritos, e não ditos. Esse algo é, obviamente, constrangedor ou embaraçoso, ao menos para a timidez de quem escreve. E escrito, tudo tem outra dimensão, maior ou menor, melhor ou pior. Por isso os diários são secretos. São diálogos internos, secretos, para serem relembrados para sempre, para nunca, esquecidos no armário. Por isso o pai lhe deu a ideia: “Você desenha muito bem. Não escreva um diário. Desenhe um.” É o que ela faz. Para todos os efeitos, esse é só um caderno de desenhos. Por algum motivo que ninguém imagina, são desenhos separados dos outros. Para os outros, ela tem cadernos grandes, guardados na estante da sala ou na bancada do quarto. Neles há paisagens, retratos, cenários, coisas que aprende em manuais e métodos de desenho, animais, flores e muitas princesas. Já este, ela não resistiu à tentação de esconder embaixo das calcinhas e meias, e talvez essa seja a única dica de que o que está ali é muito íntimo. As páginas são numeradas, não em sequência ordinária como páginas normais, mas por datas. Cada página tem uma data, em cima, na borda, à vezes mais uma, na em baixo, junto à lombada. Isso é para lembrar em que dia, ou dias, aconteceu aquilo. Os desenhos são mais simples, alguns óbvios para quem está familiarizado com a data da página, outros indecifráveis: um bolo, uma cavalo selado, um avião, poncho e bombachas, um vaso quebrado, uma bochecha suja de batom, um rato de saia, dois morangos, um carteiro, um martelo, uma maçã e um beija-flor, um peixe de biquíni. São umas cento e cinquenta páginas, não desenhou em mais de vinte. Tem só onze anos e muitas páginas ainda onde desenhar.

Jornal

Perdoe-me o amigo esta intromissão. Mas eu sei bem o que é isso de abrir o jornal e não encontrar nada de interessante. Nenhuma notícia relevante. Só os classificados e anúncios, intercalados pelas amenidades que julgam que queremos encontrar pra fingir que a vida não é feita só de papel carimbado e dinheiro taxado. Eu também leio jornal e o folheio inteiro, caderno por caderno, página por página, sem encontrar palavra alguma que valha a tinta, ou título que não pudesse ser pescado de dentro de uma caixa de recortes por um periquito de realejo. Eu também me decepciono com as primeiras páginas. As manchetes que me dão sono e as fotos revoltantes que já não me causam mais que indiferença e me fazem confundir o jornal de hoje com todos das semanas passadas. Eu também prometo todos os dias que não vou mais comprar ou ler jornal. Mas, meu amigo, no dia seguinte estou lá de novo procurando algo naquelas mesmas páginas fedidas e me decepcionando de novo, de saco cheio. E prometendo de novo, é claro! O problema é que à noite, deitado, pensando no que farei na manhã seguinte, no café da manhã, ao invés de tentar ler algo no jornal, percebo que, sem ele na minha frente, aquelas páginas grandes, abertas, eu veria o resto do mundo. E me diga, meu amigo, se o mundo aqui fora não é essa mesma mesmice do jornal, mas com movimento, cheiro e som. Não vou estragar assim meu café da manhã, não. Deixe estar o jornal na frente do meu rosto. Deixa-me folheá-lo e encontrar as mesmas merdas de tantas outras edições, sem novidades que me revoltem o estômago.

Segunda-feira

Eu, daqui do terraço, olho para o hotel do lado da rua e não imagino, pelas sua fachada, de onde alguém conseguiu tirar uma trama como a de Janela Indiscreta.

Hitchcock com certeza não era para este hotel que olhava. Janelas quase todas fechadas, deve ser por causa do frio. Poucas luzes acesas, segunda-feira na cidade. Quem viaja para a cidade numa segunda-feira? Nas poucas luzes acesas, reconheço corredores. As outras então, poucas mesmo, estão de cortina fechada.

Tento exercitar minha imaginação, criar uma trama. A camareira que passa de quarto a quarto deixando pistas de um mistério. É noite. Casais escondidos atrás das cortinas. A história não sai. Mas ainda é segunda-feira.

Se é verdade…

Se é verdade que amar é dar o que não temos, eu nunca poderia te amar. Nunca mesmo, porque as únicas coisas que tenho pra te dar são meu carinho, minha atenção e, se fosse o caso, esse mesmo amor. Se não te desse isso, daria o quê?

Resistir é Preciso

Você bem sabe que é difícil resistir a si. Deve bem imaginar o quanto é tentador o calor de seu roçar de braço, a delicadeza de seu toque de mão, a doçura de seu sorriso.

Imagina também, e nisso sua vaidade se impõe, como seu corpo é desejado. Mas quando pensa nisso, se lembra das partes clássicas, idolatradas nas fotos de revistas masculinas.

Seus seios, do tamanho perfeito e firmes. Suas pernas rijas. A boca macia e sem marcas. As pernas rijas, torneadas. Seu quadril e seu ventre desenhados pelo Criador já consagrado na arte da arquitetura humana.

Talvez não saiba, e isso lhe faça falta, que homens há que te admiram e desejam, de corpo e alma, também pelo que você fala, por como anda, segura uma caneta, faz cara de frustração ao se decepcionar. E até mesmo por como, às vezes, ignorando a própria beleza, sente-se no direito de ficar triste, quieta no seu canto, sem demonstrar a ninguém.

Talvez não saiba disso. Mas do que com certeza não tem ideia é de como um homem que gosta do carinho, do inusitado, do sutil, da tênue e sutil linha divisória entre o sonho e a realidade… é de como esse homem pode ser levantado à loucura da imaginação por um maneio de rosto distraído. Um movimento da cabeça que sem querer deixe o cabelo quase todo para trás do ombro, sem jogá-lo, suave, revelando um pescoço teso, quente, perfumado. Ficaram só alguns fios, bem poucos, à cobri-lo, como uma cortina transparente que não quisesse esconder nada. Uma cortina de imaginação que você balança um pouco ao passar dois dedos no pescoço, inconsciente. Acho que inconsciente, caso contrário, teria sido muita crueldade com quem está a seu lado. Seus dedos simularam um dos carinhos que eu quis fazer. Só simularam, pois faltou-lhes lhe quererem como eu lhe quis. Faltou-lhes ter olhos onde estavam os meus, para imaginarem os outros carinhos. E o braço, trêmulo que eu teria, ávido por sentir melhor o seu calor e o seu perfume, senti-los em meu rosto.

Você não tem ideia disso, com certeza. Pois se soubesse, esse maneio teria sido muita crueldade.

Visita ao Médico

Não acordei assim, mas na verdade já devia estar doente há algum tempo. Doenças não começam assim do nada. Há um protocolo: exposição, contaminação, incubação e por aí a fora.

Os sintomas começaram daí a pouco. Inquietação, mal estar. Curiosamente, a cabeça demorou a doer. Suspeito até que nunca tenha doido. Mas tinha uma sensação de estar vazia de idéias e cheia de uma doença pronta a estourá-la. Latejava, pesada. Havia muita pressão. A nuca esquentou, a testa gelou, as mãos perderam a firmeza. Foi pela hora do almoço que os olhos arderam, sem febre, e, irritados, lacrimejaram.

As lágrimas não ajudaram a aliviar a ardência. Escorreram devagar. Serviam só para molhar os olhos e atrapalhar a visão. Secavam sozinhas, ao vento frio. Sem ajuda de lenço, de guardanapo, nem da mão ou do vento frio. E ao secar uma, vinha outra.

O mal estar cresceu. A doença, parecendo tentar sair, empurrava as lágrimas para fora dos olhos. Elas aumentaram. Os olhos já irritados, foram depois as bochechas que elas salgaram. Então, escorriam e os olhos se esforçavam, teimosos, em não ficarem vermelhos.

Tonto já, sem poder enxergar direito, procurei ajuda, um médico. Ele examinou. “Abra a boca e mostre a língua.” A boca e a língua não tinham nada, não incomodavam como o resto, como os olhos principalmente. “Mas é por aí que você fala. Preciso saber se está conseguindo me contar direito o que acontece.” Por estranho que pareça, e era estranho mesmo, colaborei. Ele examinou ali e também o resto.

Sua cara não era boa, mas médicos são assim. Se a doença para nós é ruim porque pode ser mortal, para eles é ainda pior, é trabalho! Apalpou pelo corpo, pelo peito, pela cabeça. Perguntava se doía. Não doía. Chegou na orelha, apalpou o lóbulo. Perguntou. Também não doía. Desceu de volta ao peito. Encostou o ouvido, apalpou de novo, perguntou. Desceu um pouco (fígado? excesso de álcool? falta de álcool?) Os olhos já escorriam bastante. Encharcavam seca a cara toda. Atrapalhavam respirar pelo nariz ou pela boca.

Parou. Pôs-se ereto e segurou o lóbulo da orelha entre o polegar e o indicador. “Vamos fazer uma punção para isso sair.” Largou a orelha. Fiquei parado. O incômodo tem esse efeito. Qualquer solução, por mais improvável, é boa. E, se para ela, temos de ficar passivos, mais fácil ainda.

Ele voltou com uma agulha de injeção. Abriu aquela embalagem de plástico dela, parece um blíster com tampinha. Alcançou um papelzinho, rasgou-o e tirou de dentro um pedaço de gaze parecido com um curativo pequeno. Limpou o lóbulo da orelha. Segurou-o e espetou de leve a agulha. Senti pingar bastante. Ele pegou um algodão e aparou.

O mal estar pareceu aumentar, talvez pela expectativa do que iria acontecer à orelha. Mas logo passou a aparência e ele ficou como estava. O médico então encaixou a ponta da agulha onde já tinha espetado e, desta vez, furou, de lado a lado. A agulha ficou como um piercing, atravessada. Quando ele tirou. Os pingos viraram um filete esguichado.

Minha pressão caiu. Achei que ia desmaiar. Nada passava e ainda aquilo também me incomodava. O líquido esguichando, às vezes acertava meu ombro. Era o médico, que torcia a orelha para dirigir o esguicho. Ele pegou uma pequena travessa de metal para apará-lo. Curioso, fiz uma expressão de esguelha para enxergá-lo. Não tinha cor. Não era pus. “É lágrima.” Estava drenando por ali as lágrimas que saiam pelos olhos.

Não perguntei se bastava aquilo, se teria algum remédio, injeção. Parecia irrelevante. O que viesse depois, viria. Agora, eu tinha pressa daquilo passar. Parecia não parar, mas fiquei curioso de ver que a travessa demorava a encher. “Nunca acaba.”

Não sei se o médico entendeu isso como a surpresa que era ou a impaciência que também era. Ele largou a travessa e pegou um tubo de plástico, parecia um canudo de milk shake. Era um pequeno estojo. Abriu e tirou de dentro um bisturi.

Tenho medo de lâminas, dão-me aflição, mas dane-se. Ele puxou o lóbulo para baixo e picotou, até a borda da orelha. A água escorreu. Encheu a travessa e continuou. Ele não devia ter outra. Ficou só olhando as lágrimas continuarem escorrendo molhando meu ombro.

O mal estar aos poucos foi diminuindo, a pressão baixando. Quando as lágrimas pararam de escorrer pelos olhos, percebi que ia desmaiar por causa da pressão já bem baixa. Mas o alívio só aumentava.

O médico já estava em pé olhando há algum tempo. Deve ter-se enfastiado. Médicos são disso. Saiu da sala fazer outra coisa. Eu fiquei sentado na cadeira com aquelas lágrimas salgadas escorrendo pelo picote da orelha.

Não sei por quanto tempo fiquei ali, pois desmaiei. A queda da pressão me fez desmaiar como um boneco de inflar murchando. Quando o médico voltou, encontrou só meu corpo vazio, caído no chão feito bexiga murcha. As lágrimas haviam escorrido todas.

Búfalo

O que eu não queria já encontrei. Não precisei procurar. Veio a mim e se encontrou em mim. O de que preciso agora são duas coisas. Uma já comprei. Deu trabalho. Doze milímetros, cano longo. Ao acordar, nem sabia o que era isso. O vendedor me ensinou, ajudou a escolher. A outra, procuro, muito. E não calho em achar. Pela manhã, fui ao zoológico. Tempo perdido. Pela história que me contaram, achei que estava lá. Não estava. Procurei na feira, no leilão, é próximo ao zoológico. Até achei alguns parecidos, mas não aquele. Fui a museus, dois, procurar em quadros. Cheguei a procurar em livros, em fotos. O mais próximo que consegui me deu pena. De quê preciso mesmo é daquele búfalo. Tem de ser aquele. Para eu acertar com minha nova doze bem no meio daqueles olhos cheios de ódio.

Coruja

Estava ao lado do meu carro no estacionamento. No chão, fuçando ao lado da guia, uma espécie de sarjeta que há ali. Me pareceu, a primeira vista um pano rasgado, enrolado. Mas depois vi que era uma coruja.

Coruja no chão é coisa inusitada. É o tipo de bicho que a gente espera ver à noite, em cima de uma árvore, parada, com a cabeça toda virada para trás. Não de dia, fuçando a sarjeta.

Eu tive medo. Não dela. De atropelá-la ao sair com o carro. Fiquei de longe e olhei o que fazia. Ela não demorou. Pisava em algo que tinha na ponta do bico. Soltou o bico, olhou para cima e espreguiçou o pescoço, chacoalhando a cabeça para os dois lados. Pegou de novo o brinquedo, com o bico. Não era um brinquedo, seria jantar, um camundongo. Coube em seu bico como se estivesse preso num alicate.

Ela então deu um pulo, sobre a guia, para a calçada entre as duas fileiras de carros e, de lá, voou. Foi para as árvores, do outro lado da avenida. Devia ter um ninho lá. Voltava para casa com a janta no fim do dia.