Cutículas

Ela me entregou o café e, a propósito, estava muito bom. Eu quis puxar conversa. Ela é uma garota simpática, ia me distrair.
Mostro a piada que me enviaram no celular, sobre um café. Ela parece que não achou graça, a expressão não mudou, como se ainda procurasse o final, e a graça.
Reparou noutra coisa: “Por que você fez isso com as suas cutículas?”
Para falar a verdade, eu nem sei o que é isso. Imagino. Tenho o costume de cortar as unhas umas com as outras. Sou bom nisso. Acabo raramente precisando de tesoura. Minha unhas estão sempre curtas. Mas, volta e meio machuco o dedo. Ou na ponta, onde termina o dedo e se corta a unha. Tem uma pelezinha ali, que vem de debaixo da unha, que, quando criança, me ensinaram a chamar de sabugo. Ou dos lados da unha. Aquele pedaço do dedo que a cobre. Estavam bem machucadas mesmo.
Perguntei o que é cutícula, ela não deu uma resposta convincente de quem sabe, quis saber se eu fiz aquilo com os dentes.
Disse que fiz com as próprias unhas e desconversei, não quis mais conversar. Ainda bem que ela teve que fazer outro café.
Me escondi fuçando no telefone. Não quis mais conversar. Ela podia reparar nos lábios. Nessas pelezinhas que eu arranco sem querer quando estou muito chateado. Para isso eu não acharia uma desculpa esfarrapada.

 

Overdose

 

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Pedi, no caixa, meu café-com-leite e torradas.
Não almoço em domingos e feirados. Acordo tarde, tomo café na padaria: dois cafés-com-leite e dois pães com manteiga, sem miolo. Depois, à tarde, lá pelas três ou quatro, faço um lanche. Gosto do café-com-leite com torradas daqui. Acompanha cream cheese e geléia. Apesar do açúcar, que não gosto, como a geléia também. O café quebra o doce. Peço também um chá preto ou de hortelã. Ajuda a tirar o gosto de açúcar da boca.

Na fila do balcão, para retirar o lanche, olhei a vitrine das coisas que não posso olhar antes de fazer o pedido. Sempre tem um bolo diferente e eu olho curioso. Hoje o bolo era de… abóbora!

Engraçado, até ontem eu nunca tinha visto bolo de abóbora. Há dois dias, falei uma coisa sobre abóboras, lembrando do conto de fadas, acho que é da Cinderela essa história. E ontem, por coincidência, quando pensava nisso, vi um bolo de abóbora num café no meio da estrada. Curioso e encantado, comi um pedaço. Era uma delícia açucarada! Odeio açúcar. Soube-me ao doce de abóbora da avó. Minha avó fazia o doce de abóbora com pouco açúcar e bem apurado. Ficava doce de tanto cozer. O bolo era muito parecido. Com bastante gosto da abóbora e de cravo.

20140504_190858841_iOSDe lá para cá, ainda me lembrei algumas vezes da Cinderela e de sua carruagem puxadas por ratinhos. Hoje, mais uma coincidência, outro bolo de abóbora, noutro café. Este de hoje, não tem a mesma cor-de-abóbora do de ontem. É bem clarinho. Se me dissessem que é de abobrinha, eu acreditaria, pela cor. Preciso comer um pedaço. Tive de sair da fila, voltar ao caixa, e pedir um pedaço dele também.

Na mesa, tratei de comê-lo antes
das torradas. Com este decepcionei-me. Insosso. Não senti gosto de nada. Nem do açúcar que não gosto. Comi tudo para não fazer desfeita à fada madrinha, e para não ofender São Francisco, como dizia minha avó.

Preciso voltar ao original, é muito melhor.

 

Orçamento

Quando passeio, tomo café, ando. Não tenho bem o que olhar na cidade. Olho as pessoas, os casais. Acho bonitos olhar os casais. Principalmente no frio, passeando abraçados, com roupa de frio, acho bacana.

Ao cansar de andar, ou me cansar do frio, entro num café onde possa pedir uma bebida quente bem grande e me sentar olhando o movimento. Entrei num e fui para a fila fazer meu pedido. Não gosto de filas, mas o frio lá fora é bem pior. Aproveito para olhar as pessoas que estão sentadas por ali.

Logo perto, havia um sofá com um casal mexendo juntos num notebook numa mesa em frente. Casal com notebook não é coisa comum. Quem normalmente fica mexendo nessas coisas são homens sozinhos, ou gente que se vê que está ali usando a mesa do café para trabalho como se fosse seu escritório.

Eles podiam estar vendo fotos de viagem. Ele prestava atenção em algo que teclava ou clivava, ela tinha o sorriso largo de quem vê fotos.

Ele acabou rapidinho o que estava digitando, pegou o copo de bebida quente, encostou-se para trás no sofa e se virou um pouco na direção do corpo dela.

Ela demorou um pouco mais para tirar os olhos da tela. Sua bebida, um copo igual ao dele, ela já estava segurando, com as duas mãos, como fazemos para aquecê-las.

Devem ter vindo a pé, da rua, estão com casacos pesados. Dois guarda-chuvas estão em pé ao lado do sofá, encostados no “L” entre o braço e o encosto. Uma bolsa feminina grande, florida, sentada junto. Devem ser deles, a bolsa dela. Vieram da rua sim.

Ela se sentou de lado no sofá, de frente pra ele, em cima da perna direita, o pé pra fora. Ele sério, ela sorrindo. A mão que tinha livre, ele pousou na coxa dela, fez um carinho de leve e deixou ficar. Ela tirou um pouco uma mão do copo, retribuiu o carinho pelo braço dele. Depois, chegou o corpo mais para o encosto do sofá e voltou a pegar o copo com as duas mãos. Ele, daí a pouco, tirou a mão da coxa dela para apontar o notebook falando algo. Ela respondeu. Ficaram conversando, bebendo o que tinham nos copos. Até que ele pousou o seu na mesa, juntou as maos olhando o notebook e balancou a cabeca em “não” com cara de que não acreditava em algo. Ela pôs-lhe atrás do pescoço a mão direita, que devia estar quente de segurar o copo. Falou-lhe algo, sorriu, esfregou a mão pelas costas dele. Ele desfez o siso, parecia mais alegre. Olhou-a. Chegaram os rostos mais perto. Ela lhe ofereceu a boca. Beijaram-se rápido.

Voltaram ao notebook quase abraçados, revezando o controle. Não sei do que falavam. Não precisava saber. Aliás, nem devia ficar olhando.

Quando peguei minha bebida, procurei um lugar para me sentar. Fui para um banco no balcão da entrada para tomar meu cappuccino e escrever em meu tablet de homem sozinho. Passando pelos sofás, ouvi: “Este é meu. Este também. Este é teu.” Mexiam numa planilha, parecia um orçamento. Que xereta eu! Deviam ser casal novo. Recém casados ou noivos. Seria mais fácil eu ter reparado se usavam alianças. Isso é coisa que homem não repara, nem entende. Se tivesse olhado, saberia se eram noivos ou casados.

Não precisei beber devagar para ter bastante tempo olhando-os. Minha bebida estava muito quente, muito quente mesmo! Foi assim que eu pedi e fizeram direito. Tive que esperar muito até conseguir beber. Dividia a minha atenção entre escrever uma história e xeretar o casal. Eles revezavam a atenção ao notebook com conversas olho-no-olho. Parecia ensaiado.

Demorei tanto, todavia não tanto quanto eles, que precisei ir ao banheiro. Meu copo ainda estava pouco abaixo da metade, mas abandonei-o. Desci do banco e enquanto arrumava a mochila, ouvi a mulher dizer numa surpresa meio brava: “Ah não, de novo isso não!”

Virei-me para olhar, foi instintivo. Ainda peguei o final da fala. Ela não teve muito tempo para ficar brava. Ele deixou o copo na mesa, as duas mãos pôs em seu rosto. Olhou-a nos olhos, alisou-lhe a bochecha e o cabelo e disse: “Não vamos brigar por nada, nunca. A gente não precisa. Vamos conversar com calma e decidir juntos. Deixa anotado aí do lado, no final a gente conversa sobre isso.” Ela sorriu com os olhos e fez que sim com a cabeça. Pôs a cabeça no ombro dele um pouco.

Aí, como se nada tivesse acontecido, voltaram ao que faziam antes, exatamente do mesmo jeito.

Do Fundo do Baú

Subo um caminho pelas árvores, curto, uns 200 metros, talvez menos. Dali dava pra ver algumas trilhas bem estreitas, que eu não peguei porque iam para uma beirada com árvores e eu quero mesmo é ir para a parte de pedra, aberta, de onde se pode ver longe.

Em alguns pedaços de subida, pequena subida, o caminho de terra está moldado formando degraus, fica fácil subir. Não leva quinze minutos, tomando cuidado e olhando as plantas. Gostaria de ver uma onça por ali, havia de ser bonita. Sempre procuro, nunca encontro. Já ouvi rugido de onça. Escuta-se de longe. Dizem que alcança mais de quatro quilômetros. Acho que é assim que elas delimitam território. Aqui mesmo, já ouvi, mas muito longe.

Acaba o chão de terra, cheio de árvores, chega o primeiro pedaço de pedra, é como um terraço. Mais ou menos do tamanho de um terraço de um sobrado. Cercado, por um lado por uma pequena parede, de terra, com mais plantas. O acesso é feito, vindo de baixo, pelo caminho que eu subi e, seguindo mais para o alto, por outro caminho de terra, com mais árvores, essas menores, que eu já vou subir. Percebe-se que é um pedaço da pedra que aparece no meio do caminho de terra que eu subo. A beirada tem um parapeito de tubos para que as pessoas não cheguem perto da parte mais inclinada. Deve ser fácil escorregar depois dali. A queda, enorme. Estamos a mais de dois mil metros de altitude. Daqui até o vale devem ser mais de trezentos de altura. A vista mais no alto é aberta. Daqui ainda é meio estreita. Vêem-se ombros próximos da montanha que atrapalham a vista do vale é do resto da serra. Por entre eles, eu enxergo outra montanha, uns dez ou vinte quilômetros do ouro lado. É bonita. No alto dela, há um jardim bonito. Eu o conheço. Estive lá brincando já. É um jardim grande, aberto, com muita grama na parte alta, cheio de esculturas. Nas bordas, mais baixas, é cercado por árvores do bosque da montanha. Tem uma construção, um auditório, eu o conheço também, mas nunca entrei. Se eu tivesse zoom, tiraria uma foto bacana. A que tirei, de longe, vai precisar de legenda, porque não se distingue o jardim, longe.

Eu ouço um barulho, um grito ou gemido alto, um arfar muito alto. É um gemido alto de êxtase, violento, emocionado, expontâneo. Veio do ombro da montanha, onde acabam as filhas que eu não quis pegar. Alguém as pegou é chegou lá. Eu olho, há alguém, de moletom, pendurado numa corda bamba. Uma fita vermelha dessas que se prende em árvores para jogar o equilíbrio. Mas ali não estava presa em duas árvores sobre o chão do parque. Eu não via suas pontas, escondidas pela montanha e as árvores, na vista estreita. Via que ela se estendia sob o vale. O pedaço que eu via, uns dez metros de fita. Não dava pra saber sua extensão toda, onde começava nem onde terminava. O equilibrista, parece que caiu, desequilibrado, ficou pendurado por cordas de segurança. Engraçado que não dava para ver seu rosto, ter idéia da idade, da cor, mas via-se que estava cansado, o esforço para se equilibrar deve ser muito, a decepção de não conseguir também. Ficou pendurado sobre uma queda de centenas de metros. Olhou para frente, depois para a corda, fez um malabarismo — ele era magro, mas tinha que ser forte para fazer aquele malabarismo pendurado na corda — e se por novamente em pé na corda. Tentou de novo. Vi tentar mais duas vezes. Acho que não andou mais que dois metros. Tive inveja dele ali, andando numa corda no céu. Segui a subida quando ele começou a tentar mais uma vez.

Este outro trecho de subida de chão de terra logo se abre numa bifurcação em torno de algumas árvores. À esquerda, um caminho entre mato alto, queria ver o que está lá, do outro lado da montanha, mas não quero entrar no mato. À direita, mato mais baixo, mas a copa das árvores incomoda e é próximo à beirada. Vou pela esquerda, com pressa, são uns vinte metros. Quero chegar logo à pedra.

A pedra não é bem lisa, parece pedra de pia ou de amolar. Tem uns musgos. Isso aí molhado deve ser perigoso. Esse chão é muito rugoso, ondulado, não é confortável para andar, ainda mais a quando se está procurando a vista, sem olhar onde pisa. A vista, quanto mais se sobe, mais bonita é.

Em pé, exploro, de um lado ao outro, chego perto da beirada, procuro a melhor vista. Todas são bonitas. Procuro o lugar de onde vejo mais vistas e me sento um pouco. Tiro as fotos de praxe. Fico acho que meia hora, pensando na vida. Consigo ver de novo o equilibrista e um pedaço maior de sua corda, uns vinte metros. Ainda assim, não é ela toda. Dá pra ver quase todo o vale, com uma cidade no meio, e a serra deste lado da montanha. Ao fundo, as montanhas longe, na ponta mais distante do vale. Entendo então a expressão “mar de montanhas”. São ondas em tons de verde, lindas. Queria levar isto para minha janela. Este pedaço de pedra para ser meu terraço.

Para a maioria das pessoas que vem aqui, isto é uma parte pequena, apressada do passeio. Aprendi a aproveitar. Não preciso correr para ver tudo e voltar pra casa com fotos de tudo, sem ter visto nada, mais cansado e estressado do que saí. Se não conseguir seguir o roteiro todo de uma vez, volto depois, noutro feriado, noutras férias. Vim aproveitar.

Depois de uma meia hora, resolvo subir mais, até a ponta. A pedra, para subir até la, já se inclina muito. Aqui não tem mais o beiral de tubos. Eu olho e vejo um terceiro trecho de terra, com uma árvore no meio. Dando a volta nela, o caminho é plano e seguro. Vou por la.

A árvore, faz as vezes de portão de castelo. Passando por ela, a terra acaba é a pedra da montanha estreita. Dá para ver os dois lados, os dois vales, os dois braços de serra atravessando os vales, o mar de montanhas, muito mais amplo, a montanha seguinte a esta, mais alta, de pedra também, íngreme, mas com muita vegetação no alto.

Eu não sei quanto tempo levei pra ver tudo. A natureza é como as pessoas. O gostoso é o tempo que dedicado a elas e deixá-las saber o que vemos de bom e o quanto gostamos delas. A gente não pode guardar pra si essas coisas. Não faz sentido isto ser tão bonito e não saber do brilho nos meus olhos quando estou aqui. Não faz sentido meus olhos não brilharem quando estou aqui. E não faz sentido eu não ficar aqui tempo suficiente para que cada curva de montanha saiba disso. O brilho no olho de quem vê a beleza, e não é só a beleza da vista, não é mais de quem olha, é da vista, e ela tem o direito de ficar com ele.

Agora sim, me sento, não muito perto da beirada. Quero me sentir no centro, onde vejo melhor. Rezo, de olhos abertos. Depois de olhos fechados. Descanso um pouco. Pego no bornal o pão, que ontem passei na igreja para benzer, o garrafa térmica e uma fruta. Abro a garrafa térmica, tem chá, ainda está bem quente. Quente demais para beber. Não faz mal, não tenho pressa. Quero ver o sol se por, devagarinho.

Como diria Xuxa: No Lindo Mundo da Imaginação

Tenta imaginar:

Você tem medo de escuro? Eu não gosto do claro, fico muito visível, exposto, não gosto. Vamos dizer que seja do escuro que você não goste. Imagine, tudo escuro. Você não enxerga nada, nada mesmo. Nem as próprias mãos. Não sabe se tem algo à frente.

Frio, ninguém gosta de frio quando está desagasalhado e sozinho. E imagine que você estava, além de no escuro total, no frio, desagasalhada e sozinha.

Em pé, cansada. Você, nesse escuro, não tem idéia de algo onde se escorar.

Imagina só por um instante.

Para completar, começa um barulho que você nunca ouviu antes, não sabe se é de bicho, de máquina, de arma.

Mas só imagina, com cuidado.

Por que aí, você sente um abraço, e ele traz junto um agasalho, e uma voz carinhosa que te diz: “Vem aqui comigo.” E você conhece a voz e gosta, e descansa seu corpo relaxado no abraço. A voz te traz também uma luz que te mostra que não há perigo, mas que é fraca o bastante para iluminar só vocês dois. Vocês ficam ali, iluminados, e o resto do mundo é como se nem existisse mais. Depois de descansar um pouco, vocês começam a andar e ele se lembra de dizer:

“A gente faz assim, quando um fizer errado, o outro dá um abraço, um carinho e a gente procura um jeito de fazer certo… sem vaidade, só calma, paciência e carinho…”

Bolhas de Sabão

009boris2Não consigo imaginar que no mundo haja alguém que não goste de bolinhas de sabão.
Hoje em dia há vários apetrechos, uns equipamentos complicados, para fazê-las. Alguns parecem raquetes, há pistolas eletro-mecânicas, varetas, varas, espadas, liqüidos especiais.
No meu tempo de criança, havia apenas detergente num copo com água e o canudinho que furtávamos de alguma lanchonete mais chique. Canudinhos eram muito preciosos então. Não era comum tê-los em casa, nem mesmo em lanchonetes. Quando não havia copos de vidro usava-se o próprio gargalo da garrafa.
Guardávamos os canudinhos usados por vários dias, até estragarem e não fazerem mais bolhas.
Para a alegria, bastava molhar um pouco uma das pontas na água com detergente, tirar e soprar com cuidado. Treinando um pouco, a bolha saia, sem cor, água não tem cor, mas refletia todas as cores do mundo à sua volta. Virava berlinde voador. 
Eram as bolhas de nosso mundo infantil voando.
Vários sopros não davam certo, tínhamos que tentar algumas vezes para conseguir uma bolha que não estourasse logo. Depois soprávamos e a seguíamos, até estourar no céu, na parede ou num nariz.
Sempre imaginei como seria o mundo visto por dentro delas, colorido, disforme, direito?
Havia de ser bonito.bubble_dream_fairy

FDS

Li, agora de manhã, as coisas que escrevi nos últimos dias.
Tive umas idéias legais, o começo de cada texto ficou bom, mas não gostei da conclusão de nenhum. Me dão impressão de relaxo.
Isso e também os erros de digitação.
Fiquei chateado comigo.
Sensação de cuidar mal do jardim.

01:00

Vejo o relógio, é tarde, mas não queria dormir.
Hoje, ao invés de sonhar, queria sumir, pra sempre.
Fugir pra onde ninguém me conhecesse.
Não quero dormir sem escrever algo.
Preciso.
Às vezes ajuda, às vezes piora, mas preciso. Eu quero, muito.
É um pedaço de mim que eu deixo voar, livre, pra ser feliz.

Complexo de Édipo (e de Jocasta, e de Laio)

O complexo de Édipo não foi ter se apaixonado pela própria mãe. Isso foi coisa do coração, ajudada pelo destino, nisso ninguém manda. Desconhecendo ser ela sua mãe, não podemos condená-los pelo incesto que não sabiam. O assassinato do pai já são outros quinhentos, Édipo não precisava conhecê-lo para saber que é errado matar alguém.

Mesmo assim, o embate com o pai e o casamento com a mãe, eventos fortuitos pela forma como o mito nos é contado, não representam um comportamento deles que possa ser extrapolado.

O verdadeiro complexo de Édipo, e não só dele, também de Jocasta e Laio, foi achar que basta virar as costas ao destino.

Não sei se continuo acreditando no mesmo que antes. Que o destino, ou o que eu chamo de destino funcione do mesmo jeito. Ainda acredito que tudo caminha para que coisas boas aconteçam. Que pode haver alguma conspiração, não sei de quem, mas para que as coisas corretas aconteçam. Ainda carito, sobretudo, que algumas coincidências são muito estranhas e oportunas para serem só coincidências. Nisso ainda acredito, e tenho que acreditar. Seria estranho certas coisas acontecerem sem propósito, acabarem num caminho sem saída.

Destino não se combate, é inútil. Há de deixar seguir, como um rio para o mar. Não adianta remar de volta. Mas não se pode ficar passivo. Se o rio nos leva para o mar, vamos remar para o mar. Ele, o mar, pode ser lindo! Ou não, ainda não o conhecemos. Se por ventura, a gente se engana, ou o destino se engana, e não é isso que tem de acontecer, se não é para o mar que corre o rio, ele mesmo, o destino, a correnteza, vai ajudar a chegar no lugar certo, seja ele qual fôr. Damos uma mãozinha, para que fique o mais certo possível.

Com o remo nas mãos, não fugimos, não há ré. Pegamos a melhor bifurcação, evitamos as pedra, mantemos o equilíbrio. Ainda assim há perigo, há a gravidade, os obstáculos, pedras, galhos, saltos, e a correnteza. Mas há o remo, escolhemos, dentro do possível, o caminho até lá, tentamos evitar os golpes. Esses talvez sejam evitáveis.

O destino talvez seja inevitável, talvez não, mas ainda acredito que haja algo que teima em nos mostrar o caminho certo, conspirará para que coisas boas apareçam no horizonte. Elas aparecem.

Não nós esqueçamos de remar, para elas.

Vazio

Chegou do trabalho. O apartamento vazio. Vazio é modo de falar, havia os móveis, mas nenhum barulho, nenhum movimento, além dos dela. Esse vazio a deprimia ultimamente, logo que, ainda do lado de fora, colocava a chave na fechadura. Nem precisava pegar a maçaneta e abrir a porta. Saber o nada que havia lá dentro já lhe pintava o mundo todo de azul e cinza. Ela que odiava azul! O apartamento era todo descorado em papel de parede de tons de madeira clara, piso de madeira mais escura, móveis pretos, estofados vermelhos, algum detalhe branco, vasos pretos altos com plantas em dois cantos, próximos à janela, para tomarem sol. Não havia azul, nem amarelo. Amarelo por coincidência, nunca notou se gostava ou não. Apenas não achou onde amarelo ficasse bem. Tudo nessa cor lhe parecia feio. Talvez não gostasse. Já azul e cinza, era consciente, não gostava de jeito nenhum, em nenhum tom. Ao decorar o apartamento, sabia disso, nada de azul ou cinza. Lhe deprimiam, lembravam algo que ela queria esquecer.

Assim que entrou, antes mesmo, passando pela porta, já queria sair. O primeiro impulso foi de largar a mochila pesada do notebook e sair. Mas achou que precisava de uma bolsa. Mulher pode trabalhar sem bolsa. Mas à noite, passeando, fica esquisita. Estar sem bolsa, não parece coisa de mulher, não parece feminino. Pegaria uma bolsa, a bolsa, tinha uma só que costumava usar, e outra, velha, demodè, de reserva. Tinha de passar algumas coisas da mochila para ela. O resto, coisas que carrega quando sai, para o caso de algo rolar, já estavam lá, sempre estão.

As roupas do trabalho não são muito femininas. Discretas demais. Ela não gosta de se passar por indecente, ou mesmo chamar atenção, especialmente para seu corpo. Não se sente segura com ele, mesmo quando se sabe desejada. Na adolescência, odiáva-o, tinha vergonha. Hoje não sente vergonha. Mesmo assim, não se sente à vontade. Vestida, depois de várias tentativas, de pôr e tirar algumas peças, sempre acaba achando algo com que se ache atraente. Porém, se mais pele do que devia estar coberta aparece, sente-se ansiosa, com medo de que reparem em algum defeito que ela nem sabe se tem. Não usa de decotes, nada curto ou justo. Mesmo assim, as roupas do trabalho, terninho e calça pretos, a camisa branca, sapatos baixos, lembram-lhe roupa de homem. Não quer sair assim. Vai se trocar, por uma roupa mais de menina.

Mas precisa tomar banho. Pensar em trocar de roupa lembrou-lhe que está suada, nem se percebe. Aliás, vai sair à noite, não pode ir sem tomar banho e se perfumar, escovar os dentes, por uma roupa cheirosa, maquiagem discreta. Além que se aproxime pode sentir o cheiro da transpiração do dia ou de sabe-se lá que cheiro mais o corpo arruma pelo dia.

Entra no banho, não muito quente. Não sabe porque a maioria das mulheres gosta de banho tão quente. O dela é um pouco mais quente que seu corpo. Não é só morno. Isso é quente, mas não é estúpido. Não faz sentido sair do banho vermelha e suando do calor do chuveiro.

Debaixo da água, a tentação de se tocar é grande. Imagina coisas. Mãos, boca, braços, um peito. Não gosta de ser penetrada, gosta todavia dos braços e mãos que a envolvem para isso e da boca que a beija. Mas para ela, se perguntarem, diria que prefere isso tudo sentada no colo, sem penetração. Não precisa dela, não lhe dá prazer e, depois de gozarem assim, os homens parecem perder o interesse pelo resto, o resto que é o que ela gosta. Mas do que gosta mesmo é de uma boca em si. Aceitaria de bom agrado um homem impotente que usasse bem a boca. Um que gostasse disso como ela. A maioria não gosta, finge gostar e faz por obrigação. São os mesmos que lhe cobram as coisas que ela não gosta. Toca-se com uma mão, imagina lábios e língua lentos mas famintos, como ela gosta. Uma boca assim é difícil de encontrar. Involuntariamente, fecha os olhos e faz com a própria boca como gostaria que a boca imaginária, sua mão fizesse. Percebe e não se importa, a brincadeira é boa. Pega o cotovelo com a outra mão e aperta os braços de encontro ao próprio corpo. Abraça a própria barriga assim. Pensa que não precisa disso agora, vai sair ainda. Não precisa sair excitada, não precisa gozar antes. Se a noite fracassar toda, pode ver isso depois. Termina o banho.

Tinha fome mas não ia comer nada. Comer na rua é mais caro, a comida nem sempre agrada. Mas comer algo num café é sempre algo a mais a se fazer. Sai sem planos, hoje é um dia chato, começo de semana. Comer algo pode ser parte do plano. Comer distrai. Que não seja muito, que seja num lugar mais agradável que o apartamento. Ainda assim, não tinha plano. Precisava de mais para fazer, para não vagar simplesmente.

A roupa foi fácil de escolher, não era de arriscar. Pegou um conjunto, jeans, camiseta básica rosa. Não faz frio, gosta de usar roupa de frio. Tênis e acessórios combinando. Esses são mais difíceis de escolher. Deveriam ser só detalhes. Mas o importante são os detalhes. O perfume, sempre o mesmo. Ela adora. Cheira o braço com ele, gostaria de cheirar o próprio pescoço. Tem certeza de que, quem chegar assim perto, e senti-lo em sua pele, ele mais o cheiro o toque da pele, a achará irresistível. Se cheirando, ela se acha.

Saiu. Continuava sem planos, além de matar a fome. As lojas, galerias, shopping, não ajudavam. No queria comprar nada. Andou. Vagou. Acabou vagando. Passou por uns três ou quatro lugares onde achou que podia comer algo. Mas tinha que aproveitar para arrumar algo para fazer, antes que tudo fechasse de vez. Andou.

Andou. Não encontrou nada. Andou, andou. Se cansou de andar e desistiu, já era muito tarde, comércio fechando. Pensou num dos lugares que viu, um café com cara de ponto de encontro, quis voltar e comer lá. No mínimo descansaria, teria algo para comer e gente para olhar. Andou, de volta ao café, andou.

Chegou lá, gostou do lugar mais do que imaginou quando passou. Iluminação fraca, agradável, paredes e descoração em madeira escura, madeiras diferentes, runcionários de preto com avental vermelho, mit. agente sentada conversando, muita gente sozinha, sem barulho, conversavam baixinho e algo na decoração abafava o som. Gostou e entrou.

O garçom perguntou se queria uma mesa, se esperava mais alguém, se tinha companhia, se preferia o balcão, um sofá, uma poltrona. Perguntou muito, sorrindo solicito. Ela simpatizou com ele. Aceitou uma mesa pequena, para dois, iria comer algo, seria mais confortável.

Olhou em torno. Achou curioso, não havia casais. Reparou nos grupos. As interações. Pediu um milk shake de café e uma fatia de bolo de fubá. Achou curioso, segundo o cardápio, o bolo ter queijo na receita. Continuou olhando todos. A cada um, grupo a grupo, mesa a mesa. Compreendeu então que o lugar era GLS, achou engraçado. Não tinha preconceitos, não era sua praia, mas não tinha preconceito, não se sentia incomodada. Era para ela um lugar como qualquer outro. Apenas se decepcionou, não encontraria nenhum homem com quem rolasse algo. Ainda assim poderia encontrar uma boa conversa, fazer um amigo.

Três garotas, duas num sofá, outra numa poltrona, conversavam e uma lhe olhou, depois voltou a conversar com as outras. Isso lhe incomodou. Parece que ela, intrusa, incomodava as três ou, ao menos, àquela que olhou. Invejou-as, eram bonitas, pareciam ter corpos bonitos.

Esperava, não tinha pressa. A mesma menina a olhou de novo. Se incomodou. Perguntou pelo banheiro. O garçom indicou, após o balcão, no fundo, ao lado da geladeira. Levantou-se e foi para o banheiro. A menina foi atrás. Ficou com medo. Quando chegaram ao banheiro, era individual, a menina a ficou olhando como se quisesse algo. Ela, desconcertada, não pensou em algo, entrou, apressada e atrapalhada, correu trancar a porta. Sentou-se na privada chorando, de calça, nem se lembrou de olhar se estava limpa. Demorou. Ninguém bateu à porta, mas ouvia barulho de fora que na sua imaginação eram de impaciência de todos no café. Era como se todos a esperassem pedindo satisfação de porque saiu de casa hoje à noite. Quis se acalmar. Pensando em porquê tinha saído, foi se acalmando aos poucos.

Percebeu que o vazio que sentia não era de um sexo de homem ou de mulher. Era de algo mais profundo e duradouro que qualquer sexo. Podia ser preenchido por qualquer um que lhe quisesse fazer feliz. Perdeu de vez seu preconceito. Abriu a porta ainda com lágrimas escorridas na bochecha.

A menina estava lá ainda, esperando encostada à parede. Talvez ela nem tivesse demorado. Já não tinha mais a cara de quem espera algo. Mas olhou-a, olharam-se, e quando os olhos se cruzaram, a cara voltou. Avançou e beijou-a, gostoso, como gosta, como quer. Demoraram mais no beijo que no banheiro. Ao desgrudarem os lábios, a menina virou-lhe as costas e entrou no banheiro sorrindo, nenhuma palavra, mais nenhum olhar ou expressão.

Ela percebeu que o vazio ainda estava lá, que ele também não tinha sexo nem preconceito. Era só vazio.