Volta pra Casa

Eu subia a rua de casa, de paralelepípedos ainda. Já há uns quinze anos que os cobriram com asfalto. As travessas ainda são de paralelepípedos, mas a minha rua não mais. Naquele dia, porém ainda era.

Era dia, tinha sol, embora eu me recordasse de ter saído do trabalho à noite. Talvez tivesse trabalhado de noite e estava chegando em casa de manhã. Ou tivesse passado a noite na gandaia, embora creia nunca ter feito isso.

À minha esquerda, onde hoje há aquele condomínio grande, era só grama. Mato bem cuidado, não muito alto, algumas touceiras de erva, arbustos. Meia dúzia, talvez uma dúzia, de árvores. Engraçado, também não me lembrava de ter conhecido ali assim. Pensei ter conhecido o bairro já depois de terem construído o condomínio.

20140709-014405-6245032.jpgPerto da calçada, uma vaca pastava. Parecia a vaca da capa do disco do Pink Floyd. Mas aquela olhava para trás, por cima do ombro que as vacas não têm. Está pastava, de cabeça baixa. De comum, estava de costas para mim, como a outra na foto.

Mais à frente, próximo à esquina, debaixo de três árvores que estavam muito juntas e faziam sombra, três vacas, ou touros, ou bois, se cobriam. Os três, um sobre o outro, empilhados. Achei graça, também lembravam algo do disco. Ri. Balancei a cabeça em “não”. Por que não? Por que uma coincidência dessas não podia ser coincidência? Um carro freou em cima de mim. Quase me atropelou. Ele subia a travessa, eu atravessava, sem olhar, pensando nas vacas. Lembrei-me de quando, brincando, meu irmão jogou uma tora em mim e me abriu a cabeça, quase fui atropelado atravessando a rua, correndo pra casa. Depois lembrei-me de quando ele atropelou a lateral de uma Kombi, fugindo de mim depois de me dar uma pedrada.

Acho que fiquei branco. Senti aquele gelo da falta de cor de quando se fica branco de susto, de medo. Acho que molhei a calça. Devo ter molhado nessas vezes também. Mas olhei, passei a mão, e não percebi nada.

Lembrei do carro que quase me atropelou, e eu parado ali na frente dele. Que indelicadeza! Não prestei atenção, ele conseguiu parar sem me atropelar, e eu parado atrapalhando, pensando em histórias de infância. Olhei para o carro. Ele já tinha ido embora. Não estava mais lá. E eu nem me desculpei.

No quarteirão seguinte, numa casa baixa, terreno rebaixado, em frente à árvore podada, esculpida pelo jardineiro, uma mulher, sentada na soleira da porta, dava o peito a uma criança. O pai, do portão, gritava com ela e com criança: como podia dar o peito para a criança, se havia aquele cheiro de esterco de vaca pelo ar? Ele tinha razão. As vacas tinham deixado um esterco fedido pela rua toda, o cheiro dava náusea. A criança não merecia mamar cheirando aquilo. Ninguém merecia, nem andar na rua com aquele cheiro.

O pai segurava uma pipa. E uma lata, com linha. Um barulho de moto e ele vira gritando. O motoqueiros freou, quase caiu. Havia linha passada de um poste a outro. De um lado a outro da rua. O pai devia estar passando cortante na pipa. Ignorante, sem razão, ainda xingou o motoqueiros que quase foi degolado pela linha do pipa: “Motoqueiro maldito, vocês não tomam cuidado?” O motoqueiro viu que o sujeito era ignorante demais pra se discutir com ele. Desceu da moto, se abaixou, passou por baixo da linha e foi embora.

Olhei para meu prédio, estava quase lá, para minha janela, num dos andares mais altos. E pensei ver, no alto do prédio, de novo, as vacas que pastavam e se cobriam. Distraí-me com um pássaro que passou voando baixo, e me esqueci delas. O pássaro era muito grande, branco, tinha algo nas costas.

20140709-014405-6245086.jpgRepresentou-me um cisne, o que acho ser um cisne, pois nunca vi um. Só os vi em desenhos. Lembrei-me do cisne de Lohengrin. É uma história de amor bonita. Lembrei de meu amor. Vontade de vê-la, há muito não a via. Tive medo de ficar maluco e não vê-la nunca mais, e também de não vê-la e isso me deixar maluco. Se eu fosse Lohengrin, ou seu cisne, eu nadaria qualquer mar, voaria o céu, se não houvesse mar, para vê-la mais e conversar com ela ainda mais.

O pássaro voou para o horizonte, por entre os prédios, seguindo a rua. Perdi-o de vista, ofuscada por um Sol enorme que já baixava. Gosto do por-do-sol. Atravessando a rua para entrar no prédio, uma revoada de pássaros, cortou minha frente cantando. Já no quintal, tive impressão de atrás de mim, na calçada, onde havia passado a revoada de pássaros, outra revoada, agora de crianças, passar também cantando. Cantavam boa tarde, boa noite.

No elevador, quando entrei, já la estava uma garota. Eu a conhecia, e a queria. Quando a porta fechou, enfiei a mão por baixo de sua saia, por trás e puxei-a para mim. Ela deixou. Abri-lhe a camisa com uma mão e, com a outra, comecei a descer-lhe a calcinha. Ela só deixava. Beijei-a. Ela abriu a boca e deixou minha língua entrar. Incomodei-me com a passividade. Achei estranha. Parei, com raiva, e deixei-a.

Ela, rejeitada, desconcertada por ser rejeitada, não deve estar acostumada, arregalou os olhos, assustada e chorou. Não por perder-me, chorou por decepcionar-se, por perceber que não está acima de ser rejeitada. Com pena, e raiva da pena, tentei consolar-lhe. Que ficasse no elevador. Talvez ainda na mesma noite, encontrasse alguém com quem ficar. Ela me xingou. Minha pena passou, sobrou indiferença, e nem xinguei de volta. Saí do elevador no meu andar.

Entrei em casa. O café da manhã estava na mesa, pronto, à luz de velas. Tinha tudo, pão com manteiga, bolo, peru recheado de casaca e gravata borboleta, dois drinks coloridos, fluorescentes. Uma luz de boate dava movimento à sala onde a mesa estava posta. Duas pererecas bêbadas dançavam ao som das notícias de ontem no jornal da manhã, no rádio.

Chegando em casa, eu sempre vou ao banheiro. Gosto de tomar uma banho para descansar depois de ter suado na rua. Vou jogando a roupa pelo caminho, quando estou só de cuecas e meias, passo pelo quarto, coçando uma espinha que me nasceu na cotovelo. Há algo estranho no quarto, dou meia volta e olho para dentro dele.

Havia uma mulher dormindo na cama. Nem era a minha cama, mas estava no lugar da minha. A minha é de casal, esta era de solteiro. A roupa de cama, branca e muito florida, eu nunca compraria nada assim, não era minha.

20140709-014746-6466741.jpgA mulher falava dormindo. Eu queria uma explicação para ela estar ali. Aproximei-me e ouvi o que falava. Ela perguntava porque as vacas se cobriam e, depois, gritou “Cuidado!”, duas vezes.

Falou do cisne de Lohengrin, pediu que conversasse mais, elogiou o sol gordo, deu boa noite aos pássaros e às crianças. Perguntou do que eram os drinks do café da manhã e pediu para as pererecas aumentarem o som do rádio. Queria ouvir as notícias e dançar também.

Reconheci o que falava e, boquiaberto, parei. Tinha de sair dali logo, sem fazer barulho, com muito cuidado para não acorda lá. Disso dependia minha existência. Reconheci-me. Eu não sou mais que um sonho dela.

 

Sorvete

Quando eu era pequeno, não eram comuns os potes plásticos de sorvete como os de hoje. Nós comprávamos sorvete em tijolo. Da Yopa, na padaria nojenta perto de casa. Ou da Gelatto, na venda do Seu Alberto, perto da avó. O tal tijolo de sorvete, era uma caixa de meio litro, de papelão, parecida com uma caixa de sabão em pó. Tinha uma tira serrilhada que a gente puxava para abrir. A caixa aberta, em cima da mesa, servia de bandeja para o sorvete. A mãe só comprava napolitano. Eram três faixas, o branco no meio, de comprido, começavam e terminavam nos lados mais estreitos do tijolo. Assim, quando cortávamos fatias com a faca de pão, cada uma vinha com um pouco de cada sabor. As comíamos no prato. A mãe só tinha pratos fundos, coisa de mãe, cabe mais comida.

Não me lembro de quando tomei sorvete de pote de dois litros pela primeira vez. Acho que eu já estava na faculdade. Comprava aqueles potões absurdos para repartir entre dois, em vez de almoçar. Mas me lembro de uma vez em que a avó apareceu com uma coisa que a gente não conhecia. Sorvete em lata. Era uma lata branca, decorada feito toalha de cozinha, pano de prato, devia ter uns quatro ou cinco litros de sorvete. Dez vezes o que estávamos acostumados. E, sem freezer, tínhamos de tomar tudo no mesmo lanche, antes que derretesse. E era de passas ao rum. Rumcompassa, dizia minha avó. Demorou para eu perceber que não era uma palavra só. Eu achava que fosse nome de uma fruta ou de uma bebida. Delícia!

A primeira brincadeira, foi tentar tirar bolas de sorvete com a colher. Nunca tínhamos tirado sorvete em bola. Isso só na sorveteria, em casa não havia. Nem tínhamos aquelas colheres esquisitas de tirar sorvete. Foi com a colher de sopa mesmo. Ninguém conseguiu fazer direito. Saíram, sim, pelotas. Cada um trapaceou do seu jeito para tirar e pegar as maiores. O pai reclamou de tomarmos tanto sorvete. Ia deixar doentes. Mas reclamou por reclamar, por obrigação de pai preocupado, não ligava. Foi na copa pegar uma cerveja, sem gelo, o pai não bebe nada gelado, não é acostumado, e se sentou no quintal, na beirada de tijolo que cerca o aquaradouro, beber sua cerveja em paz, conversar com o sogro, meu avô.

Meu irmão menor foi o último a pegar a colher para se servir. Nem precisava. A mãe já lhe tinha servido. Pegou a colher mais para brincar do que para realmente se servir. Tirava pelotas do sorvete, saíam pequenas, ele era pequeno, não tinha jeito. Fazia montinhos com elas. Vários montinhos. “Vó, ele está estragando o sorvete. Quero mais.” Quando reclamamos a colher para pegar mais, ele, sem sua ferramenta de escavação, ficou quietinho. Não tomou o sorvete, ficou olhando. Isso não é muito de se estranhar. Onde há sorvete e mais de uma criança, uma delas, inevitavelmente, só vai tomar o sorvete depois de ele derreter. Se há mais de uma criança, uma delas gosta do sorvete quando está derretido.

Pegamos mais, ele ficou olhando. “Põe o prato no sol pra derreter mais rápido.” Ele gostou da idéia. Empurrou o prato pela mesa até o sol que vinha da janela e chegava nela.

A avó, daí a pouco, terminou de passar o café. De fazer o chá de hortelã e poejo que eu gostava. O de erva-cidreira dela também. A madrinha chegou com o pão. Hora do café para que agüentasse. Precisava de espaço na mesa. A avó queria lavar a lata do sorvete para usá-la para guardar arroz. Inspecionou quanto faltava, quebrou lascas grandes com a colher e foi colocando nos pratos das crianças, para esvaziar logo. A gente ainda brigava para pegar mais do que os outros. Quando ela foi pôr um pouco mais no do neto caçula, minha irmã reclamou: “Para ele não, vó, pra mim. Ele está só fazendo nojeira.”

O menor, incompreendido e ofendido, protestou: “Não é nojeira! Eu já vou tomar. É um cemitério de bonecos de neve.”

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Kibon – Sobremesas com Sorvete!

Buraco

Gosto de passear pelo mato, atrás de mirantes, bichos, cachoeiras.

Uma vez, viajando, perdi-me. Pensei perder-me. Errei o caminho, caí numa estrada de terra estreita, esburacada, muito inclinada e irregular, que contornava a serra. Quando percebi a roubada em que estava, quis voltar, mas não conseguia dar meia volta. Nem coragem dava de tentar. A ribanceira, desguarnecida, era íngreme, funda. Meu carro não era do tipo que se usa no meio do mato, nem em estradas de terra assim íngremes. Eu tinha de dirigir muito devagar, primeira marcha, pé direito fundo no freio, segurando o carro. Soltava o freio com muito cuidado para não deixar pegar velocidade. Cada dez metros que descia, era um que o carro escorregava na poeira e ameaçava rodar pra fora da estrada, pela ribanceira, ou descer o resto da estrada por vontade própria. Ré também não dava. Era muito estreito, íngreme e sinuoso para, de ré, conseguir acertar o caminho de volta.

Desci quase uma hora, procurando onde conseguisse dar meia volta, torcendo para que a estrada de terra encontrasse outra decente ou voltasse sozinha para o lugar onde comecei. Não achei nada disso, mas, no ponto mais baixo do vale, a estrada continuava por entre duas casas. Parecia uma vila. Um pouco aliviado, fui por aquele pedaço, passando as casas, entrando no que pensei ser uma vila. Logo encontrei muitos cães e um lago à frente como se fosse uma parede. Tive de desviar para não atropelá-los. Muito mansos, outros cães atacariam ou fariam pose latindo para o carro. Eles me olharam quietos como se nem soubessem o que era um carro, que cães têm de latir para eles.

Eu vinha do sol de meio-dia e ali estava escuro, fechado de árvores. O contraste da falta de luz me cegou uns segundos até que eu me acostumasse. Então percebi que não era uma vila. eram só as duas casas. Decepcionado, olhei pelo retrovisor. A casa que, quando passei, estava à minha direita, a que deixei mais para trás ao virar para desviar dos cachorros, era muito comprida. Foi quando senti um tranco numa das rodas da frente. O carro pulou e o fundo bateu no chão. Minha roda tinha pego algo, e era muito grande. Temi ter atropelado um cão.

Branco de susto, preocupado, vi que, da curva que a estrada fazia mais à frente, várias pessoas vinham com ferramentas. Eram alguns homens imundos, algumas mulheres não tão sujas. Havia também muitas crianças com mochila e uniforme de escola, limpo.

Desci do carro para olhar o que era, antes de fechar a porta, ainda de frente para  pessoal que vinha. Já ouvi uma voz atrás de mim: “Prendeu bem mesmo!”. Era um homem já de idade que vinha por trás de mim, agachado, olhando por baixo do carro. As rodas da frente do carro haviam caído num buraco cheio de água, fundo, largo, entrou metade de cada roda.

O pessoal que vinha pela estrada parou junto de mim, surpreso por haver alguém ali, ainda mais alguém encalhado. Entrei no carro e tentei sair de ré, depois de frente, sempre devagar. Depois tentei rápido de ré. O homem me fez sinal para parar: “Moço, não dá. Cada vez que o senhor tenta, a roda cava o buraco um pouco mais fundo. Não vai sair assim. Vai ter de puxar.”

Imagine-se assim, no meio do mato, encalhado numa poça funda, sem sinal de celular para chamar o guincho, sem saber explicar como o guincho possa chegar ali, sem querer explicar como fez a besteira de encalhar no buraco. Eu devo ter feito uma cara bem desconcertada. o homem ajudou: “Descansa a cabeça, vem cá almoçar com gente. O patrão já chega pro almoço, o carro dele é grande, ele reboca.”

A essa altura, a molecada que tinha voltado da escola, brincava já de tentar empurrar meu carro. Os homens passaram direto. As mulheres olham em roda, de longe: “Ixe, como foi isso? Como vai fazer isso agora?” O homem me pôs-me a mão no ombro, apontou a casa comprida: “A gente já resolve. Vamos lá almoçar.” Agradeci a oferta, a atenção, e fui com ele. Conversamos sobre de onde vinha, como cheguei ali. Ofereceu-me pinga. Vi uns pedaços de limão junto à garrafa. Pedi um para chupar enquanto bebia a pinga. Eu sei, não devia beber e dirigir, mas não achava que ia sair dali tão cedo.

O patrão, um japonês simpático que eu já havia visto na cidade, é dono de um restaurante simples perto da matriz, ele chegou. Seu carro era pouco maior que o meu, mas era do tipo que usam no interior, em fazendas, mais adequado ao terreno. Almoçamos arroz, feijão, farofa de banana, truta criada ali mesmo no sítio. As duas casas não eram uma vila. Aquilo ali era um sítio onde ele criava trutas. O lago que eu vi na entrada não era lago, era um dos tanques de peixes. Havia ao menos meia dúzia, grandes, lado a lado, e outros, disse ele, mais à frente depois das árvores. Disse ter dado sorte, a família chegou ali quando a cidade era pequena. O terreno do sítio, mal localizado para morar, saiu muito barato. Quando começou a moda de comida japonesa, percebeu que o clima dali era bom para criar trutas, a criação é barata. Passou a fornecer para os restaurantes japoneses que abriram na região.

Demos uma volta pelo sítio, tomamos café. Ofereceu-me fumo caseiro. Recusei, não fumo. Chamou uma mulher, não me lembro o nome, pediu para me trazer licor. “Você precisa experimentar, minha mulher é quem faz. Você disse que não gosta de açúcar, ela também não.” Pediu para me trazer também a mariola, que ela pegasse a do forno, mole e morna ainda. Agradeci muito tanta gentileza. Agradeci mais ainda a mariola, deliciosa. Dizem que a banana dali é a melhor do mundo. A mariola, não experimentei todas do mundo, mas aquela com certeza é a melhor. O licor de café caiu bem, amargo gostoso. Lembrei-me da subida da estrada na volta e pedi mais café.

Conversamos mais até que o empregado veio avisar que já tinham tirado a água. O japonês me chamou em direção a meu carro. A água, percebi, era a do buraco. Os empregados a tiraram com uma bomba. Dava para ver direito agora. A roda direita não tocava o chão. Perguntei se o japonês conseguiria puxar. Ele respondeu que, se puxasse, iria estragar toda a frente do meu carro, que o jeito era empurrar. Apareceram outros funcionários com umas tiras velhas de pneu de caminhão. Forçaram embaixo das rodas, calçando-as. Cobriram parte do buraco com uma prancha de madeira, para as rodas de trás não caírem lá. um mundo de gente sentou em meu para-choque traseiro. Veio mais outro mundo de cada lado, e todos empurraram enquanto eu dei partida, estercei o carro para a direita, para sair do buraco com as rodas da frente e tentar que as de trás não entrassem. Acelerei e engrenei devagar. Tive impressão de subir uma parede. O carro, quando saiu, parecia que estava empinando, de chifra, como uma moto. Aplausos, e o povo já começou a me dar ciao. Desci, despedi-me, agradeci tudo. Perguntei pelo caminho. O japonês respondeu que só havia aquele por onde eu vim.

Agradeci de novo e me despedi de novo, e voltei para a estrada. Para voltar, subi em primeira marcha, devagar, velocidade constante, sem mexer o pé no acelerador a subida toda, nem para mais, nem para menos. Demorou, mas consegui subir tudo, sem muitas derrapadas.

Demorou mais de meia hora, encontrei o asfalto de novo.

 

Outro Casal do Café

Eu cresci acostumado a tomar alguns cafés ao longo do dia. O café com leite da manhã, para ajudar a acordar, acompanhado pelo pãozinho com manteiga. O cafezinho de depois do almoço, confesso que ainda acho esquisito rebater a comida com um café, mas tomo. O café do caminho do trabalho pra casa, o café da hora do café à tarde, o do lanche da manhã, o de quando o amigo chama para conversar enquanto ele fuma, o de quando eu chamo para conversar sem fumar, o da ida para o passeio, o da volta, o da loja, o da sala de espera, o da reunião. Um vez, fiz a experiência de acumular, na minha mesa no trabalho, os copinhos plásticos dos cafés que tomei durante o dia. Foram catorze copinhos, todos duplos. Meu filho, visitndo-me no trabalho, no caminho da recepção para a minha mesa, encontrou a máquina de café. Enquanto pegava um cappuccino, foi grampeado por um colega meu: “Aposto que eu acerto quem é o teu pai.” Acertou mesmo. Uma criança de quatro anos, que não resiste a uma máquina de café… foi até fácil acertar. Eu sei que exagero.

A garotada de hoje em dia não toma café. Dá mal hálito, eles dizem. Na verdade, eles não conhecem o verdadeiro papel social do café. Quando eu passeio, vejo essa garotada, os mesmos que reclamam do bafo de café, conversando em rodas na rua, em torno de garrafas de cerveja, de refrigerante batizado com álcool, vinho barato, cigarro, maconha. Isso sim dá bafo, bafo insuportável. Além de que, não sei a graça toda que vêem nisso, não me parece um bom jeito de aproveitar a companhia. O café é sóbrio, não altera a consciência, aquece e pede um lugar calmo, confortável, com silêncio. É no café que se pode relaxar e ter uma conversa tranqüila e pautada.

Há vários endereços de cafés que eu conheço, para várias situações e sabores diferentes. Ultimamente, tenho freqüentado muito um que abriu perto de casa. É prático, na volta do trabalho ou na volta dos passeios. Tem pouco movimento no fim da noite, um terraço grande, tomadas disponíveis para carregar o telefone ou o notebook, mesas confortáveis para escrever. É bom para conversar, estudar, pensar, desenhar, ouvir música. O pouco movimento é quase só de casais namorando, e de futuros casais tentando começar a namorar.

Na fila para pegar o café, ontem, havia um casal logo à minha frente. Fila pequena. Mas eu já sabia o que ia pedir, peço sempre as mesmas coisas, deu tempo para reparar neles. Acho que reparo muito. Não se tocavam. Sorriam bastante, olhando para o cardápio, para o caixa, para a fila, pra a decoração, para baixo. Não deviam namorar, ao menos não ainda. Perguntaram-se sobre o que queriam, sobre de que gostavam. Deviam estar se conhecendo ainda, futuro casal. Demoram um pouco escolhendo, já no caixa. Fazem o pedido. Eu também faço o meu, mais rápido.

Chegam os copos, eles sobem. O meu chega logo em seguida, subo atrás. São dois lances de escada, paredes de vidro, até o terraço. A esta hora, já está tudo fechando, só o café fica até tão tarde. Tem pouco barulho na rua. A noite, o frio, antes não incomodava. Desde que entrei começou a ventar um pouco e é o vento que incomoda.

No terraço, chegam à minha frente e pegam o último sofá, debaixo do guarda-sol que, à noite, só podia guardar a lua, as estrelas, sol não há. Se fossem namorados, escolheram errado o assento. Que graça há em se sentar ao luar com estrelas cobertos por um guarda-sol? Nem sob o céu feio de São Paulo há. No sofá sem braços, de encosto muito baixo, quase um pufe largo, jogados, para trás, ficavam quase deitados, barriga e rosto para cima, deviam ver só o forro e as varetas do guarda-sol. Que desperdício de visão. Preferiam, então, olhar os copos, a mesa. Talvez preferissem, mesmo se estivessem descobertos.

Para mim, sobrou escolher uma das três mesas que estavam vazias, com cadeiras comuns, de metal. São confortáveis e a que escolhi não tinha guarda-sol. Pousei meu café na mesa, caderno e lápis juntos, ao lado. Tiro uma foto deles para documentar o que fiz, talvez a use no meu blog. Tenho mania de guardar fotos dos cafés que tomo. Minha mesa não tinha um sofá confortável. Sozinho, escrevendo, não me faria diferença não ver as estrelas, mas fiquei sob sua luz. Há algo de romântico nisso, noite, vento, bebida quente, lua, estrelas, meter-se a escrever com caderno e lápis, mesmo para quem está sozinho.

No sofá atrás do casal que não sei se era casal, um outro garoto, digo garoto porque já não sou mais da idade deles, acendeu um cigarro. A garota não gosta, faz cara de de nojo, desvia o cabelo. Acho que tem medo de o cheiro do cigarro pegar-lhe ao cabelo. O garoto oferece-lhe parte de sua metade do sofá: “Chega aqui, senta mais pra cá.” Ele se chega mais para a borda, mostrando o espaço que deixou para ela se chegar.

Ela aponta a borda onde ele está, ao lado do parapeito de vidro do terraço, de onde se vê a rua e as copas das árvores descendo a alameda. Ele é quem chega pro meio e deixá-lhe a borda. Ela se senta, olhando para baixo, para o assento, talvez para ter certeza de que vai se sentar na poltrona e não no colo dele. O vão que ele lhe deixou é apertado, o sofá mesmo é pequeno. Ela, para caber direito no vão estreito, se senta meio de lado, ombros no encosto, pernas esticadas para fora, apertada entre ele e o parapeito de vidro. A posição não parece muito cômoda. Ela se ajeita um pouco mais, com o corpo o empurra. Ele lhe dá alguns centímetros a mais de assento. Agora ela consegue pôr o copo na boca e beber com segurança sem babar. Brinca: “Não adianta ficar assim grudado, eu não vou dar pra você.” Ele ri: “Está bem, melhor você já ter me falado mesmo logo de cara, assim eu também não preciso fingir que gosto de você.” Riram. Ela, rindo, lhe xingou e se acomodou melhor. Deram-se os braços, como namorados de antigamente. E se encostaram, sentados, afundados no sofá, olhando um para o copo do outro, conversando baixinho, agora sérios, discretos.

Eu não conseguia mais ouvir. Foi quando percebi que estava sendo bisbilhoteiro. Que coisa feia, escutar a conversa dos outros! Experimentei a temperatura do meu chá e foquei no caderno. Desenhei, escrevi. Sei escrever, não tão bem como gostaria, mas gostaria também de saber desenhar. Faço só uns rabiscos, mais brutos que de criança. Crianças desenham na escola, regularmente. Eu desenho envergonhado, escondido, enquanto penso no que escrever. Desenho bem mesmo quando desenho fora do papel, só pensando. Mas aí não tem graça, ninguém vê.

O vento incomodava, não era nada que me fizesse querer sair correndo pra casa ou procurar um agasalho, mas me encolhi um pouco, pra me aquecer em mim mesmo, e mergulhei dentro do caderno. Escrevia com o braço junto ao corpo. A outra mão, braço encolhido, segurando o copo quente no colo. Quando o chá acabou, daí uns quarenta minutos, senti as costas e o pescoço doloridos da posição. Mexi-me e espreguicei. Pensei em pegar mais uma bebida, algo quente com leite. Demorei pensando em quê.

Indeciso sobre a bebida, acabei reparando de novo no casal. Chegaram em algum ponto conclusivo da conversa. Aquele momento em que os casais, ali no terraço daquele café, fazem cara pensativa e olham hesitantes cada um para o próprio copo, fugindo um do outro, pensando bem se devem dizer o que querem dizer. Foi ele quem disse alguma coisa então. Ela pôs-lhe uma mão sobre um dos pulsos, que ainda segurava o copo, e olhou-lhe, séria. Ele também tomou coragem de olhar.

Estavam tão próximos que não fazia sentido não fazer nada. Ela inclinou o rosto e tocou os lábios dele com os seus entreabertos. Só tocou e aí olhou-o mais diretamente, com os olhos fixos. Ele ficou mais encabulado, vermelho, olhou para o copo dela: “Você sabe que pra mim isso significa mais do que se você tivesse dado pra mim.”

Aí foi ela quem ficou vermelha, voltou a olhar para o seu copo e pôs-lhe a cabeça no ombro. “Eu sei… tambem você significa pra mim mais do que isso.”

Em Branco

Quando se pega o costume, uma noite sem escrever não é apenas uma a mais. É uma a menos, parece que não foi vivida. Uma folha em branco.

Imagina passar dias, algumas semanas sem escrever. Se não aproveitar essas folhas depois, se as pular como folhas em branco de uma agenda, é como pular uma parte da vida. Dias sem registro. Dias em branco, folhas em branco.

E as folhas puladas, se a gente se acostuma, acabam virando folhas enormes, eternas, amarelam, amassam, estragam. O caruncho as come e não aceitam mais tinta. No caderno, dos dias vividos, essas folhas parecem de papel de seda, aquele dos pipas, grandes de chatas, finas, translúcidas. Mas já não servem mais para pipa. Pesadas, não tem como fazê-las voar.

Fossem lençol ao invés de papel, não me cobriria com ele ou sobre ele para passar a noite e dormir. Ao invés, vestiria-o, em pé, e vagaria como fantasma.

Vento e Ventania

a spirit with a vision is a dream with a mission

Saí mais tarde do trabalho, é a vantagem das férias escolares, acaba a correria, diminui o trânsito, não preciso de pressa, posso fazer e terminar minhas coisas com calma.

Mesmo assim, ver já tudo escuro e a lua bem nítida, brilhante, já no alto do céu, impressiona. É bonita, bonita demais, lá tão longe. Esta no crescente. Olhando daqui, as pontas voltadas para cima, ela parece um sorriso.

Tão bonita! Quero uma foto. Uso a câmera do celular. Tenho uma câmera tão boa que comprei estes dias, só para essas fotos mágicas. Nunca me lembro de trazê-la.

No LCD do celular, percebe-se fácil que a foto ficará ruim. O céu devia ser negro, totalmente, mas fica numa cor de não é nem preto nem cinza, é um papel escuto embolarão, manchado de cores impuras. São os postes altos de iluminação da chácara onde eu trabalho que atrapalham o foco e a nitidez.

Preciso de um lugar sem esses postes de iluminação artificial. Aqui em São Paulo, nos arredores de São Paulo, é difícil.

Eu esperei até mais tarde exatamente para poder fazer o caminho mais curto, rodovia boa, pedágio barato. Chegar em casa em vinte minutos. Mas o caminho que faço normalmente, a estrada pelo bosque que corta a serra, é escuro, os morros fazem corta-luz. São ao menos cinco quilômetros sem postes, estrada escura, sinuosa, perigosa, linda! Linda! No escuro dela, no alto de um dos morros, na estrada entre o bosque de eucaliptos e pinheiros, eu posso, quem sabe, conseguir um foco nítido da lua.

A tentação do incerto prêmio, talvez uma bela foto da lua no céu negro, é irresistível. É por ali que eu vou, pelo bosque.

Eu até já sei qual o melhor lugar para a foto, é logo no começo, no alto da primeira subida da estrada. Esse trecho é longo e é onde a estrada chega mais ao alto. Bem lá em cima, ainda há muitas árvores, elas fecham os dois lados da estrada. É sempre bem escuro. Se, dali, a foto não for boa, não será de nenhum outro lugar. É bolando isso que eu dirijo. Cuidado para, afoito, na pressa, não perder o controle do carro.

São cinco minutos, logo chego lá. Nem precisava de pressa.

Está frio, melhor pegar o agasalho. Tenho um moletom batido, vermelho, no carro. Esse moletom tem história. Visto, está fedido de guardado no carro.

Estacionei dentro de um terreno, subi a guia, não há calçada. Nem grade aqui. Acho que estão mapeando para construir um condomínio. Já não há tantas árvores e, subindo uns cem metros, há um morro, pelado, o mais alto daqui, sem iluminação nenhuma.

Subo. A terra vermelha suja meus tênis, xingo. Mas foda-se. E o frio incomoda.

Quanto mais subo, mais o vento incomoda. E não é só por subir. Cada vez venta mais, mais forte. É muito ruim.

Em cima do morro. Aliviado por terminar a subida e reclamar meu prêmio, sorrio e pego o celular, a única câmera que tenho. Miro a lua, bonita. O vento gelado, muito forte, incomoda, briga comigo, não quer eu eu tire a foto. Nem precisava, o foco, não sei porque, não entendo ainda o suficiente de fotografia, não está bom. O foco, a luz, a foto, nada fica bem. É uma frustração só.

Desisto da minha foto, da lua.

Ali, agora, estou só. Só com o vento e a ventania.

Domingo de Manhã com o Pai

Eu fui com o pai pro quintal. Ele ia me ensinar, não sei se eu queria fazer aquilo, mas queria aprender, achava importante. Fui com ele.

Do lado de um dos galinheiros, são quatro grandes, todos de alvenaria, mais a coelheira e o pombal, grudado ao muro da vizinha, ele tinha um cubículo dele. Nesse cubículo, em alvenaria também, havia um balcão, de mármore. O pai havia trabalhado numa pedreira, motorista de caminhão, comprava mármore defeituoso a preço bem abaixo do mercado. Havia também tanque com torneira, churrasqueira, uma mangueira pendurada na parede.

O pai foi até o quartinho, a edícula, gente comum chama de quartinho, trouxe um caldeirão, uma garrafa de pinga, carvão, um pedaço de estopa, o facão e a podão, de cortar roseiras.

Ele jogou carvão na churrasqueira. Pegou a estopa, deu um jeito de segurá-la presa ao podão. Molhou-a com uma pontinha de pinga e pôs fogo. Com esse facho, remexeu o carvão. Quando conseguiu as primeiras brasas consistentes, deixou a estopa enterrada no meio do carvão e foi guardar o podão e a pinga. Voltou com um copo pela metade e bafo da pinga.

No tanque, encheu o caldeirão com água. Depois, deixou-o sobre a churrasqueira. Para a água esquentar. Lembrou-se de algo. Foi de novo até o quartinho e voltou com um pano velho. Parecia de chão.

Bebeu uma bicada da pinga e foi abrir um dos galinheiros, deixar as galinhas saírem. Brincou com elas. Disse-me, apontando um frango: “Pegar esse.” Com o sotaque dele, de ilhéu, fica muito diferente de quando eu escrevo. Enquanto eu peguei o tal frango, ele tocou todas as outras galinhas de volta pra dentro do galinheiro. Quando fechou a porta, que fechava feito guilhotina, ele também tinha um frango na mão. Pegáva-o pelo pescoço. Eu segurava o meu com as duas mãos, pelo corpo.

“Pegá-lo pelo pescoço.” Em seu dialeto não existe o imperativo. Para mandar fazer algo, usam o infinitivo. Acho estranho, hoje em dia, a mania que as pessoas pegaram de usar o infinitivo no lugar do imperativo. Parece-me um eufemismo besta. Como se estivessem instruindo, dando receita, ao invés de mandar. Irrita-me. Mas estes dias, percebi que meu pai, e seus patrícios – no meu bairro havia muitos – faziam assim naturalmente como se omitissem um “Você precisa…” antes da ordem.

Substituí a mão direita pela perna, para o frango não escapar enquanto tentava segurar-lhe o pescoço. Ele tentou-me bicar duas ou três vezes. Talvez tenha conseguido uma. No final consegui. O pai, prático, já deu a receita: “Segurá-lo já entre as pernas. Sem soltar o pescoço.” Falou rindo. Meu pai, quando se diverte, tem um sorriso banguela que é uma risada. Troquei a outra mão também pela perna. Ele ficou preso, pelo corpo, entre minhas pernas. Com a mão direita, eu segurava seu pescoço, tomando cuidado para não deixá-lo me bicar. Eu morria de aflição. Morro de aflição de machucar bicho.

“Pô-lo mais para dentro, até o ombro.” Não entendi o que o pai quis dizer com isso. Ele percebeu que não foi claro. Com o frango que segurava, mostrou-me o que queria dizer: segurou seu frango entre as pernas, o pescoço entre seus joelhos. Pensei, olhei e tentei fazer igual. “Mais para baixo.” Ele recomendou. Imitei. Ficou mais fácil. Com os nós dos joelhos era mais firme segurar o bicho. “Agora, puxar-lhe de uma vez.” Eu já sabia que ia dar nisso, mas ainda assim fiquei impressionado. Puxei fraco, com medo de machucar. Não adiantava. “Puxa.” Nessas horas, o pai já me tinha dito antes, há-de ser sério e decidido, para não sofrer tanto o bicho. Puxei com força, achei que fazia força. “Assim.” O pai disse e puxou o dele, violento, de uma vez. Ouvi um estalo, igual as pessoas fazem quando estalam – ou será estralam? – os dedos. O pescoço do frango dele ficou bobo. Seguindo o exemplo, tentei fazer igual. Foi difícil, depois de duas tentativas, na terceira, consegui. Senti algo quebrando, como um brinquedo. O pescoço do frango ficou mole, bobo. A cabeça só não caiu porque eu a estava segurando.

O pai então me ensinou tudo o que tinha de fazer: banhar na água quente, depenar, banhar, depenar, banhar depenar. Até só ficarem os penachos. Aí, queimar os penachos no fogo da churrasqueira, arrancá-los. Queimar um pouco a pele do bicho. Lavá-lo. Ele, sempre, tem de ficar de cabeça para baixo, para o sangue escorrer e se acumular no pescoço. O pescoço cheio de sangue fica bom na canja. Eu faço igual.

Aí, pendura o bicho, de cabeça pra baixo, com um pedaço de barbante, num dos pregos da parede. Limpa a sujeira. Guarda o que não precisa mais. Lava o balcão, usa a mangueira pra isso.

Enquanto eu espero, olhando os dois frangos pendurados, parece que os velo, o pai vai pra cozinha e volta com uma bacia de metal. Pega o podão e vai me mostrando onde cortar. Corta ele, corto eu. Deixamos os pedaços picados na bacia. Com a mangueira, os lavamos de novo.

“Na cozinha.” Ele leva a bacia, eu acompanho. Na cozinha, ele faz uma mistura de óleo, alho amassado, manteiga, ovo, pinga, orégano, sal, pimenta do reino, colorau. Acho que era só isso. Joga a mistura na bacia e começa a besuntar os pedaços de frango nela. Eu ajudo.

Voltamos para o quinta. Desta vez, ele não disse nada. Na churrasqueira, em cima da grelha, pusemos os pedaços picados e temperados. Essa parte eu já tinha feito antes.

Corri na cozinha, cortar rodelas de pão. Ficam boas lambuzadas naquelas mistura e torradas na churrasqueira.

Meu pai controlou o ponto da carne. Esqueceu de ensinar-me isso. Quando estava pronto, trouxe da cozinha uma panela grande e o colocou dentro. Eu, sozinho, fiz as torradas. Elas são minha invenção. Faço para agradar a avó e meu irmão menor. O pai me trouxe uma travessa. Pus as torradas.

Levamos a comida para a cozinha. A mãe ia embrulhar direito para levarmos para a refeição na casa da avó. Enquanto isso, terminamos de limpar a bagunça, arrumar, lavar as coisas. Não deu tanto trabalho.

No final, o pai terminou a pinga que tinha deixado no copo. “Vamos.” Não precisou pedir duas vezes.

Meu pai não tem muito jeito para cumprimentar, dar parabéns ou coisa do tipo. Na escada para a cozinha, falou: “Na hora de comer, escolher primeiro as partes que quiser.”

O Anel do Nibelungo

Era uma noite para atravessar assistindo o ópera, mas tinha de ser uma muito boa. Eu corri para o shopping, comprar uma em DVD para assistir. Preciso descobrir algum bom serviço para assistir ópera pela internet, para não ficar enchendo a estante com caixas de discos.

No caminho para o shopping, já pensei em toda a noite e no que precisava: o filme, pão (seria o jantar, só pão), vinho (para aquecer por dentro e saborear aos poucos). Precisava também de um edredon, isso eu tenho escondido junto da poltrona, é só pegar.

Passei na livraria, tinha vários DVDs de óperas, a maioria de coisas esquisitas, algumas que eu nunca ouvi falar, outras de mesmice, aquelas curtinhas, romantiquinhas, lugar comum. Olhei muito a prateleira toda, de cima a baixo, esquerda a direita, algumas vezes. Acabei escolhendo, das lugares comum, uma que eu ainda não tinha visto. História batida, talvez a música fosse boa. Talvez o vinho ajudasse.

Já estava indo para o caixa, ainda não todo conformado com a escolha. No caminho vi uma caixa azul, bonita. O Anel do Nibelungo em Blu-Ray, completo, as quatro óperas. São mais de vinte horas de drama. Dão uma bela maratona! Curioso com o preço… Por esse preço não dá para resistir. O programa da noite, vai varar o dia seguinte. Vou precisar de mais algumas coisas na lista de compras: café, mais pão para amanhã, frutas. Adiar o barbeiro. Não vou a lugar nenhum, pra quê barbeiro?

Corrida pro mercado. O vinho é fácil de escolher: Douro, o mais barato que tiver. Pêra-rocha e tomate. Pão francês fresco pra hoje e congelado pra amanhã. Do caixa, eu volto para pegar duas garrafas de água. Talvez em casa não tenha.

Para casa. Banho, quentinho! Óleo perfumado, é bom! Pijama novo. Na verdade, uma camiseta e um moletom novos, para usar de pijama. Acho que eu mereço.

Abro o vinho, pego meio copo. Rasgo os dois pãezinhos ao meio, tiro o miolo e os coloco no prato. Faltou queijo. É um programa perfeito pra queijo fundido. E pra uma lareira também. Está frio.

O primeiro disco no Blu-Ray, sento na poltrona, pernas cobertas pelo edredon no pufe grande que também serve de mesa de centro, vinho na mesa do canto. Hora de começar.

Bebo uma bicada do vinho, nada do filme começar. Barulho no Blu-Ray. Espero, espero. Impaciente, enfim, abro a bandeja e olho o disco. Tem um veio diferente no material, defeito de fabricação. A loja já fechou por hoje.

Não dá para pular o primeiro disco e ir adiante pelos outros. Talvez dê, eu é que sou um chato. Largo o copo e o pão ali na sala. Esquece. Melhor escovar os dentes e dormir, ao menos me esqueci de desmarcar o barbeiro.

Harpia

O menino se sentou com o lanche no toco de árvore que servia de banco no mirante. O lanche era, na verdade, só o que comeria de almoço. Para um almoço era algo bem simples. Um pedaço de pão, outro de queijo, uma pêra e chá gelado, guardado na garrafinha da água mineral. O lanche está num mochilete que lhe serve de farnel, exceto a garrafinha do chá, que ele pegou de um isopor com gelo, no porta-malas.

Mesmo com os óculos, tem alguma dificuldade para enxergar. A paisagem é só um relevo de tons de verde. É complicado fazer foco para distinguir as árvores, as trilhas, uma montanha da outra, encontrar de onde vem o barulho de água.

Pendura o mochilete no ombro esquerdo e se senta um pouco mais para o lado para sentar a garrafa, aberta, a seu lado no tronco. Ela lhe encosta gelada na perna, incomoda, vai um pouco mais para o lado, para não encostar nela.

Assim, consegue usar a mão esquerda para pegar o lanche de dentro do mochilete, conforme vai comendo, e ainda tem a mão esquerda livre. Dá para segurar os binóculos com ela. Os têm pendurados ao pescoço.

Não tem pressa de comer, também não tem de olhar tudo. Com os binóculos dá pra ver, é muita coisa, muito detalhe. Fica olhando, parado, beliscando aos poucos a comida. Começa a entender as coisas que o pai fala sobre paisagens. Olhar parado ali, muita gente lhe diz que é chato, perda de tempo, se torna divertido por poder perder esse tempo olhando tudo o que achar curioso, sem pressa.

E ele olha. Come o pão, o queijo. Repara nas ondas sutis que fazem os galhos das árvores conforme balançam com o vento. Pássaros que voam do meio de um monte de árvores para outro. Sua distração só é distraída para chacoalhar uma formiga que lhe faz cócegas na perna. Olha se não tem outras, um formigueiro por perto, e volta para o lanche e a paisagem.

Pega a fruta. Vê uma árvore com a ponta, o topo, diferente, longe. Acerta o foco dos binóculos para longe, onde está essa árvore. Parece uma mulher sentada no topo. Uma mulher sentada, encolhida, com agasalho grosso, preto. Cabelos presos. De costas para o mirante. Fica curioso com o que ela faz, como chegou lá. Come a fruta, olhando-a. O que ela fará? Baba. Baba o pra direita da boca, pelo queixo, e a mão e o braço que seguram a fruta. Sem tirar os binóculos, limpa a baba do rosto com o ombro, é o ombro que vai até o rosto, para não perder o foco, o ombro da camiseta serve de babador. A mão e o braço, limpa na bermuda.

Continua comendo, com mais cuidado. Baba menos. Ela mexe a cabeça, olha para o lado, para a esquerda. Depois volta a cabeça para a posição anterior. Ele termina a fruta, seca de novo a mão e o pulso na bermuda. Não se distrai da mulher que está olhando. Fica segurando o toco da fruta, o cabo, o miolo mais fibroso, com as sementes, e o umbigo da fruta. Segura, postergando jogá-la no lixo. Não pode jogar lixo ali, nem mesmo resto de fruta. Um bicho pode comer e passar mal. Ou, imagina, nascer uma pereira no meio dos pinheiros! Não pode.

Depois de mais um tempo olhando, uns dez minutos, e segurando a fruta, a mulher, numa cerimônia bonita, ergue-se estufa o peito, levanta a cabeça, abre os braços, segurando, aberto, o agasalho. Agacha-se, de novo, um pouco e pula. Pula para frente e voa, de braços abertos, planando. Voa para longe. Dá a volta por trás de algumas árvores, aparece de novo mais adiante, e, por fim, some atrás de uma montanha.

“É uma harpia. É a maior águia que existe. O corpo é do tamanho do de uma pessoa da tua idade. As asas são mais compridas que meus braços. Bacana, não?” Era o pai. Havia lhe trazido um saco para jogar o lixo da fruta e, quando percebeu a ave que o filho olhava, parou, em pé a seu lado, olhando também. É fascinado por essas aves, são suas preferidas nos zoológicos. É raro conseguir ver uma solta.

O menino jogou no saco o resto da fruta, limpou de novo a mão e bebeu chá. “Parece uma mulher.” O pai ainda tentava vê-la, viu que o menino sujava a roupa, mas não ligou. “É por causa do tamanho e do formato da cabeça. E daquele penacho que parece penteado de cabelo. Têm até umas lendas sobre isso. Dizem que elas são mulheres, bruxas, que guardam um monte de lã de ouro de algum deus. Que viram águias quando querem, para se proteger, atacar ou voar até o lugar onde escondem a lã.”

O menino se levantou, bebendo ainda o chá. Seguiu o pai para o carro. “Se fosse verdade, ninguém tentaria segui-las para encontrar o ouro?” Suas refutações pré-adolescentes eram muito práticas e lógicas. Mais que o normal para alguém de sua idade. O pai achou engraçado ele argumentar. “É claro que é mentira.”

“E como você pode saber? Por acaso já tentou seguir?”

“Não. Mas é óbvio que essa história é mentira. Eu li num gibi do Tio Patinhas. Na história, o deus é grego, mas, até onde eu sei, harpias só existem aqui.”

Estava na hora de ir para a próxima parada do passeio. Foram embora, conversando.

Pausa

Tem coisas do trabalho que não se pode conversar no escritório, no meio das mesas, dos outros funcionários. O certo seria conversar em particular numa sala de reunião. Mas as salas de reunião dos escritórios novos são mal feitas, não isolam direito o som. Além disso, duas pessoas conversando numa sala de reunião, depois de algum incidente sério em que um deles esteve envolvido, chama muito a atenção. Eu percebi isso logo. Me acostumei a ter esse tipo de conversa noutros lugares, no posto de gasolina, na padaria. Foi por isso que chamei meu colega para conversar no estacionamento fora da empresa. Ninguém espada. Fica longe do prédio, quase um quilômetro de descida, precisa ir de carro. É normal as pessoas descerem lá para fumar e ficarem conversando.

Eu estacionei, peguei um chiclete, sentei na guia mascando. Meu colega acendeu o cigarro e se encostou no meu carro, fumando. Fechei a janela com o controle remoto, para não entrar fumaça, e fiz-lhe sinal de que ia se sujar, o carro estava todo sujo, pego estrada de terra todo dia. Ele deu de ombro e continuou.

Queria animá-lo, o clima andava bem pesado, desagradável. Não consegui, ele me explicou todos os motivos, sem a raiva que devia sentir. Explicou consciente, detalhado. Falamos sobre o que fazer. Ele não se animou, tampouco se empolgou com o plano de ação. Planejou e ia segui-lo tão maquinalmente quanto seu desanimo permitia. “É questão de tempo. Já vai acabar.”

Ele fumou três cigarros, incluindo aí o tempo que enrolei para destravar a porta do carro e deixá-lo pegar o segundo e, depois, o terceiro. Irritação me faz tomar café. A ele, faz fumar.

Pediu-me para voltar antes que pegasse o quarto. Levantei-me. Ele deu a volta no carro para entrar. Cheguei perto da porta, mas antes de destravá-la de novo, vi um bichinho no vidro.

Era uma abelha, quietinha, como se estivesse grudada na poeira grossa que sujava o vidro. Quieta demais, eu podia apostar que ela havia se encalhado na poeira e já estava cansada demais de tentar sair dali. Cansada demais para tentar fugir sozinha.

Eu não gosto de matar bichinhos, nem baratas, nem osgas, graças a Deus nunca precisei matar rato. Nem ratos sei se mataria. Fiquei com pena de dar partida ou abrir a janela com a abelha ali. Nem sei que mal isso poderia lhe faz, mas tive pena. Sempre tenho. Ainda mais da bichinha ali, parecendo indefesa.

Meu colega me perguntou o que tinha acontecido. Falei da abelha no vidro, que ia colocá-la no canteiro de flores atrás de mim.

Procurei alguma coisa, peguei o crachá. Pensei se estava ainda viva. Estava, enquanto a recolhia, com cuidado, tenho aflição de achar que vou machucar bicho, usando o crachá, ela mexeu um pouco as anteninhas. Ainda assim, ela nem fugiu, nem ficou em pé no crachá, caiu de lado, deitada nela. Nem se aconchegou, como fazemos ao deitar na cama, na poltrona, ou no colo. Devia estar muito mal.

O crachá de plástico é liso, eu só tinha que girar o corpo, meia volta, para colocá-la nas plantas. Casca de inseto também é lisa. Mesmo com meu cuidado, ela escorregou e caiu. Caiu direto pelas frestas do ralo grande que recolhe a água da chuva. Ele estava logo à minha esquerda.

Olhei pra dentro do ralo. Dá pra ver, entra bastante luz. Procurei a abelha. Ela já estava grudada numa teia de aranha.