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PDV
No caixa, ele beijou a mão dela, como faz quase todo dia:
— Você cobra para mim?
— Claro. Um café e um pão-de-queijo?
— Dois. E dois pães-de-queijo também.
— Dois? Você tomou dois?
— Sim, dois. Eu tomo dois todo dia.
— Catorze reais.
— Cobra no débito, por favor.
— A máquina está do seu lado, você pode pôr o cartão nela?
— Claro.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Só uma? Pode.
— Você é gay?
— Sou. Por que?
— ‘Tô falando sério, você é?
— E eu não respondi sério? Eu sou.
— Você é casado?
— Com uma mulher. Mas tenho dois peguetes.
— E tua mulher?
— Ela também é. Ela tem as peguetes dela e também pega os meus.
— Eu não acredito. Só acredito se eu vir você com outro homem.
— Isso você não vai ver…
— Não vou ver porque você não é. Eu não acredito que você seja.
— Por que não?
— Porque… — abaixa o rosto, encabulada.
— Então por que você perguntou? — sorriso, feliz por ela ter ficado encabulada.
— Ah! Porque ia explicar…
Não terminou a resposta. Já chegou outro cliente no caixa. Estavam os dois chateados por não acreditarem na resposta que sabiam que era mentira.
— Ciao — ele acenou com a mão, piscou o olhou e mandou um beijo.
— Tchau. — Ela também mandou um beijo e foi providenciar o troco do outro cliente.
Olhar
Esta semana, tenho trabalhado à noite, cobrindo férias de um colega. Trabalhar à noite gera a ilusão dos dias livres. Logo dava impressão de que podemos por todos os assuntos atrasados em dia. Ilusão mesmo. Estou trabalhando das dez da noite às seis da manhã, em casa. Após o trabalho, levar as crianças para a escola, tomar café da manhã — é de manhã, oras, — já são nove horas e não dormi nada. Tento dormir, não estou acostumado a dormir de dia, consigo até umas duas ou três da tarde só. Acordo com fome, o estômago se lembra de que passou a hora do almoço e os olhos de que ainda é de dia. Como alguma coisa e já é hora de pegar as crianças na escola. Depois, fazer jantar, academia, banho e já é de novo hora de trabalhar. Acabo percebendo que só dá tempo de fazer o que sempre faço, mas em horários diferentes. Isso frustra. Ter o dia para si parece liberdade. Mas liberdade é poder fazer o que quiser, ou nada, ou dormir porque quer, sem precisar.
Liberdade é fazer o que se quer, mesmo que não seja nada diferente ou especial. É respirar o ar e provar o quão bem ele sabe.
Acordei segunda, terça e quarta-feira à mesma hora, depois do almoço. Peguei metrô. Comi sanduiche de pernil e tomei chá, gelado, escrevendo. Tão normal e sem graça como qualquer dia pode ser. Como se não tivesse de fazer diferente por, afinal de contas, serem sempre assim. Para completar, segunda e terça-feira, sentei-me, por coincidência, no mesmo lugar, no balcão alto de madeira que me serviu de mesa de merenda e também de escrivaninha. Quarta-feira e hoje, sentei-me numa mesa. Por coincidência na mesma mesa. Fico imaginando se amanhã e no sábado sentarei-me também duas vezes no mesmo lugar. Há um ditado que diz que algumas coisas só acontecem uma vez, mas nada só acontece duas. Essas coincidências devem ser assim. Esta do lugar deve ser e eu aguardarei, talvez com uma ajuda, que se repita uma terceira vez para não desmentir o ditado que desenterrei.
Nesta mesma mesa, ontem, sentei-me, não tenho certeza mas acho que na mesma cadeira ou noutra na mesma posição, de frente a uma mesa com quatro meninas. A mesa ainda está ali, na mesma posição. As cadeiras não todas. Cadeiras são leves por isso o pessoal toma a liberdade de mudá-las de posição, de uma mesa para a outra conforme a conveniência. Enquanto eu escrevia e tomava meu chá — mas, principalmente, escrevia — a menina mais próxima à minha mesa, sentada de lado para mim, quase encostada à minha mesa, me olhou. Essas olhadas normais de quem relaxa os músculos do pescoço e dos ombros, cansados de manterem a cabeça parada muito tempo na mesma posição, com um movimento diferente. Olhada de quem se cansaram os olhos de uma cor, um canvas, uma iluminação, e os relaxa, espreguiça-os, olhando se há alguma novidade no que está em volta. Olhar despretensioso, sem maior intenção, que teria passado em branco se não tivesse cruzado com o meu e eu notado a expressão de desprezo que eles sincronizaram, junto com a boca e o nariz. Parece que, para ela, eu, por algum motivo, não tinha direito de relaxar meus olhos e pescoço como ela se isso me levasse a vê-la. Coisa de mulher antipática, as que se acham bonitas costumam ser. Nisso não a culpo, por se achar bonita, era muito. Seu olhar de desprezo não me faz diferença, assim como sua beleza. Imagino pelo quê ela julga as pessoas com quem se relaciona.
As outras três, apenas olhavam para o centro da mesa. Não tinham o mesmo movimento periscópio de pescoço quando precisavam aliviar a tensão. Em vez, olhavam para grupo, uma a outra, ainda conversando. Conversavam. Papo de meninas provavelmente. Aqueles burburinhos que não atrapalham, mas, às vezes, chamam a atenção por uma palavra ou sílaba pronunciada mais alto.
Foi assim que, após um pequeno silêncio na conversa, uma delas me surpreendeu dizendo alto algo sobre “…quando fulano e eu paramos de ficar…” O silêncio quebrado por algo assim, não é coisa que passe despercebida, mesmo para quem está de fora da conversa, só tentando escrever e beber chá. Isso por si já, quando eu tinha a idade delas, não era coisa que se dissesse em voz alta. Distraída então a minha atenção, fiquei curioso de ver a cara da dona da frase. Ela estava na posicao oposta à da loira que me desprezou, também de lado para mim. Outra delas, que estava de costas para mim, me encobria vê-la. Inclinei-me um pouco para a direita e vi seu corpo pequeno, vestido azul. Depois inclinei-me para a esquerda, e vi seu rosto. Não devia ter dezoito anos ainda. Admirei-me por um instante, mas depois, pensando bem, lembrei-me de que, quando era adolescente,mas conversas também iam por aí. A diferença é que não conversávamos sobre isso em voz alta num café lotado.
Olhei as outras meninas da mesa, mais comedidas, até mesmo a antipática, mais velhas também, ligeiramente. A loira devia ter uns 21. As outras duas por aí também. Talvez vinte. A que estava de costas para mim, via-se que era patricinha, como as duas anteriores, a loira e a da fala alta. A quarta, de frente para mim, era diferente. Pele mais morena, não usava roupas novas e de marca. Via-se que era diferente das outras. E falava pouco, em meio à falação da mesa. Uma morena bonita, sem produção. Parecia tímida. Olhava muito para a mesa e para a menina à sua frente, a que estava de costas para mim, não diretamente no rosto.
Falaram algo como “Vamos” e se levantaram as outras três. Achei que iam embora. A morena continuou sentada e falou algo, uma ou duas palavras só, para a loira antipática. As três foram para o caixa, ficou a morena guardando a mesa.
Ela tinha um papel que segurava com as duas mãos, estendidas sobre a mesa. Olhou-o e mexeu nele, primeiro esfregando com os dedos como se estivesse verificando se era uma única folha, depois enrolou-o feito cigarro. Quando consegui, desenrolou-o quase todo e olhou na minha direção. Não era aquele olhar de quem relaxa, espreguiça os olhos. Ela o fixava em algo, na minha direção, mas o olhar ia longe, passava por mim.
Eu, numa pausa entre duas frases que digitava, olhei-a. Um olhar não só fisioterapêutico, confesso que foi curioso também. Ela se incomodou, eu percebi. Seu corpo recuou um centímetro, ou até menos, foi um movimento imperceptível, mas que aconteceu, como se meu olhar, talvez inesperado, a tivesse empurrado. Ainda assim, o olhar dela permaneceu fixo. Isso me incomodava. Fiquei olhando-a como se jogássemos o isso. Nossos olhares se esgrimavam. O meu, fixo, desafiando o dela, insistente, que me incomodava. Foi complicado resistir à tentação de desviar, procurar algo ao fundo para olhar perdido como ele fazia. Era como se estivesse segurando dois imãs juntos com os polos equivalentes se tocando e se repelindo. A tensão me fazia mexer imperceptivelmente meu corpo, como ela já havia mexido o seu também havia pouco. Então, percebi que o dela não me atravessava. Percebi que ela não olhava algo atrás de mim é que eu não era apenas um obstáculo no meio do caminho. Era a mim que ela olhava. Mas meus olhos, no meio do caminho, não eram vistos por ela. Ela não olhava exatamente para mim, olhava para dentro de mim. Seu olhar atravessava minha retina, entrava por meus olhos e ia para algum lugar dentro de mim. Fez como eu já havia feito alguma vez antes, fingindo que olhava outra coisa para não denunciar o que olhava, não deixar os olhares se cruzarem mesmo quando os olhos se viam.
Eu, quando fiz isso, foi por timidez e covardia. Timidez que é apenas um nome diferente para covardia. Ela, eu não sei porque fazia, o que pensava. Acho que ela enxergava algo dentro de mim, por como me olhava. Eu não via nada além dela me olhando.
Eu não sabia como agir. Se deixava olhar, pedia para parar, dizia “oi”. Se pegava um cartão de visita, desenhava ou escrevia algo e lhe entregava. Tampouco sabia o que devia sentir, incômodo, vaidade, excitação, dúvida, desprezo? Desprezo como da amiga dela?
Olhei-a, sem mexer meus olhos que já a fitavam, e tive inveja de como seu olhar foi mais forte que o meu. Finalmente fugi, olhei para baixo. Tentei escrever, não consegui. Olhei-a. Ela ainda me olhava e percebia, acho eu que percebia, cada coisa que eu pensava, pois cada vez que eu pensava em algo, ela mexia um músculo do rosto, da bochecha, da pálpebra, do lábio. Sua expressão facial continuava reagindo, imperceptivelmente. Não sei se seus movimentos se sincronizavam com algum meu. Parecia estar começando o movimento para responder a algo que eu lhe dissesse. Um movimento varias vezes freado pois eu nunca cheguei a lhe falar algo. Apenas inisisti em tentar olhar-lhe também. Insistência várias vezes frustrada. Queria saber o que acontecia ou tentar me concentrar em escrever.
Foram dois ou três minutos longos. Uma estranha, bonita sim, me olhando fixo, me esperando falar algo. E eu, se sabia da oportunidade que me diriam que eu não devia ter perdido, só pensava em outras vezes, em vezes em que quis que algo assim acontecesse e não aconteceu. Fiquei triste.
As amigas dela chegaram do balcão, com cafés e shakes. Chegaram, por coincidência, quando eu desisti e arrumava minha bolsa para ir embora.
Aquela morena não era a mais bonita, mas, no silêncio de seus olhos, tinha um poder enfeitiçante que eu ainda não entendi.
Boa Noite
A pequena pôs a cabeça no travesseiro e logo a levantou de novo: “Conta uma história?” Já fazia tempo que haviam perdido o costume de contar histórias antes do dormir. A mãe foi pega de surpresa: “História?” Perguntou pela surpresa. Não que tivesse dúvidas sobre se era mesmo de histórias que tratassem, ou de que tipo de histórias.
A menina também só respondeu para garantir: “É, mãe, uma história beeeeem bonita!” E vá lá a mãe encontrar uma história que seja bem bonita com um “bem” tão longo!
A mãe não tem saída, não quer discutir, está cansada, tem a cabeça cheia, mas a menina não tem nada a ver com isso, só quer que ela seja mãe e conte uma história, com sói às mães fazerem. Depois de assentir, dar um sermão, ajeitar a filha na cama, no cobertor, — a história, nessa hora vira moeda de troca para a filha ficar quieta, pronta para dormir, é parte do protocolo entre pais e filhos — a mãe finalmente começa a história. Não é situação para pensar muito. Falar com calma, puxar da memória, conseguir contar, já lhe custa bastante agora. A contração de história começa automática como também sói acontecer com as mães: “Era uma vez…”
Não if além disso. A menina interrompeu: “Por que toda história começa com «Era uma vez»? Tem alguma coisa que exista mais de uma vez? Acho que não. Se tiver eu não conheço. Não precisa falar que era uma vez isto ou aquilo, basta falar que era e pronto. Pra quê o «uma vez»?”
A tagarelice da menina lembrava as aulas de filosofia de que a mãe fugia no tempo do curso de Magistério. Era professora, estudou para isso. Não foi escolha própria. O pai, também professor, a matriculou no magistério quando era adolescente ainda, sem lhe pedir opinião. Era de se esperar que, preparada para dar aula para crianças, estivesse também preparada para lidar com a tagarelice da filha e sua busca por atenção na hora de dormir. Não estava. Mas também não perderia a paciência. A menina, que agora lhe dava trabalho, era uma de suas poucas, talvez uma das únicas, ou a única, fontes de alegria.
Não soube o que responder. Deu-lhe um beijo na bochecha e mandou-lhe ficar quieta para dormir, senão nada de história.
Vendo a menina quieta, tentou recomeçar a história mas foi interrompida de novo. Não por uma tagarelice, mas por uma dúvida pertinente quanto à qualidade do produto que fornecia: “Você já contou essa história antes?” Sim, já havia contado. E a menina, quando pequena, há uns seis meses atrás, já havia se cansado dessas histórias repetidas. Agora não poderia repeti-las de novo.
Mãe confusa. A menina pede: “Uma história nova… e com final feliz.”
A mãe fica sem palavras. O pedido da menina lhe acerta como um soco no fígado. Sem fôlego, se debruça sobre a filha, segura-lhe o braço e fica pensando em como prosseguir. Não há nenhuma nova história, bem bonita, com final feliz, para lhe contar.
Ui
Já é o quarto dia com dor nas costas. Distendi alguma coisa no domingo, dirigindo, por incrível que pareça. Fiz algo de errado, provavelmente postural. Tem um músculo em torno da cintura que ficou dolorido com o movimento do pé na embreagem. A culpa é de ter dirigido, odeio. E dirigi bastante no domingo. Pra completar, ao fim do dia, quis levantar peso.
Acordei na segunda com as costas doendo. As costas já perto da cintura. Dá-lhe Cataflam. Até arde quando esguicho o spray. Doía para me levantar ou abaixar, para dirigir, mas dava par a viver.
Amigo me ligou, queria me convencer a ir a um puteiro. Eu ri. Se inteiro não vou, com as costas doendo então… Tentei lhe explicar descritivamente o efeito que movimentos sexuais teriam numa coluna doente e de idade. Ele me xingou, não acreditou na desculpa honesta e esfarrapada. “Pára de arrumar desculpa. Que é isso!” Ele sabe que eu não iria de jeito nenhum, mas, desta vez, a desculpa, por mais inventada que pareça, é seria.
À noite, na academia, pareceu tudo bem. De madrugada, no sofá e, no dia seguinte, não. Não conseguia me levantar, não conseguia dirigir.
Chuveiro quebrou. Me distraí consertando. Mais um spray de Cataflam. Quarta-feira, acordei bem, só dolorido. Nada que me impedisse de nada. Passeei, almocei o sanduba de pernil do Estadão. Tomei café escrevendo pro blog, olhando as quatro meninas da outra mesa que conversavam se sentindo em um episódio de Sex and the City.
À noite, podia ir pra academia de novo, eu, o retardado. Aqueci, tudo bem. Primeiro movimento, um tombo sentado, de bunda no chão. Que bela semana pra tomar um tombo de bunda!
Hora de comprar mais Cataflam.
Cerejas
Quando ela esticou a mão para me entregar a xícara, o que logo me chamou a atenção foram suas unhas, perfeitas, muito bem feitas. A gente logo percebe, em mulher que freqüenta muito a manicure, as marcas junto às unhas. Aqueles frisos dos dedos que cobrem os lados das unhas são sempre marcados, machucados ou vermelhos de sofrerem com os instrumentos da manicure. O veio da unha é escavado. A ponta da unha é geométrica, aparada e cuidado com método. As dela não eram. Eram perfeitas, sem nenhuma dessas marcas de manipulação. Não tinham pele sobrando, nem machucado ou esfolado na beirada do dedo, nem a ponta afiada. Eram quase naturais. Eu só acreditava que não nasceram daquele jeito porque estavam pintadas. Acho que ainda nenhuma criança nasce côas unhas pintadas. Estavam pintadas de um vermelho bonito. Um tom que não era o tradicional. O mesmo tom de seus lábios. Delicioso. Nos lábios era batom, é claro.
Nos lábios, esse vermelho logo me representou uma cereja. Uma cereja bem madura. Aquela cereja vermelhíssima, escura, quase marrom. Doce, cítrica na medida, carnuda, suculenta. As unhas, nas pontas dos dedos, eram então cerejas frescas penduradas na ponta do galho, ainda no pé. Pé de cereja, árvore. Os pés dela não vi. Não olhei para baixo. Não sou desses que idolatram pés. Acho mesmo que são partes estranhas do corpo. Conversar, namorar, olhando os pés. No vejo graça. Mãos, lábios, cabelos, isso sim.
Ela me entregou a xícara, então, segurando-a por cinco cerejas, penduradas no galho, seu braço, sua mão. Havia de ter outras cinco, na outra. A última cereja, linda, sorriu para mim. Acho que queria um sorriso de volta que mostrasse que eu gostava do agrado. Sorri. Ela soltou a xícara, pegou um bombom, com os dedos mesmo, sem guardanapo ou pinça e colocou ao lado de minha xícara, no pires. O bombom devia estar um pouco derretido pelo calor da bebida. Seu dedo voltou sujo de chocolate derretido.
Ela, notando, fez cara de moleca sapeca, cara feliz. Levou o dedo de cereja ao lábio de cereja e chupou o chocolate. Chupou a cobertura de chocolate da cereja e deu meia volta, feliz, pegar um chocolate para si também.
Sorriso Bonito
Eu tenho dois vícios que competem entre si: café e chá. Tenho também mais um que, por outro lado, apenas colabora com os dois: sentar bebendo meu café ou chá, vendo a banda passar.
Domingo, no final da tarde, é um ótimo horário para fazer isso. Na verdade, quase todos os horários são bons, especialmente quando há uma mesa ao ar livre pra tomar a bebida. E neste domingo havia.
Eu peguei meu chá, English Breakfast,meu preferido, gelado, enorme. Ando meio cansado de tomar chá quente fora dê casa.n Em dias de sol, principalmente, não combina muito. Gelado, acompanha bem o sol. Vou voltar a tomar quente quando voltar o frio.
Eu sou desses que pegam uma bebida no café, sentam no melhor lugar de todos e ficam um tempão enrolando e dando raiva a quem tem de tomar café em pé.
Sentei-me numa mesa no quintal. Havia várias vazias bagunçadas num canto, logo à direita da porta. Não sei por que, acho que pela sujeira da mesa (de açúcar), por não bater sol ali, por ser meio escondido e não ter onde olhar, troquei de lugar. Procurei com os olhos outra mesa fora desse canto bagunçado e encontrei uma, no canto oposto, que eu ainda não havia visto, à esquerda da porta, no fundo, dobrando uma pequena esquina. Dali dava para ver tudo, exceto a minha mesa anterior, e ainda ficava uma distância estratégica dos garotos que fumavam junto à porta. Dava para sentar espaçoso, sem trombar em ninguém, e ver, além do quintal do café, o entra-e-sai dos hospital, a calçada, os casais no restaurante da rua ao lado. Mesa limpa, dava para pousar meu tablet e escrever, se encontrasse o quê.
Nessa nova mesa, eu precisava de uma cadeira, não havia cadeiras nela. Já na mesa ao lado, uma mulher tomava café sozinha sentada numa cadeira com o pé e a bolsa sobre outra. Na minha cabeça era mais ou menos óbvio que devia pedir-lhe licença para pegar aquela cadeira que lhe servia de pufe. Pensei isso já encabulado. Pedir uma cadeira nessa situação, quando a pessoa está usando duas, me parece como repreender-lhe, fico sem graça. Para meu alívio, logo pousei minha bolsa na mesa e olhei para o lado, o segurança já me chegava com uma cadeira: “Aqui, senhor, uma cadeira.” Agradeci, não precisei desalojar as pernas e a bolsa da mulher da mesa ao lado.
Acomodei-me, pendurei a bolsa nas costas da mesa e logo recebi uma ligação. Nem tive tempo de experimentar se o chá estava bom. Era alguém do trabalho me pedindo informação sobre algo que lhe deixaram mal feito. Respondi o que sabia e fizemos piada sobre a situação. Piada sobre gente que faz as coisas de qualquer jeito sabendo que será outro a ter que resolver. Rindo da besteira, bati o olho, distraído, na mesa ao lado. Foi a primeira vez que olhei-a direto, encontrei o sorriso da menina que ouvia e ria das besteiras que eu dizia. Menina, não era uma mulher, era uma menina. Adulta sim. Mas, mesmo já não sendo novo, quando digo mulher, imagino alguém mais velha que eu, alguém que já fosse adulta quando eu ainda era criança. Ela não. Era um mais nova que eu, mas adulta, uma menina, e sorria. Um sorriso lindo, bonito e de menina. Percebeu que eu notei que ouvia minha conversa ao telefone, mas não se importou. Sorriu para mim. Quando eu ri, riu junto. Houve algo que eu falei, que ela balançou a cabeça, concordava e me mostrava que estava sorrindo.
Minha conversa se estendeu e ficou séria. Ela acendeu um cigarro e olhou de novo para suas coisas. Tinha em sua mesa café, um cinzeiro, um caderno ou agenda, uma pastas transparente aberta com papeis, alguns para fora, puxados para cima da mesa. Sem o sorriso que me prendesse a atenção, olhei-a melhor. Era bonita. Não uma mulher dessas que quase todo mundo acha bonita. Era bonita. Tinha o rosto muito bonito, os cabelos também, o corpo bem acima do peso, mas bem desenhado, roupas bem escolhidas, maquiagem muito simples e, o principal, o sorriso lindo, gostoso, desarmado, acompanhado de um olhar atencioso, curioso. O olhar agora, quem o merecia eram seus papéis, suas anotações.
Seu cigarro acabou e, logo depois, minha ligação. Tive vontade de ser fumante para ter a desculpa de pedir-lhe que compartilhasse comigo o cinzeiro. E a mesa. Ora, quem compartilha a mesa, deve conversar. É convenção social e eu não faria a grossura de não segui-la. Hesitante, voltei a meu chá, impressionado. Aquele chá nunca me soube tão bom. E esse saber, esse sabor, distraiu-me uns instantes que quase não percebi quando chegou a amiga, a amiga da menina.
Era bonita também. Essa sim uma beleza daquelas que quase todos acham bonita. Morena. E eu nunca sei se é certo dizer morena. Quando digo morena, penso logo na pele e a dela era muito branca. Morenos eram os cabelos, muito negros. Minha madrinha diria que era uma bruna. Bruna é uma mulher de pele loira e cabelos morenos. Seus cabelos eram cortados curtos. Dizem cortados à Joãozinho. Brincos de aço, jeans largos. Pareceu-me fazer algum esforço para não apresentar-se feminina demais. Sabendo-se naturalmente tão feminina, tentava criar um contraste com as roupas e os acessórios que, embora de maneira alguma conseguissem, ainda de certa forma denunciassem sua vontade.
Sentou-se na cadeira que a bolsa e as pernas da menina desocuparam, de costas para mim. A cadeira então já tinha dona, compreendi. Conversaram, a amiga rindo, a menina rindo e sorrindo. Falaram algo sobre a aprovação da menina não sei em quê. Vestibular? Estávamos em frente a um hospital, De repente, algo relacionado a uma residência. Parecia mais velha que isso. Conversaram. Amiga perguntou-lhe alto se tinha medo de algo. A menina disse estar desesperada. Feliz, mas não só com medo. Desesperada! Conversaram mais e apareceram alguns papéis com o logotipo de um instituto de pós-graduação de uma faculdade muito respeitada. Nada a ver com medicina. A amiga pediu desculpas, precisava de algo. Saiu para pegar um café também.
A menina ficou fazendo alguma coisa em seu caderno,com seus papéis. Pegou outro cigarro, acendeu. Meu chá acabou. Fui buscar outro pensando que talvez não conseguisse voltar para a mesma mesa, olhar a menina do sorriso bonito, mas que ela já tinha companhia. Fiquei surpreso de não haver fila. Meu chá ficou pronto logo e voltei para a mesma mesa, antes mesmo da amiga dela que deve ter feito algo, passado no banheiro ou coisa assim, antes de buscar o café. Eu nem a vi na fila ou no balcão. Ela trouxe dois shakes grandes, muito grandes. A menina sentada fez aquela cara de pasma diante de exagero: “Não. Eu já tomei. Não vou agüentar.” Sua amiga trocou-lhe o pequeno copo vazio de isopor pelo enorme de plástico com uma risada carinhosa que eu não entendi: “Pra você. Você precisa de doce.” Como alguém há de precisar de doce? O que pode acontecer a alguém que um especialista lhe diga que precisa de doce.
A menina me olhou antes logo que pegou o copo. Imaginei-lhe bebendo o shake com cara de criança que está fazendo arte. Todo mundo que toma um shake tão grande tem de fazer cara de criança. É para isso que esses copos servem. O conteúdo serve para engordar também. Pensei se ela tomava desses com freqüência, se eu havia olhado errado, se era muito gorda. Reparei em seu corpo, reparei direito. Não parecia mal-feito. Ela me olhou de novo. Não tive coragem de falar ou de que ela adivinhasse o que pensei.
Eu não sei o que elas conversavam, se era sobre o desespero, sobre a aprovação, se um e o outro eram relacionados. Peguei meu tablet e pus-me a mexer nos rascunhos. Elas conversando. Tentei distrair-me. Mal consegui, continuei disperso, tentando ordenar uma idéia para escrever. Percebi quando a menina me olhou mais uma vez e também daí a pouco quando foi a amiga quem me olhou. Sentada de costas para mim, teve de se virar inteira para me olhar. Fingi não suspeitar de que falassem de mim.
Levantei a cabeça, cansado de tentar escrever. A menina pegou o telefone para falar com um amigo. Anunciou para a amiga que falaria com “ele”. Ligou, deve ter caído na caixa postal e falou algo do tipo: “Não se desespere, quando eu chegar aí você vai ter mais com que se preocupar.” Falou rindo. Riu da molecagem da ameaça. Tanto a ameaça quando a risada denunciavam segunda intenção. Segunda intenção já conhecida entre as partes. Atendi meu telefone de novo. De novo do trabalho, mas desta vez de alguém que não tinha de me ligar. Ligação de gente abusada. Ela desligou a dela. Imediatamente, seu riso virou um quase choramingo. Cansada de parecer feliz, disse para a amiga que não entendia, mas aceitava, ele não gostar dela. Que não entendia conseguir tanta cosa e falhar nisso. Seu rosto se nublou imediatamente. Os olhos se perderam olhando a pedra do tampo da mesa como se vissem algo muito longe através dele. Os lábios, curioso, mantinham quase o mesmo sorriso, inabalado. Era pelos olhos que vazava a névoa da tristeza que tinha n’alma.
Minha ligação não estava amigável, eu disse besteiras que não eram besteiras. Há uma semântica nas conversas de telefone que media as coisas que falamos. As besteiras que disse então, se muitas eram parecida com as anteriores, não foram nada engraçadas. A amiga dela me olhou de novo, cara brava, devo ter dito algo que incomodou. Até imagino o que foi. Olhou-me quando brinquei a sério xingando meu colega. Tentei falar mais baixo, ser discreto. Fugi de que me ouvisse e, nisso, me distraí.
Quando desliguei a ligação, a menina do sorriso bonito terminava de falar algo. Pareceu-me ter aquela cara de quem acaba de desabafar. Terminou com um suspiro e pondo as mãos nos olhos, cotovelos apoiados na mesa. Mais dois suspiros de olhos cobertos. Tirou as mãos respondendo uma pergunta da amiga, olhando o cinzeiro. Dez segundos de pausa e levou de novos as mãos espalmadas aos olhos. Enxugou-os. Eu percebi quand as lágrimas escorreram. Rolaram para a bochecha antes que a mão chegasse ao olho. Ela teve de secá-las também. E ela as secou com um movimento discreto, só deslocou a mão dos olhos um pouco para baixo, como se nada fosse. Mas eu percebi. Ela chorou. As lágrima escorreram sobre aquele rosto que mesmo assim conservava seu sorriso. Sem nem suspirar de novo, logo se recompôs. Mas o rosto, mesmo com os lábios ainda moldados, estava já triste para quem tinha visto o que aconteceu. Não sei dizer se foi uma mudança no sorriso, que estou certo de não ter mudado, algo nos olhos, a umidade resiliente da lágrima, ou algo que me contagiou, mas eu agora a via triste.
Meu telefone cismou em tocar de novo, atendi outra ligação. Era de uma mulher, marcava um compromisso. Elas perceberam minha ligação, talvez se lembrassem também de que eu as xeretava, assim como a menina me xeretou no começo da história. A amiga me olhou de novo, ocupada demais para estar brava comigo. Depois disso, a menina do sorriso bonito, e agora triste, não me olhou mais.
Logo chegou uma terceira amiga, loira também, bonita. E depois uma quarta, magrinha, feínha. Nenhuma das duas, ou a morena, se sobressaia. Chegaram as duas últimas olhando a amiga com cara de piedade. Instalaram um clima de velório que os amigos são supostos a dispersar, não a trazer.
Eu não entendia. Não entendi o que aconteceu. Mas eu entendo, e aquela menina um dia vai ter de entender, que quem tem um sorriso assim lindo não merece chorar.
n° Post sobre a Lua
Nos desenhos animados, é comum falarem que a lua é feita de queijo. Acho até que chegaram a falar isso num livro do Monteiro Lobato. Ela não pode ser feita de queijo. Eu a vejo agora, aqui em cima de mim, no meio deste céu preto, limpo que está hoje, da noite de São Paulo. Ela brilha muito, queijo não brilha.
Ela parece ser feita de um metal muito brilhante. Ou de água. Imagina que bonito, a lua feito uma bandeja de metal, prateado, muito polido brilhante, cheia de água, limpíssima, refletindo luzes, como um espelho d’água. Refletindo as estrelas.
Pensamentos Esparsos (depois de ter rodado 130 km atrás de bolinhos de chuva e sorvete de gengibre)
Chega um dia na vida da gente em que você percebe que já passou da idade de entrar na academia para ser piloto de caça. Que não é tão bom cantor como gostaria para ganhar um disco de ouro, e é pior ainda na guitarra ou no contra-baixo. Que está decepcionado demais com a política para ainda pensar em um dia ser presidente da República. Que ser o lindo da mamãe quer dizer ser o lindo da mamãe, e que nem todas as mulheres pensam como ela. Que a Madonna nunca passará pela sua cama, nem você pela dela.
Nesse dia, você também descobre que nem tudo o que você faz é certo. E que nem tudo que você diz que te fizeram errado é errado mesmo. Percebe que é normal, que pode magoar e se magoar sem razão. Que nem sempre é mocinho, às vezes bandido, umas tantas vezes vítimas, e noutras apenas figurante.
É chocante. Não há como não sentir um certo arrependimento de certas escolhas ao perceber tantos sonhos frustrados. Ideais desmitificados. A gente nem se toca, mas é só nesse dia que você, não importa que idade tenha, deixa de ser adolescente e percebe que existe uma realidade que não é a que pensa viver enquanto sonha.
Algum tempo depois desse dia, chega o dia seguinte a ele. O dia seguinte é quando você percebe que suas escolhas não foram tão erradas. Você escolheu porque não podia ter tudo ao mesmo tempo. E se orgulha de ter escolhido, mesmo quando acha que errou. Percebe também que, na maioria de seus erros, tentou acertar e que errou porque não nasceu sabendo tudo. Descobre que nem o que quis é importante para você. Que priorizou o que importava. A maioria de seus sonhos eram só desejos que nem teriam importância se fossem satisfeitos.
E quando percebe isso e que, depois disso, os sonhos frustrados que ainda lhe restam são tão poucos, mas tão poucos, que você tem certeza de serem eles os que realmente importam, e que para eles você ainda tem tempo suficiente. Quando percebe isso, é que você vira adulto e pode enfim ser feliz consigo e sincero com quem estiver junto.
Escada-Rolante
No caminho para cá, eu entrei no metrô naquele saco cheio de “todos os dias o mesmo caminho, mesmo metrô…”. Até me esqueci de pegar o bilhete antes. Lembrei de pegá-lo já no bloqueio. Atrapalhei os outros que queriam passar, igual eu reclamo dos outros atrapalharem.
Logo que eu passei o bloqueio, vi umas meninas, uns vinte anos. Olharam na minha direção e riram. Achei que fosse de mim. Mas não. Lembrei que era sexta-feira. Elas estavam bêbadas. Deviam estar rindo de alguém que iam encontrar fora do bloqueio e que estava lá esperando. As sextas-feiras são assim. Cheias de bêbados se encontrando no metrô para sair para beber.
A escada rolante descia, quase vazia. Sexta-feira, onze da noite. As pessoas não pegam metrô ali. Elas descem ali para beber. São raros os que embarcam. Só havia um casal, uns dez degraus pra baixo do meu. Casais ali são comuns. Eram mais velhos que eu. O homem arrumava a mochila nas costas.
Depois, fez algo que me deu saudade. Desceu um degrau, ficou um mais baixo que ela, e a segurou pela cintura. Imaginei o que faria. Lembrei de um post que uma amiga me mostrou, ela achou num blog, sobre como o casamento acaba com o beijo. Não devia, mas não sou eu quem vai desmenti-lo. Lembrei de histórias. E quase acertei o que fariam.
Em vez disso, ele chegou a cabela por cima do ombro dela, disse-lhe algo ao ouvido e lhe beijou a bochecha. Ela sorriu, desceu para o mesmo degrau que ele, deu-lhe a mão e também lhe beijou a bochecha. Desceram mais um pouco se olhando, até a escada acabar e foram escolher um lugar na plataforma.
Não acertei exatamente o que fariam, mas uma coisa eu tenho certeza de que acertei. Eles não eram casados.
