Pedróquio

Parecia que brincava, e brincava mesmo. Eu peguei um pedaço de barbante, a avó ficava danada de eu acabar com o barbante dela, não sei por quê, nunca a usando barbante para nada. Prendi, na ponta do barbante, uma latinha de leite condensado. Vazia. Furei-a com prego, a marteladas. Passei o barbante pelo furo, de dentro pra fora. Fiz uns três ou quatro nós na pontinha que ficou para fora do fundo da lata. Não ficou muito equilibrada, Deitava mais para um lado do que para o outro. O furo estava torto. Não fazia diferença.

Passei o barbante por cima do varal, icei a latinha a mais ou menos um metro do do aquaradouro, e amarrei, com um laço parecido com o dos sapatos, a outra ponta na treliça da lavanderia. Meu avô, do outro lado da treliça, sentado, fumando, ouvia rádio. Ele ouvia rádio a manhã quase toda, depois de tomar café e cuidar dos passarinheiros. Meu avô era do rádio, do futebol e dos passarinhos. Criava canários, vários, num viveiro grande, do tamanho de uma piscina. Tinha também um sabiá, mansinho numa gaiola grande. Teve um papagaio, mas eu não o conheci.

A latinha, pendurada feito pêndulo, virou um. Balançava-a, Criança precisa de coisas assim, banais para ser feliz, nós adultos é que complicamos tudo. Inventamos uma coisa a que chamamos ambição e a usamos para justificar nunca estarmos felizes com nada. A latinha sozinha não servia à minha brincadeira. Do jardim da frente, peguei algumas pedras, meia dúzia, pequenas. Aumentaram o peso da lata, não a estabilidade. Para alinhá-la, não que precisasse, mas é uma questão de estética, você entende… manipulei o barbante dentro da lata de modo que as pedras lhe torcessem um pouco. Torcido, ele tomou a forma, a posição, em que a latinha parecia alinhada. O suficiente para que, se solta, caísse de fundo, não de quina.

Retardado que sou, todo moleque é, peguei o estilingue, outra pedra e brinquei de acertar a lata. As duas primeiras pedradas esfolaram a parede abaixo da treliça. A terceira acertou a própria treliça. O barulho de martelada na madeira, assustou o avô e o periquito da madrinha, sua gaiola ficava pendurada por dentro da treliça. Tomei bronca. São as coisas que nós fazemos antes de crescer e perceber que mais coisas à nossa volta do que nossas próprias brincadeiras. Ainda assustaria ao avô, e ao canário, outras vezes, noutros dias, até aprender isso. Naquela manhã, o medo de outra bronca me desviou da brincadeira.

Sentei no cimento, entre a treliça e o aquaradouro, com o banquinho que o padrinho me fez. Não sentei no banquinho. O fiz de mesa, para a massinha de modelar. O banquinho ficou na grama do aquaradouro, embaixo da latinha pendurada. Eu sentado no cimento, pra evitar as formigas e pôr as costas na parede.

Não era só um resto de massinha, mas era aquela fase em que as cores estão já todas misturadas. Formam uma massa só de cor indefinida, mais escura que bege, mais clara que marrom, cheia de restos coloridos que ainda não se misturaram inteiros. Eu precisava de uma personagem para brincar comigo. Qualquer um. minha brincadeira precisava de um companheiro. Eu precisava de um companheiro de brincadeira.

Nunca fui artista. Agora menos ainda. Quando pequenos, ainda temos a desinibição de fazer as coisas, achando que, ainda um dia, aprenderemos a fazer direito. Talvez desinibidos, porque ninguém liga, só nos querem quietinhos no canto, brincando, sem dar trabalho. A criança pode fazer o que quiser e mostrar só se achou bom. Adultos, temos vergonha de nós mesmos vermos que não fique. Não deveria interessar como fica. O importante deveria ser a brincadeira. Adulto tem medo de brincar.

Meu amigo de massinha, no começou, pareceu ser uma batata, cheia de marcas de dedo. Depois um cone. Depois outro tubérculo qualquer, sem espécie definida. Uma batata e uma batatinha. É difícil o trabalho de criança. Experimente dar forma a um amigo de massinha. Não são fáceis de se fazer. Molda a perna, falta massinha na barriga. Faz o nariz, a bochecha amassa. Não é só conseguir fazer a amizade. Há de tomar cuidado para não arruiná-la com um amasso desmedido no lugar errado.

O meu amigo se parecia, a certa altura, com um boneco de neve pardo. Acho que é assim que todos eles devem se parecer. É um desafio, não rir dele, chamá-lo de amigo. A madrinha passa e dá risada. Ela não é amiga dele. O amigo sou eu. Eu não posso rir. Respeito-o. Respeitá-lo é respeitar-me. Não preciso olhar feio para a madrinha. Ela sabe que é inconveniente e sai.

Cansei de tentar moldar-lhe braços e pés. Não venço fazer e consertar. Ponho a mão suja no short. Ele fica sujo também. Vai ser outra bronca. Será que nunca vi, na televisão, fazerem um, para lembrar-me do passo-a-passo? Na televisão não. Nem no Bambalalão, no Daniel Azulay, nem nos filmes e desenhos. Nesses, não mesmo. Filmes e desenhos americanos. Acho que americanos não brincam de massinha, devem ter algo mais avançado. Eles fazem bonecos de neve. Meu amiguinho, assim, com poucos detalhes, parece um. Um boneco de neve bronzeado. Como pode? Isso os americanos não podem ter, se não têm massinha.

Os bonecos de neve dos filmes não têm braços e pernas de neve. Fazem-lhes os braços de galhos. Pernas, não me lembro de ver em algum, na televisão não. Nariz de cenoura. Olhos de pedra. Cachecol de cachecol. E cartola… Onde eu arrumaria uma? Não precisa. Esta é uma brincadeira informal, e é minha. Eu não quero ninguém de cartola por aqui.

Fui ao pé da pitangueia, minha avó só tinha uma, meu pai tem várias, procurar um graveto que servisse de esqueleto para os braços. Achei um, cor bonita inclusive, cor de madeira. Nem sempre madeira tem cor de madeira. Quem procura um graveto sabe. A gente olha, olha, alguns são escuros, outros sujos, muitos são desbotados, estão molhadas, suas cores não são a da madeira. Encontrar um bonito, com a cor certa, não é fácil. Eu não exigia muito. Logo de cara, por coincidência, vi um bonito, saudável e limpo. Mais ou menos do tamanho certo. Caído no chão no meio de outros gravetos e folhas. Precisava ainda trabalhá-lo um pouco.

No quarto da madrinha, eu tinha uma caixa de papelão com algumas coisas minhas. Lá estava meu canivete. Eu tinha um canivete pequeno, de cortar fumo, foi de meu avô, ele me deu. De certo, achou que eu um dia fumaria com ele. Não foi o caso. Voltei para o quintal. Com o canivete, desbastei o graveto. Era pequeno, uns vinte centímetros. Cortei-o em dois. Pareciam dois braços mesmo. Um com uma mão de forquilha de dois dedos. Outro com três dedos na mão. O de dois dedos era maior, mas o de três tinha cotovelo. Ficaram assim os braços.

Meu amigo ainda não era gente. Não tinha nome, nem olhos, nem nariz. Nem eu era Gepetto ou fada-madrinha. Não foi difícil encontrar pedrinhas miúdas. Nem precisavam ser tão miúdas. Duas brancas foram os olhos. Uma preta, o nariz. Uma unhada fez a boca, meio torta. Os olhos de pedra me pareceram piada: Pedróquio. Chamei-o. Ainda assim não era gente, nem eu Gepetto.

Meu amigo estava pronto e já podíamos brincar.

Excitado, puxei a ponta do barbante junto à treliça. O nó se desfez e a latinha, com o peso das pedras caiu quase em cheio na cabeça do Pedróquio. Esmagou bem. Ficou parecido com uma panqueca bem grossa, com os pães de batata de minha avó. Depois veria que o fundo da lata ficou gravado, como sinete, nele.

A madrinha riu: “Que burrico! Tanto trabalho e fez isso?”

Ela não era mais criança. Não sabia mais que essa é que era a graça da brincadeira.

Urubus

Os urubus são animais bonitos. Rio.

Todo mundo faz careta quando digo isso. Fazem careta antes mesmo de estranharem eu achá-los bonitos. E eu não simplesmente acho, eu sei que são.

Acho engraçado o mundo preconceituoso em que dizem que vivemos. E sei que é preconceituoso mesmo. Que tanto valoriza e julga pela beleza ou por sua falta.

O urubu, ave de rapina, grande, forte, imponente. É como uma águia de plumagem negra. Uma poderosa águia negra. O urubu, por seus hábitos, tem sua beleza negada por todos.

Parece que nos recusamos a aceitar que algo bonito possa freqüentar o lixo, a porcaria, se alimentar de carniça. O urubu é baixo, bicho covarde. Seu alimento preferido não é a famosa carniça. Veja quando aparece um camundongo. Atiram-se sobre ele, brigando. Veja como rondam, em círculos, grupos de urubus, o animal doente, moribundo, esperando-o, fraco, sem forças para reagir, tombar. Aí se lançam sobre ele e comem-no vivo ainda. O urubu não come carniça porque gosta. O faz por preguiça, vagabundagem, por ser covarde de atacar algo vivo e saudável.

É, por isso, o animal perfeito para representar o vilão da fábula. Mas não ao vilão de livros infantis, de desenho animado, feio, asqueroso. O urubu é o vilão real, da história de adulto. É feio por seu caráter. Não o conhecêssemos já, seria sua beleza nos enganaria. Seria admirado, a história toda, até, no último ato, num único golpe inesperado, traiçoeiro, dar cabo ao mesmo do mocinho e da mocinha.

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Vinte Minutos

Quando cheguei em casa, me joguei de costas na cama, no escuro, sobre a colcha. Joguei o telefone do lado, ao alcance da mão. Qualquer coisa, estava fácil de atender. Deixei o rádio ligado para ouvir as notícias e, quieto, preguiçoso, descansar um pouco. Principalmente descansar. Tinha que aproveitar que cheguei cedo e tinha algum tempo, tinha compromisso, logo ia sair de novo.

Deitei e fechei os olhos. Não estava no plano, mas cochilei. Não sei se cochilar é a palavra certa pois foi um cochilo pesado, mais pesado do que a maioria dos sonos que já tive.

Acordei achando que já fosse de manhã. Pensei ter perdido a hora do compromisso, olhei o relógio, fiquei surpreso que só tivessem se passado vinte minutos. Sobrava tempo ainda. Encostei a cabeça de novo pensando no rápido sono pesado.

Não sei o que sonhei naqueles vinte minutos, se sonhei, mas acho que não deve ter sido algo bom. Minha respiração estava profunda. Como nos exercícios da aula de yoga. Eu já fiz aula de yoga. Talvez não devesse dizer isso. Podem rir de mim, já riram de mim por isso. Eu fiz, não me importo. Na aula de yoga, você força o diafragma para encher o máximo possível os pulmões. A maioria das pessoas normalmente só enche a parte superior do pulmão, o peito. Nas aulas, exercitamos encher a parte do pulmão que fica no abdômen. O professor fala em respirar com a barriga. Muitos cantores fazem essas aulas. Ela auxiliam na técnica para cantar. Aumentam o intervalo que se consegue cantar sem parar para respirar. Para pessoas comuns, melhoram a capacidade aerobica e acalmam. Exercícios de respirar pela barriga são talvez a forma mais eficiente de controlar a ansiedade e se acalmar. Ao menos nos ensinam assim nas aulas. Pode ser sugestão, mas para mim parece realmente que funcionam.

Aquela respiração era diferente. Era expontânea, não um exercício. Como se eu estivesse suspirando sem parar. Devagar. Um suspiro depois do outro, sem pausa. Não podia ser normal. Acho que não era bom. Isso era uma inquietação tão grande que demorei para notar que a cabeça doía. E doía muito. Preocupação? Algo daqueles vinte minutos?

Se a respiração fosse agito, por susto, medo, o coração estaria disparado. Não estava. Pulsava forte. Sentia no peito, no pescoço e nos pulsos. Forte, mas no ritmo normal. Não estava rápido, muito menos disparado. Era como se coração e pulmão resolvessem trabalhar com força, energia. Como se fosse soldados marchando, pés batidos forte no chão. Não me sentia bem com isso. Contra quê marchavam? Eram eles que faziam minha cabeça doer? Sonhei?

Senti-me como criança, assustada diante da reação desconhecida do corpo contra a doença. E nem doença era. Rolei, deitei de lado, atravessado na cama. Prestei atenção na respiração, profunda, enérgica. Não me acalmava. Nem podia, eu não estava nervoso.

Ainda não sei o que havia. Estiquei-me, para a cabeça alcançar o travesseiro. Pousei-a nele como num colo, parecia mesmo um colo. A colcha sintética, fria, sobre ele, refrescou-me a cabeça. Pensei que talvez estivesse com febre. Testei, com o pulso encostado à testa. Não estava. Trazendo o pulso de volta, da testa para o corpo, toquei meu ombro. Foi instintivo, sem perceber direito, abracei-me. Com meus próprios braços, uma mão no ombro, a outra no cotovelo. Não apertei esse abraço. Cheguei o ombro junto ao rosto. Parado ali, assim, me abraçando, Um lado do rosto pousado no travesseiro. O outro descoberto, ao relento do quarto. Olhos fechados, no escuro. Não sei o que havia. O que havia de errado. Meu peito, coração e pulmões, não sei se era algo errado, mas fazia algo ainda, trabalhava forte, enérgico, por conta própria. Não era já meu peito. Independente, eu era dele.

Intrigado, eu me deixei ficar, prestando atenção no fenômeno. Não só intrigado, hipnotizado, refém.

Nesse tempo todo, nem ouvi o rádio. Quando me lembrei, só notei que já era outro programa. Passava das oito, talvez estivesse atrasado para o compromisso. Olhei o relógio. Não, não estava. Sairia em boa hora. Precisava sair, passear, espairecer. Prestar atenção na direção, desviá-la do peito, acabaria com isso.

Ainda estava com as roupas das rua, sapatos inclusive. Apenas peguei a carteira, as chaves e saí.

A familiaridade do bairro, das avenidas conhecidas, o trânsito tranqüilo, a música chata no rádio, não foram distração suficiente. Ainda pensava, e prestava atenção ao meu peito. À ansiedade que não era. Coincidência ou não, logo que percebi isso, uma sensação diferente mudou tudo. Não prestei mais atenção a nada disso. Uma luz me iluminou: a lua se lembrou de mim e me sorriu.

Romeu e Julieta

Disse um Romeu emocionado para uma Julieta que descansava em seu colo:

— Pensei uma coisa agora que me pareceu bonita de te dizer. A gente ouve, e até acha bonito e romântico, quando alguém diz: “Eu preciso de você.” Como se a necessidade embelezasse o sentimento. E eu sei que não preciso de você. Não preciso mesmo. Se você for embora, eu fico triste, mas supero. Eu sobrevivo. Não preciso de você. Mas mesmo assim, eu fico tão feliz quando estou com você, gosto de sua companhia, de conversar, de dividir com você tudo, inclusive o tempo, mais ainda do que se precisasse de você. E é assim porque eu sei que não preciso, é porque eu te quero e te gosto. Eu não sei o nome disso. E isso é verdade, e eu acho muito importante te dizer.

Anedota de Mesa

Há a mesa entre os dois. Os divide, mas o que separa não é a mesa. É o silêncio. Havia coisas que sabiam, mas que não eram ditas. Isso sim distancia. Mesmo coisas que deveriam aproximar podem distanciar, se não ditas. A mesa, ponham os braços sobre ela, as mãos se alcançarão, ela não é uma parede. O silêncio, o silêncio das coisas que se quer dizer, é. Das que se quer. Senão não fazem falta mesmo, e o muro do silêncio separa sem necessidade o que já é distante.

A conversa, divertida mas acanhada – tanto tempo e ainda acanhada! – servia para desviar o assunto. Aproveitavam o lugar, aproveitariam a comida e o vinho, não tanto a companhia. Companhia é mais que só estar. De alguma coisa não falavam. Por que? Não há explicação. Porque não. “Porque não”, às vezes, é resposta sim. Porque sim.

Quinze segundos sem nenhuma frase, riso ou suspiro deixaram ambos sem graça. Ele achou que era o responsável pela seqüência da conversa, orgulho besta de homem, ensaiou um “Nós…” A frase foi cortada pelo garçom. Trazia o vinho para provar. Não fosse o vinho, seriam os pratos, o couvert, troca do serviço. Para certas coisas, agurdamos o momento adequado. Se o aguardamos, pode ser para a vida toda. A vida não tem de colaborar, não assinou compromisso com esse projeto, nenhum momento tem obrigação de ser adequado. Depois de um importuno, virá outro. Esperar que o bom momento chegue para falar o bom, ou o mau, é esperar. É só esperar.

Do vinho ele não entende, mas gosta. Ela o deixou escolher, confia que escolha um “gostoso”. Ele não confia tanto, desconfia do gosto dela. Ainda não tem confiança de conhecer direito. Pediu branco, na verdade verde, porque lhe parece que mulher costuma gosta. Não são “secos” como os tintos. Sorri. Se diverte pensando no termo que elas usam. Como um líquido pode ser seco? Conhece poucos vinhos, mas gosta. Têm alguns que já experimentou, pede-os sem ciência. Acredita que o garçom há de avisar de escolher errado. Experimentou o vinho. Parece bom, tem gosto de vinho verde. Não sabe julgar. Pra ele está bom e pronto. Vai gostar do vinho e não venham os especialistas lhe importunar. Lhe interessa que ela goste também. Quer agradar.

O garçom serve. Na mesa só há ainda o vinho e o pão. Não quer comer o pão. Atrapalha a conversa. Nem do jantar faz questão. É só o pretexto para conversar. Poderia haver um tipo de restaurante sem refeição, só se senta e conversa. Não bar. Em bar as pessoas vão para fazer algazarra, azarar, encher a cara. Restaurante. Mas não precisa de comida, só da conversa. Um restaurante onde você pagasse para ficar sentado, conversando, sem se sentir na obrigação de ocupar a boca com algo só para não lhe estranharem, ou não desagradar ao cuca.

Ela também não pega o pão, mas olha e, com o dedo, quebra uma lasca da casquinha crocante. deu uma bicada no vinho. Ele quis puxar uma conversa, um assunto com que mulher costuma se interessar. “Dizem que vinho engorda. Porque tem muito carboidrato. Eu não acredito. Só se for esse nacional com açúcar, que eu não bebo… rsrsrs se engordasse mesmo, eu seria enorme, muito mais do que já sou… kkkk”

Ela sorriu em vez de rir. Achou graça, mas não sabia qual era a próxima fala nesse diálogo. Ele percebeu, olhou o pão, e tentou outra deixa: “Acho que o que engorda são as coisas que as pessoas comem com o vinho. Imagina viver de queijo e massa!”

Dessa vez, a fala dela foi expontânea, não precisou achá-la. Disse que adoraria. Pena que engorde mesmo. Mas, já aí, foi ele quem se esqueceu do roteiro.

Ela sorriu bonito. Tentou: “Eu… Esse vinho… é bom, você já conhecia?” O começo da fala não era compatível com o resto. Ela não ia falar nada ainda. Talvez, pelo desenrolar da história, nunca falasse, passaria o bonde. Ele sabia disso também. Sorriram os dois. E deram juntos, cada um no seu copo, mais um bicada no vinho.

Plat-de-la-Nuit

Tem coisa que a gente faz sem saber porquê. Eu fiz, ou faria, uma agora há pouco.

Cabeça vazia é oficina do demônio dizem. Eu já concordo com isso. Nem sempre concordei. Hoje sei que cabeça vazia não pensa. E quem não pensa, todos sabemos, é vegetal. Gente não é vegetal. Não pode ser. Tem de pensar, para não ser, para ser gente.

Às vezes, e todo mundo passa por isso, a gente não quer pensar porque pensar força, a cabeça pode doer. Se doe, sempre se pode procurar uma distração. Mas que seja uma distração que não atrapalhe pensar.

É assim, pensando, com a cabeça doendo, e dói muito, muito mesmo. Antes seja a cabeça a doer, não o coração, este só me aperta. Doer, quem dói agora é só a cabeça. É assim, pensando, que eu peguei o livro de receitas. Não tinha fome. Dor de cabeça embarga o estômago. Folheei sopas, saladas, guarnições, massas… Folheei página por página.

Não vou dizer que o verde das folhas de verdura não tenha trazido algum conforto aos olhos. Aos olhos sim. Não prestava atenção. Sei a ordem das sessões, depois, porque este livro é meu velho conhecido. Lembro-me da cor verde, só pode ter sido nas saladas, talvez não.

As partes de que mais gosto são a de carnes e a de peixes. Aves tenho nojo. Coisa de quem conheceu produção. A sessão de aves fica entre as duas. Não me lembro de ter folheado nenhuma delas, mas o fiz, estavam ali, como em todas as outras vezes em que peguei este livro. Não podiam, sem mais nem menos, ter saído para passear logo hoje. Não podiam, creio eu. Creio, só creio, não sei, não notei.

Depois vêm as seções de sobremesas e de bebidas. Essa última não ensina a fazer as bebidas. É apenas um guia do que combina com o quê. Fala de cervejas e vinhos. É sutil demais para mim, parece ter os mesmas dicas para todos os prato. Não entendo, é complexo demais para mim. Bebo o que gosto, não importa o prato. Nisso simplifico, se me sabe bem, não ligo para o que diz o especialista.

Mas não cheguei a essa sessão, a das bebidas, ela é a última. No meio das sobremesas, e eu não queria sobremesa, meus olhos bateram numa foto linda! Precisava fazer aquilo. Era o que eu precisava, antes mesmo de ver a foto. Agora, olhando a foto, a página da receita, e nem escrita era, apenas um montagem, fazê-la era necessário.

Corri pegar as chaves para sair, o chaveiro de prender no cinto. Eu estava de moletom, o moletom velho que uso de pijama. Não se usa cinto com moletom. Pus o chaveiro no bolso. Quase saí de chinelos. Não se pode dirigir de chinelos. Do cesto de roupas sujas peguei as meias que tinha usado de dia. Já tomei banho, é nojento, mas tenho pressa. Calcei as botinas. O figurino é bizarro: camiseta velha, moletom esgarçado, botinas. Saí. Corri, ou melhor, dirigi para o mercado.

As compras eram simples, uma bandeja de frutas e uma barra de chocolate. Não precisava comprar mais nada. Ainda assim, demorei escolher. Podia pecar pela demora, mas as frutas tinham de ser as mais vermelhas e suculentas, grandes, limpas, as melhores que encontrasse. Não eram para qualquer coisa, nem para qualquer um. Eu tinha de escolher. Escolhi. Demorou. Devo ter pego todas as bandejas antes de decidir. Ainda assim, decidi pensando que em algum lugar do mundo devia haver melhores. O chocolate, já sabia qual queria, foi rápido.

Na fila, impaciente. Tive medo de esquentar as frutas ou derreter o chocolate em minha mão, pousei-os. O cliente à minha frente notou minha pressa talvez. Passei as compras e paguei, cartão, não me identifiquei na nota fiscal. Digitar onze dígitos ia me atrasar.

De volta, na cozinha, ralei o chocolate, deixei para derreter em banho-maria. Lavei cada fruta, com carinho. Há de se ter carinho no que se faz com carinho. Há-de se fazer, e fazer com carinho. O que importa é o que se faz e como se faz. Do que fica de lado não importam o como nem as intenções, não foi feito. Cortei aquela coroa verde das frutas, mas não as piquei. Inteiras, ficam mais difíceis de enfiar na boca, mas são bonitas e parecem suculentas quando as mordem. Deixei-as inteiras, arrumadinha numa pequena terrina redonda. Na disposição que escolhi, pareciam pétalas de uma flor. De uma flor vermelha. O chocolate já estava no ponto. Derramei-o. As pétalas agora estavam lambuzadas. Não era muito chocolate, podia enjoar, não era o que queria. Essa flor não tinha miolo, improvisei um com um montinho de açúcar. Ficou bonita. Achei que ficou, talvez tenha achado por ter sido o autor. Achei bonita minha flor de morangos com chocolate.

Com o chocolate ainda morno corri para a janela. Coloquei a pequena terrina no canteiro, no meio das plantas. Preparei dois cafés, sem tirar os olhos dela. Imaginava a visita que eu queria que, voando, viesse experimentá-la.

Terras Desconhecidas

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Uma distração minha, em momentos de enfado, pego lápis ou caneta, um caderno de rascunhos, tenho vários, e desenho mapas de terras desconhecidas.

Hoje em dia, as pessoas crêem que já conhecemos todo o mundo. O engano é compreensível. Conhecemos, talvez, todo o mapa do mundo. Esmiuçado por satélites com potentes câmeras de vigilância. Contudo, não conhecemos todo o mundo, suas terras e gentes.

Um dia essas terras serão descobertas, embora duvide de que sejam descobertas todas, e seu conhecimento difundido pelo mundo.

As terras desconhecidas que desenho são, na maioria, ilhas. Pequenas, normalmente próximas de lugares conhecidos, mas sem rota regular de transporte.

Outras são montanhas ou vales cercados de verde. De acesso difícil até para quem já delas ouviu falar. Muitas vezes escondidas por árvores, neve, trilhas ruins, normalmente não há registro nenhum de sua existência além de boatos.

São ignoradas, essas terras todas, a ponto de não constar nos mapas mesmo de quem as vê. Somos assim, nós deste mundo, ignoramos o que não sabemos como tirar proveito. Vemos algo bonito e pensamos “Para quê serve? Quê faço disto?” Se não encontramos logo utilidade prática, não queremos nem “perder tempo” em catalogá-lo para mais tarde ou para quem se interessar. Tocamos a vida em frente para coisas sérias.

Eu me permito perder algum tempo com isso. Gostaria de ter mais tempo a perder. Quando percebo uma terra, nova ou velha, a que ainda não dei a devida importância, reparo-lhe o sítio, a forma, aparência, o aparente acesso. Faço isso em minha memória mesmo é, quando posso, desenho-lhe o mapa em papel. Como um mapa de pirata ou bestiário moderno.

Gosto de gente que tem esse mesmo interesse. Acompanhei o relato da descoberta da Ilha Desconhecida, nome apropriado, posto que, embora descoberta, muito de desconhecida ainda tem. O autor, perspicaz, não deu as coordenadas exatas. Isso facilitaria a chegada de leigos oportunistas. Ao invés, deixou no seu relato todas as pistas de onde e como chegar. Quem realmente se interessar de coração aberto, e isso é o mais importante, o coração aberto, desenhará fácil o mapa em seu caderno. Com algum esforço, sempre há esforço, uns tem mais jeito, facilidades naturais, mas todos tem de se esforçar. Com algum esforço, todo mundo, de coração aberto, pode encontrá-la e lá chegar. Conhecê-la, já leva tempo. A vida toda talvez. Conhecer uma terra não é turismo. Quem diz “Eu conheço tais e tais lugares”, na verdade, diz “Estive lá” ou “Vi”. Conhecer implicar percorrer devagar, observar, interagir, guardar.

As terras que desenho, não as conheço, não sei dizer exatamente onde ficam. Faço como o astrônomo que teoriza sobe as impressões que tem. Posso estar totalmente errado. Todavia registro meus rascunhos de mapa. Talvez, algum dia, eles ajudem alguém, mesmo que não seja eu, a encontrar algo. Ou a entender quem desenha esses mapas.

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A Azul

As outras crianças estavam fazendo algazarra junto a uma parede de vidro, na verdade, um quebra-vento de vidro que foi colocado entre duas colunas para que os porteiros não tomassem chuva.

Isolado, fui procurar qual era a brincadeira, talvez participar. Queria brincar também. Não era brincadeira. Uma borboleta, uma grande, bonita, de asas azuis, se batia de encontro ao vidro sem conseguir sair para o jardim. Voava de baixo para cima, arrastada de encontro ao vidro, achando que o vazaria.

As crianças, cercavam a bichinha, um menino cutucava com um graveto, quando conseguia, voltava correndo, com medo do que tinha feito. Alguns discutiam do como pega-la, conserva-la num pote ou dentro de um livro.

Achei-a muito bonita. Mas, mesmo que não fosse, não gostava de vê-los importunando-a. Fui o estraga-festa. Tinha medo de tocá-la, acho que todos que a cutucavam também tinham. Tinha medo de machucá-la. Mas também não queria que se machucasse. Fiquei frente a ele e esperei que pousasse. Pousou no chão, junto ao vidro, asas juntos, acho que cansada. Tentei pegá-la pelas asas, entre dois dedos. Vi isso algumas vezes na televisão. Parece ser o modo certo, para não machucar. Ela fugiu antes que eu encostasse, acho que consegui na terceira vez que tentei. Ela já devia estar muito cansada. Acho que por isso consegui. Não queria apertar as asas. Não sabia se poderia machucar. Era tentador tentar guardá-la em algum lugar, para mim. Entendi as outras crianças que falavam em guardá-la.

Eu não podia. Olhando sua beleza, dei a volta no vidro e fui ao jardim. Não sabia direito como fazer. Encostei-a a uma planta, acho que era uma espada-de-são-jorge. Abri os dedos, a outra mão ficou embaixo, para se ela caísse.

Não caiu, pôs os pãezinhos na planta. Ficou. Não sei se perdeu o medo de mim ou se estava só cansada. Demorou bem pouquinho. Fiquei junto para se as crianças viessem importuná-la.

Quando viu por bem. Bateu asas e voou, por cima do muro, levando seu azul. Não a vi mais. Não vi mais nenhuma igual que pudesse confundir com ela.

Talvez tenha sido pega por uma pomba, por pardais, um sabiá. Sabiás gostam muito de borboletas. Talvez tenha se mudado para outra vizinhança ou esteja trancada em um toca.

Não é da minha conta. Por isso a levei ao jardim. Ela tem o direito de ser bonita e feliz do jeito que quiser.

Pirilampos

Eu poucas vezes vi pirilampos. Talvez tenha visto mais alguma, mas me lembro só de duas.

A primeira, na casa de meu avô. Ele tinha um quintal grande com muitas plantas, árvores e mato. Não sei porque estávamos brincando ali à noite. Não era nosso costume, devia haver alguma festa. Brincávamos de pegar. Eu atravessava um pequeno caminho no meio das plantas, e parei por causa de um brilho verde, a luz deles é verde, que me representou alguma coisa presa numa teia de aranha. Foi o bastante para meu irmão me pegar. Apelei, a teia havia me atrapalhado. Não adiantou, perdi a causa, e ele me disse para olhar bem. Não havia teia. Mostrei o brilho parado no ar. Ele olhou e reconheceu um vaga-lume. Explicou-me direito: era um pirilampo, aquele que falavam no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Curiosos, a brincadeira acabou até a avó chamar. Eu devia ser bem pequeno, era pequeno quando ela morreu.

A segunda foi na casa da outra avó. Num domingo, depois do jantar. Sempre comíamos frango no jantar do domingo na avó. Meu pai matava dois frangos pela manhã e os preparava à tarde. Saia para a missa e mãe os olhava no fogo até ele voltar. Quando chegava, eram um banquete. Frango de criação é grande, não parece com esse pequenininhos congelados. As asinhas eram de minha avó, ela adorava, eram a única carne que comia a semana toda. Num domingo, enquanto a mãe e a avó lavavam a louca, brincávamos de pegar. Deve haver alguma coisa ente pirilampos e brincar de pegar. Eu corri para as roseiras atrás de minha irmã e, entre nós dois, vi uns pontinhos. Achamos que fossem varejeiras refletindo alguma luz. De novo meu irmão fez a identificação. Eram dois pirilampos voando. Corremos para pedir a câmera para a mãe e chamar a avó. Quando voltamos, eles já tinham sumido.

Eu juro que, com tantas pombas e pardais por aí, não entendo esses bichinhos. Eles gastam energia ficando luminosos, mais fáceis de serem encontrados. Veja a mariposa, por exemplo, fica quietinha, parecida com a casca da árvore, para não ser encontrada. Eles não, são fáceis de achar. Das duas vezes, só me lembro deles pela luz verde. Lembro de onde eu estava, o que fazia, mas não me lembro dos bichinhos mais do que a luz.

Olhei agora na enciclopédia e vi a foto de um. Se parece com uma lombriga cascuda. Um pedacinho de galho de eucalipto. Feio, feio, feio, muito feio. Com a luz verde na barriga. Parece que engoliu um luminoso de boate. Tão feio! Talvez a luz seja isso. Um enfeite que ele sabe que lhe faz mal. Mas prefere esse mal a não ter esperança de trazer nada bonito em si.