Circo

Na semana passada vi uma coisa na livraria que me chamou muito a atenção. Era um livro com uma coletânea de quadrinhos da editora Circo. É uma editora de meus tempos de criança em São Paulo, mas não eram quadrinhos para criança. Quem comprava era meu irmão, eu apenas lia. A editora durou pouco, talvez um ano, tinha poucos títulos, mas publicou algumas das melhores — e das piores também — HQs que eu já li. Algumas que ficaram na minha cabeça até hoje. O volume é grande, pesado, eu estava de metrô e ia correr ainda por vários compromissos, não convinha comprar no dia, seria ruim de carregar. Voltei no fim-de-semana e comprei.

Em casa, abri o livro, follheei para me lembrar dos títulos, os cartoonistas, as histórias, piadas e bobagens, muita bobagem. Mas a história que releria primeiro seria uma de que me recordo cada dia mais admirado. Ela foi publicada na revista Circo, a primeira e que deu nome à editora. Ela me deu idéia de uma história para contar, uma história que se parece com and HQ, mas a da HQ é muito melhor. Aconselho aos adultos, e àquele menino de Osasco.

Another Day

You won’t find it here, look another way
You won’t find it here so try another day
  – Dream Theater, Another Day

Acordei na cama vazia. Vazia para mim. Lá estavam os lençóis, colchão, travesseiros, eu mesmo. Ela onde estava? Janela aberta, porta aberta, banheiro aberto, vazio. Ela havia saído do quarto. Sua falta me despertou. Sentei-me na cama e descobri-me, atento, com medo de ela ter ido embora. Acho que não iria. Barulho no andar de baixo. Ela desceu, estava lá. Mais barulho, neste andar e no de baixo. Havia mais gente, devíamos estar sozinhos. Uma mão que eu não vi segurou-me firme o coração e apertou tentando pará-lo. Não conseguiu. Desesperado, angustiado, escapei dela e corri. Atirei-me para fora do quarto. Barulhos esparsos de vários lados. Não era só um. Desci correndo a escada para a sala.

A lareira ainda estava acesa. As taças de vinho de ontem à noite, sobre a mesa de centro. O edredon jogado no chão. A música que ouvíamos ainda não acabou. Não nos preocupamos em apagar, muito menos arrumar, quando o calor de nos deitarmos chegou. A escada que desci agora, nem me lembro de tê-la subido ontem. Na minha cabeça, parece que chegamos lá carregados, transferidos. Começamos nos beijando ali na poltrona, numa pausa na conversa, ainda embaixo do edredon, sentados de frente um pro outro, aquele nosso beijo lento que nunca acaba de repente. Eu prestava tanta atenção, só ao rosto dela, que não via mais nada. Quando o calor chegou, se andamos, se a carreguei, se subimos a escada, se fizemos mais algo ali, ou só na cama, não vi. Com os olhos abertos via só seu rosto. Quando os fechei, vi só seus olhos, também fechados. O resto, só sentimos, só um ao outro. E ao acordar, também este medo senti.

Ao lado da escada, encontrei-a. Não perguntei se havia saído da cama antes ou depois deles chegarem, se os viu, por que se levantou. Era irrelevante. O importante era o que faríamos, se ela ficaria bem, se viria comigo, se sairíamos dali, se chegaríamos em algum lugar. Aquele chalé havia sido nosso refúgio. Agora, violado, não podíamos fugir para fora. Havíamos de nos proteger mais, para dentro. Ainda não perguntei nada, ela viria se quisesse. Corri a ela que me pôs as mãos nos ombros, como se fosse me abraçar. Os olhos eram de desespero e alívio.

Olhei para baixo da escada. Nessas situações, há de se esconder embaixo da escada. é um lugar óbvio. Em todos os filmes é assim, mas funciona. Não podemos arriscar. A escada tem só um vão embaixo, não é daquelas com armário. A luz da janela chega ali, a cortina está aberta e temos receio de ir lá fechá-la. Esperamos ou não? Os olhos se acostumam. Há uma porta no fundo do vão de debaixo da escada. Para onde vai a porta? Abrimos, fugiremos por ali. Será isso uma fuga ou uma prisão mais fechada?

Chegamos ao campo, um cenário noturno pintado apenas em preto e azul-marinho, poucos tons, que eu já conhecia. O bosque, ali à frente, em preto, contorno simples, poucos detalhes. O céu, era o fundo azul-marinho. Tudo parecia uma colagem de criança feita para a escola. Encomendada para a professora. Não era colagem, era real, mas eu já o conhecia, já o havia recortado ou visto recortado. Corremos para ele. Lá dentro, cercados pelas árvores negras, elas pareciam bem espaçadas. O céu, ao fundo, parecia proteger-nos também, como nosso edredon da noite anterior. Não havia sol ou lua no céu, e nem olhamos para cima, mas um calor, que não pode ser da noite fria e escura, nos envolvia. Caminhamos, com muito cuidado, devagar. O chão, as raízes, tudo era preto como as árvores. Não havia como andar sem ter cuidado. Não havia como continuar correndo.

Sentimos bafo, uma respiração gelada atrás de nós. Por dentro, gelamos os dois. Não dava para ver ninguém, mas eles chegavam. As árvores não tinham detalhes suficientes, galhos, para subirmos numa. Estávamos cansados de fugir, só queríamos paz. Por entre elas, quanto correríamos até chegar à segurança? Essa segurança existe?

Uma árvores baixa se inclinava em direção a outra. Lembravam a escada com o vão embaixo. Nos olhamos. Esse olhar, mesmo antes de vê-lo, já o conhecíamos. Peguei sua mão, faltava isso ainda. Foi a primeira vez que peguei-a. Sorri-lhe a apreensão e tudo mais.  O sorriso lhe apontava o vão por baixo da árvore inclinada. Ela deu um passo, ficou a meu lado. Nos abaixamos juntos e entramos no vão. Nele sumiu o azul-marinho, era só o preto. Não tinhamos corpos. Nem olhos. Esses filmes em que os olhos são nítidos no escuro mentem. Se não há luz, não se vê nada, nem os olhos. Não víamos nada, tínhamos ali só nossa consciência, era nossa, uma só, de nós dois, e o sentir as mão dadas se segurando apertadas.

Saímos do outro lado do vão. Já não éramos nós dois. Para quem nos olhasse, éramos uma árvore, como as outras talvez.

Temi que um deles quisesse madeira ou uma fruta e, sem saber sermos nós, tentasse pegar um pedaço dela. Eu não deixaria. Não sei como. Alguns medos são maiores que outros. Eu não deixaria lhe fazerem mal. De algum jeito não deixaria. Mesmo árvore plantada, não deixaria.

Ficamos quietos, esperando que passassem, ou que acabasse a noite. Alguma cor haveria quando a noite terminasse. Ficamos quietos, esperando e imaginando que cores seriam.

 

Lie

Havia uma menina na minha escola que dizia ter um namorado em São José do Rio Preto. Na época, não havia Google Maps, eu não sabia, eram seis horas de viagem. Mas ela mesma dizia que só se viam nas férias. Eu perguntava a ela se ele também a considerava namorada. Eu não considerava, isso não era namoro. Ela ficava brava comigo. Gostava de saber o que aconteceu dessa história.

Nessa mesma época eu fui à casa da Lie, na Água Branca, despedir-me dela. Conosco não seria igual. Ela se mudava para o interior, Campinas, para fazer faculdade. Não era uma viagem longa, uma hora e pouco. Mas era suficientemente longe longe para adolescentes a pé. Tínhamos só três meses juntos. Ela desessete anos, eu quinze. A pé, sem email, sem celular, nem telefone em casa tinha. Não fazia sentido fingirmos que a distância não nos afastaria. Logo no começo, quando começamos a ficar juntos, já tínhamos imaginado que seria assim, agora nem precisamos terminar. Foi como já havíamos previsto no começo. Ela passou na faculdade que queria, e já estava organizada, ia morar com uma colega de Liceu que era de lá.

Nos dias anteriores, já havia prometido continuar lendo os quadrinhos de que ela gostava. Os quadrinhos em que ela começou a me ensinar francês. Continuaria a estudar. Iria à biblioteca da Aliança e procuraria assistir filmes franceses para manter a prática.

Quis ser o último a me despedir, consegui. Dei-lhe um drops, um halls preto, ela sorriu. Nos conhecemos com um, no ônibus. Ofereci-lhe achando que estivesse tossindo. Na verdade, estava chorando. Perguntei se podia ajudar. Não sabia o que era. Eram saudades da mãe. Vieram da Bélgica para o Brasil havia dois anos, emprego estava difícil lá. A mãe não se adaptou. Chegou da escola uma tarde e descobriu que ela havia voltado para Liège. Natalie ficou em São Paulo com o pai, Monsieur Berger. Eu nunca me acostumaria a chamá-lo pelo sobrenome. Irreverente, para mim era Seu Armand. Ele gostava, disse-me que os belgas são a esperança da Europa. São os únicos europeus divertidos.

“Ami”
“Amie”
“Prends soin de toi”
“Tu aussi”
“A bientôt”
“A bientôt”

Nos abraçamos e beijamos, sem tesão nenhum, foi só carinho e pena. Seu Armand não ligava, me abraçou também e ameaçou beijar-me a boca. Rimos, beijou-me a bochecha. Recomendou-me continuar tendo juízo e nos despedimos.

Ela disse vários ciaos ainda antes de subir no carro do pai e outros até ele ir embora.

 

Sucos

Eu sou um admirador sem preconceitos da beleza feminina. Quase sem preconceitos. Diferente da maioria dos homens, não tenho preconceito com mulheres gordas. Gordinha ou gordas mesmo. Não etiqueto antes de olhar o conjunto. Confesso, inclusive, que minha crítica de primeira vista é mais cruel com as magricelas do que com as gordas. Ninguém merece mulher sem carne, que se vêem os contornos dos ossos. Me dá aflição. Lembram pé de galinha.

Jantando uma vez no shopping, por exemplo, vi uma “gordinha”, modo de falar porque ela era mais do que gordinha. Estava na fila do suco, logo à minha frente, de costas para mim. Chamou-me a atenção. Tinha o corpo muito bem feito. Proporcional. Coisa que mulheres muito magras não costumam ter. As medidas todas certinha. Leonardo gostaria de estudá-la. Cabelo bonito. Roupa elegante. Mesmo procurando não ter preconceito reconheço que é raro uma mulher acima do peso parecer tão bonita. Parece, o corpo, coberto é. O rosto, talvez o principal, ainda não vi. Veria. Mais cedo ou mais tarde, ela pagaria, pegaria o copo e voltaria para a mesa. Ao se virar, eu teria alguns segundos para ver seu rosto. Não podia bobear.

Confesso que não foi difícil prestar atenção para não perder o momento em que se virasse. O corpo bonito, fiquei olhando, tentando, todavia, ser discreto, e imaginando coisas. Muitas coisas. Não sei se consegui ser discreto. Acho que sim. Além do mais, ela estava de costas para mim, não havia nada que pudesse me refletir. Às vezes, acontecem algumas coisas que me fazem acreditar no sexto-sentido em que não acredito. Em telepatia, premonição.

Seu suco era de um rosa muito vivo. Brilhante, gélido. Da cor daqueles remédios amargos de gotinhas que as mães nos dão, e que a embalagem diz terem sabor morango ou framboesa. Não perecia ser nem um nem outro. Curioso, pensei no que seria.

Foi quando ela se virou, logo após pegar o copo. Eu olhando para ele. Queria ver o rosto dela, se era bonitos como o resto. Ela, engraçado, não teve tempo de me ver. Eu, olhava para o copo, nem tive tempo de olhá-la. Ela já se virou como se soubesse que eu iria olhá-la. Já virou com cara de deboche e mostrou a língua. Não diretamente na minha direção, deve ter errado por uns quinze, trinta graus, não mais que isso. Mas olhei em volta se havia alguém com cara de ter sido o alvo do insulto. Não, todos em volta olhando para os próprios pratos e rodas de conversa. Só eu estava lhe olhava. Ela mesma, foi para uma mesa isolada, sozinha.

A língua e a cara de deboche eram para mim mesmo, ou para quem ela suspeitasse estar olhando, ou para ela mesma.

No pequeno tempo entre ela se virar de língua pra fora e eu me virar procurando para quem poderia ser, consegui ver, por pouco tempo seu rosto. Ela era mesmo bonita igualmente no rosto e no corpo. Foi do resto que não gostei.

Beijo

Agora já faz algum tempo que terminamos. A cãimbra já passou, a respiração normalizou. Mas ainda estamos na posição em que terminamos. O que fizemos, como, nem vem mais ao caso. Ficou teu sabor em minha alma. Você está ainda em cima de mim. O que muda é que agora se deixou descansar, soltou o corpo em cima do meu, descansando. Esconde o rosto embaixo da minha bochecha. Rostinhos colados. Tuas costas suadas, teu colo e ombros também.. Sentir esse teu suor e saber que o suou comigo, me excita muito, mesmo agora que já não tenho mais força e o sono se aproveita pra pesar. Eu tenho medo de que você fique com frio, tento usar meus braços como cobertor nas suas costas. Me ocorre que você não vai conseguir passar o resto da noite assim.

Não quero que você se canse. Daqui a pouco não agüenta, será que vai me largar e se deitar no outro travesseiro? Não posso deixar, não quero que desgrude de mim.

Parece-me uma idéia astuciosa a minha. Eu te giro sobre mim para o meu lado, o braço de baixo ainda nas costas, o décima te segurando pelo quadril. Não sei se você percebe minha intenção. Sei que você não vai conseguir dormir em cima de mim. Quero tentar encontrar uma posição em que você ainda consiga dormir encostadinha em mim. Acho que percebeu, me deu um sorriso. Dividimos o travesseiro, cara-a-cara, meu nariz sobe o teu. A mão que estava no quadril, deslizo por teu corpo, até as coxas, as acaricio, depois subo te alisando até chegar ao teu rosto. Arrumo um cachimbo que te caiu frente ao rosto. Ele que não se atreva a me atrapalhar te ver. Eu me emociono fácil. Você aqui comigo então, é mais que motivo. Afago tua bochecha antes de beijá-la. Acho bonito beijo na bochecha, mesmo para um casal como nós, na mesma cama. Acho bonito beijo na bochecha, na testa, selinho. Mas que se sintam os lábios e a pele beijada. Beijo de verdade, sincero. Cada um desses tipos de beijo quer dizer uma coisa diferente. Não é só o beijo da paixão e do amor que é importante. Há momentos em que beijar a bochecha é o certo a fazer, como agora, é o mesmo que dizer: “O muito que eu gosto de você independe de você se deitar comigo. Eu já gostava este muito antes disso. E continuaria gostando mesmo sem.”

Mesmo assim, não vou te deixar desgrudar o corpo do meu. Não sem um bom argumento, teu conforto. Te abraço. Não é pelo sexo que fizemos ou pelo que eu quero fazer mais. É pelo teu calorzinil gostoso, por sentir teu perfume, o cheiro de shampoo dos teus cabelos. É por ver esse teu rostos lindo que ainda me olha. Fico sem graça, mas não fujo, é você. Pelo modo como você entrou em minha vida, te olhar é quase como me olhar no espelho. O medo que temos de olhar assim, frente-a-frente não é só o de ser visto, é o de se ver, refletido, de ser visto por si mesmo, nos olhos de quem gostamos. De se decepcionar com isso. Olho bem teus olhos e me vejo refletido nele. Me vejo bonito. E me lembro que somos dois. E isso é o mais bonito, não somos um, não precisávamos estar aqui. Estamos por escolha. Escolhemos o mesmo.

Dou um jeito de tocar teu rosto sem deixar de abraçar. Escorrego o cotovelo pras tuas costas, passo o braço por trás do teu ombro, mexo o cabelo pra trás. O movimento é acrobático, a posição final também, a minha. Mas meus dedos alcançam tua orelha e tua bochecha, e ainda te abraço mais firme. Só então reparo que tua expiração aquece meu rosto.

Você parece cansada, deve estar com sono. Não posso outra coisa, além de te achar ainda mais bonita por ter esse sono, e ainda assim estar com os olhos abertos me olhando. A boca não agüenta mais sorrir a largo. Não precisa. Os lábios relaxados sorriem pelos olhos.

Te beijo, com os lábios nos lábios, como o primeiro beijo do casal adolescente. Achei que seria um beijo rápido. Teus olhos se fecham e sinto tua língua em meu lábio. Meus olhos se fecham sozinhos. Já este é um beijo clássico de casal apaixonado indo pra cama, desses de filmes antigos. Não há porque parar de beijar assim devagarinho se você não parar também. E você não pára, nem eu quero parar. Este beijo é como se fosse eterno.

Uma Flor

Há uma flor bonita num jardim por aí.
Já a vi, uma vez. Acho que uma só.
Tem muitas coisas dela que eu ainda não conheço.
Uma delas é seu perfume. Ainda não conheço seu cheiro.
Cada flor tem seu perfume próprio. Não se-lhes pode mudar. E ele diz muito delas.
Quando pude, esqueci-me de pedir permissão para lhe cheirar.
Outra coisa que não conheço é a borboleta dela.
Diz ter a borboleta mais linda com as pintas, ou machas, não me lembro que palavras usou, as pintas mais bonitas.
A borboleta, duvido que seja mais bonita que minha flor, ou melhor, que a flor. Devem ser uma só, a flor, a borboleta e a menina que as colhe.

Tudo

É tão bom assim, cheirando seu pescoço, com a boca quase no ombro.
“Eu te quero!”
Eu não via seu rosto, escondido ao lado do meu, mas sabia do seu sorriso
Demorei um pouco, ela saboreou o que eu disse.
Encostou-me a orelha ao ouvido.
Inocente ela, acha que essas coisas ouvem-se com os ouvidos.
“Eu também te quero. Você sabe que não precisava me falar isso. Quando teus baços me tocaram, foi porque já me havia entregado a você, já era tua”
Nesse instante, afrouxei um pouco o abraço, precisava para fazer-me entender, para olhá-la nos olhos. A mão segurando lhe o rosto, um dedo encostava-lhe a orelha, parte da mão o pescoço. Os olhos, nunca imaginei que pudesse olhar-lhe tão nos olhos!
Ela fez uma expressão impressionada, quase assustada, percebeu que era sério aquilo ali.
Afaguei-lhe emocionado, temi ser pretensioso, mas tinha que ser sincero: “Você sabe que não quero só teu corpo. Nem mesmo só de corpo e alma. Eu te quero em tudo mais o que houver, todinha, parte da minha vida, e é assim quero ser teu também.”
Ela então, aí sim, se impressionou e se emocionou.
Não sabíamos o que fazer. Depois entregaríamos nossos corpos, isso também é muito bom, mas vem depois.
Agora, beijamo-nos, emocionados e apaixonados.
Só nós sabemoa como um beijo pode ser tudo.
É como se o mundo todo fosse só aqueles centímetro em torno dos rostos, dos lábios. Como se o mundo todo fosse aquilo ali. Dos dois.

Lembranças

A gente, conforme conhece as pessoas, os amigos, vai percebendo como eles lidam com cada assunto. Assim como eu tenho dificuldade para lidar com certas situações, ninguém lida bem com tudo. Os amigos são assim, cada um entende mas uma coisa do que outra, lida melhor com um tipo de coisa do que com outra. Eu tenho poucos amigos, mas bons amigos. Prefiro os bons aos muitos. mas tem certos assuntos que eles não conseguem entender ou conversar direito. Lidam bem para suas próprias vidas. mas quando tentam se colocar no meu lugar, não entendem direito.

Lembrei-me hoje que eu, há algum tempo, não muito, numa vez em que rezava, além das coisas normais de se pedr numa oracao, pedi também, encontrar alguém que me entendesse, com quem eu conseguisse conversar de coisas que são importantes pra mim e que, não só me desse conselhs, mas conseguisse entender meu mundo, o mundo que quero, e fazer-me sentir compreendido antes de me dar os conselhos. lembrei disso hoje. pode ter sido coincidência, mas é curioso, coincidencia talvez, parece que encontrei esse alguém numa pessoa que eu já conhecia. algiuém distante que se aproximou, na verdade nos aproximamos os dois, e iluminou esse mundo com compreensão, com seu mundo e seu sorriso, que eu nao vejo, mas imagno, sem esforço, não sei como, sei de seu sorriso e de seus olhos nas coisas que diz, escreve.

Tenho escrito muito nas últimas semanas, nos últimos dois meses, desde que resolvi que devia te mostrar as coisas que escrevo. E, nessas coisas que comecei a escrever, a rescrever, logo a partir do segundo ou terceiro dia, lá já está você. Em tudo. Na menina do alto da colina, no jardim, nos beijos e amassos, no cheiro que não conheço daquela flor, na borboleta que nela pousou e que você disse que vai me mostrar, nos olhos que quero que leiam, na história que quero escrever. Pena não dar conta de escrever tudo o eu imagino, poque nesse tudo está você. Porque, desde que abri a janela, na minha cabeça, sempre tem você.

imu e, pensando nisso agora, acho que escrevo porque quero te deixar lembranças. De mim. Para, de vez em quando, você encontrá-las e se lembrar de mim. Eu sei que é difícil, mas, num dos meus sonhos, gostaria que se lembrasse de mim sempre que me lembro de você. Mas isso seria sempre, porque isso é sempre. E sempre é tempo demais!

Ponto de Ônibus

Ontem à noite, dirigindo de volta pra casa, vi um casal bonito, em um ponto de ônibus.
Não achei um ou outro bonito. De beleza de homem, não entendo, mesmo que entendesse, não diria. Não fica bem a homem, dizer que outro é bonito. Ela não era bonita, muito magra. Talvez eu é quem seja muito exigente.
Mas não havia como não achar bonito. Não devia haver nada entre eles ainda. Talvez fosse a primeira vez que se viam, talvez a ultima. Mas algo havia ali. Não eram figurantes um ao outro.
Alguma coisa falaram, provavelmente do tempo, sobre a chuva. Ou sobre a demora dos ônibus. Não era uma conversa. Um disse uma frase. Muito depois, o outro disse mais uma.

Havia só os dois no ponto. Dos quatro assentos vermelhos de metal, ela estava no segundo. Ele na barra azul, a que serve de suporte aos bancos. Os bancos não têm pés, são soldados, pelo encosto, a essa barra, que se estende até as laterais do ponto. A barra parece, assim, um poleiro. Ele está sentado nela, empoleirado, um assento vazio entre os dois.

Esperavam o ônibus e perdiam tempo. Estava claro para quem, como eu, ficasse vinte segundos parado naquele semáforo.

Nem se olhavam, tímidos os dois. Ela olhava a guia, ou a sarjeta, ou nada disso. Precisava de seus olhos para saber. Ele olhava os próprios pés. Via os tênis vermelhos, os cadarços. Os pés estavam dentro.

A gente usa a metáfora de olhar nos olhos sem pensar no que significa. Já a usei tantas vezes! E nem gosto dela. Olhar nos olhos pra mim não pode ser metáfora de outra coisa. Olhar nos olhos é bonito. É a maior das entregas. Muito maior que tirar a roupa, seja no escuro ou no claro, e deixar o corpo falar. Olhar nos olhos não fala nada mas diz: “Estou aqui, você sabe que olhar nos olhos é quase impossível, mas os teus eu olho, e gosto, e vejo que você olha os meus também.” Sorriam ambos. encabulados. Mas, vacilo, não se olhavam. Não viam os próprios sorrisos, coincidentes, nos rostos um do outro. Juntos, sofriam separados a timidez.

Mais cedo ou mais tarde, passaria um ônibus. Se não pegassem o mesmo, talvez lamentassem depois. Perderiam o bonde, o ônibus, da história.

Já na garagem do prédio, tive vontade de voltar lá e juntar-lhes as mãos.

Pintar uma Janela

Estava numa sala branca, toda branca, sem portas ou janelas.
Era tão branca e tão iluminada que não podia ver nenhuma parede, quina, canto, chão, nem eu mesmo.
Só podia tatear e foi assim que encontrei a parede, o chão e a mim.
Dizem que quando se morre, vai-se para o limbo. Dizem. Meu pai diz, aprendi com ele.
Lá não há nada, só eu e luz.
Deve ser assim. Pode ser mais aflitivo que isto?
Estava vestido. Sentia meu corpo e a roupa, graças às mãos.
Devia estar de avental ou macacão, como de mecânico.
No bolso havia algo. Peguei. Não era uma coisa só. Eram várias, iguais.
Demorou segundos para perceber o que eram: lápis.
Peguei um, fui à parede e tentei riscar.
Consegui, era colorido.
Troquei, também.
Experimentei todos.
Desenhei.
Desenhei uma janela dali.
Uma janela para o mundo.
Não fiz o trinco.
Quando terminei o desenho, com cuidado, abri.
O mundo lá fora, reconheci, eu já havia pintado antes.

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