Perdoe-me o amigo esta intromissão. Mas eu sei bem o que é isso de abrir o jornal e não encontrar nada de interessante. Nenhuma notícia relevante. Só os classificados e anúncios, intercalados pelas amenidades que julgam que queremos encontrar pra fingir que a vida não é feita só de papel carimbado e dinheiro taxado. Eu também leio jornal e o folheio inteiro, caderno por caderno, página por página, sem encontrar palavra alguma que valha a tinta, ou título que não pudesse ser pescado de dentro de uma caixa de recortes por um periquito de realejo. Eu também me decepciono com as primeiras páginas. As manchetes que me dão sono e as fotos revoltantes que já não me causam mais que indiferença e me fazem confundir o jornal de hoje com todos das semanas passadas. Eu também prometo todos os dias que não vou mais comprar ou ler jornal. Mas, meu amigo, no dia seguinte estou lá de novo procurando algo naquelas mesmas páginas fedidas e me decepcionando de novo, de saco cheio. E prometendo de novo, é claro! O problema é que à noite, deitado, pensando no que farei na manhã seguinte, no café da manhã, ao invés de tentar ler algo no jornal, percebo que, sem ele na minha frente, aquelas páginas grandes, abertas, eu veria o resto do mundo. E me diga, meu amigo, se o mundo aqui fora não é essa mesma mesmice do jornal, mas com movimento, cheiro e som. Não vou estragar assim meu café da manhã, não. Deixe estar o jornal na frente do meu rosto. Deixa-me folheá-lo e encontrar as mesmas merdas de tantas outras edições, sem novidades que me revoltem o estômago.
Autor: José Socas
Segunda-feira
Eu, daqui do terraço, olho para o hotel do lado da rua e não imagino, pelas sua fachada, de onde alguém conseguiu tirar uma trama como a de Janela Indiscreta.
Hitchcock com certeza não era para este hotel que olhava. Janelas quase todas fechadas, deve ser por causa do frio. Poucas luzes acesas, segunda-feira na cidade. Quem viaja para a cidade numa segunda-feira? Nas poucas luzes acesas, reconheço corredores. As outras então, poucas mesmo, estão de cortina fechada.
Tento exercitar minha imaginação, criar uma trama. A camareira que passa de quarto a quarto deixando pistas de um mistério. É noite. Casais escondidos atrás das cortinas. A história não sai. Mas ainda é segunda-feira.
Se é verdade…
Se é verdade que amar é dar o que não temos, eu nunca poderia te amar. Nunca mesmo, porque as únicas coisas que tenho pra te dar são meu carinho, minha atenção e, se fosse o caso, esse mesmo amor. Se não te desse isso, daria o quê?
Resistir é Preciso
Você bem sabe que é difícil resistir a si. Deve bem imaginar o quanto é tentador o calor de seu roçar de braço, a delicadeza de seu toque de mão, a doçura de seu sorriso.
Imagina também, e nisso sua vaidade se impõe, como seu corpo é desejado. Mas quando pensa nisso, se lembra das partes clássicas, idolatradas nas fotos de revistas masculinas.
Seus seios, do tamanho perfeito e firmes. Suas pernas rijas. A boca macia e sem marcas. As pernas rijas, torneadas. Seu quadril e seu ventre desenhados pelo Criador já consagrado na arte da arquitetura humana.
Talvez não saiba, e isso lhe faça falta, que homens há que te admiram e desejam, de corpo e alma, também pelo que você fala, por como anda, segura uma caneta, faz cara de frustração ao se decepcionar. E até mesmo por como, às vezes, ignorando a própria beleza, sente-se no direito de ficar triste, quieta no seu canto, sem demonstrar a ninguém.
Talvez não saiba disso. Mas do que com certeza não tem ideia é de como um homem que gosta do carinho, do inusitado, do sutil, da tênue e sutil linha divisória entre o sonho e a realidade… é de como esse homem pode ser levantado à loucura da imaginação por um maneio de rosto distraído. Um movimento da cabeça que sem querer deixe o cabelo quase todo para trás do ombro, sem jogá-lo, suave, revelando um pescoço teso, quente, perfumado. Ficaram só alguns fios, bem poucos, à cobri-lo, como uma cortina transparente que não quisesse esconder nada. Uma cortina de imaginação que você balança um pouco ao passar dois dedos no pescoço, inconsciente. Acho que inconsciente, caso contrário, teria sido muita crueldade com quem está a seu lado. Seus dedos simularam um dos carinhos que eu quis fazer. Só simularam, pois faltou-lhes lhe quererem como eu lhe quis. Faltou-lhes ter olhos onde estavam os meus, para imaginarem os outros carinhos. E o braço, trêmulo que eu teria, ávido por sentir melhor o seu calor e o seu perfume, senti-los em meu rosto.
Você não tem ideia disso, com certeza. Pois se soubesse, esse maneio teria sido muita crueldade.
Visita ao Médico
Não acordei assim, mas na verdade já devia estar doente há algum tempo. Doenças não começam assim do nada. Há um protocolo: exposição, contaminação, incubação e por aí a fora.
Os sintomas começaram daí a pouco. Inquietação, mal estar. Curiosamente, a cabeça demorou a doer. Suspeito até que nunca tenha doido. Mas tinha uma sensação de estar vazia de idéias e cheia de uma doença pronta a estourá-la. Latejava, pesada. Havia muita pressão. A nuca esquentou, a testa gelou, as mãos perderam a firmeza. Foi pela hora do almoço que os olhos arderam, sem febre, e, irritados, lacrimejaram.
As lágrimas não ajudaram a aliviar a ardência. Escorreram devagar. Serviam só para molhar os olhos e atrapalhar a visão. Secavam sozinhas, ao vento frio. Sem ajuda de lenço, de guardanapo, nem da mão ou do vento frio. E ao secar uma, vinha outra.
O mal estar cresceu. A doença, parecendo tentar sair, empurrava as lágrimas para fora dos olhos. Elas aumentaram. Os olhos já irritados, foram depois as bochechas que elas salgaram. Então, escorriam e os olhos se esforçavam, teimosos, em não ficarem vermelhos.
Tonto já, sem poder enxergar direito, procurei ajuda, um médico. Ele examinou. “Abra a boca e mostre a língua.” A boca e a língua não tinham nada, não incomodavam como o resto, como os olhos principalmente. “Mas é por aí que você fala. Preciso saber se está conseguindo me contar direito o que acontece.” Por estranho que pareça, e era estranho mesmo, colaborei. Ele examinou ali e também o resto.
Sua cara não era boa, mas médicos são assim. Se a doença para nós é ruim porque pode ser mortal, para eles é ainda pior, é trabalho! Apalpou pelo corpo, pelo peito, pela cabeça. Perguntava se doía. Não doía. Chegou na orelha, apalpou o lóbulo. Perguntou. Também não doía. Desceu de volta ao peito. Encostou o ouvido, apalpou de novo, perguntou. Desceu um pouco (fígado? excesso de álcool? falta de álcool?) Os olhos já escorriam bastante. Encharcavam seca a cara toda. Atrapalhavam respirar pelo nariz ou pela boca.
Parou. Pôs-se ereto e segurou o lóbulo da orelha entre o polegar e o indicador. “Vamos fazer uma punção para isso sair.” Largou a orelha. Fiquei parado. O incômodo tem esse efeito. Qualquer solução, por mais improvável, é boa. E, se para ela, temos de ficar passivos, mais fácil ainda.
Ele voltou com uma agulha de injeção. Abriu aquela embalagem de plástico dela, parece um blíster com tampinha. Alcançou um papelzinho, rasgou-o e tirou de dentro um pedaço de gaze parecido com um curativo pequeno. Limpou o lóbulo da orelha. Segurou-o e espetou de leve a agulha. Senti pingar bastante. Ele pegou um algodão e aparou.
O mal estar pareceu aumentar, talvez pela expectativa do que iria acontecer à orelha. Mas logo passou a aparência e ele ficou como estava. O médico então encaixou a ponta da agulha onde já tinha espetado e, desta vez, furou, de lado a lado. A agulha ficou como um piercing, atravessada. Quando ele tirou. Os pingos viraram um filete esguichado.
Minha pressão caiu. Achei que ia desmaiar. Nada passava e ainda aquilo também me incomodava. O líquido esguichando, às vezes acertava meu ombro. Era o médico, que torcia a orelha para dirigir o esguicho. Ele pegou uma pequena travessa de metal para apará-lo. Curioso, fiz uma expressão de esguelha para enxergá-lo. Não tinha cor. Não era pus. “É lágrima.” Estava drenando por ali as lágrimas que saiam pelos olhos.
Não perguntei se bastava aquilo, se teria algum remédio, injeção. Parecia irrelevante. O que viesse depois, viria. Agora, eu tinha pressa daquilo passar. Parecia não parar, mas fiquei curioso de ver que a travessa demorava a encher. “Nunca acaba.”
Não sei se o médico entendeu isso como a surpresa que era ou a impaciência que também era. Ele largou a travessa e pegou um tubo de plástico, parecia um canudo de milk shake. Era um pequeno estojo. Abriu e tirou de dentro um bisturi.
Tenho medo de lâminas, dão-me aflição, mas dane-se. Ele puxou o lóbulo para baixo e picotou, até a borda da orelha. A água escorreu. Encheu a travessa e continuou. Ele não devia ter outra. Ficou só olhando as lágrimas continuarem escorrendo molhando meu ombro.
O mal estar aos poucos foi diminuindo, a pressão baixando. Quando as lágrimas pararam de escorrer pelos olhos, percebi que ia desmaiar por causa da pressão já bem baixa. Mas o alívio só aumentava.
O médico já estava em pé olhando há algum tempo. Deve ter-se enfastiado. Médicos são disso. Saiu da sala fazer outra coisa. Eu fiquei sentado na cadeira com aquelas lágrimas salgadas escorrendo pelo picote da orelha.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, pois desmaiei. A queda da pressão me fez desmaiar como um boneco de inflar murchando. Quando o médico voltou, encontrou só meu corpo vazio, caído no chão feito bexiga murcha. As lágrimas haviam escorrido todas.
Búfalo
O que eu não queria já encontrei. Não precisei procurar. Veio a mim e se encontrou em mim. O de que preciso agora são duas coisas. Uma já comprei. Deu trabalho. Doze milímetros, cano longo. Ao acordar, nem sabia o que era isso. O vendedor me ensinou, ajudou a escolher. A outra, procuro, muito. E não calho em achar. Pela manhã, fui ao zoológico. Tempo perdido. Pela história que me contaram, achei que estava lá. Não estava. Procurei na feira, no leilão, é próximo ao zoológico. Até achei alguns parecidos, mas não aquele. Fui a museus, dois, procurar em quadros. Cheguei a procurar em livros, em fotos. O mais próximo que consegui me deu pena. De quê preciso mesmo é daquele búfalo. Tem de ser aquele. Para eu acertar com minha nova doze bem no meio daqueles olhos cheios de ódio.
Coruja
Estava ao lado do meu carro no estacionamento. No chão, fuçando ao lado da guia, uma espécie de sarjeta que há ali. Me pareceu, a primeira vista um pano rasgado, enrolado. Mas depois vi que era uma coruja.
Coruja no chão é coisa inusitada. É o tipo de bicho que a gente espera ver à noite, em cima de uma árvore, parada, com a cabeça toda virada para trás. Não de dia, fuçando a sarjeta.
Eu tive medo. Não dela. De atropelá-la ao sair com o carro. Fiquei de longe e olhei o que fazia. Ela não demorou. Pisava em algo que tinha na ponta do bico. Soltou o bico, olhou para cima e espreguiçou o pescoço, chacoalhando a cabeça para os dois lados. Pegou de novo o brinquedo, com o bico. Não era um brinquedo, seria jantar, um camundongo. Coube em seu bico como se estivesse preso num alicate.
Ela então deu um pulo, sobre a guia, para a calçada entre as duas fileiras de carros e, de lá, voou. Foi para as árvores, do outro lado da avenida. Devia ter um ninho lá. Voltava para casa com a janta no fim do dia.
Dia pela Noite (e vice-versa)
Eu por muito tempo dormi de dia e vivi à noite. Coisas da vida de adulto, algo tem-se de fazer para pagar as contas e levar a vida adiante. Ora, tem de ser assim, senão seríamos tomados por vagabundos, não? Acontece. Uns conseguem escolher quando farão as coisas, o que farão. Outros não tem tanta oportunidade, quando vêem, já estão presos a esse tipo de rotina.
Após muito tempo na minha, tive meu momento de revolta. É impossível que um homem trabalhador como eu não tenha direito a seu banho de sol diário. Fosse eu um bandido, presidiário, o teria garantido por lei. Como não sol, tenho de me virar. E me virar significa uns lampejos de rebeldia. Um pouco menos de sono, um pouco menos de trabalho, — nessas horas, é fácil mandar as coisas para o inferno — e lá está o tempo pro sol, não muito, é certo mas lá está.
E lá está o sol, no céu, luminoso, quente. Nem me lembrava. Depois de tantos anos, logo me viciei. Interessante esse jeito das pessoas normais se aquecerem durante o dia, com o sol, ao invés de cobertores. Interessante também conseguirem enxergar sem lâmpadas.
Meu tempo de dormir diminuía conforme eu me apegava, a rotina mudava. O trabalho tinha de mudar de horário. O sono também.
Um dia, estressado, sai correndo do trabalho, divagando, ainda de madrugada. Descobri a lua. Redonda, brilhante. Descobri que não é só o sono que nos prende. O trabalho também. E tudo o mais.
Minha curiosidade se multiplicou. Comecei a prestar atenção a tudo. A coisas bestas e a maravilhas. As descobertas continuaram. Eu não conseguia mais entrar nem em casa, nem no escritório. Precisava de ar e de espaço. Do sol, da lua, do vento, do céu, das nuvens, da chuva e da trovoada, de pássaros e formigas, das flores, folhas e até das pedras do passeio.
Um dia, uma noite, uma madrugada, sentei-me na grama do parque, sob uma árvore, para tomar meu café da manhã. Tomei devagar, distraído, olhando tudo o que via e o que não estava ao alcance de ver. Olhei com olhos do pensamento para coisas que talvez nem existam, mas que me pareceram bonitas demais!
Quando me dei conta, já era hora de jantar, ou de outro café da manhã, e eu ainda estava ali. Digo ainda porque ainda não havia acabado de olhar de ver tudo o que queria, porque não me cansei, e não porque ache que fiquei lá muito tempo. Vi tanta coisa e, ainda assim, percebi que não vi nada.
Quis contar ao sol as coisas que vi à noite e, à lua, o que vi de dia. E aos dois o que vi quando não era nem um nem outro. E a mim o que ainda veria. Não podia esquecer de nada. E eu descobri tanta vida que temi não caber tudo na minha cabeça.
Levantei a cabeça para o céu e pensei por muito tempo. Vi-o mudar de cor várias vezes. De azul celeste para cinza, para chumbo, amarelado, marinho, preto, — estrelas piscarem — chumbo, branco. Clareava e escurecia enquanto a lua e o sol se alternavam passeando por ele.
Foi quando percebi que ambos são a mesma coisa e o céu… o céu é a moldura de seu retrato, de sua existência.
Quis uma foto para me lembrar disso. Mas a foto tinha de ter movimento, e calor, e frio e som, e tudo mais… para eu me lembrar de tudo o mais. Como faria essa foto? Como eu tentaria fazê-la?
Corri para a papelaria. Comprei um caderno e lápis, vários lápis. E me sentei de novo… olhando e escrevendo a fotografia do que via.
Ringue
Eu subi no ringue. Era um ringue de boxe. Eu usava luvas de boxe e umas bermudas brancas com as pernas bem largas, tecido lustroso. Sem camiseta, minha barriga gorda, branca. Estava ridículo. Mas nem ligava para isso. Estava com vergonha de ficar ali, independente do que vestisse. E nem havia porquê. As cadeiras da platéia estavam vazias.
Uma voz de alguém que eu não vi, mas que estava em cima do ringue também, vi seu microfone pendurado do teto, disse algo. Não ouvi, mas sei que disse. Estava nos apressando. Queria que começássemos logo. Só então percebi uma mulher lá em cima comigo. Usava vestido vermelho. Não era para brigarmos, tínhamos de trabalhar.
Eu não queria trabalhar com ela. Desci do ringue. e logo me vi no corredor que levava para o vestiário. O corredor estava todo molhado de água infiltrada. Eu me assustei, não sei se assustar é bem o termo, com algo na minha frente. O corredor virou um cenário marrom e em pé, logo à minha frente, estavam quatro ou cinco crianças, em desenho animado. Usavam jeans muito largos, com suspensórios, iguais a calças de palhaço. Uma delas, menor, segurava a mamadeira.
Estavam decepcionadas por não assistirem uma briga. Tive pena. Crianças não deveriam se decepcionar. Mas quando percebi que o menor, o da mamadeira, usava um gorro igual ao do Peninha e se esforçava, com a mão livre, em puxar para cima as calças que teimavam lhe cair, pois os suspensórios eram grandes e elas muito largas, resolvi que aquilo tudo ali era ridículo demais para merecer meu respeito. E fui embora.
O som se espalha…
O som se espalha por toda a sala. Mas é como se estivesse só em torno de nós dois, nos abraçando. Você linda, sentada ao meu lado, com o vestido que me pediu para ajudar a escolher. Eu escolhi o que me deixava ver melhor seus ombros e suas pernas. Para o vestido nem olho. Te olho, de rabo de olho, discreto. Você sorri.
A música parece querer dirigir o que eu faço. Me dá vontade de encostar. Seguro tua mão, ela está sobre tua canela, você tem as pernas cruzadas. Abaixo a cabeça e olho nossas mãos. A música toca suave agora. Com um dedo, dois, sem soltar tua mão, brinco de seguir o contorno do músculo de tua perna, mais próximo ao joelho do que ao calcanhar.
O contrabaixo deixa tudo mais tenso, denso. Tenho vontade de te abraçar, de te trazer bem junto a mim. Mexo meu braço, sem soltar tua mão ainda, para deixá-lo bem encostado em teu corpo. Você o abraça e se encosta bem em mim. Gostei.
A música se acalma de novo. Já é tarde, estou cansado, tenho sono. Fecho um pouco os olhos, mas com medo de cochilar. Sinto melhor o teu calor. Ainda acordado, sonho por segundos que estamos noutro lugar.
Algo de metal suave me acorda disso, mas não demove. Ao contrário, tomo consciência. Tenho vontade de me deixar sobre você, te abraçar, aconchegar mês braços nas tuas costas e te beijar, bem devagar e suave… A música também já está muito, muito devagar e suave agora… até você levantar seu joelho em torno de mim.
Quando isso acontecer, que seja numa fanfarra, num solo de guitarra, numa cadência de percussão… mas que seja muito demorada e profunda, enquanto me faz sonhar com você.