Me lembro do concurso de redações da escola quando eu estava no segundo colegial. A participação não era obrigatória, mas quem não participasse teria de fazer uma redação “valendo nota”. Acho que eu fui o único que não se inscreveu e preferiu fazer a redação para nota. A professora ficou brava comigo, disso também me lembro. Não me lembro, acho que pela hora, sono, vinho, o que escrevi. Mas me lembro também que a professora gostou e ficou mais brava comigo. Teve uma menina da classe que se inscreveu para o concurso é só escreveu:

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e acabou a história da abelhinha….

Que inveja da redação dela!

“There is no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark.”

Dizem que a lua tem um lado escuro porque leva, para dar a volta no sol, o mesmo tempo que leva para girar em torno de si. Isso, obviamente, é pura lenda. A lua tem ciclos de dia e noite semelhantes aos da Terra.

Ela é quem olha aqui para baixo e só vê noite.

Pensamento de Café

Não aguento mais gente briguenta chorando por não entenderem esse seu jeito “autêntico e espontâneo”. Por favor, quando eu estiver assim muito autêntico e expontâneo, me peçam para baixar a bola.

face

Eu abri o face, enfastiado, desanimado, sem imaginar com quê me distrair. Abir o face é um reflexo inútil (sim, reflexos podem ser inúteis) de quando não tenho o que fazer. Abro para ver se tem algo de interessante a passar o tempo também inútil. Raramente tem.

Vídeos que eu não assisto. Fotos mal tiradas de temas que eu não consigo identificar. Um amigo meu posta várias selfies por dia, cada uma com uma roupa diferente. Acho bacana, mas é difícil alguma me chamar a atenção. Já fotos de paisagens, eu costumo invejar.

Nem presto atenção em quase nada. Corro a página com pressa. Procuro notícias sobre a política no clube, shows ou lançamentos de artistas de que eu gosto. Mas é Carnaval. No Carnaval, não há notícias, não há nada demais.

Parei de correr a página para ver um desenho. Simples e muito bem feito. Uma banda, de um tempo para cá, anda postando fotos com um ou dois versos de letras de suas músicas. Normalmente passo sem olhar. Mas o desenho que eles postaram hoje me chamou a atenção. E o desenho me chamou a atenção aos versos.

Costumo encabeçar alguns posts com versos de músicas que eu gosto. Procurei a letra dessa para me lembrar porque nunca comecei um post citando-a. Não tenho certeza de se gosto da letra toda (de todos os seus sete ou oito versos, é curta). Mas gostei do desenho e gosto do início.

Só isso já bastava.

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A noite estava, até então, perfeita: ela se atrasou (culpa de um imprevisto no trabalho e da chapinha que ela não sabia onde pôs), o filme era uma porcaria e (em vez de levá-lo a sério) divertiram-se remedando-o e fazendo piadas com as situações ridículas que os coitados dos atores passaram, o restaurante que queriam estava lotado. Chegavam à meia-noite sentados feito crianças no banco do parque com um pão e meia garrafa de vinho que compraram no mercado (beber de estômago vazio é para alcoólatras dizia o pai dele).

“O que você quer fazer depois?”, ela perguntou.
“Antes de dormir, escovar os dentes rs”

Ela também riu. Tomou-o por tímido. Não estava errada. Ele notou o quão ridículo que era fazer rodeios para o que ela, com certeza, já sabia que ele queria.

“Quero qye você durma no meu colo.”, falou encabulado, mas nervoso e feliz por ter vencido a timidez.
Ela tomou-o não ser direto por romantismo, e gostou. Achou que tinha de dizer algo em troca:

“Eu quero que você me ame esta noite, como se não houvesse amanhã.”

Sua frase fez com que ele pensasse, ou se lembrasse, uma coisa que lhe incomodou. Alguns homens teriam dado risado da frase dela. Frase pronta que parecia tomada de um diálogo de telenovela. Ele não. Ele se incomodou com a palavra que ela usou para o que fariam. Pode ter sido só força de expressão, e ele achava mesmo que era, um eufemismo no lugar de outra palavra que ela não quis dizer. Ora, mulheres também têm direito ao pudor. Mas ele se incomodou. Imperdoável infantilidade sua, ele reconheceria depois. Mas soltou-a do abraço e começou a pensar em como terminar logo a noite que, de repente, tornou-se-lhe incômoda.

Ela, obviamente, perguntou-lhe o que aconteceu. E isso o deixou sem graça, mas resolveu-lhe o problema de como abreviar a noite:

“Se você acha que isso é possível… Na verdade, se você acha que amor é algo que possa ser usado nessa frase… Você não sabe o que é amor… Você está pensando em outra coisa… E quem não sabe o que é amor, para mim não serve.”

P.O.

Acordei no meio da madrugada, pouco mais de duas e meia. Na verdade, nem sei se dormi. Devo apenas ter ressonado. Até imagino o quanto ronquei, aquele ronco dos agitados, do sono mal dormido de quem se deitou por obrigação ou por fastio de estar acordado.

O coração está bem agitado. Poderia ser por um pesadelo, mas acho que eu me lembraria se tivesse sonhado. Desconfio do energético com pinga. Antes de me deitar, o refrigerante havia acabado, e eu queria alho gasoso e bem gelado para me aliviar no calor da noite de verão. Calor que veio acumulado, nas paredes do apartamento e no meu corpo do dia todo. O vento não entrava pela janela da sala, culpa mais dos mosquitos que poderiam entrar por ela do que de um projeto mal feito do arquiteto. Peguei a única coisa gasosa da geladeira, três latas de energético, que eu guardo para quando preciso acordar cedo. Achei que álcool me faria pegar no sono, já que sono eu não tinha, e procurei embaixo da geladeira, onde tenho uma adega improvisada. Havia vinho, tinto e madeira, houvesse verde eu não precisaria fazer a gororoba. Não havia verde. Mas tinha uma garrafa de pinga que eu uso quando flambo cogumelos ou frutas. Lembrei-me do guaraná com vinho licoroso vagabundo que minha mãe gostava e me deixaria beber junto quando lhe fazia companhia no trabalho. Batizei o energético com a pinga, imaginando que o gosto ficaria parecido com o familiar da minha infância, e deixei no freezer enquanto tomava banho. Quando bebi, já havia uma fina pele de gelo em cima. Mas não me refrescou.

Deitei-me, com a janela do quarto meio aberta, persiana fechada. Parecia que não deixavam o vento passar. Talvez não houvesse vento mesmo. De pronto, já me senti todo suado e sujo. Sensação de que o banho não foi o bastante para essa noite. Tive coceira nas pernas. Nos braços, não achei mosquitos.

Coloquei uma música. Sempre que ouço música à noite, acabo dormindo. Achei que o efeito seria o mesmo, mas a música só serviu para me inquietar e irritar. A coceira nas pernas. Virei-me de ponta-cabeça, com o travesseiro nos pés da cama. Nada. O travesseiro esquentou.

Isso demorou, não sei quando dormi. Sei quando acordei. Reflexo de sempre olhar o relógio. Virei-me da esquerda para a direita e de volta, procurando um pedaço fresco do travesseiro ou da cama, uma brisa, uma cabeça vazia. Tudo era incômodo.

Tirei a roupa suada. Abri a gaveta do armário e peguei uma camiseta bem grande. Não a vesti. Dobrada, cobri o travesseiro com ela. Pus minha cabeça em cima. Estava fresca ali. Abracei o travesseiro, ilha de frescor numa noite suada e abafada. Imaginei-me envolto, na verdade, imaginei-me envolvido nessa ilha. Uma sensação gostosa de alívio e conforto foi-se espalhando por mim, não sei dizer se a partir da pele que tocava a roupa fresca do travesseiro, ou se vinha de dentro de mim, fruto de pura imaginação.

Foi essa dúvida que me levou a usar a imaginação e logo passei a distrair-me com ela. Lembrei-me de situações imaginadas ainda há poucas horas, quadros pintados, histórias por contar. E tentei elaborá-las, preencher as lacunas, descorá-las com nuances de decoração. Normalmente, imagino com cuidado e detalhamento os cenários e o fundo de minhas histórias, procuro o lugar certo para cada coisa na cena e a coisa certa em cada lugar. Curiosamente, dessa vez, não houve fundo, e só depois me toquei disso, só o tema, só a história envolta em penumbra e no frescor de conforto. E me envolvi nela. Timidamente, no começo, confesso, e isso há de se compreender. Quem já se envolveu em uma história sonhada acordado de madrugada compreende.

A tensão da história cresceu em mim e me inquietou. Não foi a inquietude do pânico, mas a da pressa de devorar os capítulos do livro. Notei minha respiração acelerada. Já sabia que, desta vez, com certeza não tinha a ver com nenhuma bebida nem com pesadelos. Era a aceleração do sonho. Não lamentei ser apenas sonho. Pelo contrário, diferente da decepcionante realidade, sendo sonho, poderia se extender e durar o quanto eu quisesse. E durou.

E quando eu, por fim, imaginava qual o melhor fechar de cortinas, o posfácio, aquela frase final que falta em muitos filmes, acordei sem querer para o quão freqüente é, logo ao acordarmos, esquecermos nossos sonhos, para sempre. E o esquecimento não podia ser o destino desse sonho. Quando percebi isso, antes que esse pensamento se tornasse preocupação e depois inquietação, levantei-me.

Acendi a lanterna do celular e procurei um caderno de anotações na gaveta. Peguei um, novo, em branco ainda, e também um lápis e a caneta, não sabia qual usar. Tinha de escrever tudo para não esquecer. Escrevi, infelizmente sem me lembrar de alguns detalhes e, mais infelizmente ainda, sem conseguir descrever os de que me lembrava do jeito como deles me lembrava. Mas escrevi, para não esquecer mais. Isso é importante, não esquecer.

Escrito, tive medo de que alguém o encontrasse e fuçasse, e se intrometesse tentando mudá-lo. Precaução com ares de adolescente ingênua, voltei à gaveta pegar cola e fechei o envelope. Estava agora seguro, ninguém abriria um envelope com o sonho de outra pessoa. É possível intrometer-se num livro, num caderno, lê-los, não num envelope. Ia sossegar assim, mas não. Como pode um sonho sobreviver num caderno selado? se nunca mais fôr lido? Morreria, como animal asfixiado. E isso eu não poderia deixar. Seria crueldade demais! Minha. Comigo mesmo. Com um sonho que há poucas horas me confortou e tirou o fôlego.

Estava decidido. Vesti novamente a calça e a camiseta que me serviam de pijama no verão, calcei as sandálias e saí para a rua. Já fora de casa, a noite não parecia abafada pelo verão. Era fria, escura, úmida de relento e solidão das ruas desertas e sujas do bairro que, durante o dia, foi oficina das bagunças de foliões. Andei, sem saber para onde, pela noite fresca, atrás de uma caixa de correio. Selo não é necessário. Não há endereço no envelope. Certas cartas devem ser enviadas sem endereço. Não precisam disso para encontrar seu destino.

Será que, se eu escrever este, consigo pegar ritmo de novo?

Eu estava estudando, talvez só lendo, sentado numa mesa antiga, de madeira, no meio de um gramado. Esse gramado, de verde extremamente homogêneo, bem cuidado. Parecia aparado, mas eu sei que não era. Aquela grama perfeita nascia toda do mesmo tamanho. Perfeita. Você, se a visse, a tomaria artificial. Eu sei que não. Havia terra por baixo. Aquela grama perfeita era natural, crescia toda da mesma cor e tamanho. E tinha o cheiro de grama e terra que eu não sentia. O dia estava ensolarado, muito iluminado. Luz do sol boa para ler. Devia fazer calor. O sol devia me queimar. Mas não. Estava fresco, não esse fresco de ar condicionado. Fresco de tempo fresco. E o calor do sol na pele, eu não sentia. Nem suava. Fiquei pouco tempo ali algumas horas, em poucos minutos.
Na verdade, não sei até que ponto eu lia por trabalho de estudante que aprende e se prepara para o futuro, ou se aquilo era só lazer. Ler me agradou, sempre. Quando eu era pequeno, eram os gibis. Adolescente, os livros que retirava na biblioteca municipal, dois a cada dois dias. A partir da faculdade, o tempo rareou, as leituras de temas profissionais concorriam só com textos curtos normalmente informativos, escolhidos por minha curiosidade.
Quando me toquei da inutilidade de ler aquele livro, do qual não me lembro nem nunca me lembraria, que suspeito ser de páginas em branco que eu olhava como bobo, procurei, atrás de mim, só atrás, algum lugar onde chegar à beira do gramado. Algo, qualquer coisa. Não achei nada, não vi o fim do gramado. Em pé, também não vi mais a mesa nem o livro. O que só serviu para aumentar a minha suspeita de que ele fosse uma ilusão.
Virei-me e andei. Logo ao passar meu curto horizonte, encontrei um pequeno muro de arbusto de delimitava o gramado. Exatamente no meu caminho, à minha frente, indo reto, ele tinha uma passagem. Passei por ela. Dava num corredor por entre arbustos que, só depois de andar já bem adiante, percebi serem altos. Não parecia ter fim o corredor. Quando me cansei, ou melhor, me enfastiei, quis voltar. Atrás de mim, não havia mais o fim do corredor com a passagem para o gramado. Ele terminava em muro, e havia outros corredores fazendo esquina com ele. À minha frente também. Era um labirinto.
Lembrei-me da estratégia de Teseu. Seguir sempre o muro à minha esquerda, até dar a volta e encontrar a saída. Segui. Segui e segui. por dias, minutos. Parecia não ter fim. Devia ser enorme. E se eu não tivesse tempo, na vida toda, de chegar à saída, acompanhando o muro à minha esquerda? O que eu poderia fazer?
O desespero chegou aos poucos, trazendo confusão, enquanto eu tentava arrumar um jeito de encontrar mais rápido como sair dali. Andei por todo lado, barata tonta, como formiga quando se lhe bagunça a trilha. Demorou ainda muito mais. A confusão era como o efeito de uma bebida que batia na cabeça de sopetão e tirava a razão, a reação e a vontade. A competência, não foi necessário tirar, já não existia mais. De não conseguir nada, nem fazer nada, fui me anestesiando. Misto de revolta e resignação. Ou mesmo de pura percepção. Por fim, fiquei cansado, tonto e nauseado de vez. Queria ao menos o alívio de tombar no chão que me escorasse.
Eu não via todo o labirinto de uma vez, só os muros e corredores à minha frente, à minha vista, mas tinha certeza de já tê-lo conhecido todo. De já tê-lo visto, todo igual e infinitamente repetido, por completo. Assim como, quando me virei procurando a entrada, não a encontrei, não devia haver mais essa entrada, nem uma saída. Até porquê, ora, quem disse que, onde há entrada, há saída?
Minha visão se turvou de vez. Perdi o equilíbrio sem esperança de conseguir me levantar de novo. A única saída era por cima. Não tenho asas. Só poderia sair dali se Deus me esticasse a mão e me içasse. Mas nem tentei levantar a minha em Sua direção. É inútil. Deus já não existia mais. Era tarde demais. Tanto tempo havia se passado que já era cedo. Meu tempo se acabava e eu tomei consciência de que não adiantava mais nada. Nem chorar. Por isso, larguei meu corpo no chão, e chorei. Chorei sem pensar como, sem pose, sem cena, só chorei, inútil, inutilmente.

tanta coisa

Tanta coisa faz-me falta, tanta coisa! Tantas coisas, muitas mesmo, que nunca tive! E na, minha idade, isso já é um problema. É quando percebemos que o tempo passou e (o que ainda não tivemos) não teremos mais. Há muitas músicas sobre isso. Lady Let it Lie do Fish me vem logo à cabeça. Mas as letras do Fish sempre vem vêem à cabeça. Há outras, de outros autores. Livros, poemas, posts no Twitter e no Face, textos em blogs e artigos. Eu sei que o sentimento não é privilégio meu. Isso conforta. É um pouco de conforto em se sentir normal na frustração comum. Já as coisas que tive e acabaram são as que mais fazem falta. Elas deixam a lembrança do gosto, do cheiro, do calor de algo. Às vezes, alguma coisa acontece (déjà-vu?) e aquela lembrança vem, não à cabeça, não à memória do pensamento. Ela vem a outros sentidos. Àqueles que não existem na ciência. E, quando muito reais, à pele, arredias ao tato, sentimos só seu calor. A fonte não está ali aos olhos ou ouvidos. Muitas vezes (na verdade, quase sempre) nem lembramos de onde vem. Eu fecho os olhos e não tenho mais nem a imagem da pessoa ou do evento. Mas sei como é. Só resta, de olhos fechados, imaginar. Imaginar alguém, algo, quando, onde. Nem sempre isso tudo é relevante. Imagino só o relevante. É o relevante é tão pouca coisa! E de viver essa imaginação, ela se torna real e deixa lembranças como as outras. Lembranças que se desmembram em sentidos e ficam guardadas. Um dia, uma dessas lembranças (ou várias?) e as frustrações a ela associadas são também acordadas por um déjà-vu. Me lembro de escrever algo sobre o que foi despertado, sobre essa nova encarnação sensitiva. Ultimamente, tenho deixado isso pra depois. A pouco, saí do cinema, olhos úmidos. Algumas cenas me desviaram a atenção do filme, me fizeram criar uma história minha própria. Quis escrever. Tinha de ser uma música. Invejo (invejo mesmo, com tudo o que há de bom e ruim nesse sentimento) quem escreve uma letra de música. Quem tem quem a cante ou para quem a cantá-la. Invejo. Algumas coisas não podem ser escritas sem música.

Não me julguem os que deixo pelas bateiras pretensiosas que digo em meu leito de morte. Pela condescendente mostra de pieguice que me permite a auto-piedade. Ou pelas observações filosóficas boladas de última hora por que se desespera em não ter dito ou mesmo imaginado algo de bom durante sua vida. Não me olhem, não falem, não me ouçam. Esqueçam tudo o que então eu fizer ou disser. Não chamem o padre para um arrependimento final, para a última chance de me desdizer. Talvez eu aceite, e isso eu não me perdoarei. Lembrem-se do passado, do que fui. Bom ou mal, é isso que sou. Principalmente não me olhem. Deixem-me quieto, sossegado. Dêem-me só paz e calor, por favor.

Volta das férias sem telefone, segunda-feira é dia de trabalho. A lista do Oscar já saiu e os filmes que não passaram por aqui no ano passado, estreiam esta semana. Ontem ninguém quis ir ao cinema comigo. Eu não deveria ligar para isso, mas já ando achando meio estranho sair para o cinema sozinho numa sexta-feira à noite. Dormi, cedo, me deitei às seis. Acordei para ver o que havia na televisão depois da novela. Só porcaria. Pelo telejornal da RTPi, descobri que o Brasil está estocando a céu aberto um derivado super-perigoso de petróleo (ou coisa que o valha, não prestei atenção) e também que há um português preso em algum lugar do mundo acusado de colaborar com terroristas. Não entendi direito as provas contra ele, parece que a principal prova é ele ser muçulmano. Preguiça de escrever, muita preguiça, e até de anotar para mais tarde as ideias que tenho. Penso nos motivos para escrever ou não cada ideia dessas e acabo chateado, encontrando motivos para não escrever nenhuma. Volto para a cama antes das onze. Saudades de dormir às duas… Percebo que antes havia me deitado com um travesseiro só é procuro pelo segundo. Ele está sobre bancada, em frente à janela. Pego-o e deito abraçado a ele. Está fresquinho, gostoso, bem cheio e fofo. Só então me lembro de que é de penas de ganso, uma frescura à qual me permiti. Vai me fazer companhia, vou demorar a dormir.