unfamous last words

Eu estava triste por nada em especial. Não é preciso motivo especial para estar triste. Acho que todo mundo com consciência ficaria assim sempre se sempre pensasse na vida. Se pensar bem, os momentos bons são tão poucos no meio de tanta merda e marasmo que parece ingênuo e mesmo simplório dizer-se feliz. Eu não penso na vida. Já passei disso. Invejo os bobos-alegres que pensam nela menos ainda e se dizem felizes. Mas estou divagando em filosofias que não domino. Não me deêm ouvidos.

A história, como aconteceu, é que eu estava triste.

Acordei assim. Continuou assim ao me despedir da namorada no saguão do metrô. Ela ia pegar o metrô, eu o ônibus. Não ajudou ela, na descida escada rolante para o saguão da estação, virar-se de costas para mim. Foi a primeira vez que me lembro de pegarmos uma escada rolante sem nos beijarmos. Foi também a primeira escada rolante desde que moramos junto. Ao fim da escada, só disse tchau e correu como o resto das pessoas, desconhecidas para mim, que corriam para chegar o mais rápido possível ao trabalho. Ela passou a catraca e foi embora, sem o romance da despedida dos tempos em que não sabia que me veria em casa à noite. Quando a despedida, por curta que fosse, era uma despedida.

Peguei o ônibus um ponto antes do metrô, para evitar a confusão de tanta gente se espremendo para subir. Coloquei os fones para ouvir música, abri um livro. No ponto do metrô, olhei a ver o tamanho da fila que eu havia conseguido evitar. Fila, não, confusão. Brasileiro não faz fila, se acotovela e acha trouxa quem tenta ter educação. No ponto seguinte, uma amiga do trabalho subiu.

É uma garota muito bonita. Nós damos muito bem, talvez porque eu seja o único que conversa com ela sem dar em cima. Tirei os fones e deixei que ela se sentasse onde eu estava. Fiquei em pé a seu lado. E ela, sentada, puxando uma conversa para a qual eu, sinceramente, não tinha paciência. Ela se divertia contando como infernizava o namorado, principalmente por ser friorenta, veio de Resende para São Paulo por isso, e ele calorento e ela se recusar a dormir, mesmo no verão, sem seu cobertor elétrico. Pensei que essas coisas nem existissem de verdade. Vi alguns só em desenhos animados muito antigos.

Mandei um SMS para a namorada. Para tentarmos passear na saída do trabalho, só andar conversando e beijando, e jantar um pedaço de torta, como fazíamos até duas semana atrás, antes de ela se mudar lá para casa.

Descemos no ponto de ônibus em frente ao trabalho, do outro lado da avenida. Só tínhamos de atravessar rápido porque o semáforo na dá tempo suficiente. Minha amiga, nos últimos metros da travessia, agarrou meu braço. Reflexo do medo de o semaforo abrir antes de conseguir chegar à calçada. Ela já fez isso de outras vezes e eu sei que o pessoal do trabalho que viu comentou sobre chegarmos juntos de braço dado. É besteira. Veêm um buraco de rato e imaginam um elefante saindo de lá. De qualquer modo, eu também não me sinto à vontade quando ela encosta em mim.

Trabalhamos em andares diferentes. Ela desceu no seu, eu no meu. O trabalho pela manhã é muito tranquilo. Escritório brasileiro de uma empresa americana. O escritório de Nova Iorque só abre na hora do almoço, México e Buenos Aires também (parece que os argentinos são bem dorminhocos).sem ninguém dos escritórios maiores com quem interagir, a manhã chega a ser chata: conferir se não houve nada errado durante a noite, responder e-mails, ler o jornal editado internamente pela empresa e procurar pela internet como está meu time.

Os colegas de sala me acham quieto, fazem piada. Uma delas é uma borracha que me acerta a nuca. Tinha um colega meu na escola que gostava de me provocar durante a aula me tacando pedaços de giz. Um dia, ele me pegou chateado com algo, catei um pedaço que caiu em cima de minha mesa e taquei nele com toda a força, para machucar mesmo. O giz passou ao lado do rosto dele e acertou, cinematograficamente, o copo de água da professora. Eu imagino a cena como vista por ela. Ela apenas me perguntou porque eu fiz aquilo e eu só pedi desculpas. Deve ter sido tão evidente para ela que havia algo errado, que o incidente não passou disso.

Me lembrei desse giz é desse copo porque taquei a borracha longe também, na direção de onde ela veio. Ela ricocheteou na parede e derrubou um porta-retratos na mesa do gerente. Ele não estava lá. Se estivesse, seria mesmo o primeiro de quem desconfiaria ter vindo a borracha. Desliguei minha estação sem cuidado e saí para tomar café. O garçon, tínhamos garcon na empresa, me ofereceu uma bebida (sim, podíamos beber no escritório, havia um bar no café). Não era o caso. Só quis café.

Outra colega veio me perguntar se eu tinha algum problema. Ela deve ter notado algo estranho, que eu não note. Digo que não tem nada e lhe faço um carinho. Nela posso fazer, a diferença de idade é grande (sou uns cinco anos mais velho), é evidente que não rola nada, mas fazer-lhe carinho mata minha vontade. Ela não gosta de café, pega um chá, olha a janela e diz que eu posso ficar sozinho, mas que lhe diga se houver algum problema.

O almoço é insuportável. Os colegas falando asneiras sobre carros e as mentiras das baladas do fim-de-semana. Dou uma desculpa esfarrapada de que preciso ir ao banco e me meto num bar para comer um lanche. Minha mina finalmente responde o SMS. Diz que vai voltar cansada pra passear e que torta não é jantar.

O trabalho à tarde é corrido. Telefone toca, ora em espanhol, ora em inglês. A empresa está consolidando os escritórios, ao menos um vai fechar, e o de São Paulo é o menor. À tarde inteira, cada ligação é uma discussão de alguém de um escritório tentando desqualificar o trabalho do outro. Eu não tenho porque me preocupar com isso. Já arrumei ouro emprego, na nova empresa de nosso ex-gerente. Começo na próxima semana. Mesmo assim me irrito muito com a forma infantil das pessoas brigarem entre si assim. É demais para minha cabeça.

Em determinado momento de uma ligação, me revolto com um colega brasileiro que mente descaradamente para criar dificuldade a outro colega argentino. Para não xingar, bato o telefone e saio. Bato também a porta do escritório atrás de mim. O segurança me olha sobressaltado mas não fala nada. Cenas parecidas são comuns ali.

Saio rápido do prédio. Chego à rua com pressa. Lá, parece que me olham. Acho que percebem minha pressa. Começo a andar devagar, dissimulando, fingindo a calma que não tenho. Desço a rua ao lado com as mãos nos bolsos, olhando as vitrines. Na verdade, não as olho, só viro o corpo e os olhos em direção a eles, nem sei o que têm. Quero que pensem que é pra isso que estou andando. Passeando e vendo vitrines.

Escurece e estou no fim da rua. Já há puteiros abertos. Nunca entrei num, nunca precisei nem quis. Logo ao entrar já me arrependo. Não tenho o que fazer ali. Algumas garotas vêm se oferecer. Recuso envergonhado. Não sei porque entrei. Vejo o bar e me sento, peço uma bebida, outra, outra. Outra. Saio depois de algumas.

Me sento na calçada. Quando percebo tenho só um toco charuto na mão. Estou bebado que é difícil até de me sentar sem antes cair. O chão está imundo, mijo dos adolescentes baladeiros e merda de mendigo para todo lado. Fede. É de se admirar que eu perceba. Mas não percebo, só sei. E também só fico ali. Não choro, não porque homem não chore, mas porque o choro acabou. Não há mais o que ou de onde sair. Só fico ali jogado. E jogo a cabeça para trás procurando algo: ar, alívio  o choro que não tenho. Lamento não estar mais sentado no bar do puteiro. Mas o lamento só dura uns segundos até sentir que a barriga arde e dói de tanta bebida.

Lamento então nunca ter me interessado por drogas. Alguma delas haveria de ser-me útil agora. A cabeça pende e eu a jogo de novo para trás. Ela bate na parede e não dói. A caixa craniana vibra com a pancada. Deixo a cabeça pender mais duas vezes e a jogo para trás de novo, violento. Não sei de qual lado do rosto, mas sinto melado na bochecha. Passo a mão, é sangue. Demora para, passando a mão, eu perceber que vem da cabeça que eu abri batendo na parede. Minha pressão cai. Sinto vontade de desmaiar (é um alivio que sinto agora). Temo não ter sido alívio o sificiente e que só vou cair ou que, se realmente desmaiar, será um desmaio passageiro. Abaixo a cabeça bem no meio dos joelhos e jogo para trás de novo, com toda força, uma, duas, três vezes. Tenho pressa. Tenho de conseguir antes que algum filho da puta resolva me ajudar. Jogo a cabeça para trás de encontro à parede de novo, com a força que consigo. Vejo a calça lambuzada de sangue. Jogo mais a quarta e a quinta. Na sexta, estou já tão tonto que erro a parede e caio de lado. Não estou mais conseguindo ficar acordado. Ficaria em posição fetal se tivesse força para me enrolar. Meu corpo todo adormece. O nariz cheira sangue. Vejo só branco. Branco. Dizem que há uma luz. A luz. Eu preciso ver logo a luz…. Olhar pra ela. Antes que algum filho da puta apareça para me ajudar…

Já estou desde domingo organizando uma lista dos filmes que assisti nos últimos meses (já tinha perdido o costume de ir ao cinema) e as anotações que fiz sobre cada um. Finalmente acho que encontrei o jeito certo de organizar isso. Conforme fui desmocozando os ingressos de cinema da carteira, da bolso, de meio de caderno, bolso de calça, percebi que tenho ido muito mesmo ao cinema. Isso para não falar do meu histórico do Netflix. A lista, por ondem cronológica, os mais recentes em cima, me decepcionou. Os filmes de que mais gostei ficaram espalhados ali no meio de porcarias (e também de coisas boas que não tiveram significado nenhum para mim). Tenho de pensar em um modo de destacá-los.

De qualquer forma, depois dei uma olhada na minha lista de livros e me decepcionei. Estou lendo muito pouco. Saudades do tempo em que eu, dia sim, dia não, ia à biblioteca, pegava dois livros e os lia de cabo a rabo sentado na laje ou na janela do quarto.

Show

Hoje eu estou com vontade de escrever uma história. Mas uma história sem começo nem fim. Só um trecho talvez, um capítulo, alguma página de algo maior e que, quem leia ali, fora de contexto, talvez não entenda e diga que “não tem história”.

Haveria de ter um casal, sempre há de ter um casal. Ele estaria um pouco triste. Ela não, mas acabaria ficando um pouco, por ele. Estariam conversando em pé. Onde poderiam conversar em pé por bastante tempo? Sei lá, talvez na fila para um show. Terça-feira tem um show que eu gostaria de assistir, mas não vou. Pode ser a fila para entrar no show. É interessante, um casal que tem em comum o gosto musical. Estão na fila e conversam.

É noite, a fila é do lado de fora, rodeando o galpão que é a casa de espetáculos. Estão perto do começo da fila, junto à parede, caiada por fora. A parede tem umas pequenas saliências, provavelmente são as colunas. Ela está encostada na quina de uma para melhor se proteger da aragem e de uma umidade já se condensa. Não usa agasalho. Lá dentro estará muito quente e não faz sentido segurar agasalho enquanto pula e canta junto com a banda. Ele, também sem agasalho, também encostado ao muro. Apoiado, muito perto dela. Os ombros estão encostados, os rostos quase se tocam, de modo que podem conversar a sério, baixinho, sem que nem mesmo os que estão mais próximos na fila os possam ouvir.

Nesse ponto, ela, para tentar lhe distrair, reclama do frio e lhe passa a mão pelo braço, para ilustrar quanto frio sua pele sente. Ele sorri amarelo e ela lhe arruma com carinho o cabelo despenteado que invade a área em frente ao rosto. Demora nisso enquanto ele fala algo, baixinho.

Seria então que os olhos dela se entristeceriam e ele imediatamente se arrependeria do que disse. Pedir-lhe-ia desculpas com palavras que eu não teria escutado. E fecharia os olhos.

Com a mão lhe que mexia nos cabelos, ela seguraria sua cabeça. Ele seguraria o braço dela sentindo-o gelado pela sereno e teria vontade de chorar por não o tê-lo aquecido ainda. Deslizaria a mão para trás dela, tentando abraçá-la, seus rosto se tocam. Não era sua intenção, mas em vez de alcançar-lhe com a mão as costas, tocá-a o lado do corpo, entre o colo e a cintura, ao mesmo tempo em que ela, com a outra mão, o abraça e descansa o rosto no seu.

Ambos falam baixinho algumas coisas que ainda não são conseqüência disso. Enquanto as falam, ele percebe a diferença de centímetros na posição que sua mão alcançou e a intima diferença que isso acarreta. E percebe que ela não evitou, pelo contrário, achou mesmo que ela se aconchegou mais à vontade quando se viu segura por suas mãos quase pela cintura.

Ele não teve coragem de abrir os olhos. Os dela, não vemos para saber como estavam. Mas sabemos que sentiram nos rostos um o calor da respiração do outro e que ele passou-lhe a mão para as costas. Como se a puxasse para si, soltou o corpo e deixou-se encostar todo nela. Sentiu, pelo calor da respiração,  que os cantos de seus lábios se tocariam.

Ele evitaria isso. Não porque não quisesse, mas porque tinha uma coisa mais importante a fazer antes. Ele evita que os lábios se toquem, encostando os seus na orelha dela: “Eu quero fica com você. Bem junto. Eu quero ficar bem junto de você tudo que a gente conseguir.”

Ela mexeria um pouco o rosto para lhe falar algo ao ouvido também, sem ainda sabe o quê. Mas isso ao mesmo tempo em que ele voltava os lábios da orelha. E percebendo os narizes se encostando, desistiu de falar.

Antes de se beijarem, vacilariam um pouco, tentando se abraçar melhor, sem fazer força, sentirem juntos e imaginar o que mais viria depois. Do beijo mesmo, não se lembrariam mais tarde. Lembrariam-se do que sentiram e dos porquês.

 

sexta-feira

19:15 – fecho o ponto. agora ninguém mais pode me encher o saco. não estou de plantão neste fim-de-semana. até me ofereci para cobrir o plantão do colega que está de férias, desde que alguém pegasse a noite do sábado. sabado à noite. como não estou no escritório esta semana, o pessoal arrumou a escala sem mim e eu fiquei de fora. começam agora sessenta horas de telefone desligado até a segunda-feira pela manhã.

19:30 – já listei todos os horários dos filmes que ainda não vi, de todos os cinemas onde me prontificaria a ir. os cinemas são escolhidos pela proximidade, pelas opções de restaurantes e, óbvio, pelos filmes. cinemas de shopping não, só raras exceções. prefiro os de rua. tem público menos barulhento e a programação costuma ser melhor.

20:00 – vi alguns trailer. alguns filmes foram descartados por hoje. filme romântico hoje não. nem terror ou coisa do tipo. tem um que eu quero ver, mas tenho medo de que seja ruim como o da semana passada. pelo trailer, tem muita putaria, hoje também não. sobram três. num não vou mais chegar a tempo. vou tentar os outros dois.

20:20 – finalmente, rua. chove. volto para a garagem, pegar o carro. um pouco de trânsito já em frente à igreja, deve ser casamento ou coisa do tipo. não é. é trânsito mesmo. por causa da sexta-feira e da chuva? tudo parado. olho de novo os filmes no telefone. me enganei. onde eu ia, só havia um dos dois. com o trânsito, a tentação de mudar de caminho para ver o outro é grande.

21:00 – com o trânsito anormal, gps me avisa de que há um acidente atrapalhando tudo, resolvi ver o outro, mas errei o caminho e fiquei até agora irritado no meio dos carros quase parados. o gps me diz para fazer o caminho sem passar pelo acidente, mas eu vejo tudo parado nele e carros rodando livres pelo túnel onde houve o acidente. meto-me por ele e logo estou praticamente na porta do cinema do qual eu havia desistido.mas já desisti. agora vou para o outro. até porque o filme daqui começa logo, não teria tempo de jantar. passo pelas ruas que costumo frequentar nos fins-de-semana. é estranho não ficar por ali. mas sigo o gps.

21:15 – cheguei. é noutro bairro, mais distante, mas cheguei logo. nao é um cinema de shopping, mas também não é exatamente de rua. fica num conjunto comercial onde está o escritório de uma empresa onde já trabalhei. fico tentado a ver o filme que escolhi (que sei que nem será tão bom) e mais uma baboseira antes. os horários casam, mas eu desisto porque quero ainda jantar e tomar um café escrevendo algo (que acaba sendo isto). não gosto da aparência de cinema de molecada. já estou nos quarenta. também não gosto de mudanças e este não é o bairro com o qual me acostumei a frequentar nos fins-de-semana. mas a menina da bilheteria é tão simpática que considero voltar.

21:40 – já comprei ingresso, olhei o que há aqui pelo conjunto, o que há na rua em frente. respondi a um garoto na rua que na paralela tem ônibus para o metrô, mas que não sei se é a melhor opção para ele. tenho de escolher onde comer. há dois restaurante. um terceiro, com cara de happy-hour e vários fast-foods. os fast-foods estão descartados. fico com o que parece happy-hour, quero ver movimento, gente conversando e um pouco de barulho.

22:00 – pedi a comida, petiscos, chope. não sei se devia, na saída do cinema, de madrugada, daqui a quatro horas, vou dirigir. pego o tablet para escrever, mas é estranha a mesa. comida chega logo e desisto dele.

22:20 – sem graça só comer petisco olhando o que acontece, dá pressa. pego o tablet de novo.

22:45 – acabam os petiscos e o segundo chope. garçom tira meu prato. peco o terceiro chope e ponho o tablet na mesa.

23:00 – um moço que chegou agora há pouco na mesa do lado pediu uma taça de vinho. invejo. me arrependo dos chopes. peço o quarto chope e a conta. guardo o tablet para escrever mais no café. olho o telefone para ver se tem algum recado. enquanto olho ele, chega um email da minha amiga. ela está cansada, eu respondo, feliz por ela conseguir me dar um oi antes de descansar. pago a conta, bebo o quarto e último chope, e saio para o café.

23:30 – me sento para escrever mais, no café, com um café filtrado (adoro café filtrado) e um capuccino que pretendo levar para dentro do cinema. já me esqueci qual é o filme. me lembro de que é meia-noite. aliás, um pouco antes da meia-noite, uns cinco minutos antes. um casal numa mesa há uns cinco metros da minha se beija. beijo de casal novo, que ainda não se conhece e ainda se deseja. morro de inveja, mas tento não olhar. vários casais de garotos se reúnem conversando aqui na porta. não sabia que este cinema tinha esta frequência, assim neste horário. ao menos, pelo pouco que me lembre, não vou ver filme de ação, nem de namorados. bebo meu café, vendo o pessoal que sai, não sei que filme cada um assistiu. mas me admiro, bobo eu, de tanta gente diferente sair da mesma sessão. e é assim em cada sessão que termina.

23:40 – vou ao banheiro. na verdade, já tinha ido antes, quando sai do restaurante. vejo uma menina fumando. um casal de meninas, uma fuma. tenho vontade de fumar um charuto. volto para minha mesa e, no caminho, vejo uma menina, também já a havia visto antes, sozinha. deve ter tomado bolo. não é particularmente bonita, é normal. ninguém merece tomar bolo. ela percebe que eu olhei e eu volto para a mesa escrever, pensando em onde poderia fumar meu charuto.

23:58 – já se passaram três minutos do início da sessão. entrei, sentei, mas peguei meu tablet para escrever o que vi enquanto fumava meu charuto. o segurança disse que, por regra, eu tinha de fumar na calçada, mas que, se ninguém reclamasse, ele faria vistas grossas para eu fumar no jardim. eu disse que não havia problema e fui fumar atrás do ponto de ônibus olhando o movimento. vi uma menina no ponto fumando cigarro e bebendo uma lata bem grande de cerveja. outra, quase bonita, mas com algo de bem atraente (talvez a calça amarela justa) rindo, atirando as cantadas do menino que parecia seu colega de trabalho. vi outro garoto perguntar de ônibus para o metrô. Lembrei-me de que este é o bairro onde meus avós viveram e o de minha mãe foi criada e das histórias que ouvi de todos. Lembrei-me de que trabalhava aqui quando me casei e que pensei em morar aqui também. Tive saudades de tudo e fiquei triste. vi passar um casal, a mulher está grávida, riam fingindo discutir. chegou outro casal no ponto. joguei o foco do charuto nas plantas enquanto passavam umas meninas bonitas que estavam no restaurante onde jantei. entrei no cinema, no meio dos trailers. mas corri terminar de escrever isto. o filme começou com destruição, gostei disso. terminei o post pelo telefone. antes de guardar, conferi os emails de novo.

 

Painel

Eu fiz um painel na minha cabeça. Ele é amarelo, feio, parece um post-it gigante. Fica pendurado na parede de um dos quartos do meu futuro apartamento, que tem a planta muito parecida com a de meu primeiro apartamento, mas invertida. O quarto é mobiliado para poder ser dormitório ou escritório, dependendo de haver em casa alguém para usá-lo. A bicama serve vira poltrona. O guarda-roupa, armário. O painel, na versão dormitório, se esconde atrás do guarda-roupa. O resto da casa segue um padrão assim, poucos móveis, pouca decoração, para facilitar a limpeza. Papel de parede de cores esquisitas, que parecem escolhidas por crianças. Móveis de madeira escura. Cortinas simples e grossas. Se fecho a cortina é para filtrar a luz.

No painel, eu tenho vários post-its, do tamanho tradicional e daqueles menores também, verdes, azuis e rosa. Só não tenho do amarelo porque amarelo é o quadro. Ele é grande. Acho que um metro e vinte por oitenta. Conforme tenho ideias de coisas para escrever, anoto num post-it e colo nele.

As cores não tem um padrão, pego do primeiro bloquinho que aparecer. Os tamanhos sim, pego de acordo com o tamanho da anotação. Nos maiores, costumo escrever trechos de redação já meio prontos, esperando serem juntados a outros para formar algo. Nos menores, costuma por frases que acho interessantes, não necessariamente minhas, de onde tirar idéias. Escrevo e vou colando. 

Quando quero escrever algo, fuço esse quadro. Pego uma frase e tento escrever alguns trechos, pego trechos e tento montá-los juntos. Vou trocando os papeizinhos de lugar.

Às vezes sai algo, que eu escrevo sem olhar se ficou bom. Outras vezes, não sai nada, olho ao redor, vou à cozinho, faço um café e me sento no beiral da janela, caderno na mão, escrevendo o que vir.

 

fim

Agonizo se tento retomar a origem das coisas.
Sinto-me dentro delas e fujo.
Salto para o meio da vida como uma navalha no ar que se espeta no chão.
Não posso ficar colado à natureza como uma estampa e representá-la no desenho que dela faço. Não posso!
Em mim, nada está como é, tudo é um tremendo esforço de ser.
— Secos e Molhados, Angústia

 

Passaram o dia juntos. Nada de mais. Almoço de fast-food, café demorado (mais pela conversa, muita conversa e risada, do que pela bebida), passeio pela avenida, pausa para atender uma ligação e ajudar um colega do trabalho, e mais conversa sentados no banco do parque, olhando as árvores, as flores e os passarinhos. Chegou a hora da despedida. Nunca é a melhor hora. E pra quem já está escondendo algum pensamento ruim, uma palavra mal escolhida, uma frase óbvia pode piorar de vez e acabar com tudo:

“Tchau!”
“Tchau, tenho de ir logo pra casa.”

Enquanto ela ia embora, imaginá-la em casa, um mundo que ele já sabia existir mas no qual não pensava, um mundo que não era seu…

Teve inveja. Inveja dela que ia embora sem se mostrar entristecida. Inveja de quem não ouvia por aquele “Tchau, …”. Inveja de quem conseguiria ouvi-lo sem se entristecer. Ele não conseguiu. Hoje não conseguiu. A princípio, voltou para o banco, sentou-se sozinho, olhou as flores, fotografou-as para se lembrar dali. Mas, daí a pouco, não quis mais se lembrar.

Ainda assim, ali ficou até que veio a noite. Não sabia mais para onde ir. Ficou só, no escurou. Queria frio que o obrigasse a se encolher, mas só sentia mormaço da umidade do verão. Imaginou que o mormaço fosse um abraço e, de imaginar os braços, ficou triste. Tentou então imaginar outros. Os outros, todos desesperadamente iguais, o jogaram num abismo que era um labirinto vertical sem saída no qual não não consguia parar de cair e se perder mais e mais. Quis acabar com tudo e nem sabia por onde começar.

Saiu. Procurou uma solução para o quebra-cabeça dos pensamentos confusos. Achou outros.

Entrou num bar, procurando com quem falar sobre isso, cheio de gente como ele. Gente que nao se conhecia. Só teve coragem de falar com o barman. Ainda assim, foi após alguns ensaios. Pediu uma dose de bebida. Todos ao redor, faziam o mesmo, apesar de alguns fingirem agir como planejaram.

Viu garotas dando em cima dos outros homens e se lembrou de que havia outras mulheres no mundo. Começou a pensar em onde estariam, enquanto bebia, em bicadas mínimas, molhadelas de beiço, a bebida batizada. Lembrou-se de vários lugares, mas em nenhum deles elas estavam. Havia outras lá, mas não serviam, não se qualificavam ou não eram para seu bico. Terminou o copo.

Olhou ao redor, àquele mundo que não queria, e pediu a segunda dose. Quase se distraiu bolando um mundo ideal, mas acordou para não deixar o barman pôr-lhe gelo no copo. Ele deixou de lado o copo com gelo e deu-lhe outro, puro. Bebericando nesse, reparou que nenhuma garota lhe dava em cima. Reparou numa, que estava conversando com um moleque bêbado e brincou de imaginar-lhes o diálogo: o que ele falava e o que ela provavelmente respondia, o que devia responder. Interpretou bem os papéis deles, pensou, melhor que eles mesmos. Tanto que, extrapolando a cena, imaginou-a se apromimando e, no papel dela, rejeitou a si mesmo. Foi assim que. aos goles, terminou o segundo copo.

Quando ia pedir o terceiro, pediu a garrafa inteira. O barman ficou seu amigo. Tinha um amigo.

Amanhã acaba, dizem.

Imaginou o dia seguinte, seria igual, e o seguinte também. Desejou que não fossem, mas a experiência lhe mostrava que seriam. Pensou em tudo o que podia fazer diferente e não encontrou nada realmente diferente a acontecer ou a fazer. Desejou que os amanhãs, todos iguais, também não existissem mais. Tentou beber um copo quase cheio, a cabeça já tonteava, e não conseguiu. O esôfago ardeu-lhe ao álcool aquecido pelo corpo, precisava encontrar por onde sair. Não conseguia beber no ritmo que precisava. Chorou.

Uma porta se abriu em alguma parede e ouviu uma música horrorosa sobre alguém que se fingia na pele dele, que fingia sentir o mesmo que ele. Xingou, sem conseguir pronunciar o xingamento, e terminou o copo. Olhou a garrafa, ainda estava pela metade, e a desprezou enquanto cambaleava querendo chorar a dificuldade de encontrar a saída. Sabia ter feito besteira, antes e depois de entrar ali.

Chegou na calçada e andou. Deu dois ou três encontrões em quem vinha no outro sentido, sem nem perceber o quanto se machucou. queria ao menos chegar sozinho em algum lugar, conseguir ficar quieto sem pensar em nada. Não conseguia. E, quando percebeu, chorou.

Chorou, chorou pedindo o fim que não sabia onde estava.

Faz-me falta escrever à mão. Aquela escrita a lápis que eu odiava no tempo de escola. Odiava porque, não sei se aperto muito o lápis, mas minha mão, meu pulso, o cotovelo, logo doem muito. Além de que, à mão, eu escrevo muito devagar. Sempre escrevi devagar à mão. E isso não tem nada a ver com a caligrafia. Minha letra é bem desenhada, tem seus rococós, é uma letra bonita todos dizem. Mas ela ficou assim conforme eu fui pegando pratica. Devagar e dolorido sempre foi. Mas hoje, que me acostumei com o teclado, o mouse e a tela do tablet, sinto falta da liberdade do papel. De escrever fora das linhas, das margens, das bordas. De errar o formato da letra, tremer, apertar ou afrouxar o lápis, borrar. Apagar e deixar marca. Fazer uma bolinha no “i” e riscar o “ç” como os professores me diziam para não fazer de jeito nenhum. O cheiro do papel, da tinta e do grafite. Sinto falta de segurar o papel e senti-lo com a mão esquerda, enquanto a direita trabalha. E de, no final, juntar as folhas e segurar o que fiz, pelo volume ter ideia de quanto trabalho me deram. Depois grampear e passear dias preocupado com onde escondê-lo. Até um dia achar melhor rasgar e queimar no forno à lenha do quintal. Hoje, não consigo ver ao mesmo tempo o começo e o fim, minhas mãos não doem, não há cheiro, e é tão fácil de esconder que parece que não fiz nada.

Uma Despedida

Ele se despediu primeiro dos outros, não de todos, mas para ela foi como se fosse. Quando chegava para despedir-se dela, foi impossível não se lembrar, naqueles poucos passos, de todas as conversas tímidas, dos momentos de companhia, do café para aliviar a cabeça, das conversas frustradas que preferia ter acertado antes desta.

“Tchau!”
“Vai mesmo?”
“Preciso.”
“Não quero.”
“Também não queria.”

Ela lhe toca o braço, o cotovelo, com a mão, de leve, como faz quem tem medo de tocar o outro. Não durou um segundo nisso. Mas condensadas nesse mínimo tempo, passaram pela cabeça dele vários flashes desordenados de outras lembranças. De momentos em que ficaram próximos e, sem querer, se encostaram. De vezes em que, sem maldade, calhou de perceber que estavam encostados e se deixou ficar, só pelo gosto de dar a ela a chance de se afastar e de ficar feliz por ela não o fazer. De quando a faz abraçá-lo pelo pescoço, toda torta, para ilustrar-lhe como faziam os dois garotos da história que contava. Lembrou-se ainda, e com isso então seu coração se apertou, das vezes em que ficaram próximos, muitos próximos, sem se encostar, e sentiu-lhe o perfume ou o calor e também a angústias da vontade e do medo de tocá-la e lhe fazer carinho. Isso o fez se lembrar também de três sorrisos dela que viu bem de perto e dos olhos dela no terceiro. Pareciam alegres e ele achou que podia ser alegria por ser evidente que ele gostava de olhar seu sorriso. No dia desse sorriso, estava triste e isso lhe deu coragem para atrever-se a, discreto, sentado à seu lado, alcançar-lhe o braço com as pontas dos dedos e, por três ou quatro minutos, fazer-lhe um carinho, um leve cafuné perto do cotovelo. O carinho não ajudou na tristeza, mas aliviou-lhe um pouco alma angustiada. Lembrou-se dessa angústia, sentiu-a de novo, quando chegou perto, a uma distância em que teve de encolher muito o braço para passar-lhe a mão na cabeça antes de lhe beijar a testa, como gosta de fazer, e percebeu que era a distância certa para lhe afagar o rosto e encostá-lo a seu peito. Teve uma sensação estranha na garganta.

Isso tudo não durou um segundo porque ela também teve lembranças e logo se arrependeu da leveza de sua mão, do medo que teve. Deslizou-a poucos centímetros, ainda de leve, pelo cotovelo, para retirá-la. Imediatamente a repôs firme, mas com carinho, segurando-lhe o braço. Só as pontas dos dedos se mantiveram leves. Com elas, não resistiu à tentação de discretamente fazer-lhe carinho.

Ambos ignoraram que tiveram o mesmo flashback.

“Você não vai sumir, né?”

Ele sorriu para não contrariá-la, mas já sabia como essas coisas progridem. No começo, ninguém some. Mas a distância e o rarear do convívio, as novas companhias. Aos poucos vão sumindo tanto quem foi quanto quem ficou. Ela entendeu que ele não queria sumir. Ele também.

“Vai me fazer falta.”
“Saudade?”

Então foi ela quem sorriu, porque ele não entendeu.

“Mesmo que você não suma, vai-me fazer falta.”

Ele não entendeu, ainda assim, mas gostou de ouvir a frase enigmática. Tímidos demais, abraçaram-se aparentemente frios, constrangidos por algo, ansiosos em terminar a despedida. Ambos se sentiram culpados e se arrependeram disso depois.

Ele terminou as despedidas e saiu com a cabeça pesada, olhando para baixo, sem sentir o chão onde pisava.

Dois Olhos

A princípio, eram dois olhos. Melhor dizendo: um par de olhos. Ao menos foi isso que me pareceram. Dois olhos, encimados por sobrancelhas, pela testa, entre eles começava o nariz. Abaixo, parecia-me haver bochechas, ladeando o nariz. Mais abaixo, a boca e o queixo. Olhos.

Belos olhos, por assim dizer. Feitos com todas as partes que, na aula de biologia, nos ensinam que os olhos têm. Piscavam, às vezes. Sinal de estarem vivos e atentos. Olhos acordados nunca conseguem ficar abertos congelados, estáticos, sem piscar. Isso é coisa de fotografia. Olho de verdade pode nem se mexer, mas pisca. De quando em quando, pisca.

Tenho certeza de que até seriam capazes de chorar. Todo olho é capaz de chorar. Mais cedo ou mais tarde, encontram um motivo. Motivos aí estão, por toda parte, espalhados pelo mundo. Não precisa procurar. Dobra uma esquina, abre a porta ou olha para o lado, e lá está um, ao menos um.

Sento-me, talvez por coincidência, à sua frente. Logo à sua frente. Vejo-os diretamente, sem esforço, sem nem precisar procurar-lhes com meus olhos. Não tenho o que pensar ou fazer. Olho. Passivamente. É o resultado de estar parado. Meus olhos estão virados para eles. Vejo-os, a menos que tomasse alguma ação para evitar. Não tomo. Isso me daria trabalho. E trabalho não quero.

São um painel, descanso, pano de fundo. Cabeça vazia, cansado, largado, não penso. Tenho à minha frente o formato e as cores daqueles olhos, o reflexo em suas meninas, suas piscadas. Não presto atenção. Tenho consciência, ou seja lá de que sentido isso se trate, de que estão ali, na minha frente.

Tenho consciência também de que, de repente piscaram diferente. Na verdade, para mim, foi só um movimento diferente na imagem. Não me chamaria a atenção se não acontecesse de novo. Aconteceu. Comecei a despertar do transe de preguiça, ainda sem perceber direito o que se passava, sem formar, com nitidez apropriada, a imagem em minha cabeça. Piscaram de novo. E de novo.

Antes de eu estar com o foco claro, piscaram mais uma vez, como asas batendo. Bateram feito asas. E voaram.

Engenheiros do Hawaii – Dom Quixote

Muito prazer. Meu nome é otário. Por amor às causas perdidas.
Tudo bem, até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento.