Outro Casal do Café

Eu cresci acostumado a tomar alguns cafés ao longo do dia. O café com leite da manhã, para ajudar a acordar, acompanhado pelo pãozinho com manteiga. O cafezinho de depois do almoço, confesso que ainda acho esquisito rebater a comida com um café, mas tomo. O café do caminho do trabalho pra casa, o café da hora do café à tarde, o do lanche da manhã, o de quando o amigo chama para conversar enquanto ele fuma, o de quando eu chamo para conversar sem fumar, o da ida para o passeio, o da volta, o da loja, o da sala de espera, o da reunião. Um vez, fiz a experiência de acumular, na minha mesa no trabalho, os copinhos plásticos dos cafés que tomei durante o dia. Foram catorze copinhos, todos duplos. Meu filho, visitndo-me no trabalho, no caminho da recepção para a minha mesa, encontrou a máquina de café. Enquanto pegava um cappuccino, foi grampeado por um colega meu: “Aposto que eu acerto quem é o teu pai.” Acertou mesmo. Uma criança de quatro anos, que não resiste a uma máquina de café… foi até fácil acertar. Eu sei que exagero.

A garotada de hoje em dia não toma café. Dá mal hálito, eles dizem. Na verdade, eles não conhecem o verdadeiro papel social do café. Quando eu passeio, vejo essa garotada, os mesmos que reclamam do bafo de café, conversando em rodas na rua, em torno de garrafas de cerveja, de refrigerante batizado com álcool, vinho barato, cigarro, maconha. Isso sim dá bafo, bafo insuportável. Além de que, não sei a graça toda que vêem nisso, não me parece um bom jeito de aproveitar a companhia. O café é sóbrio, não altera a consciência, aquece e pede um lugar calmo, confortável, com silêncio. É no café que se pode relaxar e ter uma conversa tranqüila e pautada.

Há vários endereços de cafés que eu conheço, para várias situações e sabores diferentes. Ultimamente, tenho freqüentado muito um que abriu perto de casa. É prático, na volta do trabalho ou na volta dos passeios. Tem pouco movimento no fim da noite, um terraço grande, tomadas disponíveis para carregar o telefone ou o notebook, mesas confortáveis para escrever. É bom para conversar, estudar, pensar, desenhar, ouvir música. O pouco movimento é quase só de casais namorando, e de futuros casais tentando começar a namorar.

Na fila para pegar o café, ontem, havia um casal logo à minha frente. Fila pequena. Mas eu já sabia o que ia pedir, peço sempre as mesmas coisas, deu tempo para reparar neles. Acho que reparo muito. Não se tocavam. Sorriam bastante, olhando para o cardápio, para o caixa, para a fila, pra a decoração, para baixo. Não deviam namorar, ao menos não ainda. Perguntaram-se sobre o que queriam, sobre de que gostavam. Deviam estar se conhecendo ainda, futuro casal. Demoram um pouco escolhendo, já no caixa. Fazem o pedido. Eu também faço o meu, mais rápido.

Chegam os copos, eles sobem. O meu chega logo em seguida, subo atrás. São dois lances de escada, paredes de vidro, até o terraço. A esta hora, já está tudo fechando, só o café fica até tão tarde. Tem pouco barulho na rua. A noite, o frio, antes não incomodava. Desde que entrei começou a ventar um pouco e é o vento que incomoda.

No terraço, chegam à minha frente e pegam o último sofá, debaixo do guarda-sol que, à noite, só podia guardar a lua, as estrelas, sol não há. Se fossem namorados, escolheram errado o assento. Que graça há em se sentar ao luar com estrelas cobertos por um guarda-sol? Nem sob o céu feio de São Paulo há. No sofá sem braços, de encosto muito baixo, quase um pufe largo, jogados, para trás, ficavam quase deitados, barriga e rosto para cima, deviam ver só o forro e as varetas do guarda-sol. Que desperdício de visão. Preferiam, então, olhar os copos, a mesa. Talvez preferissem, mesmo se estivessem descobertos.

Para mim, sobrou escolher uma das três mesas que estavam vazias, com cadeiras comuns, de metal. São confortáveis e a que escolhi não tinha guarda-sol. Pousei meu café na mesa, caderno e lápis juntos, ao lado. Tiro uma foto deles para documentar o que fiz, talvez a use no meu blog. Tenho mania de guardar fotos dos cafés que tomo. Minha mesa não tinha um sofá confortável. Sozinho, escrevendo, não me faria diferença não ver as estrelas, mas fiquei sob sua luz. Há algo de romântico nisso, noite, vento, bebida quente, lua, estrelas, meter-se a escrever com caderno e lápis, mesmo para quem está sozinho.

No sofá atrás do casal que não sei se era casal, um outro garoto, digo garoto porque já não sou mais da idade deles, acendeu um cigarro. A garota não gosta, faz cara de de nojo, desvia o cabelo. Acho que tem medo de o cheiro do cigarro pegar-lhe ao cabelo. O garoto oferece-lhe parte de sua metade do sofá: “Chega aqui, senta mais pra cá.” Ele se chega mais para a borda, mostrando o espaço que deixou para ela se chegar.

Ela aponta a borda onde ele está, ao lado do parapeito de vidro do terraço, de onde se vê a rua e as copas das árvores descendo a alameda. Ele é quem chega pro meio e deixá-lhe a borda. Ela se senta, olhando para baixo, para o assento, talvez para ter certeza de que vai se sentar na poltrona e não no colo dele. O vão que ele lhe deixou é apertado, o sofá mesmo é pequeno. Ela, para caber direito no vão estreito, se senta meio de lado, ombros no encosto, pernas esticadas para fora, apertada entre ele e o parapeito de vidro. A posição não parece muito cômoda. Ela se ajeita um pouco mais, com o corpo o empurra. Ele lhe dá alguns centímetros a mais de assento. Agora ela consegue pôr o copo na boca e beber com segurança sem babar. Brinca: “Não adianta ficar assim grudado, eu não vou dar pra você.” Ele ri: “Está bem, melhor você já ter me falado mesmo logo de cara, assim eu também não preciso fingir que gosto de você.” Riram. Ela, rindo, lhe xingou e se acomodou melhor. Deram-se os braços, como namorados de antigamente. E se encostaram, sentados, afundados no sofá, olhando um para o copo do outro, conversando baixinho, agora sérios, discretos.

Eu não conseguia mais ouvir. Foi quando percebi que estava sendo bisbilhoteiro. Que coisa feia, escutar a conversa dos outros! Experimentei a temperatura do meu chá e foquei no caderno. Desenhei, escrevi. Sei escrever, não tão bem como gostaria, mas gostaria também de saber desenhar. Faço só uns rabiscos, mais brutos que de criança. Crianças desenham na escola, regularmente. Eu desenho envergonhado, escondido, enquanto penso no que escrever. Desenho bem mesmo quando desenho fora do papel, só pensando. Mas aí não tem graça, ninguém vê.

O vento incomodava, não era nada que me fizesse querer sair correndo pra casa ou procurar um agasalho, mas me encolhi um pouco, pra me aquecer em mim mesmo, e mergulhei dentro do caderno. Escrevia com o braço junto ao corpo. A outra mão, braço encolhido, segurando o copo quente no colo. Quando o chá acabou, daí uns quarenta minutos, senti as costas e o pescoço doloridos da posição. Mexi-me e espreguicei. Pensei em pegar mais uma bebida, algo quente com leite. Demorei pensando em quê.

Indeciso sobre a bebida, acabei reparando de novo no casal. Chegaram em algum ponto conclusivo da conversa. Aquele momento em que os casais, ali no terraço daquele café, fazem cara pensativa e olham hesitantes cada um para o próprio copo, fugindo um do outro, pensando bem se devem dizer o que querem dizer. Foi ele quem disse alguma coisa então. Ela pôs-lhe uma mão sobre um dos pulsos, que ainda segurava o copo, e olhou-lhe, séria. Ele também tomou coragem de olhar.

Estavam tão próximos que não fazia sentido não fazer nada. Ela inclinou o rosto e tocou os lábios dele com os seus entreabertos. Só tocou e aí olhou-o mais diretamente, com os olhos fixos. Ele ficou mais encabulado, vermelho, olhou para o copo dela: “Você sabe que pra mim isso significa mais do que se você tivesse dado pra mim.”

Aí foi ela quem ficou vermelha, voltou a olhar para o seu copo e pôs-lhe a cabeça no ombro. “Eu sei… tambem você significa pra mim mais do que isso.”

Em Branco

Quando se pega o costume, uma noite sem escrever não é apenas uma a mais. É uma a menos, parece que não foi vivida. Uma folha em branco.

Imagina passar dias, algumas semanas sem escrever. Se não aproveitar essas folhas depois, se as pular como folhas em branco de uma agenda, é como pular uma parte da vida. Dias sem registro. Dias em branco, folhas em branco.

E as folhas puladas, se a gente se acostuma, acabam virando folhas enormes, eternas, amarelam, amassam, estragam. O caruncho as come e não aceitam mais tinta. No caderno, dos dias vividos, essas folhas parecem de papel de seda, aquele dos pipas, grandes de chatas, finas, translúcidas. Mas já não servem mais para pipa. Pesadas, não tem como fazê-las voar.

Fossem lençol ao invés de papel, não me cobriria com ele ou sobre ele para passar a noite e dormir. Ao invés, vestiria-o, em pé, e vagaria como fantasma.

Vento e Ventania

a spirit with a vision is a dream with a mission

Saí mais tarde do trabalho, é a vantagem das férias escolares, acaba a correria, diminui o trânsito, não preciso de pressa, posso fazer e terminar minhas coisas com calma.

Mesmo assim, ver já tudo escuro e a lua bem nítida, brilhante, já no alto do céu, impressiona. É bonita, bonita demais, lá tão longe. Esta no crescente. Olhando daqui, as pontas voltadas para cima, ela parece um sorriso.

Tão bonita! Quero uma foto. Uso a câmera do celular. Tenho uma câmera tão boa que comprei estes dias, só para essas fotos mágicas. Nunca me lembro de trazê-la.

No LCD do celular, percebe-se fácil que a foto ficará ruim. O céu devia ser negro, totalmente, mas fica numa cor de não é nem preto nem cinza, é um papel escuto embolarão, manchado de cores impuras. São os postes altos de iluminação da chácara onde eu trabalho que atrapalham o foco e a nitidez.

Preciso de um lugar sem esses postes de iluminação artificial. Aqui em São Paulo, nos arredores de São Paulo, é difícil.

Eu esperei até mais tarde exatamente para poder fazer o caminho mais curto, rodovia boa, pedágio barato. Chegar em casa em vinte minutos. Mas o caminho que faço normalmente, a estrada pelo bosque que corta a serra, é escuro, os morros fazem corta-luz. São ao menos cinco quilômetros sem postes, estrada escura, sinuosa, perigosa, linda! Linda! No escuro dela, no alto de um dos morros, na estrada entre o bosque de eucaliptos e pinheiros, eu posso, quem sabe, conseguir um foco nítido da lua.

A tentação do incerto prêmio, talvez uma bela foto da lua no céu negro, é irresistível. É por ali que eu vou, pelo bosque.

Eu até já sei qual o melhor lugar para a foto, é logo no começo, no alto da primeira subida da estrada. Esse trecho é longo e é onde a estrada chega mais ao alto. Bem lá em cima, ainda há muitas árvores, elas fecham os dois lados da estrada. É sempre bem escuro. Se, dali, a foto não for boa, não será de nenhum outro lugar. É bolando isso que eu dirijo. Cuidado para, afoito, na pressa, não perder o controle do carro.

São cinco minutos, logo chego lá. Nem precisava de pressa.

Está frio, melhor pegar o agasalho. Tenho um moletom batido, vermelho, no carro. Esse moletom tem história. Visto, está fedido de guardado no carro.

Estacionei dentro de um terreno, subi a guia, não há calçada. Nem grade aqui. Acho que estão mapeando para construir um condomínio. Já não há tantas árvores e, subindo uns cem metros, há um morro, pelado, o mais alto daqui, sem iluminação nenhuma.

Subo. A terra vermelha suja meus tênis, xingo. Mas foda-se. E o frio incomoda.

Quanto mais subo, mais o vento incomoda. E não é só por subir. Cada vez venta mais, mais forte. É muito ruim.

Em cima do morro. Aliviado por terminar a subida e reclamar meu prêmio, sorrio e pego o celular, a única câmera que tenho. Miro a lua, bonita. O vento gelado, muito forte, incomoda, briga comigo, não quer eu eu tire a foto. Nem precisava, o foco, não sei porque, não entendo ainda o suficiente de fotografia, não está bom. O foco, a luz, a foto, nada fica bem. É uma frustração só.

Desisto da minha foto, da lua.

Ali, agora, estou só. Só com o vento e a ventania.

Domingo de Manhã com o Pai

Eu fui com o pai pro quintal. Ele ia me ensinar, não sei se eu queria fazer aquilo, mas queria aprender, achava importante. Fui com ele.

Do lado de um dos galinheiros, são quatro grandes, todos de alvenaria, mais a coelheira e o pombal, grudado ao muro da vizinha, ele tinha um cubículo dele. Nesse cubículo, em alvenaria também, havia um balcão, de mármore. O pai havia trabalhado numa pedreira, motorista de caminhão, comprava mármore defeituoso a preço bem abaixo do mercado. Havia também tanque com torneira, churrasqueira, uma mangueira pendurada na parede.

O pai foi até o quartinho, a edícula, gente comum chama de quartinho, trouxe um caldeirão, uma garrafa de pinga, carvão, um pedaço de estopa, o facão e a podão, de cortar roseiras.

Ele jogou carvão na churrasqueira. Pegou a estopa, deu um jeito de segurá-la presa ao podão. Molhou-a com uma pontinha de pinga e pôs fogo. Com esse facho, remexeu o carvão. Quando conseguiu as primeiras brasas consistentes, deixou a estopa enterrada no meio do carvão e foi guardar o podão e a pinga. Voltou com um copo pela metade e bafo da pinga.

No tanque, encheu o caldeirão com água. Depois, deixou-o sobre a churrasqueira. Para a água esquentar. Lembrou-se de algo. Foi de novo até o quartinho e voltou com um pano velho. Parecia de chão.

Bebeu uma bicada da pinga e foi abrir um dos galinheiros, deixar as galinhas saírem. Brincou com elas. Disse-me, apontando um frango: “Pegar esse.” Com o sotaque dele, de ilhéu, fica muito diferente de quando eu escrevo. Enquanto eu peguei o tal frango, ele tocou todas as outras galinhas de volta pra dentro do galinheiro. Quando fechou a porta, que fechava feito guilhotina, ele também tinha um frango na mão. Pegáva-o pelo pescoço. Eu segurava o meu com as duas mãos, pelo corpo.

“Pegá-lo pelo pescoço.” Em seu dialeto não existe o imperativo. Para mandar fazer algo, usam o infinitivo. Acho estranho, hoje em dia, a mania que as pessoas pegaram de usar o infinitivo no lugar do imperativo. Parece-me um eufemismo besta. Como se estivessem instruindo, dando receita, ao invés de mandar. Irrita-me. Mas estes dias, percebi que meu pai, e seus patrícios – no meu bairro havia muitos – faziam assim naturalmente como se omitissem um “Você precisa…” antes da ordem.

Substituí a mão direita pela perna, para o frango não escapar enquanto tentava segurar-lhe o pescoço. Ele tentou-me bicar duas ou três vezes. Talvez tenha conseguido uma. No final consegui. O pai, prático, já deu a receita: “Segurá-lo já entre as pernas. Sem soltar o pescoço.” Falou rindo. Meu pai, quando se diverte, tem um sorriso banguela que é uma risada. Troquei a outra mão também pela perna. Ele ficou preso, pelo corpo, entre minhas pernas. Com a mão direita, eu segurava seu pescoço, tomando cuidado para não deixá-lo me bicar. Eu morria de aflição. Morro de aflição de machucar bicho.

“Pô-lo mais para dentro, até o ombro.” Não entendi o que o pai quis dizer com isso. Ele percebeu que não foi claro. Com o frango que segurava, mostrou-me o que queria dizer: segurou seu frango entre as pernas, o pescoço entre seus joelhos. Pensei, olhei e tentei fazer igual. “Mais para baixo.” Ele recomendou. Imitei. Ficou mais fácil. Com os nós dos joelhos era mais firme segurar o bicho. “Agora, puxar-lhe de uma vez.” Eu já sabia que ia dar nisso, mas ainda assim fiquei impressionado. Puxei fraco, com medo de machucar. Não adiantava. “Puxa.” Nessas horas, o pai já me tinha dito antes, há-de ser sério e decidido, para não sofrer tanto o bicho. Puxei com força, achei que fazia força. “Assim.” O pai disse e puxou o dele, violento, de uma vez. Ouvi um estalo, igual as pessoas fazem quando estalam – ou será estralam? – os dedos. O pescoço do frango dele ficou bobo. Seguindo o exemplo, tentei fazer igual. Foi difícil, depois de duas tentativas, na terceira, consegui. Senti algo quebrando, como um brinquedo. O pescoço do frango ficou mole, bobo. A cabeça só não caiu porque eu a estava segurando.

O pai então me ensinou tudo o que tinha de fazer: banhar na água quente, depenar, banhar, depenar, banhar depenar. Até só ficarem os penachos. Aí, queimar os penachos no fogo da churrasqueira, arrancá-los. Queimar um pouco a pele do bicho. Lavá-lo. Ele, sempre, tem de ficar de cabeça para baixo, para o sangue escorrer e se acumular no pescoço. O pescoço cheio de sangue fica bom na canja. Eu faço igual.

Aí, pendura o bicho, de cabeça pra baixo, com um pedaço de barbante, num dos pregos da parede. Limpa a sujeira. Guarda o que não precisa mais. Lava o balcão, usa a mangueira pra isso.

Enquanto eu espero, olhando os dois frangos pendurados, parece que os velo, o pai vai pra cozinha e volta com uma bacia de metal. Pega o podão e vai me mostrando onde cortar. Corta ele, corto eu. Deixamos os pedaços picados na bacia. Com a mangueira, os lavamos de novo.

“Na cozinha.” Ele leva a bacia, eu acompanho. Na cozinha, ele faz uma mistura de óleo, alho amassado, manteiga, ovo, pinga, orégano, sal, pimenta do reino, colorau. Acho que era só isso. Joga a mistura na bacia e começa a besuntar os pedaços de frango nela. Eu ajudo.

Voltamos para o quinta. Desta vez, ele não disse nada. Na churrasqueira, em cima da grelha, pusemos os pedaços picados e temperados. Essa parte eu já tinha feito antes.

Corri na cozinha, cortar rodelas de pão. Ficam boas lambuzadas naquelas mistura e torradas na churrasqueira.

Meu pai controlou o ponto da carne. Esqueceu de ensinar-me isso. Quando estava pronto, trouxe da cozinha uma panela grande e o colocou dentro. Eu, sozinho, fiz as torradas. Elas são minha invenção. Faço para agradar a avó e meu irmão menor. O pai me trouxe uma travessa. Pus as torradas.

Levamos a comida para a cozinha. A mãe ia embrulhar direito para levarmos para a refeição na casa da avó. Enquanto isso, terminamos de limpar a bagunça, arrumar, lavar as coisas. Não deu tanto trabalho.

No final, o pai terminou a pinga que tinha deixado no copo. “Vamos.” Não precisou pedir duas vezes.

Meu pai não tem muito jeito para cumprimentar, dar parabéns ou coisa do tipo. Na escada para a cozinha, falou: “Na hora de comer, escolher primeiro as partes que quiser.”

O Anel do Nibelungo

Era uma noite para atravessar assistindo o ópera, mas tinha de ser uma muito boa. Eu corri para o shopping, comprar uma em DVD para assistir. Preciso descobrir algum bom serviço para assistir ópera pela internet, para não ficar enchendo a estante com caixas de discos.

No caminho para o shopping, já pensei em toda a noite e no que precisava: o filme, pão (seria o jantar, só pão), vinho (para aquecer por dentro e saborear aos poucos). Precisava também de um edredon, isso eu tenho escondido junto da poltrona, é só pegar.

Passei na livraria, tinha vários DVDs de óperas, a maioria de coisas esquisitas, algumas que eu nunca ouvi falar, outras de mesmice, aquelas curtinhas, romantiquinhas, lugar comum. Olhei muito a prateleira toda, de cima a baixo, esquerda a direita, algumas vezes. Acabei escolhendo, das lugares comum, uma que eu ainda não tinha visto. História batida, talvez a música fosse boa. Talvez o vinho ajudasse.

Já estava indo para o caixa, ainda não todo conformado com a escolha. No caminho vi uma caixa azul, bonita. O Anel do Nibelungo em Blu-Ray, completo, as quatro óperas. São mais de vinte horas de drama. Dão uma bela maratona! Curioso com o preço… Por esse preço não dá para resistir. O programa da noite, vai varar o dia seguinte. Vou precisar de mais algumas coisas na lista de compras: café, mais pão para amanhã, frutas. Adiar o barbeiro. Não vou a lugar nenhum, pra quê barbeiro?

Corrida pro mercado. O vinho é fácil de escolher: Douro, o mais barato que tiver. Pêra-rocha e tomate. Pão francês fresco pra hoje e congelado pra amanhã. Do caixa, eu volto para pegar duas garrafas de água. Talvez em casa não tenha.

Para casa. Banho, quentinho! Óleo perfumado, é bom! Pijama novo. Na verdade, uma camiseta e um moletom novos, para usar de pijama. Acho que eu mereço.

Abro o vinho, pego meio copo. Rasgo os dois pãezinhos ao meio, tiro o miolo e os coloco no prato. Faltou queijo. É um programa perfeito pra queijo fundido. E pra uma lareira também. Está frio.

O primeiro disco no Blu-Ray, sento na poltrona, pernas cobertas pelo edredon no pufe grande que também serve de mesa de centro, vinho na mesa do canto. Hora de começar.

Bebo uma bicada do vinho, nada do filme começar. Barulho no Blu-Ray. Espero, espero. Impaciente, enfim, abro a bandeja e olho o disco. Tem um veio diferente no material, defeito de fabricação. A loja já fechou por hoje.

Não dá para pular o primeiro disco e ir adiante pelos outros. Talvez dê, eu é que sou um chato. Largo o copo e o pão ali na sala. Esquece. Melhor escovar os dentes e dormir, ao menos me esqueci de desmarcar o barbeiro.

Harpia

O menino se sentou com o lanche no toco de árvore que servia de banco no mirante. O lanche era, na verdade, só o que comeria de almoço. Para um almoço era algo bem simples. Um pedaço de pão, outro de queijo, uma pêra e chá gelado, guardado na garrafinha da água mineral. O lanche está num mochilete que lhe serve de farnel, exceto a garrafinha do chá, que ele pegou de um isopor com gelo, no porta-malas.

Mesmo com os óculos, tem alguma dificuldade para enxergar. A paisagem é só um relevo de tons de verde. É complicado fazer foco para distinguir as árvores, as trilhas, uma montanha da outra, encontrar de onde vem o barulho de água.

Pendura o mochilete no ombro esquerdo e se senta um pouco mais para o lado para sentar a garrafa, aberta, a seu lado no tronco. Ela lhe encosta gelada na perna, incomoda, vai um pouco mais para o lado, para não encostar nela.

Assim, consegue usar a mão esquerda para pegar o lanche de dentro do mochilete, conforme vai comendo, e ainda tem a mão esquerda livre. Dá para segurar os binóculos com ela. Os têm pendurados ao pescoço.

Não tem pressa de comer, também não tem de olhar tudo. Com os binóculos dá pra ver, é muita coisa, muito detalhe. Fica olhando, parado, beliscando aos poucos a comida. Começa a entender as coisas que o pai fala sobre paisagens. Olhar parado ali, muita gente lhe diz que é chato, perda de tempo, se torna divertido por poder perder esse tempo olhando tudo o que achar curioso, sem pressa.

E ele olha. Come o pão, o queijo. Repara nas ondas sutis que fazem os galhos das árvores conforme balançam com o vento. Pássaros que voam do meio de um monte de árvores para outro. Sua distração só é distraída para chacoalhar uma formiga que lhe faz cócegas na perna. Olha se não tem outras, um formigueiro por perto, e volta para o lanche e a paisagem.

Pega a fruta. Vê uma árvore com a ponta, o topo, diferente, longe. Acerta o foco dos binóculos para longe, onde está essa árvore. Parece uma mulher sentada no topo. Uma mulher sentada, encolhida, com agasalho grosso, preto. Cabelos presos. De costas para o mirante. Fica curioso com o que ela faz, como chegou lá. Come a fruta, olhando-a. O que ela fará? Baba. Baba o pra direita da boca, pelo queixo, e a mão e o braço que seguram a fruta. Sem tirar os binóculos, limpa a baba do rosto com o ombro, é o ombro que vai até o rosto, para não perder o foco, o ombro da camiseta serve de babador. A mão e o braço, limpa na bermuda.

Continua comendo, com mais cuidado. Baba menos. Ela mexe a cabeça, olha para o lado, para a esquerda. Depois volta a cabeça para a posição anterior. Ele termina a fruta, seca de novo a mão e o pulso na bermuda. Não se distrai da mulher que está olhando. Fica segurando o toco da fruta, o cabo, o miolo mais fibroso, com as sementes, e o umbigo da fruta. Segura, postergando jogá-la no lixo. Não pode jogar lixo ali, nem mesmo resto de fruta. Um bicho pode comer e passar mal. Ou, imagina, nascer uma pereira no meio dos pinheiros! Não pode.

Depois de mais um tempo olhando, uns dez minutos, e segurando a fruta, a mulher, numa cerimônia bonita, ergue-se estufa o peito, levanta a cabeça, abre os braços, segurando, aberto, o agasalho. Agacha-se, de novo, um pouco e pula. Pula para frente e voa, de braços abertos, planando. Voa para longe. Dá a volta por trás de algumas árvores, aparece de novo mais adiante, e, por fim, some atrás de uma montanha.

“É uma harpia. É a maior águia que existe. O corpo é do tamanho do de uma pessoa da tua idade. As asas são mais compridas que meus braços. Bacana, não?” Era o pai. Havia lhe trazido um saco para jogar o lixo da fruta e, quando percebeu a ave que o filho olhava, parou, em pé a seu lado, olhando também. É fascinado por essas aves, são suas preferidas nos zoológicos. É raro conseguir ver uma solta.

O menino jogou no saco o resto da fruta, limpou de novo a mão e bebeu chá. “Parece uma mulher.” O pai ainda tentava vê-la, viu que o menino sujava a roupa, mas não ligou. “É por causa do tamanho e do formato da cabeça. E daquele penacho que parece penteado de cabelo. Têm até umas lendas sobre isso. Dizem que elas são mulheres, bruxas, que guardam um monte de lã de ouro de algum deus. Que viram águias quando querem, para se proteger, atacar ou voar até o lugar onde escondem a lã.”

O menino se levantou, bebendo ainda o chá. Seguiu o pai para o carro. “Se fosse verdade, ninguém tentaria segui-las para encontrar o ouro?” Suas refutações pré-adolescentes eram muito práticas e lógicas. Mais que o normal para alguém de sua idade. O pai achou engraçado ele argumentar. “É claro que é mentira.”

“E como você pode saber? Por acaso já tentou seguir?”

“Não. Mas é óbvio que essa história é mentira. Eu li num gibi do Tio Patinhas. Na história, o deus é grego, mas, até onde eu sei, harpias só existem aqui.”

Estava na hora de ir para a próxima parada do passeio. Foram embora, conversando.

Pausa

Tem coisas do trabalho que não se pode conversar no escritório, no meio das mesas, dos outros funcionários. O certo seria conversar em particular numa sala de reunião. Mas as salas de reunião dos escritórios novos são mal feitas, não isolam direito o som. Além disso, duas pessoas conversando numa sala de reunião, depois de algum incidente sério em que um deles esteve envolvido, chama muito a atenção. Eu percebi isso logo. Me acostumei a ter esse tipo de conversa noutros lugares, no posto de gasolina, na padaria. Foi por isso que chamei meu colega para conversar no estacionamento fora da empresa. Ninguém espada. Fica longe do prédio, quase um quilômetro de descida, precisa ir de carro. É normal as pessoas descerem lá para fumar e ficarem conversando.

Eu estacionei, peguei um chiclete, sentei na guia mascando. Meu colega acendeu o cigarro e se encostou no meu carro, fumando. Fechei a janela com o controle remoto, para não entrar fumaça, e fiz-lhe sinal de que ia se sujar, o carro estava todo sujo, pego estrada de terra todo dia. Ele deu de ombro e continuou.

Queria animá-lo, o clima andava bem pesado, desagradável. Não consegui, ele me explicou todos os motivos, sem a raiva que devia sentir. Explicou consciente, detalhado. Falamos sobre o que fazer. Ele não se animou, tampouco se empolgou com o plano de ação. Planejou e ia segui-lo tão maquinalmente quanto seu desanimo permitia. “É questão de tempo. Já vai acabar.”

Ele fumou três cigarros, incluindo aí o tempo que enrolei para destravar a porta do carro e deixá-lo pegar o segundo e, depois, o terceiro. Irritação me faz tomar café. A ele, faz fumar.

Pediu-me para voltar antes que pegasse o quarto. Levantei-me. Ele deu a volta no carro para entrar. Cheguei perto da porta, mas antes de destravá-la de novo, vi um bichinho no vidro.

Era uma abelha, quietinha, como se estivesse grudada na poeira grossa que sujava o vidro. Quieta demais, eu podia apostar que ela havia se encalhado na poeira e já estava cansada demais de tentar sair dali. Cansada demais para tentar fugir sozinha.

Eu não gosto de matar bichinhos, nem baratas, nem osgas, graças a Deus nunca precisei matar rato. Nem ratos sei se mataria. Fiquei com pena de dar partida ou abrir a janela com a abelha ali. Nem sei que mal isso poderia lhe faz, mas tive pena. Sempre tenho. Ainda mais da bichinha ali, parecendo indefesa.

Meu colega me perguntou o que tinha acontecido. Falei da abelha no vidro, que ia colocá-la no canteiro de flores atrás de mim.

Procurei alguma coisa, peguei o crachá. Pensei se estava ainda viva. Estava, enquanto a recolhia, com cuidado, tenho aflição de achar que vou machucar bicho, usando o crachá, ela mexeu um pouco as anteninhas. Ainda assim, ela nem fugiu, nem ficou em pé no crachá, caiu de lado, deitada nela. Nem se aconchegou, como fazemos ao deitar na cama, na poltrona, ou no colo. Devia estar muito mal.

O crachá de plástico é liso, eu só tinha que girar o corpo, meia volta, para colocá-la nas plantas. Casca de inseto também é lisa. Mesmo com meu cuidado, ela escorregou e caiu. Caiu direto pelas frestas do ralo grande que recolhe a água da chuva. Ele estava logo à minha esquerda.

Olhei pra dentro do ralo. Dá pra ver, entra bastante luz. Procurei a abelha. Ela já estava grudada numa teia de aranha.

Forte Apache

De pequeno, eu gostava muito de ler. Com quatro anos, meu irmão me ensinou. Ele tinha oito. A madrinha me comprou uma cartilha, igual à que ela usou na escola, todo mundo, no século passado, usou a mesma, e um caderno. E o irmão me ensinou, igual ela o ensinou quando ele tinha minha idade. Eu aprendi rápido. Acabei a cartilha em dois ou três meses no máximo. Ler não é difícil. Se incentivada, a criança aprende cedo e rápido.

Ter aprendido a ler cedo foi a chave do meu sucesso na escola. Logo que aprendi, meu troféu foi o acesso à enciclopédia da estante, aos livros da madrinha, aos gibis do meu irmão, ele colecionava Tio Patinhas, e, o principal, meus próprios gibis do Mickey e do Pato Donald e revistas de palavras cruzadas.

Um pouco depois de fazer quatro anos, meu irmão caçula nasceu. Havia ainda a Tata, tinha idade entre eu e o Zezinho. Quando o menor nasceu, minha madrinha começou a me buscar em casa toda quarta-feira de manhã para visitar meus avós. Era um roteiro bem estrito, com os horários bem certos.

Ela chegava em casa às oito. Conversava com minha mãe na cozinha, não me deixavam ouvir. A mãe devia falar do pai, vivia infernizando a vida dele. Às nove, a madrinha me levava. Pegávamos o ônibus na curva da estrada. Eu morava na estrada, em frente ao cemitério, meus pais ainda moram lá. O ponto de ônibus, fica a um quarteirão, num canteiro oval de uns vinte metros quadrados, que o pessoal ali chama de praça. Até lhe deram nome de praça, com o nome do português dono da padaria.

Em quinze minutos estávamos na cidade. O ponto em que descíamos era privilegiado. Tinha a maior banca de jornal e o melhor cachorro quente da cidade. A madrinha sempre me perguntava qual eu queria ganhar: o cachorro quente ou o gibi. Eu sempre preferia o gibi. Sabia que ganharia o cachorro quente de qualquer jeito. E ganhava, o cachorro quente, o gibi, numa semana Pato Donald, noutra Zé Carioca, e uma revista de palavras cruzadas. O Mickey me esperava na casa da avó.

Meu cachorro quente sempre terminava antes de passarmos pelo hospital. E no hospital havia uma sorveteria. Era hora de ganhar o Cornetto que a madrinha gostava mas, não sei porque, não podia tomar. Na esquina seguinte, em frente ao colégio das freiras, ela ainda queria que eu comesse uma coxinha. Com o sorvetão ainda na mão, não dava. Ela pedia meia dúzia para viagem, e uma empadinha também.

Passávamos a outra escola, a estadual, onde estudavam meus irmãos mais velhos e, depois, eu e o caçula. Mais um quarteirão, estávamos na avó. A empadinha eu comia ali, na mesa da cozinha, fazendo as palavras cruzadas, enquanto a avó me contava as histórias de Trás-os-Montes e preparava o almoço. Quarta-feira era o dia do peixeiro passar. No almoço, havia sempre rissoles e sardinhas, para agradar o neto que já não era mais o mais novo.

O avô ficava na varanda fumando e ouvindo rádio, conversando com a madrinha que levava roupa. Vinham para a cozinha ao meio dia em ponto. Era também a hora em que meus irmãos chegavam da escola. Almoçávamos enquanto o avô tentava nos provar que entendia mais de futebol que qualquer outro, que seu time era o melhor e que só os eletrodomésticos da Phillips eram bons. Ele trabalhou uns trinta anos lá. Sua televisão, enorme, de madeira, tinha o número de série quatro. Ele a ganhou porque era o funcionário mais antigo da Phillips quando ela começou a fabricar televisores no Brasil.

Depois do almoço, o pai vinha nos buscar para levar pra casa. Ele tinha dois trabalhos. Motorista, da madrugada até a hora do almoço, e vendeiro, do meio da tarde até o fim da novela. Nos levava pra casa no intervalo, no caminho entre os dois.

Eu chegava em casa, sempre decepcionava a mãe. Ela queria um beijo, um abraço. Eu corria com meus gibis novos para o nosso quarto de bagunça, onde ficavam a televisão, os brinquedos e dois bancos velhos de Kombi. Era a solução da mãe para não quebrarmos a casa toda brincando. Num dos cantos, eu tinha uma caixa muito grande de papelão. Não me lembro do que era, deve ter vindo da venda do pai. Era tão grande que eu comecei a empilhar meus gibis encostados às paredes dela e, mesmo quando todas as paredes já estavam completamente cobertas por eles, no meio ainda havia espaço suficiente para eu me sentar com as pernas cruzadas, lendo. Era uma trincheira, um forte, o meu forte apache. Ali, eu lia meus gibis novos, antes de empilhá-los, lia alguns antigos, enquanto os irmãos faziam lição e viam televisão.

Quando começava a escurecer, a mãe brigava comigo, para eu não ler no escuro. Eu fechava a caixa, fechava aquelas abas de papelão que funcionam entrelaçadas para fechar a caixa, e ficava ali, quieto, imaginando meu faz-de-conta, das histórias em que participaria e que escreveria quando fizesse meu próprio gibi.

Battlelines – The Tokio Tapes

Para mim, música sempre foi um jeito de soltar o corpo e mergulhar num mar de fantasia e ilusão. Repousar numa atmosfera, num mundo que só pode existir em som. Para viajar, nesta noite, visitei as Tokio Tapes. Tantos músicos que eu gosto, num concerto só. Steve, Chester, John Wetton…

Tem uma música aqui, do John Wetton, que não tem muito a ver com as outras e com o tipo de música que se espera de uma banda como essa. Mas foi exatamente essa música que me chamou a atenção hoje. E que eu repeti duas vezes. É Battlelines.

Carole King – You’ve Gotta a Friend

Essa não pode passar sem um post. Não é novidade o quanto eu admiro o trabalho do Fish. Hoje ele postou no facebook sobre o disco da Carole King que ele ganhou de sua mãe alguns dias antes de viajar para a Inglaterra para se juntar ao Marillion, na contracapa ela copiou a mão a letra desta música, e de como essa letra se tornou importante na vida dele.