Amanhã são dez dias de viagem, o último dos dez. Foi-se a idade em que eu gostava do sol. Também foi-se a idade em que ferias eram para descansar, elas hoje dão muito mais trabalho do que trabalhar. Estou de saco cheio da areia grudando na roupa, da umidade, gosto de sal pegado no beiço e na barba, e do hotel fraco que parece improvisado nas temporadas. Mesmo assim, não consigo imaginar a vida de casa de novo. Estrada amanhã e depois. Segunda-feira tem trabalho. Rotina vem aí.
Depois de uma semana viajando, me lembrei de que agora uso barba. Minha já famosa barba malhada, preta com branca, um dálmata ao contrário. O cabelo, carente de corte já há algumas semanas e de xampu desde que saí de casa, eu já percebia me incomodando. A barba, foi quando a água do mar bateu nela e ficou pingando salgada na minha boca que percebi. Não trouxe o barbeador para aparar e não quero procurar um barbeiro que saiba fazer isso. Hoje em dia, barbeiros que sabem cuidar de barba são raros. A maioria nunca viu uma navalha. Chamam-se barbeiros porque tem preconceito com a palavra cabeleireiro. Pensam que barbeiro é um cabeleireiro heterossexual. Não entendem de barbas, nem de palavras. Minha barba vai ficar aqui, até porque não tenho porquê tentar agradar a alguém, cuidada apenas com condicionador, para não pinicar, até voltar a São Paulo e Seu Antônio apará-la como tem feito, sábado sim, sábado não, nos últimos seis meses.
Durante a peça, o ator tem um insight de que o cenário é totalmente equivocado. A música, descabida, inconveniente mesmo. As personagens, inverossímeis e clichés como se produzidas em xerox de outros roteiros. O roteiro mesmo,igual a qualquer outros. O fim, o de sempre. A música, copiada e transcrita da última moda, sua ela boa ou ruim, desde que moda. Está ali porque é mais um. Porque coube-lhe esse papel de mais um. Cabe desempenhá-lo. Não necessita de arte, nem a tem, já sabe onde dá.
Frustração maior é sentir-se superior, porém incapaz. É não compreender como tudo o que é certo, tudo o que lhe foi ensinado, dá errado no caminho dos mais errados que você mesmo condenou. É de sentir-se pior que inútil, pior que zero. É saber-se negativo. Suspeitar que os que lhe importam estariam melhores sem si. Isso é o time não há onde nem porquê desenvolver melhor a ideia.
Assórtido
Eu tinha planos de escrever (e ler) bastante durante a viagem. Mas estou cansado e não encontro tempo. Muita coisa pra fazer.
Dormir, café da manhã, mais dormir, ler três páginas na praia, nadar no mar, banho, lanche, andar na areia com inveja de tanta gente, jantar, compras, banho…
Preguiça de buscar o tablet no carro (preguiça de tudo). Tem um filme na TV. Velho, de quando eu tinha quinze anos, mas ainda não vi. Na época eu não via cinema, não tinha videocassete.
O filme me distrai. É igual a tantos que eu já vi. Mas é um filme ruim do qual eu gosto.
De algumas cenas, me lembro, dejá vu. Até pensei que tivesse já visto. Não vi. O filme não. Mas, na cena em que toca aquela música, e me lembrei de que é o filme dessa música, me lembrei do clipe e me lembrei de que as cenas são do clipe. E me lembrei de ouvir essa música quando tinha quinze ou dezesseis anos. Me lembrei.
Engraçado, acho que foi a primeira vez em que prestei atenção à letra.
Hotel Estranho, Copo na Mão
O hotel é multi bom. Moraria aqui. Visitaria, frequentaria, sem problemas. Com muito prazer. O vinho foi comprado na cidade. Estranho alguém de viagem comprar algo assim, passeando, sem nada a ver com o lugar. Mas vi o vinho que tinha tudo a ver comigo, ou parecia ter… Depois do jantar (o jantar foi marreco, muito bom, mas nada de especial), no quarto, o copo cheio do vinho verde gelado… TV a cabo, os canais de sempre… os mesmos de casa, os mesmos de sempre… Que saco! Nada de especial! Nada sobre o quê valha a pena escrever. Largo a merda do copo e vou à varanda. Talvez veja, na rua ao lado do hotel, algum carro chacoalhando, alguma cabeça, dentro de um desses carros, subindo e descendo. Algo que chame a atenção. Saio com o copo e olho para a rua. Só vejo alguns faróis estacionados. Sei o que eles significam. Sei o que lá há. Dane-se. Não quero saber. Olho pra cima. O céu de sempre… Não. O céu está limpo. Muito limpo. No começo da noite, havia ali só uma estrela, bem brilhante. Ela ainda está lá. Parece um farol. A seu redor, dezenas de outras. Parecem aquelas fotos de enciclopédia. O fundo todo negro. Elas, brilhando. Brilhando. Brilhando. Brilhando. Quem. Desenhou esse céu só tinha dois lapis: o preto completamente preto e o brilhando completamente brilhando. Eu já sei do que escrever. Não vai ser grande coisa, mas já sei do quê. Dizem que o principal assunto da música do Sul é o céu. Eu já sei porquê. Não sei porque não fico feliz com isso, nao fico nem dez minutos, olhando, mas descobri porquê. Volto. Terminar a garrafa, sozinho. Depois, sei lá quando, escrevo algo. Agora sei. Que merda! Eu sei. O céu negro. As estrelas luminosas! Perfeito! Como pintado. O céu perfeito! Que merda! Porquê que eu vi? Vou terminar aquele vinho e escrever algo. Sei lá. Fuçar uns sites pornôs. Procurar esse céu neles. Esquece. Eu também tenho de esquecer. Mas não dá. Esse céu é perfeito!
Já que eu queria escrever… e não consegui escrever nada que prestasse… Lá vai o que eu pensar…
Gosto das personagens com defeitos. Especialmente das protagonistas. O defeito a torna verossímil. Gosto também, da mesma forma, das alegrias e tragédias incompletas. Dos raios de sol que teimam em se enfiar pelas brechas da trama da cortina do palco e da sombra que se acomoda no canto, junto à coxia. Mas eu só fala-o besteiras… Por que sonhar com um mundo imperfeito?
2014 in review
Parece-me que foi um bom ano para minhas aventuras blogueiras.
Esta encarnação do blog me agradou e distraiu bastante, embora a atividade em dezembro tenha sido pouca.
— Muito agradecido. Tin tin.
The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2014 annual report for this blog.
Here’s an excerpt:
A San Francisco cable car holds 60 people. This blog was viewed about 2,100 times in 2014. If it were a cable car, it would take about 35 trips to carry that many people.
Escrito nas Estrelas
rascunho (apeteceu-me)
O poeta não merece assim tanto crédito pelas coisas bonitas que diz. Merece-o por dizer o que vê assim como vê. Se inventasse as coisas bonitas apenas para dizê-las, para impressionar, para agradar, não passaria de um mentiroso… como tantos outros. Se as vê bonitas, e abençoado seja por isso, seu escrito é também bonito e agrada pela beleza. Mas, se o que percebe é feio, o que podemos lhe pedir além da sinceridade de contar esse feio? Ou de se calar? Que se cale e leia uma poesia bonita. Talvez para isso sirvam…

