A Louca do Trapiche

Y su cuerpo se enraizó en el muelle.
Sola en el olvido, sola con su espíritu, sola con su amor el mar.
Sola en el muelle de San Blás.
Maná, El Muelle de San Blás

Não sou de passar férias na praia, gosto de praia para passear. Passar o dia, o fim-de-semana. Carnaval na praia, de jeito nenhum.

Mas uma vez, numa viagem de férias, me programei para passar pousa duas noites numa praia no sul do país e aproveitá-la no dia entre elas. Após o café, desci para a areia e, logo de cara, gostei bastante daquela praia. O entorno é urbanizado tem asfalto, calçadas, hotéis, café, restaurante, banca de jornal, os serviços básicos. Sou da cidade, pausas para o café, passar a manhã de folga lendo o jornal do dia, sinal de celular para enviar fotos da folga para os amigos, isso é muito importante para mim. A areia e a água eram muito limpas, a água ia bem rasa numa faixa que até razoavelmente bem dentro do mar. Dava pra andar bem pra dentro dele sem precisar nadar. Odeio nadar. Praia é para ficar de bobeira.

Pela areia, muitas crianças, digo crianças, mas eram adolescentes, brincando. Namorico, futebol, corda bamba esticada entre troncos de árvores. Cachorros também fuçando troncos de árvores. Lugares freqüentados por turistas têm muitos cachorros, porque turistas deixam lixo, e é lixo com resto de comida.

Mais pra frente da praia, trapiches e barcos, alguns particulares, poucos de pescadores, e duas ou três escunas para passeios de turistas. Nessa hora, já sol nascido e dia estabelecido, ainda não havia muitos pescadores por ali, estavam pelo mar trabalhando. Pescador acorda cedo, nove, dez horas da manhã, já é dia longe, praticamente hora do almoço.

Mas a maioria das pessoas que estavam na praia era mesmo de aposentados, passeando, curiosamente em casal quase todos. Deve ser uma terra de casamentos felizes, sorri. Alguns turistas, a época do ano era relativamente fria para turismo e os adolescentes.

E um grupo de adolescentes lá pra frente da praia, passando pelos trapiches, fazia muita algazarra, eu ouvia. Faziam galhofa de uma velha, parecia mendiga, que estava sentada na ponta de um dos trapiches, embaixo de um guarda sol junto de algumas tralhas. Não dava pra ouvir o que era, eu estava longe deles, mas como gritavam alto pra ela e riam também alto entre si, percebia-se que não eram nada respeitosos. Mordi-me, fui ao trapiche dela, revoltado, ver se precisava de algo.

Os adolescentes atravessaram a rua e foram por uma travessa. Não iriam mais incomodá-la, não agora.

Passando por um carrinho, no caminho, peguei um cachorro-quente e uma coca, iria fingir que eram para mim, mas oferecer a ela. Chegando ao trapiche, ele pareceu-me longo, como se fosse mais longo do que o que eu andei para alcançá-lo.

Faltando poucos passos para chegar nela, eu olhava o horizonte como ela: “Vó, eles estavam mexendo com a senhora?”, mania de chamar de vó às senhoras de idade.

Ela demorou dar mostra de ter-me percebido. Quando deu, foi um pequeno movimento do rosto, acho que para me enxergar de rabo-de-olho. Os olhos mesmo continuavam para o horizonte.

Ela chorava. “Deixa estar filho, não ligo.” Essa voz não tinha emoção. Prova de que ela não ligava mesmo.

“Mas a senhora esta chorando…”

Ela, sem mexer a cabela, enxugou as que haviam escorrido, com o babado do vestido bege florido. A boca sorriu breve com os olhos ainda chorando, agora sem escorrer. Olhos muito tristes.

“Eles não têm como me ofender, são como esses pássaros barulhentos que têm por aqui. Seu barulho não significa nada, se eles não significam nada para você. Mas te deixam louco se você lhes der atenção. Deixa estar, quem lhes daria atenção se já não fosse louco?”

“A senhora está bem?”

“Tanto quanto posso filho, eu já sou velha, passo bem como pode uma velha. Você veio aqui perder tempo comigo?”

“Vou pro Sul, estou passando o dia aqui na praia pra descansar, olhar o mar. A senhora olha também. Daqui a vista é melhor?”

“Não sei, filho, nem vejo o mar, há tanto tempo estou aqui olhando que mal me lembro como é o mar.”

Por curioso e louco que fosse o que ela disse, não me espantei. A gente não se espanta quando fala com mendigo. Espera mesmo que digam o que ninguém mais teria coragem de dizer. Esse é seu direito. Seria louca ela? Como aqui no trapiche não via o mar que estava por todos os lados?

“A senhora aceita?”

Ela agora se virou. Os olhos cheios de água não escorriam. Se diria que o choro parecia estatico, empedrado, eterno, no seu rosto acinzentado de costume de ser queimado ao sol. Com as mãos, ofereci-lhe o sanduíche e a coca. Ela pegou quieta. Mas, logo que já estava com o rosto apontado de novo para o horizonte, antes de começar a morder:

“Tem gente que se ofende de aceitar comida da mão dos outros, eu não. Muito agradecida, filho.” O tom de voz, embora didático, era de agradecimento mesmo. Nos poucos segundos ou frações de segundos em que ela olhou para mim, seu olhar era como o da avó que recebe do neto o café da tarde, na soleira da porta, enquanto cose. Achei meigo. Já o olhar para o horizonte, era vicioso. “A gente vive como pode e ajuda quem pode. Por que não se deixar ajudar, né, filho?”

Estava quase sob um guarda-sol velho, grosso, uma vareta quebrada pendia boba. A sua direita, duas caixas de madeira estavam na sombra do guarda-sol, dessas de hortaliça que a gente pega no lixo da feira, uma sobre a outra, desalinhadas. Umas coisas dentro. Parecia haver um cobertor, uma caneca, uma livro sem capa, com letras miúdas, me representou uma biblia já bem manuseada. Distraí os olhos, não queria xeretar. Voltei o rosto para ela, sorrindo divertido, mas tentando que ela não percebesse que já a tomava por louca:

“Que que a senhora olha aqui então?”

“Não olho, espero. Estou esperando meu marido. Fico aqui. Espero ele voltar.”

Parecia o tom de voz de quem conta uma mentira. Sem emoção, resignado. Tom de quem conta uma mentira só pra se ver livre da pergunta.

“Onde ele está?”

“Ele saiu pro mar, trabalhar. Diz que a pesca aqui, pra cá das ilhas não está boa mais. Ele foi pra além. É muito longe, mas já volta.”

Devia ser longe mesmo, eu não via ilha nenhuma. Nem lembro de nenhuma ilha famosa por ali.

“Faz tempo que ele saiu?”

“Algumas semanas, eu acho. Depois de alguns dias esperando em casa, comecei a ficar impaciente, essas pescarias não costumam demorar mais de um dia, mas ele avisou que ia pescar bem longe. Não agüento esperar em casa, vim esperar aqui.”

Não entendo de pesca.

“Algumas semanas? É normal isso?”

“Ele jurou que volta e eu jurei esperar. Estou aqui esperando, ele já deve estar chegando.”

Agora fiquei impressionado. A falta de emoção já transparecia a mentira mesmo. Não a mentira de quem quer enganar ao outro, mas a de quem engana a si, a de quem quer enganar tanto a fé quanto o sofrimento.

“A senhora devia esperar em casa, não?”

“Minha casa, trouxe para cá.” Apontou com a orelha para as caixas. “Ele pode chegar a qualquer momento. Vai ficar feliz de ver que não arredo pé daqui, esperando.” Sorriu. Sorriu como quem já imagina a cena. A mentira já tinha virado verdade, ela se convencera. A voz estava rouca.

“O vento do mar é frio. A senhora está com vestido de verão. Por que não se cobre, põe um agasalho?”

“Não, não. Ele pode passar ao largo sem me reconhecer. Ir para outro trapiche. Aí perde a graça, estou velha demais para correr para o outro trapiche atrás dele. Ele se lembra que eu estava assim, quando chegar, virá para cá. Ele já chega”

Ela me deixava sem palavras, olhei o horizonte de lado a lado, devagar, procurando as tais ilhas e um pescador velho que chegasse num barquinho com uma montanha de peixes. Eu precisava arrumar ajuda para ela ou ficava louco igual.

“O pior, filho, não são os meninos. Têm uns que vêm aqui como você. Não me chamam louca, não xingam. Conversam, me oferecem lanche, e tentam me levar pra internar.”

“Já não sou louca.”

Tive vergonha de meu pensamento, eu a julgando. Ela já não era louca, disse. Tinha consciência de que ele não voltaria? Ou estava eu enganado? Ele voltaria? E se não voltasse? Que bem faria a ela estar trancada em casa, num hospital, num abrigo, sofrendo e chorando mais ainda do que aqui? Por não poder estar aqui. Por terem lhe negado seu sonho de negação.

“Os pescadores e os comerciantes não deixam me levarem, eles conhecem meu marido. E sabem que estou melhor aqui sozinha.”

“Bom, fica com D’us, vó, bom dia.”

“Amén, filho, boa tarde.” me corrigiu, já eram mais de onze horas.

Eu fui embora.

Daí a alguns anos, noutra viagem para o Sul, parei um começo de noite para pousar nessa praia de novo, curioso, lembrando da conversa com a velha.

Antes de procurar pouso, fui até o trapiche. Estava desativado um cordão de plástico amarelo e preto queria impedir o acesso.

Mas, na luz ruim, ofuscada pelo pôr-do-sol ao fundo, ela estava lá na ponta do trapiche. Parei o carro, passei pelo cordão e fui andando pelo trapiche. Estava muito estragado tábuas soltas, algumas faltando, outras podres, tinha que ter muito cuidado. Parecia muito mais comprido do que me lembrava. Um cachorro dormia no meio do caminho. Ele acordou, tive medo, mas fui ignorado. Seria dela o cachorro? Amigo dela talvez.

De longe ela parecia muito suja, esfarrapada, mas quando cheguei perto vi que não. Era um montinho de terra, embaixo do mesmo guarda sol já todo quebrado sem a lona. As caixas estavam quebradas e tinham só com algumas poucas porcarias. Presos ao monte de terra, galhos, teias de aranhas, escorpiões, ramos de plantas, como que enraizadas naquele montinho de terra e entulho, desciam pela borda do trapiche e mergulhavam no mar.

 

Scream

the_wall_face_by_soficoffee-d473f8bSometimes I feel like… Screaming
    — Deep Purple, Sometime I Feel like Screaming

 

Se pego um lápis e papel, não é para desenhar o mundo onde já estou. Se isto me bastasse, se este mundo fosse como quero, nem foto haveria de tirar. Tirava minhas roupas e sairia por aí, todo dele.

Se pego um lápis e papel, é para desenhar o que quero. Viver, por um momento, meu mundo idealizado, onde tudo me agrada e me aceita.

Qualquer risco ou palavra é uma declaração, de inconformismo, mesmo que do inconformado conformado. São como gritos para quem os queira ouvir. Gritos de boca escancarada, peito aberto, com toda a força de meus pulmões, até faltar-me ar e doer, doer que eu não agüente mais.

Por que se não precisasse de tanta força para externar o mundo que eu quero, que está guardado em mim, talvez ele não me fosse tão desejado.

Sabiás

Sabiá-laranjeira-cred MarcosKawall-G-2010

Eu gosto de passear em parques. É o meu passeio preferido. Jardins botânicos, hortos, praças bonitas, orla, passeios com muitas árvores e sombra, o melhor deles é a sombra.

Fui criado num lugar onde o cimento não dá refresco. Cimento em cidade poluída, esquenta, seca o ar. E isso, com poluição densa castiga muito. Ainda mais para um narigudo como eu. Calor, poluição, secura, pra piorar só ar-condicionado. Haja soro fisiológico.

Agora, independente do tempo, verde sempre faz bem. Ver os troncos, galhos, as folhas, parasitas, bichos, flores, mesmo que entre vãos dê para ver prédios e carros ao fundo.

Gosto também muito de ler e, moleque de periferia que eu fui, Sentar em galho de árvore pra ler, é uma delícia, muito da minha adolescência passei assim.

Namorar sentado na grama, na beira de um lago, também é gostoso. Só ficar ali quietinho abraçado, se houver uma árvore para encostar, melhor ainda. Infelizmente, mulher não costuma gostar disso, suja a roupa, dizem elas.

Eu assim, nem preciso sair pra almoçar. Qualquer lanche cai bem, uma fruta, água, tudo vira picnic.

E quando estou sozinho gosto de tirar fotos das plantas, das flores. Se encontro uma bonita, e a maioria é, ou um arbusto cheio delas, um tapete de flores coloridas todas do mesmo tipo misturadas com a grama, feito um painel. Queria ter um painel assim no chão de casa. Acho muito bonito. Morar em apartamento me parece cada dia mais inconveniente. É vida moderna, flores, plantas, árvores, as coisas estão rareando.

Os bichos dão vida a esses quadros com plantas. E eu sei que plantas também são vivas, mas os bichos correm, comem, brigam, alguns voam.

Se eu tivesse jeito com câmera, seria um freqüente fotografador de bichos, – fotografador, não fotógrafo, que não sou profissional – de pássaros principalmente, pássaros são bonitos, curiosos… e isso também é curioso neles… ou muito imponentes ou muito frágeis, sem meio termo. Quando vejo um bonito, sempre quero fotografá-lo. Um dia terei feito uma bela foto de pássaro, a emoldurarei grande para pendurar no escritório.

Outro dia, passeando no jardim, vi um sabiá muito bonito. Óbvio que quis fotografá-lo. Tentei cercá-lo e ele fugiu. Ali tem uma moita longa que funciona como muro, ele estava de um lado, voou, fugiu para o outro. Eu cercava e ele fugia. Até que desisti e resolvi ficar só olhando.

Apareceu outro, pouco menor, mais bonito, mas o peito não era alaranjado como o do primeiro, era uma fêmea. O primeiro era macho.

Distraí-me com ele. Quando percebi, o outro havia alcançado uma fruta no chão e se aproximava para tentar comer. Oportunidade minha. Cerquei, ele se afastou da fruta. Fui seguindo, seguindo. Não consegui a foto. Ele se punha entre alguns galhos muito pequenos que, se não o escondiam, atrapalhavam totalmente o foco. Bichinho esperto.

Essa manobra evasiva deu tempo para a fêmea alcançar a fruta. Tentei ser sorrateiro e chegar nela para fotografar. Ela se afastou, não tão estratégica quanto o macho para se proteger. A foto seria boa. Mas o macho, tomado de sua coragem protetora, se atirou sobre mim, e atrapalhou tudo. Fiquei desconcertado, não esperava por isso. O bichinho me atacou, talvez pensasse que ganharia uma noite de amor por defendê-la de algo que tinha, no minimo duzentas vezes seu peso?

Refiz-me da surpresa e tentei de novo fotografá-lo. Mesma estratégia a dele, fugia e se escondia onde a foto não era possível. Esse bicho deve ter experiência com fotógrafos amadores. A fêmea se aproveitava para tentar comer. tentei fotografá-la, e ele a protegeu de novo.

Confesso que estava respeitando o bichinho que frustrava minha pretensão, essa minha outra pretensão, a de fotógrafo. Desisti. Guardei a câmera e fui procurar onde me sentar para ler. Estava há uns 10 metros dali quando vi a seqüência do caso dos sabiás. Apareceu um segundo macho, alguns gramas mais forte que o meu inimigo.

Apareceu sem cerimônia nenhuma já pousando junto à fruta. Fez um maneio de cabeça, parecido com uma bicada no ar, como se estivesse ameaçando uma bicada em quem o impedisse de roubar a fruta.

A fêmea se afastou. O primeiro macho voou para longe também sem rodeios. O novo macho ficou ali, comendo a fruta até se fartar aos olhos respeitosos da fêmea, agora abandonada, que antes dele terminar foi procurar outra coisa para fazer.

O primeiro sabiá, que ainda a pouco eu respeitava como corajoso, agora era para mim o mais desprezível covarde.

Café

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Café no feriado à tarde.
Café não tem hora.
Tem todas. Toda hora.
Ainda mais cheio de chocolate
e quentinho quentinho.
Mas apesar desta calma,
rima forçada,
ainda cá algo falta.

Luzes da Cidade

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Eu parei o carro no alto do morro para tirar uma foto.

Sentei no chão, à beira da rua, servi-me da garrafa térmica de chá e fiquei ali, uma ou duas fotos, uma bicada no chá, pequena, está quente ainda.

Olhar a cidade pelo alto, é bonito. Mas as fotos, ao final, nenhuma se aproveitava.

A caneca do chá esfriava aos poucos enquanto ainda cheia. Conforme fui bebendo, esfriou mais rápido. Eu bebia, aproveitava a vista. Mas algo faltava.

Havia outros carros, mas só eu ali do lado de fora. Ouvi um barulho. Virei a cabeça. Indiscrição, um carro chacoalhava.

Os outros estavam com o vidro embaçado.

A mim, mesmo com a visão bonita, o clima agradável, o chá quentinho e gostoso, não sei o quê, mas ainda algo faltava.

Borboleta na Janela

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Hoje eu estou um pouco mais triste que o normal.

É muito perigoso mexer com borboletas. Elas são lindas, curiosas, mas não são bicho de ter-se em casa, o bonito é vê-las livres. E isso mesmo é o mais bonito e o mais triste nelas. Não tê-las.

Eu comecei a cuidar de uma planta em frente à minha janela. Gosto de plantas também, elas são um bom passatempo. Mas a minha planta, uma samambaia, ela é só minha. Ela me toma tempo, muito tempo. Talvez mais pelo cuidado que tenho do que pelo que ela exige mesmo. Minha samambaia, está ali perto da janela, mas longe do alcance da mão. Preciso de algumas ferramentas para mexer nela.

De uns tempos para cá, uma borboleta começou a freqüentá-la. Uma borboleta diferente, incomum mesmo. Essa borboleta não é minha, mas ela pousa na minha samambaia, será que lá tem alimento? O que é que borboleta come? Não tem nome. Não posso dar nome, não é minha. É a borboleta da minha samambaia. E nem da samambaia é.

Hoje, depois do banho, parei de jogar video-game porque a vi posada na planta. Fui até a janela para vê-la. Fiquei lá parado, curioso e maravilhado. Olhando feito bobo. A cor, o padrão das manchas, nem precisava tocar. Bastava olhar de longe.

De repente, apareceu uma rolinha, pegou-a pelo bico e saiu voando. Muito rápido. Não havia o que fazer. A rolinha roubou minha borboleta, levou embora, pro seu ninho? Pra longe.

Eu podia continuar ali na janela, mas minha borboleta, que não é minha, se foi.

 

 

Ping Pong

Só homem sabe como é complicado dar presente pra mulher, não é só porque elas são complicadas, e são mesmo, mas porque elas são diferentes.

Eu queria dar um presente pra uma amiga que não via há tempo e que se encontraria comigo prum café.

Fazia mais ou menos ideia do presente. Quando gosto de alguém, gosto de fazer o presente, que repare que deu trabalho e que tomou tempo para agradar. Acho esse o melhor jeito de demonstrar que alguém é importante pra mim. Algo que faço e que parece que lhe agrada, e que ela também gosta de fazer é escrever. Ela já havia perguntado se escreveria algo pra ela ou com ela. Eu queria escrever então algo só pra ela, e lhe daria escrito num caderno para que ela soubesse que é só dela, ninguém iria ler sem sua permissão, e também para sugerir que ela escreva ou desenhe, ou rascunhe. Se não podemos ter tudo o que queremos, podemos criá-lo no papel, por momento. Quando escrevo ou desenho, ao menos para mim é assim, naqueles momentos é como se vivesse minha fantasia de realidade.

Bom o que fazer então eu já dei por decidido. Mas queria agradar ao máximo, ela merece! Existem tantos cadernos no mundo, e eu sou tão chato, um chato que adora cadernos, para escolher os meus. Os meus são um modelo relativamente barato, mas sempre o mesmo modelo. O número de folhas, a largura das pautas, a espiral, tudo eu já tenho homologado. Caneta também. Uso sempre o mesmo, e caneta também sempre igual. Eu queria chegar o mais perto possível do alvo. Como? Não ia perguntar pra ela, estraga a surpresa. Ou ia?

Já estava em cima da hora, era o dia – noite – anterior e eu ainda não tinha encontrado como. A luz veio na porta da papelaria. Teve uma brincadeira que fizemos uma vez, ping pong. Perguntávamos, pelo whatsup, coisas alternadamente um pro outro. Parece bobinho, mas eu adorei. Brincamos uma bateria inteira de celular. hmmm Ping pong, eu me divertiria conversando com ela e ainda tentaria obter pistas. Pareceu-me perfeito.

Whatsup na mão, foi algo assim:

“escuta, linda, ping pong?”
“ok”

Eu já sei que ela é clássica, tradicional. Moleskine é o mais cláassico, Hemingway usava e… sei lá, é elegante como ela que é elegante demais.

“cores?”
“preto, branco, azul marinho”

Cores discretas e básicas. Nada que chame a atenção. Então, acho que o roxo não, nem o amarelo Simpson. Preto, isso mesmo, preto. Eu mesmo prefiro preto.

“bla bla bla bla bla bla bolsa grande ou pequena?”
“grande”

Ufa, caderneta ninguém merece. E caderno bom tem que ser carregado na bolsa, pra estar a mão a qualquer momento.
Capa dura não, mesmo em bolsa grande ocupa muito espaço.

“bla bla bla bla bla bla lápis ou caneta?”
“lapiseira”

Não estava nas opções, mas eu também uso lapiseira, ou lápis, caneta só no trabalho. Lá no escritório não tem onde comprar grafite ou apontar lápis. Pra usar lapiseira, o papel tem que ser mais áspero, pro grafite riscar melhor, e razoavelmente espesso e rígido pra não vincar o verso quando a gente escreve na frente. Fica feia e ruim de ler aquela página onde se sentem os veios da escrita do lado contrário. Eu vi um modelo com folhas pautadas amarelas, parece ser o melhor.

Comprei o caderno feliz. Sorriso infantil de quem completou o álbum de figurinhas. Continuei a conversa no telefone, estava muito legal:

“bla bla bla frio ou calor? doce ou salgado?” etc etc etc

Ia longe.

Em casa, arranquei a embalagem do caderno e escrevi o texto. Já tinha ideia dele também, um ensaio, despretensioso – se é que eu consigo ser assim modesto, mea culpa de novo – mas sincero e, importante: escrito sem revisão, para ser mais sincero, estilo “pronto, falei”. O ping pong continuava, em paralelo. Me divertia bastante com ele, até, como da outra vez, a bateria dela acabar. Que pena! Sempre na melhor parte…

Quando eu terminei o texto, já tarde, ele me pareceu muito sério. Faltava algo. Não quero parecer professor ou conselheiro. Até porque ela já diz que eu a vejo como uma menininha. Não quero tratar de menininhas, mas também não posso ser sério, seriedade demais, por mais carinho que eu sinta quando escrevo, pode parecer fria. Quantos mal entendidos deste mundo não devem ter começado porque uma conversa séria não explicitou o carinho que ambos deviam perceber?

Faltava ele, o carinho, um afago. Nada cerebral, ou profundo. Corrijo, tinha que ser profundo na intenção, não na pretenção. O mais importante: tinha que ser algo que só ela entendesse, ela e eu. Pra ela saber que por mais distante que o texto anterior parecesse, era só pra ela que eu estava falando. Ah! não, o principal mesmo é que e eu tinha que tentar fazê-la sorrir. Meninas bonitas nasceram para sorrir.

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Capuccino

 

 

20140417-101127.jpgOntem teve capuccino com minha amiga.  Era um compromisso muito importante, já nos demos muitos bolos.

Eu tinha um presente pra ela na mochila, não podia esquecer de jeito nenhum, de jeito nenhum. Era muito importante pra mim, afinal de contas, ela também é muito importante pra mim. Essa minha amiga é, ainda por cima, minha principal leitora – sorrio – minha única leitora. Machado de Assis interrompia suas narrações pra falar com os leitores, eu sem querer, querendo, sou mais pessoal ainda. Como conheço minha única leitora, quando escrevo estou sempre me dirigindo a ela, e tenho o privilégio nada machadiano de escritor amador de poder imaginar sua cara e sua reação quando ler.

Não cheguei muito atrasado, mas não gosto de chegar nenhum pouco atrasado, não tenho desculpas, ela devia ter-me dado uma bronca. Se bem que, da última vez que nos vimos, ela demorou, eu fiquei um tempo esperando, gostei, de ficar olhando as pessoas chegarem e tentando adivinhar quando fosse ela.

Errei o caminho para a entrada, ela estava num salão com jeito de aquário, acabei dando a volta procurando a entrada e ela não me viu, mesmo quando passei bem pertinho do outro lado do vidro. Ela estava bonita, viu? Mais do que eu me lembrava

Aproveitei para tirar uma foto, afinal, se não achasse a entrada antes dela ir embora, eu usaria a foto como prova de que estava lá. Mostrar que não sou tão atrasildo, sou só um…. retardado.

Whatsup. Eu quis avisar que já havia chagado, vai que ela desiste de esperar, e fazer uma graça sobre minha aparência zoada: barba por fazer, pequena marca de dedo sujo de molho na camisa, cabelo… bem… cabelo zoado como sempre, mas não havia sinal de celular. Já estava a alguns metros dela quando terminei de escrever, mandei o telefone às favas e cheguei perto. Engraçado que, quando achei que ela ia me ver, ela levantou mesmo o rosto e me viu. Se levantou para me abraçar. Deixa eu me corrigir, mea culpa, eu a chamo de linda, e é porque me lembro dela bonita, mas ela não estava só mais bonita do que antes, estava realmente linda. Procurei a minha menininha naquele rosto, eu nunca a vi criança, mas o rótulo de menininha cabia bem para como eu me lembrava dela, e não vi. Ia ter que procurar mais.

Eu abraço sem jeito, acanhado.

Sentamos. é estranho sentar com uma psicologa que não vejo há tempo. Bom, é estranho sentar com mulher bonita, isso deixa qualquer homem com cara de otário. A gente tenta fazer cara séria, se portar bem, não chupar fiapo de carne dos dentes… Imagina ainda uma psico que pode querer ficar me analisando, estudando linguagem corporal. Ela vai ler isto e vai me achar paranoico.

Ganhei presente, Astérix, adorei, adoro!… Caramba, deixei o presente dela no carro!… não posso esquecer, não posso esquecer. não posso esquecer!!!!!!!!

Conversamos. Homem anti-social quando fica ansioso fica palhacito. Isso é inconveniente. Mulher não é como homem. Homem descontrai com a besteira falada e acaba falando mais besteira, mulher se enfastia logo que ouve.

Conversamos sobre coisas ligadas ao trabalho, pode ser assunto chato mas que fizemos divertido. É um quebra-gelo de conversa. É tanto assunto por falar que o quebra-gelo, pra fazer jus, tem que ser extenso também.

Ela tem um jeito moleca de sentar, minha menininha está ali sim, mas crescida, bonita, madura, inteligente, valha-nos Balzac. Opa, é indelicado falar em Balzac? Espero que não, por favor, não entenda mal. Falo dele para valorizar, não para desfazer, mas é melhor parar a citação por aqui, pra não me complicar por má explicação.

Ela foi no banheiro e, na volta, falei do mini-mico do dia. O pessoal do trabalho descobriu minhas pretensões de escritor rs, ando tão empolgado com meu público lendo o que escrevo rs, que perdi o senso de perigo e entrei no wordpress perto de um colega. Ele descobriu meu site e contou pra outro. Seguiram-se comentários de surpresa, ufa, ainda bem que são camaradas discretos, não vão ficar fuçando nem comentar.

Falamos algo sobre o que eu escrevo e sobre minhas histórias serem verdade ou não. São ficção, deixo claro, mas, deixo claro também, que sempre tem algo meu lá. Ela pareceu se decepcionar, pareceu não, se decepcionou mesmo. Fiquei na defensiva, não sei porque, ânsia de agradar? Mas têm coisas que não dá pra explicar sem expor muito e o lance de ser anônimo e não se expor. Acho que ela tinha expectativa de que eu escrevesse sobre fatos verídicos, não é o caso. Embora tudo o que eu escreva seja um ensaio pra algo que quero realmente dizer a quem vai ler.

Voltamos às piadas corporativas. Histórias corporativas são como histórias de crianças, mas quem faz a criancice é um adulto. Era ainda muito gelo para quebrar antes de entrar nos assuntos sérios de adultos. Minha cara de palhaço – talvez pelo narigão – não ajuda. Até que ela olhou o relógio e teve que dar um basta, era tarde já. Umas três horas de café. Espero que ela não tenha se ofendido de eu pagar o café. Eu sempre arrasto meus amigos pra tomar café, que me acostumei a pagar essas contas.

Será que fui um chato? Ela falou de comer japa. E depois falou uma segunda vez. Não devo ter sido todo chato, não. Ao menos devo ter dado esperança de evolução.

Presente dela na mochila, ainda bem que não esqueço. Ufa, ela é especial e se não deu pra conversar tudo o que se emaranha na cabeça, um pouquinho de mim e desse emaranhado ela tinha que levar. Que fosse o saber que o carinho que tenho por ela é grande e que eu ainda tenho muita vontade de conversar. Que o bem que ela me faz é enorme!


Bilhetinho que eu devia deixar na tua bolsa no Sábado pra você encontrar na hora de pagar a conta do Salão.

You strong enough to be
Why don’t you stand up and say
Give yourself a break
They’ll laugh at you anyway
So why don’t you stand up and be Beautiful

— Marillion, Beautiful, 1995

Você se preocupa tanto com o cabelo e eu acho tão lindo quando deita no meu colo e se levanta para olhar a TV e ele está meio bagunçado.
Teu perfume é muito gostoso, mas se fosse outro, mesmo daqueles baratinhos que vendem no mercado, em você também seria uma delícia.
Aquela lingerie transada, vermelha e cheia de rendas, eu prefiro quando você usa uma básica discreta que não chame mais a atenção que teu corpo.
A sombra, acho que é esse o nome, combina tão bem com teus olhos e cabelos. O batom, nunca vi ninguém que deixe os lábios tão bonitos! Fico um perigo quando os vejo realçados. Mas a coisa mais linda é quando eu acordo e te vejo ainda ao natural, dormindo ao meu lado. Ou talvez seja quando você acaba de passar aqueles lencinhos pra tirar a maquiagem e vem pra baixo do cobertor?
O esmalte, e há uns tempos você pegou mania de esmaltes, lembro que quando te conheci era sempre o mesmo, cada um que você usa te dá um ar diferente, sempre incrível. Tuas unhas não tem aquelas pelezinhas como as minhas.
Eu gosto da maioria das roupas que você tem no armário, principalmente aquelas justas, as curtas e as decotadas que mostram teu corpo, as longas e as pesadas que te cobrem inteira, o sobretudo que você às vezes usa no inverno, aquelas roupas surradas que você usa em casa, os pijamas de flanela, aquelas camisas discretas que você põe quando tem algo formal no trabalho, também as camisetas básicas que você compra baratinhas, não sei ainda qual sapato eu prefiro. Até aquelas roupas que te compro e percebo que não acertei o tamanho rs. Acho que, na verdade, gosto de teu guarda-roupa todo, ele tem muito bom gosto.
Eu queria que você soubesse que gosto de tudo isso que você faz, eu acho que por vaidade, e gosto de imaginar que seja pra mim. Mas tenho certeza de que nada disso te deixa bonita. Pelo contrário, isso tudo só funciona porque você já é linda!

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Tentativa

I was / I am / I am to come / I was / I am / I am to come / I was / I am
— Aphrodite’s Child, ∞ in 666, 1972

Eu? Você? Cadê? Aqui.
Como é que se faz isso aí?
Me diz pra começar
se a gente esconde o espelho.
aumento ou não o som?
Desligo a TV?
Tem gente na janela.
Como é que se respira?
Esquece o celular.
Cadê o meu joelho?
Será que assim tá bom?
Aquele negócio, cadê?
Ainda está com ela?
É mesmo assim que se respira?
se não der certo…
… a gente se vira
Deixa rolar.
Se está errado, tanto faz.