Ainda Não

O balconista da loja pergunta:

“Vocês são namorados, casados…?”

Ela tenta começar a responder: “Não…”

Mas ele interrompe, mais rápido de pensamento: “Ainda não.”

O vendedor foi buscar a encomenda, sai rindo da cara dela. A cara era de surpresa.

Ele logo que terminou de falar, e falou sério mesmo, como quem dita um endereço, logo que terminou, olhou-a com um sorriso carinhoso.

Ela sorriu também e repreendeu de mentira: “Ah, eu fiquei sem-graça” Não estava em boa fase com o namorado que não a merecia, ele sabia disso. Sentiu-se lisonjeada com a cantada inesperada do amigo. Ele nunca escondeu que sentia algo por ela, só nunca deixou claro o quê.

“Olha que mulher bonita nesta foto.” Ele pega algo no balcão e lhe põe à frente do rosto. É um espelho. Ela não tem tempo de falar, porque ele completa: “Ela não merece ficar assim por quem não lhe valoriza.”

Se abraçam. Nunca tiveram nada e talvez nunca terão. Ele sofre junto por ela estar infeliz. Queria que ela encontrasse alguém que a fizesse feliz. Por mais que esse alguém o fizesse imensamente infeliz.

 

Ir Além

Tem um lago, gramado em volta, árvores. É um parque.
Deitamos na grama perto do lago, embaixo de uma árvore.
Pode ter formiga, sujar o cabelo com folhas. Dane-se.
O céu não está azul, tem nuvens, poluição. Faz um ventinho frio.
Mas dane-se. Estamos de agasalho.
Estamos com medo, receio, não dá pra falar de quê.
Mas deitamos lado a lado. Mãos dadas, olhando pra cima.
Parecemos um H ou M.
Que indelicado eu sou! Troco a mão que estava segurando a tua.
Agora seguro tua mão com a minha mão contrário, braço sobre a barriga.
O outro, dobrado, te ofereço como travesseiro.
Você aceita. Nossas cabeças ficam bem perto uma da outra.
Nos olhamos sorrindo. Queremos ir além.
Beijo seu rosto, um pedaço de um dos meus lábios toca também um pedaço dos teus.
Você, sorrindo bonita, esconde o rosto junto do meu pescoço.
Guardaremos isso por dias conosco com carinho.
Não é só o arrebatamento.
Ir além aos pouquinhos, construindo, também pode ser uma delícia.

Nem Todas as Cores São Iguais

Eu não acredito em relacionamento que comece numa balada ou coisa do tipo. Com correio elegante no bar, pensei que não existisse mais, mas ouvi a molecada do trabalho falando nisso.

Isso pode dar certo numa noite, duas. Muito logo um dos dois vai descobrir algo insuportável no outro.

Eu acredito em relacionamentos que se iniciam com a convivência. Antes de se olharem com outros olhos, os dois já têm uma certa idéia do que gostam ou não um no outro, estão conscientes e sabem onde pisam. Podemos chamar de pré-seleção.

Agota, os relacionamentos que eu acho que têm mais chance de dar certo, são aqueles que começam com uma pequena convivência que, aos poucos, vai se tornando rotineira, vira coleguismo, depois, freqüente, se torna amizade. Quando chega na hora de rolar algo, os dois já se conhecem bastante. E não é por isso que funciona. É porque só deu a vontade de rolar algo porque os dois já se conheciam.

Acho que no fim das contas, todo relacionamento que dá certo tem que construir uma amizade colorida.

 

Data

800px-Sugar_MiceFor when it comes right down to it there’s no use trying to pretend
For when it gets right down to it there’s no one really left to blame
Blame it on me, you can blame it on me
We’re just sugar mice in the rain

— Marillion, Sugar Mice

Lingerie como ele gosta, aquela básica branquinha. Banho tomado, óleo cheiroso, muito bom o cheiro que esse óleo deixa. Unhas feitas, de castanho, cor dos meus cabelos, o salão foi corrido mas valeu a pena. Cabelo bem desembaraçado, com cheirinho do shampoo. Creme nos braços, no pescoço. Colônia, a que ele diz que deixa doido. Será que vai ficar mesmo? A camisola que parece camisa, é quentinha, está frio hoje, e eu adoro quando ele desabotoa e enfia os braços pra me segurar pela cintura pra me abraçar.

Ele não vai se lembrar da data, não tem problema, homem não lembra mesmo. Talvez seja até melhor, vai que a data tira a espontaneidade rs, independente da data, hoje e noite. Todo dia é pra se comemorar, toda noite também.

O cinema foi meio micado. E ele ainda ficou trocando mensagem pelo telefone com o pessoal do trabalho. Não era o filme que ele queria com o sujeito do MMA. Mas, poxa, também não era o que eu queria. Acho que foi um meio termo. Eu até que gostei, não era muito divertido, mas a mensagem era bacana, só a música dava sono. Ele não gostou, nem quis conversar sobre o filme no caminho, mudou de assunto para os impostos.

A champanhe está no freezer, coloquei antes de entrar no banho. As taças lavadas e já secas. Poeira e cheiro de armário não dá.

Cadê ele, não está na sala. Nem no quarto. Está no escritório, mexendo no notebook, telefone na orelha. O pessoal do trabalho não dá sossego. Eles não se viram sozinhos, precisam dele toda hora. E ele se orgulha disso.

couple clinking champagne over dinner (Small)

Tento não xeretar, só faço um carinho e tento dar um beijo, mas o telefone atrapalha. Ele tira o telefone e dá um beijo com pressa. Faço cara de cachorrinho: “Você vai demorar?” Falo muda, só mexendo os lábios. Ele não gosta que falem quando está no telefone. Me faz sinal com os dedos, que eu entendo como “Só um pouquinho.”

Eu já ouvi isso antes, costuma demorar mais do que só um pouquinho, ele é que não tem coragem de falar. Acho que tem medo de que eu pergunte mais.

Pego o vídeo da Diana Krall. Não é tão cliché, gosto da idéia.
Deito na cama, só com o lençol e só até abaixo do peito. Fica fácil tirar quando chegar a hora.

Depois de um tempo, ele vem pra cama. “Já me arrumaram dor-de-cabeça pra amanhã de manhã. Vou sair cedo. Você põe o despertador pra te acordar depois?” Não espera resposta. Me dá um beijo e deita de costas pra mim.

Compreensiva, virei e fiz eu a conchinha nele. Mas logo me senti estranha e pensei que, se rolasse algo, não seria como eu queria. Rolei de volta pro meu lado da cama torcendo pra ele dormir logo.

Não pus o despertador, acordo na hora, sem precisar disso.

De manhã, ainda encontrei a garrafa de champanhe no freezer, congelada, o vidro rachado.

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Eu até tentei, mas hoje não sai nada.

Há coisas que não se escrevem, e é só nelas que penso.

Talvez de dia tenha uma ideia melhor.

 

 

Ovo

Egg, isolated

Uma luminária. Antigamente havia umas luminárias de metal em forma de prato de cabeça pra baixo, que ficavam pendurados do teto pelo fio da eletricidade, Eu precisava de uma dessas, uns quatro metros de fio, tomada, uma lâmpada… que potência de lâmpada? A gente só usava quarenta ou sessenta watts em casa. Acho que quarenta serve, vai que sessenta ponha fogo na caixa. Ah! Caixa, preciso de uma caixa, um caixote de madeira boa, de uva.

Isso era o que eu precisava comprar. O mais importante já tinha ali: um ovos. Ovo de galinha mesmo.

Um pouco antes de meu pai se aposentar, mas quando ainda éramos só três irmãos, ganhamos do granjeiro um galo e duas galinhas para começar criação. Ele disse para pergarmos, nós crianças, um para cada um.

Meu pai queria mesmo começar criação, mas como o granjeiro deu os bichos para nós crianças. Ele acabou comprando outras crias e deixou aqueles três num galinheiro separado para nós. Aqueles não eram para abate, eram nossos para criar. Pets diriam hoje. Mas pra nós não eram só bichos de estimação.

Chamavam-se Panchito, Chicória e Gertrudes. Pegamos os nomes de personagens de algum gibi que o Zezinho gostava. Comiam quirela e talos de verdura que recolhíamos do lixo da cozinho, andavam conosco pelo quintal, bicavam a cadela, as carpas e as roseiras da mãe. Eram bichinhos que davam margem a algumas brincadeiras que só criança mesmo entende. Cavocar o fundo do quintal procurando minhocas frescar para lhes ver comê-las era diversão garantida.

Não me lembro quanto tempo levou, eu devia ter uns seis ou sete anos, a Chicória foi a primeira a morrer. Logo a minha chicória. A enterramos junto ao muro que dava para a casa dos compadres. Ali meu pai tinha reservado pra essas coisas, ficava no lado do quintal oposto à horta, com as plantas de minha mãe no meio.

Fiquei chateado, não propriamente triste. Agora, já éramos quatro, além do nenê, eu era o único sem uma galinha de estimação. Subi a escada pra casa pra lavar a terra das mãos no banheiro. Frescura de criança, não quis usar a torneira do quintal, talvez quisesse mesmo era sujar a pia do banheiro.

Passando pela cozinha, vi a cesta dos ovos, o último ovo da Chicória estava ali. Quem se acostuma com ovo de mercado, acha que eles são branco. Quem cria sabe que não. Ovo é vermelho, cor de tijolo. Ovo de mercado é branco porque a galinha é criada com aquela ração sem cor. A galinha mesma acaba ficando com a carne mais branca, as penas todas brancas por causa disso. Galinha criada em casa, comendo milho, põe ovo vermelho, as penas podem ser brancas, mas não aquele branco perfeito alvejado. E se eu desse esse ovo para a Gertrudes chocar?

“Não adianta, ela não vai pegar”. O Zezinho entendia dessas coisas. Ele entendia de tudo, nem adiantava desafiar. Mas ele se lembrou de outra coisa: o vô chocava ovo de passarinho com lâmpada. A gente tinha que por o ovo numa caixa de madeira, acender uma lâmpada não muito forte numa luminária de metal apontada direto para o ovo e esperar. Com os passarinhos funcionava. Não sei porque, mas eu achava que galinha era mais fácil. O ovo é mais comum, vende em granja.

No quartinho de ferramentas do quintal tinha tudo. Meu irmão era bom de eletricidade, montou as coisas. Eu pude fazer o monte de serragem dentro da caixa, colocar o ovo nele e ligar a tomada. A caixa estava montada na garagem, no vão embaixo da escada.

Meu irmão se lembrou de algo e correu, voltou com o termômetro do aquário. Colocou junto ao ovo e testou a temperatura. Queríamos uma galinha, não ovo cozido.

“Está bom.”

A experiência ficou ali repousando. São três semana para um pinto nascer. Olhávamos duas vezes por dia se havia algum problema, não seríamos os responsáveis por algum incêndio doméstico. O pai ficaria danado.

O dia chegou em que meu pai foi cutucar meu irmão na cama de manhã cedo: “Vai olhar a caixa!” A cara dele não era simpática. Algo havia acontecido. Meu irmão se levantou e foi. Era o mais velho, tinha que ir na frente. Eu só fui quando, num lampejo no meio da modorra, desconfiei que a tal caixa fosse a minha, a caixa com o ovo da minha galinha.

Corri, meu irmão e meu pai tinham mesmo descido a escada pra garagem. Quando cheguei, eles estava com a caixa aberta, a lâmpada afastada, mas ainda ligada. “Está nascendo, meu irmão disse.” Tinha empolgação de cientista na voz. Ele era pouco mais velho do que eu, mas tinha dificuldade de se comportar como criança. Nascendo? Então a cara estranha do pai devia ser cara de sono mesmo. Ou, conhecendo meu pai, devia estar encabulado de nos acordar antes da hora.

Meu pai estava em pé, olhando por cima. Meu irmão, de cócora, afastou um pouco o corpo para me dar espaço. Ele era muito alto, tinha que se arcar na escada, meu pai nunca imaginou que teria um filho assim alto. Mesmo com o corpo afastado e de cócoras, conseguia ver quase da mesma altura que o pai. Eu olhei meio da beirada da caixa, não vendo nada diferente, cheguei o rosto quase dentro dela. Nada de diferente ainda. Como que eles sabiam que estava nascendo? Não perguntei, mas o pai é da roça, galinheiro, entende disso. Zezinho devia estar trucando pra fingir que entendia também.

Esperei, esperei. Até a mãe ficar impaciente e chamar pro café, gritando. imaginei que fosse como na televisão. O bicho se esticasse, arrebentasse o ovo e já saísse andando: “ei, cadê meu milho?” Ou me enfastiei ou fiquei com medo do grito da mãe, fui tomar café. Ela desceu com o café do meu irmão que ficou ali de guarda da caixa. A galinha era minha, mas a experiência era dele.

Quando desci de novo, ele subiu devolver a caneca, voltou com um toco de madeira, uma espécie de espeto, um palito de dente maior que o normal. “Já está rachado, a gente ajuda ele a abrir.” Fiquei chocado! Como assim? “Não”. Mas o pai já estava atrás de mim e deu razão: “Tem de ajudar a quebrar a casca pro bicho não se cansar.” Parecia uma operação arriscada. Estaria o meu pinto, ou melhor, o pinto póstumo da Gertrudes, em perigo e fazia-se necessária uma intervenção cirúrgica? Uma cesariana aviária?

Meu irmão cutucou o ovo com a mão firme. Eu não sei como ele conseguia. Fazia com cuidado e, mesmo assim, com força e firmeza. Ele sempre zombava de mim por eu não ter firmeza na mão. Mais velhos, eu lhe mostrava minha caligrafia bem feita e comparava com a dele miúda e tremida: “Quem diria!”

Ele mexendo no ovo e eu nervoso. Coração a mil. Tudo podia dar errado. Quase desmaiei quando a casca furou e pulou uma meleca pelo furinho. Meu pai explicou com seu sotaque de ilhéu:”Isso é do ovo!” Meu irmão com o palito puxou as beiradas do furo, deixou um pouco maior. “Faz você”. Fiz igual a ele, mais sem jeito. Quebrei uma lasca da casca. Meu irmão se deu por satisfeito com minha ajuda, olhou olhou, cutucou de outro lado, fez outro furo, saiu um bico. Ele conseguiu encontrar onde estava o bico.

O bichinho foi indo, foi indo, enfiou o bico pelo buraco, quebrou mais, pôs o olho fechado, depois o bico de novo, aos poucos quebrou a casca, demorou.

Quando saiu estava úmido, melecado: “Tem que por a luz de novo.”

Pusemos a luz e deixamos e ficamos olhando. Logo enfastiou-nos olhá-lo. Agora era um pinto nascido, amarelo como os outros. O deixamos na caixa esquentando e secando. À tarde, meu pai o levou para o galinheiro menor, o de grade fina, junto com os outros pintos, sem distinção.

 

Palavras Soltas e Interditas

Crystal_Cave_2_by_firedudewraith
Eu tenho impressão de que algumas coisas que escrevo deveriam me deixar acanhado.
E certamente me deixariam se eu as dissesse a alguém e não a um editor de textos.
São coisas que eu tenho que falar, mas não conseguindo, escrevo.
Este espaço tem sido para mim, nos últimos dias, como uma pequena abertura na minha toca.
Por ela, eu, como bicho escondido, olho o mundo, espio, procuro como está o tempo e se há algum perigo antes de sair.
É perigoso sair sem antes conferir o terreno, falar sem pensar.
Conforme me solto, escrevo mais. E, em nenhuma de minhas tentativas anteriores, consegui me soltar e escrever tanto.
Mesmo assim ainda há muito o que dizer.
Se me acanho com o que escrevi, imagina com o que ainda está guardado.
Um dia eu saio da toca.

Blue Moon

Blue Moon, Now I’m no longer alone without a dream in my heart, without a love of my own
Blue Moon de Richard Rodgers e Lorenz Hart.

 

Se te disserem que você está muito grande
para brincar de berlindes ao portão,
soprar bolhas de sabão,
pendurar-se no pé de laranja
de cabeça pra baixo,
chamar a ratos gigantes,
bancar polícia e ladrão,
comer a perna do frango com a mão.
para feito criança
chorar escondida no armário,
Não ouça o que dizem.
São céticos como até ontem era eu.
Por mais que da idéia gostasse
Se me dissessem que pérolas azuis existem,
talvez também duvidasse.

 

Calipal

We will wear your white feather
We will carry your white flag
We will swear we have no nations
But we’re proud to own our hearts

— Marillion, White Feather


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Coisa que ficou rara hoje em dia, mesmo na periferia são os bosques, ainda razoavelmente comuns quando eu era pequeno.

Quando criança, havia em frente de casa, atravessando a avenida. Chamávamos calipal. Não que fosse um bosque apenas de eucaliptos. Os eucaliptos ocupavam uma faixa de não mais que cinqüenta metros bosque a dentro. Mas o costume das mãe de mandar que não brincássemos mais para longe que isso e sua ilusão de que realmente não passaríamos daí, fizeram com que déssemos ao todo o nome da parte.

Abria a janela e via, era muito bonito. Os eucaliptos são como palitos acinzentados espetados no chão, bem distribuídos a distância regular um do outro. Os galhos e folhas, parecem olhando de longe, pelados demais para fazer sombra, mas fazem bastante. O cheiro que deixam no ar é discreto, como tem que ser para refrescar o ar o tempo todo sem enjoar.

Olhando por cima, era como um carpete regular, bem escovado. Cada árvore com praticamente a mesma altura das suas vizinha. Desse jeito, a ondulação do carpete era harmoniosa, parecia feita por artista. Serra com mata é coisa bonita de ser. Dizia meu avô que essas ondulações são bonitas porque lembram um violão, e abraçava com carinho minha avô, denunciando a que tipo de violão se referia.

Gostava muito de brincar no bosque. Não por falta de opção, e realmente opção de lugares ali não havia muita. Para quem mora na periferia, cada rua é territorio de seus moradores, cada quadra. O que restringe os lugares de brincar. Para brincar de rolimã, tinha que fazer amizade com a molecada que morava na ladeira. Pra jogar futebol, com a molecada que morava mais no alto da avenida, onde havia um terrenão baldio que, a revelia do dono desconhecido, virou um pequeno campo de várzea. Meu pedaço da avenida era de certa forma privilegiado, tínhamos a avenida em si, com calçada larga, servia para brincadeiras mais urbanas, de asfalto, e o calipal do outro lado da rua para voltar pra casa sujo e picado de mosquito.

Tinha uma amiga, ela não morava ali, estivemos na mesma escola por um tempo, por isso, deveres de escola, ela começou a freqüentar minha casa e, por extensão minha rua e meu bosque. Brincávamos juntos ali mesmo depois de mudarmos de escolas e não estudarmos juntos mais. Vida tem isso, e principalmente as crianças tem isso, amizade que resiste a separação é muito mais gostosa, as brincadeiras sabem-nos bem melhor.

eucalipto

Nossas brincadeira, nesse tempo, não precisavam de mais do que o espaço e as árvores. Brincávamos de esconder, de pegar. Antes que vocês pensem maldosos, não, nunca chegamos a brincar de médico. Mas liamos, escrevíamos, desenhávamos, pintávamos, de tudo ali.

Gostava de subir nas árvores. Não nos eucaliptos, é claro. Eucalipto é praticamente só um troco, seus galhos são finos, fracos e altos. As melhores árvores pra se subir são as pitangueiras, depois as laranjeiras, que não havia ali, e as goiabeiras. no meio dos eucaliptos, havia uma outra goiabeira. Mas, perto ainda da rua, do barulho, não eram o melhor lugar para sentar lendo. Além disso, goiaba é fruta a que ninguém dá valor. As crianças as pegam ainda verdes para usar de munição do estilingue.

Pitangueiras são perfeitas. Galhos grossos que começam baixo. Crianças conseguem sentar em par no mesmo galho. Ou, em galhos separados, os galhos são muito próximos. São como casas de árvore projetadas por arquiteto. E pitanga é uma delícia! Minha fruta preferida. Uma pitangueira e um gibi alimentam mais do que a merenda da escola.

Brincávamos nós dois quase todo dia – malditos compromissos de família que os adultos nos arrumam – no nosso bosque. Sim, o bosque já era nosso. A rua era minha, eu morava nela. Mas o bosque, desde que o apresentei a ela, já não era só meu.

O limite que as mães estabeleciam, o calipal, era insuficiente para nós. Ele tinha espaço, árvores espaçadas, de tronco fino. Mas, lá na frente, onde estavam as outras árvores, mais juntas umas das outras, com trilhas pisadas estreitas para se andar, a cada passo encostávamos em algo, lá é que havia liberdade, onde o espaço menor era só nosso.

A cada dia, expandíamos um pouco mais, talvez uma árvore mais, o limite de nosso domínio. Isso pode ser perigoso para duas crianças sozinhas. Imagina cair de um galho, de um barranco, ser mordido por um bicho, uma cobra! Topar com bandido. O que poderiam fazer? no caso de um acidente que imobilizasse um, o que o outro faria, o deixaria sozinho para buscar ajuda? E se aparecesse um bicho? Urubus e carcarás rondavam ali à procura de bichos inválidos. Cobras não chegamos a ver, mas é certo que havia. Se tem carcará é porque, com certeza, há cobra pra ele comer. Naquela época não existia telefones celulares. Era outra era histórica.

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Poucos adultos do bairro conheciam mais sobre o bosque do que nós. Os lugares de que falávamos, a maioria não sabia encontrar. Ela, por dentro, era como uma tropa disposta para desfile. No início, os já citados eucaliptos, formavam uma fileira esparsa. Em seguida, uma fileira mais estreita de goiabeiras, pela direita, e pitangueiras, pela esquerda. Bem mais pitangueira do que goiabeiras, diga-se. Depois vinham os pinheiros, os tradicionais, mas quando se subia alguns morros, nas partes mais altas, eles davam lugar à araucária. Vez por outra alguns grupos de forasteiros: havia um grupo inexplicável de mamoeiros junto a um pequeno pedaço aberto, um dos morros tinha dois ipês roxos meio escondidos embaixo das araucárias. Em alguns barrancos, arbustos com flores grandes pareciam cercas para amparar o desatento e não deixá-lo cair.

Nosso bosque era infinito!

Uma de nossas brincadeiras era sentar em galhos próximos, escorados um no outro, ombros e cabeças encostados, e criar mundos imaginários. Rabiscávamos um mapa desse mundo num pedaço de papel, folha arrancada de caderno de escola, com desenhos mal feitos de seus habitantes e lugares pitorescos. O resultado, invariavelmente parecia um bestiário pós-medieval. Se quiséssemos ficar mais próximos para facilitar a disputa pelo papel e pelo lápis, escolhíamos um galho mais grosso e sentávamos juntos, lado a lado ou no colo.

Do bosque mesmo, nunca fizemos mapa. Já vimos filmes de pirata, alguém pegaria o mapa do bosque e roubaria nossos segredos. O bosque não seria mais só nosso. E, se não fosse, também já não seria mais o mesmo bosque, das mesma brincadeiras e mundos a se imaginar. Se nós o exploramos, era como tê-lo criado. Ele não existia como era, antes de nossa exploração expandir-lhe os limites até onde chegamos.

Quem quisesse, que explorasse e criasse por conta própria sei-lá-que-bosque. O mapa para o nosso estava nas nossas cabeças. Nem à noite, em sonhos, nos permitiríamos compartilhá-lo com ninguém.

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Uma vez descobrimos um rio. Chamamos de rio, podia ser córrego, não sei a diferença, chamávamos de rio qualquer veio por onde corresse água. Sua água era limpa e ele tinha uma rampinha de pedras lisas onde deitamos como se fôssemos também pedras da rampa, a água não chegava a um palmo de altura. Alguns peixinhos, muito pequenos, viviam naquela água e quando desciam por ali, faziam cócega por nosso corpo. Era hilário. Tínhamos que esperar muito a roupa secar para não denunciar a arte. Algumas vezes, a tentação da brincadeira nos levava a tirar a roupa para entrar na água. Não havia porque não. Ninguém mais aparecia ali. Aquela água, pode-se imaginar, era uma de nossas brincadeiras preferidas.

De outra vez, plantamos uma laranjeira. Eu trouxe a muda de meu quintal. Por que plantamos? Ora, éramos crianças! Pela transgressão. Não havia laranjeiras ali. Não existe laranjeira em bosque, só em pomar. Ela está lá grande, forte, ainda a visitamos. Para uma árvore, ainda é nova, mas já dá boas frutas. É a nossa árvore. O bosque é nosso, mas nele só essa árvore é nossa.

Teve também a outra vez, quando encontramos um casal de esquilos namorando. Criança gosta de azucrinar bicho, nós não, repeitamos, deixamos quietos. Mas aquele dia ficamos olhando. Olhar não é mexer, mas também incomoda. Já viu esquilos namorando? É muito diferente, parece que se vê a diversão deles, parecem crianças brincando, eles ali rolando, subindo e correndo um ao redor do outro. Bichinhos felizes. É errado espiar, mas é bonito.

Nas nossas explorações e brincadeiras, a cada novo dia, a fronteira do nosso bosque conhecido era ampliada para mais longe da minha rua.

Aí, um dia, o medo, se continuássemos avançando, em algum momento encontraríamos um fim pra ele? Um queda, o mar, o fim-do-mundo? Ou outra avenida?

VG trees

 

 

Toque

 

Eu não sou do toque macio. Aquele toque que pe como uma pluma roçando a pela, leve.

hands_reaching_out_by_MYxBR0KENxDREAMSEsse toque macio é discreto. Se estamos em algum lugar onde temos que ser assim discretos, é melhor não nos tocarmos, não precisamos. Já sabemos de tudo. Um roçar de dedo no rosto do outro não vai resolver nada.

Onde temos que que ser discretos, nos tocamos com as almas como quando estamos longe.

Mas perto, preciso não do toque, de pegar, de abraçar e afagar. Dar minha mão como um travesseiro ou um ombro para você repousar teu rosto. Ou alisá-lo, sem violência, mas sentindo bem o contato.

Beijar, que seja sua mão ou sua testa, mas sentindo a pressão em meus lábios.