Prêmio

Não era nenhum concurso. Era uma redação normal, daquelas que fazíamos uma vez por semana. A professora disse que as notas da redação valeriam um prêmio.

Eu gostava de escrever, de ser elogiado pela professora. Escrevia o que queria sem me preocupar com a nota. Lembro de ter escrito coisas de que gostei, e de tirar zero por desagradar a professora.

As notas, queria-as suficientes, mais que suficientes. Mas não me preocupava se no final do ano meu boletim diria A ou C. Chegava no ponto em que tinha nota para passar, nem fazia mais as provas. Olhando meu boletim, dava a impressão de passar por pouco.

Lembro da sexta série. Em setembro, eu já tinha notas para passar, a professora, maldita seja, para mostrar poder, me deixou de recuperação. Não gostou do tema de minha última redação do ano. Escrito algo de ruim sobre o Partido de fé dela… Teimoso, fiz outra redação sobe o mesmo tema e o conselho da escola a fez me aprovar. Eu não ligava para notas, mas procurava não precisar ligar para elas. Os outros professores reconheciam isso e não a deixaram continuar a demonstração de prepotência.

De prêmios e de me expor também não gostava. Mas aquilo que a professora propôs não era uma competição por prêmios. Nem era mais a sexta série. Acho que era a sétima. A professora era já outra. Aquilo era para mim uma competição pela admiração da professora que eu estimava muito. Em todas as aulas de redação, ela perdia uns cinco ou dez minutos sentada ao meu lado. Puxava uma cadeira e lia o que eu estava escrevendo. Corrigia a gramática a pronto. Às vezes, eu não queria lhe aceder às correções. Porque, às vezes, o correto não é o melhor. Ela dizia que teria que me baixar a nota por isso, mas que gostava que eu fizesse a meu jeito. Eu me sentia artista. Era um respeito que não podia haver nas aulas de outros professores.

A redação, dessa vez, redigi-a com muito mais cuidado que o habitual. Quando percebi que ela não viria à minha mesa, como eu já havia me acostumado, li, reli, apaguei e refiz vários pedaços, várias vezes. Espremi a letra, criei novas linhas, para que coubessem as idéias que me vinham atrasadas. Passei à limpo, e o limpo ficou sujo porque também o corrigia.

Deve ter dado uma página e meia. Na época, eu não escrevia coisas longas. Preguiça de escrever à mão. Escrevo devagar, aperto muito o lápis, dói-me logo a mão e o pulso. Essa página e meia era uma das maiores que eu já tinha escrito. Ficou grande de tanto revisitá-la.

Ao fim da aula, a professora não passou nas mesas como sempre, recolhendo as redações, lendo a minha — a minha mesa era a primeira, junto à porta — enquanto andava recolhendo as dos outros.

Levamos nossas folhas para uma pilha em sua mesa. Uma pilha comum, impessoal. Senti-me tratado igual aos outros, isso não feriu meu orgulho, mas fez falta a distinção. Percebi que a professora queria rir do suspense, quando deixei a minha folha na pilha. Intrigado, voltei à minha mesa e tagarelei até a próxima aula, o próximo professor.

Na aula seguinte, ela trouxe as redações corrigidas. Entregou algumas, chamando os alunos pelos nome, sem citar notas, deviam ser as mais baixas, e eram, pelos alunos que as receberam sabíamos que eram. Eles não ligavam. Se divertiam em tirar notas baixas. Como a maior parte da escola, achavam divertido tirar notas baixas e mesmo assim serem aprovados. Não se pode reprovar um aluno, afeta a avaliação da escola.

Quando sobravam poucas a serem devolvidas, passou a entregá-las anunciando a nota: oito, oito e meio, nove. Tirei um nove. Acho que o único nove da sala. Não ouve nove e meio, mas três meninas tiraram dez. As três foram perfiladas à frente da classe, ganharam palmas e chocolate. Aplaudi muito, orgulho levemente decepcionado, mas grato por não ser eu ali à frente. Ri delas envergonhadas.

A bagunça se instalou, a professora não ligou. Deixou a barulheira e o falatório tomarem conta da sala. Aproveitou para chamar-me à sua mesa. Recebi um papel enrolado cheirando a álcool. Impossível não reconhecer o cheiro do papel mimeografado. Era uma oração. Enrolada. Dentro havia também um bombom grampeado, ouro branco, ela sabia que eu gosto, e algumas linhas a caneta vermelha. Alunos só usavam azul e preta, professores usavam vermelha, era a regra da época. As linhas escritas pela professora me davam parabéns por ter entregue a redação de que ela mais gostou e recomendavam que continuasse assim.

Ninguém notou essa pequena cerimônia, discreta. Notaram sim o abraço que lhe dei e o beijo que recebi no rosto, e esse depois me valeu várias gozações.

São coisas assim simples que fazem uma pessoa ser especial e deixar tanta saudade na vida de alguém.

Zíper

 

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Acordei pela hora do almoço. À noite bebi muito, muito mesmo. Bem mais que o usual, que já é muito. As vezes as pessoas bebem para esquecer o que lhes deixa triste. Há os que bebem por costume, sem razão, ou talvez estejam constantemente tristes. Eu tenho o costume de beber meu uísque antes de dormir. Não em casa, sozinho. Quem bebe sozinho é alcoólatra. Bebo no clube, com os amigos. Clube é como chamamos o bar. Bar mesmo, não boteco. É o bar de um hotel perto de casa. Passo lá umas quatro vezes por semana, quando não tenho nada melhor para fazer. Às vezes passo também depois de fazer algo melhor. Outras vezes não passo, e não me faz falta. Lá, vão os tios, nós tios, que não têm com quem jogar vídeo-game à noite, ver novela, irmão cinema, essas coisas inúteis a que nós acostumamos por conveniência. Ao invés disso, vamos ao bar, ficamos sentados, em poltronas isoladas, por horas, com o copo na mão, olhando quem passa. Às vezes até conversamos, mas o assunto tem de ser muito bom e oportuno. O copo nunca pode chegar à metade. Corre-se o risco do garçom enchê-lo de novo. Ali não é lugar para se ficar bêbado. Um copo só, e beber sempre menos da metade. Quem vai ali beber, não vai para beber. Vai para ficar ali e olhar, em vez de ficar em casa, e não te o que olhar.

Ontem fiz algo diferente. Não sei se foi a bebida só ou algo mais forte, ou só algo diferente. Talvez tenham me dado algo. Alguma daquelas coisas que eu nunca quis experimentar. Talvez eu tenha pedido alguma dessas coisas ou feito alguma outra coisa. Dormi muito. Ou melhor, dormi até tarde. Não me lembro de quando me deitei. Podem ter sido só cinco, vinte minutos de sono e agora não me lembro. Não me lembro de nada depois de ter entrado pela porta giratória do hotel.

Lembro de ter ido para o hotel angustiado, eu sei bem com o quê. Não podia ter companhia para desabafar, não podia. Só podia contar a meus pensamentos e, mesmo assim, só quando já tivesse me preparado com algumas bicadas de uísque. As pessoas que iam e vinham, o faziam a calhar. Eram os parceiros imaginários ideais, desconhecidos, para a conversa que eu fantasiaria em minha cabeça, sentado ali, fazendo cara de homem maduro que não precisa de ninguém e a ninguém deve nada.

Lembro de fazer força para que a porta começasse a girar. Ela é pesada, é preciso esforço para anular a inércia, mas depois disso ela roda fácil, sozinha e pesada por um tempo. Para pará-la antes sim, é que se precisa de esforço de novo. Quando ela começou a girar, fui por ela, desequilibrado, mas em pé, andando. Desequilibrar-se é conseqüência do empurrão, todos que a empurram se desequilibram, mas a própria mão apoiada nela, empurrando, os apóia e sustenta para que não caiam. Isso não era novidade para mim. Novidade foi, ao ir pela porta, sentir-me como que abraçado por ela. Como se dentro dela existisse algo que me envolvesse. Algo que me levasse a outro mundo. O furacão da Dorothy talvez. Talvez aquele furacão que a levou do Kansas para Oz fosse o de uma porta-giratória rolando. Uma porta como a do hotel. Talvez o bar do hotel seja um castelo de Oz. Onde estaria a estrada e os tijolos amarelos?

Depois se estar na porta-giratória, vem o esquecimento. Total. Fui pela porta, à noite, e acordei, na hora do almoço. Como se fosse um filme editado, sem nada entre as duas cenas, além do subentendido. O que pode estar subentendido nisso? Acho que só quem realmente conhece minha história pode saber. Pelo jeito, eu mesmo não conheço. Não encontro nada entre essas linhas. Esqueci-me. De tudo. É de coisas ruins que nos esquecemos? Ou das constrangedoras e das traumáticas? Acho mais útil que se esqueçam as constrangedoras. Elas o são mesmo a cada vez que nos lembramos delas. Traumas e coisas ruins nos fazem crescer. Talvez mais as coisas ruins do que os traumas. É questão de como nós lembramos, de como pensamos nisso, de como falamos, e para quem. Talvez, sobretudo, de quem temos para conversar.

Agora que acordei, este pedaço de minha memória que falta, não me faz falta. Intriga-me, é curioso, mas não me faz a mínima falta. Pelo contrário. Embora saiba que dormi muito, que suspeite ter sido, ou ter-me, dopado, sinto-me, e isso é involuntário, sinto-me muito bem. Leve, realizado,livre. Algum peso tirei de cima de mim. Qual peso? Não me lembro, mas não serei eu a me punir por não saber o motivo de meu bem-estar. Aproveito-o. Aproveitarei-o, por quanto durar. Que seja eterno, que só melhore.

Tenho os olhos abertos já há alguns minutos, pensando nisso. Só agora me dou conta, este quarto não é o meu. Não. Não estou noutra casa. Estou em casa, em meu quarto, em minha cama. Mas este meu quarto e está minha cama não são os meus. E mesmo assim, sei que são os meus.

Há-de me perdoar a confusão que talvez lhe cause, ou lhe tente, mas imagine como é partimos também, ter a consciência de algo, mas não conhecê-lo. E suspeitar, saber, que o ignorado que aconteceu é o motivo. A confusão que causo é a confusão em que estou. Espero causar também o bem estar que sinto.

A cama em que deito, a roupa de cama, a decoração do quarto, não se parecem com nada em que me deitaria. Mas me deitei e são meus, eu sei, não sei como. Sei também que há no banheiro alguém com quem nao me deitaria, mas deitei. Fiz na noite de ontem, coisas que nunca faria.

Levanto-me. Vou à janela. Esta é minha janela, mas não é a vista que tenho. Pelo contrário, muito melhor, é a vista que sempre quis ter. Quando comprei este apartamento, procurava algo à beira do lago, com vista para o lago, e para a serra ao fundo. Não encontrei. Não há nada assim por aqui. A cidade me cerca e cobre tudo. Não poderia encontrar. Mas cá está. A vista que sempre quis. O lago, a serra, lá embaixo o passeio, o pôr-do-sol ao meio dia. Lá está tudo, real e perfeito. Real. Perfeito. Como eu sempre quis. Passo minutos olhando, não acredito. Belisco-me. É real. Ou não sou eu real? É real.

O quarto, sei que é o meu. Não vejo o meu, nada está igual. Nada é como era, como o decorei, como o deixei. Mas é o meu. Reconheço-o. É como deveria ser. Tenho medo. É tudo muito diferente. Só pode ser armadilha. Se algo é muito perfeito, muito como quero, só pode ser armadilha.

Por um instante, acredito neste bem estar, aceito-o. E ponho meu destino nas mais do destino. O que quer que tenha acontecido. O que quer que aconteça. Estou gostando, não vou lutar contra. Por muito tempo lutei. Agora aceito e me entrego.

O chuveiro já está desligado. Logo confirmarei, diante de meus olhos, quem lá não deveria estar, mas está. Está, e estou eu muito feliz por isso. Ganhei o mundo. Ganhei meu mundo. Finalmente, meu mundo meu.

Ponho-me em frente à porta do banheiro, esperando, pronto para o abraço, quente ou frio, segundo a temperatura do banho. Ninguém mais manda em minha vida, não serei eu a mandar no banho de ninguém. Fico, aqui à porta do banheiro, esperando o abraço e o beijo. E tudo o mais, feliz. Leve.

Esta espera é um sonho. E é esperando assim que olho para o lado e encontro o espelho. Meu velho amigo espelho está lá, o mesmo. Nele, não estou eu. Estou, mas não sou mais eu. Reconheço-me, mas sou já outra pessoa. Alguém — eu? — despiu-me desta mentira que me fantasiava. Este não sou eu. Mas sou mais eu. Estou aqui. Finalmente.

Uma Pétala na Janela

Tenho saudades de ver minha borboleta à janela. Tenho descuidado das flores, sei bem. Borboletas gostam de cuidados. Há-de se ter muito cuidado com elas. E também com as flores que visitam. Essas fadinhas bonitas e delicadas que voam pelas flores não merecem menos que todo cuidado e carinho.

Ando triste de não a ver. Fico esperando-a, imaginando o que quero falar, contar. Não sei se tenho muito a lhe contar, de novidades. Mas quando a vejo, o assunto aparece, brota, como flores. Deve ser engraçado, mas bonito, para quem olha, ver um homenzarrão, tal ogro – o Shrek? — sorrir embevecido com o pouso de sua fada borboleta.

Descuido meu, a janela empenou e não a consertei a tempo. Julguei que ela não viria. A hora não era a habitual. Com a janela fechada, empenada, fiquei ali ao lado, acordado, pensando na saudade, mas sem ver o jardim, nem a janela. Pensava na música que não tinha coragem, mas que queria que ela me ouvisse cantar.

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Ela pousou, tarde da noite. A janela ainda empenada, eu não a vi. Soube depois, só no dia seguinte. Não sei se passou pelo jardim, mas veio mais perto, à minha janela, bateu. Eu, descuidado, não estava lá. Deixou-me uma pétala de rosa de uma cor linda, foi como um pequeno “Oi!” Quando a encontrei, arrancou-me de imediato um sorriso. Tinham que ver o sorriso carinhoso, e saudoso, de que fui capaz. Ela lembrou-se de mim. Eu nunca me esqueço dela.

Estou agora pensando se ela sabe com que felicidade eu soube da visita, como lamentei não tê-la recebido, e quanto carinho, sincero em meu coração, sua pétala, seu “Oi!”, iluminou.

Vou hoje dormir pensando nisso, ainda sorrindo… Dá-me vontade de plantar flores ainda toda a noite… E esperar se ela as vem olhar.

Circo

Na semana passada vi uma coisa na livraria que me chamou muito a atenção. Era um livro com uma coletânea de quadrinhos da editora Circo. É uma editora de meus tempos de criança em São Paulo, mas não eram quadrinhos para criança. Quem comprava era meu irmão, eu apenas lia. A editora durou pouco, talvez um ano, tinha poucos títulos, mas publicou algumas das melhores — e das piores também — HQs que eu já li. Algumas que ficaram na minha cabeça até hoje. O volume é grande, pesado, eu estava de metrô e ia correr ainda por vários compromissos, não convinha comprar no dia, seria ruim de carregar. Voltei no fim-de-semana e comprei.

Em casa, abri o livro, follheei para me lembrar dos títulos, os cartoonistas, as histórias, piadas e bobagens, muita bobagem. Mas a história que releria primeiro seria uma de que me recordo cada dia mais admirado. Ela foi publicada na revista Circo, a primeira e que deu nome à editora. Ela me deu idéia de uma história para contar, uma história que se parece com and HQ, mas a da HQ é muito melhor. Aconselho aos adultos, e àquele menino de Osasco.

Another Day

You won’t find it here, look another way
You won’t find it here so try another day
  – Dream Theater, Another Day

Acordei na cama vazia. Vazia para mim. Lá estavam os lençóis, colchão, travesseiros, eu mesmo. Ela onde estava? Janela aberta, porta aberta, banheiro aberto, vazio. Ela havia saído do quarto. Sua falta me despertou. Sentei-me na cama e descobri-me, atento, com medo de ela ter ido embora. Acho que não iria. Barulho no andar de baixo. Ela desceu, estava lá. Mais barulho, neste andar e no de baixo. Havia mais gente, devíamos estar sozinhos. Uma mão que eu não vi segurou-me firme o coração e apertou tentando pará-lo. Não conseguiu. Desesperado, angustiado, escapei dela e corri. Atirei-me para fora do quarto. Barulhos esparsos de vários lados. Não era só um. Desci correndo a escada para a sala.

A lareira ainda estava acesa. As taças de vinho de ontem à noite, sobre a mesa de centro. O edredon jogado no chão. A música que ouvíamos ainda não acabou. Não nos preocupamos em apagar, muito menos arrumar, quando o calor de nos deitarmos chegou. A escada que desci agora, nem me lembro de tê-la subido ontem. Na minha cabeça, parece que chegamos lá carregados, transferidos. Começamos nos beijando ali na poltrona, numa pausa na conversa, ainda embaixo do edredon, sentados de frente um pro outro, aquele nosso beijo lento que nunca acaba de repente. Eu prestava tanta atenção, só ao rosto dela, que não via mais nada. Quando o calor chegou, se andamos, se a carreguei, se subimos a escada, se fizemos mais algo ali, ou só na cama, não vi. Com os olhos abertos via só seu rosto. Quando os fechei, vi só seus olhos, também fechados. O resto, só sentimos, só um ao outro. E ao acordar, também este medo senti.

Ao lado da escada, encontrei-a. Não perguntei se havia saído da cama antes ou depois deles chegarem, se os viu, por que se levantou. Era irrelevante. O importante era o que faríamos, se ela ficaria bem, se viria comigo, se sairíamos dali, se chegaríamos em algum lugar. Aquele chalé havia sido nosso refúgio. Agora, violado, não podíamos fugir para fora. Havíamos de nos proteger mais, para dentro. Ainda não perguntei nada, ela viria se quisesse. Corri a ela que me pôs as mãos nos ombros, como se fosse me abraçar. Os olhos eram de desespero e alívio.

Olhei para baixo da escada. Nessas situações, há de se esconder embaixo da escada. é um lugar óbvio. Em todos os filmes é assim, mas funciona. Não podemos arriscar. A escada tem só um vão embaixo, não é daquelas com armário. A luz da janela chega ali, a cortina está aberta e temos receio de ir lá fechá-la. Esperamos ou não? Os olhos se acostumam. Há uma porta no fundo do vão de debaixo da escada. Para onde vai a porta? Abrimos, fugiremos por ali. Será isso uma fuga ou uma prisão mais fechada?

Chegamos ao campo, um cenário noturno pintado apenas em preto e azul-marinho, poucos tons, que eu já conhecia. O bosque, ali à frente, em preto, contorno simples, poucos detalhes. O céu, era o fundo azul-marinho. Tudo parecia uma colagem de criança feita para a escola. Encomendada para a professora. Não era colagem, era real, mas eu já o conhecia, já o havia recortado ou visto recortado. Corremos para ele. Lá dentro, cercados pelas árvores negras, elas pareciam bem espaçadas. O céu, ao fundo, parecia proteger-nos também, como nosso edredon da noite anterior. Não havia sol ou lua no céu, e nem olhamos para cima, mas um calor, que não pode ser da noite fria e escura, nos envolvia. Caminhamos, com muito cuidado, devagar. O chão, as raízes, tudo era preto como as árvores. Não havia como andar sem ter cuidado. Não havia como continuar correndo.

Sentimos bafo, uma respiração gelada atrás de nós. Por dentro, gelamos os dois. Não dava para ver ninguém, mas eles chegavam. As árvores não tinham detalhes suficientes, galhos, para subirmos numa. Estávamos cansados de fugir, só queríamos paz. Por entre elas, quanto correríamos até chegar à segurança? Essa segurança existe?

Uma árvores baixa se inclinava em direção a outra. Lembravam a escada com o vão embaixo. Nos olhamos. Esse olhar, mesmo antes de vê-lo, já o conhecíamos. Peguei sua mão, faltava isso ainda. Foi a primeira vez que peguei-a. Sorri-lhe a apreensão e tudo mais.  O sorriso lhe apontava o vão por baixo da árvore inclinada. Ela deu um passo, ficou a meu lado. Nos abaixamos juntos e entramos no vão. Nele sumiu o azul-marinho, era só o preto. Não tinhamos corpos. Nem olhos. Esses filmes em que os olhos são nítidos no escuro mentem. Se não há luz, não se vê nada, nem os olhos. Não víamos nada, tínhamos ali só nossa consciência, era nossa, uma só, de nós dois, e o sentir as mão dadas se segurando apertadas.

Saímos do outro lado do vão. Já não éramos nós dois. Para quem nos olhasse, éramos uma árvore, como as outras talvez.

Temi que um deles quisesse madeira ou uma fruta e, sem saber sermos nós, tentasse pegar um pedaço dela. Eu não deixaria. Não sei como. Alguns medos são maiores que outros. Eu não deixaria lhe fazerem mal. De algum jeito não deixaria. Mesmo árvore plantada, não deixaria.

Ficamos quietos, esperando que passassem, ou que acabasse a noite. Alguma cor haveria quando a noite terminasse. Ficamos quietos, esperando e imaginando que cores seriam.

 

Lie

Havia uma menina na minha escola que dizia ter um namorado em São José do Rio Preto. Na época, não havia Google Maps, eu não sabia, eram seis horas de viagem. Mas ela mesma dizia que só se viam nas férias. Eu perguntava a ela se ele também a considerava namorada. Eu não considerava, isso não era namoro. Ela ficava brava comigo. Gostava de saber o que aconteceu dessa história.

Nessa mesma época eu fui à casa da Lie, na Água Branca, despedir-me dela. Conosco não seria igual. Ela se mudava para o interior, Campinas, para fazer faculdade. Não era uma viagem longa, uma hora e pouco. Mas era suficientemente longe longe para adolescentes a pé. Tínhamos só três meses juntos. Ela desessete anos, eu quinze. A pé, sem email, sem celular, nem telefone em casa tinha. Não fazia sentido fingirmos que a distância não nos afastaria. Logo no começo, quando começamos a ficar juntos, já tínhamos imaginado que seria assim, agora nem precisamos terminar. Foi como já havíamos previsto no começo. Ela passou na faculdade que queria, e já estava organizada, ia morar com uma colega de Liceu que era de lá.

Nos dias anteriores, já havia prometido continuar lendo os quadrinhos de que ela gostava. Os quadrinhos em que ela começou a me ensinar francês. Continuaria a estudar. Iria à biblioteca da Aliança e procuraria assistir filmes franceses para manter a prática.

Quis ser o último a me despedir, consegui. Dei-lhe um drops, um halls preto, ela sorriu. Nos conhecemos com um, no ônibus. Ofereci-lhe achando que estivesse tossindo. Na verdade, estava chorando. Perguntei se podia ajudar. Não sabia o que era. Eram saudades da mãe. Vieram da Bélgica para o Brasil havia dois anos, emprego estava difícil lá. A mãe não se adaptou. Chegou da escola uma tarde e descobriu que ela havia voltado para Liège. Natalie ficou em São Paulo com o pai, Monsieur Berger. Eu nunca me acostumaria a chamá-lo pelo sobrenome. Irreverente, para mim era Seu Armand. Ele gostava, disse-me que os belgas são a esperança da Europa. São os únicos europeus divertidos.

“Ami”
“Amie”
“Prends soin de toi”
“Tu aussi”
“A bientôt”
“A bientôt”

Nos abraçamos e beijamos, sem tesão nenhum, foi só carinho e pena. Seu Armand não ligava, me abraçou também e ameaçou beijar-me a boca. Rimos, beijou-me a bochecha. Recomendou-me continuar tendo juízo e nos despedimos.

Ela disse vários ciaos ainda antes de subir no carro do pai e outros até ele ir embora.

 

Sucos

Eu sou um admirador sem preconceitos da beleza feminina. Quase sem preconceitos. Diferente da maioria dos homens, não tenho preconceito com mulheres gordas. Gordinha ou gordas mesmo. Não etiqueto antes de olhar o conjunto. Confesso, inclusive, que minha crítica de primeira vista é mais cruel com as magricelas do que com as gordas. Ninguém merece mulher sem carne, que se vêem os contornos dos ossos. Me dá aflição. Lembram pé de galinha.

Jantando uma vez no shopping, por exemplo, vi uma “gordinha”, modo de falar porque ela era mais do que gordinha. Estava na fila do suco, logo à minha frente, de costas para mim. Chamou-me a atenção. Tinha o corpo muito bem feito. Proporcional. Coisa que mulheres muito magras não costumam ter. As medidas todas certinha. Leonardo gostaria de estudá-la. Cabelo bonito. Roupa elegante. Mesmo procurando não ter preconceito reconheço que é raro uma mulher acima do peso parecer tão bonita. Parece, o corpo, coberto é. O rosto, talvez o principal, ainda não vi. Veria. Mais cedo ou mais tarde, ela pagaria, pegaria o copo e voltaria para a mesa. Ao se virar, eu teria alguns segundos para ver seu rosto. Não podia bobear.

Confesso que não foi difícil prestar atenção para não perder o momento em que se virasse. O corpo bonito, fiquei olhando, tentando, todavia, ser discreto, e imaginando coisas. Muitas coisas. Não sei se consegui ser discreto. Acho que sim. Além do mais, ela estava de costas para mim, não havia nada que pudesse me refletir. Às vezes, acontecem algumas coisas que me fazem acreditar no sexto-sentido em que não acredito. Em telepatia, premonição.

Seu suco era de um rosa muito vivo. Brilhante, gélido. Da cor daqueles remédios amargos de gotinhas que as mães nos dão, e que a embalagem diz terem sabor morango ou framboesa. Não perecia ser nem um nem outro. Curioso, pensei no que seria.

Foi quando ela se virou, logo após pegar o copo. Eu olhando para ele. Queria ver o rosto dela, se era bonitos como o resto. Ela, engraçado, não teve tempo de me ver. Eu, olhava para o copo, nem tive tempo de olhá-la. Ela já se virou como se soubesse que eu iria olhá-la. Já virou com cara de deboche e mostrou a língua. Não diretamente na minha direção, deve ter errado por uns quinze, trinta graus, não mais que isso. Mas olhei em volta se havia alguém com cara de ter sido o alvo do insulto. Não, todos em volta olhando para os próprios pratos e rodas de conversa. Só eu estava lhe olhava. Ela mesma, foi para uma mesa isolada, sozinha.

A língua e a cara de deboche eram para mim mesmo, ou para quem ela suspeitasse estar olhando, ou para ela mesma.

No pequeno tempo entre ela se virar de língua pra fora e eu me virar procurando para quem poderia ser, consegui ver, por pouco tempo seu rosto. Ela era mesmo bonita igualmente no rosto e no corpo. Foi do resto que não gostei.

Beijo

Agora já faz algum tempo que terminamos. A cãimbra já passou, a respiração normalizou. Mas ainda estamos na posição em que terminamos. O que fizemos, como, nem vem mais ao caso. Ficou teu sabor em minha alma. Você está ainda em cima de mim. O que muda é que agora se deixou descansar, soltou o corpo em cima do meu, descansando. Esconde o rosto embaixo da minha bochecha. Rostinhos colados. Tuas costas suadas, teu colo e ombros também.. Sentir esse teu suor e saber que o suou comigo, me excita muito, mesmo agora que já não tenho mais força e o sono se aproveita pra pesar. Eu tenho medo de que você fique com frio, tento usar meus braços como cobertor nas suas costas. Me ocorre que você não vai conseguir passar o resto da noite assim.

Não quero que você se canse. Daqui a pouco não agüenta, será que vai me largar e se deitar no outro travesseiro? Não posso deixar, não quero que desgrude de mim.

Parece-me uma idéia astuciosa a minha. Eu te giro sobre mim para o meu lado, o braço de baixo ainda nas costas, o décima te segurando pelo quadril. Não sei se você percebe minha intenção. Sei que você não vai conseguir dormir em cima de mim. Quero tentar encontrar uma posição em que você ainda consiga dormir encostadinha em mim. Acho que percebeu, me deu um sorriso. Dividimos o travesseiro, cara-a-cara, meu nariz sobe o teu. A mão que estava no quadril, deslizo por teu corpo, até as coxas, as acaricio, depois subo te alisando até chegar ao teu rosto. Arrumo um cachimbo que te caiu frente ao rosto. Ele que não se atreva a me atrapalhar te ver. Eu me emociono fácil. Você aqui comigo então, é mais que motivo. Afago tua bochecha antes de beijá-la. Acho bonito beijo na bochecha, mesmo para um casal como nós, na mesma cama. Acho bonito beijo na bochecha, na testa, selinho. Mas que se sintam os lábios e a pele beijada. Beijo de verdade, sincero. Cada um desses tipos de beijo quer dizer uma coisa diferente. Não é só o beijo da paixão e do amor que é importante. Há momentos em que beijar a bochecha é o certo a fazer, como agora, é o mesmo que dizer: “O muito que eu gosto de você independe de você se deitar comigo. Eu já gostava este muito antes disso. E continuaria gostando mesmo sem.”

Mesmo assim, não vou te deixar desgrudar o corpo do meu. Não sem um bom argumento, teu conforto. Te abraço. Não é pelo sexo que fizemos ou pelo que eu quero fazer mais. É pelo teu calorzinil gostoso, por sentir teu perfume, o cheiro de shampoo dos teus cabelos. É por ver esse teu rostos lindo que ainda me olha. Fico sem graça, mas não fujo, é você. Pelo modo como você entrou em minha vida, te olhar é quase como me olhar no espelho. O medo que temos de olhar assim, frente-a-frente não é só o de ser visto, é o de se ver, refletido, de ser visto por si mesmo, nos olhos de quem gostamos. De se decepcionar com isso. Olho bem teus olhos e me vejo refletido nele. Me vejo bonito. E me lembro que somos dois. E isso é o mais bonito, não somos um, não precisávamos estar aqui. Estamos por escolha. Escolhemos o mesmo.

Dou um jeito de tocar teu rosto sem deixar de abraçar. Escorrego o cotovelo pras tuas costas, passo o braço por trás do teu ombro, mexo o cabelo pra trás. O movimento é acrobático, a posição final também, a minha. Mas meus dedos alcançam tua orelha e tua bochecha, e ainda te abraço mais firme. Só então reparo que tua expiração aquece meu rosto.

Você parece cansada, deve estar com sono. Não posso outra coisa, além de te achar ainda mais bonita por ter esse sono, e ainda assim estar com os olhos abertos me olhando. A boca não agüenta mais sorrir a largo. Não precisa. Os lábios relaxados sorriem pelos olhos.

Te beijo, com os lábios nos lábios, como o primeiro beijo do casal adolescente. Achei que seria um beijo rápido. Teus olhos se fecham e sinto tua língua em meu lábio. Meus olhos se fecham sozinhos. Já este é um beijo clássico de casal apaixonado indo pra cama, desses de filmes antigos. Não há porque parar de beijar assim devagarinho se você não parar também. E você não pára, nem eu quero parar. Este beijo é como se fosse eterno.

Uma Flor

Há uma flor bonita num jardim por aí.
Já a vi, uma vez. Acho que uma só.
Tem muitas coisas dela que eu ainda não conheço.
Uma delas é seu perfume. Ainda não conheço seu cheiro.
Cada flor tem seu perfume próprio. Não se-lhes pode mudar. E ele diz muito delas.
Quando pude, esqueci-me de pedir permissão para lhe cheirar.
Outra coisa que não conheço é a borboleta dela.
Diz ter a borboleta mais linda com as pintas, ou machas, não me lembro que palavras usou, as pintas mais bonitas.
A borboleta, duvido que seja mais bonita que minha flor, ou melhor, que a flor. Devem ser uma só, a flor, a borboleta e a menina que as colhe.

Tudo

É tão bom assim, cheirando seu pescoço, com a boca quase no ombro.
“Eu te quero!”
Eu não via seu rosto, escondido ao lado do meu, mas sabia do seu sorriso
Demorei um pouco, ela saboreou o que eu disse.
Encostou-me a orelha ao ouvido.
Inocente ela, acha que essas coisas ouvem-se com os ouvidos.
“Eu também te quero. Você sabe que não precisava me falar isso. Quando teus baços me tocaram, foi porque já me havia entregado a você, já era tua”
Nesse instante, afrouxei um pouco o abraço, precisava para fazer-me entender, para olhá-la nos olhos. A mão segurando lhe o rosto, um dedo encostava-lhe a orelha, parte da mão o pescoço. Os olhos, nunca imaginei que pudesse olhar-lhe tão nos olhos!
Ela fez uma expressão impressionada, quase assustada, percebeu que era sério aquilo ali.
Afaguei-lhe emocionado, temi ser pretensioso, mas tinha que ser sincero: “Você sabe que não quero só teu corpo. Nem mesmo só de corpo e alma. Eu te quero em tudo mais o que houver, todinha, parte da minha vida, e é assim quero ser teu também.”
Ela então, aí sim, se impressionou e se emocionou.
Não sabíamos o que fazer. Depois entregaríamos nossos corpos, isso também é muito bom, mas vem depois.
Agora, beijamo-nos, emocionados e apaixonados.
Só nós sabemoa como um beijo pode ser tudo.
É como se o mundo todo fosse só aqueles centímetro em torno dos rostos, dos lábios. Como se o mundo todo fosse aquilo ali. Dos dois.