Anedota do Martelo

Eu me lembro da anedota do martelo. Um professor no cursinho nos contou. Ele falava sobre ansiedade e sobre o futuro e sobre o que achamos que precisamos para o futuro. Contou de sua própria experiência pessoal, bem sucedida, embora tenha dado certo do modo totalmente diferente do que achávamos que tinha que ser.

Ele passou no vestibular de Engenharia Química, o mais concorrido da época, muitos de nós sonhavam com ele. Cursou até o final, formou-se no tempo mínimo. E nunca trabalhou com isso. Durante a faculdade conseguiu um emprego numa creche e, encantado com ele, nunca mais quis trabalhar com engenharia, muito menos com química. Depois de alguns anos, montou sua própria creche, que cresceu e virou uma pequena escola. Bem sucedido, independente, ele então sabia que não teria sido o fim-do-mundo passar no vestibular, nunca precisou daquela faculdade que lhe tomou cinco anos. Muitos de nós achavam que seria. Ele nos recomendava não sofrer por antecipação diante da dificuldade. Contou também a anedota do martelo.

O sujeito está fazendo um conserto em casa e percebe que precisa de um martelo, e não tem o martelo. Ele vai à casa do vizinho pedir um empestado, e no caminho começa a pensar: “ele não vai ter um”, depois: “ele vai ter, mas não vai emprestar”, depois: “ele vai emprestar, mas vai querer cobrar”. E assim foi pelo caminho até que o vizinho lhe abriu a porta e ele já, antes de perguntar pelo martelo, mandou-o enfiá-lo tripas adentro.

Isso nos ilustra sofrer por antecipação. Mas a cara de surpresa do vizinho — e vamos supor, um momento, que houvesse um histórico de má vizinhança que justifique a antecipação de que ele negaria ou se aproveitaria da situação — essa cara de surpresa ilustra também um sofrimento por postergação. Depois de tantas vezes o vizinho ter recusado ajuda ou tentado se aproveitar da situação e condição de seu par que nosso sujeito, tendo ficado quieto em todas, agora resolveu reagir por todas de uma só vez, deixando seu vizinho pasmo, sem entender porque uma reação tão violenta a um evento insuspeito como simplesmente abrir a porta.

É por isso que se entende que o casa tenha brigado por um motivo bobo, que nenhum dos dois nem se lembra mais qual foi, mas que levou um deles a gritar por dois, três, cinco ou dez minutos frases completamente desconectadas do contexto do motivo da briga:

“Você nunca me respeitou…”
“E aquele lance com a minha mãe…”
“Parece que você pensa que nossa vida é só sua…”
“Eu ainda não engoli aquela história do…”
“Me fala de um vez em que você não tenha me…”

O rosto dela é claro de surpresa, o dele de revolta. As frases não tem nada a ver com o mote da briga de agora. Mas tem tudo a ver com ela. Não brigam pela besteira que aconteceu agora. Brigam pelas mágoas acumuladas. Nenhum dos dois percebe. Mas o desabafo ignorante dele denúncia. São anos de problemas pendentes esperando uma fagulha, como se fossem pólvora.

Por isso que ele, quando quis pedir desculpas pelos gritos, não achou nada que fosse certo falar, apenas deitou a seu lado. E por isso também que, quando ela tentou lhe tocar o rosto procurando ele-não-sabe-o-quê, ele se levantou e foi embora com os olhos molhados.

Terça-Feira

Tem semana que começa uma bosta! Aí acontece algo que te mostra que nem tudo é tamanha bosta e que você faz alguma coisa certa que os outros gostam.
Mas, não sei dizer porquê, é nessa mesma hora que a música perde o som, logo a minha inseparável amiga música, e eu só quero ficar quietinho num canto, com a cabeça vazia, esperando o sono que não vem.

Livro

Um amigo, já finado, deu-me. Sabia que eu gostava de ler. Também sabia que eu talvez nunca o lesse, pois, outra coisa que sabia, sou totalmente averso à sua religião. Era um daqueles livros religiosos, ou que se pretendem religiosos. Grosso, pesado, antigo, escrito em letra miúda num papel muito fino, muitas folhas de papel fino. Disse-me que lesse as páginas ao acaso, não precisava respeitar seqüência. “Vai ver, não é chato, é escrito de numa linguagem moderna, como se fala.” Foi o que bastou para que eu o largasse fechado num canto.

Ficou lá, não se mexeu sozinho. Nem foi mexido por ninguém. Não o escondi, ficou à mostra. Algumas vezes pensei que talvez alguém se engraçasse por ele e eu lho daria de presente. Ninguém pareceu se interessar.

Abri-o só muitos anos depois. Foi quando perdi meu pai. Jogado no pufe ao lado do telefone, após receber a notícia. Fiquei um tempo ali parado, pensando besteiras. Depois pensando em nada. Vi o livro. Era só esticar mais um pouco a mão para alcançá-lo. Sem intenção de nada, interesse em nada, abri-o, ao meio, numa página qualquer. Ele parecia escrito numa carreira sem parágrafos ou pontuação. Comecei a ler por uma palavra qualquer. Não sei se foi coincidência. Parece que abri numa parte destinada a essas situações mesmo. Embora rejeite aquela religião, as palavras escritas pareceram se encaixar bem no que me acontecia. Bem escritas, bem colocadas, me confortaram.

Eu estava ciente de que aquilo era apenas uma manipulação religiosa. Nada nesses livros é por acaso. Não sabia o que era. Mas não importa. Aquele livro me ajudou muito.

A segunda vez em que o abri, estava chateado com algo mais mundano. Um desses problemas de família que afetam os negócios que afetam a família também. Abri-o, não porque achasse que seria útil. Abri-o para provar que era uma besteira, que o primeiro incidente havia sido os coincidência. Queria rir. Abri, de novo a olho, e li. Coincidência de novo, também encontrei palavras e conselhos que se encaixaram perfeitamente naquela situação. Curioso, sorteei mais páginas e trechos pensando em questões mais corriqueiras, besteirinhas do dia-a-dia. Encontrei respostas e explicações para todas. Imagina como fiquei maravilhado!

De lá para cá, o livro tornou-se amigo para todos os problemas. Recorri a ele muitas vezes. É incrível! Parecia haver ali, em qualquer página que o abra, um ensinamento miraculoso que se encaixa em minha aflição, qualquer que seja ela.

Um dia pus-me a pensar nos problemas que tive. Foi um momento de auto-sinceridade desse a que nós permitimos de vez em quando. Pensei no mal e no bem que fiz. Situações antagônicas. Numas eu era herói, noutras bandido. Numas vítima, noutras premiado.

Pensei nos ensinamentos que tirei desse livro.

Só então me dei conta. Os seus ensinamentos não eram assim tão sábios. Não eram palavras de sapiência mágica universal. As verdades absolutas que pareciam. Eram tão antagônicos quanto as situações da vida. O conselho que recebi num problema, e que julguei me ajudar era completamente o inverso do outro, para outro problema, de dai uns dias. Os caminhos indicados variavam para cada questão, não para me levar a um destino seguro. Me levavam à justificativa de meus erros, fossem quais fossem, e ao desfrute dos prêmios, não importa quais ou de onde viessem, merecidos ou fraudulentos.

Esses conselhos se sobrepunham. Um desautorizava o outro. Substituíam-se conforme a conveniência. A minha conveniência. A de minha consciência. Inconstante, não importa a situação, em que página abrisse, ele me apresentava ali o que eu queria ouvir, não a verdade.

Não consegui mais confiar nele. Aquele livro não era mais um amigo. Era o próprio cão. Puxa-saco. Guiou-me para fora do caminho. Agora noto e me envergonho de quanta coisa má fiz apoiando-me nele.

É por isso que, resistindo à tentação de procurar nele uma explicação, jogo-o agora no fogo. Queimará como quero. Dirá-me, esta última vez, o que quero ouvir, o seu trepidar no fogo aquecerá minha noite fria.

Coincidência Noturna ou Pequena Anedota da Rotina Conjugal

Foi coincidência nós deitarmos juntos. Há muito tempo não fazíamos isso. Muito mesmo, não me lembro de quando foi a última vez.

Ela acabou de se deitar, escovou os dentes antes de mim. Eu vim do banheiro. Deitei-me de barriga pra cima. É como costumo fazer ao me deitar, não para dormir. Deito de barriga para cima, esticado, para pensar na vida, sempre penso na vida antes de dormir. Faço isso há muito tempo, provavelmente desde a última vez em que deitamos juntos.

Ela devia estar esperando que eu a abordasse. Acho que seria de se esperar. Alguns segundos depois de eu me deitar, provavelmente decepcionada, virou-se pra mim, pôs a cabeça em meu ombro, a mão em meu peito.

Passei o braço por baixo de seu pescoço, abracei-a como pude. Ela começou a esfregar a mão em meu peito. Acho que ela achou que fosse um carinho, ou que me excitaria.

Lembrei-me então de algo, ou de nada, ou só aconteceu algo ou nada. Tirei a mão dela de cima do meu peito e deitei-me de lado de costas para ela.

“Que que foi?”

Não respondi. Ela também se deitou de lado, de costas pra mim. Dormiu rápido. Deve ter ficado aliviada de não precisar fingir que se importa. Eu, daí a pouco, incomodado, olhava o teto e pensava.

Passarinhos

Meu avó era passarinheiro. Criava canários. Portugueses gostam de canários. É o pássaro da terra. Embora meu avô não gostasse que lhe lembrassem que ele era português. Perdeu os pais pequeno. Assassinados. Foi criado então, na fazenda que herdou, pelo tio, também português, irmão do pai. Esse tio o punha para trabalhar com os jornaleiros — é assim que chamavam os bóias-frias — pequeno ainda, oito anos. Não o deixava dormir em casa, na própria casa, dizia que era para que ele não tivesse intimidade com as primas. Dormiam com os cavalos, ele e o irmão gêmeo. Foram dezoito irmão, em várias levas de gêmeos. Só os dois vingaram. As primas eram mais velhas. Gostava delas. Lembrava delas com carinho. Com uma delas, especialmente boa, criou algum laço. Ela, com pena, lhes levava comida furtada da casa, a comida que o tio lhe racionava e muitas vezes negava. Quando teve uma neta, exigiu que lhe dessem o nome dessa prima. Fugiu de casa ainda pequeno, quando descobriu, já desconfiava, que foi o tio quem matou seus pais. Anos mais tarde foi convidado pelo governo de Portugal a assistir à execução do tio, preso por esse e outros crimes, e a reclamar sua herança. Recusou. Deixou o passado para o passado. Em sua cabeça, não era mais o rico menino português que alternava as estações do ano entre Portugal e o Brasil. Tinha outra vida, de gente simples, de que gostava. Português era o tio que não prestava.

Aproveitou a altura anormal e falsificou documentos para se passar por adulto. Conseguiu. Trabalhou de coveiro. Conheceu seu futuro sogro, também português, seu chefe e amigo. Aos doze, fingindo ter dezoito, conseguiu carteira de motorista e um emprego de ascensorista no Mappim. Os elevadores de então usavam motores de carro e eram postos em funcionamento pelos mesmos pedais, marchas e embreagens. Aos treze, casou com a filha do amigo, ela tinha quinze, também era portuguesa. Do tempo de fazenda — o pai teve duas, uma em São Paulo, no Campo Limpo, outra em Portugal, em Espinho — guardou o gosto pelas árvores, pelos cavalos e pelos pássaros. Casado, morando na modesta casa do sogro, nunca mais teve um cavalo, mas o quintal era cheio de árvores. E junto a elas construiu o viveiro que, a partir de um casal, populou inteiro.

Teve também dois papagaios. Um pequeno, meigo, subia nele enquanto fumava e lhe esfregava o rosto no rosto, como pedindo carinho. Não falava muito. Mas o avô gostava mesmo do outro, grande, bonito, falador. Ensinou-o gritos de guerra de seu time de futebol. Do clube onde foi boxeador na juventude. Esse papagaio era ruim, mau. Ninguém se atrevia a mexer nele, só meu avô. Ainda assim, o velho tinha marcas fundas no peito, pareciam talhadas a faca. Eram como aqueles que fizeram no Rambo no primeiro filme. A culpa era desse papagaio. De uma vez em que ele lhe atacou para tentar fugir do banho. Fosse outro bicho, meu avô simplesmente o colocaria dentro de um saco com um tijolo e atiraria no córrego. Fazia isso com os bichos que não prestam. Com o papagaio não fez. Magoado, perdoou com o coração o que o juízo condenava.

Ele tinha também um sabiá. Pegou-o com arapuca quando ainda morava no Itaim, na casa que o sogro lhes deixou, no tempo em que o Itaim era zona rural.

Quando eu era pequeno, já não havia mais os papagaios, só os canários e o sabiá. Tratava deles cedo na manhã o avô. Dos canários era rápido. Água para beber, água para banho, vacinas na água, pão velho, alpiste, ovos cozidos e jiló.

O sabiá era tratado na filigrana. Com cuidado, levava tempo. Bolo de fubá envelhecido, seco, aveia, farinha de milho, larvas de bicho da seda que o avô criava numa lata na garagem.

Chegávamos à grade do viveiro com um pedaço de pão e os canários se atiravam brigando para ver quem pegava mais. Nem precisava do pão. Se chegasse o dedo perto da grade, eles já vinham brigando, se batendo com as asas, e procurando com o bico algo que pegassem do dedo.

Já o sabiá, ficava sozinho numa gaiola, pendurada alta. Só o avô alcançava. Ele tinha um metro e noventa e quatro. Mesmo em cima de uma cadeira, as crianças não alcançavam. Tinham de buscar a escada. Aproveitávamos para também pegar um pouco de aveia, umas minhocas do chão. Não compensava. Mesmo do alto da escada, com a guloseima que fosse lhe oferecida, o sabiá ficava quieto, de bico fechado. Não que fosse arredio. Nem se dava ao trabalho de se mover para sair de perto, fugir da criança. Nem ficava imóvel. Continuava sua vida, o que estivesse fazendo, ignorando completamente a comida e quem lha oferecia. Nunca aceitou nada de outra mão que não fosse a de meu avô.

Quando ele morreu, quinze dias depois, morreu também o sabiá, triste, magro. A comida que a avó e a madrinha lhe serviram, intocada.

Dormir no Trabalho

Aqui no trabalho, no segundo andar, há uma sala para repouso. Para prosou mesmo. Há boxes individuais com cadeiras reclináveis, daquelas fofas que se reclinam até virarem divãs. Os boxes, uns dez, são separados entre si, mas se abrem para uma parede larga onde há uma televisão grande. O som da televisão é transmitido para o celular para que possa ser ouvido com fones sem atrapalhar ninguém. As paredes são forradas por rolhas para abafar o ruído. A iluminação é convidativa, o odia servir facilmente de quarto de casal. Quando não temos o que fazer, estamos enrolando, esperando a carona, ou descansando depois de um dia ou noite exaustivos, podemos descansar, ou mesmo dormir, lá.

Foi o que fiz esta noite. Trabalhei até tarde da noite, aliás trabalhamos, estávamos em grupo. Há situações em que uma besteira feita por alguém de fora gera um transtorno enorme para ser consertada e o julgamento de quem tem poder para julgar não tem o bom senso e a justiça óbvios do cidadão comum. Uma besteira dessas acaba gerando transtorno enorme para várias pessoas que não tinham nada que ver com ele, enquanto o fazedor de besteira volta para casa tranquilo, para assistir televisão, dormir e voltar a fazer o que sabe no dia seguinte.

Foi com esses pensamentos que trabalhei. Não só eu, éramos seis ao todo. Trabalhamos maldizendo o felizardo que se safou recorrendo à patente, ao crachá e às conexões. Imaginem que que gosto trabalhamos.

É nessas horas que o mundo pode mudar completamente e de repente, basta o piparote catalisador. Uma palavra mal dita, um esbarrão, uma besteira que, noutra ocasião, seria perdoável, são coisas que podem transformar colegas, e mesmo amigos, em inimigos de guerra. Da mesma forma, nessa tensão, gestos inocentes já geraram muitos relacionamentos mais que amistosos.

Foi o primeiro o que aconteceu comigo. Não se deve mexer com quem está bravo com os outros, meus colegas deviam saber. A raiva que se acumula na cabeça está doida para sair. Se você da motivo para a pessoa abrir a boca voltada em sua direção, provavelmente será para aí que ela se atirara. Não se põe barata no copo dos outros. No copo do café. Qualquer um sabe disso, não sabe? O copo cheio do líquido preto e a barata, morta creio eu, jogada lá, camuflada. Nem se fosse um copo de água. Gosto muito de café. Isso chama a atenção. Ganhei apelido por causa da freqüência do copo de café forte e amargo em minha mão, em minha mesa. Sou a principal personagem de todas as piadas relacionadas a café, e a matar tempo também, eles não sabem a diferença. Coitados. Mas nada justifica a barata no copo. Nada além da vontade de arrumar briga. Arrumaram, todos os outros cinco.

Foi por isso que eu, mesmo tendo tempo ainda de pegar a última condução ou uma carona, passei a noite na empresa. Não queria companhia deles, desses… cruéis traidores. Eram muito piores que o incompetente engenheiro social que conseguiu que trabalhássemos até tarde limpando sua sujeira.

Pus os foninhos para ouvir música do telefone. Metal. Para saciar a sede de violência corporativa. Pus o telefone também para despertar-me antes da primeira condução do dia seguinte. Dormiria ali, dormir é dormir, é igual em qualquer lugar. Mas não perderia nenhum minuto da manhã de sábado dentro da empresa. Pegaria a primeira condução, tomaria banho em casa e já sairia para o parque tomar café com os pombos, passear e fazer exercício.

Dormir foi ainda mais fácil do que pensei. Quando acordei, tinha ainda quinze minutos para ir ao banheiro antes de subir no ônibus. Arrumei a mochila, as coisas soltas dentro. Conferi se a carteira e o telefone não haviam caído do bolso. Fui ao banheiro. Urinei e lavei a mão. Lavei olhando para elas. Quando terminei, pensei se não deveria passar à minha mesa, pegar a escova de dentes. Só aí olhei o espelho. Foi para olhar os dentes, se estavam visivelmente sujos. Porco eu. Não me preocupei com a sujeira, mas com ela estar aparente.

No espelho, meu rosto. Soltei um palavrão, um grito bem alto. Meu rosto estava todo pintado, com linhas curvas que lembravam um formigueiro. Era uma tatuagem trabalhada, coloridas, detalhada, muito bem feita, que o cobria por inteiro. O vestia todo, como aquelas tatuagens japoneses que vestem o corpo todo. Não era japonesa essa. Não havia japonês ali. Havia, ah! havia, havia os traidores. Algum deles devia ter voltado para encerrar com chave de ouro a dedicada tarefa de envenenar-me o fígado com ódio.

Tentei lavar com água, com água e sabonete, só com sabonete, esfregar com papel toalha, com minha camisa. Não saía. Só o que consegui foi molhar-me. Manguei-me com água, a roupa quase toda, como me mangaram com a tinta e a barata. Eu era um idiota, total, não só para quem riu da peça que me pregou, era também para quem me visse e também para mim.

Sentei-me numa privada e fechei a porta do box, com raiva, danado da vida com todos, com medo de que alguém aparecesse e me visse assim. Soquei as duas paredes ao mesmo tempo. A da direita, de compensado, tive medo de que caísse. A da esquerda, de alvenaria, forte, machucou minha mão. Dei mais dois socos, nessa, até que meu pulso rejeitou o quarto. Então quis chorar, mas não chorei, desesperado estava.

Engasgado, segurei o rosto com as duas mãos, o cotovelos nos joelhos. Quis sentir meu rosto. Mexi nele como a mãe mexe no filho doente. Tentei sentir-lhe o contorno. Não senti o relevo da tinta. Não sei o que usaram. Lembro de algo nas aulas de química, algo relacionado a prata, mancha a pele e não sai mais. Tem de esperar a pele envelhecer e esfoliar. Já não é mais ódio, é só desespero.

Continuava alisando o rosto, sem saber o que fazer, esperando descobrir do que se tratava e como resolver. Senti então uma rebarba, próxima à orelha. Uma diferença de textura. Um vinco diferente. Cutuquei. Alisei. Cutuquei bastante com a unha até que um pedaço desgrudou. Forcei a unha por baixo e mais um pedaço desgrudou. Parecia um adesivo. Fucei por todo o longo da borda que fui achando e aos poucos soltei-o. Pouco a pouco.

Machucava para tirá-lo. Ao desgrudar, puxava a pele e parecia não querer desgrudar, como se fosse mais uma camada dela. Meu rosto ardia. Senti uma queimação começar que parecia febre. Aflito, ansioso, num momento de maior desespero, puxei-o com força. Queria arrancá-lo todo. Não consegui. Desgrudou mais ou menos metade, um lado do rosto. Tomei ar. Os olhos e o nariz escorriam. A bochecha parecia ter sido queimada com ferro em brasa. Puxei de novo, com mais violência. Não saiu tudo, porque a mão escapou. Violência demais! Faltava um pedaço perto da outra orelha. E foi esse que doeu mais. Quando soltou, a pele ardeu como se tivesse rasgado.

Realizado, amassei e apertei o maldito adesivo, e atirei-o dentro da privada. Fechei a tampa e sentei em cima, me recuperando da auto-agressão. Não sei porquê, achei que seria bom esfregar o rosto com as mãos. Não passou, mas acalmou a pele o suficiente para que eu me lembrasse de dar descarga. Apertei o botão da válvula com gosto e só saí do box quando ouvi o último barulho da água.

Saí dali, fui para a pia lavar as mãos, pensando em como, faria para voltar para casa, agora que havia perdido a primeira condução do dia. Teria de esperar quatro horas até a próxima. Perdi o sábado.

Chegando à pia, olhei para o espelho, queria ver se havia saído tudo. Saiu tudo. E muito mais. Meu rosto não estava mais lá.

Horto

É engraçado, mas, das minhas férias todas, acho que este foi o melhor passeio.

Cheguei ao Horto, o funcionário da guarita puxou dois minutos de conversa. Ele fica ali isolado na estrada, sente falta de com quem conversar.

Estacionei. O caminho até o estacionamento é estranho, complicado, mas cheguei sem problemas e estacionei, sem perceber perto de umas capivaras que pastavam.

O parque parece bem cuidado, mas a sinalização não é tanto. A placa indica a loja, as trilhas e o café. Escolho uma trilha, não a maior, está fechada, mas uma diferente e também grande. E é pro café que eu vou primeiro.

Tomo um café, dois, olhando esta parte construída do parque. Tem caramanchão, brinquedos, uma capela, outras casas.

Vou para a trilha. Ela não se parece com o que eu pensei. É muito estreita, parece como se eu estivesse no caminho errado. Um latido de cachorro me assusta, não o esperava. Penso em voltar, mas, no sentido inverso, aparece um policial. Ele me cumprimenta naturalmente e segue por de onde eu vim. Se ele veio dali e não estranho de eu ir para ali é porque eu não estou fazendo o caminho errado. Continuei.

Uma esquina, uma subida que parece escada, então a trilha fica estreita como não imaginei que pudesse ser. Não vi graça. Não via o sentido de andar numa trilha tão difícil para ver os troncos cheios de parasitas e samambaias.

Mais de meia hora de caminhada, havia uma e meia ainda, pela previsão do mapa na entrada. Só subida, eu já considerava voltar. A trilha se alargou um pouco, muito pouco, num ponto alto demais, onde o barranco já não permitia que a vegetação a fechasse dos dois lados. De um lado havia árvores um paredão de terra queimada pelo sol. Do outro…um pequeno vale, distante lá embaixo, cortado por uma linda corredeira. Ouvia-se o barulho da água. De ao menos três cachoeiras. Cortavam o verde das árvores. Achei lindo.

Terminei a subida. Lá do alto, ainda se via mais e melhor. A trilha ali já era muito estreita, o barranco íngreme. Não dava para duas pessoas passarem lado-a-lado por mais abraçadas que estivesse.

Sentei-me ali. As pernas jogadas pela beirada do barranco. Eram uns trezentos metros se caísse dali. Deixei a bolsa do lado, abri-a e peguei meu lanche, um livro, o telefone.

Com o telefone, tirei algumas fotos e pus uma música para ouvir. Era hora do almoço. Passei a tarde sentado ali, lendo meu livro e comendo o lanche do almoço — duas frutas, um pedaço de pão, um de queijo e chá gelado. Sem pressa, o lanche demorou a tarde todo.

O livro sobrou. A cada trecho que inspirava reflexão, fechava-o, o dedo marcando a página, e punha-me a pensar olhando o verde e a água e ouvindo o barulho das cachoeiras.

Chuva

Quem não me conhece direito, costuma achar que gosto do calor. Realmente gosto de usar pouca roupa, ficar à vontade, apesar no sol, ir à praia. Mas essas não são coisas pelo menos para mim, que se faça exclusivamente no calor.

Quem me conhece bem, julga que eu goste do frio. E eu gosto do frio. Gosto também do calor, mas mais do frio. Aprendi a gostar do frio conforme cresci. O calor é um clima juvenil, serve bem às brincadeiras. O frio é maduro, romântico, sereno. Há de se saber lidar com ele. Manter a ventilação, agasalhar-se adequadamente. O frio é bonito. Com neblina então, convida a ficar quieto só olhando e pensando. Pensando em qualquer coisa.

Mas eu sei que do que eu gosto mesmo é da chuva. Sempre gostei. No frio ou no calor.

Gosto tanto daquele pé-d’água rápido do verão. De sair correndo, deitar-me na areia da praia ou na grama, deixar a água me molhar, não como banho. Chuva não é banho. Chuva é chuva. São as nuvens se desmanchando e caindo sobre mim. Banho não é tudo isso. Me molho gostoso, rindo, e quando ela passa, passeio no sol. Depois vou para casa pôr a roupa para lavar e tomar um banho quente.

Como também gosto desta chuva fininha de inverno. Está garoa, bem paulista, que abranda a sensação do frio. Esta é bonita de se ver pela janela. Umedece o ar quando saio para passear, sem molhar, só umedece um pouco a roupa, logo seca. É uma desculpa para chamar alguém para um abraço perto do fogo: “Vem cá se secar. Fica aqui comigo.” As plantas também gostam dela, e ficam mais verdes para mim.

Adoro olhar o verde. Ainda mais com estas gotinhas caindo entre nós e aquela neblina que sobe rala pelos morros e se enrola grossa no alto. Sento aqui em frente ao vidro enorme da parede, olho, sinto e escrevo.

Hora do Banho

Eu tirei a camisa com aquela preguiça que temos no frio. Já imaginava aquele impacto que a temperatura da casa teria nas minhas costas quando a expusesse. E o impacto foi grande, minha pele se encolheu e eu me encolhi também. Queria ter algo quentinho onde me escorar.

Sem outro jeito, tomei coragem de ir para o banho. Procurei o pijama, peguei uma cueca na gaveta. Fui para o banheiro olhar se havia toalha lá. Havia. Havia também o espelho e preferi olhar se precisava mesmo fazer a barba. Coisa de preguiçoso. Precisava. Fazer o quê? Alguns pêlos brancos já eram visíveis feios.

Já acostumado à temperatura, fiquei olhando o espelho. Comecei a coçar a barriga. Coisa de homem peludo. Coça por coçar. Senti algo. Olhei. Parecia uma ferida.

Parecia uma ferida, mas não era. Olhando com atenção, parecia um furinho muito bem feito, como o de uma narina ou os das orelhas, mas bem menor. Cutuquei. Cutuquei com medo. Descobri que, por dentro, ele não era vazio. Era como um umbigo. Um segundo umbigo, bem menor que o original. De cutucar, passei a escarafunchar. Descobri algo.

Curioso, embora já com uma volta no estômago — vai saber o que é cutucar um furo na própria barriga — continuei a mexer e encontrei algo que parecia a beiço com nó de uma bexiga.

Apavorado, mexi-lhe com o dedo. Queria já vomitar. Parecia enrolado. Enrolado como papel de bala. Achei melhor parar de mexer. Mas, enquanto pisava no freio para parar, ele se desenrolou e, como bexiga solta, soltou um silvo e um bafo.

Saiu algo, um ar ou um éter, invisível, mas que cheirava muito bem. Um cheiro que eu acho que conhecia, mas que não reconheci.

Maravilhado com o cheiro, deixei meu corpo murchar por esse éter escapando. Em certo ponto, deixei de ver com meus olhos e vi- me de fora. Vi-me terminar de murchar.

Meu corpo era agora um saco murcho no chão. Eu? Não sei o que sou. Não tenho mais forma. Espalho-me por aí. Sigo ou sou esse perfume que senti. Tento diluir-me e misturar-me a tudo o que acho bom.

Mudinha

Seguravam juntos a cavoca, ela é ele. Juntos também abriram o pequeno buraco no chão. Cabia nele um pequeno balde ou uma lata de tinta. Ele fazia mais força, via-se. Mas ela tentava e era sua mão, por baixo da dele, que primeiro segurava a cavoca.

Pegaram, então, uma mão de cada um, ainda, a muda que estava ao lado. Ele levou a mão para rasgar o plástico que protegia a raiz dentro de uma pelota de terra. Lembrou-se dela e esperou-a, olhou-a também. Ela segurou o plástico também é a rasgaram.

A muda foi colocada no buraco e os dois, cada um com ambas as mãos, empurraram terra para cobrir as raízes e terminar de fechar o buraco plantando-a.

Sorrindo, felizes, olharam a miudinha plantada. Tiveram muito prazer em colocá-la. Não sei por que o fizeram, não saberei. Depois de dois minutos inteiros, deixaram-na um pouco. Ela se virou. Para ele. Ele se virou para ela então. Ela levantou o rosto para o dele, lhe abraçou o pescoço e se beijaram. Depois do beijo, ele disse algo. Ela soltou as mãos que abraçavam seu pescoço, olhou-as e mostrou-as, sujas de terra. Ele não a havia abraçado. Também tinha as mãos sujas de terra.

Riram. Que pouca importância tem para quem se ama sujarem-se de terra! Mandaram a terra às favas. Eles segurou-a pela cintura. Ela segurou-o pelas bochechas. Beijaram-se de novo.

Depois olharam mais um pouco a plantinha. Ela lembrou de regá-la, pegou uma garrafinha de água que trazia na bolsa e jogou um pouco. Lembrou-se dele também. Passou-lhe a garrafa e ele repetiu regar a muda.

Olharam mais um pouquinho. Tocaram-se os dedos, não se deram as mãos logos de cara. Tocaram-se os dedos como se fossem dar as mãos, para um dizer ao outro que deviam ir.

Juntaram então as coisas que traziam e foram pela calçada. Aí sim de mãos dadas.