Ue o Muite Arukou

Este texto não é meu. É uma música japonesa que eu tenho ouvido algumas vezes nos últimos meses. Ela já foi gravada várias vezes em inglês com uma letra que não tem nada a ver com o original.

Desta vez, encontrei a letra dela em romanji é uma tradução para inglês que parece ser confiável.

A letra e a tradução, eu peguei do site:
http://www.learn-japanese.info/ueomuite.html

Ue o Muite Arukou (I Look Up as I Walk)

Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Namida ga kobore nai you ni (So that the tears won’t fall)
Omoidasu haru no hi (Remembering those those spring days)
Hitoribotchi no yoru (But I am all alone tonight)

Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Nijinda hoshi o kazoete (Counting the stars with tearful eyes)
Omoidasu natsu no hi (Remembering those summer days)
Hitoribotchi no yoru (But I am all alone tonight)

Shiawase wa kumo no ue ni (Happiness lies beyond the clouds)
Shiawase wa sora no ue ni (Happiness lies up above the sky)

Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Namida ga kobore nai you ni (So that the tears won’t fall)
Nakinagara aruku (Though the tears well up as I walk)
Hitoribotchi no yoru (For tonight I’m all alone tonight)

Omoidasu aki no hi (Remembering those autumn days)
Hitoribotchi no yoru (But I am all alone tonight)

Kanashimi wa hoshi no kage ni (Sadness lies in the shadow of the stars)
Kanashimi wa tsuki no kage ni (Sadness lurks in the shadow of the moon)

Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Namida ga kobore nai you ni (So that the tears won’t fall)
Nakinagara aruku (Though the tears well up as I walk)
Hitoribotchi no yoru (For tonight I’m all alone)

Caixas de Papelão

Desculpa o choro. É difícil, sabe. Mas… então… eu estava mexendo no guarda-roupa, arrumando as caixas para a mudança. Nas minhas portas, tinha uma bagunça danada. As coisas que eu costumo usar, eu logo separei, empacotei. Coloquei em malas mesmo, como se fosse uma viagem, para ficar mais fácil de levar e encontrar depois. Eu tenho três malas grandes. Elas foram práticas para isso. Perfumes, documentos, joias, bijus, isso também foi fácil. Isso eu sempre tenho já arrumado em caixas de plástico para não ficarem misturadas.

Depois de separar essas coisas, foram sobrando aquelas tralhas que parecem um arquivo morto. Achei muita coisa que eu nem lembrava que já tive. Muita coisa ainda empacotada na embalagem original. Às vezes, sem nem tirar da sacola da loja. Uma poeirada que só… Isso já tem duas semanas, e até agora eu ainda estou com a rinite atacada. Nas minhas portas, o que ficou foram um monte de cabides socados todos para o mesmo canto, na esquina da parede, onde é difícil mexer, com uns vestidos e sobretudos, umas coisas cafonas que eu não sei como alguma vez fui imaginar de vestir, e, embaixo, uns montes de outras roupas socadas que pareciam terra-batida de tão socadas. Eu acabei, na semana passada, chamando um abrigo, pedi pra eles irem lá e pegarem tudo como doação. Foi o melhor que fiz. Aquelas coisas ocupando espaço lá, sem eu me lembrar delas por tanto tempo… foi melhor sumir com elas do que ficar olhando e procurando desculpa para levar comigo ocupar espaço no apartamento novo. Mas, naquele dia, eu ainda não havia tido essa luz e cheguei a encher umas quatro ou cinco caixas com elas.

O quarto era pequeno. As caixas desmontadas eu apoiei na parede da janela. As montadas, que eu ia enchendo, eu não tinha força para levantar, fui empurrando com dificuldade em direção à porta e aos pés da cama.

Eu nunca gostei de trabalho de casa, por isso tenho empregada. Ainda por cima, mexer em coisas empoeiradas, cheiro de armário, ficar me levantando e abaixando, empurrar caixas pesadas. Eu devia ter arrumado caixas menores. Perdi quase a tarde toda nisso. Me encheu o saco. Tinha fome, sede, o corpo doído, porque você sabe que machuca mais ficar em um lugar apertado do que carregar carga. Eu me sentei na cama e desisti. Inclusive, foi quando comecei a pensar em guardar só o que tenho em uso. Já ia doar mesmo o que não quisesse, melhor doar tudo o que estava parado e não me fez falta por tanto tempo do que arrumar, levar e não usar, deixar ocupando espaço de novo.

Mas têm umas coisas, coisas nossas mesmo, que eu queria guardar e, para pegar, eu tive de mexer nas portas dele do guarda-roupas. Foi difícil mexer ali. Eu encontrei muita coisa que não devia ter encontrado. O cheiro na roupa, frascos de perfume, roupas de festa, lembranças. Muitas coisas que eu devia esquecer, mas lembrei. Me deu desespero de sair dali. E eu quis sair. Mas, quando me levantei para ir para a porta, bati a perna na quina de uma caixa. As caixas estavam todas enfileiradas seguindo a parede e as últimas estavam na frente da porta. Bagunça que eu fiz. E eu estava tão nervosa que não consegui firmar as mãos para empurrar as caixas. E ainda tinha roupas e coisas espalhadas pelo chão e por cima delas, coisas que eu tirei do armário para olhar e fui empilhando. E eu fiquei mais desesperada, porque vi que, para conseguir sair dali, eu tinha de pôr tudo, ou um monte daquilo, para dentro do armário de volta. Não dava para fugir, eu tinha de terminar de arrumar as caixas e separar as coisas. E eu já não queria mais nada daquilo. Por mim, pegava já só as malas que tinha arrumado, largava o resto. e saia pra tomar ar e fazer alguma coisa na rua, longe de casa, longe do apartamento velho, longe do novo, pra esquecer aquilo. Mas tive de ficar ali. Eu sentei na cama, em cima da tralha, em cima de um vestido velho, que parecia cortina de renda, e aquela porcaria de vestido estava fedido, imundo, empoeirado, até grudento. Ficou pinicando. E eu chorei e fiquei chorando.

Aí, me lembrei do banheiro, o que é conjugado com o quarto. Me levantei da cama. A merda do vestido até estava grudada na minha perna, não sei se da sujeira toda dele, se da minha, do suor, ou se foi só de eu ficar tanto tempo em cima dele. Ardeu quando o desgrudei. Eu entrei no banheiro e sentei na privada chorando mais. Ao menos ali tem piso frio, azulejos. Fica fresco. Dá impressão de refrescar.

Eu acho que ate ia parar de chorar, mas passei a mão nos olhos. Elas estavam sujas. Os olhos já estavam irritados, o nariz também. Foi aí que eu tive até de fechar os olhos de tanto que ardiam. Começaram a escorrer feito torneira. Quando eu consegui ver minhas mãos, as palmas estavam pretas. Pareciam de borracheiro. E eu ainda senti coceira pelos braços e pelas pernas. Devia ter ácaro e sabe lá que tipo mais de bicho por todo lado naquele armário.

Quando eu percebi que estavam muito sujas e que eu precisava lavá-las, isso me acalmou. Nem precisei engolir o choro, ele diminuiu. Por sorte, eu estava no banheiro, senão ficaria ainda mais nervosa se não achasse onde me lavar.

Eu tirei a roupa e entrei no banho. Deixei escorrer bastante água fria. Eu nunca gostei de água fria, acho que nenhuma mulher gosta. Os homens entram no banho de água fria e falam que é morna, que eu gosto de água fervendo. Eu não gosto de água fria, gosto de banho quente. Mas aquele banho, quando eu abri a água, ela estava fria e eu fiquei tão aliviada com o molhado que não me lembrei de esquentá-la.

Eu esfreguei o corpo sem sabonete, para tirar a poeira. Por sorte, ainda tinha xampu no box. Esfreguei só com as mãos. Foi muito bom, refrescou, me acalmou. Até aliviou a irritação e a coceira.

O problema é que, quando eu sai do banho, não tinha toalhas. A gente, digo, eu. Eu as guardava no outro quarto, o que servia de escritório. Sai do box pingando, ou melhor, escorrendo, emporcalhando todo o banheiro. Dane-se, ele não ia ser mais meu mesmo. Ficasse o banheiro emporcalhado.

Me desanimei de novo pensando que ia ter de mexer naquela bagunça para conseguir abrir a porta do quarto para o corredor para sair. Pensei também no vento gelado que já devia estar entrando pela janela e acabei ficando no banheiro, enrolando para voltar ao quarto.

Foi quando eu ouvi um barulho. Aquele barulho de quando você mexer em um monte de coisas amontoadas, tira uma do lugar e as outras escorregam um pouco e batem umas nas outras. Barulho de metal, ou de concreto, alguma coisa de metal batendo na parede. Pensei que viesse da parede do banheiro, do chuveiro. Mas, quando ouvi de novo, percebi que vinha da parede do guarda-roupa. Na verdade, a parede é a mesma, mas o barulho veio do outro lado, o lado do quarto, onde fica o guarda-roupa embutido.

Eu me assustei, devia estar sozinha. Perguntei se havia alguém, mas não atendeu ninguém.eu prestei atenção e achei, deve ter ouvido mesmo, mas, na hora, só achei, que ouvi algo de novo. Dessa vez, um movimento de algo macio, mas pesado, se arrastando de encontro à parede. As roupas? Não sou supersticiosa, não era. Minha mãe é. Ela já pensaria em fantasma. No lençol do fantasma atravessando a parede. Mas eu chamei. Chamei até por quem eu sabia que não ia responder. E ninguém respondeu mesmo.

Eu tinha medo. Esperei. Esperei. Não ouvi mais nada. Eu não sabia o que era, o que tinha sido. Eu tinha medo. Não sei quanto tempo esperei. Mas o quê que eu podia fazer? Ia ficar ali parada esperando até quem vir me procurar? Até quem me encontrar? Se me encontrassem ia ser só um velho esqueleto esquecido, de alguém que morreu escondida no banheiro da suíte?

Eu saí do banheiro devagar, com cuidado, espreitando pela fresta da porta enquanto a abria, com medo de encontrar alguém. Com medo de matar algum conhecido, me lembrei da arma no criado-mudo dele. Mas não peguei, porque não encontrei nada. As caixas da frente da porta e a bagunça que fiz das coisas amontoadas continuavam iguais.

Eu fui procurar então dentro do guarda-roupa, se algo tinha caído. Talvez, ao desfazer a bagunça, eu tivesse tirado o apoio de um cabideiro. À primeira vista, não achei nada. Mas olhei para cima e vi uma coisa muito esquisita. Algo no alto do armário. O forro do teto do guarda-roupa não estava lá. Estava aberto. Uma abertura que, eu não via isso pois não havia luz lá em cima, podia muito bem, talvez, dar no guarda-roupa do vizinho de cima. Eu olhei, procurei. Me senti indiscreta, mas olhei bem pra lá. Escuro. Não vi nada.

A sensação se ser indiscreta passou quando me lembrei que aquele é o último andar. Não há apartamento mais alto, só a casa do zelador, mas ela fica na outra face do prédio. Ali em cima, só podia haver caixa d’água, antenas ou coisa do tipo. Aí fiquei curiosa de vez. Mas para ver, eu precisava de uma lanterna ou, ao menos, de uma escada. E eu não ia primeiro arrumar a bagunça para conseguir sair procurando isso.

O que eu tinha eram as caixas, as cheias, pesadas, e mais algumas desmontadas. A gente desmerece papelão, mas é algo muito resistente. Experimente fazer um prisma grande de papelão dobrado. Depois ponha um tampo de papelão por cima. Pise para amassar e você vai ver que não é fácil. Se dobrar direito as caixas, tomar cuidado com as proporções, dá pra montar uma base suficientemente forte para sustentar uma pessoa por alguns minutos.

Eu montei duas, uma pirâmide de dois andares, da altura de duas caixas. Foram dois degraus grandes. O suficiente para, com cuidado, eu conseguir me debruçar no alto do armário e subir e fuçar o que havia em cima.

Era escuro, era alto. Não havia o que esperar encontrar lá. Mas, por ali, eu sairia logo daquele quarto maldito.

Diálogo Impromptu II

— O que você quer comigo?
— Eu gosto muito de você.
— Quer dizer que quer namorar?
— Não.
— O quê então?
— A gente tem de pensar no que quer? Não pode só gostar e fazer o que der na telha?

Café com Empadinha

Eu sou daqueles que gostam de tomar café da manhã na padaria todos os dias. Podem me dizer que engorda, mas não consigo passar sem dois pãezinhos com manteiga ao acordar. São o sinal para meu corpo de que o dia começou e ele pode finalmente acordar.

Não gosto de acordar cedo (nem de dormir cedo, é verdade). Acordar cedo, para mim, é acordar antes das dez. Se a hora do relógio tiver só um dígito, isso para mim é cedo. Mas durante a semana, trabalho, sou obrigado a acordar de madrugada, ente seis e seis e meia. Acho isso uma aberração criada por nossa cultura nos tempos em que não havia luz elétrica e tínhamos de usar cada segundo de sol. Cento e tantos anos e ainda não nos livramos dessa aberração de costume!

Uma coisa que aqui em São Paulo eu não vejo, mas vi muito numa época em que morei no Rio, é as pessoas lambuzarem a colherinha do café na manteiga do pão antes de mexê-lo. Eu acho nojento!

Mas aqui vejo outras coisas. Por exemplo, sete horas da madrugada, sentado no balcão da padaria, segurando com sono o pãozinho, preguiça até de pedir o que quero (ainda bem que o pessoal da padaria já me conhece há uns dez anos e me serve sem eu precisar pedir), ao menos uma vez por semana, sou pego pelo cheiro de tempero doce e carne moída de alguém comendo esfirra.

Não entra na minha cabeça que alguém coma esfirra no café da manhã. Às vezes, o sujeito bebe refrigerante e eu imagino que tenha trabalhado à noite e esteja fazendo um lanche antes de ir para casa descansar. Mas quando é alguém que toma café com leite junto com a esfirra? Não entendo. Só posso teorizar. Deve ser banguela, não consegue mastigar o pão, quer algo quente, pede a esfirra. Mesmo assim, as teorias me parecem sempre elaboradas demais.

Se eu não precisasse nunca acordar cedo, não teria a curiosidade sobe o segredo de quem faz essa escolha para o desjejum. Nos fins-de-semana, normalmente, não preciso. Tomo café quase meio-dia e, aí, qualquer coisa que veja me parece normal. Quase qualquer.

Tem aquele salgado, a empadinha, já gostei daquilo. É uma mini-torta de massa podre (olha o nome!) com recheio de mingau de palmito. Massa-podre nada mais é que um monte de farinha e sal moldados com gordura vegetal hidrogenada. Eu falo disso com nojo, mas antes de ter consciência de do quê é feito, gostava muito. Opa, como gostava! Hoje não consigo mais comer. A consciência me entala o salgado na garganta na hora de engolir.

As empadas daqui da padaria são muito famosas. Hoje, sentada ao meu lado no balcão, uma mulher, bonita por sinal, pediu um café e uma empadinha. Estou aqui pensando, se fica bom, por que ninguém nunca tentou adicionar café à massa? Essa foi novidade.

Eu tive de me virar um pouco no banco para não vê-la comer. Engraçado, acho que a idade está me deixando fresco. Só de imaginar o gosto que ela sentia, minha boca secou e eu não consegui mais engolir. Tive de começar a escrever isto, para me distrair e conseguir terminar o café depois de ela ir embora.

É engraçada essa história de gostos…

Caderno de Anotações

Eu tenho um caderno, pequeno, de capa preta de papelão fino flexível, as folhas não são alvejadas, sem pautas, mais ou menos do tamanho de minha carteira. Cabe no bolso da calça ou do agasalho. Algumas pessoas talvez o chamassem de caderneta.

Eu o carrego comigo para quase qualquer lugar, junto com um toco de lápis que peguei numa loja de móveis, desses lápis que deixam num totem na entrada para a gente rascunhar à disposição de cada móvel. Quando ouço ou vejo alguma situação interessante, uma frase de efeito, pedaço de letra de música, que valha a pena anotar para escrever algo depois, se não posso anotar no telefone ou no tablet, anoto nele.

Essas anotações, são quase todas feitas no escuro, no cinema ou teatro, com o lápis em letra totalmente torta. De vez em quando, sento num café, pego o caderno, o lápis (tenho uma borracha encaixada na ponta cega dele) e uma caneta e vou apagando os garranchos e passando a limpo com a caneta. Aproveito para procurar na internet se o que anotei é realmente o que ouvi, de onde veio, de quem é. Anoto e deixo ali, esperando.

Esperando um dia em que mexa nas páginas mais antigas e, fora do contexto original, veja se aquelas anotação continuam fazendo sentido para mim, se não foram interesses passageiros. Esperando que o tempo me faça ver ali algo bom ou mais do mesmo.

Faço também desenhos, esquemas, uns racunhos com bolinhas, flechas e muito rabisco. São coisas que eu nem deveria chamar de desenhos. Me ajudam a lembrar das coisas, onde estavam, como. Coisas que não cabem em fotos. Fotos são mais difíceis de achar depois.

Já tive outros desses cadernos antes. Quando ficam cheios, filtro o que lá está, passo para o computador em notas, fotos. Muita coisa vira rascunho para meu blog. Depois jogo fora o caderno e ponho outro em uso.

Cadernos são assim, vêm e vão.

Página sem data ou personagem certo

Depois de algum tempo bagunçando os horários de trabalhar e de dormir, a gente não sabe mais distingüir dia e noite, mesmo com as janelas abertas e as cortinas puxadas. O corpo, os olhos, a cabeça, começam a trabalhar em ciclos esquisitos, longos de várias horas. É como se ignorássemos o movimento do sol e da lua, eles são apenas aparentes mesmo, e trabalhássemos em nosso próprio ritmo. Mas esse ritmo não é o do resto do mundo e a adaptação é difícil e demorada.

Foi por isso que quando nosso herói acordou, já mais para o fim do que para o meio da tarde, estranhou muito o calor da tarde. Seus olhos estranharam ainda mais a forte claridade. Os lençóis, o travesseiro, estavam encharcados de suor. Sentiu-se imundo, com coceira, reflexo suor e da poeira que nele grudou enquanto dormia. Nem sabia mais que dia da semana era ou se tinha dormido um dia ou dois, ou mais. Mas sabia que já tinha passado bem mais do que a hora do almoço de hoje.

A cabeça chacoalhava bastante. Parecia enxaqueca, embora ele não pudesse imaginar motivo para isso. Coçou a parte da frente da perna, acho que se chama isso de canela, e notou que ela, diferente da panturrilha carnuda e da coxa gorda, é muito magra, ossuda. Não sabe porque, mais lhe pareceu que isso tinha a ver com coçar aí. Pareceu-lhe uma parte do corpo feita para ter coceira. As unhas deixaram a canela ardida. Ele passou a mão e sentiu o úmido do suor nos pêlos. Pensou que precisava tomar banho. Precisava mesmo. Imediatamente sentiu o cheiro da roupa de baixo que não trocava desde que adormeceu. “Melhor dormir pelado.” Foi só um pensamento.

A modorra cismava de não arredar pé. Pensou na água fria caindo na canela irritada, estava muito calor para banho quente, e que isso aliviaria a coceira. Pensou na limpeza que aliviaria a limpeza. Foi para o banho.

Do box, viu no espelho a barba feia. Saiu pingando pelo banheiro para pegar o rastelo da gilete. Aproveitou e voltou para o box também com a escova de dentes já lambuzada de pasta. Lambuzou a barba com condicionador. Esperou um tempo para ela amolecer. Enquanto isso, se deliciava com a água fria caindo nas costas e, depois, nas pernas. Fez a barba, escovou os dentes. Xingou-se de burro enquanto lavava os tocos de barba que lhe caíram e embaraçaram nos pelos do peito.

Quando se enxugou, achou a toalha quente e teve a impressão de, depois, estar mais suado do que quando acordou. Por isso, resolveu pegar uma roupa leve e sair.

Primeiro pensou em comer algo. Não estava com fome, mas sabia que devia. Já na rua, imediatamente ficou de saco cheio ao imaginar o restaurante, o garçon. Foi a uma lanchonete, mas não quis comer nada. Olhou os outros bebendo, já era hora de happy, e não quis um prato na sua frente, mesmo que fosse de sanduíche. Quis pedir uma cerveja, mas se lembrou da enxaqueca que já tinha passado, também do estômago vazio, e pediu um suco.

Prestou atenção nas conversas dos outros e sentiu inveja. Quando o copo chegou, teve raiva dele. Bebeu rápido, achou nutritivo e gelado, colocou o copo longe e pediu a cerveja. Essa bebeu devagar também prestando atenção às conversas dos outros.

Pediu a segunda, já se arrependendo, e bebeu-a sem vontade, mais devagar ainda. Olharam para ele e ele achou que, de tanto prestar atenção às conversas dos outros, incomodou e chamou a atenção para si. E isso o incomodou, muito. Constrangido, virou-se para dentro do balcão e terminou a cerveja, ainda bem devagar, olhando o que faziam os funcionários, o balconista, o chapeiro, e pensando no que podia fazer.

Pensou nas conversas que ouviu, nas pessoas que saíam para a noite, e para beber, e para dançar, e para fazer farra. Pensou também no fim disso tudo e viu que não tinha paciência para o ritual. Decidiu abrevia-lo, pagar. Pagou primeiro a conta da lanchonete. Depois desceu a rua.

No caminho, passou por um caixa eletrônico e sacou dinheiro. Em certos lugares, não é salutar usar cartão. Já havia passado pela porta de um estabelecimento, onde não quis entrar, quando se lembrou de comprar preservativos. Voltou alguns metros, à farmácia, e comprou a embalagem com três. Nem precisava de tantos, pensou, mas, pensando melhor, não havia nada para fazer depois, além de trabalhar, melhor demorar o máximo.

Procurava um que lhe aconselharam, só se lembrava do nome e o nome de que lembrava não achou em nenhum neon. Mas também não tinha presença de espírito suficiente para encarar os neons o suficiente para, se fosse, o caso, corrigir a lembrança. Deixou passar meia dúzia de até desistir do que procurava e se decidir por um. Colaborou em muito ele estar na frente desse um, razoavelmente discreto e sem porteiro, quando sentiu-se encabulado de andar por ali.

Passou o quebra-luz e um sujeito grande, com jeito de leão-de-chácara, lhe deu as boas-vindas e desejou boa noite. Respondeu polido, vitória inevitável sobre a timidez.

O escuro, as luzes brancas eram poucas, as outras, vermelhas ou negras, fracas, estranhas, não iluminavam nada. O escuro mal iluminado o fez sentir-se exposto, mais do que se estivesse nu. Pensou em si mesmo nu e sentiu o próprio pau mole. Teve vontade de urinar. Foi ao banheiro com nojo, achando que estaria imundo. Surpreendeu-se com a limpeza. Apenas teve de ficar de pés bem separados junto ao mictório para não pisar no pouco de urina que havia no chão. Ainda assim, por via das dúvidas, usou um pedaço de papel toalha para abrir a torneira sem tocá-la.

Na saída, parou à porta do banheiro, ainda do lado de dentro da porta, e olhou o salão. Não viu nada de mais, mesmo assim não se sentiu à vontade com o assédio dos clientes às garotas, com o modo com que as assediavam e com o modo como elas os incentivavam a isso e provocavam. Encontrou um lugar que lhe pareceu discreto, no canto mais à direita do balcão, perto da entrada, que agora era saída, escondido pela chopeira, embora com visão para o barman.

Sentou-se e aceitou o chope que o barman lhe ofereceu, os dois primeiros estão na consumação mínima. Bebeu um gole que não quis descer. Já tinha a barriga cheia pelos outros dois, mesmo já tendo urinado. Ficou com medo de vomitar e pensou em se arrepender de ter entrado ali. Não sabia como se portar, só não queria chamar a atenção. Olhou por cima do bar, do outro lado, bêbados dançavam quase sozinhos. Algumas garotas, indo e vindo, passavam pelo meio da pista, apenas passavam, dançando. Ele achou que elas dançavam para fazer pouco dos bêbados e achou tudo ridículo. Foi quando uma o abordou, pedindo uma bebida.

Isso ele já sabia, das conversas de bar, é parte do contrato. Ela pede para que ele lhe pague a bebida. Se ele paga, ela, na maioria das vezes, nem encosta no copo, significa que está interessado em seus serviços. Pode então perguntar pelo preço.

Ela escolheu a bebida e ele se esqueceu de perguntar pelo preço. A quebra de protocolo a incomodou. Para não perder o negócio, bebericou e explicou. Ali todas cobram o mesmo, exceto se ele quiser atrás, aí depende de a garota olhar o tamanho e avaliar por quanto vale a pena. O quarto é pago à parte. São granas separadas, a dela é dela, a do quarto é a da casa.

Ele se surpreendeu com o preço. Com o que tinha sacado, ela cabia em seu bolso quase dez vezes. Ainda assim, ele teve medo de algo escrito em letras miúdas nesse contrato. Tinha de tomar cuidado, isso significava não beber muito, para não chutar o balde.

Ela brincava, com as pontas dos dedos, com o copo quase intocado. Não entendeu direito o que ele quis dizer com “OK”, mas assumiu o que lhe convinha. Desprezou o copo, agarrou-lhe o pulso e o puxou, sem sedução ou romance nenhum, para uma escada que ele ainda nem havia notado, para o andar de cima. Ele, bobo, teve de voltar para pegar a comanda, com uma marca redonda, molhada, do fundo do copo de chope, que ia esquecer.

No corredor quase completamente escuro do andar de cima, um leão-de-chácara pediu-lhe a comanda, anotou nele o nome com o qual a garota tinha se apresentado e deu a ela uma chave que tirou do bolso, aparentemente sorteada.

Ela voltou a puxá-lo pelo pulso. Destrancou o quarto e entraram. Trancou por dentro e colocou a chave na bolsa. Colocou-a num criado mudo que ficava bem isolado da cama, no canto junto à janela fechada que tinha, por fora do vidro, um tapume que imitava uma foto de bairro chique.

Ele se sentou na cama, pensando em como agir. Ela já se virou tirando a camisa. “Quer mamar um pouco?” Chegou-lhe os peitos perto do rosto. Ele disse que não e a surpreendeu. Depois, ele achou bobo recusar assim e também achou bobo ela perguntar se ele queria. Na sua cabeça, o interesse nisso era dela. Mas reconheceu que peitos saírem da roupa e lhe serem colocados ao alcance do bafo assim tão fácil era algo muito mais intimidador do que excitante.

Ela se afastou um pouco, tirou o sutiã, ainda o tinha vestido, as sandálias, a saia e os brincos. Como ele ainda estava sentado na beira da cama, inativo, e para ela tempo é dinheiro, e ele pensou nisso mesmo, imaginou um taxímetro no púbis, ela, profissionalmente, feito uma enfermeira, se aproximou e começou a abrir-lhe o cinto e as calças. Fez o movimento de tirá-las, impaciente, antes que ele se levantasse. Elas não saíram facil. Teve de puxar umas quatro vezes, ele não ajudou muito, até conseguir chegar com elas às coxas.

Já sem muita paciência com o cliente que se revelava mais passivo do que o tímido que ela imaginava, ela partiu para o item seguinte do manual de procedimentos. Puxou-lhe as calças, até os pés, sem tirá-las, ajoelhou-se com os peito entre seus joelhos e procurou-lhe algo dentro da cueca. Antes de encontrar, já abaixava a cabeça para chupar. Não conseguiu. Ele estava curvado para a frente e sua barriga atrapalhava a cabeça dela a chegar perto o suficiente para a boca alcançar o insumo.

Ela levantou a cabeça e suspirou. É o máximo que uma puta desprezada pode fazer. Ia empurrá-lo para trás para que ele se deitasse. Não chegou a fazer. Ele a pegou pela cintura e a debruçou na beirada da cama enquanto se levantava. Com uma mão, pegou-lhe o fio-dental de dentro do rego e puxou para o lado. Com a outra, foi tirar o pau de dentro das cuecas. Mas teve vergonha quando sentiu-o bem menos que meia-bomba. Rapidamente achou curioso ele ter crescido, mas continuar mole. Ela, outra frase ensaiada do ritual, dita automática e mecanicamente, lhe disse que pusesse caminha, que ela não trabalha no pêlo.

Ele nem ouviu o que ela disse. Só escutou o tom e o ritmo da voz. Lembrou-lhe um caixa de banco chamando o próximo, dando bom dia e perguntando o que deseja, e que ela estava trabalhando.

Tirou a mão de dentro das cuecas. Subiu as calças, calado. Estava com a carteira na mão, contando o dinheiro, quando ela, que olhava para um quadro na parede, percebeu que fora dispensada do serviço. Se sentou, arrumou o fio-dental e ficou olhando-o contar.

Ele lhe deu o dinheiro, mais que o combinado, ela disse que o da casa devia ser pago só na saída. Mas era tudo para ela, gorjeta.

Ele foi para a porta, sair, enquanto ela contava de novo. Encontrou a porta trancada e teve de esperar. Ela separou dois montes. O da parte combinada, pôs na carteira dentro da bolsa. O da gorjeta, enrolado, no estojo dos óculos, também na bolsa. Ele esperando. Vestiu-se, retocou a maquiagem, com pressa, mas não tanta quanto ele. Destrancou a porta e deixou-o sair primeiro. Depois saiu e trancou. Chegando onde estava o leão-de-chácara, disse tchau esticando a bochecha que ele, com muito nojo, fingiu beijar.

Ela desceu correndo a escada. Ele desceu atrás, sem pressa. Encontrou o lugar no balcão, junto à porta, desocupado. Sentou-se, mas logo dispersou. Procurou cigarro no bolso e resolveu sair para fumar.

Pagou a conta e saiu. Ia fumar na calçada, mas não quis ficar parado ali. Acendeu o cigarro e foi andando de volta para casa. Ainda era cedo. Já tinha andado dois quarteirões quando percebeu que não tinha nem encostado ainda a boca no cigarro.

Castelo

A professora disse que era hora de brincar.

A maioria das crianças, nesta hora, se acotovela, selvagens mesmo, atrás dos brinquedos mais atrativos. A maioria. Mas sempre há ao menos uma que não.

Tem um menino que se incomoda com esse comportamento, malcriados os outros. Ele espera para se servir depois. A professora se incomoda é com o comportamento dele: vai lá brincar. Ele vai brincar, mas com educação. Ofende-se mesmo com a complacência dela com o comportamento dos outros. Mais que complacência, parece incentivo. Ela, de certa foma, o incitava a fazer igual. Muitos adultos são assim. Assumem que o papel da criança é fazer errado e, convenientemente, se deliciam com isso, saudosos, esquecendo que o do adulto é ensinar a fazer certo. Ele não consegue deixar de pensar que os mal criados e briguentos, são muitas as cotoveladas e empurrões, são premiados com os brinquedos mais legais.

Quando terminam de pegar esses brinquedos e sobram só os que ninguém quer, ele, também por conveniência sua, reconhece, encontra nas prateleiras outra brincadeira. Não os brinquedos chatos e quebrados. Lá ficaram caixas. É provável que tivesse gostado de ser o primeiro a escolher e pegar o brinquedo que lhe desse na telha. Mas não foi. Em vez disso, encontrou no que achou uma utilidade que pareceu-lhe divertida, construir coisas com as caixas. Ali até havia mesmo um pote de blocos de montar, mas brincar com eles, desprezados pelos outros, seria aceitar derrota. Escolher brincar com as caixas não, era uma excentricidade extremamente criativa.

Algumas das caixas, poucas, eram originais dos brinquedos. A maioria eram caixas de material escolar, parecidas com as de sapatos, feitas de papelão grosso. Serviam como tijolos grandes de construção, aqueles blocos de concreto que os pais usam para fazer muros. Outra caixas, maiores, de papelão pardo comum, usava para apressar a obra.

Pegou três das grandes. Pôs lado a lado para fazer a base. Só com isso sua construção já ficou grande. Ele atrás, entre as caixas e a prateleira, parecia entrincheirado. Pegou das pequenas e começou a fazer Torres e ameias. A trincheira virava uma fortaleza com ares de castelo.

Crianças são gente. Parece óbvio, mas às vezes nos esquecemos disso e pensamos nelas quase como seres angelicais. E ela não apenas são gente, são a mais invejosa das gentes. Tão logo viram que o colega tinha uma brincadeira inédita, alguns já foram largando seus brinquedos e tentando pegar-lhe as caixas e brincar com elas em seu lugar.

Ele defendeu sua fortaleza. A princípio, tentando pegar para a si a caixa que via que outra criança tentava pegar. Depois, movendo os muros para que dentro deles não pudesse entrar mais ninguém. Tentou ignorar quem estava de fora sitiando-o. Eram já três ou quatro. Bem mais que ele.

Foi quando começaram a pegar as caixas que ele já havia assentado na construção e mudá-las de posição à sua revelia, que ele em seu íntimo, indignado, percebeu a derrota iminente. Notou que não conseguiria ignorar a maioria. O cerco era real e efetivo. A derrubada, inevitável. A derrota, iminente.

Tomou então uma resolução. Absoluta, suprema. Fez o que qualquer soberano em sua posição, faria. O que todos esses fizeram nessa mesma situação por toda a história. Levantou-se, cabeça erguida. Parecia mais alto que os muros que construiu. Ignorou se havia ou não mais alguém em seus domínios. Derrubou, ele mesmos, os muros do castelo, e lançou-se com unhas e dentes, sobretudo unhas, sobre os inimigos.

Seu reino estava perdido para sempre. Já o estava, antes mesmo do início da luta, ele bem sabia. Mas um orgulhoso monarca não o entregaria assim, sem arrancar o máximo possível de dor dos agressores.

Penugens

Ela voltou do chuveiro, de camisola. Ele acha feio, estranho, mulher usar esses roupões de motel. Da primeira vez que saíram juntos, quando ela ia para o banho, deu-lhe uma camisola. Um presentinho que, como disse, não tinha a ver com o que fizeram, mas com a elegância que ele tanto admirava nela. O tecido é fino. Ele acha que é seda, mas não entende disso. Ela dobra bonitinho, fica um rolinho pequeno, do tamanho daquele canudo de papelão de dentro do rolo do papel higiênico. Ela então se acostumou a carregá-la assim, dentro da bolsa.

Ele estava de cuecas, jogado na cama. Levantou-se para tomar uma ducha também. Logo que pisou fora da cama, fez-lhe um carinho no rosto, ali na curva da mandíbula, junto do queixo. Usou isso como apoio para chegar-lhe a cabeça para si e beijar-lhe a testa. Foi de improviso. O beijo acabou saindo na franja. Mas ela gostou mais ainda. Gosta das coisas imperfeitas. São mais sinceras, expontâneas. Por isso mesmo, mais verdadeiras. Sorri.

Ele fica um pouco triste. Este ritual da hora de ir embora sempre o deixa triste. Às vezes pensa se vale a pena. Entra no box de cuecas. Acha feio as pessoas andarem peladas depois do sexo, as coisas balançando. Parece-lhe agressivo. Como se, depois d terem-se visto nus, não se devessem mais respeito. Uma coisa é a nudez na hora do clima. Outra é depois, quando a gente está cansada e não se preocupa mais em esconder as pelancas. Parece-lhe só agressivo.

Ele pendura as cuecas na borda da porta do box, ela deixou a água aberta, mais fria do que morna, como sabe que ele gosta. Põe xampu na cabeça, mais do que precisa. Vai acabar usando o excesso desse xampu para lavar o corpo. Ela percebe que ele se esqueceu da toalha e pendura uma ao lado das cuecas. Bobo, ele abre os olhos para ver o que é. O xampu machuca-os. Ele demora muito para enxaguar. Se enxuga, não por inteiro. Gosta de sair pingando do banho. Veste as mesmas cuecas, se enrola na toalha e sai do box pensando que também gosta quando ela sai do banho pingando. Se excita com os cabelos dela pingando e as gotas escorrendo por seu pescoço e colo. Imagina-lhe a pele fresca e aquela risadinha que acompanha o sorriso quando ele a abraça para se refrescar nela.

Ela gosta de o ajudar a vestir a camiseta. Pegou esse gosto vendo-lhe a cara de feliz ao vesti-la a camisa. Ele gosta de vestir-lhe a camisa. Segurar-lhe a camisa como o garçon faz com o paletó ao fim da refeição. Beijar-lhe de leve o ombro. Um beijo que ela vai levar consigo, ele imagina com carinho, pois ele o guarda cobrindo com o ombro da camisa. Depois abotoa por ela, vendo seu corpo sumir aos pouquinhos a cada botão fechado. Depois disso, deixa-a terminar sozinha.

Quando procura as próprias calças e meias, ele não consegue segurar um comentário despeitado, ela o há-de perdoar: “Ele é moleque.” Fazia tempo que não se referia a ele. Sabe que ela não gosta, que se sente desconfortável. Não há coisa certa para se responder a um comentário desses. Ela entende, mas desta vez não gosta. Ele estragou o momento com esse ataque que, sabe, não adianta em nada.

Ela reage sem pensar. Não sabe se se sentiu ofendida também ou se só o quer provocar. “Você um dia também já foi moleque.”

Demorou dizer isso. Ele então já estava se penteando e passando desodorante com a necessaire em cima da pia. Arrependeu-se. Dói-lhe que ela o defenda. É uma dor diferente, do estômago vazio. É um gosto amargo que lhe sobe do estômago para a língua. Ele vê, dentro da necessaire aberta, o rastelo da gilete. Fica triste porque não se conforma de ela não ter alguém que lhe trate como merece. De, por isso, eles estarem ali. “Isso não tem a ver com idade. Um dia ele vai ter a minha e ainda assim, de manhã, quando olhar no espelho para fazer a barba, só terá penugens para raspar. É isso também não tem a ver com barba.”

Ele falou e ela ouviu quieta. Já sabiam que ele tinha estragado o dia é que voltariam em silêncio.

So and So

Um cineminha mais-ou-menos, como diria a própria protagonista do filme. Na volta para casa, trânsito. Um caminho mal escolhido. E eu sempre me pergunto, nessas ocasiões, se foi realmente uma má escolha ou se eu não queria mesmo uma desculpa para me demorar olhando o caminho, a paisagem. Não havia paisagem. Ruas feias, prédios feios, zona decadente, zona mesmo. Eu voltando e a molecada descendo a rua, muitos com garrafas na mão, ou outros, quase todos, com copos descartáveis. Vinho vagabundérrimo, refrigerante cítrico misturado com pinga, ou mesmo álcool, drinks a base de açúcar, catuaba, álcool e nem eles mesmos imaginam o que mais. Garotas bonitas passando, garotos, há garotas feias também. Passa um casal, ambos muito bonitos. Junto a eles, a amiga, não tão bonita, segura um copo de bebida ligeiramente esverdeada. Andam com pressa os dois à frente, o casal. Ela, apressa o passo a lhes acompanhar. Percebe-se que não queria correr. Atrapalha-se a beber. Provavelmente bebê para esquecer que não é tão bonita quanto os amigos e conseguir se enturmar com os desconhecidos como eles se enturmariam se não estivessem em casal. Talvez para sair de lá em casal. Outra garota passa, também não é das mais bonitas, sozinha, fantasiada de capeta. Deve ser um modo de sinalizar aos homens. “Ei, eu não sou comportada. Sou uma capeta. Venham em mim. Vocês sabem o que eu quero.” Ilusão dela. As outras também querem isso e, muitas delas, são mais bonitas. E nem precisam de fantasia de capeta. Eu vou só subindo a rua, avanço cinco metros e paro, mais cinco e paro, me divertindo em imaginar o que se passa com cada um. De alguns, tenho inveja, de outros, invento alguma desculpa esfarrapada, desfaço. Eles vão procurar companhia. Eu volto para dormir.