Isto é amarelo. Já foi gema de ovo. Aqui, é azul. Era pedra. Deu trabalho para moer. Este vermelho, era inseto. E este, além de inseto, terra. Estes verdes eram plantas. O marrom, terra. Óbvio. Este cinza sempre foi cinza. É cinza de madeira queimada. O outro ali também. O preto, eu não sei de onde saiu.

Alguém, e eu imagino que não deva ter sido uma pessoa só, teve idéia de colocá-los em potinhos e usar para pintar. Chamam-nos tintas. E agora podem ser um pôr-do-sol, uma flor ou o mar. Ou tudo isso junto mais um casal de crianças deitado na areia brincando de adivinhar as formas das nuvens.

Neblina

Então, é disso que eu me lembro, da neblina. Eu estava com frio e era noite. Estranho sentir frio em um sonho, eu acho, mas eu sentia. Eu ia bem devagar, com medo de fazer uma besteira. Não dava para enxergar nada. De quando em quando, via uma luz, farol ou freio, à minha frente. A luz estava acesa, me ensinaram fazer isso para me verem melhor. Tinha música no rádio. Um rock alto é zoado que tentava fazer mais barulho que o ar condicionado do carro. Acho que eu estava acompanhado mas eu não sei. Não olhei à minha direita, nem para trás. Eu só olhava para a frente, tenso, com muita atenção, debruçado sobre o volante, e para o retrovisor à minha esquerda, esse era inútil porque estava todo escuro. Eu tinha sono, estava cansado. Não, não sei para onde ia. Não faço ideia. Mas eu acho neblina uma coisa tão linda!

A Carne é Fraca

O menino não gostava de comer carne. Criança em geral não gosta, tem preguiça de mastigar. As mães também não ajudam: amassam a comida para ficar mais fácil de mastigar, ensinam a molhar o pão no leite, picam as frutas. Depois da invenção do liquidificador, então… Se fôssemos roedores, nossos dentes sairiam da boca, tão pouco os usamos na infância.

“Eu não tenho fome.”

“Não tem quinze minutos, você me pediu bolo, dizendo que estava morrendo de fome.”

O menino fica sem resposta por um tempo. Não muito, a julgar pelo pouco que come, praticamente só arroz e feijão.

“Posso comer só o arroz e o feijão?”

“Não, mas se quiser pode comer só a carne e a salada.”

A salada ele também não quer.

“Mas eu não gosto de carne. Eu quero nuggets. Ou salsicha.”

“Não me interessam as porcarias que teus colegas comem. Você vai comer a carne… como pessoas normais comem.”

A mãe já dá sinais de que vai perder a paciência.

“Está duro.”

“Me deixa ver.”

A mãe corta um pedaço da carne do menino e ela mesma come.

“Não está, não. Pode comer.”

“Tem sangue.”

“Isso é molho.”

“Está crua.”

Está na hora de perder a paciência. Sabe lá o que é correr a manhã toda com as coisas para fazer e ainda ter que insistir para o fedelho comer?

“Está cozida, muito bem cozida. E você vai comer e me falar que esta uma delicia.”

O menino se assusta com o tom da voz dela. Ela também. Ele, falso, ameaça chorar.

“Mas está vermelha, parece viva.”

A mãe recupera a calma.

“Você vai comer essa carne de qualquer jeito. Não vou brigar com você. Mas você só sai daí depois de comer. Nem que chegue a hora do jantar e eu coloque o teu aí por cima do almoço no mesmo prato.”

O menino chocado olha a comida com medo até ter um lapso de engenhosidade. Vai apelar às suas gracinhas de criança que a mãe acha engraçadas, julga serem inocência. Isso sempre o livra das piores.

“Olha, mãe. Olha como esta crua ainda. Está viva.” — espeta a carne com o garfo — “Muuuuuuuuuuuu”.

“Mu? Essa carne é de porco.”

Gracejo de Alegoria

Eu não sabia o que fazer. Sozinho, nem tinha a quem perguntar. A menos que pegasse o telefone, coisa que eu não faria. Não tem cabimento ligar a essas horas para contar história, pedir conselho.

Abri a porta grande de vidro que dá para a varanda e fui lá fora me debruçar no muro, tomar ar fresco, olhar a paisagem. Talvez um dos carros na avenida, os faróis eram as únicas coisas que eu via no escuro da noite, ou um pedestre pelo condomínio, talvez um deles me desse a solução ou um bom conselho do tipo: “Dorme. É noite e antes de dormir não há o que você possa fazer.” Mas, não sei porque, eu não tinha sono.

O sereno sempre me diverte e demorou um tempo para que eu me lembrasse de motivo de ter saído a ele. Quando me lembrei, tentei relaxar um pouco o corpo e senti as juntas doloridas. Virei-me de costas pra rua e me escorei com a bunda na parede. Pela porta de vidro aberta olhei para o apartamento.

Vi o relógio, sem querer. Sou desses antigos que acham que toda casa deve ter um relógio na parede. Três e pouquinho. Tarde para sair, cedo para voltar. Sobre o balcão, a caixa de charutos que o amigo me deu em comemoração tentava. São charutos grandes. Sozinho não tem graça. Charuto é como vinho, precisa da conversa. Charutos e mulheres são como vinho.

Esse pensamento leva meus olhos para os nichos sobre o balcão. As garrafas de vinho guardadas. Vinho, além da conversa, precisa de tempo e calma para ser apreciado. Vinho não aceita pressa. Há de ser degustado. A pressa embebeda sem sabor. Vinho não é para deixar bêbado, é para ser saboreado. Charutos também precisam desse tempo. Mulheres sobretudo, mais que os dois. Casais precisam de tempo oportuno para se aproveitarem com calma.

Na estante, uma garrafa de destilado. Está ali de enfeite, foi presente. Não gosto mas é oportuno. Vou no escorredor de pratos, na cozinha. Só tenho copos de refrigerante. Não me parecem apropriados. Pego a caneca onde bebo chá. Rio soltando um palavrão. Como se a caneca fosse mais apropriada. Pego só meio dedo de bebida e volto para a varanda.

Mas me sento, na cadeira, caneca na mesa, segura entre as duas mãos, como se fosse chá quente a esquentá-las. Olho, por cima da mureta de vidro, a noite movimentada da cidade, que não vejo, escondida pelas árvores e pelo escuro. Mas imagino mil histórias que possam estar acontecendo em cada canto, embaladas pelo sereno e pelo barulho dos carros e da noite. Imagino histórias de silêncio também, de sons furtivos, escapados. E fico feliz por suas personagens.

A bebida fica intocada. Quando me lembro da caneca, é porque um pequeno movimento dentro dela me acorda do pensamento. Um barulhinho de cumplicidade lá dentro. Puxo-a para olhar. Não há nenhum líquido. Duvido mesmo que o coloquei lá. Já tenho certeza de que não. Ao invés dele, dois pardaizinhos batem os bicos e saem voando em rodeio, um em torno do outro, de mãos dadas.

Borbulhas

Fazer chá gelado não tem segredo. Só precisa do chá quente bem forte e gelo. A água esquenta na chaleira elétrica, sempre tem água quente em casa. Pego três saquinhos de café, english breakfast. Pego aquele cronômetro em forma de ovo e ponho para marcar três minutos. Mais que isso é o chá fica com gosto de couve cozida.

Enquanto isso, vou na sala e coloco um filme na televisão. Na verdade é uma seqüência que eu montei com vários trechos musicados de filmes. Não quero prestar atenção no enredo, só ouvir música e recordar algumas imagens.

É o tempo da campainha do cronômetro tocar. Jogo os saquinhos de chá na cuba da pia, para eles não escorrerem no lixo. Completo o copo grande com bastante gelo e duas raspas de casca de limão. Foi o chá ou a música ou um filme, lembrei-me de alguma coisa.

Nesse momento, um um arco-íris, ou nuvens, ou borboletas, desceu do céu e mergulhou no meu copo, como bolhas de sabão, feitas de beijos e borbulhou, alegre, o amargo de meu chá.

Sentei-me no tamborete da bancada da cozinha americana, pelo lado da sala. Sentado de lado, costas para a parede, cozinha à esquerda, sala à direita. O cheiro que do chá quente ainda perfuma o ar e dá saudades de momentos só imaginados. Esperei o gelo derreter um pouco. Olhando aquele castanho-avermelhado bem escuro e pensando na vida.

Sessão Dupla

Eu cheguei cedo ao cinema, muito cedo. Oito e pouco. Estranho falar isso eu, que já já tão acostumado fui a cinema à tarde. Quando eu era jovem, pegava sempre a sessão das quatro, no máximo a das cinco. Têm menos molecada para fazer barulho. Eles não gostam das sessões que começam mais cedo. Dizem que é matinê, coisa de criança. Por isso vão às da noite.

Eu me lembro de uma conversa com uma menina que trabalhou comigo. Ela disse que cinema de dia é coisa de criança. Eu perguntei em que sessão ela costuma ir. “À noite, claro.” Minha resposta deve ter sido cruel: “Vê? É à noite que criança vai.”, mas ela, pega de surpresa, ficou sem resposta, acho que até um pouco triste em seu orgulho em ser chamada de criança. Não falei para magoar, mas acho que ela entendeu a relatividade desses conceitos.

Neste cinema aqui, o horário não é problema. Os filmes que passam não têm apelo para a molecada. O lugar não chega a ser metido a besta. Não muito. Mas foca naquele público que gosta de filmes diferentes, menos clichês. Quem vem aqui, quase sempre, quer assistir em paz, quieto, prestar atenção. Eu digo “quase sempre” porque sempre tem um casal ou duas amigas, normalmente de idade, que resolve conversar sobre o filme durante o filme. Explicar um para o outro que entendeu algo subentendido, que os filhos iriam gostar desse lugar que aparece nessa cena, que a atriz é muito boa e que estava maravilhosa naquele outro filme, que a música de fundo é aquela… Aprendi a não reclamar. Essas conversas não duram muito. Logo se cansam e assistem quietos, abraçados os casais.

Aqui tem poucas sala, só quatro, pequenas. As pessoas que vêm são mais ou menos as mesmas sempre. Também sempre mais ou menos nos mesmos horários. Vir ao cinema é uma rotina. Então os filmes ficam pouco tempo em cartaz. As estréias têm sessões à noite, pré-estréias à meia-noite, e os filmes que já estão em cartaz, vão passando para as sessões mais cedo. Assim todo mundo tem chance de assistir no horário em que está acostumado a ir ao cinema.

Há tanto tempo eu não vinha ao cinema que podia escolher qualquer um, todos eram novidade. Ainda tinha tempo para jantar, para tomar café, sentar e escrever sobre a noite. Dava tempo para tudo, tudo. Até para ver dois filmes, mas isso atrapalhava o jantar.

Eu estava com saudades daqui. Não deste cinema, que é relativamente novo, tem menos de dez anos. Saudades dos sábados por aqui. Podia pegar os dois filmes mesmo e deixar a comida para depois. Comer alguma coisa depois, ou entre eles, pão, vinho, croissants. Aqui mesmo tem. Dúvida cruel, eram muitas opções, tantos filmes que eu ainda não vi.

Eu já aprendi que tem uma placa no poste que segura a fita que orienta a fila, com os horários de todos os filmes. São uns quatro filmes diferente por dias em cada sala. Vai mais ou menos em seqüência, às vezes alguns se alternam. Um filme do Woody Allen estreou esta semana. Sua próxima sessão começa às nove. São uns quarenta minutos. Não gosto de jantar correndo. E quarenta minutos são pouco para jantar com calma. Mas dá tempo pro café.

E também dá pra pegar outra sessão depois. Pouco antes de meia-noite tem o filme do trailer que eu vi duas vezes nas semanas passadas e queria ver. A pré-estréia é hoje. Se assistir os dois, talvez não dê tempo de jantar no intervalo entre eles. Não dá pra saber direito quanto tempo vai ter entre as sessões.

Eu queria jantar aqui no cinema. O restaurante é bom. Uma salada e vinho. Mas vou ver o Woody Allen e, dependendo da duração, imagino que sobre de uma hora a uma hora e meia entre os dois, se der tempo, janto aqui ou me viro depois.

Compro ingresso. Hoje não tem lugar marcado. Os monitores das bilheterias, onde a gente escolhe as cadeiras, estão com defeito. Me esqueço de pedir o carimbo do estacionamento. Peço no próximo filme.

Eu ainda não comi nada hoje, nem o café da manhã. A barriga já está se lembrando de como é bom um pãozinho francês fresco com manteiga. Culpa do pipoqueiro que enche as pipocas de manteiga, o cheiro fica no ar. Vou na galeria ao lado. Tem a Starbucks com beigale e chá. E, o melhor de tudo, não tem fila. Que maravilha! O frio que chegou de repente em São Paulo espantou a fila.

Beigale quentinho! Não é meu tipo de pão, mas está quentinho! Não sou muito fã destes pães com casca mole e fina, tipo pão de forma, mas a manteiga derrete. Ainda assim, vou comer um só. No cinema tem um balcão de padaria, delícia. Pão é delícia! Ao invés daquelas pipocas fedidas e refrigerante mal misturado e sem gás, eu vou levar um chá gelado daqui, o segundo, além do que bebo aqui mesmo, e pedir lá um pão, dos pequenos que já é maior que um pãozinho de padaria. Comer pão no cinema, isso foi uma grande invenção, sinal de que a humanidade é realmente capaz de evoluir. Queria café ou cappuccino, não posso. Estou com cafeína restrita até o fim do ano. Resultado de anos de abuso da substância, e olha que já faz algum tempo que comecei a trocar café por chá. Houve uma época em que tomava quase vinte por dia. Vai saber lá quantos litros isso dá. Com a troca pelo chá, troquei o vício. Um dia haverei de entendê-lo Algo deve haver de relaxante em segurar o copo da bebida e dar bicadas. Nesta vida de adulto, acho que a gente precisa disso, de café, e de relaxar. Não me lembro de tomar muito café quando eu era criança. Um toddy de manhã, um café no no lanche da tarde… só isso. Eu me lembro do café da madrinha. Ela punha tanto açúcar que não conseguia desmanchar tudo mexendo com a colherinha. Ficava um depósito no fundo do copo. Isso porque, mania de pobre, ela já derretia açúcar direto no bule com a água quente. Ainda assim, dizia que o açúcar de hoje, o de então, anos oitenta, não adoçava nada. A cara que ela fazia quando bebia meu café sem açúcar era exatamente a mesma que eu fazia quando bebia o café hiper-sacarosado dela.

Das últimas vezes que vim ao cinema, tive problemas, vontade de ir ao banheiro no meio da sessão. Odeio isso, – tem tanta coisa que eu odeio – mas interromper o filme é das piores. Eu devia ter pedido só o beigale e esperado em cima do horário da sessão para pedir o chá. Bebia ele todo, quentinho, dentro da sala. Como já pedi, melhor levar este. Vai amornar, mas é melhor beber morno na sala, durante o filme, do que já entrar de bexiga cheia. Burro eu, burro, burro!

Nem preciso enrolar, comendo com calma, terminei o beigale já na hora. Desci para o saguão do cinema. E de lá para o banheiro. Que a bexiga não me aprontasse durante este filme. Fiquei preocupado, ela estava vazia, não tinha muito o que despejar ainda. Espero que não tenha chuva no filme então. Rio, besteira tanta preocupação com isso.

Logo ao lado da porta da sala, está o balcão dos pães. Idéia maravilhosa! Vender pão fresco no cinema em vez daquelas porcarias de pipoca. Além do portuga que vos escreve ser apaixonado por pão fresco, cinema é um lugar tradicional para se ir em casal, namorar. Pipoca atrapalha. Aquela porcaria fedida e com as cascas que grudam nos dentes atrapalha além de dar azia. Deve ser gostoso sentar de casal no cinema e dividir um pão e um daqueles copos gigantes de cappuccino. Minha versão de programa romântico. O pão de hoje será só meu. Há uns dez tipos diferentes. Posso escolher o que quiser. Preto e integral não, gosto do normal. Nenhum pão aqui se chama normal, mas tem um com levedura. Puseram o nome em francês, uma palavra que eu nunca vi. Desculpa, não sei como se diz isso. É um pão que se parece com o normal, mas diz na legenda que a fermentação é natural. Quero um desses, do pequeno. Outra coisa legal de pão no cinema é que é barato e vai bem com café ou chá. Absurdos os preços que cobram para o casal ficar com os dentes cheios de casquinhas de milho de pipoca, sem falar do bafo, e beber o refrigerante sem gás que ainda assim faz arrotarem.

Por quanta gente havia no saguão esperando a sala abrir, achei que lotaria. Sem lugar marcado, por causa do defeito na bilheteria, entraram todos correndo, ávidos pelos melhores lugares. Para mim, isso não importa tanto. Eu gosto de me sentar nas filas mais da frente. Sentei-me na terceira ou quarta fila, na cadeira mais próxima ao corredor. Não estava nem perto de lotar. A ocupação da sala não devia chegar a um quinto. O lugar que eu escolhi não tinha nenhum casal por perto. Pendurei a bolsa no encosto da cadeira em frente à minha, tirei o som do telefone, dei um jeito de encaixar nela o pacote do pão. As luzes logo se apagaram. Tirei os sapatos e as meias.

Imediatamente chegou um grupo para se sentar na fila atrás da minha. Não couberam todos e uma menina me pediu licença para passar e para as cadeiras entre a minha e a parede. Era estreito, tive de me levantar, descalço. Ela parece que não queria que eu me levantasse. Não conseguiu esconder a pressa, a luz já estava apagada, os trailers iam começar. Logo que me levantei, passou rápido para se sentar e pisou na beirada de meu pé. Assustada, pediu desculpas. Eu disse que não era nada. E não era mesmo, pisou de leve, como se estivesse descalça também, mal senti.

Começou o trailer, passou um só. Foi um que eu já tinha visto duas vezes, de um filme que eu vi que tinha sessão pouco depois deste e que eu quero assistir também. Das outras duas vezes, não prestei atenção, agora sim. Eu gosto dessa atriz, só faz filmes bons. Realmente, das outras vezes eu não devo ter prestado atenção, devia. Parece que o trailer conta todo o filme. História de adultério arrependido com clima de todos ficam felizes no final. Não estou a fim disso. Hoje eu quero um filme romântico ou uma comédia. Ainda bem que eu não cheguei a comprar o ingresso para ele. Na saída vou olhar de novo os horários e ver se tem algo melhor.

Antes do filme começar, ainda chegaram mais três pessoas daquele grupo. Três garotas, Pediram licença mas não esperaram que eu me levantasse. Só consegui puxar os tênis pra baixo da cadeira, para elas não tropeçarem. Passaram apertadas, quase sentadas em meu colo. Passaram devagar, com os tornozelos esfregando em meus pés descalços. Era muito apertado para evitar. Imaginei que elas pudessem se assustar, pensar que fosse um bicho correndo pelo chão. Elas não pareceram perceber ou se incomodar.

Quando se sentaram vi que eram a namorada da garota que havia chegado primeiro e mais um casal de amigas. Ficaram assim, ao todos uns dez, divididos em duas fileiras. Eu, na ponta, junto ao corredor, da fileira de baixo.

Já tem um tempo que comecei a escrever isso. Vocês haverão de me desculpar isso também, esqueci-me qual era o filme. Não então, no cinema sabia o que assistia. Mas agora, não me lembro. Não me lembro de muito da sessão, apenas de, a certo ponto, uma risada, a bem dizer, umas dez gargalhada terem me incomodado. Eram os amigos, sentados à minha esquerda, riam de galhofa sem olhar a tela. Me incomodou. Logo de cara me incomodou o barulho que fizeram. Não me lembro do que era, mas não era uma parte do filme para se dar risada, ou era e eu não achei graça. Eu os olhei e eles me olharam e ficaram quietos. Isso me incomodou mais. Procurei se eu fazia algo que pudesse levá-los à risada, que fosse motivo para rirem de mim.

Daí a pouco, já não me lembro mais do que aconteceu no entretempo, ríram de novo. E, de novo, só eu não achava graça. Olhei feio para eles. Pleonasmo, eu só sei olhar feio. Não encontrei a galhofa que faziam, mas desta vez havia gargalhadas do outro da sala também. Tinha alguma coisa na cena, alguma coisa antiga, uma fita cassete, eu acho. Eles, novos, talvez nunca tenham visto uma antes ou estejam rindo mesmo por não serem tão jovens e já terem visto uma.

Eu não me lembro do filme, mas aí pensei nele, pensei nas personagens. Pensei se não era eu o errado, se não teria motivo para dar as mesmas gargalhadas. Me esqueci também dos amigos que riam, nem sei se riram mais. Distraí-me.

O filme foi bom, não exatamente o que eu queria, mas bom. Quando acabou, eu corri para a bilheteria comprar ingresso para o próximo. Já desse não gostei. Não era o que pensei. Fiquei frustrado e cansado. Na saída, já é domingo. Ainda vou sair à procura do que falta para completar a noite de sábado.

(genérico de) Sessão da Tarde (mas é quarta-feira à noite)

É engraçado perceber que não são muitos os temas que nos deixam felizes. Cada um tem sua meia dúzia. Percebo qual a minha meia dúzia quando me sento para escrever. Na verdade, é quando percebo que são meia dúzia, ou oito, ou dez, não muito mais que isso. Por isso eu tanto repito temas. Pode causar enfado a quem lê, mas hei de ser perdoado. Somos assim, gostamos de retornar ao que nos apraz. Às vezes, e muitas são as vezes, eu mesmo me irrito com as repetições. Mas elas são inevitáveis.

Agora, por exemplo, estou escrevendo uma história sobre cinema, dessas que parecem página de diário. Já postei outras do tipo, várias outras. Estou demorando para escrevê-la porque o tempo anda corrido, eu ando correndo o tempo. Comecei a escrevê-la final de agosto, o primeiro rascunho, na verdade menos que um esboço. Só agora estou próximo ao final, e não são mais que duas mil palavras, coisa curta.

Ainda assim, acabo de sair do cinema, é a época da Mostra Internacional de São Paulo, e, já lá dentro, duas coisas incríveis aconteceram que eu não consigo deixar de anotar para escrever mais uma ou duas histórias. Prefiro que sejam duas, para separar bem os motivos.

A primeira foi entrar numa sala de cinema onde eu achei nunca ter entrado antes e reconhecer uma sala antiga muito saudosa minha e que eu julgava demolida, mas que pelo visto foi conservada e reformada, e reaberta com outro nome, com entrada por outro lado. Não pude evitar as selfies e andar por ela feito bobo, reconhecendo detalhes, muitos detalhes, conservados do original. Está ainda quase tudo lá. Eu ainda vou esboçar, rascunhar e escrever.

A segunda foi assistir um filme que me surpreendeu pela simplicidade, pela despretensão, por repetir-se como eu. Um filme que talvez, noutra época, não tivesse me agradado, que talvez encaixasse bem na Sessão da Tarde. Eos que gostam da Sessão da Tarde irão protestar aqui. Mas que me fez sorrir várias vezes, e quase chorar uma ou duas. Me fez pegar meu caderno e anotar umas quatro páginas de frases para pesquisar depois, o nome do livro em que foi baseado, as musicas. E eu torci para o final que era óbvio, mas que em certo momento temi frustrar-se.

Preciso comprar o livro, ler, rabiscar e anotar.

Ainda vou escrever sobre isso também. Acho que até com mais carinho. Mas, por enquanto, vou só ficar aqui, sentado, tomando meu chá e pensando que às vezes é só disso que a gente precisa pra ser feliz: uma história de Sessão da Tarde.

Eu encontrei um lugar onde facas podem ser fadas
Problemas podem ser borboletas
Banheiro pode ser dinheiro
E até a lama pode ser cama

É o corretor ortográfico……

Farruca

Dizem que o sujeito achou que a mulher o estava traindo. De vez em quando, ao acordar, reparava em alguma coisa estranha na casa. Uma vez foi poeira, terra, nos sapatos dela. Noutra, a terra estava numa pegada no banheiro. A chuva, do lado de fora, não podia ter entrado sozinha. Houve ainda a vez em que achou o vestido dela úmido – de chuva? – no varal, logo pela manhã. Fogosa que ela era, de certo não se dava por satisfeita só com ele. Concluiu que a mulher se aproveitava de seu sono pesado para sair à noite. Para onde? Sair escondida… só podia ser para coisa errada. E à noite… Não convinha perguntar-lhe. A alarmaria e ela mudaria o comportamento. Ele precisava agüentar acordado e segui-la.

Tentou algumas noites, por semanas. Em algumas, conseguiu. Chegou a virar noites acordado. Noites em que viu a mulher dormir tranqüila e pesado. Noutras, caiu no sono depois de muita espera. Mas, as noites em que teve certeza, em seu interior e nas evidências que procurou, pelas roupas dela e pela casa… essas noites foram aquelas em que dormiu feito pedra, sem nem se lembrar em que ponto da noite caiu no sono ou como. Será que ela o drogava? Desconfiou mesmo. Algo na comida, em sua bebida.

Simulou uma doença misteriosa que lhe tirava a fome a noite. Que lhe endrojava o estômago por causa de qualquer copo de água à noite. Doença que lhe atacava também aos fins de semana. A mulher ralhou. Que ele desfazia de seus cuidados, de sua comida. Que comia no trabalho, então, só podia ser algo com ela. Que devia estar-lhe fazendo isso porque tinha outra. Ele resistiu e sustentou por semanas a doença de mentira. Ainda assim, nas poucas noites, duas ou três no mês, em que não agüentou e dormiu pesado à noite inteira, nessas noites pegou no sono logo que apagou a luz… foi nessas que teve certeza. A mulher, de algum jeito, o punha para dormir e saia à gandaia.

Resolveu de visitar a mãe. Mãe também é mulher e sabem e, Deus me perdoe porque falo das mães e da minha também, fazem as coisas que mulheres fazem.

Fez algum rodeio para explicar-lhe. Não tanto pela vergonha de achar-se corno, mas, sobretudo, pela de dar o braço a torcer à mãe que nunca aprovou-lhe o casamento. Antes de procurá-la chegou mesmo a achar que procurava pêlos em cascas de ovos, influenciado pela opinião da mãe sobre sua esposa. Opinião que só foi verbalizada duas vezes. Quando ela percebeu que ele estava visitando com muita frequência a casa da jovem vizinha viúva. E quando ele disse que iam se casar. Tirando essas vezes, nunca se teve expressões mais que as involuntárias de mãe contrariada.

Logo que o filho começou a falar, a mãe disse que não era gente de se meter em assuntos de casal. Que ele resolvesse em casa. Ele teve de insistir e de se explicar muito para convencê-la a dar um conselho ou responder tecnicamente uma pergunta. Ela aconselhou-o. Que devia ter suspeitado antes de casar. Que agora respeitasse sua mulher e conversasse com ela a sós em casa sobre os problemas.

Mas também respondeu tecnicamente à pergunta. Que não era médica para saber de remédios, mas que mulher não procura médico se quer fazer algo de errado, pôr o marido a dormir para fazer algo de errado. Mulher procuraria outra mulher, uma bruxa, talvez a própria farruca.

Ele se benzeu ao ouvir falar da assombração com que a mão que punha medo à infância. Era ensinado a não brincar com ela. A farruca odeia homens. Usa-os para matar seu desejo animal. Seu inútil desejo animal. Amaldiçoada por Deus, seca do ventre, não pode ter filhos. Deseja os homens e seu sexo. Consome-os, desesperada, tentando ser mãe. A mãe é mulher, não se impressiona com a história. Mas que não vá o filho atrás da bruxa porque ela não é de dar papo a homem. Certamente algum mal lhe fará.

Ele voltou para casa ainda mais curioso. Pelo caminho, já bolou um plano. Precisava de uma mulher, não a mãe, muito menos a esposa, que conhecesse uma bruxa para perguntar-lhe o feitiço para por homem a dormir. Assim, saberia como defender-se dele. Não tinha amizades com mulheres. Muito menos saliências. Sua mulher lhe bastava, se não exatamente como amiga, certamente como amante. Foi assim que se apaixonou.

Pensando bem, é melhor mesmo que não seja a uma amiga que pedirá isso. Percebe que seria uma vergonha se um conhecido soubesse que ele se acha corno e outra muito pior se descobrir que não é. Pediria isso a uma desconhecida? Uma mulher desconhecida? Uma com quem não tivesse convívio. Lembra-se então das prostitutas. Cobram para serem mulheres dos homens. É disso que precisa, de uma mulher de aluguel, profissional. Uma transação comercial. Paga-lhe o serviço de ser mulher, não de ser mulher numa cama para ele, de ser mulher de procurar uma bruxa, e mais o de guardar o segredo.

Na cidade tem zona, todos sabem onde. Até ele, embora nunca a tenha freqüentado. No dia seguinte, na volta do trabalho, arruma uma desculpa esfarrapada para demorar e vai lá. Realmente não é um lugar agradável a quem não está acostumado. A começar pela cara dos clientes, principalmente dos clientes que estão acostumados. O lugar todo parece um grande cortiço. Ele nunca entendeu como podem, homens que têm suas casas bem-cuidadas, mulheres arrumadas, virem ali procurar mulheres mal-ajambradas nessa bagunça de arrumação mal-feita e decoração velha e descuidada. Sempre achou que o que procurassem talvez fosse mesmo a esculhambação, o poderem se-ter onde possam bagunçar à vontade sem que lhes gritem uma bronca: “Eu tinha acabado de arrumar!”, “Eu passei a tarde toda limpando isso!” Passou por várias portas, vários cortiços e salões, antes de criar coragem de escolher uma. A que escolheu, não foi tanto pela aparência ou outro critério técnico. Não. Foi por ser a primeira em que, ao passar pela porta, achou que ninguém ao redor lhe olhava ou reparava. Entrou naquela por achar que finalmente passava despercebido. Tolo, não sabe que ali todos constantemente tanto chamam a atenção quanto passam despercebidos.

O lugar, por dentro, parecia a casa de uma senhora pobre. E devia ser mesmo. Pintura velha desbotada, móveis antigos, também velhos e de panos desbotados, fotos na parede, preto-e-brancas, desbotadas, cortinas rotas que, se não eram desbotadas, desbotavam a luz da lâmpada sem globo nem lustre pendurada no teto. Era uma sala, de estar, de receber visitas. Três mulheres novas estavam sentadas num sofá grande, de três lugares. Uma senhora num menor, de dois. Um homem, em pé ao lado da porta, de camisa branca, calças e sapatos pretos, roupa de missa, deu-lhe um benvindo e ficou calado olhando-o olhar a sala. A senhora foi quem lhe disse que ficasse à vontade e apontou com a mão toda, espalmada, o lugar entre as meninas. Uma delas estendeu-lhe a mão. Podia ser a mais feia ou a mais bonita, não faria diferença. Ele se sentiu exposto, em pé, à vista delas, e correu pegar-lhe a mão. Ela se levantou e tocou-lhe o ombro para que ele entendesse por onde ir. Ele foi por um corredor e, antes de sair da sala, foi que se lembrou de que talvez não trouxesse dinheiro suficiente para os honorários dos serviços habituais dela. Não perguntou quanto era devido. Se ela lhe cobrasse mais do que trazia, teria problemas com o homem de roupa de missa.

O quarto onde entraram cheirava a arroz frio e umidade. Teve nojo da combinação que achou inusitada. Teve nojo da mulher. Nem precisava, estava decidido desde o começo a não fazer nada com ela. Não podia, para ter razão ao brigar com a própria mulher. Mas teve nojo até de ficar a seu alcance. Imaginou as sujeiras que poderia haver na cama, nela e nas paredes, e parou em pé. Melhor aviar logo o negócio:

“A moça me desculpa mas o serviço que eu vim lhe contratar é outro.” A moça em questão não estranhou. Na verdade, era cheia de clientes que lhe contratavam para “outros serviços”. Crê que a maioria deles mesmo. Isso é coisa já bem comentada. Que homens que procuram mulher da vida, procuram coisas que não pediriam à própria mulher. Ou a um homem. Ela não estranha, mas sabe que deve ter precaução. Pergunta o que é, sorrindo maliciosa, e a malícia não é a da mulher sedutora, mas a de quem vai pegar o outro com a boca na botija.

“Preciso saber como é o feitiço para pôr marido a dormir.” A moça se ofendeu, pensou que a tomasse por bruxa. Teve ele de lhe explicar que não era o caso, mas sim o que já sabemos. Que ele, por ser homem, não podia procurar pessoalmente a bruxa. Que ela, mulher, decerto saberia como encontrar uma e, fingindo interesse próprio, faria a consulta. E depois contaria a ele o segredo.

Ela logo percebeu o porquê de ele querer a informação. Não é boba. E é da vida. Assim como já ajudou muitos homens porem cornos às esposas, também já conheceu outros muitos que tinham eles mesmos os adornos. Mas o que ele pedia era algo muito delicado. Era como trair um código de ética feminino que, evidentemente, não existe mas, mesmo assim, pesa na consciência quebrá-lo. Além disso, convenhamos, ele não ia sair dali pedindo preço a todas as putas da zona. Se teve vergonha de procurar uma conhecida, alguma vergonha também teria de procurar uma segunda desconhecida. Pediu um preço que achou alto. Ele não achou, pensou que gastaria bem mais, estava disposto, mas, esperto, fingiu surpresa e prometeu pagar-lhe apenas daí uns dias, quando ela voltasse com a resposta. Ela pediu que voltasse daí a duas quintas-feiras, que trouxesse o dinheiro, e que pagasse agora o preço do programa pois a dona a cobraria.

Ele perguntou se não podia ser antes. Como não podia, e o preço que ela lhe cobrou pelo programa era bom, concordou e pagou. A moça ainda lhe recomendou que, se quisesse, se lavasse no banheiro do corredor. Caso quisesse dissimular não terem feito nada. Ela não quis. Ela também não estranhou, a maioria não se lava mesmo.

Em casa, ele ficou tenso essa noite. A mulher mesmo assim parece não ter desconfiado de onde ele foi. Esperou-o com um sorriso para o jantar. Jantaram juntos, depois de ele tomar banho, e deitaram-se juntos. E, antes de dormir, ela subiu nele e só rolou para o próprio travesseiro quando percebeu que ele, orgulho masculino vencido, deu-se por mais que exausto e não conseguia mais nenhum movimento ativo ou manifestação competente. Então beijou-lhe entre os olhos, como fazia sempre nesta hora, e imediatamente rolou para o próprio travesseiro e dormiu exausta, com a mão em seu peito, sorrindo, vaidosa por sua performance feminina. Ele, por outro lado, depois de ela desmontar, guardou o teto o resto na noite, acordado, espiando a culpa de ter ido a um lugar errado para fazer algo que não achava errado.

Os dias até daí duas quintas-feira seguiram como ele já estava acostumado. Algumas noites em claro ou quase, outras tantas mal-dormidas. A mulher deitada com ele, insuspeita, querendo-lhe o como como sempre, como se nada houvesse. Na noite em que dormiu muito bem, teve de novo certeza de que ela havia saído. Dessa vez, sem nenhum indício, sem pistas ou evidências, só a pulga atrás da orelha. E como lhe coçava essa pulga!

No dia combinado, a desculpa esfarrapada já estava na ponta da língua, voltou à casa daquela senhora na zona. Na sala, não encontrou a garota, estavam lá, além da senhora e do leão-de-chácara, duas outras. Perguntou por ela e a senhora lhe pediu que esperasse um pouco, estava com cliente, que se sentasse e ficasse à vontade. Ele se sentou, entre as duas garotas. Elas tentaram lhe abraçar, colocar a mão, mas perceberam não ser ele de dar asa fácil e respeitaram, para não criar problemas com a senhora e seu cliente. Tentaram puxar conversa, ele respondeu com frases curtas.

A casa ainda era a mesma e estava do mesmo jeito, mas ele já não tinha nojo, nem dela nem delas. O pensamento estava longe, ansioso, não tinha espaço para pensar em coisas assim de pouca importância. Talvez fosse a certeza se aproximando e acabando aos poucos com sua dignidade.

A garota chegou. Veio do quarto direto à sala sem passar pelo banheiro, onde entrou o cliente que estava com ela. Ela o reconheceu, já o esperava mesmo, e chamou-o com um aceno de mão e um sorriso da tia que chama a criança para comer doces. Já tem de novo aquele mesmo sorriso malicioso no rosto.

Entram no quarto. Ela se joga na cama. O mesmo sorriso. Arruma os peitos no decote imaginando se ele não vai, desta vez, sentir-se tentado ou injuriado demais e resolver aproveitar o que vai gastar e completar o programa. Ele nunca faria isso. Não com uma mulher que vai de um homem para outro sem passar pelo banheiro no caminho. Tudo há-de ter limites. Ela desiste. Suspeita que por isso mesmo ele seja corno. Como pode ser tão lerdo quando há uma mulher à sua frente pronta para que ele a monte?

“Fui à bruxa. Você não foi muito esperto. Ela achou estranho uma mulher do meu tipo perguntar-lhe tal feitiço.” E estranho era mesmo, ele percebeu. Por que uma mulher sem marido iria querer um feitiço feito para maridos? A princípio, tomou-a por ladra. Inquisição vai, inquisição vem. Não se deve mentir a uma bruxa. A garota confessou que a informação era pra outra pessoa. E depois, que era pra um homem. A bruxa não gostou. Se os homens soubessem esses segredos, aprendessem a se proteger deles, as bruxas perderiam sua função social.

“Ela saiu da casa, me deixou sozinha, não sei onde foi. Quando voltou, disse-me que, se você quiser mesmo saber algo de uma bruxa, que terá de ir lá, como homem, e falar de frente com uma.” As condições da bruxa contrariavam tudo que sua mãe lhe ensinou. A curiosidade não satisfeita dói mais que a dor da descoberta. Mulher sabe bem isso. Ele queria concordar, mas tinha medo.

Antes de se decidir, ela se lembrou de lhe falar em condições: “O trato é o seguinte. Você pergunta pra ele o que quer saber. Se estiver certo, ela faz com você o que ela quiser. Se estiver errado, tua mulher vai saber e vai fazer contigo o que quiser.” Ele estaria perdido em qualquer das duas situações. Mas, pensando bem, era justo. Estava perdido já. Ou pela certeza, ou pela desconfiança injusta. Aceitou.

“Segunda -feira à noite.” Ele concordou. Precisaria de uma boa desculpa. Mas não precisaria mais de desculpas depois disso.

Já para essa noite, não foi difícil esperar. Pelo contrário, conforme se aproximava, mais queria evitá-la. Duvidava do amanhecer e da existência do mundo na terça-feira. No domingo, não comeu, não foi à missa. Aproveitou na cama, com a mulher, o domingo que provavelmente seria seu último junto.

Na segunda-feira, chegando do trabalho, como sempre, tomou banho, jantou com a mulher, tomou um copo de vinho na soleira da porta, ao lado dela, olhando as árvores no morro ao longe. Mas, ao acabar o vinho, beijou-a sem sentimento e saiu seco, sem dar satisfação.

Chegou à zona já tarde. Na segunda-feira, era um bairro normal. Pobre, um bairro pobre normal. Vizinhos conversando, mulheres à janela. A casa da senhora estava fechada, duas luzes acesas nos quartos. Bateu à porta. O homem da roupa de missa veio atendê-lo, com a camiseta da roupa de baixo e calças velhas, descalço. Cumprimentou-o e sorriu feliz: “Sente-se, fique à vontade. Vou chamá-la”

Ela veio. Queria estar bonita, mas era o mais bonita que conseguia. Roupa parda discreta. Xale para proteger do frio. Maquiagem pouca. A roupa cobria e não realçava seu corpo castigado das noitadas. Saíram juntos. “Dá-me o braço.” Ele não era homem de andar de braço dado com uma prostituta, nem com mulher que não fosse a sua. “Entretanto, passou o fim-de-semana todo na cama com uma mulher que julga não ser só sua.” Sentindo-se vigiado, ele se espantou. Como ela sabia? Ela riu de como os homens são tolos e previsíveis: “É o que qualquer homem orgulhoso e desesperado faria.”

Para evitar os curiosos que estranhavam o casal lado a lado separado, por fim, deu-lhe o braço. Andando rápido, logo chegaram a uma espécie de chácara urbana. Era uma casa antiga no meio de um quintal muito grande. Ao lado da casa, um galpão de madeira do tipo que se usava para cavalos e ferramentas. As primeiras coisas em que ele reparou foram a iluminação e os cravos plantados, uma combinação linda. A moça levou-lhe pelo braço para o galpão.

Encontraram outras mulheres lá, todas jovens, quarenta e poucos, se tanto, as mais velhas. Bonitas, bem feitas de corpo. Embora muitas tivessem a mesma expressão maltratada da garota que o acompanhava, contrastavam muito com a ideia que se faz da bruxa velha, feia e acabada. Olharam-no com indiferença. Ele esperava hostilidade. Indiferença foi o desprezo que encontrou.

A garota deu-lhe uma cadeira, bem no centro, de costas para a porta. As outras ficaram não ao redor, mas à volta, encostadas nas paredes, sentadas no chão. Não se falavam, não se olhavam, nem a ele. Ela também se sentou no chão, junto à uma parede. Demoraram assim. Ele obedeceu o ritual que não lhe ensinaram e esperou quieto igual.

Deve ter demorado quase duas horas, a mulher mais próxima à porta anunciou: “A Farruca chegou, já vem.” Ele não conseguiu evitar o pavor que lhe tomou ao ouvir o nome. Não imaginou que, de tantas bruxas que devem existir no mundo, viria parar na roda da famosa pior de todas. Orgulhoso, tentou-se manter firme, imóvel, na cadeira. Só o que conseguiu foi que o pavor que não lhe saía dos olhos como choro o fizesse tremer como vara ao vento. Temeu molhar-se, o que seria humilhação demais. E, desesperado, não conseguiu segurar.

Como se esperasse por isso, imediatamente uma voz entrou pela porta na boca de uma mulher: “Quando der boa noite a seu marido, faze-o com um beijo na testa, entre os olhos, e, nos dias em que quiser que ele durma pesado, ao afastar o rosto, sopra-lhe os olhos, bem de leve. Precisa de tempo e pratica para dominar a leveza correta do sopro mas, depois, o sono dele é garantido até o sol nascer.”

O reconhecimento imediato da voz de sua mulher fez o choro escorrer mudou de seus olhos e esvaziar-lhe o pulmão, deixando-o paralizado. Virou-se para vê-la. O movimento que fez para virar a cabeça para trás travou no meio do caminho, os olhos continuaram. Giraram para o mundo girar em torno dele e ele cair tonto, com a cadeira, para trás. Suas vistas continuaram girando como a água descendo o ralo, até as meninas-dos-olhos virarem para dentro das órbitas, para dentro da cabeça e ele, com os olhos brancos, passasse o resto da vida vagando enxergando nada mais que a escuridão dentro de si mesmo.

Ele não chegou a vê-la, a voz não ouviu mais. Mas teve certeza, era sua mulher. Hoje vaga por aí, para sempre, louco. E quando conta a história da farruca, da mulher bruxa, não acreditam ou tomam-na por loucura sua. Essa é sua maior maldição, ser tomado por louco ou mentiroso.

Histórias de Trás-os-Montes

Eu sempre me lembro com muito carinho das histórias que minha avó contava de sua terra, Trás-os-Montes, “as montanhas do fundo”, diriam os brasileiros. Histórias do folclore português e também do dia-a-dia. Com minha avó aprendi que esses são coisas que se misturam. Sempre fui curioso por como as pessoas, ao contarem as histórias que lhes aconteceram, adaptam-nas aos preconceitos e morais-da-história que aprenderam.

Gostava de me lembrar de todas as lendas que ela me contou. Aliás, lendas não, ela tinha certeza de todas terem acontecido de verdade, daquele jeito mesmo, embora cada um as conte de um jeito.

Estou tentando recordá-las, em sua versão, e escrevê-las na minha. Escrevi sobre uma, há uns dias atrás e, está semana toda, tenho trabalhado em outra que, tento caprichar, está me levando tempo a publicar.

Dessas, e das próximas, espero que vocês gostem.