Crescente

Lua Crescente

Aos poucos aprendo. Esta foto mesmo, é minha primeira da lua. Nem era noite, ainda escurecia. Céu cinza, prateado, eu diria, se tivesse pretensão de me fingir poeta. Mas ela já estava alta.
Crescente. Minha preferida. Não sou como os lobisomens da literatura. Não uivo para a lua cheia.
Minha lua é esta. Que renasce, cresce, promete novidades.
Para lobisomem, não sirvo.
Mas, aprendendo, ainda vou fotografar muitas vezes essa lua e outras, cada vez melhor, se D’us quiser.

Um Capuccino e um Chocolate

Eu desliguei o telefone. Têm coisas que eu sabia que ia ouvir, mas não queria. Certas coisas, ninguém deveria ouvir. Guardei-o no bolso e andei. Acho que andei. Passos curtos, pés arrastados. Era um andar hibernante. Se olhasse a mim mesmo, provavelmente acharia patético. E era. Tinham o direito de achá-lo.
Andando de cabeça baixa, vendo meus pés e os dos outros. Surpreendo-me de não me ter distraído com ninguém. Normalmente disperso, atento a quem repara em mim. Não deveria ser assim, para gente normal. A mim, isso sempre incomoda. Nunca chamo a atenção por algum bom motivo. Mas, então, não me distrai, não reparei, ninguém. Só pensamentos, desordenados, melhor nem pensá-los, se é para serem assim. Acreditamos que o pensamento deve encadear alguma lógica, nos levar a conclusões, decisões. Aqueles não. Pensar assim não leva a nada. Acho que dei duas voltas no shopping, uma hora, mais ou menos. O shopping é pequeno.
Esqueci de procurar o que ia comprar. Na verdade, percebi, esqueci o que ia comprar.
Dei mais uma volta, procurando se me lembrava o que era. Passei pela loja de vinhos. Quis comprar uma garrafa. A televisão ligada de madrugada, os pés no pude, o tablet no colo. Vinho atrapalha a escrever, ou ajuda. Com vinho, é difícil ter idéias novas, mas as velhas que deviam ficar guardadas, cismam em sair. E o vinho engana bem como companhia. O sabor distrai. Se não tivesse álcool, seria perfeito, o companheiro para todas as horas. Vou deixar para comprar o vinho no final, não quero carregar nada pesado.
Na verdade mesmo, não fui ao shopping para comprar nada. Queria ver gente e talvez encontrar no rosto de alguém o mesmo que havia no meu e, nisso, não me sentir tão aberração, tão errado, como então. Precisava de evidência de que houvesse mais gente no mundo como eu.
Em frente à loja de vinhos, uma Starbucks. Café ruim, com gosto de queimado. Depois vou lá também, logo antes do vinho.
Ao lado, uma loja de roupas. Houve uma época em que gostava dessa marca. Acho que eram camisas que eu queria comprar. Ou não, mas queria comprar. Preciso, ando muito relaxado. Bom, trabalho só com gente relaxada. Isso contagia. Mas eu gostava de achar que tenho algum motivo para não relaxar. Das camisas da vitrine eu não gostei. Não têm nada a ver comigo, nem com o que quero pra mim.
Mais andar.
Tenho umas coisas guardadas que não queria mostrar a ninguém. Talvez não sejam asa de mais, talvez sejam demais. Dane-se. Vou publicar, não sou mais criança pra me preocupar com a reação da professora à minha redação.
Mais andar.
Vi canetas numa vitrine, uma que serve para desenhar no tablet e também como esferográfica. Tive uma idéia e a comprei. Já podia fingir que havia satisfeito o propósito mercantil da visita.
Acabou a volta.
Outra volta. O mesmo nada.
Fim do “passeio”. Tinha duas mesas do lado de fora da Starbucks, mais lugares nas poltronas dentro, e nenhuma fila no caixa. Isso é estranho. Parecia feito para mim, muito certinho. Hoje não estou a fim de tomar café andando, já andei demais. E pegar fila para tomar café ruim, nunca!
Entrei, fui ao caixa, me senti meio estranho, mas pedi como queria. Meu capuccino, o maior possível, com chocolate, e extremamente quente, tem que pedir assim para não vir morno, e um chocolate quente, tamanho normal, para fazer companhia ao meu capuccino.
Enquanto esperava o preparo das bebidas, um sujeito se sentou no sofá que estava completamente vazio. Havia muitos lugares ali, mas eu não queria sentar com ninguém. Mania. Idiossincrasia. Também só havia mais uma mesa do lado de fora. Tinha dois copos vazios, açúcar espalhado por toda a tábua, a vizinha ouvia som altíssimo nos fones, ao menos era rock. Limpei e sentei-me.
Pus os copos, o copinho do chocolate e o copão do capuccino, lado-a-lado. Tinham, ambos, o meu nome. Não tentei fazer diferente porque, sabe como são essas empresas americanas, não me entenderiam, não conseguiria, melhor não tentar. Já tinha pensado nisso alguns metros antes, na vitrine da caneta. Abri a embalagem da caneta e personalizei os copos a meu jeito. Um para mim, outro para minha desejada companhia.

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Fotografei, talvez servisse, mais tarde para ilustrar um post.
Escrever, para mim, sempre foi um desabafo. Me lembro de longas cartas, quase livros, que escrevi após decepções amorosas. Decepções, via de regra, comigo mesmo. Culpa minha, vacilão. Cartas que nunca foram postadas, mas que me serviram de travesseiro, lençol e colo, em momentos de dor, para depois serem esquecidas. Fico preocupado imaginando que alguma tenha chegado às mãos de minha mãe.
Hoje eu acho que não ia conseguir escrever, mas havia prometido. Ter prometido, não ajuda. Acho que não ia conseguir mesmo. Escrever, desabafar, não ia ajudar. Olho o que tenho anotado e nada me dá vontade de escrever.
As coisas que eu tinha guardadas e resolvi publicar, fariam as vezes. Livrariam minha cara na preguiça, já teve gente que me disse que sofrimento é preguiça, ou desanimo de hoje. Não eram para isso. Mas serviriam.
Tomei meu capuccino sem pressa nenhuma. Mesmo assim, não foi suficientemente devagar, ele acabou antes da hora. Antes que eu quisesse. Tentei tomar o chocolate para enrolar mais. Dei uma bicada. Nem era meu, nem gostei. Soube-me muito doce, talvez de açúcar, talvez do chantilly.
Suspirei uns dois minutos, arrumei os copos para o canto da mesa, minha sujeira. Para junto da outra sujeira, que não era minha, que eu havia já juntado.

Fui para a loja de vinhos. Costumo demorar. O atendimento também costuma ser demorado, cuidadoso. Escolhi rápido. Um bordeaux. Não conheço. Não entendo de vinho, apesar de ter ouvido atento a entrevista do especialista no rádio. Sei de algumas regras para escolher coisa decente e sei de alguns que eu gosto. Todos portugueses. Só entendo isso.
Peguei na prateleira. O vendedor logo veio. Fomos ao caixa. Paguei. Saí.
Fui para o carro e fui embora.

O fim-de-semana seria longo! Muito longo! Três noites e dois dias. Inteiros!

O bordeaux? Ele é saiu-me muito bom. Está muito saboroso mesmo!

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Interlúdio

Ele sai do banho, enrolado na toalha, não sei porquê. Logo que chega junto a cama, desenrola a toalha da cintura, a joga no meio da cama e se senta de frente pra ela, tudo aparecendo.

Ela está na frente da pia, já terminando de secar o cabelo. Olha fixa para o espelho, como se isso ajudasse a secar. Os olhos bem arregalados, segura uma piranha, aquelas de prender cabelo, com os dentes.

Eles se encontraram de sem planejar, na hora do almoço. Ele visitou um cliente perto do escritório dela, ligou perguntando se ela podia, e passou para encontrá-la. Faziam isso algumas vezes. Quando era assim, não almoçavam, mas o encontro lhes alimentava o espírito. Voltavam ao trabalho leves, relaxados. Sentiam-se queridos.

Ele, apressado, já está colocando os sapatos quando ela termina de arrumar o cabelo e o prende com a piranha.

“Deixa-me te ajudar com o vestido.”

“Não precisa.”

“Eu faço gosto.”

Via-se que fazia mesmo. Ajudava-a a abotoar as costas do vestido como se estivesse embalando o tesouro mais frágil e precioso. E devia estar. Olhava, não para os botões, para as costas dela. Seguia com os olhos a linha da cervical que logo cobriria com o vestido. Aquelas costas que ele gostava de alisar quando ela se deitava de bruços em seu colo.

Quando termina de abotoar, um suspiro diferente, estranho. Ela, ainda de costas, nem desconfia, senta-se na cama para calçar os sapatos.

Ele já está pronto, levanta-se e vai ao balcão vizinho à porta.

“Acho que temos que terminar.” Sua voz mostra tristeza, mas é de quem já se decidiu, não quer magoar, tampouco dar esperança.

Ela fica chocada. Estava já calçada quando a ficha caiu. Só conseguiu falar engasgada um “mas…” Ele socorre explicando.

“Eu gosto muito de você…”

Pega algo em cima do balcão. E termina de falar, com a voz já visivelmente embargada:

“… muito mais do que devia, desculpa.”

E sai, arrumando na mão o que pegou do balcão.

Zona

Zona. Odeio zona. Não, não é pelo lugar, nem pelas mulheres que trabalham lá. Muito pelo contrário. O problema são os homens que freqüentam. Não sei como alguém pode sujeitar sua auto-estima a pagar por sexo. É deprimente imagina se tornar um.

Nós passávamos por uma famosa no interior, meu amigo achou que me faria bem. “Você anda com essa cara de bosta. Precisa relaxar.” Como se relaxar emendasse minha cara. Na verdade, eu o conheço já há tempo suficiente, ele é um tipo raríssimo que não vai zona pagar por sexo. Ele paga sim. Mas vai para se divertir, beber, conversar com as garotas. Relaxar, como ele diz. Tem amizade com várias. Conversa com elas como irmão mais velho, dá conselho, explica como resolver problemas de banco, de mecânico, de saúde.

A gente passeava no carro, com os vidros fechados pra não se expor. O cara conhecia bem ali, figurinha carimbada, mas não era em qualquer rua que podia deixar o vidro aberto. “Aqui, as ruas se organizam pelo tipo da mina. Têm os quarteirões da bonitas, das feias, das velhas, das craqueiras, dos travestis. Você não pode abrir o vidro onde não for a tua praia. Pode ser perigoso ou, no mínimo dar esperança pra alguém que, se você não quiser, vai chamar o motoqueiro pra te pegar.” Realmente, cada rua tinha um motoqueiro pra cima e pra baixo. Cada um é dono do seu pedaço e faz a segurança ali.

Num cruzamento que chegava a um trecho de rua bem mais iluminado, ele abriu os vidros, o do meu lado também. “Aqui é que é o babado bom!” A cara série de quem até então explicava, agora estava iluminada com um sorriso de criança quando termina a lição e corre pra brincar na rua.

As outras ruas que passamos tinham gente que eu não imagino como possa viver de vender o corpo. Feias, feios, gente mal-cuidada com cara de doente. Isso que havia dado o ensejo para a explicação sobre a distribuição da população da zona.

O trecho iluminado depois do cruzamento era realmente diferente. As garotas ali tinham aparência normal, de gente próxima, com quem trabalhamos, estudamos, vizinhas. Passariam despercebidas em qualquer lugar. Nem todas eram bonitas, é claro. Algumas eram fenomenais, outras mais sem graça, Ali se parecia mais com a idéia que eu faço de uma zona. Percebia-se a segmentação pelos quarteirões. Em alguns, garagens de sobrados, com quebra-sol, serviam de bares onde as meninas faziam sinal para os pedestres entarem. Noutros, casas de classe média tinham a aparência de restaurantes, com hostress e estacionamento ao lado. Havia também alguns imóveis com cara de balada, sem meninas à vista por perto, apenas os seguranças. “São os privês. Os seguranças não deixam as meninas da rua chegar perto. Aí só entra com convite.”

A área bem iluminada devia ter uns oito, talvez dez quarteirões, levávamos muito tempo para passar por cada um. Atrapalhamos o trânsito. A cada grupo de garotas, meu colega parava, ou era parado. As garotas dos grupos seguintes já faziam festa quando reconheciam o carro dele.

E ele parava, cumprimentava uma por uma. Conhecia todas pelo nome, pedia pra apresentarem as recém-admitidas. Pedia update das conversas anteriores, follow up. Algumas ele beijava no rosto, parecia ser ele quem limitava a liberdade que cada uma podia ter. De vez em quanto uma perguntava “Rola hoje?” (rola de rolar, não a gíria pro órgão sexual). Ele era evasivo, me oferecia: “Hoje eu vim especialmente para trazer meu amigo para vocês.” Parecia ser o único modo de ela notarem que havia alguém com ele. “Então é com você que vai rolar?” Eu morri de vergonha na primeira. “Não, a gente veio só pra beber. Não vai rolar nada hoje, não.” Meu colega não podia perder a oportunidade de me fazer ridículo. “Ele não pode, ele está apaixonado.”

A vontade de mandá-lo às favas só não podia ser maior do que a admiração nas caras das garotas quando ele dizia isso. Invariavelmente, faziam cara embevecida, apaixonada mesmo, eu diria. Como se subitamente se apaixonassem por mim, por me suporem apaixonado por alguém. As mulheres que trabalham nisso parecem gostar disso. Vivem num mundo de transações, não de relacionamento. Talvez não acreditem, mas gostam de histórias de amor. São mulheres que vivem ouvindo cantadas, se acham muito,cobram por isso. Se são recusadas, gostam de acreditar que tenha sido por uma verdadeira história de amor.

Era um alivio o pequeno trecho entre um grupo e outro. Nesses segundos nenhuma garota ficava debruçada nas nossas janelas ouvindo ele tentar me animar. “Apaixonado?”

Ele ria. “Seu porra, a mina dando o maior mole e você mal olha pra ela.” Ele parecia ter dificuldade pra ver algumas coisas. “Mano, como assim? Você disse que a puta me deu mole!”

Ele se deu conta e riu muito. Me diverti com o ridículo. O riso parece ter acabado com o freio dele.

“Bicho, vou pegar pesado agora”

“Como assim?”

Ele chegou o carro junto de uma garota que parecia esperá-lo já, deu beijinho no rosto. “Meu amigo aqui está precisando desestressar. Você vai dar tudo pra ele, tá?” Minha cara deve ter sido impagável, eles riu muito. Também não deve ter sido a primeira vez que ele zoou alguém assim. E não ia fazer nada com ela, mas me diverti com a brincadeira dos dois.

Os outros carros passavam pelas meninas, quando paravam e abriam o vidro, chamavam uma, a conversa parecia séria.

Meu amigo passeava de vidro aberto como se fosse um garoto no pátio da escola. E elas gostavam disso, E o tratavam do mesmo jeito. Conversavam conosco com a mão sobre o braço, debruçadas no carro, mostravam as novas tatuagens.

O sujeito é mesmo muito bacana. Eu tenho inveja disso. A gente percebe o clima que ele gera. Não só ali.

Ele é do meu naipe. Aliás é pior ainda, mais gordo, pra lá de relaxado. Acho que mais feio e isso não é fácil. Eu sei o quanto sou feio. As pessoas parecem ter uma necessidade cruel de me fazer brincadeira com isso.

“Bicho, vamos tomar uma cerveja pra relaxar.”

Eu não gosto de cerveja, mas não vou ser o estraga-festa. Paramos quase em frente a uma casa que parecia um café dos jardins. Mesinhas no deck do quintal. Pegamos uma mesa dentro casa. Ser visto bebendo no deck do puteiro é difícil de explicar.

Ele é casado. Se separou uma vez, por alguns meses, depois voltou. Diz que foi depois de voltar com a mulher que começou a ir ali para espairecer quando está muito danado.

“São as únicas mulheres em quem se pode confiar. Não que aqui não tenha tranqueira, tem também aos montes, mas você logo vê quem são. As outras, ou te vêem como cliente ou como amigo, sabem que não rola nada. Então não precisar fazer média, cena. aprontar joguinho. E elas precisam de amigo. Por que amizade de mulher já é rara e de homem, na zona, é mais ainda. Elas não dependem de homem delas pra nada aqui. Nem pra dar. Só o que é difícil pra elas é achar alguém que as trate com respeito e dê atenção.”

E ele fazia isso mesmo. Era dali as meninas que ligavam pra ele no almoço pra jogar conversa fora, contar da faculdade, da operação do pai, perguntar se ele tinha chegado bem em casa, se a família estava bem. Pediam conselho. O conselho agora era para mim.

“Cara, tem mulher nessa história.”

“Não, não tem.” Eu estava quase indignado. Minha meia-verdade até que era convincente.

“Seu porra, você está mentindo.” Ele me xinga assim quando acha que eu estou mentindo.

“Não estou.” Já não foi uma meia-verdade tão convincente.

“Cara, está cheio de mulheres maravilhosas aqui e você nem considera. É claro que tem mulher nessa história.”

“Mano, não tem mulher nenhuma, os problemas são os de sempre. Você já sabe deles.”

“Já sei. Mas pra você ficar com essa cara algo tem. Bicho, você do nada faz cara de choro.”

“Ah, mano, é que às vezes você já está meio chatedo, aí acontece alguma coisa, de repente até uma coisa boa, que te deixa, ainda por cima, pensativo.”

“Acontece o quê? Mulher?”

“Não, caramba!”

“Homem?”

“Filho-da-puta, claro que não.”

Rimos.

“Se não tem mulher nessa história, tem um monte aqui, pode escolher.”

Mais risadas. A minha já é de quem está de saco cheio de enrolar.

“Mano, você me conhece, você sabe que o problema não é esse. Se fosse isso, eu aceitava o convite. A gente já falou antes, você sabe que pra mim não funciona assim. Não é bem isso.”

Ele me atirou uma bolinha de guardanapos que estava amassando na mão.

“Então fala o que é, sua bicha! Fica aí com coisa de que não é mulher, mas agora já diz que não funciona assim, não é bem isso. Vai desembucha.”

“Sei lá, eu não sei explicar. O problema não é pegar. É sei lá, poder rolar algo legal com alguém, ficar bem, me dar bem, ter carinho…”

Me interrompeu: “Quer um abraço?”

Rimos, acho que ele não sabia direito o que falar, ficamos conversando algumas besteiras. Lembrei da história e da conversa. Ele notou vontade de chorar. Ficou danado:

“Vai se foder, você é o maior veado que eu conheço. Fica com esse papo de rolar algo legal, de se dar bem, carinho. Mano, quer carinho? Chupa! Todo mundo é teu amigo, você é amigo de todo mundo, tirando de quem te odeia kkkkkkk. Você é o maior legal, gente fina, gente boa. Todo mundo te respeita e é legal com você também. Vai se foder, maluco!”

Ficou me olhando, deve ser alguma técnica. Fiquei envergonhado, me achando infantil mesmo.

“Mano, você sabe que não é disso que eu estou falando. É diferente…”

Me interrompeu de novo: “O quê que é diferente?”

Ele fica me olhando esperando o efeito do interrogatório e eu pensando no que dizer.

“Sabe aquelas coisas que eu escrevo?”

Riu: “Não, você sabe que eu não leio.”

Ri também: “Ainda bem que você não sabe ler… kkkkk”

E logo, sério, encabulado: “Mas você sabe que o que tem lá… aquelas coisas que eu escrevo… elas são meio… como eu queria que fosse a minha vida.” Ficou difícil, mas segurei o choro. “E têm umas coisas. Por exemplo, você pergunta se é mulher. Nem tem como ser mulher. Eu faço amigas, converso, trato bem, como faço com os amigos homens também. Mas, se acontece de uma amiga… de eu achar que me dou muito bem e a gente tem alguma afinidade, que ela gostou de algo em mim. Nem é questão de ter mulher. É antes disso. É conhecer, passear, chamar pro cinema, ficar conversando de madrugada na padaria até amanhecer pra voltar pra casa, fazer essas coisas que são legais de fazer pra conhecer a mulher, antes de os amigos poderem achar que tem mulher na história. Conhecer os defeitos, ver se vale a pena. Poder ligar pra visitar de madrugada quando estou triste, em vez de te ligar e você me trazer aqui, é ficar sentado no sofá com a cabeça no colo dela, chorando enquanto ela me faz carinho. Que que eu posso oferecer? Que relacionamento? Não tem mulher na história porque eu nem o direito de tentar tenho.”

Acho que a resposta dele quis dizer que ele entendeu: “Bicha!”

Depois de um tempo sem jeito por causa das minhas lágrimas, passou a mão pelo meu ombro, apertou para me chacoalhar.

“Ah, vai se foder!”, reclamei tirando o ombro.

“Eu sabia, sua bicha!”

E depois de uma bicada no copo: “Cara, eu tenho muita inveja de você ser assim.”

Limpando o rosto, mando se foder de novo.

Inveja

Eu nunca fui de ter ciúmes.

Não sei se sou suficentemente seguro, e talvez o seja mesmo, ou arrogante, e mais certamente o sou. Nunca desconfiei ou tentei encontrar mal-feito de namorada. Confiei em todas, ou simplesmente, com algumas, não me importei o bastante para me preocupar com isso.

Meu defeito não é o ciúme, é a inveja. É um defeito que parece compreensível em quem não tem a beleza que eu não tenho. Invejar quem é bonito e tem facilidade com as mulheres parece ser óbvio. Mas não é dessa inveja que falo. É aquela da dor de cotovelo. Inveja não de quem é como eu gostaria. Mas de quem tem quem eu quero. Isso dói. Se apegar a alguém e simplesmente estar de braços atados porque alguém chegou primeiro.

É o tipo de dor, que não dói pelo corpo. Ela alfineta a cabeça, te deixa acordado, parece dar febre. Faz imaginar besteiras e se condoer de si mesmo. E isso é o que mais dói.

Será que isso é que são ciúmes?

 

Greve de Sonegação

Bom, como não sai nada neste FDS e eu prometi escrever, só me resta publicar os arquivos secretos.
Não vale ler correndo rs

Sonho Recorrente

On an island in the darkness nothing is familiar.
Tell me are you frightened on your own? Do you have the will? The will to carry on?

— Tony Banks, An Island in the Darkness

A Praia, a Serra e a Noite

Venho tendo um sonho recorrente. Quanto contar sobre ele, você pode achar que é um pesadelo. Sonhos recorrentes normalmente são pesadelos. Eu também, na primeira vez, achei que fosse. Mas não é. É um sonho bom, muito, daqueles que, acordado, consciente, tentaríamos imitar.

Nele, estou numa praia, deserta, à noite. O sol já se escondeu atrás da serra. Olho para ela, a serra, neste escuro é só um paredão negro, total. Impossível distingüi-la do próprio céu noturno. No escuro, deveria haver mistério, temor, perigo. Mas não há. Neste escuro, eu sei que não há nada além do vazio. Nada que me possa ameaçar. Isso é assustador, solitário, mas não amedronta.

Já na areia, onde também estou sozinho e só percebo que o chão é claro, não que o veja, só o percebo, tenho uma apreensão. Desta praia não encontro saída, não há como encontrar uma se não enxergo. Aconteça-me algo, como me fujo? Como me salvo? Não há salva-vidas. Não há aves, nem mesmo os urubus.

Piso na areia, sinto-a, sinto meus pés se afundarem e ela fina, fofa, limpa, marcar-lhes o contorno que eu não vejo. Ela está quente, ou morna. A noite não está quente. O vento, que não vejo pois ele não tem o que balançar, vai se tornando cada vez mais frio. Logo estará gelado. Como sobreviver ao frio? Cubro-me de areia? Esse vento não arrasta a areia, não arrasta a água. Parece que se destina só a mim.

Não me cobrirei de areia, não me vou enterrar antes de morrer. É morrer por antes da hora. Quem se entrega antes da hora, é maldito por toda a eternidade.

Há a água. Também não se vê. Escura, reflete a noite. É a noite concreta que se oferece ao tato. Mas nela também percebe-se algo. Ondas. Percebem-se as cristas das ondas, mesmo sem luz, mais claras que a noite. Não que as veja para saber que lá estão, mas sei que estão, são os riscos mais claros da noite da água. Aproximam-se da areia.

Tão negro é o sonho, que minhas pupilas demoram muito para se acostumarem à falta de luz e, quando se acostumam, é ainda praticamente só a noite que vêem. Mas já distinguo, tanto tempo aqui em pé, o contorno da serra, só o contorno, alto, recortado como dentes de fera. Ainda assim, não basta para me ameaçar a ponto de dar medo. Também vejo os limites móveis da areia e da água, e, das ondas, as mais espumosas. O fim da areia, ao pé da montanha, não há como distinguir, talvez não exista. Além desses elementos geográficos, não há realmente nada na praia. Vivalma, planta ou pedra solta.

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Para que eu enxergue este pouco, alguma luz deve haver. A lua? Está escondida. A lua é a única luz possível ali. Onde estará? Imagino, muito longe da praia, onde deve ser o horizonte e olho. Alguma luz, fraquíssima, num formato estranho existe lá, longe. Tenho que olhar muito para chegar a um acordo comigo mesmo quanto ao que seja. É a lua, só pode ser. Mas por que está tão diferente de como a conheço? Com muita observação suspeito: há algo que a esconde. Uma ilha? Uma ilha está entre a minha praia, cada vez vais gelada, e a linda lua? A lua é sempre linda! Mesmo quando triste. Ainda mais para quem está sozinho, perdido, à noite no escuro gelado de uma praia deserta.

Não há tantas escolhas possíveis. Ficar preso à praia, rezando para o vento frio não me levar e para o dia me mostrar uma saída. Saída para onde? Para outra praia como esta? E, se não houver saída, a mesma noite vazia me encontrará amanhã, e depois, e depois… Ou lançar-me ao mar atrás da ilha. Lutar contra a água, que deve estar gelada, muito mais que o vento. Aprender a nadar, não sei, nunca soube. Lutar contra o medo. Medo de quê? De não conseguir? De tentar? De conseguir? Se, numa possibilidade remota, alcançar a ilha, perder-me-hei, sabe-se lá quantas vezes, em seu relevo para descobrir o que há nela.

Uma sereia? Histórias não faltam de cruéis sereias que acenam a inocentes marinheiros, como se existisse marinheiro inocente, com a oferta de conforto para, seduzidos eles, elas se divertirem com seus esforços em se aproximar e, por fim, decepcioná-lo, afogando-o de prazer no mar gelado. Triste fim! Não acredito em sereias, respeito-as mas não acredito. Aprendi a respeitar aquilo em que não acredito, sereias inclusive. Acredito em ilhas. Acredito na lua, que não vejo, encoberta pela ilha. Por que ela não se move no céu? Não aparece? Mas nela acredito. Da ilha, de algum lugar da ilha, a verei.

Não me dispo, salto vestido. Embora, não tenha essa consciência, estou num sonho. As roupas não embargam o nado que eu não sei. Não sei nadar. Ainda não sei. Meu corpo tem dificuldade em se sustentar, os braços e pernas em deslocar água. Seria um esforço inglório, patético, se não houvesse aquela esperança no lugar comum, no horizonte. Na borda do mundo, eu despencarei ou serei resgatado pela ilha.

Tento nadar, tento aprender a nadar, a sobreviver e conseguir. Não há exaustão física num sonho, mas o sentimento de impotência castiga e insiste para que eu desista. Ele não tem como conseguir. Somos já só o que resta do mundo real, e do imaginário também, minha ilha e eu. A lua é outro mundo. A praia ficou para trás. Não há volta, não há onde se acomodar.

Nado a noite toda, sem habilidade ou jeito, aprendendo, em direção a ela para enfim acordar antes de alcançá-la.

Tento me convencer de que é ilusão. Não consigo. Ainda então, acordado, minha ilha sabe-me mais real que a vida. Esse sabor inalcançado resiste o dia todo, mais vivo que a vida.

Na noite seguinte, inevitavelmente, o sonho se repete. Agora já chego um pouco, muito pouco, mais perto. E, no seguinte, mais um pouco. E no seguinte, outro pouco. Nesse pouco-a-pouco, nesse constante tentar, me aproximo.

Já não se trata de um sonho recorrente, é um sonho único, o de alcançar e, então, descobrir minha ilha.

Tony Banks - An Island in the Darkness

Metáfora

Tanto se usa as metáforas de que escrever é viver e de que ler é viver. E eu sempre as desprezei. Lugar comum de quem vive de vender livros, ou de ensinar a lê-los.
Mas agora que escrevo aqui e leio comentários, e faço questão de não deixar nenhum sem uma resposta, por mais final ou retórico que ele pareça… só agora, vivo algo que me excita a ponto de julgar que, até então, não estive vivo. Não fui.
Me admiro. Me pego considerando se escrever histórias é mais especial que simplesmente contá-las. Se é mais especial que criá-las. De certo, há algo aqui que não experimentei antes e que faz esta experiência única, irresistível, viciante.
Passo a entender o fascínio dos novos pela interação digital, anônima dos chats, das redes sociais e de tantas coisas que minha geração considera criancice e aberrações do tempo.
Realmente, algo há aqui extremamente apaixonante e novo para mim. E me recuso a acreditar que seja o teclado, ou o meio.
Lamento que não exista um blog ou chat telepático. Lamento não viver este mundo o tempo todo, por mais que tente, foge-me ao controle.
Não quero me conformar com acreditar em metáforas.
Quero viver, finalmente, este mundo que só alegria me traz. Quero conhecer isso, isso que me dá vida, e viver o dia inteiro!

Bandeira da Áustria

Não sou dos malucos por bandeiras, mas acho curiosa a simbologia contida nelas.
Os lusitanos tinham simplesmente um pano branco com um dragão desenhado no meio. Os galegos, têm também bandeira branca com uma cruz celeste em “X”, o cálice (a Galícia, Calícia, é a terra do Cálice Sagrado) no centro da cruz. Os portugueses, quando se desligaram da Galícia, mudaram cruz para a posição tradicional (em cruz) e trocaram o cálice pelo escudo das quinas.
Mas a mais antiga e cuja história acho mais interessante é a da Áustria.
Conta-se, e creio que não seja só lenda, que um comandante, rei, príncipe, ou coisa-que-os-valha, ferido em batalha, arrancou sua roupa branca, toda manchada de sangue. Só uma faixa no meio dela estava ainda branca, sem sangue. Pendurou-a numa lança e, segurando-a para o alto, marchou sobre o inimigo à frente de seus soldados na batalha seguinte, para que seu sangue servisse de exemplo.